Skip to main content

Natura Dedálea: a cosmologia venusiana de Lucrécio (Marco Antonio Valentim)

Page 1


NATURA DEDÁLEA

A COSMOLOGIA VENUSIANA DE LUCRÉCIO

NATURA DEDÁLEA

A COSMOLOGIA VENUSIANA DE LUCRÉCIO

Marco Antonio Valentim

© Marco Antonio Valentim, 2026

© n-1 edições, 2026

ISBN 978-65-6119-081-7

Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada.

Editores

Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes

Coordenação editorial

Gabriel de Godoy

Assistência editorial

Inês Mendonça

Preparação

Nicole A. Marcello

Revisão

Graziela Marcolin

Projeto gráfico

Danowski Design

Diagramação e capa

Juliana Cornacchioni

A reprodução parcial deste livro sem fins lucrativos, para uso privado ou coletivo, em qualquer meio impresso ou eletrônico, está autorizada, desde que citada a fonte. Se for necessária a reprodução na íntegra, solicita-se entrar em contato com os editores.

1a edição | maio, 2026 n-1edicoes.org

REVIRAVOLTAS

NATURA DEDÁLEA

A COSMOLOGIA VENUSIANA DE LUCRÉCIO

Marco Antonio Valentim

Coordenação:

Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski

Quando o mundo se torna a cada dia mais hostil, é preciso desviar a flecha do tempo, fazer com que ela chegue ao outro lado do futuro. Uma reforma agrária do pensamento: uma outra cartografia dos territórios existenciais, uma outra geologia do transcendental. Os textos da Reviravoltas – uma coleção que, como diria o filósofo, inclina, sem necessitar – convidam os leitores-viajantes a se juntar à tarefa que hoje se impõe a todos nós: a de despredizer a catástrofe e retomar o sentido da terra.

Ao corpo discente do curso de graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná, como forma de agradecimento pelos anos de aprendizagem.

La matière ne se laissera point déborder par le vide. L’espace ne deviendra pas son cachot. Elle saura l’envahir pour le vivifier.

Auguste Blanqui, L’éternité par les astres (1872)

The Beauty of the House is immeasurable; its Kindness infinite.

Susanna Clarke, Piranesi (2020)

Nota prévia sobre De rerum natura

De rerum natura é aqui referido de acordo com a convenção estabelecida: drn livro (em algarismos romanos), versos (em algarismos arábicos). As edições e traduções consultadas foram as seguintes:

· Sobre a natureza das coisas. Trad., notas e paratextos de Rodrigo Tadeu Gonçalves. Edição bilíngue. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.

· Da natureza. Trad. e notas de Agostinho da Silva. São Paulo: Abril Cultural (coleção Os Pensadores), 1980.

· A natureza das coisas. Tomos i e ii. Trad. de Antonio José de Lima Leitão. Lisboa: Typographia de Jorge Ferreira de Mattos, 1851.

· Da natureza das coisas. Trad. de Luís Manuel Gaspar Cerqueira. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

· On the Nature of Things. Trad. de w. h. d. Rouse. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library 181), 1992.

· De rerum natura. Ed. de Cyril Bailey. Oxford: Oxford University Press, 1921.

· On the Nature of Things. Trad. de Cyril Bailey. Oxford: Clarendon Press, 1910.

· De la nature des choses . Trad. e notas de Lagrange. Paris: Delongchamps, 1823.

Quando não indicado em nota, a tradução dos textos citados é minha, inclusive no caso de livros modernos em língua estrangeira.

Prefácio

Este livro surgiu de uma disciplina ministrada no curso de graduação em Filosofia da ufpr no segundo semestre de 2021. Sua concepção e primeira elaboração se deram durante o “período especial” de ensino remoto devido ao confinamento pandêmico. Face ao desafio imposto por uma circunstância tão excepcional, optei por ministrar aulas expositivas assíncronas, entremeadas por aulas síncronas dedicadas à conversa com as e os estudantes tanto sobre temas, questões e bibliografia do curso quanto sobre a situação calamitosa vivida por todas as pessoas ali “presentes”. Para cada aula assíncrona redigi um texto a ser apresentado, com leitura e comentários feitos de improviso, pautando as aulas síncronas pelos questionamentos e demandas das e dos estudantes. Esse procedimento foi a solução que encontrei para as enormes dificuldades de ordem técnica, didática e anímica que a circunstância colocava. Passávamos por uma catástrofe social inédita, resultante, no caso brasileiro, da combinação nefasta entre o desastre sanitário mundial e a política de extermínio adotada por um governo ilegítimo e miliciano – o que, como se sabe, teve por consequência mais devastadora a morte de centenas de milhares de pessoas no país, muito além do “número” supostamente inevitável. Ora, qual seria o propósito de estudar filosofia em um contexto no qual a grande preocupação comum era sobreviver ao contágio letal e à miséria social?

Àquela altura, quando toda esperança era demasiado precária, ignorar a situação com aulas “normais” – e, pior, impondo exigências formativas e avaliativas que só sobrecarregariam ainda mais as e os estudantes – era algo que estava completamente descartado. Por outro lado, submeter a catástrofe vivida a um escrutínio crítico a fim de determinar suas causas e efeitos significava nada menos que confabular “verdades” potencialmente mortíferas. Até então, nunca ficara de tal modo evidente para mim, na condição de professor de filosofia, que uma verdade capaz de matar jamais poderia pretender-se como verdadeira, e que resulta tão “falsa”, ou seja, destrutiva, quanto a mentira pérfida e a negligência intransigente. O desafio lançado era, pois, duplo: contra o isolamento e o adoecimento generalizados, proporcionar remotamente, por via de estudo compartilhado, uma experiência anímica de coletividade e, ao mesmo tempo, favo-

recer ao máximo, por meio de “exercício espiritual”,1 o potencial curativo do pensamento e da imaginação.

Sem a garantia de conseguir corresponder de maneira suficiente ao desafio, recorri então ao que se apresentava a mim, naquele momento, como phármakon filosófico propício a tanto: De rerum natura, de Tito Lucrécio Caro. Mal começara o estudo desse poema voltado à cura da “cosmofobia”,2 quando me encontrei na circunstância ou mesmo na necessidade de colocá-lo de fato em uso, como campo imagético-conceitual para um experimento intempestivo de reconexão do pensamento humano com o cosmos, um exercício de “consciência cósmica”. 3 Por várias razões internas e externas à obra de Lucrécio, a escolha não poderia ser mais oportuna. Se o desastre pandêmico atual faz inegavelmente parte da catástrofe socioambiental em curso na Terra, e se essa catástrofe tem por condição antrópica principal a “alienação” cósmica do pensamento, 4 dificilmente encontraríamos na paisagem acidentada da filosofia ocidental uma fonte textual tão abundante para conceber algumas das causas anímicas e consequências materiais dessa alienação destrutiva – fonte que, apesar da enorme diferença de mundo, ou justamente graças a ela, ilumina nossa situação no mesmo ambiente cósmico-noético.

Todavia, o propósito do curso não era permitir uma tomada de consciência intelectual, mas antes instigar certo júbilo espiritual – sob a guia de Lucrécio, cujo desejo primordial parece ser o de promover, em um mundo arrasado por guerras e desastres, a saúde do ânimo graças à sensação extática da “natureza das coisas”:

Pois, uma vez que a tua razão, dessa mente divina, vociferando, explica a natureza das coisas, fogem terrores do ânimo, e as muralhas do mundo abrem-se, e tudo eu vejo movendo-se ao longo do inane. Nume divino aparece, bem como suas sedes quietas, as que não tocam os ventos nem nuvens espargem de chuva, nem a neve espessada em acre geada as desonra,

1 Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga, trad. bras. de Flávio Fontenelle Loque e Loraine de Fátima Oliveira. São Paulo: É Realizações, 2014, p. 20.

2 Antônio Bispo dos Santos, A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu; Piseagrama, 2023, pp. 19-29.

3 Pierre Hadot, Exercícios espirituais e filosofia antiga, op. cit., pp. 263-264 e 272.

4 Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, pp. 16-17.

branca, caindo, mas sempre as cobre um inúbilo éter, que lhes sorri com vastidão do lume difuso.

Todas as coisas provê, além disso, a natura, e nenhuma coisa afasta do ânimo a paz, em era nenhuma. Mas, ao contrário, em parte alguma se veem os templos do Aqueronte e nem a terra impede se veja tudo que é feito abaixo de nós ao longo do inane.

Com tais coisas, certo prazer divino me toma e veneração, pois natura revela-se tão manifesta por teu poder, que se deixa avistar de todos os lados. 5

Este livro aposta assim que o sentido e o método da questão cosmológica em De rerum natura são, respectivamente, antes que ético e racional, sobretudo ecológico e mágico. Não se almeja com isso a consolação imperturbável da alma, mas a geração dinâmica do mundo. Toda teoria filosófica que abre mão do potencial mágico-poético do pensamento, genuinamente venusiano, abdica igualmente do poder espiritual de transformação gerativa das coisas. Em Lucrécio, encontramos um exemplo cabal de filosofia como “magia natural”,6 em que a faculdade especulativa está virtuosamente subordinada à função metabólica do pensamento, quer dizer, à capacidade de troca incessante com o ambiente cósmico em que ele se situa como parte agente. E não é disso que temos necessitado com máxima urgência? Arrisco-me a supor que nunca houve tanto trabalho espiritual a ser feito para garantir condições materialmente tão fundamentais de vida e existência na Terra.

Filósofo da “physis telúrica”,7 vate da “grande mãe dos deuses, das feras / mãe, genetriz singular de nossos corpos humanos”, 8 Lucrécio é um semeador dos primórdios:

Pois não foi, como creio, um cordão dourado que as raças dos mortais fez descer dos céus superiores aos campos, nem o mar ou as ondas que batem nas rochas criaram, mas própria terra gerou-as, a elas dando alimento.

5 drn iii, 14-30, trad. de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

6 Frances A. Yates, Giordano Bruno e a tradição hermética, trad. bras. de Yolanda Steidel de Toledo. São Paulo: Cultrix, 1987, pp. 252-253; 275-278; 295; 357 e 495-496.

7 Gilbert Simondon, “Histoire de la notion d’individu” in: L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information Grenoble: Jérôme Millon, 2013, p. 403.

8 drn ii, 598-599, trad. de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

E, além disso, os frutos brilhantes e os ledos vinhedos, por vontade própria primeiro criou ela própria para os mortais, e lhes deu cereais e ledas pastagens, estas que agora mal crescem, mesmo por nós cultivadas; nós exaurimos os bois e as forças dos camponeses e desgastamos o ferro nos campos que mal alimentam, tanto que poupam produtos e aumentam-nos todo o trabalho.

Já o velho ao arado suspira e balança a cabeça lamentando que os grandes labores em nada resultam, e, ao comparar o tempo presente aos pretéritos tempos, louva sem cessar as fortunas dos antepassados. 9

9 drn ii, 1153-1167, trad. de Rodrigo Tadeu Gonçalves.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Natura Dedálea: a cosmologia venusiana de Lucrécio (Marco Antonio Valentim) by n-1 edições - Issuu