À Monique Wittig, Arizona À petit Q, Las Vegas
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Prefácio por Marie-Hélène Bourcier
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Contrassexualidade O que é a contrassexualidade? Princípios da sociedade contrassexual Contrato contrassexual (modelo)
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Práticas de inversão contrassexual Dildotectônica + Dildotopia Prática I: O ânus solar de Ron Athey Prática II: Masturbar um braço Prática III: Como fazer um dildo-cabeça gozar
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Teorias A lógica do dildo ou as tesouras de Derrida Breve genealogia do orgasmo ou o vibrador de Butler A industrialização dos sexos ou Money makes sex Tecnologias do sexo
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Exercício de leitura contrassexual Da filosofia como modo superior de dar o cu
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Anexo Dildo Prótese, mon amour
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Nota da autora Agradecimentos Bibliografia
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Sobre a autora
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Prefácio
por Marie-Hélène Bourcier
Não se nasce mulher, torna-se. Simone de Beauvoir, 1946 O sujeito designado (lésbica) não é uma mulher, nem econômica, nem política, nem ideologicamente. Monique Wittig, 1980 Prefiro ser um ciborgue do que uma deusa. Donna J. Haraway, 1991
Desde suas primeiras participações em diferentes seminários da École des Hautes Études em Ciências Sociais de Paris, em 1999, Preciado se faz notar pela sua maneira de tratar os textos filosóficos — para nós ainda inédita —, por seu humor corrosivo, por seu rigor e por seu conhecimento dos textos feministas. Não há um autor clássico ou moderno que ela não cozinhe no fogo brando do feminismo ou da teoria queer até despedaçá-lo. Alguns acreditarão ver nessa espanhola com sotaque americano o sintoma dos efeitos corrosivos do pós-feminismo sobre as disciplinas clássicas, outros chegarão a dizer que o que Preciado faz com a filosofia se parece com o que o punk ou mesmo o rap fizeram com a música.
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Seu trabalho se caracteriza por uma enorme capacidade de deslocamento, e não só geográfico. Preciado insiste nas contradições discursivas e epistemológicas que marcaram a recente reflexão sobre a política da sexualidade e dos gêneros não só no feminismo, como também, e com o mesmo rigor, na filosofia francesa e nas teorias contemporâneas do corpo e da performance. Sem dúvida, um dos debates políticos e teóricos mais intensos dos últimos vinte anos foi marcado pela crítica feminista da tradição teórica e metafísica ocidental, que se viu rapidamente atravessada por uma corrente chamada pós-feminista (Butler, Sedgwick, Moraga, Haraway etc.) muito inspirada pelas leituras americanas de Lacan, Derrida, Lyotard ou Deleuze, assim como pela utilização da noção de “censura produtiva” elaborada por Foucault. Tributário da concepção foucaultiana de poder, e das propostas que dela derivam em matéria de crítica local dos regimes de produção de identidade, o questionamento do sujeito político do feminismo empreendido pelas pós-feministas americanas consistiu, entre outras coisas, em sacudir os fundamentos (e com isso a própria noção de fundamento) da teoria e da política da identidade e em promover opções de resistência à norma: não essencializantes, menos excludentes, atentas aos efeitos totalizadores da norma e articuladas mais a partir das noções de diferença ou de margem do que de identidade. O pós-feminismo dos anos noventa insiste, assim, na urgência de conceber o sujeito e o agente político não como um centro autônomo de soberania e conhecimento, mas como uma posição instável, como o efeito de constantes renegociações estratégicas de identidade. Finalmente, a crítica pós-colonial (Spivak, Bhabha, Mohanty etc.) nos alerta contra a tentação de globalizar certas identidades sexuais e de renaturalizar uma identidade homogênea de referência, como a feminina, burguesa e branca, por exemplo.
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A produção teórica de Beatriz Preciado se insere nessa tradição recente do feminismo americano ou da teoria queer que a autora encontra no New School for Social Research, nos circuitos queer do Clags (Centro de Estudos Gays e Lésbicos) de Nova York e na Universidade Princeton. Os agitados debates da década de noventa conduzem rapidamente a amálgamas entre pós-feminismo e pós-modernismo, ou pós-feminismo e desconstrução. Poderíamos ficar tentados a situar os textos de Preciado nessa zona pós-moderna ou pós-feminista se ela própria não tivesse trabalhado para desmascarar os binarismos enganosos que se escondem por trás da oposição pré/pós, como a tentação de compreender as mudanças da crítica de forma geracional e temporal, por exemplo, como se se tratasse de um simples processo evolutivo e, portanto, uma vez mais, natural, gerador, sexual. De fato, “pós” não é contra. O trabalho de desconstrução contrassexual que aqui se apresenta, alinhado com projetos alternativos de modernidade, como o empirismo radical ou o espinosismo, rompe com toda uma série de binômios oposicionistas: homossexualidade/heterossexualidade, homem/ mulher, masculino/feminino, natureza/tecnologia, que serviram até agora não só de fundamento da filosofia moderna, mas também como centro de reflexão das teorias feministas, assim como de certas teorias gays, lésbicas e inclusive queers. Neste Manifesto, desenha-se uma relação diferente entre a filosofia e os estudos do gênero e da sexualidade. Beatriz Preciado utiliza com agilidade os recursos da desconstrução derridiana, especialmente todas aquelas estratégias de leitura que consistem em identificar fenômenos de “contaminação” textual que questionam os limites do discurso filosófico e de suas fronteiras, bem como suas relações com os discursos médicos, legais ou técnicos. Assim, por exemplo,
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aprendendo com a utilização que Derrida fez da “escritura” ou do “suplemento”, Preciado utiliza o tropo marginal do dildo1 para reorganizar todo um conjunto de textos e técnicas em torno da produção da identidade sexual. Pode-se citar ainda outro gesto contrassexual como indicador da relação que a autora mantém com a desconstrução. Isto é, o fato de que sua produção textual, como prática mesma de leitura-escritura, é um resultado de tradução-produção. Preciado sabe prestar atenção aos transportes textuais transnacionais. Seria tão falso e nacionalista dizer que a edição francesa deste texto foi uma “tradução do inglês” como dizer que a edição em espanhol é uma tradução do francês.2 Na realidade, a própria produção das novas teorias queer e pós-coloniais é o resultado de numerosos processos de viagem, deslocamento e tradução. Nesse sentido, o espaço contrassexual é também um espaço contratextual em que não passa batido o fato de que a tradução é uma operação política de leitura. Um espaço no qual se reafirma também o direito à reescritura, à ressignificação e à “deformação” das grandes referências filosóficas.3 É preciso aclamar a força com a qual Beatriz Preciado empreende a desconstrução das grandes ficções filosóficas francesas e as leituras transnacionais que esta suscita, lembrando-nos, aliás, que todo texto, todo discurso, 1 A fim de ser coerente com a determinação utilizada por Beatriz Preciado, optou-se por usar o termo em inglês, dildo, por este ser o mais utilizado na cultura sexual lésbica atual. Para tanto, cf. “Nota da Autora” (p. 213) e o texto “Dildo” (p. 197), presente no “Anexo”. [N.T.] 2 A presente edição em português foi traduzida da versão em espanhol, revista e aumentada pela autora. [N.T.] 3 É inclusive surpreendente ver como novas traduções de Deleuze ou de Derrida aparecem na França quando ainda imploramos para que se traduzam literalmente alguns textos muito úteis que, aliás, deveriam ter sido postos à disposição do público e ter circulado já há muito tempo se os grandes intelectuais missionários e adeptos do primeiro nível de leitura escolástica não representassem seu habitual papel de deixar tudo em marcha lenta.
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toda teoria é contrabando. Este é um dos ensinamentos do Manifesto: não existem textos originais, como tampouco há línguas nacionais puras às quais estes possam ser remetidos. Toda leitura já é um processo de tradução. Essa proximidade com a desconstrução não a impede de ecoar a radicalidade política de Deleuze e Guattari, assim como de muitas das análises genealógicas de Foucault. Mas quando Preciado se aproxima de Deleuze ou de Foucault, não o faz enquanto discípula, tanto que suas leituras se movem como verdadeiros marimbondos que exigem, daqueles textos dos quais mais aprenderam, que prestem contas. Alguns dos leitores deste Manifesto experimentarão um prazer inaudito ao ver Foucault ou Deleuze aferroados com conceitos tomados do lesbianismo radical ou da crítica queer. Por exemplo, com relação a Foucault, outro gesto contrassexual notável consiste no reajuste das noções de tecnologia e de tecnologias do sexo — um movimento que Teresa de Lauretis já havia empreendido ao analisar a representação cinematográfica como uma “tecnologia de gênero”, e que agora Preciado leva à sua máxima produtividade, aplicando-o às novas biotecnologias de produção e reprodução do corpo. Desse modo, este Manifesto enfatiza exatamente aquelas zonas esquecidas pelas análises feministas e queer: o corpo como espaço de construção biopolítica, como lugar de opressão, mas também como centro de resistência. Em sua declinação política, as novas tecnologias da sexualidade que aqui são propostas mostram que o corpo é também o espaço político mais intenso para levar a cabo operações de contraprodução de prazer. Perfila-se aqui uma filosofia do corpo em mutação, demandando formas de hipersexualização e de hiperconstrutivismo do corpo e de seus órgãos sexuais em total ruptura com as soluções filosóficas e políticas do feminismo tradicional. Todos
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os impensáveis do feminismo se encontram no Manifesto: os brinquedos sexuais, a prostituição, a sexualidade anal, a atribuição do sexo nas crianças intersexuais, as operações de mudança de sexo, as subculturas sexuais sadomasoquistas ou fetichistas. Preciado convoca todos eles como “os novos proletários de uma possível revolução sexual”. Se os novos gurus da cirurgia cosmética que prospera em nossas democracias liberais poderiam nos fazer acreditar que todos somos pré-op, corpos “livres” para nos transexualizarmos, o que nos diz Beatriz Preciado, de maneira instrutiva e espantosa, é que todos nós já estamos mais ou menos operados/as por tecnologias sociais bem precisas, dito de outro modo, que todos somos pós-op:4 razão pela qual nos valeria mais apontarmos para certas formas de resistência contrassexuais do que continuar nostalgicamente nos agarrando às velhas ficções de “natureza”. Thanks God(e),5 o século se anuncia como um tempo de mudanças nos discursos e nas práticas da sexualidade. Na França, os travestis colocaram mãos à obra. Nos últimos anos, vimos o desenvolvimento do ACT-Up — Aids Coalition to Unleash Power [Coalisão da Aids para liberar o poder], de diversas editoras gays e lésbicas, de uma pós-graduação em estudos de gênero, e agora talvez de um centro de arquivos queer... Pela primeira vez os gays, as lésbicas e os transexuais começam a escrever sua própria história. Nesse processo, a força e a agilidade dos textos de Preciado têm um papel 4 Pós-operatório: designa, segundo o discurso médico, o estatuto de uma pessoa transexual depois da ou das — aqui as coisas se complicam, especialmente no caso das F2M, mudanças de mulher para homem — operações cirúrgicas de reatribuição de sexo. 5 Neste caso, optamos por não traduzir o termo em inglês gode por dildo, como aparecerá no resto do livro, pois o jogo de palavras entre thanks God [graças a Deus] e thanks gode [graças ao dildo] se perderia. A etimologia do termo fica suficientemente explicada pela autora na segunda nota de rodapé do texto “Contrassexualidade” (p. 19) [N.T.]
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indiscutível. Esperemos que a tradução deste texto provoque efeitos semelhantes nos discursos e nas práticas, tanto intelectuais como sexuais, de seus futuros leitores. 8 de março de 2000
Marie-Hélène Bourcier é socióloga e uma das figuras mais expressivas do militantismo queer na Europa. Tradutora de Monique Wittig e Teresa de Lauretis, foi uma das responsáveis por introduzir a teoria queer na França. É autora de diversos artigos e livros sobre cultura, feminismo, pós-feminismo e subculturas sexuais e pornô, dentre os quais pode-se destacar Queer Zones e Queer Zones 2. Foi responsável pela tradução para o francês deste Manifesto contrassexual.
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Este manifesto não se parece com nada que você já tenha lido. Aqui, o aclamado filósofo espanhol Beatriz Preciado dinamita, com seu humor corrosivo e rigor teórico, tudo aquilo que se entende por sexualidade. Os estereótipos homem/mulher, homo/hétero, natural/ artificial vão progressivamente sendo despedaçados através das análises que o autor faz sobre o dildo, a história do orgasmo e a atribuição de sexo. Se de início é curiosamente divertido, a cada capítulo aprofunda-se nas contradições relacionadas às noções contemporâneas de gênero e desejo. É inspirado pelo pensamento de Michel Foucault, Gilles Deleuze, Judith Butler e Jacques Derrida que o autor inaugura a contrassexualidade: uma teoria do corpo que é, também, estratégia de resistência ao poder.
ISBN 9788566943139
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