INTRODUiiO
Dois sentimentos me levaram inicialmente a escrever esse livro: o amor e a paixão por diversos aspectos da obra de Wilhelm Reich. Para mim, das diferentes camadas de leitura de um texto, a mais importante é a emocional, ou seja, as reações ou respostas involuntárias do corpo aos estímulos e impressões causadas pelos textos. Com o passar do tempo, comecei a perceber que o meu corpo tem uma reação específica, típica, ao ser afetado e impactado por textos que causam nele sentimentos intensos e raros de amor e paixão. Esses sentimentos surgem e se manifestam em determinados momentos da leitura como excitações prazerosas na região da boca do estômago e do peito, e de aceleração no coração, irradiando rapidamente para a cabeça, chegando logo aos olhos até desaguar numa torrente de lágrimas e soluços num choro convulsivo de êxtase e alegria que, por atingir um grau tão alto de intensidade e excitação, já não pode ser contido e controlado pelo Ego. Hoje, vejo essas respostas involuntárias ou emoções que dissolvem o Ego como um sinal corporal de que estou diante de algo vital, raro e extraordinário, um divisor de águas na minha vida. A primeira vez que o meu corpo teve essa reação diante de um texto foi há quase vinte e dois anos, durante a leitura de certas passagens de Assim falou Zaratustra – livro com a maior carga emocional que já li e que mais mudou minha vida. Em alguns momentos de leitura dos textos de Reich, meu corpo também teve essa reação específica típica, criando nele o impulso e o desejo de escrever esse livro como forma de expressar meu amor e paixão por uma obra que transformou radicalmente minha vida.
Outro sentimento que me levou a escrever esse livro foi certa surpresa e espanto diante do desconhecimento, do conhecimento superficial e da falta de interesse relativos pela obra de Reich nos meios
psicanalíticos e universitários. Em 2015, Paulo Albertini escreveu no resumo de sua tese de livre-docência: “mesmo no universo acadêmico, não é incomum constatar um conhecimento apenas superficial sobre a obra produzida pelo austro-húngaro Wilhelm Reich (1897-1957) no movimento psicanalítico.”1
Em 2021, por exemplo, fui convidado a dar uma aula sobre Reich num curso voltado à formação de psicanalistas porque os organizadores não somente não conheciam um reichiano entre seus contatos, amigos e conhecidos, como também não conheciam alguém que estivesse minimamente familiarizado com a obra de Reich, o que me deixou imediatamente surpreso, sobretudo quando penso nos psicanalistas orientados explicitamente à esquerda do espectro político. Fiquei pensando: como é possível ser psicanalista de esquerda e não se interessar nem um pouco pelas inúmeras inovações e contribuições de Reich aos movimentos psicanalítico e revolucionário?! Como é possível se interessar pela articulação entre clínica e política e, ao mesmo tempo, negligenciar e/ou ignorar o trabalho pioneiro de Reich a esse respeito?!
Até hoje, quase setenta anos depois da morte de Reich, em 1957, sua obra parece ainda não ter recebido o devido valor, atenção e importância na história do movimento psicanalítico, ocupando injustamente, a meu ver, um lugar marginal e menor em relação à obra de Freud e ao ensino de Lacan. Nesse sentido, além de ser uma expressão dos sentimentos de amor e paixão, esse livro é também a expressão do desejo de celebrar a obra de Reich e prestar-lhe homenagem, de propor uma leitura dela como forma de manter vivo seu legado, de ressaltar toda a sua radicalidade e singularidade e de restituir seu valor e importância no movimento psicanalítico.
O aspecto da obra de Reich que mais me interessa é o de suas inúmeras inovações e contribuições ao campo da teoria e prática clínico-política. Entre 1927 e 1934, elas derivaram de uma única e mesma operação,
1 Paulo Albertini. Na psicanálise de Wilhelm Reich. São Paulo: IPUSP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo), 2015. Tese de livre docência, p. 6.
em torno da qual se desenvolveu sua obra nesse período: a articulação entre Freud e Marx, entre psicanálise e materialismo dialético.
Hoje em dia, principalmente depois dos trabalhos de Reich, Erich Fromm, Herbert Marcuse, a Escola de Frankfurt, Félix Guattari e Slavoj Žižek, por exemplo, essa articulação pode parecer algo comum, não nos causando qualquer tipo de espanto ou surpresa. Porém, na década de 1920, era impensável, tanto para psicanalistas quanto para marxistas, daí o caráter totalmente inovador, pioneiro e subversivo do gesto reichiano:
Freud rejeitou por princípio as relações entre marxismo e psicanálise, qualificando as duas disciplinas como contraditórias. O mesmo ponto de vista é defendido pelos representantes oficiais da Terceira
Internacional Comunista. Em ambos os campos fui colocado diante da alternativa (die Alternative) de escolher entre psicanálise e marxismo revolucionário. 2
A psicanálise revolucionária de Reich nasceu justamente do esforço para superar essa alternativa, pois aos seus olhos ela havia produzido dois efeitos negativos fatais para os movimentos psicanalítico e revolucionário. Por um lado, Freud e a maioria dos psicanalistas “negligenciavam totalmente a questão central da sociologia marxista: a luta de classes (Klassenkampf )”. 3 Por outro, “não havia nada a respeito da política sexual (Sexualpolitik) em Marx, nem em Lenin”. 4 Nesse contexto, superar a alternativa “psicanálise ou marxismo” significava, portanto, introduzir a dimensão política da luta de classes na psicanálise e a dimensão libidinal do desejo sexual e do inconsciente no marxismo, operação que levou Deleuze e Guattari a considerar que “Reich foi o primeiro a colocar o problema da relação entre desejo e campo social (ele foi mais longe do que Marcuse, que a trata com leveza). Ele é o verdadeiro fundador de uma psiquiatria materialista
2 Wilhelm Reich. Dialektischer Materialismus und Psychoanalyse. Copenhague: Sexpol, 1934, pp. 3-4.
3 Ibid., p. 5.
4 Id. Massenpsychologie des Faschismus. Copenhague/Praga/Zurique: Sexpol, 1933, p. 265.
[…]. Ele foi o primeiro a tentar fazer a máquina analítica e a máquina revolucionária funcionarem juntas”. 5
O projeto de uma psicanálise revolucionária é uma das maiores inovações e singularidades de Reich em relação a Freud e Lacan, pois, apesar de certas noções dos dois mestres possuírem de fato incidências revolucionárias no campo político – o que explica as apropriações e usos de suas obras por autores de esquerda, como no caso do próprio Reich em relação a Freud, mas também de Guattari em relação a Lacan –, nem Freud, nem Lacan foram militantes de esquerda como Reich, nunca tiveram o projeto de uma psicanálise revolucionária, nunca trabalharam em prol de uma revolução sexual. Muito pelo contrário! Ambos demonstram às vezes certa indiferença, repúdio e ironia em relação ao universo da esquerda revolucionária (comunismo e anarquismo).
Em O mal-estar na civilização, por exemplo, Freud escreve: “não tenho nada a ver com a crítica econômica realizada pelo sistema comunista (kommunistischen Systems), não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente e vantajosa. Porém, posso reconhecer seu pressuposto psicológico como ilusão infundada.”6 E, diante das tentativas de ver em Freud uma suposta simpatia pelo comunismo e pelo movimento operário, Reich dizia: “havia tanta conversa fiada [na União Soviética] sobre o significado de Freud para o movimento operário. Em que lugar, perguntamos, esse significado virou prática socialista? Em nenhum lugar!”,7 já que “não era a técnica da análise do caráter mas a revolução sexual que incomodava Freud”. 8
Já nos textos de Lacan, por sua vez, podemos ler: “não sou um homem de esquerda ( je ne suis pas un homme de gauche)”, 9 ou ainda sua resposta à pergunta de um militante: “você é anarquista? [Lacan:] Claro que não (Sûrement pas).”10 Já em “Televisão”, o psicanalista
5 Gilles Deleuze e Félix Guattari. L’Anti-Œdipe. Paris: Minuit, 2012, p. 144.
6 Sigmund Freud. Das Unbehagen in der Kultur, in: GW 14. Frankfurt: Fischer, 1990, p. 472.
7 Wilhelm Reich. “Unser Glückwunsch an Freud”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie, v. 3, cadernos 3-4. Copenhague: Sexpol, 1936, pp. 152-153.
8 Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1967, p. 44.
9 Jacques Lacan. Le Séminaire xvii. Paris: Seuil, 1991, p. 132.
10 Id. Le Séminaire xxiii. Paris: Seuil, 2005, p. 138.
francês se define como um self-made man: “quem não sabe que fiz fortuna com o discurso analítico? Nisso sou um self-made man”,11 ou seja, como bem lembra Guattari, “Lacan só pensava em dinheiro… Ele analisaria uma cabra se ela pagasse”.12
Quanto aos termos “revolução” e “revolucionário”, propriamente ditos, duas passagens do ensino de Lacan são emblemáticas. A primeira no seminário xix: “existe uma característica que não deveria, porém, ser esquecida naquilo que é chamado de revoluções (révolutions), que essa palavra é admiravelmente escolhida por querer dizer: retorno ao ponto de partida (retour au point de départ).”13 A segunda está em Outros escritos: “não é de hoje que ironizo o termo de ‘tradição revolucionária’ (tradition révolutionnaire).”14
Para entendermos em que sentido a militância política de Reich o singulariza e distingue enquanto psicanalista de Freud e Lacan, temos de lembrar que, para Reich, “discussões teóricas costumam se tornar estéreis quando não as enraizamos no solo de questões práticas concretas”.15 Em outras palavras,
A construção de perspectivas teóricas deriva não apenas das necessidades da vida viva, da pressão de resolver problemas práticos da nossa existência; a perspectiva teórica leva não apenas a uma nova forma de agir e lidar melhor e mais adaptada às tarefas práticas; mais do que isso: para nós, uma teoria só adquire valor se for confirmada na prática e pela prática.16
Ou seja, todas as elaborações teóricas de Reich entre 1927 e 1934 nasceram da tentativa de dar conta de problemas bastante concretos e específicos com os quais ele se confrontava na prática clínica e na
11 Id. Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 529.
12 Félix Guattari, Jean-Claude Polack e Danielle Sivadon. Triálogos. Exercícios de esquizoanálise, trad. Felipe Shimabukuro. São Paulo: n-1 edições, 2024, p. 122.
13 Jacques Lacan. Le savoir du psychanalyste, in: Le Séminaire xix. Staferla, p. 2.
14 Id. Autres écrits, p. 434.
15 Wilhelm Reich. “Zur Anwendung der Psychoanalyse in der Geschichtsforschung”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie, v. 1, caderno 1. Copenhague: Sexpol, 1934, p. 7.
16 Id. Massenpsychologie des Faschismus, p. 227.
militância política, o que fica muito claro na seguinte passagem de “Objeções contra a psicologia das massas e política sexual”:
Continuamos trabalhando nosso problema como cientistas especialistas [psicanalistas]; nesse sentido, exigimos total independência do nosso trabalho. Porém, não somos especialistas burgueses (bürgerliche) que realizam pesquisas acadêmicas, ou seja, pesquisa “em si”, pois somos ao mesmo tempo combatentes pela causa da revolução (Kämpfer für die Sache der Revolution). Por isso tratamos acima de tudo questões que possuem relação direta e imediata com a questão da revolução cultural (Kulturrevolution).17
Os problemas que surgiam na militância de Reich interferiam não apenas em suas elaborações políticas, mas também clínicas, assim como os problemas na clínica interferiam nas elaborações políticas. Dessa via de mão dupla deriva uma das maiores inovações de Reich no movimento psicanalítico, a saber, a de ter sido o primeiro analista na história da psicanálise a desvendar, trazer à tona e desenvolver sistematicamente a relação entre clínica e política.
A psicanálise revolucionária de Reich nasceu, portanto, da necessidade de criar conceitos e ferramentas clínico-políticos através da articulação entre Freud e Marx para resolver e lidar com problemas concretos da vida: “não se trata [em minha obra] de filosofias, mas de ferramentas práticas decisivas (praktische, entscheidende Handwerkzeuge) para remodelar a vida humana; trata-se da escolha entre ferramentas boas e ruins para reconstruir e reorganizar a sociedade humana.”18
Num primeiro momento, o nome “oficial” da psicanálise revolucionária de Reich será psicologia materialista-dialética (dialektisch-materialistische Psychologie); posteriormente, ele usará a expressão economia-sexual (Sexualökonomie)19 para se referir a ela:
17 Wilhelm Reich. “Einwände gegen Massenpsychologie und Sexualpolitik”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie , v. 1, caderno 2. Copenhague: Trobis Verlag, 1934, p. 149 (meu grifo).
18 Id. Äther, Gott und Teufel, in: https://docplayer.org/74254629-Aether-gott-und-teufel. html#show_full_text, p. 5.
19 A substituição da expressão psicologia materialista-dialética por economia-sexual não se deve a uma diferença de conteúdo, mas sobretudo à ruptura de Reich com Otto Fenichel, que tinha escrito, por exemplo, um artigo com o título “Sobre
No meu trabalho sobre as relações entre psicanálise e materialismo dialético, tentei demonstrar que a psicanálise é o germe a partir do qual uma psicologia materialista-dialética (dialektisch-materialistische Psychologie) tem de ser desenvolvida. 20
E ainda:
A ciência da economia-sexual (Sexualökonomie), que está construída em cima da sociologia de Marx e da psicologia de Freud, é essencialmente e ao mesmo tempo uma psicologia das massas e uma sociologia sexual. 21
Apesar de Reich ter sido expulso do movimento psicanalítico nos anos 1930, deixando bem claro que a economia-sexual surgiu justamente de sua crítica à psicanálise, 22 gostaria de explicar rapidamente em a psicanálise enquanto germe de uma psicologia materialista-dialética futura” (“Über die Psychoanalyse als Keim einer zukünftigen dialektisch-materialistischen Psychologie”), publicado em 1934 no caderno 1 do primeiro volume da Revista de psicologia política e economia-sexual, editada por Reich com o pseudônimo Ernst Parrel. A expressão economia-sexual servia mais para demarcar sua diferença em relação a Fenichel do que para indicar uma ruptura e transição de fase entre psicologia materialista-dialética e economia-sexual.
20 Wilhelm Reich. Dialektischer Materialismus und Psychoanalyse, p. 48.
21 Id. Massenpsychologie des Faschismus, p. 47 (meu grifo). “A economia-sexual (Sexualökonomie) compreende a relação entre vida psíquica humana e ordem socioeconômica.” (Wilhelm Reich. Die Sexualität im Kulturkampf. Copenhague: Sexpol, 1936, p. ix).
22 “Inicialmente, gostaria de enfatizar de modo explícito que não sou psicanalista e que evito apresentar minhas concepções com esse título. Durante quinze anos, fui de fato ativo dentro do movimento psicanalítico, porém, minhas teorias da economia-sexual e da psicologia política não são uma continuidade da teoria freudiana das pulsões e psicologia das massas. Gostaria que não ficasse nenhuma dúvida de que, em virtude de diversos anos de trabalho prático dentro do movimento operário, minhas concepções nasceram da crítica da teoria freudiana (Kritik der Freud’schen Theorie).” (Wilhelm Reich. “Dialektisch-materialistische Facharbeiter contra geistige Irrlichter der sozialistischen Bewegung”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie, v. 4, caderno 3. Copenhague: Sexpol, 1937, p. 149). Por outro lado, no prefácio à segunda edição de Análise do caráter, redigido em 1944, Reich escreveu: “com a exclusão da economia-sexual e da teoria do orgasmo da organização psicanalítica, aqueles seus representantes responsáveis por essa exclusão operaram eles próprios a separação que foi atribuída a mim posteriormente de modo falso e por consciência pesada. É importante afirmar de maneira firme e inequívoca: a economia-sexual nunca se definiu em oposição ao conteúdo central da conquista científica freudiana. Considerações sociais falsas, que perderam seu valor devido às reviravoltas sociais dos últimos dez
que sentido a seguinte equação vai ser usada no presente trabalho: psicologia materialista-dialética = economia-sexual = psicanálise revolucionária. Pois, embora o próprio Reich nunca tenha usado a expressão psicanálise revolucionária em seus textos, três passagens de sua obra demonstram que essa equação não é totalmente absurda e descabida, apesar de terem o inconveniente de apagar ou amenizar, de certo modo, as diversas críticas de Reich à psicanálise.
Na primeira passagem, ele afirma: “a psicologia materialista-dialética é totalmente idêntica à economia-sexual (die dialektisch-materialistische Psychologie vollkommen identisch ist mit der Sexualökonomie).”23
Na segunda, utiliza a expressão “materialismo-dialético” como sinônima de “revolucionário”: “[…] uma concepção materialista-dialética, portanto revolucionária (einer dialektisch-materialistischen, also umwälzenden Anschauung).”24 Na terceira, afirma que, em seu trabalho, procurou “preservar os melhores elementos da psicanálise, os mais revolucionários e progressistas (the most revolutionary and the most progressive elements in psychoanalysis).”25
Isso dito, a equação psicologia materialista-dialética = economia-sexual = psicanálise revolucionária vai ser usada neste trabalho no sentido específico de que um dos termos dessas três expressões compostas se refere a Freud (“psicologia”, “sexual” e “psicanálise”), enquanto o outro diz respeito a Marx (“materialista-dialética”, “economia” e “revolucionária”), com a psicanálise revolucionária de Reich sendo, portanto, uma junção de Freud e Marx que não é nem totalmente freudiana, nem totalmente marxista, mas algo novo e singular em relação às obras de Freud e Marx consideradas separadamente: “a psicanálise é
anos, levaram o movimento psicanalítico a se definir em oposição à economia-sexual. A economia-sexual surge tampouco como rival da psicanálise quanto, por exemplo, a lei newtoniana da gravidade como rival da lei kepleriana da harmonia. A economia-sexual constitui a continuidade e fundamentação científico-natural da psicanálise freudiana no campo da biofísica e sexologia social.” (Wilhelm Reich. “Vorwort zur zweiten Auflage”, in: Charakteranalyse. Frankfurt: Fischer, 1981, p. 18).
23 Wilhelm Reich. “Der Ausschluss Wilhelm Reichs aus der IPV”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie, v. 2, caderno 1. Copenhague: Sexpol, 1935, p. 57.
24 Id. “Dialektisch-materialistische Facharbeiter contra geistige Irrlichter der sozialistischen Bewegung”, p. 151.
25 Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud, p. 188.
a mãe; a sociologia, o pai da economia-sexual. Porém, um filho é mais do que a soma dos pais. É um novo ser vivo autônomo e promissor.”26
O gesto reichiano de transposição de fronteiras e limites presente na superação da alternativa “psicanálise ou marxismo” não é um gesto isolado, acidental e fortuito, mas, como veremos com detalhes no último capítulo, uma operação esquizo recorrente de derrubada de muros, barreiras e fronteiras que pode ser constatada em diversos momentos e aspectos de sua obra. Nesse caso específico, Reich derrubou o muro e transpôs os limites e fronteiras que separavam Freud de Marx e Marx de Freud, transformando a conjunção excludente “ou” (Freud ou Marx) na conjunção aditiva “e” (Freud e Marx):
Todas as escolas de psicologia até hoje pararam diante de duas fronteiras-limites (zwei Grenzen). Uma é a fronteira-limite relativa à biologia; ela não está traçada de forma rígida. A questão: “como o psíquico se desenvolve a partir de funções biológicas?” paira constantemente no ar do trabalho psicanalítico. Ao contrário dessa fronteira-limite, em Freud a fronteira-limite relativa à sociologia marxista era e é traçada de forma bem rígida. Sim, não é possível evitar a impressão de que a transposição (Überschreitung) dessa fronteira-limite é abertamente temida e evitada de todas as formas […]. O resultado da ausência de pensamento psicológico no marxismo foi o economicismo, uma incompreensão total dos fatos e processos psicológicos: essa foi uma das principais causas do triunfo da reação política na Alemanha. À psicologia freudiana falta, por sua vez, um pensamento sociológico consequente, ou seja, a consciência de que tudo que é psíquico depende do processo social. O resultado dessas duas lacunas foram não poucos obstáculos à continuidade do desenvolvimento tanto da teoria marxista da sociedade quanto da psicanálise. Ora, a psicologia materialista-dialética (economia-sexual e psicologia política) foi desenvolvida para defender a psicanálise de seu desenvolvimento teórico falso e evitar o economicismo dentro do movimento operário. Ela se caracteriza acima de tudo por deixar de
26 Wilhelm Reich. Massenpsychologie des Faschismus. Colônia: Kiepenheuer & Witsch, 1986, p. 11.
lado o respeito diante da transposição das duas fronteiras-limites mencionadas (Überschreiten der beiden genannten Grenzen). 27
Mas qual foi o preço pago por Reich por derrubar e transpor o muro que separava psicanálise e marxismo, por se situar numa posição esquizo desterritorializada, ou seja, além da fronteira da normalidade dominante à qual tanto psicanalistas quanto marxistas estavam bem-adaptados? A resposta é bem conhecida nos meios reichianos: sua expulsão do Partido Comunista Alemão (pca) em 1933 e sua expulsão da Associação Internacional de Psicanálise (ipa) em 1934. Em 1937, Reich escreve: “fui excluído do pca no outono de 1933.”28
O principal motivo da expulsão foi o fato de Reich ter apontado
O enorme abismo entre sociologia econômico-sexual e economicismo vulgar. Já em 1932, seus escritos tinham sido banidos das organizações socialistas e comunistas, e ele foi até mesmo ameaçado de execução se o marxismo ganhasse poder na Alemanha. Ele foi expulso das organizações comunistas por ter introduzido a sexologia na sociologia e apontado suas implicações sobre a estrutura humana. Entre 1934 e 1937, todos seus escritos foram banidos na urss. 29
Uma das principais lições que Reich tirou do período de militância é a de que os partidos e sindicatos de esquerda da época estavam dominados pela ideia de que “a vida sexual significa um ‘desvio da luta de classes’”, 30 de modo que a “fórmula ‘resolveremos a questão sexual mais tarde, em primeiro lugar vem a economia’, era bastante difundida”. 31 A questão da sexualidade era vista, assim, como um desvio burguês da luta de classes dentro do movimento revolucionário:
27 Wilhelm Reich. “Charakter und Gesellschaft”, in: Zeitschrift für politische Psychologie und Sexualökonomie, v. 3, cadernos 3-4, pp. 137-138 (meu grifo).
28 Id. “Dialektisch-materialistische Facharbeiter contra geistige Irrlichter der sozialistischen Bewegung”, p. 155.
29 Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud, p. 135.
30 Wilhelm Reich. Die Sexualität im Kulturkampf, p. 150.
31 Ibid., p. 154.
“os marxistas não se cansavam de me objetar que a etiologia sexual das doenças psíquicas era um capricho burguês.”32
Por outro lado, no 13o Congresso Internacional de Psicanálise em Lucerna (de 26 a 31 de agosto de 1934), Wilhelm Reich foi excluído da Associação Internacional de Psicanálise. 33 Na verdade, essa decisão já tinha sido tomada um ano antes por Max Eitingon, então presidente da ipa, durante uma reunião do conselho administrativo, 34 o que significa que foi apenas oficializada em 1934. Na qualidade de secretária da ipa, Anna Freud explicou o motivo da expulsão nos seguintes termos: “a expulsão de Reich é necessária em decorrência do modo específico como ele tira consequências políticas do trabalho científico. O que era visado aqui é sua política sexual (Sexualpolitik). As consequências e a união da ciência com a política seriam insuportáveis para a ipa.”35
Ou seja, o principal motivo da expulsão de Reich da ipa foi político: Freud se decepcionou profundamente com o fato de Reich ter enveredado pelas sendas do marxismo por volta de 1927. 36 Nesse sentido, o próprio Reich relata: “eu tinha tirado as consequências sociais da teoria da libido. Para a mentalidade de Freud, essa foi a pior coisa que fiz”, 37 ou seja, como vimos, “não era a técnica da análise do caráter mas a revolução sexual que incomodava Freud”.
Isso a tal ponto que, na função de editor da Revista Internacional de Psicanálise, Freud foi dissuadido, 38 mas quis acrescentar a seguinte nota introdutória ao artigo de Reich intitulado “O caráter masoquista.
32 Id. Die Entdeckung des Orgons I. Berlim/Colônia: Kiepenheuer & Witsch, 1969, p. 76.
33 Id. “Der Ausschluss Wilhelm Reichs aus der IPV”, p. 54.
34 Ibid., p. 56.
35 Ibid., p. 58.
36 “A partir de 1927 até setembro de 1930, trabalhei do lado de fora [da psicanálise] e fiz todo aquele trabalho sociológico sobre as raízes da sociedade. Foi aqui que a decepção de Freud veio à tona. Eu fui para a sociologia, que se misturava ou era idêntica à política naquela época. Alguma coisa aconteceu. E aqui havia um outro homem, um outro gênio: Marx. Comecei a me interessar por Marx e Engels em 1927.” (Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud, pp. 42-43).
37 Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud, p. 43.
38 “Em janeiro de 1932, enquanto editor da revista de psicanálise, Freud redigiu uma nota introdutória ao meu trabalho sobre o masoquismo, no qual eu refutava clinicamente a teoria da pulsão de morte. Graças aos esforços dos psicanalistas socialistas alemães, essa nota não foi publicada.” (Wilhelm Reich. Menschen im Staat, p. 201).
Uma refutação econômico-sexual da pulsão de morte e da compulsão de repetição”, publicado em 1932:
No caso do dr. Reich, o leitor deve ser informado de que o autor é membro do partido bolchevique. Ora, como se sabe, o bolchevismo impõe limites à pesquisa científica de modo parecido com a organização da igreja. A obediência partidária exige que tudo o que contradiz as premissas de seu próprio dogma seja rejeitado. 39
Reich se encontrava, assim, acuado entre freudismo e marxismo. Por um lado, como ele próprio explica a Kurt Eissler, “os comunistas me combatiam como se eu fosse um ‘antimarxista’, um ‘freudiano contrarrevolucionário’”. 40 Por outro, “era acusado por Freud de criticar sua teoria psicanalítica sob a ordem e comando de Moscou”. 41 Além disso, segundo o próprio Reich, sua teoria “do processo esquizofrênico foi vista como distorcida e até mesmo delirante por psicanalistas como Jones, Federn e Fenichel. Foi a partir daí que se propagou a calúnia de me chamar de esquizofrênico paranoide”. 42
Resumo da ópera: tachado de “esquizofrênico” e “comunista” no movimento psicanalítico, e de freudiano “pequeno-burguês” antimarxista no movimento revolucionário, Reich acabou sendo expulso tanto do pca quanto da ipa.
Algo que nunca é dito nos estudos sobre Reich dos quais tomei conhecimento, e que merece ser dito e enfatizado, é que essas duas expulsões são a expressão de um sentimento coletivo de ódio e desprezo pelo diferente, pelo dissidente não adaptado a certas normas, valores e ideais consensuais vigentes em determinados grupos e instituições sociais, e que por isso mesmo são tachados de loucos. Também são a expressão do desejo coletivo de segregar, excluir, perseguir, difamar e destruir o louco, diferente e dissidente, ou seja, são a expressão de um investimento paranoico reacionário do campo social, de um elemento microfascista presente na história dos movimentos psicanalítico e revolucionário.
39 Wilhelm Reich. Menschen im Staat, p. 201.
40 Mary Higgins & Chester M. Raphael. Reich speaks on Freud, p. 49.
41 Ibid., p.49..
42 Ibid., p. 12.
Em seu prefácio para Psicanálise e transversalidade, Deleuze começa sua apresentação de Guattari fazendo a seguinte comparação com Reich:
Às vezes acontece de um militante político e um psicanalista se encontrarem na mesma pessoa, e ao invés de permanecerem impermeáveis, eles se misturam, interferem, comunicam, se tomam incessantemente um pelo outro. Trata-se de um acontecimento bastante raro desde Reich. 43
Toda tentativa de comparação de Reich com Guattari é complexa por exigir um trabalho de delimitação precisa dos pontos de afinidade e diferença entre ambos, a fim de evitar a redução de um ao outro e vice-versa. Assim, vou me limitar aqui a algumas palavras sobre dois pontos de afinidade que me parecem fundamentais para entendermos a economia-sexual de Reich e a esquizoanálise de Guattari.
Antes de tudo, o trabalho de Reich marcou um momento decisivo da história dos movimentos psicanalítico e revolucionário por ao menos duas grandes razões. Primeira, por inaugurar e abrir um vasto campo de pesquisa sobre a dimensão fundamentalmente sociopolítica do desejo, da sexualidade, dos afetos e do inconsciente de um lado e por estabelecer e desenvolver a tese do papel decisivo da produção de subjetividade e do fator subjetivo no processo histórico de outro. Segunda razão, por produzir um diagnóstico econômico-sexual dos limites da psicanálise e do marxismo de seu tempo: tanto uma psicanálise sem luta de classes quanto um marxismo sem sexualidade e inconsciente estão fadados a reproduzir, consciente ou inconscientemente, práticas clínicas e políticas conservadoras de legitimação e adaptação ao sistema capitalista. Guattari foi sem dúvida um daqueles que melhor absorveu essas duas grandes lições reichianas: “separar a economia política da economia desejante: eis a missão dos teóricos que se colocam a serviço do Capital.”44
43 Gilles Deleuze, in: Félix Guattari. Psychanalyse et transversalité. Paris: Maspero, 1972, p. i.
44 Félix Guattari. La révolution moléculaire. Paris: Les prairies ordinaires, 2012, p. 27.
Depois, um dos principais sentidos da comparação de Reich com Guattari está no fato de que, por terem sido ao mesmo tempo psicanalistas e militantes de extrema esquerda, ambos foram levados a desenvolver suas teorias e práticas a partir da ideia de que “a psicanálise é revolucionária ou ela não é verdadeira”. 45
Numa entrevista concedida depois da publicação de O anti-Édipo, Guattari fez esta afirmação sobre a repercussão mais imediata da obra de 1972: “o resultado mais tangível de O Anti-Édipo é o de ter causado um curto-circuito na conexão psicanálise-esquerdismo (psychanalyse-gauchisme).”46
Curto-circuito que marcou de modo decisivo todo o percurso analítico-militante de Reich e Guattari no movimento psicanalítico, levando-os a fazer uma crítica aguda de Freud e Lacan, a romper com seus mestres e a dar outro nome a suas teorias e práticas revolucionárias: economia-sexual e esquizoanálise. Por um lado, Reich, o analista-militante da revolução sexual em ruptura com Freud, por outro, Guattari, o analista-militante da revolução molecular em ruptura com Lacan.
Cabe lembrar aqui que Reich e Guattari foram de longe os analistas que mais falaram de revolução dentro do movimento psicanalítico, e seus conflitos com os psicanalistas podem ser vistos, acima de tudo, como um sinal da dificuldade e reserva de amplos setores da psicanálise em lidar com uma posição clínico-política assumidamente revolucionária de esquerda, a começar pelos próprios Freud e Lacan.
Decidi dividir em dois volumes a apresentação e o desenvolvimento da leitura que vou propor do que estou chamando de psicanálise revolucionária de Reich: A psicanálise revolucionária de Wilhelm Reich, analista e militante esquizo i. Sua relação com Freud e o movimento psicanalítico e A psicanálise revolucionária de Wilhelm Reich, analista e militante esquizo ii. Sua relação com Marx e Engels e o movimento revolucionário.
45 Id. Écrits pour L’Anti-Œdipe. Paris: Lignes/Imec, 2012, p. 143.
46 Id. La révolution moléculaire, p. 263.
Os principais objetivos deste primeiro livro são, por um lado, resgatar e ressaltar a atualidade de uma série de conceitos e ferramentas de Reich nos campos da teoria e prática clínicas, e, por outro, mostrar sua forma original de articular problemas clínicos com problemas de ordem política.
Os principais objetivos do segundo livro são, por sua vez, resgatar e enfatizar a atualidade de uma série de conceitos e ferramentas de Reich nos campos da teoria e prática políticas. Pois, apesar de certos aspectos da obra de Reich já estarem de certa forma “datados”, não respondendo mais a alguns problemas clínico-políticos do presente, restam ainda inúmeras ferramentas reichianas que me parecem altamente interessantes e atuais para a reflexão, prática e constituição de uma clínica contemporânea de esquerda orientada pela noção de causalidade social do sofrimento emocional. São essas ferramentas que me interessam acima de tudo nesse livro.