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Orfismo e tragédia: o mito transfigurado, de Gianni Carchia (Prefácio)

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o miτo τrαηςfigurαdo

Orfismoetragédia:Omitotransfigurado Orfismoetragedia:Ilmitotrasfigurato

©Quodlibet,2019 ©n-1edições,2026 isbn 978-65-6119-075-6

Emboraadoteamaioriadosusoseditoriaisdoâmbitobrasileiro,a n-1ediçõesnãoseguenecessariamenteasconvençõesdasinstituições normativas,poisconsideraaediçãoumtrabalhodecriaçãoquedeve interagircomapluralidadedelinguagenseaespecificidadedecada obrapublicada.

coordenaçãoeditorial PeterPálPelbarteRicardoMunizFernandes direçãodearte RicardoMunizFernandes gestãoeditorial GabrieldeGodoy assistênciaeditorial InêsMendonça tradução© ViníciusNicastroHonesko preparação JuremaAprile revisão FernandaMello ediçãoemLATEX JuliaMurachovsky produçãoeditorial AndressaCerqueira capa JulianaCornacchioni

Areproduçãoparcialdestelivrosemfinslucrativos,parauso privadooucoletivo,emqualquermeioimpressooueletrônico,está autorizada,desdequecitadaafonte.Sefornecessáriaareprodução naíntegra,solicita-seentraremcontatocomoseditores.

1ªedição|fevereiro,2026 n-1edicoes.org

gianni carchia

tradução

VINÍCIUS NICASTRO HONESKO

Diálogocomosmortos1

Ousoafirmaraquiquealiberdadeésempre clandestina,queaverdadeeajustiça tambémosão.Equeestassãoapenas simulacroseagentesdeintimidaçãotão logoselevantamempraçapública.

Le14juillet,n.3

pierreklossowski

Existemtextoscujadensidadetornaprolixoqualquercomentário, textoscujocaráterelípticoalertacontratodaexplicaçãoulterior. Orfismoetragédia éumdestes.Impossívelescrever sobre, éprecisoescrever nasequência,éprecisoescrever com,comamesmavelocidade. Em1979,CarchiaimplicaBenjamineMichelstaedter,Adorno ePareyson,mastambémostuaregueseBordiga,os QuaderniRossi ePoderOperário,Camattee Invariance, L’erbavoglio deFachinelli,arevista An.Archos dePieroFlecchia,etambémDomenico Ferla,poetabordiguistaemaniqueísta.Ademocraciablindada trancafiaumageraçãode“marginalizados”.Apolítica,ondehaviamsidocolocadastodasasesperançasdesalvação,narealidade faziapartedacondenação.Dofundodessaruasemsaída,Carchia decideretomartudodesdeumaposiçãoumpoucomaiselevada. Situa-senoníveldacivilização,abrelinhasdefugaparaopresente,paraofuturo,para sempre.Prospectaoutrosinícios.“No idealdorecomeçoháalgoqueprecedeoprópriocomeço,queo

1.Posfácioàediçãoitalianade Orfismoetragédia,nas Obrascompletas deGianniCarchia, publicadaspelaeditoraQuodlibet.

retomaparaaprofundá-loerecuá-lonotempo.”2 Nosmesmos anos,FoucaulteCarchiavoltamàAntiguidade,comdiferentes resultados.Nãoporacaso.MesmopartindodeHeidegger,Foucaultnãoremontamuitonotempo,e,emsuaúltimaentrevista, noverãode1984,concluiráque:“TodaaAntiguidademeparece tersidoum‘profundoerro’”.3 Carchia,pelocontrário,assumeo riscoderemontaratéo biosOrphikós paradecifrarumespaçoque permaneceuembranconahistóriadoOcidente.Eleesclarece o“profundoerro”apartirdessaoutraviapossível,quejamais foipercorrida.OOcidente,estávelemseudeclínio,constante emseuapocalipse,nãoéumasuperfícieuniforme.Aocontrário, éumasuperfíciecommuitosburacos,consteladadeprofundas aberturas,apesardetodososesforçospararecobri-las.Essesburacossãoblocosdeprimitividade,possibilidadesvitais,“núcleos afetivosdevastadores”,comodiziaHenriLefebvre.Àsvezestêm nomes–tantoMeisterEckhartquantoEmpédocles,ÁbarisassimcomoArtaud;nomesprópriosquesãoentendidos,portanto, comosefossemeventos.Orfeuéumdesses,umdosprimeiros emordemtemporal.Umaanálisepolíticasuperficialtalvezpossa vernogestode Orfismoetragédia umadeserçãodiantedoinimigo, umafugadiantedatragédiapolíticaemcursoem1979–umadespolitização.Éprecisodizerquejánoséculo v a.C.essaanálise nãocompreendiaqueoquehaviadeprofundamentepolíticono orfismoconsistiaexatamentenofatoderecusara pólis emsua integralidade.Asuperficialidade–quesejaditoemsuadefesa –étambémumamedidadeproteção:abrindo-seàspotências divinas,umaalmacorreoriscodeencontrar-sesubmersa,como

2.GillesDeleuze, L’îledéserteetautrestextes.Ed.preparadaporDavidLapoujade.Paris:ÉditionsdeMinuit,2002,p.17[ed.bras. Ailhadesertaeoutrostextos,trad.LuizB.L.Orlandi. SãoPaulo:Iluminuras,2014,p.22].

3. MichelFoucault,“Leretourdelamorale”,in: Ditsetécrits.Paris:GallimardQuarto,2001, p.1517[ed.bras.ManuelBarrosdaMotta(org.). DitoseEscritos.v. v.,trad.ElisaMonteiroe InêsAutranDouradoBarbosa.RiodeJaneiro:ForenseUniversitária,2006,p.254].

seumdilúvioinundasseseussentidoseosafogasse.Àqueleque acontecemaisdoquepodesuportarpodetambémnãovoltara si,comosefosseatingidoporApolo.Sobretudonumaépocaem que“aprivaçãodaalmafoiopreçoapagarparaparaentrarna temporalidadehistóricadoprogresso”.4

“Ospaiscomeramuvasverdeseosdentesdosfilhosseembotaram.”Ascoisassãoassim,maisoumenosdesdeostemposde Jeremias.Amentiradacivilizaçãoconsisteemcobrirdesilêncio suasmuitas decisões,einventarparasiumahistória lógica.Éassim que,degeraçãoemgeraçãoedeocultamentoemocultamento, asabedoriadessemundotornou-seperfeitamentemaluca.Atenas,porexemplo,éonomedeumacatástrofe.Épreciso,como Jean-PierreVernant,lutarcotidianamentecomo“despotismo oriental”estalinistaparasonhara pólis gregacomoumainvençãohistóricaexemplar.Éclaro,NicoleLorauxtemrazãoem vernacidade,enquantounidadequeseautocelebraeocultaa stasis queaameaçaatodoinstante,umainstânciade despolitização.Tentardesmascararaperpetuaçãodaoligarquiaportrás dofantochedemocráticoésempreumexercícioagradável.Mas aindanãoéremontarosuficiente. Ademocraciaéaformadeorganizaçãoadequada–ouseja,amaiseficaz–aumacoletividadede predadores. O meson éolugardepartilhaapenasporqueéolugar ondesedepositaobutimdosaque, sobosolhosciumentosdetodos.

Aisonomia,antesdeserigualdadeperantealei,éaigualdade nadistribuiçãodobutim.Sortearsignificadelegaraosdeuses umaseparaçãoqueseriaummassacrecasooshomenstivessem queseencarregardessadaisonomia.Sejaparaadistribuição dobutim,dosencargosoudospedaçosdecarnecozidosaofinaldosacrifício,osorteionãotemnadaavercomaigualdade dosmodernosdiantedoacaso–comtodorespeitoaRancière.A

4. GianniCarchia,“Perunaesteticadell’invecchiato:ilmercatodelleimmaginiela fotografia”in:DarioLanzardo, DameecavalierinelBalôndiTorino.Milão:Mondadori,1984.

comunidadedemocráticajamaisdeixoudesercomunidadeno saqueenohomicídio.“Osprimeirosgregoseramtodospiratas”, concluiMontesquieu.Enãoéumacasoqueasprimeirasconstituiçõesautenticamenteigualitáriasdamodernidadetenhamsido asconstituições depiratas.“Talveztodaahistóriadademocraciasejaadeumregimesalteador,umaformadepirataria;eisso, desdeoinícioaténossosdias.”5 O meson tornou-seolugarvazio datomadadepalavrapúblicaapenasporqueobutimsedesmaterializou.ComaligadeDelos,oestatutodocidadãosetornaele mesmoumarealidaderentável.Ohomeméumloboparaohomem,apartirdafamosafábuladeEsopo;enatradiçãoarcádica, éLicaão,ohomem-lobo,quefundaaprimeiracidade,Lycosoura, o“Montedolobo”.Conta-sequenãohavianinguémcomoele paracortarempartesiguaisacarnedosacrifício.Aigualdade, portanto,comopontodeencontrodetodasasrapacidades,e ademocraciacomoencantamentodessemecanismo.Ou,para dizercomFreud:“Asociedaderepousasobreaparticipaçãono crimecoletivo”(Totemetabu).Háumagenealogiadamoralque remetediretamenteàAtenasclássica–Atenas,“origemdetoda polícia”,6 segundoNicolasdeLaMare.

SeMeulidefatotemrazãoaofazerremontaroritualsacrificialgrego“docrânioedosossoslongos”àcaçapaleolítica,eao explicá-locomanecessidadedeatenuaraemoçãoligadaaosanguederramado,hátodaviaummundoentreamortedomamute oudocervo,nacaçapré-histórica,eaencenaçãohipocritamente calculadadosacrifíciodoboinacidadegrega–oshomensmascaradosquematamosanimais,aslamentações,aarmadocrime escondidasobosgrãosdecevada,oanimaladornadoque“dá seuconsenso”àexecução.Apenasaíépossívelfalardeumaverdadeira“comédiadainocência”adotadapelorebanhoigualitário.

5. Jean-PaulCurnier, Lapirateriadansl’âme:essaidansladémocratie.Paris:Lignes,2017,p.147. 6.NicolasdelaMare, Traitédelapolice, i, i.

Poisa pólis éumaembarcaçãocujosremadoressãooscidadãos. Éumaconstrução puramentehumana querema–ametáfora governamentaldesuanecessáriaconduçãonãoécausal–dentrodeumambientetornadoessencialmenteestrangeiro,mudo, hostil.WalterBurkertestáconvencidodeque“os tragodói estão naorigemdeumgrupodehomensmascaradosquerealizam osacrifíciodobodenaprimavera”.7 Seatragédiarealizaeao mesmotemposuspendeacomédiadainocência,queéavida da pólis,éporqueessavidanãoésomenteoprodutodetodas asrapinaspossíveis,esefundasobreomassacredasfalanges oudaspopulaçõesinimigas,mastambémporquesefunda sobre amortedosheróis,dosdeusesedanatureza.Agorasãojustamente osdeuses,osheróiseanaturezaqueatragédiacolocaemcena: elaosincluinavidadacidadesobaformadesuaexclusão.O quequerquesepensedatesedeJulianJaynes,em Aorigemda consciêncianademoliçãodamentebicameral, 8 entreahumanidade da Ilíada eadacidadeclássicaháumabismo;umabismoque nãoéapenasoqueseparaumahumanidademítico-aristocrática deumahumanidaderacionalista-democrática,masé,sobretudo, oabismoentreumaplenapresençanãosubjetivanomundo queaindatinhaacessoaoinvisível,queignoravaaconsciência, estranhatantoàreflexividadecomoàmoral,eumaexistência filtradaporumEuanálogo, narratizante daprópriaexperiência, marcadaporumainterioridadequeautoriza metis esimulação, umaexistêncianaqualotempoéespacializado,emqueasvozes secalameosvidentessetornamexceçõesdignasdecuriosidade–“inspirados”.IssonãocontradizatesedeWalterOtto segundoaqual,adespeitodosmodernos,osdeusesgregos são; aolongodosséculos,osdeusessãoapenas cadavezmenos.De

7.WalterBurkert, Sauvagesorigines.Paris:LesBellesLettres,1998,p.36.

8.JulianJaynes, TheOriginofConsciousnessintheBreakdownoftheBicameralMind.Boston: HoughtonMifflin,1976.

resto,umamínimapartedelessobreviveaindahoje.Ogrande Pãlevoumuitotempoparamorrer,oprocessodesecularização edesencantamentoprosseguehátrêsmilanos,eosrituaissobrevivemdepoisdaextinçãodosdeuses.Comatragédia,anova humanidade,quenãoconhecerámaisacerteza,

trabalhapublicamenteemsuainfraestruturamental[…].Atragédiarevivendo,regenerandoedesenvolvendoofundamentoéticodapolítica, deste“créditodesentido”quedevesatisfazeraaspiraçãodecompreender[…],provêofundamentomentaldopolítico.9

Seaassembleiaorganizaascondiçõespolíticasdapalavra,éno silênciodosespectadoresqueatragédiaorganizaascondições daescutae, portanto,dasurdez.Aautonomiadaformaestética responde,comefeito,àautonomiadapolítica.Eladotaanova humanidadecivilizadadeumaparelhodepercepçãoedeproblematização socializado,quesópodesercheiodeambiguidades,de indecisões,deironiafalsamentesoberana; aculturaofereceum sentidoàquelesqueperderamossentidos;duranteasGrandesDionisíacas,Atenastambémpodeofereceraseussúditos,quevieram paradeixarseutributo,oespetáculofascinantedesuasperguntasabissais,artísticaseprovocadoras.Dosgregosantigosatéos americanosdehoje,oOcidentesedefinecomumgesto:ode apropriar-sedoquenãoseconseguemaissentir. Occidere:matar,10 despedaçar,aniquilar–todososmodosdeapropriar-seradicalmentedoqueviveforadenós.Aindaéprecisomensurarquanto aavidezdocivilizadodependedovazioquenelesefez.

Ainvençãododinheiro,dapolítica,datragédia,daespeculaçãofilosófica,deumaartedecididamenterepresentativa,da moralcomoâmbitodeinterrogaçãoespecíficoformamumares-

9. ChristianMeier, Delatragédiegrecquecommeartpolitique.Paris:LesBellesLettres,1991,p.57. 10. Occidere,queestánaorigemde Ocidente,etimologicamenteestáligadoa“cairporterra”. Emitaliano,overbo uccidere,quetemamesmaraiz,significaliteralmente matar,assassinar. [n.t.]

posta,aresposta grega paraessamutaçãoantropológica,parao girometafísicoqueJayneschama“nascimentodaconsciência”. Énessegiroqueéprecisosituaroorfismo,comoumavidamenor, comoumabifurcaçãodesconhecida,cujaprópriaexistênciafoi, pormuitotempo,reduzidaaoestatutodeboataria.Foipreciso adescoberta,em1962,domaisantigopapirogrego,opapirode Derveni,queescapoudo fogo numasepulturaemTessalônica,e depoisamultiplicaçãodosachadosarqueológicosdelâminasde ouro,devasosoudeossosentalhados,paraquetodosserendessemàevidênciadesuaexistênciaedesuaantiguidade.Aqueles quesededicavamaoestudodoorfismo,comotudoquedizrespeitoaosaspectosmenoresdeumacivilização,tinhamdemanter separadaaimportânciadeseuobjetodeestudodaexiguidade dosrastrosdeixados,docaráterindiretodostestemunhos,da incertezaquantoàdataçãodosescritos,dazombariados grandes. Quem,comoCarchia,édiscreto,ecuidamaisdeseusamigosdo quedapublicidade,escreveparaaquelesqueestãodispostosa compreenderenãoparaconvencereexistir,sabequeatodoinstanteasfigurasmaiorescorremoriscodecolocaremdúvidasua existência,osentidodesta–nãosemantes,quefiquebementendido,saqueá-la.Ahistóriadosvencedoresnãodeixouespaçopara oorfismo,ecomrazão: oorfismoéumcodinomedadestituiçãode todaumacivilizaçãonomomentomesmoemqueelaseinstitui.Agora queacatástrofedessacivilizaçãoéatestadaemtodososâmbitos, talvezsejaomomentodevoltaraessabifurcaçãoesquecida.

Atradiçãofilosófica,desdePlatão,aplicouaseusfundadores míticosogestoocidentalqueconsisteemapropriar-sedaquilo quenãoconseguesentir. Todososconceitosimportantesdafilosofia antigasãonoçõesmísticassecularizadas. Comoseobstinaalembrar PeterKingsleydepoisdetantosoutros,éóbvioquePitágoras, EmpédocleseParmênidesjamaisforam“filósofos”,masmagos, curadores,xamãs,“mestresdaverdade”.Sairdeseucorpopara

setransferiremespíritoparaumsonhocatalético,trazerdevolta seresdomundodosmortos,atravessaraprópriamorte,saber“o queé,oquefoieoqueserá”,e semteraprendidoisso,governaros elementos,sãotodasatividadesquefazempartedeseusatributos maisnotórios. Mnemosyne nãoéonomedeumafaculdadehumana,deumaconsciênciadopassado,masoacessoaumplano dorealsituadoforadoespaçoedotempo.Mastambémentre eles,afiguradeOrfeu,quecantaenãofala,paraque“Gesang istDasein”ecujoscantoscomovematéaspedras,éexceção,e nãoapenasenquantofiguramítica.Apesardeumaproximidade doutrinalehistórica,comfrequêncianotada,entreorfismoepitagorismo,umadiferençaessencialossepara:ofatode existiruma políticapitagórica.Pitágorasconstituiirmandadesetemumprojetodereformaparaacidade.OmesmoparaEmpédocles,figura públicadeAgrigento.Orfeusegueoutrocaminho,ocaminho dofundador,tãonovonessesextoséculo,ofundadornãodeumacidade,masdeum gênerodevida […].Pitágorasescolheo“político”,um ‘gênerodevida”novo,definidonoâmbitodacidadeedesua agorá.Enquantoseucontemporâneo,Orfeu,escolheumgênerodevidaforada política,querecusatambémacidadeecolocaemquestãoseusistema devalores[…].Dosextoaoquartoséculo,osórficossãomarginais, errantese,sobretudo,“renunciadores”,oumelhor,escolheramrenunciaraomundo,aomundodaquelesquevivemnacidade[…].Renunciarafazerosanguedasvítimasanimaisescorrernãosignificaapenas recusar-seacomercarne,gestoquepoderiaparecer“servegetariano”–nosentidoquenostornoufamiliarporoutrosmotivos–,masécolocar-sevoluntariamenteforadomundodacidade,àdistânciadoscidadãos que,emsuasfestaseatosmais“políticos”,tomampartenossacrifícios públicos,financiadospelacidade,quandoaassimchamadaassembleia das“questõessagradas”estipulaacapturadasvítimaseocalendário sacrificialdasfestasdacidade.Éprecisosaberqueametadedas“leis” deSólonseapresentacomoumenormecalendáriosacrificial.11

Recusar-seatomarpartenohomicídiofundadordavidanacidade, 11.MarcelDetienne, Lesdieuxd’Orphée.Paris:Gallimard,2007,p.24.

atomarparteemsuacomédiadainocênciae,pormeiodesta,em tomarpartenamentiradavidasocial,saberqueaverdadeiravida estáemoutrolugar–Rimbaudescrevedemodoórfico,numa cartade1874encontradarecentemente:“aliás,umavezconcluídooacordo,estareilivreparairmisticamente,ouvulgarmente, ousabiamente”–,nãofundardeformaalguma outrarealidadesocial,outrocoletivohumanodestacadodosvínculosquemeunem aomundo,amimmesmo,aoimpalpável,ameusamigos,aminhaEurídice,destacado,portanto,dassingularidades:essaéa antipolíticaórfica,ou,melhor,adestituiçãoórficadapolítica.É essaindiferençaàmoralsocialquetornouoorfismotãopopular etãoindecifrável.Numdeseusúltimostextos,MarshallSahlins desmantelaaquelaloucaideiaquegostariadever,nasociedade chamadaprimitiva,modelosdedemocracia,pelosimplesmotivo dequenelasestariamausentesasrelaçõeshierárquicas.Talalusãoderivadofatodequeosantropólogostendemaobservaro mundosocial“primitivo”abstraindo-odoconjuntodepresenças meta-humanas,depotênciasnaturaisoumágicas,dedivindades –emsuma,docosmodensamentepovoado–dasquaiséinseparávelecomasquaismantêmrelaçõesoshumanos,comoem seuinterior,relaçõesnãoexatamentedemocráticas.“Senãohá, comefeito,nenhumconfimentreocosmoeo socius,entãonãoé exatamenteoquealguémchamariade‘simplessociedade’,como tampoucoumasociedadeigualitária.”12 Oorfismorespondeao fatodequeoOcidenteconsisteemnãoveroproblema:

Acatarseórficatambémpoderianãoprocurarresolverumacriseocasional,mas a criseexistencial;nãopretenderiapurificarumaloucura

12.MarshallSahlins,“Theoriginalpoliticalsociety”in:DavidGraeber,MarshallSahlins, Onkings.Londres:HauBooks,2017,p.27.

episódica,maspurificaravidaprofanacompreendidacomoumalonga loucura[…]curarosujeitonãodeseuestadodealienação,masdeuma “normalidade”inaceitável.13

ÉaíquesesituaarelaçãocentraldeOrfeucomamúsica:como bemcompreendeuSchopenhauer,amúsicadizrespeito,essencialmente,aumnívelqueestáalémdomundodarepresentação. Oórfico,exilando-sedacidade,aexila. Levaconsigoacidadehabitável.Contraa pólis,eletomaaspartesda chora,dointerior,dos lugares,dosmundoscontraomundosocial,únicoealucinado. Emcontrapartida,oórfico mesmosefazlugar,fazendousodo novo“espaçointerior”,queaconsciênciareflexivajáescavouem cadaum,e,portanto,entreosseres.Éesseofamoso“livreuso dopróprio”deHölderlin,a“psiqueentreamigos,opensamento queseformanatrocadeconversas,porescritoouaovivo”,efora daqualnóssomos“paranósmesmossempensamento”.“Psycheistausgedehnt”–“Apsiqueéexpandida”–,escreveFreud numanotapóstuma.Éoolhardacidadequefazdoórficoum “puritano”obcecadopelasalvaçãodaprópriaalma,alguémque “renunciaaomundo”,umavezqueapenasacidadecrêquenão háoutromundoforadeseupróprio–quando,narealidade, éela queperdeuokosmos.Portanto,oórficoésobremaneira“aquele quecrênomundo,nãopropriamentenaexistênciadomundo, masemsuaspossibilidadesemmovimentoseemintensidades, parafazernasceraindanovosmodosdeexistência,maispróximosdosanimaisedosrochedos”.14 Háoutro nomos alémdesse dacidade,um nomos maisoriginário.ComolembraLarocheem seufamosoestudode1949, Históriasdaraiz–nememgregoantigo, overbo nemô,nemomai, notempodeHomero,querdizerdistri-

13.DarioSabbatucci, Essaisurlemysticismegrec.Paris:Flammarion,1982,p.63[ed.original: Saggiosulmisticismogreco.Roma:Edizionidell’Ateneo,1965].

14.GillesDeleuze,FélixGuattari, Qu’est-cequelaphilosophie? Paris:ÉditionsdeMinuit, 1991,p.72[ed.bras. Oqueéafilosofia?,trad.BentoPradoJúnioreAlbertoAlonsoMunoz. SãoPaulo:Ed.34,p.98].

buir,partilhar,maséantesdetudopastorearefazerpastoreio numaterraaindanãoapropriada.Éseacostumare,portanto, habitar.O nomos originário,antesdaleiedaadministraçãoda cidade,nãodesignaapenasumlugarparaopastoreio,comtodo omaterialnecessárioparadarabrigoàsbestaseàspessoas,mas sobretudoo mododeviver,quepossuiumaformasemporisso enrijecer-senumaexplicitaçãoqueacoloqueaserviçodequalquermanipulação,umaformaquenãosobrecarregaaexistência dosviventes,tantohumanoscomonãohumanos.ComonoslembraMonicaFerrando,em Oreinoerrante, 15 esse nomos designa inseparavelmenteofatodenutrir-se, decantar edeterusos.Significativamente,énomomentoemqueahumanidadeseurbaniza esituaa pólis entreelaeanaturezaque nemô deixadesignificar habitare oikeô tomaseulugar.Apartirdisso, nemô querdizerhabitarapenasparaospastores,paraoscamponeses,paraosbárbaros eparaoserrantes–os nômades.EmHeródoto,lembraLaroche, nemomai sedizdetodasasnaçõesoupovosqueignoramas poleis ou astea,emparticularosbárbaros, oikeô éreservadoaosaglomerados urbanos,sobretudonaGrécia.Eisporqueogruposemântico polin nemesthai significa“desfrutar,aproveitarde”,todaideiadedistribuição, departilhaepastoreiodesaparece.16

Vemosmaisumavez,depassagem,oquanto todasasetimologiasde CarlSchmitt sãofalaciosas.Sealeidacidadetivessesidohabitável, seelativessesidoumaverdadeirahabitação,nãoteriahavido necessidade,duranteoprocessodeexplicitaçãodasformasde vidasocialnasleis,deacrescentara nomos o “kaiêthê”,para sublinharofatodequeessaleiaindativesseumasubstânciaética queaindativesseavercomavida.

15. MonicaFerrando, Ilregnoerrante:l’Arcadiacomeparadigmapolitico.Vicenza:Neri Pozza,2018.

16.EmmanuelLaroche, Histoiredelaracine nem- engrecancien.Paris:LibrairieKlinck-sieck,1949,p.20.

Nasplacasdeossosdoséculo v a.C.,encontradasemOlbia em1978,lê-se,aoladoasexpressões Orphikói, biosthanatosbios, e eirénépolemosalêtheiapseudos –“vidamortevida”e“pazguerra verdadementira”.AindaemOlbia,encontra-seestainscrição,do século iii a.C.,querecitacomoumecohipnótico biosbiosapollôn apollônhêlioshêlioskosmoskosmosphôsphôs.Sabemosporoutras lâminasórficasqueà psychê desejosadodefunto,entrandono Hades,érecomendadanãoseaproximardaprimeirafonteque encontrar,àesquerda,próximadeumciprestebranco–afonte de lêthê –paradirigir-seàfontefrescade Mnemosyne.Ocaminho órficoénotoriamenteumcaminhoascético,masdeumascetismoquenãoéexatamenteodeumaestéticadaexistência,ou deumcuidadodesinoqualsetrataria,segundoumametáfora significativamentesocial,degovernarasimesmo.Seriapossível chamá-la“mística”,comacondiçãodecompreender–opapiro deDervenidáumexemploestupendodisso–quenãoháoutro materialismoconsequentesenãoomístico,e,vice-versa,quea humanidadesalvatalvezfossemísticanaíntegra.Nomovimento deconstituiçãodacidade,dasocializaçãodasexistências,ocaminhoórficoofereceu-secomoumcontramovimento.Noponto extremodasocializaçãoaquechegamos,talveztenhamosdemeditarsobreessapossibilidadeperdida.

Em VéudeÍsis,PierreHadotchamade“atitudeórfica”àquela quecontrastacomaatitudeprometeicadacivilizaçãoocidental. Nelaeleencontraaalternativa,tornadaurgente,diantedeuma relaçãocoma physis fundadasobreaextorsãodossegredosda natureza,sobresuaexploraçãocomofundoinerte.Seráórfica arelaçãoatentaaoviràpresençadosfenômenos,umarelação paciente,intuitiva,poética,comosdiversosreinos–“oestudo danaturezacomoexercícioespiritual”,umaaberturaao“êxtase cósmico”.Essetipodealternativasuaveéadefinição soft do

caminhoórfico–oorfismosocial-democrático.Arelaçãoórfica coma Aletheia,coma lisuradeAletheia,nãoétodaviacompatível comomundosocialda doxa.Émuitomaisexigente.

UmavezqueaAletheia ésentidacomoumvalorradicalmenteseparado dosoutrosplanosdoreal,umavezqueelaédefinidacomoSerem suaoposiçãoaomundoconfusoeambíguoda Doxa,o“mestreda verdade”dasseitasfilosófico-religiosastomamaisconsciênciada distânciaqueosepara,aelequesabe,quevêediza Aletheia,dos outros,doshomensquenadasabem,dosinfelizesagitadospelofluxo incessantedascoisas.17

Écertoquenãoémuitodemocrático.Paradoxalmente,nãohá nadademaisórficodoquea Metafísicadatragédia,deLukács.O rumorsegundooqualoascetismoseria,nofundo,“contraavida”, éjusto.Oascetismoé,comefeito,contraa vida enquantoesta

éumaanarquiadolusco-fusco:nadaserealizatotalmenteejamaisalgo termina.[…]Tudosedesenrola,tudosemisturasemfreioeforma umaaliançaimpura;tudoédestruído,tudodesmantelado,nadajamais floresceatéavidaverdadeira.Viver:époderviveralgoatéofim.18

Acidadepodetoleraressarelaçãocoma vida,masnãopode aceitá-la.Quemquerqueserelacionecomohorizontedaprópria finitudecessadesergovernável.Paraquemseagarraaosentido nadaémaisnegociável.Asugestãosocialnãoresisteàplenapresençaasi,aomundo–aomundodavigíliacomoaodossonhose dosdefuntos.OuparadizercomLandauer:“ocaminhoquedeve-

17.MarcelDetienne, LesmaîtresdevéritédanslaGrèceantique.Paris:LaDécouverte,1990, p.136[ed.brasileira: OsmestresdaverdadenaGréciaarcaica,trad.IvoneC.Benedetti. SãoPaulo: wmf MartinsFontes,2013,p.147].

18.GyörgyLukács, L’âmeetlesformes.Paris:Gallimard,1974,p.247[ed.bras.: Aalmae asformas,trad.RainerPatriota.BeloHorizonte:Autêntica2015].

mosempreenderparachegaremcomunidadecomomundonão sedirigeaoexterior,masaointerior.Quempoderiacompreender integralmenteumaflor,compreenderiaomundo”.19

Seahistóriaéumpesadelodoqualalgunsprocuramdespertar,acivilizaçãoéumadoençadaqualpoucosparecemquerer securar.Há,alémdisso,umafragilidadedoserespiritualqueo destinaaoextermínio.Asformasdevidamaissensíveissãotambémasmaisdelicadas.Portodaparteparecequeasespéciesmais monstruosassãotambémasmaisinvasivas:issovaleparanossos diastantonanaturezacomoentreossereshumanos.Issopara dizeroquantoaquestãocentraldopresenteé metapolítica,“ética” ou“antropológica”.Arecuperaçãodapossibilidadeórficaétodo ocontráriodeum“retornonativo”aosgregos.Agoraqueestáse fechandoaórbitafataldacivilização,trata-seantesdaexploração deumapossibilidadeoriginária,mascontinuamentedifamada. Umaconstituiçãopolíticanãotempossibilidadealgumadesair deumdesastrequeédenaturezaantropológicae,nofundo,patológica.Conformeacurapodeserapenassingular–“adoençaé realmente,casoacaso,aocasião,paraquemasofre,demedir-se comsuaverdade”20 –ou,antes,namedidaemquenãohácura semdesejosingulardecura,avidaascéticanãoprovémdeuma fantasiaaristocrática:éumanecessidadegeral.Outalvezsejaprecisoimplorarpelacausadecertooperaísmoparaumaaristocracia demassa.“Ocaminhodasalvaçãoéocaminhodoesforço;éo caminhodeMelete,dalonga askesis,doexercíciodememória”.21 Seafilosofiamantémaindaumarelaçãocomacura,éapenasporquevivercomconcessõeserradasemexcessofatalmentelevaà

19.GustavLandauer, Lacommunautéparleretrait.Saint-Loup-de-Naud:Éditionsdu Sandre,2009,p.40.

20.ViktorvonWeizsäcker,“MedizinundSeelsorge”in: GesammelteSchriften V.Frankfurt: Suhrkamp,1987,p.251.

21. MarcelDetiene, LesmaîtresdevéritédanslaGrèceantique,op.cit.,p.133[trad. bras.,op.cit.,p.143].

doença.Éevidentequeaexperiênciadoscírculosórficosfazparte datradiçãodosvencidos.Sobreviveuaténósporalgunscanais subterrâneos,graçasasuaprópriarepressão,doqualosarquivos conservaramtraços.Háumséculo,éprecisoreconhecerqueErich Ungernãoestavaerradoquandoescrevia,em Políticaemetafísica, que“asubsistênciadeordenamentoshumanosnãocatastróficos –qualquerpolíticanãocatastrófica–nãoépossívelsenãodemaneirametafísica”.Edesdeentãonemsempreseviu“emergirdos elementosefatoresdaexperiênciapolíticapresenteepassadaum ordenamentoeticamentesatisfatóriodacoexistênciahumana”.22

SabemosqueUngerviaumasalvaçãoapenasnaconstituiçãode uma“universitas metapolítica”,quepormeiodaafirmaçãodeuma intensidadepropriamenteespiritualdariaosinaldeumaruptura comascoletividadesmetafóricas,inconsistentes,taiscomoas sociedadeseasnações.Pensavanumagrandemigraçãoqueconduziriaàruínadefinitivadasunidadespolíticasexistentes,numa subtraçãodaspessoassã(nta)sdo ethos democráticoecidadão. Em1979,enquantoseconsumaa“crisedohomemsocial”(Camatte)eenquantoaItáliaésufocadaporumainsurreiçãometafisicamenteinadimplente,Carchiasugereaviaórficacomosaída possíveldoreinodabiopolíticarealizada.Háuma“Vidaforada vida”.23 Háumpolíticosem pólis.“Esisthier.wahrhaft,wases niegegebenhat”–“Aquiéverdadeoquejamaisaconteceu”.24

juliencoupat

22.ErichUnger, Politicaemetafisica,Nápoles:EdizioniCronopio,2009,pp.9-10[ed.original PolitikundMetaphysik.Berlim:DavidVerlag,1921].

23.MartenBjörk, LifeOutsideLife:thePoliticsofImmortality, 1914-1945,Diss.Gotinga: UniversityofGothenburg,2018.

24.GianniCarchia, ZurPhysiognomievonCarloMichelstaedter,“akzente”,2,abr.1978.

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