Skip to main content

Entre Nise e Lygia: de que os sonhos se tornam realidade? (Lula Wanderley)

Page 1


ENTRE NISE E LYGIA

De que os sonhos se tornam realidade? Entre Nise e Lygia: a criação do Espaço Aberto ao Tempo © Lula Wanderley © n-1 edições, 2026

isbn 978-65-6119-082-4

Embora adote a maioria dos usos editoriais do âmbito brasileiro, a n-1 edições não segue necessariamente as convenções das instituições normativas, pois considera a edição um trabalho de criação que deve interagir com a pluralidade de linguagens e a especificidade de cada obra publicada.

editores Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes direção de arte Ricardo Muniz Fernandes coordenação editorial Gabriel de Godoy assistência editorial Inês Mendonça preparação Rogério Duarte revisão Nicole A. Marcello projeto gráfico e capa Juliana Cornacchioni

A reprodução parcial deste livro sem fins lucrativos, para uso privado ou coletivo, em qualquer meio impresso ou eletrônico, está autorizada, desde que citada a fonte. Se for necessária a reprodução na íntegra, solicita-se entrar em contato com os editores.

1ª edição | abril de 2026 n-1edicoes.org.

PREFÁCIO

O livro que se segue, agora publicado, é um incrível e importante relato de um muito singular agente de saúde social e coletiva do planeta Terra – estamos no ano de 2026, em meio à travessia de um período de mudanças e transformações radicais para nossas vidas individuais e coletivas. Lula Wanderley – artista, terapeuta, pensador do mundo afetivo e sensorial – nos oferece um documento contundente, rigoroso e comovente acerca de seu mergulho e envolvimento nas intensidades do sofrimento humano e de seus esforços em reconhecer e compartilhar a potência dos corpos neurodivergentes, portadores de aguda sensibilidade e particular inteligência, demandantes de socialização e afeto. Aqui poderemos acompanhar a trajetória notável, de alguém que cuidadosamente evitou caminhos e percursos gerais e genéricos, para seguir pelas frestas às quais foi sendo, pouco a pouco, conduzido – e que soube acolher com precisão –, reconhecendo, a cada novo desvio, as oportunidades que abriam mundos portadores da “alegria de viver, alegria de criar” (Mário Pedrosa). Trata-se de uma experiência rigorosa e de um mergulho profundo – vividos à flor da pele – no arranque para fora dos vórtices da incomunicabilidade subjetiva, em seu lançamento para a vida conjunta; no sentido da compreensão da interioridade humana enquanto pulsão pertencente ao território comum do grupo, da rede, das comunidades, da sociedade, como linha que atravessa os corpos articulados entre si pelo fluxo dos afetos. Corpos em contato com corpos, mas também com objetos e, sobretudo, mobilizados para fora de si, buscando o gozo dos encontros e do fazer conjunto.

Lula Wanderley é um raro inventor de instituições, o que não é pouco e deve ser celebrado: a partir das linhas de fuga da burocracia psiquiátrica e de seus métodos portadores de violência e submissão aos padrões dominantes da gestão biomédica e autoritária, foi se impondo um caminho coletivo de modificação dos padrões de acolhimento de clientes em sofrimento psíquico – sim, um processo instituinte é sempre coletivo, pois não se trata de uma simples ação de agência de um sujeito qualquer, em isolamento. Neste livro, o Espaço Aberto ao Tempo é descrito em seu processo de invenção e criação, nascido de “um encontro espontâneo de ‘exilados’” e transformado em um magnífico aparelho terapêutico, produtor de saúde a partir de “ambientes criativos + afetivos”. Lula é, sobretudo, um agente comprometido com a longevidade de cada gesto empreendido em sua tarefa de reconstrução permanente dos caminhos e modos de ação. Seu investimento, verá o leitor, é na opção contínua de ocupar os espaços intersticiais, onde quer que se abram, crise após crise – habitar o espaço entre (lição aprendida com Lygia Clark e seu conceito sensível de “linha orgânica”) como opção de estar sempre em trânsito, aproximando e trazendo para o contato, em superposição, o aparentemente distante. Para esse gesto, não basta estar vivo, mas é preciso exercitar continuamente o corpo e o pensamento a partir da delicadeza do encontro sensível, evocando a intensidade radical da sensorialidade, do reconhecimento do outro em sua complexidade e diferença – e é preciso compreender (e aprender) como Lula Wanderlei foi capaz de atravessar os territórios da arte, do cuidado, da clínica e do acolhimento terapêutico com singular suavidade, construindo um amálgama de sabedoria a partir de seu convívio e aprendizagem com Nise da Silveira, Mário Pedrosa e Lygia Clark. Claro, temperando tal constelação com a respiração experimental do Poema-Processo (Wlademir Dias-Pino, Neide Sá, Álvaro de Sá) e a irreverência/humor de Paulo Bruscky.

Não se trata apenas de um investimento incessante contra o sofrimento humano; impossível cessar tais fluxos, na medida em que compõem a condição de estar vivo, em variados graus e intensidades, menos ou mais disruptivos. Mas, como nos ensina Lula Wanderley, que seja relevante transformá-los em clarões de inteligência e invenção, impulso desafiador à normalidade regular e previsível da vida cotidiana. Talvez seja esse o mais ambicioso objetivo da aliança entre alegria, prazer, sensorialidade e inteligência: refabricar os corpos no registro da saúde coletiva, no que aí existe de radicalidade política e invenção artística. “Construir mundos como quem faz um poema”, escreve Lula, mas que possam oferecer refúgios, não como isolamento ou encarceramento, mas como locais a que “se escapa para voltar”, onde se processam religações com todas as coisas, e o calor do afeto produz aquele sentido que faz com que a vida recupere o valor de ser vivida, na continuidade de “um exercício de leveza, liberdade e prazer” – é no vazio de uma crise, no reconhecimento de seus potenciais, que se produzem novas linguagens; ou seja, qualquer gesto de cura (parcial, transitória) se dará a partir dos horizontes que dali se abrem e não no fechamento para o já estratificado.

Este livro ensina que, para criar uma instituição, um mundo novo deve já estar vigendo, acontecendo, impondo sua presença – mas não há a facilidade da simples transposição, não é possível transportá-lo, transformá-lo mecanicamente em ambiente coletivo, de invenção social: há um desafio que se impõe, já que o registro que se requer é aquele da fabricação e da invenção. A experiência institucional e de vida construída pelo eat nos emociona em sua efetividade, no afrontamento à burocracia da saúde funcional e na força da descoberta de conexões – em sua sábia abertura plural e múltipla – instauradoras da ambiência coletiva, em sua potência alegre que “afronta o presente”. Lula Wanderley nos conduz pelo percurso por ele

trilhado, em conjunto com colegas e clientes, em que soube magnificamente multiplicar a principal lição deixada a ele por Nise da Silveira: “Faça de sua sensibilidade o principal instrumento de trabalho.” Nas páginas que se seguem, acessamos sua jornada alquímica em que afeto, inteligência e alegria são as ferramentas mobilizadas das forças de invenção e criação, em uma trajetória tão importante para todos nós, e nos que ensina que “para isso, é preciso burlar as normas reguladoras vigentes”.

Basbaum

DIÁLOGOSDOAGORA

Neste livro conto e reflito sobre a história do Espaço Aberto ao Tempo (eat). Não se trata de um livro de memórias, mas de um escrito sobre o antes em diálogo com o agora, já que o depois é incerto. Não gostaria que De que os sonhos se tornam realidade? fosse uma leitura para recordar um projeto que julgamos “morto”; seria como “matá-lo” ainda mais. Prefiro, por meio das histórias que conto, afrontar o presente para tentar descobri-lo ainda vivo. O eat ainda segue um caminho, mas, atualmente (a partir de 2020) transformado em um Centro de Atenção Psicossocial (caps), é tolhido pela sombra de um modelo biomedicamentoso que retorna e avança sobre os novos serviços da saúde mental contemporânea.

De que os sonhos se tornam realidade? é também um livro para comemorar os 36 anos do eat. Como hoje há muitas publicações e eventos citando essa composição arte/clínica (principalmente no exterior), devido às nossas experiências com a obra de Lygia Clark, quero, publicando estas tantas folhas, deixar claros alguns fatos históricos e apagar certos mitos e preconceitos.

O Espaço Aberto ao Tempo foi uma construção de esforço conjunto: nunca teve só um idealizador. Se, no início, contou com a iniciativa e a estruturação ideológica formulada por Carmen Lúcia1 e por mim, logo se tornaria uma criação

1 Carmen Lúcia Bragança Sobreira, terapeuta ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro ii . Seu trabalho teve uma importância crucial na criação do Espaço Aberto ao Tempo.

coletiva que somou influências diversas. O eat nasceu do movimento contínuo de uma enfermaria psiquiátrica tradicional até transformar-se em algo semelhante ao que chamamos hoje de Centro de Atenção Psicossocial: a Enfermaria Masculina 1 (m1) do Hospital Gustavo Riedel, onde Carmen liderava um pequeno grupo que resistia a uma avalanche conservadora, muito comum na época em que começamos a perceber os hospícios como inadequados, trazendo contradições para dentro do trabalho; local em que fui, quando de uma punição político-administrativa, obrigado e constrangido a trabalhar durante um período repressor no Ministério da Saúde.  Era o final da década de 1980. A minha presença na enfermaria m1 e nossas primeiras atitudes em direção a algo novo atraíram diversos funcionários que, na época, sofriam as mesmas perseguições ideológicas e, tomando a enfermaria como refúgio, criaram, assim, a primeira equipe estável, sem a qual não haveria o processo de criação do eat. Numa visão romanceada, podemos dizer que o Espaço Aberto ao Tempo nunca foi escrito, nasceu de um encontro espontâneo de “exilados” e, talvez, por isso, tornou-se independente e arrojado para a época. Desterrados da sociedade e da cultura eram, também, os clientes que convergiram para lá. Essa equipe duradoura (que atuou junta por cerca de dez anos) foi sendo substituída, paulatinamente, por outros protagonistas de diversas gerações. Coube a mim, devido à minha relação orgânica com o eat, a árdua tarefa de lhe trazer longevidade: reconstruí-lo permanentemente. Este livro é fruto desse esforço; portanto, é narrado a partir do meu entorno, da minha visão dos fatos, e se confunde com a minha história.

Nunca entrei por inteiro na área de saúde mental – deixei sempre uma parte minha do lado de fora e incorporei meu trabalho a ela por meio de um filtro crítico, mesmo que poético. Isso contribuiu para que entendêssemos a clínica para além

ENTRE NISE E LYGIA

da clínica e a arte (refiro-me ao criar trazendo complexidade expressiva) para além da arte, convergindo ambas para o gesto criativo em si. A cada reta, cada curva, cada esquina do percurso deste livro e do Espaço Aberto ao Tempo, encontrará o leitor o cuidado terapêutico se aproximando da criatividade num sentido mais amplo, que incorpora observação, experiência e imaginação. Mesmo quando buscamos produzir artefatos culturais que visassem à beleza, aos ganhos de renda ou ao acesso ao “mundo interno” dos clientes, nosso objetivo era revelar novos modos de ser e de subjetivar, que ampliassem o contato afetivo com a realidade e tornassem mais diversificado – isto é, menos repetitivo e estereotipado – o horizonte de possibilidades da vida. Portanto, para mim, idealizar o eat era trazer a clínica para dentro de uma arte vista como força, como pulsão de vida. E assim poder, partindo do nada, construir mundos como quem faz um poema sem poesia, e este livro faz parte dele.

O meu leitor identificará no livro trechos inteiros extraídos de publicações anteriores. É que sempre me senti em dívida com Lygia Clark, por ter-me confiado seus Objetos Relacionais sem questionamento ou exigência. Acreditava Lygia, cegamente, que eu daria um destino original a esse apanhado geral de sua obra. Meus escritos que vieram antes têm a marca da obrigação a que me impus, de prestar contas, já que Lygia morreu sem conhecer o que fiz com a sua determinação. Em De que os sonhos se tornam realidade? vejo-me livre desse compromisso, por isso não tive pudor algum em repetir histórias que já publiquei antes, pois elas estão agora reescritas, ampliadas e inseridas em novo contexto.

O leitor verá que as superfícies brancas bidimensionais das páginas do livro contam histórias viscerais, orgânicas, sempre do dentro de um fora: a arte pensada para além das fronteiras expressivas, o corpo como caminho para o psiquismo, a

política vista a partir do âmago da clínica etc. Lembrando sempre que nascemos de onde ninguém espera que nasça nada: do fundo de uma enfermaria repressiva. Verá o leitor, espero que com clareza, que, na busca dessa organicidade, tivemos que inverter muitas regras asilares e construir percursos em sentido inverso. Aliás, percorrer o sentido contrário do habitual nos ajuda a ampliar a percepção, sem a qual não nos situamos no mundo contemporâneo – nem no cuidado clínico ao sofrimento intenso.

Nunca tivemos um ancoradouro teórico que nos delineasse; por isso, no Espaço Aberto ao Tempo sempre coube de tudo, desde que construíssemos dele um todo – um corpo único. A porosidade das fronteiras que trazia continuidade às coisas díspares (das escutas psicoterápicas à clínica dos acasos cotidianos, das vivências mais íntimas guardadas às construções poéticas coletivas/públicas) trouxe uma maleabilidade ao Espaço Aberto ao Tempo que me lembrava a maneira como descrevia as Estruturas Vivas de Lygia Clark – mesmo estando todos interligados, cada um faz seu gesto, cria e incorpora o seu eat.

Entre a estratégia de inversão de regras (não apenas manicomiais, mas também as tradicionalmente usadas na abordagem do sofrimento psíquico) e a busca por uma unidade que se refaz constantemente, está, talvez, o percurso que criei entre Nise e Lygia – a minha originalidade.

Embora trabalhando próximo do orgânico, da corporeidade, guardo, também, meu fascínio pelas palavras. Alio-me ao historiador e general Tucídides, da Grécia antiga, na curiosidade pela autonomia das palavras: como mudam de significado, de grafia e até mesmo de idioma – as palavras não têm dono. Neste livro, em diversos momentos, abandonei a interpretação da realidade por meio de conceitos e busquei compreendê-la observando a mobilidade das palavras dentro do padrão sociolinguístico dos lugares em que trabalhei.

ENTRE NISE E LYGIA

Optei, para maior clareza da narrativa clínica, por me afastar de uma linguagem técnica profissional (psiquiátrica, psicanalítica etc.) e me aproximar da literatura – do modo de contar uma história. Sei que assim corro o risco de minhas palavras ultrapassarem os fatos e se entrelaçarem a uma criação romanceada, mas a linguagem literária é mais flexível em traduzir o sofrimento humano. Cabe ao leitor, livre de uma amarração teórica, trazê-la para suas experiências vividas, suas predileções conceituais, seus saberes definidos – para seu mundo.

Para tornar as narrativas mais leves e menos cansativas, entre um capítulo e outro, introduzi desenhos, contos e crônicas de participantes do Espaço Aberto ao Tempo: o traço poético de Dalvan; os esquemas da vida de Marcos Inácio; frases de Jordão de Freitas, Luiz Carlos Xavier, Jairo Fiorentino e Renata Inocêncio que ouvi nas reuniões do grupo Cooperança; um conto de Vanderley Ribamar; algumas publicações do jornal O Grito, e a poesia de Regina Célia. Quis também colocar algumas pequenas crônicas que fiz nesses últimos anos e quatro desenhos de humor que criei, na década de 1980, para o jornalzinho Língua de Trapo. Eles ainda são impressionantemente atuais. Tudo isso traz uma pluralidade de narrativas que pode causar estranheza, mas é bem ao meu gosto.

Procurei, também, estar perto dos amigos, convidando (ou intimando) o artista Ricardo Basbaum para fazer o prefácio.

A DIVISA. Na infância, quando do Recife eu procurava Olinda, ela surgia ao longe leve e suspensa no céu; por sua vez, lá de Olinda, quando eu avistava o Recife, ele parecia se espalhar e sumir no horizonte. Ligando essas duas cidades em que vivi, havia um caminho que eu julgava magicamente elástico: ora Recife ficava a anos-luz de Olinda; ora Olinda se perdia dentro do Recife. Nunca pensei que a divisa entre elas pudesse ser medida com régua e compasso – era pura emoção.

Entre Olinda lua da imaginação e Recife sol da experiência há uma divisa que um dia partiu e uniu minh’alma, deixando-me a familiaridade com o entre, com o trânsito, com a conjunção de coisas d í spares.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Entre Nise e Lygia: de que os sonhos se tornam realidade? (Lula Wanderley) by n-1 edições - Issuu