> coleção = decolonização e psicanálise <.> volume = psicanálise e amefricanidade: pensar a transmissão e a subversão a partir de lélia gonzalez <
> coleção = decolonização e psicanálise <.> volume = psicanálise e amefricanidade: pensar a transmissão e a subversão a partir de lélia gonzalez <
© n-1 edições + psilacs, 2025 isbn 978-65-6119-068-8
Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada.
> n-1 edições <
> coordenação editorial <.> peter pál pelbert · ricardo muniz fernandes <
> gestão editorial <.> gabriel de godoy <
> direção de arte <.> ricardo muniz fernandes <
> assistência editorial <.> inês mendonça <
> ilustração na capa <.> sonia gomes <
> projeto gráfico e diagramação <.> luan freitas <
> psilacs <
> coordenação da coleção decolonização e psicanálise <.> andréa guerra <
> preparação <.> fernanda mello <
> revisão técnica da obra <.> herivelto souza · raoni jardim <
> apoio técnico <.> melina de lima · priscilla santos · andréa guerra <
> realização <.> núcleo psilacs · instituto memorial lélia gonzalez · rede lélia gonzalez de pesquisa e formação <
A reprodução parcial sem fins lucrativos deste livro, para uso privado ou coletivo, em qualquer meio, está autorizada, desde que citada a fonte. Se for necessária a reprodução na íntegra, solicita-se entrar em contato com os editores.
1ª edição | São Paulo | Setembro, 2025 | n-1edicoes.org
08 > apresentação <
18 > prefácio <
> memória, história e resistências: para a crítica do branqueamento <
24 > 1. “daqui pra lá eu não vejo nada” - a ofuscante luz negra produtora de mundos: lélia gonzalez em uma conferência de cláudio ulpiano (1988) <.> raoni machado jardim • anderson santos <
54 > 2. aspectos simbólicos da exclusão de classe, raça e gênero <.> susana de castro • renata renovato martins <
68 > 3. lélia gonzalez: uma intelectual amefricana ladina... ou melhor, nossa griotte <.> eliane monteiro <
> metapsicologia e amefricanidade <
84 > 4. macunaíma - nomeando o pai <.>herivelto p. souza • taynara rodrigues <
100 > 5. amefricanidade e inconsciente: avanços interseccionais de lélia gonzalez <.> fábio santos bispo • renally xavier • dayanna monteiro salomão <
116 > 6. um olhar sobre a diferença: perspectivas e entraves acerca da categoria amefricanidade <.> adrian castro • guilbert araújo <
> a clínica da neurose cultural brasileira: efeitos subjetivos de uma denegação estruturante <
142 > 7. regrifar o texto psicanalítico: uma proposta a partir de lélia gonzalez <.> andréa máris campos guerra <
164 > 8. da mãe preta ao sujeito branco: questões sobre a brancura, a ideologia do branqueamento e a supremacia branca a partir de lélia gonzalez <.> ismael leonardi salaberry <
184 > 9. lélia gonzalez e gilberto freyre: aportes clínicos para uma psicanálise brasileira <.> mayara pinho de carvalho <
> psicanálise e o feminismo afro-latino-americano: torções e subversões do laço social <
202 > 10. corpo-morada de mulheres negras: revisitando o conceito de lélia gonzalez sobre o racismo como a neurose cultural brasileira <.> ana luísa coelho moreira <
218 > 11. das canções de ninar a herança intergeracional: a mãe preta como rede de sustentação da sociedade brasileira - <.> adriana soares sampaio <
234 > 12. axé em lélia: a sujeita mulata e a prática da palavra como defesa e cura das ferida coloniais <.> raísa inocêncio <
> psicanálise, culturas populares e saberes tradicionais: encruzilhadas da cura <
250 > 13. coirmandade: algumas lições das escolas de samba para a psicanálise <.> fernanda canavêz • josé geraldo soares damico <
276 > 14. o negro e o drama de édipo: por uma psicanálise periférica> joão sales • kleber salomão <
298 > 15. el mar es historia. artivismos, memorias y reparación en el horizonte político de la amefricanidade de lélia gonzalez: aline motta y rosana paulino <.> karina a. bidaseca <
312 > posfácio <
apresentação <.>
Estudar Lélia é um constante exercício de aprendizado e implicação sobre aspectos fundamentais, nem sempre evidentes, que nos regem nessa nação profundamente comprometida pelo e com o racismo.
Em sua leitura rigorosa e original da história e dos efeitos das opressões nos sujeitos, nos damos conta do recalcamento racial profundo sobre o qual se ergue o ordenamento social, incluindo os processos de produção de conhecimento em seu interior. Se a conformação e transmissão psicanalítica não teriam como fugir desse processo, tampouco se reduzem a ele.
Em um de seus textos mais proeminentes, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Lélia toma a psicanálise (em especial aquela de matriz lacaniana) como lente para um olhar sócio-histórico que revela as articulações entre raça, classe e gênero em uma contemporaneidade brasileira na qual o cenário colonial segue vigente. Nesse texto, o campo ganha extensão e intenção ímpares, habitando a sua (im)permanente morada, feita do barro de seu devir.
Os limites paradigmáticos que o capitalismo nos impõe vêm demandando conhecimentos mais comprometidos com o enfrentamento das suas desigualdades fundantes do que com a manutenção de postulados e revisões teóricas descoladas das urgências sociais. Ao não se conformar à simples aplicação universalista de uma teoria já estabelecida, Lélia trabalha elementos da metapsicologia para pensar a cultura brasileira e produzir desalienação frente às instituições e ideologias de dominação e assimetria entre os sujeitos.
Nesse texto, a “mãe-preta” assume um inaudito protagonismo no esquema edipiano – aliás, ela nomeia o pai, e ele não é branco. Essa postulação, eminentemente comprometida com a luta feminista e antirracista, é fundamentada por um diagnóstico: a neurose cultural brasileira dramaticamente concreta e reatualizada em cada período histórico nas múltiplas formas que o racismo toma. Lélia também potencializa o entendimento lacaniano sobre a intrínseca relação entre linguagem, política e inconsciente, seja na descrição do funcionamento do pretuguês ou no entendimento da memória como resistência a uma consciência colonial.
Vamos nos dando conta que essas e outras torções teóricas que Lélia promove acontecem na exata medida em que apontam uma direção de tratamento das relações de poder: um horizonte revolucionário onde a raça não mais sirva como sustentáculo ontológico a escansões hierárquicas. Um devir amefricano é a revolução porvir.
A força dessas formulações, dentre outras que Lélia propõe ao longo de sua obra, produz um efeito de implicação imediata sobre a nossa localização nas estruturas sociais, nos fluxos políticos, da linguagem, dos desejos e afetos e na naturalização de uma ordem social racista e sexista que busca tomar-se como a realidade, como a condição de vida, operando a morte como método e o recalque das culturas africanas e indígenas como habitus
O compromisso de Lélia não é com psicanálise (única e permanente), e sim com o tratamento do que está denegado no ethos cultural brasileiro, e que se manifesta sintomaticamente em formas recorrentes e absurdas de violência e produção de sofrimento, especialmente para as mulheres negras. Nada mais ético, do ponto de vista psicanalítico!
A expansão do ensino superior e sua democratização racial via política de cotas; a presença de psicanalistas nos serviços de saúde; as clínicas públicas e uma pluralidade de trajetos formativos mais acessíveis e com outros marcos teóricos e formas de construir o conhecimento e a transmissão; as discussões que se avolumam sobre os territórios e a produção do comum; a saúde mental e seus atravessamentos sociopolíticos; o desejado diálogo com os saberes tradicionais, impedidos de se consolidarem nos espaços de saber formal; as revisões teóricas à luz de raça, gênero e classe; tudo isso vem levantando questões sobre as fronteiras e sobretudo aberturas para a prática psicanalítica nos diversos contextos em que ocorre.
Uma formação que se centra na dimensão intrapsíquica, operando a cisão entre as dinâmicas subjetivas e os elementos sócio-históricos de cada conformação cultural, bem como o seu direcionamento para uma clínica reduzida a consultórios privados, parecem não mais saciar os anseios de parte significativa das novas gerações de psicanalistas. As escolas mais ortodoxas entram em estado de alerta e variam entre ações pontuais de revisão crítica do seu próprio elitismo/racismo (com algumas ações valorosas de cotas, bolsas e convites a membros de coletivos de clínica pública, periféricos, de borda, etc) e a manutenção defensiva do que consideram ser o rigor de seus respectivos ‘pais’, de forma a seguir garantindo algum tipo de monopólio sobre o saber clínico. Parecem se abrir aos movimentos insurgentes da psicanálise
na justa medida em que tal abertura não prejudique o cerne do privilégio de seus membros cativos. A indagação sobre os limites que configuram essa prática ecoa entre a teoria estabelecida e suas aplicações nos diversos contextos, que muitas vezes a tensionam ao limite de sua subversão. Se por um lado parece evidente que o encastelamento da psicanálise, ao contrário de sua preservação, levará ao seu sufocamento pela privação do oxigênio mundano do seu tempo histórico, por outro lado, não basta a oposição às escolas estabelecidas para que novos trajetos formativos ganhem a devida consistência que esse ofício demanda.
Diante desse caminho, Lélia é um farol de luz negra, um desnudar das vestes eurocentradas de escrita e um banho de renovação criativa que articula história, condições estruturais, a conformação cultural e ideológica de um dado território e as dinâmicas subjetivas. Sua escrita alia erudição e espirituosidade, análise histórica e fala em primeira pessoa, rigor teórico e originalidade, e auxilia a conceber a formação para uma escuta clínica ampliada, interdisciplinar, crítica e implicada eticamente com o enfrentamento das heranças coloniais. Nesse percurso, busca-se a superação da falsa dicotomia entre posicionamentos políticos ativos e a neutralidade clínica, erroneamente confundida com a técnica de abstenção diante do sentido próprio ao que é narrado a cada sessão.
Mas se temos retomado a sua obra e ela nos implica e nos convoca ao enfrentamento das injustiças raciais, de gênero e de classe, devemos nos perguntar – e aqui privilegiando o campo psicanalítico: o que faremos com o legado das torções teóricas propostas por Lélia? Como seria conceber a leitura das dinâmicas subjetivas a partir, por exemplo, da centralidade mítica da mãe-preta? Que revelações o pretuguês traria para compreensão da dinâmica do inconsciente no cotidiano brasileiro? E o uso duplo que a resistência ganha, como parte do mecanismo de defesa ao recalcado inconsciente e, simultaneamente, como memória que resiste a uma determinada consciência eurocentrada? Como o horizonte revolucionário amefricano poderia se relacionar aos processos de manejo clínico singulares dos analisandos, seja em trabalhos individuais ou em grupo? Quais efeitos essas ideias podem imprimir sobre as práticas clínicas contemporâneas? E ainda: quais outras subversões teóricas poderíamos realizar diante dos eurocentrismos na teoria psicanalítica – e do que no seu interior compactua com o racismo nos dias de hoje?
Provocados por essas e outras questões é que iniciamos uma conversa para a realização de um encontro que pudesse extrair consequências da obra de Lélia Gonzalez nos fazeres psicanalíticos, em seus contextos clínicos e formativos.
A conversa iniciada em um café nos arredores da Universidade de Brasília foi ganhando corpo no contato com outros núcleos universitários pelo país e também com coletivos de psicanálise pública. Assim, em 2022, surgiu o I Colóquio A Psicanálise em interseccionalidade – O inconsciente é interseccional? Psicanálise e crítica social a partir de Lélia Gonzalez, que logo foi ganhando forma no diálogo entre alguns espaços acadêmicos: Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (Psopol/USP), Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Política (Latesfip-Cerrado/UnB), Laboratório de Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo (Psilacs/UFMG) e Departamento de Filosofia da UFPE. As mesas ocorreram em formato híbrido em Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Recife. No caso de São Paulo, o encontro teve uma mesa composta por membros de coletivos de psicanálise pública: Praça Roosevelt, Perifanálise, Rede para Escutas Marginais e Coletivo de Mulheres Olga Benário.
Os temas e dinâmicas de cada mesa em cada uma das capitais, assim como o trabalho de produção, foram construídos coletivamente, entre os núcleos e no interior de cada um deles. Os convidados trataram temas vinculados às dimensões filosóficas e psicanalíticas do pensamento de Lélia Gonzalez, a sua pertinência para a formação psicanalítica nos territórios e as políticas de raça. Após os intensos dias do Colóquio, as pessoas presentes no grupo virtual que fizemos para esse primeiro encontro seguiram em contato, dando início ao que posteriormente nomeamos como Rede de Pesquisa e Formação Lélia Gonzalez: bases para uma psicanálise contracolonial. No ano seguinte, fizemos o II Colóquio Psicanálise e amefricanidade – As formações do inconsciente racializado: Lélia Gonzalez e o horizonte político da amefricanidade. Nessa ocasião tivemos a adesão do um núcleo acadêmico de Buenos Aires (UNSAM), do projeto Travessia Clínica (sediado no Sedes Sapentiae/SP), dos coletivos paulistas Psicanálise Periférica e Casa de Marias, coletivo Pontes da Psicanálise (Recife), e também do Instituto Memorial Lélia Gonzalez (IMELG), protagonizado por membros da família de Lélia e colaboradores. Dessa vez as mesas voltaram a ocorrer em Brasília (amefricanidade e políticas da subjetivação), São Paulo (a relação entre universidades e coletivos: interpelações mútuas), Recife (as formações do inconsciente racializado – Lélia Gonzalez e o horizonte político da amefricanidade), com a novidade do núcleo Buenos Aires (por um feminismo amefricano).
Em 2024, realizamos o III Colóquio de Psicanálise e amefricanidade – pensar a transmissão e a subversão a partir de Lélia Gonzalez, mesmo título do presente livro. Não por acaso, naquele ano o nosso encontro serviu de espaço para a apresentação de textos que foram desenvolvidos a partir dos trabalhos em curso dos membros da Rede e de alguns convidados externos. Consideramos esse um momento ímpar, de amadurecimento das elaborações a partir do que viemos acumulando de reflexões conjuntas e individuais desde o nosso primeiro colóquio. As mesas dos colóquios foram gravadas e estão disponíveis no YouTube, no canal Rede Lélia Gonzalez de Pesquisa e Formação, além do Psilacs/UFMG.
A Rede Lélia Gonzalez de Pesquisa e Formação foi se tecendo, ainda que com inconstância, e segue em contato, sendo nosso espaço primordial de partilha e articulação. O livro que o leitor tem em mãos é uma amostra da amplidão e fecundidade da obra de Lélia Gonzalez e de suas potenciais incidências sobre a formação psicanalítica. As cinco seções que pensamos poderiam ter outros nomes ou se desdobrar em muitas outras – o que vemos como possibilidade para publicações subsequentes a esta. Cada uma das seções abriga três textos autorais que, em alguns casos, são transversais a outras seções, possivelmente reflexo da multiplicidade do pensamento de Lélia. Nós da organização acompanhamos os textos sem nenhuma interferência ou com raras pontuações. Se por um lado isso permitiu a circulação de argumentos em comum entre os textos, por outro favoreceu a singularidade das articulações dos conceitos gonzaleanos a partir das pesquisas de cada autora e autor.
Manifestamos o nosso profundo agradecimento a todes que compõem a Rede e que colaboraram com as suas ações; com os que vieram antes de nós, familiares, amigos, pesquisadores, militantes e admiradores que vêm honrando o legado de Lélia Gonzalez, impulsionando a sua obra e a transmissão de suas ideias. Na humildade que nos cabe, esperamos colaborar com esse propósito.
Em 1974, a partir de uma instigação da antropóloga e psicanalista francesa Catherine Clément, a revista publicou um número inteiramente dedicado a Jacques Lacan, com textos assinados apenas por mulheres. A exceção era o próprio Lacan, que autorizou a publicação de excertos do caso Aimée e da discussão feita em sua tese de doutorado de 1932. A proposta é interessante por algumas razões: em primeiro lugar porque, ao inverter a expressão que Colette Soler usaria posteriormente como título de um de seus estudos – permitindo-nos averiguar “o que (algum)as mulheres dizem de Lacan” –, abre-se espaço para que as reviravoltas lacanianas no campo psicanalítico reverberem a partir dos lugares que mulheres ocupam nesse cenário, lugares que muitas vezes se dissolvem por conta das estruturas institucionais de poder.
Clément não deixa de registrar os incômodos e mal-entendidos que a ideia suscitou, ao mesmo tempo em que enfatiza como a potência do encontro de quem levou a sério a ideia permitiu recolher um conjunto de textos no qual se procura demonstrar “que Lacan produz efeitos de remanejamentos culturais bastante importantes para atingir o estatuto de publicação da escritura das mulheres”. 1 Nesse sentido, a proposta interessa também por permitir recolher um conjunto dissonante de elaborações e explorações sobre o feminino em suas modalidades expressivas de escritura. O resultado, porém, não se limita à mera apreensão discursiva da feminilidade a partir do aparato conceitual da psicanálise — é o próprio estatuto de prática analítica que está em questão, com as fórmulas, letras, matemas, metáforas, remissões, neologismos, estilos que permeiam todas as dimensões do trabalho, e, em particular, aquela da transmissão.
Clément notava como a transmissão que Lacan inaugurou, e que se desdobrava nos seminários e no estilo próprio inscrito nos textos compilados nos Escritos, não tinha contraparte ou parâmetro em qualquer outra modalidade de transmissão, seja nas instituições psicanalíticas, seja na esfera universitária. Daí que ela diga
1 Catherine Clément, “Um número” in: Lacan L’arc – Revista Lugar, n. 7, 1975, p. 9.
que, embora não se esteja transmitindo um saber ou regras de aplicação de técnicas de tratamento,
o que ali se transmite é, em seu registro, de uma eficácia formidável. Retorno aos Écrits, ao seu rosto, marcado pelo próprio Lacan: “O advento (da subversão do sujeito) só realmente pode mesmo se produzir, e num lugar que presentemente está tomado pelos psicanalistas.” Transmite-se portanto aí um ensino que atinge a teoria do sujeito que, depois de Freud, a funda, a revira, articula-a com a história, com a ideologia, o corpo, sua materialidade, e os materialismos: o real.2
Levar a sério a transmissão da psicanálise a partir de um registro em que sujeito e história, ideologia e corpo estejam articulados e revirados: eis uma maneira de nomear como pretendemos que a psicanálise se veja afetada, mobilizada, instigada pelo pensamento de Lélia Gonzalez. E não há nada de arbitrário nessa aproximação, já que foi a própria Lélia que se engajou nesse projeto. Afinal, ela não apenas colaborou na tradução que o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro fez dos textos do número da revista L’arc, que foram publicados em português na revista Lugar, n. 7, em 1975.
Na edição brasileira, foram acrescentados seis textos, seguindo a mesma diretriz da publicação original, contendo contribuições apenas de mulheres. Um desses textos é, ao que tudo indica, uma das primeiras publicações acadêmicas de Lélia Gonzalez, singelamente intitulada A propósito de Lacan.
Trata-se de um texto muito denso teoricamente, no qual vemos o manejo gonzaleano de referenciais teóricos muito complexos, no contexto de uma curiosa exposição do trabalho de duas figuras que foram marcantes em sua inserção no campo psicanalítico: Antônio Sérgio Mendonça e MD Magno. Curiosa porque, apesar do título, o texto se demora muito pouco sobre a obra lacaniana em si mesma, ou melhor, sobre enunciados produzidos pelo próprio psicanalista francês, sendo antes, fundamentalmente, um trabalho de reflexão sobre a maneira pela qual o pensamento lacaniano estava sendo recebido e transmitido, à época, ali no Rio de Janeiro (que, como dizia MD Magno, era “uma sede – a qual se abre a qualquer outra praça”).3
2 Ibid.
3 Lacan L’arc – Revista Lugar.Rio de Janeiro: Ed. Rio, n. 7, 1975, p. 5.
Além disso, é bastante significativo o parágrafo de abertura do texto, em que Lélia mostra que as duas vozes a partir das quais ela mesma se confronta com Lacan são alvo de “acusações as mais disparatadas”, e que se as tenta calar, ou evitar que sejam ouvidas, por parte de discursos que não fazem jus ao inconsciente, uma vez que, sendo “de tipo consciente”, colocam-se “como lugar-tenente da ordem, da normalidade, da clareza”, com caráter fechado que “não admite que se lhe apontem as limitações”. Após essa denúncia inicial, o parágrafo se encerra com as reticências de quem não se abala com as imposturas dos saberes hegemônicos: “Tudo bem…”4
A postura combativa não poderia ficar mais evidente: entre aquilo que algumas mulheres dizem de Lacan, sobressai a voz de uma mulher negra que busca mostrar o que há de potente na psicanálise feita em um território cuja formação cultural mais tarde será pensada como e nomeada de amefricana. Percebe-se que a fecundidade dessa psicanálise perpassa uma transmissão na qual ela é um dispositivo de tratamento indissociável de um profundo compromisso ético com crítica da ideologia, de uma dedicada atenção à significatividade e às experiências literárias que a reinventam, de um esforço consequente de elaboração metapsicológica, pois seu estatuto de cientificidade está concernido na própria eficácia de seu exercício. Podemos afirmar que tomar partido em favor do inconsciente implica, para Lélia, neste momento, incitar uma postura radicalmente contracolonial dentro do campo analítico.
Como se sabe, em um período posterior a obra de Lélia Gonzalez carregará algumas das críticas mais enfáticas e radicais ao autoritarismo brasileiro. Ao seguirmos as análises propostas pela pensadora, dois aspectos desse complexo fenômeno sobressaem: o racismo e o sexismo. Eles ganham centralidade não tanto porque permitiriam capturar algum elemento mais fundamental das formas de dominação consolidadas na estrutura social de nosso país, e mais pelo fato de que só à luz do entrecruzamento dessas duas mazelas é que se torna compreensível como operam as opressões que incidem sobre os corpos e as subjetividades das mulheres negras no Brasil. Entretanto, a leitura gonzaleana do racismo e do sexismo tão arraigados na cultura brasileira não se limita a tratar das dimensões sociais e políticas mais diretas aí implicadas: a denúncia das exclusões de que as mulheres negras são objeto, e dos abusos e violências recorrentes que elas sofrem, é um momento de uma reflexão mais profunda e demorada, que retoma as raízes históricas do escravismo que
4 Lélia Gonzalez, “A propósito de Lacan” in: Lacan L’arc – Revista Lugar, n. 7, 1975, p. 160.
moldou todo um conjunto de normas sociais que buscam naturalizar a submissão de pessoas negras, bem como as determinações inconscientes que contribuíram para que se tenham forjado modos de subjetivação coerentes com tal estrutura autoritária.
Ora, a prática da psicanálise no Brasil se constituiu como um campo de tratamento do sofrimento psíquico no qual as tensões e antagonismos que atravessam as dinâmicas sociais comparecem também nas dinâmicas transferenciais. Entretanto, se, por um lado, parte das instituições psicanalíticas preferiu defender uma posição de suposta neutralidade, sem questionar como sintomas sociais se manifestam nos sintomas individuais, outra parte ousou repensar a psicanálise, em toda sua amplitude, tendo em vista os legados de uma colonização brutal, mas não perdendo de vista as práticas de resistência, e a efetividade dos aportes culturais, epistêmicos e subjetivos dos povos subjugados. Mesmo sem se colocar sob o signo da crítica da colonialidade, o engajamento reflexivo de autoras como Lélia Gonzalez mostra que o trabalho de elaboração do que pode ser chamado de postura contracolonial em contexto psicanalítico é algo que já tem uma certa densidade histórica: mesmo que tal história ainda seja em grande parte a de um silenciamento, tendo em vista a pouca abertura que a academia e algumas instituições psicanalíticas demonstraram a tal diálogo, as vozes insurgentes seguem ecoando e nos interpelando.
A proposta da presente coletânea é ser um sopro que se soma a tais ecos, seja resgatando, desenvolvendo e procurando atualizar linhas de elaboração conceitual que porventura tenham ficado sem a devida consequência, seja confrontando a psicanálise com saberes tradicionais que também se dedicam ao acolhimento e à lida com o sujeito – seus desejos, sonhos, linguajares, gozos, esgarçamentos.
Raoni Machado Jardim
Herivelto P. Souza
dulce maria pereira <
Este livro, composto por textos de autoras e autores que dialogam com o pensamento de Lélia Gonzalez, constitui uma homenagem intelectual à sua obra, oferecendo uma abordagem crítica e plural de sua produção teórica. Posiciona-a adequadamente onde deveria ter sempre estado, pela singularidade de sua contribuição, como uma das mais completas pensadoras das complexidades brasileira. Ancorado em perspectivas feministas, antirracistas e contracoloniais, o trabalho reconhece a relevância epistemológica de Gonzalez e reitera sua estatura acadêmica como pensadora que desestabiliza os fundamentos eurocentrados da psicanálise e das ciências sociais. A organização da coletânea reflete uma escolha política e metodológica: acompanhar os caminhos intelectuais trilhados por Gonzalez, desde sua formulação da “neurose cultural brasileira” – expressão que nomeia o racismo como sintoma recalcado da sociedade – até sua crítica à exclusão operada por classe, raça e gênero. Destacase, ainda, a articulação refinada entre memória, história e resistência que perpassa sua produção. Traz a energia e o rigor intelectual de Lélia, que trabalhava noites e noites os conceitos, as conexões e contradições, em busca de coerência e precisão.
Entre os méritos desta obra, sobressai-se o destaque a como a autora reelabora os fundamentos da psicanálise pela via de uma escuta amefricana, revelando a potência crítica de conceitos lacanianos quando atravessados pelos tambores da ancestralidade negra, da amefricanidade. Ao entrar na tradição lacaniana, Lélia não se limita a dialogar – ela a desloca, fazendo emergir uma leitura própria que incorpora saberes das periferias, linguagem viva das diferentes matrizes de saberes, forçadas à margem do gerenciamento da riqueza coletiva pela estrutura patriarcal racista, e expressões culturais negras enraizadas na diáspora africana.
O embate da antropóloga lacaniana Lélia Gonzalez com a pretensa neutralidade da escuta clínica é núcleo pulsante de sua proposta. Lélia introduz a noção de uma psicanálise racializada, sensível aos atravessamentos históricos que constituem osujeito negro, especialmente a mulher negra, como corpo político, afetivo, epistêmico. Sua proposta de clínica insurgente aposta na escuta radical da dor racializada, nas memórias ancestrais e no corpo como território de resistência. Esse gesto epistêmico rompe com os cânones da academia branca e convoca novas formas de produzir conhecimento.
O livro também estabelece conexões ousadas entre a psicanálise e saberes afrodiaspóricos, incluindo o ativismo antirracista, as escolas de samba, a espiritualidade de matriz africana e a história oral. Trata-se de uma proposta de descolonização radical do campo psicanalítico, sustentada por uma ética da escuta atenta às contradições e violências das realidades brasileiras.
Ao longo da obra, conceitos-chave como pretuguês, mãe-preta, amefricanidade e neurose cultural são revisitados como ferramentas críticas vigorosas, capazes de iluminar experiências subjetivas em contextos de opressão. Esses termos não aparecem como ornamento teórico, mas como dispositivos de pensamento que provocam deslocamentos e abrem horizontes investigativos.
As interlocuções de Gonzalez com intelectuais como Audre Lorde, Frantz Fanon, Grada Kilomba, Michel Foucault e Jacques Lacan, com os quais compartilha uma preocupação comum, que é compreender como o poder, o racismo e a colonialidade moldam a subjetividade, mostram que seu pensamento não se limita ao diálogo: ele tensiona, contesta e refunda os marcos teóricos clássicos a partir de vivências negras e populares. A obra de Lélia emerge, assim, como um corpo teórico insurgente, vivo e absolutamente necessário.
Revisitar o pensamento de Lélia Gonzalez, como propõe este livro, é alargar o horizonte crítico do feminismo negro, da psicanálise e da produção de conhecimento situada. Ao reunir vozes que transitam entre a clínica, a política, a história e a cultura, a coletânea consolida-se como marco interdisciplinar e afirma a atualidade de um pensamento que se recusa a ser domesticado. Este trabalho, enfim, dá continuidade ao gesto contracolonial radical de Lélia Gonzalez de pensar com o corpo negro inteiro, com a escuta atravessada pelas ruas, pelos terreiros, pelas dores e pelas potências do Brasil, e que se revela universal.
@psilacs – ufmg – www.psilacs.org
> o núcleo psilacs (psicanálise e laço social no contemporâneo –universidade federal de minas gerais) articula transmissão, pesquisa e extensão em psicanálise em quatro frentes <
> programa já é – psicanálise, juventudes e cidade – coordenação: delza gonçalves e henrique oliveira <
> programa transmissão lacaniana – a letra de jacques lacan – coordenação: ernesto anzalone e renata mendonça. <
> programa formação permanente psilacs – sofia freire, lucas rocha <
> programa conexão – radar psilacs nas redes sociais – carolina amorim, edvaldo brandão, ismael salaberry, kevin coelho, linnikar lika, renata rodrigues <
> coordenação geral: andréa máris campos guerra <
A Coleção Decolonização e Psicanálise, como movimento em elipse nas terras psicanalíticas, inaugura um programa continuado de descentralização. Às voltas com os impasses do horizonte da subjetividade de nossa época, criamos um espaço livre para formulação de perguntas sobre os alcances de nossa práxis, sobre os fundamentos de nosso saber, sobre o gozo singular que impera adestrado em nosso contemporâneo, sobre a ontologia do corpo falante e sobre a estética de mundo que daí deriva.
O programa pretende enumerar as perguntas para as quais já vivemos as respostas, sem termos criado o tempo de sua nomeação. A clínica psicanalítica, na sua experiência mais íntima com o falasser, é interrogada pelos movimentos sociais e feministas, pelas teorias críticas, pelo mal-estar colonial. E, desde fora, recebe o impacto do edifício pulsional, que atualiza modos de sofrimento, de resistência, de invenção. Esta coleção recolhe e testemunha em ato seus efeitos.
Em obras coletivas e obras autorais, nacionais ou estrangeiras, buscamos recolher o saber-fazer com o resto que escreve respiradouros para a Psicanálise. Sustentamos um espaço no qual o acontecimento traumático se escreve pela contingência do desejo. Seu desenho, cuja imagem se constitui a cada pincelada, subverte a ideia original ao tocar o real.
A cada nova obra, esperamos forçar a necessária presença desvelada da herança colonial nos confins do mundo em que habitamos: nosso corpo. Nossa geopolítica, latina, desde a qual a transmissão da psicanálise se renova universal na escuta singular, torna viva sua lâmina afiada. De nossa língua mãe de gozo, ensaiamos ler os contornos e os excessos de nosso agora.
Sinta-se parte.
O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma ideia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir. É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas ao contrário, da maneira mais simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constítuida; escrever a n-1.
Gilles Deleuze e Félix Guattari