móri zines ilha comprida quarentena, 2020/21 issuu.com/morizines
Com amor para Brandon, Carú, Rudá y Téo e tantos mais que estiveram junto no exercício de ousar enxergar-nos.
diário de testosterona uarê erremays
chegada Em março de 2020 encaixotei meus pertences, espalhei-os por muitas casas e cheguei a Ilha Comprida, litoral de SP. Pela janela da cozinha, assisti o mar rapidamente engolindo terra, árvores, casas, a beira-mar. As luas rodavam no céu enquanto esperamos o fim do isolamento, o tempo suspenso. Esses dias solitários concidiram com o primeiro ano de hormonização com testosterona, que tem causado profundas transformações em mim. Tudo que aprendi sobre os processos de transição hormonal foi ouvindo meus amigos queridos, que vão abrindo caminho e contando os conhecimentos que não interessam à classe médica ou a indústria farmacêutica. Corpos experimentais, encarnando seus próprios desejos sobre como existir; compartilhando entre nós para acalmar as agonias de uma puberdade autoinduzida. O corpo toda manhã atualizado em desconhecimentos desde a noite anterior. Essa publicação reúne minhas percepções sobre essas mudanças, registradas em diário e tem por intuito compartilhar com outros corpos - estranhos, dando prosseguimento aos diálogos ainda tão invisíveis, propostos pelos que vieram antes (e depois) de mim.
(maio) O movimento coletivo é isolamento. Quero ser corpo de análise e estou só, me debruço em mim. É tudo performance, um conjunto de atributos – escolhidos enfiados goela abaixo sonhados imaginados impostos reunidos e encarnados: existimos. O que é caxorro, o que é boyceta: o que de um instiga o outro. Pierre é fogo de palha ventania. Impulso, prazer, esfregação na perna, cócegas, encontro. Pierre é invenção. Pierre é física. Pierre é prótese. Uarë tem sido convocado, trazido, construído. É nudez, resistência, orgasmo, cheiro, forma e idéia. Uarë é busca por pertencimento. Uarë é kímica. Uarë é prótese. (Em
iorubá,
Luara
quer
dizer
corpo
em
movimento.)
É menos sobre nome e mais sobre aprender línguas desconhecidas.
(maio) Sangro há 20 anos. Duas décadas correndo em círculos atrás da lua. Enche inflama vaza reconstitui. Há cinco meses a vitamina T tem mudado níveis de FSH LH. Já não tenho tanto fascínio pela lua, mas as estrelas... Geografias, giros, navegações. O pico de testosterona é matinal; gosto especialmente das horas quentes. A superfície solar gira lentamente nos pólos e rapidamente no equador. Pesado, estável, perene - tão influenciável pelo vento, pela água. (agosto) Ouvir o barulho do mar todo dia, enquanto acordo, enquanto durmo, ranger constante, um bicho anunciando as investidas ferozes. Da janela vejo as águas mudarem todo dia. O frio chuvoso do fim de agosto me ensinou a saber la mar pelo barulho, ouvir as marés e as ressacas, eu mesmo represado num quarto.
(agosto) Agosto infinito do cachorro louco. A loucura é uma pulga atrás da orelha. O mar engolindo o muro enquanto lavo a louça, tudo mofando, chove dia chove noite, tudo se afogando em chuva e mar e lágrima. Deve ter um ano que meu pai morreu e não chorei. O disco dos Tincoãns na casa do Téo. O búzio de Olumelo, a foto que foi embora em Bertiágua porque Zuzu me lembrou de levar para mar. Ritos de passagem. O barulho do mar me lembra que sou 70% água, que existe um atlântico pra lá, que travessias foram feitas. A epigenética considera a possibilidade que traumas causem alterações comportamentais transmitidas por até duas gerações, sobretudo pela linhagem da pessoa que gesta. Os traumas da minha avó estão nesse corpo e terminam aqui. Geneticamente experimento menos traumas da escravidão que a minha avó. Epitelialmente experimento menos trauma racista que a minha mãe. Desenho mapas e caio para dentro. Porquê estou fazendo isso comigo. Faz 20 dias que dobrou a dose da testosterona. O tão sonhado Androgel. A gordura se comporta como fluído no corpo. A lágrima precisa perfurar outros veios para chegar a sair. O tempo do sangue perde o compasso. Não tenho respirado. Respira. Não se distraia. Anda difícil ouvir os barulhos internos. O eremita. O isolamento como condição de acesso a camadas profundas.
(agosto) Voltimeia alguém pede que fale sobre sobre mim. Não sei nem que nome usar. Tem que elaborar tudo. Repensar tudo. Isso e o corpo crescendo. O maxilar doendo porque não to me cabendo. Essa cara estranha no espelho. O grelo parece que quer existir além do corpo. Querendo correr e o movimento morrendo embaixo de um edredon preto. Às vezes queria muito atravessar um mar boiando.
(agosto) A curiosidade me levou a ler sobre os hormônios FSH e LH, produzidos pela hipófise, que, após a fase embrionária, só voltam a ser produzidos durante a puberdade. Nos corpos com útero, eles se aumentam e diminuem de acordo com o ciclo fértil, se repetindo a cada 4 semanas aproximadamente. Os picos de FSH e LH estão intimamente ligados com a liberação de estrogênio e progesterona. Nos corpos com testículos, o LH estimula a produção da testosterona, que é diária, matinal – e esta regula a produção de FSH e LH, que tende a ter concentrações parecidas durante toda a vida. Espalho na pele testosterona sintética. O corpo segue nessa obcessão química de gestar. (Tudo muito complexo – e não encontrei artigos que tratassem especificamente da relação desses hormônios em corpos transmaculinos em TH. Não sei que calma me daria ter alguma ideia do que se passa sob a pele, se as agonias uterinas, sanguíneas, fluidas seguem aqui. Mas queria tê-las, pelo menos no Google.) O corpo muda todo dia, velocidades púberes. Esse eu novo desconhecido tensionando, expandindo, ganhando forma, lustrado a creme de vitamina T. Lembro os motivos de começar: ver o que acontece. E vi que era bom.
(outubro) Não tem bem um começo - coisa de historiador branco querer catalogar o tempo. É processo, é tudo processo. Ler o nome na tela de bloqueio do computador. Quem me nomeia sem titubear e ri e fala com a boca cheia: Uarê. Hoje acordei assim. Querendo menstruar. Quem diria e que engraçado. Um tanto de água represados em mim. Ando estado lodo, escorregadio, denso. Faz uns dias que tenho desejado binder. Dei as costas para o espelho, ele despencou, se partiu, me olha todo trincado. Por que estou fazendo isso comigo? Ainda não sei responder. Não sei se vou saber um dia.
(outubro) A não binariedade vem desse corpo que não consegue entender o mundo cindido em elee-ela. Não quero mais tensionar o corpo a caber. Sem cabimento. Como o mundo se relaciona com ela e como se relaciona com ele. Hoje me faz falta o que abdiquei pra ser ela. Faz falta a voz que vocês usam pra falar com ele, as palavras. É muito prazeroso ser um corpo peludo. Enquanto eu estava crescendo, ela precisou interromper os pêlos. Antes não tinha e agora tem. E cheira e coça e espuma. Que bom ser minha própria experiência de construir um corpo, que bom mudar. Que bom gostar do que sou e devir-a-ser eu.
(outubro) A testosterona é um combo de efeitos, os que fazem todo sentido no mundo e no corpo e as pulgas terríveis que mordem bem onde a pata não alcança. Primeiro vieram as sensações sutis que custava a saber se era corpo ou imaginação. Agora são tão intensos que não é mais possível negar de onde vem, mas ¿pra onde vão? O corpo é mais músculo e mais duro, pesado, afunda e não dá pra chorar submerso. O choro tem que vir de alguma forma, se não água,o que? Todo dia estão mudando as águas do corpo. A dor do choro preso. Vazar a dor na língua que me engole teso. Fechar, cerrar, deixar escapar um grunhido tesudo. Uma máquina de evasivas contundentes. Não me faltam referências: os homens sempre estiveram aqui. É mais fácil lembrar as ações que causaram dor, desamparo, agonia, ausência. Inevitável sentir pulsão de ferir, romper,machucar. Mas sigo nesse fluxo de transição, me embrenhandono desconhecido que caibo numa bisnaga de potência em gel. EU NÃO SOU UM HOMEM, é evidente que não, mas quando buscar uma saída ou outra pela porta transversal da vitamina t, o escape fundamentais dos ciclos que incorporo em gesto e ação mãe, avó, pai. Quanto tempo passei usando verbo e sentimento e raiva e energia para não ser como ele. E ser. E precisar encarar as parecenças, as repetições, a fuça no espelho. A última foto que tinha dele botei num búzio e entreguei para o mar. Quanto tempo existe entre o que negamos e o que nos tornarmos. NÃO REPETIREI O QUE APRENDI SOBRE MASCULINIDADES violentas, ensimesmadas, usando da força de tombo e a certeza física de poder. Não é porque podese que deva-se. Não é porque quero ser OUTRO que queira ser o que não acredito, não celebro, não.
(a partir do inhame que ganhei de Maia de Paiva) Mãe e avó me criaram, assim como deve ser: mulheres que cuidam de crianças. A mãe de minha avó no começo do século XX plantava roça no interior de Minas Gerais e após a morte do marido (branco) teve que dar os filhos. Obrigada a parir e impedida de alimentar as crias. Seus pais viviam na fazenda em que trabalhavam, não recebiam visitas e nem saiam de lá. Venho de uma linhagem de pretas trabalhadoras, os homens aparecem numa geração e somem na outra, os sobrenomes (dos senhores brancos) ficam. A avó, por sua vez, trabalhou desde criança em troca de casa e comida. Sua trajetória em busca de independência e autonomia é sempre interrompida por um homem, principalmente Deus. Casou com meu avô, se mudou para uma metrópole desconhecida, criar raízes numa terra sem intimidade. Minha mãe é a filha mais velha, roupeu com a igreja e entrou para academia. Ganhou a sabedoria dos papéis e também/ busca religar com a memória negra, que esbranquiçou com o tempo. E então eu. Que nem conta de ser mulher eu dei. A mãe ensinou que nossas conquistas atualizam nossa história, e também as histórias de quem veio antes de nós e trilhou esse caminho infinito cheio de resistir e reinventar para que meus pés estivessem aqui. Arranjo espaço para existir corpo que exerce autonomia, desejo – quantes antes de mim puderam desejar? Quem pode experimentar o corpo como suporte para sonhar inventividades depois de jornadas infinitas de trabalho que se derramam sobre todas as horas – o trabalho de uma mulher nunca acaba.
Com as mulheres que me criaram, aprendi a trabalhar sem descanso, abdicar do corpo em benefício do realizar. Aprendi a cuidar muito do que o outro sente, em detrimento de si; não é fácil acessar própria subjetividade quando desligada do seu papel social de mulher. Não aprendemos a manejar dinheiro e falta quebrar essa relação tão machucada com a independência financeira. Diz a epigenética que traumas podem estrangular o DNA e criar alterações físicas na sua estrutura, e esses genes fisicamente traumatizados podem ser passados adiante, por até duas gerações, durante a formação uterina. Falando assim, parece faltar as referências masculinas, mas elas sempre estiveram aqui. As memórias que me saltam vem de um lugar muito magoado de não ter o mesmo direito que esses corpos, de constar uma enorme lacuna de abandono. Ausência também preenche espaço. Tenho aprendido tanto sobre a minha mulheridade ferida.
(outubro) Decidi comprar um binder. Isso me bate em tantos lugares, em tantas morais, em tantos incômodos. O corpo público é sempre um problema, salvo uma exceção ou outra. Que pena estar confortável não ser regra. EU NÃO SOU HOMEM, quanto a isso não há dúvidas, mas os tratamentos no feminino me dão um embrulho, uma náusea. SENHORA? Passam pela cabeça as vezes que enunciei a necessidade de estar bem com os peitos. Penso que se tivesse pêlos, ou músculos, que se usasse outras roupas. Que se não aparentesse comigo. Se eu fosse outre. Não. Não quero mais esse lugar. Faz umas semanas que ando falhando na T. Não quero diminuir o ritmo da transição hormonização, queria mesmo era ter coragem de ir ao mede-cu ver como está/ vai ser esse processo. Um período de testes de um ano é um tempo e tanto. Antes de começar eu sabia exatamente como tudo seria – e foi tudo tão diferente. A expectativa de uma transformação-bingo, mês a mês assinando novas transformações na cartelinha – como se não fosse um salto noescuro, acúmulo de tentativas e errores. É mais fácil se perder no deleite das transformações da pele-para-fora e ignorar intencionalmente os efeitos internos e profundos em mim. “Você tá cuidando da sua saúde”, perguntou a minha mãe. Eu disse que sim. Mas na verdade não sei. Queria mentir por opção e não por ignorância.
(janeiro) Terceiro dia de testosterona em dois meses. Desde a mudança, estava em falta a vitamina T responsável pela regulação de importantes funções do corpo: TESÃO VONTADE VIGOR Começou melhor o dia, vivo melhor com T. É sobre uma cara linda de viver, mas sobretudo sobre as movidas internas – que sem dúvida – vem com ônus. É difícil e chato e cansativo e dolorido, é sobre pai e é sobre avô. Mas ônus tudo tem e gosto mais de ser eu com a vitamina em dia. Esses dois meses de ausência foram de uma “regressão” muito rápida: o corpo não testosterado parecia habitar em cada fresta e escorreu para fora todo arredondado, pesado e melancólico. A mudança mais perceptível no corpo foi o comportamento das águas internas, mais estáticas e menos fluidas. Acho curioso que a gente esqueça de sentir as nossas águas, que são 70% de nós. Tudo mudou, lágrima, sangue, gordura, gozo e suor. Mudam as densidades, talvez a viscosidade, os disparadores. Que saudade de encontrar Meujaela, dobradora de águas, para me guiar pelas investigações de corpo líquido.
(movi o quadril para frente no banho, para lavar o sangue, a rigidez que se instalou nessa articulação delicada, uma TPM infinita que culminou em menstruação atrasada, pouco alargamento de quadril; o inchaço concentrado na barriga, tetas e pés, mas não no quadrtil; cólica muito mais intensa que o usual e imagino se pelo espaço reduzido para crescimento uterino) Por falar em útero, sempre essa condensação de sentimentos enquanto acumulam camadas de endométrio, sangrar é vazar suavizar diminuir diluir. (o útero do tamanho de um punho) tenho experimentando a intensificação da raiva, fúria, frustração, que, como um murro, se deslocam de maneiras curtas, rápidas, intensas. SOLUÇÃO DE ÁGUA E SAL o choro que não sai.
(janeiro) O que mais sinto falta de olhar o mar todo dia engolindo a cidade: é inegável a passagem do tempo, os dias se passam diante dos meus olhos, sobe-e-desce de maré, engole um tanto mais de urbe moídas a ondas e tempo. Passavam os dias e pela janela da cozinha eu via ---- o muro comido do vizinho, o mar, o horizonte, o continente africano, a curva da bola da terra e por aí iam os pensamentos. Hoje a mirada vai até o branco da parede. Pralém do arame farpado vejo o morro do quilombo do Mandira, longe. 70% muco catarro gozo suor saliva sangue litros (Saraelton que catei na tese de Alla) Uma vez que me descobri líquido nunca mais deixei de ser 2/3 água. De tudo que me falta, não me falta água. Que nunca falte.
edição de imagem: Gimp diagramação: Scribus fonte: Garamond
O corpo muda todo dia, velocidades púberes. Esse eu novo desconhecido tensionando, expandindo, ganhando forma, lustrado a creme de vitamina T. Lembro os motivos de começar: ver o que acontece. E vi que era bom.
Produzido e editado com o apoio de Latinidades Pretas 2021.