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REVISTA LGBT 2026

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LGBT+ TURISMO EXPO

JULHO DE 2026

VIOLÊNCIA ALGORÍTMICA

Como os algoritmos podem discriminar viajantes, reforçar desigualdades e expor pessoas em destinos hostis

MERCADO DE TRABALHO

Por que a inclusão da comunidade LGBTQIA+ ainda enfrenta barreiras nas empresas e quais caminhos podem transformar essa realidade

LIBERDADE TURISMO É

O setor turístico acompanha uma transformação histórica: a geração LGBTQIA+ da terceira idade viaja mais, consome mais e celebra uma liberdade que por décadas lhe foi negada

O TURISMO QUE ACOLHE PROSPERA AINDA MAIS

Durante muito tempo, o turismo enxergou o público LGBTQIA+ apenas como um nicho de mercado. Hoje, essa visão já não faz sentido. Estamos falando de um dos segmentos mais relevantes da indústria global de viagens, formado por viajantes que pesquisam, planejam, investem em experiências e, acima de tudo, escolhem destinos onde possam ser quem são.

A diferença é que, para esse turista, a decisão sobre uma viagem começa muito antes da compra da passagem ou da reserva do hotel. Ela começa com uma pergunta que muitos outros sequer precisam fazer: “Serei respeitado naquele destino?”

Pessoas trans, não binárias ou aqueles que viajam em um relacionamento homoafetivo dificilmente escolhem um destino apenas pelas paisagens ou pelos atrativos turísticos. Antes, pesquisam a legislação local, procuram relatos de outros viajantes, verificam se os estabelecimentos são realmente inclusivos e tentam entender se encontrarão um ambiente acolhedor. Segurança e respeito fazem parte do roteiro.

Esse comportamento ajuda a explicar por que o turismo LGBTQIA+ deixou de ser apenas um segmento específico para se tornar um dos grandes motores do turismo mundial. É um público que costuma viajar mais vezes ao longo do ano, permanece mais tempo nos destinos e investe em hospedagem, gastronomia, entretenimento e experiências diferenciadas. Não se trata apenas de volume financeiro, mas de um perfil de consumidor altamente informado e exigente.

Durante décadas, entretanto, essa realidade permaneceu invisível. Eram gerações que viveram escondidas, com medo de assumir sua identidade e de sofrer discriminação. Isso impedia que o próprio mercado compreendesse quem era esse viajante. Muitas pessoas sequer se declaravam nas pesquisas ou evitavam qualquer tipo de exposição.

Hoje vivemos um cenário completamente diferente. O Brasil envelhece e uma geração que conquistou o direito de viver sua identidade de forma mais aberta chega à maturidade com maior poder de consumo e disposição para viajar. Ao mesmo tempo, jovens crescem em um contexto de maior representatividade e naturalidade em relação à diversidade. O resultado é um público cada vez mais visível, conectado e consciente de seus direitos.

Esse novo perfil também mudou a forma como empresas e destinos são avaliados. Não basta mais divulgar campanhas coloridas durante o Mês do Orgulho ou publicar mensagens de apoio nas redes sociais. O turista percebe rapidamente quando existe coerência entre o discurso e a prática.

Infelizmente, ainda é comum encontrar situações que revelam o chamado viés inconsciente. Dois homens fazem check-in e automa-

Presidente Roy Taylor

Vice-Presidente Rosa Masgrau rosamasgrau@mercadoeeventos.com.br(55-21) 99236-5288

Diretor Executivo João Taylor joao.taylor@mercadoeeventoscom.br(55-11) 94542-0911

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Operacional Andreia Boccalini andreia.boccalini@mercadoeeventos.com.br(55-11) 95389-7662

ticamente recebem um quarto com camas separadas. Um casal formado por duas mulheres precisa explicar diversas vezes que viaja em lua de mel. Uma família com duas mães enfrenta constrangimentos na recepção de um hotel. São detalhes que, para quem presta o atendimento, podem parecer pequenos, mas que transformam completamente a experiência de quem viaja.

É justamente por isso que inclusão não pode ser tratada como campanha de marketing. Ela precisa fazer parte da cultura organizacional. Antes de comunicar para o mercado que apoia a diversidade, a empresa deve olhar para dentro. Seus colaboradores estão preparados? Existem treinamentos contínuos? Há políticas claras de respeito e inclusão? Os funcionários LGBTQIA+ se sentem seguros no ambiente de trabalho? A resposta para essas perguntas costuma aparecer naturalmente na experiência do cliente.

O Brasil possui produtos turísticos extraordinários. Temos destinos de natureza, praias, cultura, gastronomia e hospitalidade reconhecidos internacionalmente. O desafio não está na falta de atrativos, mas em garantir que todos os visitantes sejam recebidos com respeito e naturalidade.

Ainda não podemos dizer que todo o trade esteja preparado. Muitos empreendimentos evoluíram, investiram em capacitação e entenderam que inclusão também é estratégia de negócios. Outros, porém, ainda enxergam esse tema apenas como uma oportunidade comercial de curto prazo. E talvez aí esteja a maior lição para o turismo.

Não basta vender destinos ou experiências. É preciso garantir atendimento qualificado, acolhimento genuíno e segurança para que cada pessoa possa viver sua viagem sem medo de julgamentos ou constrangimentos. O turista LGBTQIA+ não procura tratamento diferenciado. Procura apenas aquilo que qualquer viajante espera encontrar: respeito.

E quando um destino consegue oferecer isso de forma verdadeira, ele conquista muito mais do que um cliente. Conquista um embaixador, alguém que volta, recomenda, compartilha sua experiência e ajuda a construir uma reputação que nenhuma campanha publicitária consegue comprar.

No fim das contas, a inclusão não é apenas uma questão de responsabilidade social. É também uma escolha inteligente para um setor que vive de receber pessoas. Afinal, o turismo só cumpre seu papel quando todos podem viajar sendo exatamente quem são.

Natália Strucchi é jornalista, pós-graduada em Hotelaria e Turismo e diretora de Redação do M&E

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Uma publicação da Editora Mercado e Eventos Ltda

Os artigos e opiniões de terceiros publicados nesta edição não refletem necessariamente a posição do jornal.

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UM MUNDO DE POSSIBILIDADES

Da energia vibrante das grandes capitais à exclusividade de destinos exóticos, oferecemos experiências para todos os estilos de viajantes.

Conectamos você a experiências autênticas e acolhedoras ao redor do mundo. Com curadoria especializada e parceiros selecionados, oferecemos destinos que você possa viajar com tranquilidade, conforto e liberdade para ser quem é.

ENTREVISTAS

8 - ALEX BERNARDES (LGBT+ TURISMO EXPO)

12 - CLOVIS CASEMIRO (IGLTA BRASIL)

14 - RICARDO GOMES (CÂMARA DE COMÉRCIO E TURISMO

LGBT DO BRASIL)

18 - LOHAN HALDEN (IGLTA)

20 - GUSTAVO FELICIANO (MINISTRO DO TURISMO)

22 - BRUNO REIS (PRESIDENTE DA EMBRATUR)

TRAJETÓRIAS INSPIRADORAS

24 - FAMÍLIA PESSOA TARDIVO

32 - ALLAN CARDOSO (AYSHA PINK)

34 - INFLUENCIADORES DA INCLUSÃO

MERCADO

28 - COMO CONQUISTAR HÓSPEDES FIÉIS?

43 - MANIFESTO LGBT+

44 - CASE DE SUCESSO DA ACCOR

50 - O PAPEL DO TRADE NA INCLUSÃO

54 - LUA DE MEL LGBT+

DADOS DO SETOR

40 - VIOLÊNCIA ALGORÍTMICA

46 - ATLAS DA VIOLÊNCIA 2026

48 - GAY TRAVEL INDEX 2026

58 - PESQUISA APONTA MEDOS E ANSEIOS DURANTE VIAGENS

60 - EXCLUSÃO NO MERCADO DE TRABALHO

O viajante que envelhece ‘fora do armário’ desafia o trade turístico

Pela primeira vez, uma geração LGBT+ chega à terceira idade vivendo sua identidade abertamente

O Brasil atravessa uma rápida transição demográfica e o cenário atual apresenta uma convergência inevitável de duas grandes forças sociais: a expansão da chamada Economia Prateada (60+) e o amadurecimento da primeira geração LGBT+ que envelhece assumidamente.

É exatamente este panorama que motivou a 5ª edição do LGBT+ Turismo Expo a trazer o tema “Turismo LGBT+ 60+” para o centro da discussão. “Quem é, de fato, esse viajante? Quais são suas particularidades de consumo e, acima de tudo, seus maiores receios e desejos ao planejar uma viagem? Essas são as perguntas que nós, enquanto evento, também estamos tentando responder. Ainda sabemos pouco sobre esse público e trouxemos o assunto para começar a mapear as informações de forma mais precisa”, afirma Alex Bernardes, CEO do encontro.

Para a indústria de viagens, a longevidade desse contingente representa uma oportunidade bilionária. “Eram gerações que viveram escondidas, com medo de se assumir e de se expor. Isso impedia que o setor entendesse o perfil desse turista, porque essas pessoas não se declaravam em pesquisas e, muitas vezes, evitavam qualquer exposição. Agora, a realidade é diferente. O país está envelhecendo e existe uma geração que chega a essa faixa etária vivendo sua essência de forma aberta”, explica Bernardes. Ao exigir reconhecimento e tratamento igualitário, o segmento de turistas 60+ passa a desafiar uma cadeia de serviços que, historicamente, associou a diversidade quase que exclusivamente à juventude, às festas e à vida noturna.

AS CIFRAS DA LONGEVIDADE E DO CONSUMO O tamanho do nicho que o turismo corre o ris -

Alex Bernardes, CEO do LGBT+ Turismo Expo
Foto: Ana Azevedo - M&E

co de atender mal — ou perder — é expressivo. Uma pesquisa inédita realizada pela consultoria Data8 e o Expo Fórum de Turismo 60+, com o apoio do Ministério do Turismo, revelou o potencial financeiro dos veteranos no cenário nacional, constatando que os sexagenários não são apenas um público de deslocamentos sazonais ou de baixo custo:

- R$ 1,8 TRILHÃO: É o volume movimentado pelo consumo da população 60+ hoje no país, valor que, segundo projeções demográficas do estudo, deve saltar para R$ 3,8 trilhões até 2044;

- FREQUÊNCIA: 52% dos entrevistados realizam pelo menos três viagens de lazer por ano;

- PODER DE CONSUMO: 34% dos viajantes da maturidade ouvidos gastam, no mínimo, R$ 10 mil anualmente em seus roteiros;

INDEPENDÊNCIA: 96% são responsáveis por arcar com os próprios custos e 48% definem seus roteiros por conta própria, usando plataformas e aplicativos digitais.

O impacto desses números nacionais se amplia quando associado ao perfil global do turista LGBT+. Dados da International LGBTQ+ Travel Association (IGLTA) mostram que esse público viaja com maior frequência e gasta significativamente mais nos destinos do que a média geral.

A BAGAGEM DE QUEM DESAFIA O MERCADO

Para compreender as exigências desse perfil, as empresas precisam fazer um resgate histórico. O turista que hoje tem entre 60 e 70 anos passou a juventude inteira em um mundo onde sua orientação sexual ou identidade de gênero era considerada crime ou patologia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que só retirou a homossexualidade da lista de doenças em 1990.

Muitos construíram suas trajetórias à margem das estruturas familiares tradicionais, o que resultou em uma configuração socioeconômica própria: ausência de dependentes e dupla renda acumulada ao longo da vida profissional (o conceito conhecido como DINK - Double Income, No Kids). Afastados de parentes biológicos por preconceito, estruturaram fortes laços de amizade e apoio mútuo — as chamadas “famílias escolhidas”.

Eram gerações que viveram escondidas, com medo de se assumir e de se expor. Isso impedia que o setor entendesse o perfil desse turista, porque essas pessoas não se declaravam em pesquisas e, muitas vezes, evitavam qualquer exposição. Agora, a realidade é diferente. O país está envelhecendo e existe uma geração que chega a essa faixa etária vivendo sua essência de forma aberta

“ “

Ao atingirem a maturidade com estabilidade financeira e liberdade, eles utilizam o lazer como um exercício pleno de emancipação e não buscam pacotes engessados. “A principal meta do trade turístico deve ser a criação de produtos realmente seguros, acolhedores e preparados para receber o turista LGBT+. O turista LGBT+ está mais exigente e não aceita mais invisibilidade ou tratamento superficial. É um público que demanda seriedade, responsabilidade, dignidade e igualdade”, endossa Bernardes.

TOLERAR NÃO É ACOLHER

É exatamente na hora do “bem receber” que o descompasso entre a oferta e a demanda se destaca. Os números da Data8/MTur provam que o turista experiente se modernizou: 96% custeiam os próprios deslocamentos por conta própria e 48% definem seus roteiros de forma digital. O gargalo do setor está em acompanhar essa evolução e realidade de consumo. Quando adicionamos a camada LGBT+, as

deficiências de atendimento ficam ainda mais evidentes. Alex Bernardes aponta que o nicho vive uma transição importante, deixando para trás o fantasma do preconceito comercial. “Durante muito tempo o tema foi tratado como tabu e muitas marcas tinham receio de se associar ao segmento. Hoje, o que existe é o início de uma movimentação mais consistente de preparação e interesse pelo tema.”

Por outro lado, o avanço no interesse corporativo ainda esbarra na prática do dia a dia. ”Ainda não dá para dizer que o trade está totalmente preparado. O Brasil possui produtos excelentes, porém muitos ainda falham no atendimento, na receptividade e no respeito. O desafio é garantir um acolhimento qualificado, seguro e alinhado às expectativas”, diz Bernardes.

O CEO do LGBT+ Turismo Expo observou ainda a falha que é cometida na ponta do serviço: no preconceito velado durante o check-in de um casal homoafetivo

sênior, no olhar estereotipado de guias de excursão e na falta de sensibilidade para entender que o afeto na terceira idade LGBT+ tem suas próprias dinâmicas. “Não basta apenas vender destinos ou experiências; é preciso garantir atendimento qualificado, respeito, receptividade e alinhamento com as exigências desse público”, enfatiza.

RUMO À PROFISSIONALIZAÇÃO

Diante desse cenário, a busca por capacitação técnica tem mobilizado os profissionais do setor. Segundo Alex Bernardes, a LGBT+ Turismo Expo tem atuado como um ponto de convergência para mitigar esses gargalos. “A feira ajudou a dar mais visibilidade ao tema e contribuiu para aproximar empresas, destinos e profissionais interessados em entender melhor esse mercado. Mas esse é um trabalho contínuo. Não existe uma linha de chegada, principalmente em um país do tamanho do Brasil”, explica o CEO.

Turismo Expo debate anualmente desafios e tendências do setor no que tange ao turismo LGBT

LGBT+

A bordo do novo Norwegian Luna™, seus clientes desfrutarão de mais espaço, design inovador e experiências perfeitas. No Caribe e nas Bahamas, cada momento convida os hóspedes a viverem do seu jeito. Em Great Stirrup Cay, o novo parque aquático The Great Tides Waterpark se destaca, juntamente com áreas de relaxamento e ainda um novo bar aquático. O cenário perfeito para celebrar com total liberdade.

Turismo LGBTQIA+ no Brasil avança entre diversidade, experiências e a busca por acolhimento real

Segmento movimenta bilhões e pressiona setor por acolhimento mais autêntico

Por muito tempo, o turismo LGBTQIA+ foi associado quase exclusivamente à vida noturna, às festas e aos grandes eventos. Hoje, porém, o segmento vive uma transformação global, e o Brasil tenta ampliar seu espaço nesse cenário apostando não apenas na celebração, mas também em experiências culturais, natureza, gastronomia e hospitalidade mais preparada para receber um público cada vez mais exigente.

Internacionalmente, o país continua sendo visto como um destino vibrante e cheio de potencial. O Carnaval de rua, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e a própria imagem de um povo caloroso seguem fun

cionando como grandes cartões-postais para turistas LGBTQIA+ do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, cresce o esforço para ampliar essa percepção e mostrar que o Brasil também pode oferecer experiências sofisticadas, seguras e diversas além do circuito tradicional.

“O Brasil é reconhecido pela alegria, pelo Carnaval de rua e pela Parada de São Paulo, o que atrai turistas que buscam festa e cultura. Mas temos feito um grande esforço para também promover nossos destinos de natureza e aventura, que são muito procurados pelo público LGBTQIA+”, afirma Clovis Casemiro, diretor da IGLTA no Brasil.

Esse movimento ajuda a explicar, segundo Clovis, o crescimento de destinos ligados ao ecoturismo e às viagens de experiência entre turistas LGBTQIA+. Segundo a entidade, Amazonas, Pantanal, Bonito e os Canyons do Sul aparecem entre os locais que vêm despertando interesse do público, ao lado de cidades já tradicionais nesse mercado, como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Recife e São Luís.

Enquanto São Paulo chama atenção pelo cenário cultural e gastronômico, o Rio mantém o apelo ligado ao lifestyle e às praias. Florianópolis ganha força pelas praias que atraem públicos segmentados, enquanto cidades do Nordeste ampliam o interesse internacional ao unir diversidade cultural, afroturismo e experiências conectadas à identidade brasileira.

Mais do que promover destinos, no entanto, o setor vem sendo pressionado a discutir acolhimento de forma prática. Para Clovis, um destino verdadeiramente inclusivo precisa construir o que ele define como um “ecossistema de segurança”. Isso envolve desde leis claras contra discriminação até treinamento de profissionais e representatividade nos espaços turísticos.

UM MERCADO BILIONÁRIO

QUE EXIGE MAIS DO QUE CAMPANHAS

A força econômica do turismo LGBTQIA+ ajuda a ex-

Clóvis Casemiro, diretor da IGLTA no Brasil
Foto:

plicar por que o segmento passou a ganhar atenção estratégica dentro do setor. Estimativas globais apontam que turistas LGBTQIA+ representam cerca de 10% dos viajantes e 15% dos gastos totais do turismo mundial, movimentando um mercado relevante para destinos que buscam aumentar permanência, consumo e ocupação hoteleira ao longo do ano. “No Brasil, esse impacto é ainda mais importante porque o turista LGBTQIA+ costuma viajar mais vezes ao ano e gastar mais no destino, principalmente com gastronomia, entretenimento e experiências”, explica Clovis.

Ao mesmo tempo em que o mercado cresce, também aumenta a pressão para que empresas e destinos transformem discurso em prática. Segundo o diretor da IGLTA, ainda existe uma distância significativa entre campanhas de diversidade e o atendimento oferecido no dia a dia. “Muitas marcas adotam o arco-íris em junho, mas falham no atendimento básico. O viés inconsciente ainda aparece em situações simples, como presumir que dois homens no check-in querem camas separadas ou não saber lidar com uma família formada por duas mães”, afirma.

Para Clovis, evitar o chamado “pinkwashing” exige mudanças estruturais e compromisso contínuo, e não apenas ações sazonais durante o Mês do Orgulho. “O apoio à causa precisa ser uma decisão de gestão, não apenas uma campanha de vendas. A empresa precisa olhar para dentro antes de anunciar para fora”, complementa.

Nesse cenário, pequenos hotéis e negócios independentes podem encontrar justamente na proximidade uma oportunidade de criar experiências mais acolhedoras. Linguagem neutra, sinalizações inclusivas e informações sobre espaços friendly da região já ajudam a transmitir conforto e segurança ao visitante.

SEGURANÇA E PERTENCIMENTO NO CENTRO DA EXPERIÊNCIA

Apesar do crescimento do setor e do maior interesse de empresas e destinos pelo público LGBTQIA+, a segurança ainda aparece como um dos fatores mais decisivos na escolha de uma viagem.

Segundo Clovis, turistas LGBTQIA+ costumam fazer uma espécie de “gestão de risco” antes mesmo do embarque, avaliando o quanto poderão se sentir confortáveis e seguros durante a experiência. “O viajante LGBTQIA+ pensa: ‘Posso andar de mãos dadas? Posso ser eu mesmo nesse restaurante?’”, afirma.

Para ele, um dos avanços mais importantes dos últimos anos foi justamente a entrada definitiva da pauta da diversidade nas estratégias do setor turístico. Órgãos públicos, redes hoteleiras e grandes operadoras passaram a enxergar o turismo LGBTQIA+ não apenas como um nicho, mas como um mercado relevante e economicamente estratégico.

Ao mesmo tempo, o cenário social ainda acende alertas. O aumento da violência contra pessoas LGBTQIA+ e o avanço de discursos conservadores impactam diretamente a percepção internacional sobre determinados destinos. “O turismo não acontece em uma bolha. Se a cidade é perigosa para o morador LGBTQIA+, ela eventualmente será vista como perigosa para o turista também”, completa Clóvis.

Em um mercado cada vez mais guiado por experiência, pertencimento e autenticidade, o viajante LGBTQIA+ busca mais do que destinos bonitos ou campanhas coloridas. A procura é por lugares onde seja possível existir com liberdade, conforto e segurança.

Nesse contexto, o desafio para o setor turístico parece menos ligado à promoção e mais à capacidade de transformar acolhimento em prática cotidiana.

Geração Z força virada de chave no turismo LGBT+ no Brasil

Novo perfil de viajante exige diversidade real e segurança jurídica; entidades alertam que marcas focadas apenas no Mês do Orgulho vão perder mercado

A Geração Z virou a principal força de transformação do turismo LGBT+ no mundo. Esse segmento responde por uma fatia que oscila entre 5% e 10% dos viajantes globais e movimenta mais de US$ 211 bilhões por ano, segundo dados da UN Tourism e da IGLTA (Associação Internacional de Viagens LGBTQ+). Trata-se de um público que rejeita o oportunismo comercial e cobra diversidade real e segurança jurídica para viajar.

No Brasil, porém, o crescimento desse setor esbarra na baixa maturidade das empresas, na instabilidade política e na falta de dados estruturados. O alerta está no Manifesto do Turismo LGBT+ no Brasil, um documento inédito assinado em conjunto pela Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, IGLTA e LGBT+ Turismo Expo, para cobrar estratégias de longo prazo de governos e executivos do setor.

“A Geração Z tem um comportamento diferente. Esse jovem analisa e valida a empresa antes de comprar. Ele

quer saber qual companhia aérea vai voar e em que hotel vai se hospedar”, afirma Ricardo Gomes, presidente da Câmara LGBT+.

O dirigente ressalta que essa cobrança por marcas inclusivas mudou o mercado de forma ampla. ”A grande maioria dos jovens dessa geração, inclusive os heterossexuais, apoia empresas que fazem um trabalho correto com populações minorizadas. Quem instruir ações apenas no Mês do Orgulho vai perder a maior massa de consumidores do futuro.”

ARCO-ÍRIS SEM PLANEJAMENTO NÃO SUSTENTA ECONOMIAS

O primeiro grande obstáculo para o crescimento do setor no Brasil é a falta de estatísticas. O Manifesto aponta que o país não possui dados consolidados sobre o comportamento dos viajantes LGBT+, o que impede hotéis e agências de criarem produtos adequados para os novos perfis de famílias e para a própria Geração Z. Para reverter esse cenário, a Câmara LGBT+ desenvolveu, em parceria com o IEMI (Inteligência de Mercado), uma pesquisa para mapear os hábitos de consumo desse público para transformar números em estratégias de negócios.

Sem indicadores locais que balizem as decisões, o mercado brasileiro opera na informalidade. “O nível de maturidade do empresário brasileiro em relação às questões de diversidade, inclusão e pertencimento ainda é muito baixo”, afirma Ricardo Gomes. Na avaliação do dirigente, o trade nacional ainda prefere trabalhar com base em opiniões pessoais do que com ferramentas profissionais de gestão.

Essa ausência de critérios técnicos abre espaço para o chamado “rainbow washing” — termo de mercado para definir corporações que adotam a bandeira do arco-íris em campanhas publicitárias sazonais, mas não alteram sua operação interna. O Manifesto das entidades resume o impacto comercial dessa prática em uma frase contundente: “Arco-íris sem

Foto: Divulgação Câmara
Ricardo Gomes, presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil

planejamento não sustentam economias”.

Gomes destaca que esse oportunismo comercial atinge inclusive grandes marcas internacionais. “Até corporações americanas e europeiras que têm posturas consolidadas em suas matrizes adotam comportamentos diferentes no Brasil. Há um interesse claro no lucro que a comunidade produz, mas o compromisso genuíno está distante. Falta profissionalizar o setor, treinar e capacitar fora das datas sazonais”, diz. Como contraponto, o executivo aponta a rede de hotéis Accor, que mantém programas contínuos de qualificação e letramento de funcionários.

O CUSTO DA INSTABILIDADE POLÍTICA

Além das falhas estruturais de mercado, o setor enfrenta barreiras na esfera política. O Manifesto aponta que projetos de lei restritivos ameaçam a reputação internacional do Brasil como destino seguro. O exemplo recente é a aprovação, em primeiro turno na Câmara Municipal de São Paulo, de uma proposta que tenta proibir a presença de crianças na Parada do Orgulho LGBT+ e criar restrições ao evento na Avenida Paulista.

A relevância do debate é financeira. A Parada de São Paulo figura entre os três maiores indutores de turismo da capital paulista e movimenta centenas de milhões de reais a cada edição, impulsionando a ocupação hoteleira, a gastronomia e o setor de transportes.

“Essa decisão da Câmara de São Paulo é inconstitucional e não vai para a frente, mas o impacto comercial é imediato”, afirma Ricardo Gomes. “Políticos usam essas iniciativas para criar ruído. O turista vê a notícia pela metade, entende que a Parada não vai acontecer e cancela a viagem. Isso prejudica a reputação do país e ameaça investimentos milionários.”

Para blindar a imagem do país no exterior e contrapor esses impactos negativos, a Câmara LGBT+ anunciou que retomará o programa de press trips em setembro, durante sua conferência internacional na capital paulista. A ação trará uma comitiva de oito jornalistas estrangeiros especializados para relatar de perto as condições de segurança e a infraestrutura dos destinos nacionais.

DA BOA VONTADE AOS PROTOCOLOS FORMAIS

Para tentar proteger o mercado e dar direcionamento a investidores e gestores públicos, as demandas das entidades foram consolidadas no Manifesto. O documento foi encaminhado formalmente ao Ministério do Turismo, à Embratur e aos membros do Conselho Nacional do Turismo, colegiado no qual a Câmara LGBT+ ocupa um assento de representação da sociedade civil organizada.

Uma das metas práticas do plano é descentralizar as viagens, hoje concentradas nos grandes eixos urbanos. O projeto prevê o fomento de parcerias com estados e municípios para promover destinos de natureza, aventura e celebrações que já registram demanda estruturada, como Bonito (MS), Foz do Iguaçu (PR), Fernando de Noronha (PE) e o Pantanal Sul-Mato-Grossense.

“O Manifesto não é apenas uma cobrança, é um direcionamento. Estamos trabalhando com os nossos pares no conselho para transformar esse documento em um norte para as políticas públicas e privadas”, explica Ricardo Gomes. “Queremos pulverizar esse turismo pelo país, mostrando que o Brasil tem destinos maduros de ecoturismo e eventos fora dos grandes centros.”

O objetivo central do documento é profissionalizar o atendimento técnico e superar a chamada “hospitalidade instintiva” — o acolhimento baseado apenas em voluntarismo. No lugar da informalidade, o setor defende o treinamento obrigatório do trade, adoção de linguagem inclusiva e regras institucionais de segurança.

“O Brasil é conhecido mundialmente por ser um povo simpático e acolhedor, mas o turismo internacional hoje exige mais do que um sorriso”, afirma o dirigente. “Mudar as ações internamente significa trocar a boa vontade por protocolos formais de atendimento, letramento técnico das equipes e garantias reais de segurança.”

Para os signatários do documento, a mensagem final ao mercado é clara: manter práticas de inclusão sem planejamento de longo prazo, sem dados consolidados e sem investimento real na base da comunidade é um modelo de negócios que faliu no mercado globalizado contemporâneo.

Turismo LGBTQ+ deixou de ser nicho e se tornou estratégico, afirma IGLTA

Associação aponta crescimento da demanda, maior preocupação com segurança e mudanças no perfil do viajante queer

O turismo LGBTQ+ global segue em expansão mesmo diante do aumento da hostilidade contra a comunidade em diferentes partes do mundo. Segundo LoAnn Halden, vice-presidente de Comunicação da International LGBTQ+ Travel Association (IGLTA), o segmento já se consolidou como uma das forças mais estratégicas da indústria de viagens e não pode mais ser tratado como nicho.

“O mercado segue forte e em crescimento”, afirmou, ao citar estimativas da Globetrender que apontam que os gastos do turismo queer podem alcançar US$ 568,5 bilhões até 2030.

LoAnn também destacou mudanças no comportamento dos viajantes. Segundo ela, turistas LGBTQ+ buscam cada vez mais viagens longas, experiências de imersão cultural e roteiros segmentados para diferen -

tes perfis dentro da comunidade. O turismo em família também aparece em crescimento.

Segurança é prioridade na escolha do destino Entre as principais expectativas do público LGBTQ+ ao escolher um destino, a segurança segue como fator decisivo. De acordo com LoAnn, os viajantes avaliam não apenas leis e índices oficiais, mas também experiências compartilhadas nas redes sociais. “O viajante quer ser tratado com dignidade e respeito”, disse.

A executiva citou ferramentas como o índice da Spartacus International Gay Guide e os mapas da ILGA World como referências utilizadas antes da escolha de um destino. Redes sociais também ajudam turistas a entender como é, na prática, a experiência de outras pessoas LGBTQ+ naquele local.

BRASIL SEGUE COMO REFERÊNCIA NO SEGMENTO

Na visão da IGLTA, o Brasil continua sendo um dos principais destinos do turismo LGBTQ+ mundial. LoAnn lembrou que o país mantém, há mais de uma década, a segunda maior base de associados da entidade, refletindo o interesse do trade brasileiro pelo segmento. Ela também destacou avanços como o casamento igualitário, adoção e mudança de gênero em documentos, além da São Paulo Pride, considerada a maior parada LGBTQ+ do mundo.

Apesar disso, ressaltou que ainda há espaço para evolução. Atualmente, o Brasil ocupa a 32ª posição no Spartacus Gay Travel Index.

INCLUSÃO VAI ALÉM DA CAMPANHA PUBLICITÁRIA

Para LoAnn, destinos turísticos precisam ir além de campanhas de marketing e investir em mudanças estruturais capazes de garantir experiências verdadeiramente inclusivas. “O progresso real não está na propaganda, mas em mudanças sistêmicas e resultados mensuráveis”, afirmou.

Lohan Halden, VP de Comunicação da IGLTA
Foto: Arquivo pessoal

DESCUBRA

DESTINO

Turismo LGBTQIA+ ganha força na estratégia de promoção internacional do Brasil

Ministério do Turismo aposta em hospitalidade inclusiva, qualificação do trade e promoção de destinos para consolidar o país como referência em diversidade e acolhimento

A consolidação do Brasil como um dos principais destinos turísticos para o público LGBTQIA+ faz parte da estratégia de posicionamento internacional do país. Mais do que um atributo associado à diversidade cultural, a inclusão vem sendo tratada como um diferencial competitivo para ampliar a atratividade dos destinos brasileiros e fortalecer um segmento reconhecido pelo alto potencial de consumo e pelo impacto positivo na economia do turismo.

Para o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, a imagem do Brasil no exterior está diretamente ligada à sua capacidade de acolher visitantes de diferentes perfis, característica que tem sido reforçada por reconhecimentos internacionais e por ações voltadas à qualificação do setor. “A imagem do Brasil no exterior reflete de forma genuína a diversidade e o acolhimento. O Brasil celebra a pluralidade, evidenciada por dados e reconhecimento internacional”, afirmou.

Um dos exemplos citados pelo ministro é o levantamento global da Booking, que posiciona São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro entre os dez destinos do mundo com maior número de acomodações certificadas com o selo Travel Proud. A iniciativa reconhece meios de hospedagem que investem em capacitação para oferecer uma experiência mais acolhedora, respeitosa e inclusiva aos viajantes LGBTQIA+, reforçando a reputação do Brasil como referência em hospitalidade.

TRABALHO EM CONJUNTO DO GOVERNO COM A INICIATIVA PRIVADA

Na avaliação do ministro, esse reconhecimento internacional dialoga com uma estratégia mais ampla de promoção turística. O fortalecimento da imagem do país passa pelo trabalho conjunto entre governo e iniciativa privada, especialmente na divulgação de destinos considerados estratégicos para esse público.

“O diálogo com quem constrói o segmento é o caminho mais eficiente. Por isso, temos unido esforços para a promoção internacional e o apoio direto à comercialização dos destinos brasileiros considerados estratégicos para o público LGBT, tendo a Embratur como parceira nessa promoção”, destacou Feliciano.

O turismo LGBTQIA+ representa um dos segmentos mais relevantes da indústria global de viagens. Estudos internacionais apontam que esses viajantes costumam realizar mais viagens ao longo do ano, apresentam elevado gasto médio e valorizam destinos que oferecem experiências autênticas, segurança e políticas efetivas de inclusão.

Nesse contexto, grandes cidades brasileiras já se consolidaram como referências para esse mercado, seja pela oferta cultural, pela diversidade de atrações ou pela realização de eventos de grande porte.

Entre eles, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo permanece como um dos maiores eventos do gênero no mundo, movimentando hotéis, restaurantes, comércio, transporte e toda a cadeia produtiva do turismo. O

Foto: Eric RibeiroM&E
Gustavo Feliciano, ministro do Turismo

impacto econômico vai além da capital paulista, fortalecendo a imagem do Brasil como um destino aberto à diversidade e ampliando sua visibilidade internacional.

GUIA PARA ATENDER BEM

TURISTAS LGBTQIA+

Para que essa percepção seja acompanhada por uma experiência positiva durante toda a viagem, o Ministério do Turismo também investe na qualificação dos profissionais que atuam diretamente no atendimento aos visitantes.

“A experiência do turista começa na forma como ele é acolhido. E para garantir um padrão de excelência baseado no respeito, o Ministério do Turismo disponibiliza o Guia para Atender Bem Turistas LGBT”, explicou o ministro.

Voltada aos profissionais do trade turístico, a publicação reúne orientações práticas para hotéis, bares, restaurantes, agências de viagens, atrativos turísticos e guias de turismo. O material aborda temas como o uso correto do nome social, atendimento respeitoso, linguagem inclusiva e prevenção de práticas discriminatórias, contribuindo para transformar a hospitalidade brasileira em uma competência técnica alinhada às melhores práticas internacionais.

Segundo Feliciano, o apoio institucional também contempla iniciativas capazes de fortalecer o calendário de eventos voltados ao segmento, reconhecendo sua importância tanto para a promoção dos destinos quanto para a movimentação econômica das cidades. “O apoio a eventos que fomentam o setor também faz parte do nosso trabalho”, ressaltou.

Brasil aposta na diversidade para ampliar presença no turismo LGBTQIA+ internacional

Mercado global deve movimentar mais de US$ 600 bilhões até 2032 e Embratur intensifica ações para posicionar o país como destino acolhedor, inclusivo e competitivo

A diversidade deixou de ser apenas um diferencial para se tornar um dos principais ativos do turismo mundial. Em um cenário em que viajantes buscam cada vez mais destinos alinhados a valores como inclusão, respeito e autenticidade, o mercado LGBTQIA+ consolida sua posição como um dos segmentos mais relevantes da indústria global de viagens, e o Brasil quer ampliar sua participação nesse movimento. De acordo com estimativas internacionais, o turismo LGBTQIA+ movimentou cerca de US$ 357 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 604 bilhões até 2032. O crescimento expressivo reflete não apenas o aumento do poder de consumo desse público, mas também a busca por experiências que ofereçam segurança, acolhimento e liberdade de expressão.

Para a Embratur, esse cenário representa uma oportunidade estratégica para fortalecer a presença do Brasil nos mercados internacionais. O segmento

passou a ocupar papel de destaque dentro do Plano Brasis, o plano internacional de marketing turístico do país para o período de 2025 a 2027.

Segundo Bruno Reis, presidente do órgão, o turismo LGBTQIA+ deixou de ser tratado como um nicho específico para assumir uma posição central nas estratégias de promoção do destino Brasil. “Mais que um nicho, o turismo LGBTQIA+ é um dos grandes motores do turismo mundial”, afirma.

A estratégia para 2026 prevê a ampliação da presença brasileira em eventos especializados e de grande relevância para o segmento, como a LGBT+ Turismo Expo, a Conferência Internacional da Diversidade e a Convenção Global da IGLTA, principal associação internacional de turismo LGBTQIA+.

Paralelamente, a Embratur pretende reforçar campanhas promocionais em mercados considerados prioritários, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

BRASIL, DESTINO ACOLHEDOR

A proposta é posicionar o Brasil não apenas como um destino de praias, natureza e entretenimento, mas também como um país capaz de oferecer experiências autênticas, acolhedoras e alinhadas aos valores da diversidade.

Essa estratégia ganha ainda mais relevância diante do perfil do turista LGBTQIA+. Trata-se de um público que costuma viajar com maior frequência ao longo do ano, apresenta gasto médio superior ao dos demais viajantes e demonstra forte interesse por experiências culturais, gastronômicas, de luxo e de contato com a natureza.

Segundo estimativas da Embratur, o segmento movimentou entre US$ 660 milhões e US$ 1 bilhão na economia do turismo brasileiro apenas em 2024. Além disso, esse viajante tende a contribuir para a redução da sazonalidade, viajando tanto em períodos de alta quanto de baixa temporada e ajudando a dis -

Foto: Eric Ribeiro
M&E
Bruno Reis, presidente da Embratur

sentam destinos brasileiros sob a ótica da diversidade e da inclusão.

QUALIFICAÇÃO DO SETOR

O turista LGBTQIA+ pesquisa muito antes de viajar. Ele quer saber se será respeitado, se encontrará um ambiente acolhedor e se poderá viver sua experiência de forma livre
“ “

tribuir melhor os fluxos turísticos ao longo do ano.

SEGURANÇA, FATOR PRIMORDIAL

Mas, para além do potencial econômico, existe um desafio que continua sendo determinante na decisão de viagem: a percepção de segurança. No caso do turista LGBTQIA+, segurança vai muito além dos índices de criminalidade. O conceito envolve acolhimento, respeito, representatividade e a possibilidade de viver experiências sem receio de discriminação.

“O turista LGBTQIA+ pesquisa muito antes de viajar. Ele quer saber se será respeitado, se encontrará um ambiente acolhedor e se poderá viver sua experiência de forma livre”, destaca Bruno Reis.

Para enfrentar esse desafio, a Embratur tem atuado em parceria com estados, municípios e o trade turístico na construção de uma imagem internacional baseada em experiências reais e qualificadas. A estratégia inclui campanhas promocionais, press trips, famtours e ações em feiras internacionais que apre -

O trabalho também passa pela qualificação do setor. Uma das principais ferramentas utilizadas é a plataforma Desbrava, criada para integrar governança, capacitação e geração de negócios em uma rede corporativa voltada à internacionalização do turismo brasileiro.

Recentemente, a plataforma passou a disponibilizar um relatório exclusivo sobre o segmento LGBTQIAPN+, reunindo informações estratégicas sobre comportamento do consumidor, tendências globais, destinos concorrentes e oportunidades de mercado. O material busca auxiliar empresas e gestores públicos na criação de produtos e experiências mais alinhados às expectativas desse público.

Embora cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Florianópolis já possuam reconhecimento internacional entre viajantes LGBTQIA+, especialistas apontam que o potencial brasileiro vai muito além dos destinos tradicionalmente associados ao segmento.

A diversidade cultural e natural do país abre espaço para o desenvolvimento de novos produtos turísticos voltados a diferentes perfis de viajantes. Entre os segmentos apontados pela Embratur como promissores estão o turismo de natureza, o afroturismo, a gastronomia, os roteiros culturais, as viagens de luxo e os destination weddings, modalidade que envolve casamentos realizados fora da cidade ou país de origem dos noivos.

Nesse contexto, o Brasil reúne atributos competitivos importantes. Além de paisagens reconhecidas mundialmente e uma ampla oferta de experiências, o país possui um marco legal que garante direitos e segurança jurídica para pessoas LGBTQIA+, aspecto cada vez mais valorizado pelos viajantes na escolha de seus destinos.

Os próximos anos também reservam oportunidades relevantes para ampliar a visibilidade internacional do Brasil junto a esse público. Um dos destaques é a realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027, que será sediada no país e possui forte aderência entre a comunidade LGBTQIA+ em diversos mercados emissores.

Para a Embratur, o evento representa uma vitrine global capaz de apresentar ao mundo um Brasil contemporâneo, diverso e preparado para receber visitantes de diferentes perfis.

“Achávamos

que ser pai e ser gay não combinavam”: a história de Tiago Pessoa e Paulo Tardivo que inspira milhões de famílias

Sete anos após adotarem os irmãos Sara e Davi, os atores Tiago Pessoa e Paulo Tardivo mostram como a paternidade transformou suas vidas e ajudou a quebrar preconceitos sobre adoção e diversidade

Felipe Abílio

Durante anos, Tiago Pessoa e Paulo Tardivo esconderam um sonho até deles mesmos: a paternidade. Não porque não quisessem ser pais, mas porque cresceram acreditando que homens gays simplesmente não formavam famílias. O desejo foi guardado por muito tempo, até que as mudanças na sociedade abriram espaço para uma possibilidade que antes parecia inalcançável. Hoje, sete anos depois da adoção, o sonho que parecia impossível é vivido diante de milhões de pessoas. Ao lado de Sara e Davi, Tiago Pessoa e Paulo Tardivo descobriram que, ao compartilhar a própria história, também ajudavam outras famílias. Nas redes sociais, onde dividem os desafios e as alegrias da paternidade, recebem diariamente mensagens de pessoas que

passaram a enxergar a adoção e a diversidade por um novo olhar.

“O sonho sempre existiu, mas foi arquivado. Na nossa cabeça, ser pai e ser gay não combinavam. Só depois da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo percebemos que também poderíamos construir uma família”, contam.

Foi depois de sete anos de relacionamento que o casal decidiu iniciar o processo de adoção. A partir dali, começou uma jornada que mudaria a vida do casal para sempre. “O processo de adoção foi muito tranquilo. O sistema no Brasil tem muito cuidado com as crianças para que não haja erros que possam gerar novos traumas.”

Entre todas as etapas, uma permanece viva na memória dos dois. Antes de entrar oficialmente na fila,

Tiago, Paulo, Sara e Davi, sete anos de uma família construída pelo amor
Fotos: Acervo Pessoal

foi preciso definir o perfil das crianças que estariam dispostos a adotar. “Nesta ficha você responde se aceita crianças vivendo com HIV, com deficiência, vítimas de violência, qual a etnia, se os pais biológicos tiveram contato com drogas, entre outras situações. Dizer não para muitas dessas respostas parecia dizer não para uma criança que precisava de um lar. Isso nos marcou.”

O casal entrou na fila com o desejo de aumentar a família e foi chamado para conhecer Davi, que na época tinha apenas três meses de vida. No abrigo, descobriram que o bebê tinha uma irmã biológica, Sara, que também aguardava por uma família. A decisão foi adotar os dois irmãos, que desde então seguem crescendo juntos.

Quando finalmente conheceram Sara e Davi, viveram uma experiência bem diferente daquela retratada em filmes e novelas. “Não houve amor à primeira vista e isso precisa ficar claro, porque nem sempre acontece. O amor foi sendo construído diariamente nas visitas ao abrigo e nas brincadeiras. No início a gente só sentia medo do desafio que estava por vir. Mas, em poucos dias, percebe o amor avassalador que vai se criando.”

DIFERENÇAS QUE SE COMPLETAM

Hoje, a família é formada por personalidades bastante diferentes. Tiago se define como um pai brincalhão e cheio de energia.”Sou um pai bem molecão, alegre, um baiano cheio de vida. Adoro dormir, não domino nada na cozinha e não gosto de perrengues.”

Já Paulo é quem faz a engrenagem da casa funcionar. “Sou paranaense, cozinheiro, pai para toda obra. Nunca fico parado, acordo cedo, resolvo as coisas da casa, falo muito e costumo colocar ordem.”

Sara, que vive a pré-adolescência, é mais reservada e apaixonada por k-pop e skincare. “Ela é tímida, doce, tem personalidade muito forte.”

Já Davi, aos sete anos, é descrito pelos pais como um menino impossível de passar despercebido. “É hiperativo, falante e muito carismático. Dobra todo mundo no papo e no carinho. É extremamente carinhoso e empático.”

Apesar das diferenças de personalidade, eles descobriram que enxergam a criação dos filhos da mesma maneira. “Nós achávamos que tínhamos estilos diferentes de paternidade. Hoje percebemos que somos apenas diferentes como pessoas, mas acreditamos na mesma forma de criar os filhos.”

A rotina em fam í lia virou inspira çã o para milhões de pessoas nas redes sociais
Sete anos após a adoção, a famí lia segue unida e inspirando outras histórias

O MUNDO DEPOIS DOS FILHOS

A convivência com Sara e Davi transformou muito mais do que a rotina da casa. Mudou a forma como Tiago e Paulo enxergam as pessoas, as dificuldades e o próprio futuro.

“Qualquer criança que esteja passando por uma dificuldade poderia ser nosso filho. Qualquer pai que esteja sofrendo por alguma situação poderia ser a gente. Somos definitivamente mais empáticos depois que nos tornamos pais.”

Com milhões de pessoas acompanhando a rotina da família, o casal faz questão de estabelecer limites para preservar a infância dos filhos. “As crianças têm aparecido cada vez menos e, por decisão conjunta, vão aparecer ainda menos. Elas entendem que o trabalho é nosso, não delas. A gente tenta preservá-las ao máximo.”

Entre as milhares de mensagens recebidas nas redes sociais, algumas emocionaram de forma especial. “Muitas mães contam que passaram a aceitar seus filhos gays depois que se tornaram nossas fãs. Para a gente, essa é uma das maiores contribuições que conseguimos dar. Nosso maior público são justamente essas mães.”

Ao falar sobre adoção, Tiago e Paulo também aproveitam para combater preconceitos que ainda cercam o tema. “Muitos dizem que o caráter é hereditário, e isso é infundado. O juízo moral é construído na criação e na educação.”

Outro mito que eles fazem questão de desconstruir é a ideia de que adotar seja um ato de caridade. “Adotamos para realizar o nosso desejo de sermos pais. Solidariedade é quando você faz algo pensando apenas no outro.”

A chegada de Sara e Davi também mudou a forma como o casal passou a enxergar o futuro. “Hoje temos medo de morrer e fazer falta para os nossos filhos. Aprendemos a economizar dinheiro para que nunca falte nada para eles. Eles nos trouxeram muitos ensinamentos.”

Para quem ainda sonha em adotar, mas tem receio de dar o primeiro passo, Tiago e Paulo deixam uma mensagem baseada na própria experiência. “Adotem. A paternidade tem desafios, independentemente da forma como você se torna pai. Existem muitas crianças esperando por um lar. A adoção transforma a vida para sempre. Foi a coisa mais extraordinária que já vivemos.”

O sonho que um dia ficou guardado por medo do

preconceito hoje completa sete anos em forma de família. Ganhou nome, voz e rotina. Uma casa barulhenta, cheia de vida, com risadas, conversas, diferenças, desafios e aprendizados, como tantas outras.

Mais do que realizar o desejo de serem pais, Tiago e Paulo descobriram uma nova forma de enxergar o mundo. A história deles, ao lado de Sara e Davi, mostra que a adoção transforma a vida de todos que fazem parte dela. E a maior prova disso é justamente a família que construíram. Porque, no fim, uma família não é definida pela forma como nasce, mas pelo amor que escolhe permanecer todos os dias.

A fam í lia compartilha a rotina nas redes sociais, onde soma milhões de seguidores
Foto: Acervo Pessoal
Dinarobin
Paradis
Shandrani
Victoria
Canonnier
Mauricia

Além do discurso: como a inclusão conquista hóspedes fiéis

Especialistas explicam como práticas genuínas de diversidade e inclusão fortalecem a reputação dos empreendimentos, fidelizam viajantes LGBT+ e geram resultados financeiros

Uma empresa hoteleira realmente inclusiva com o público LGBT+ é apenas aquela que faz campanhas bonitas durante o Mês do Orgulho? Para responder esse questionamento, o Mercado & Eventos conversou com Otávio Furtado, colunista e consultor de Diversidade & Inclusão, e Karina Baldovino, encarregada do produto LGBT do Uruguai. Ambos discutem como a inclusão bem executada gera retorno comercial e reputacional, enquanto o “pinkwashing” destrói marcas.

Otávio Furtado deixa claro que a resposta começa muito antes do turista chegar ao hotel. Ele sustenta que “toda empresa só será boa para o hóspede LGBT+ se é boa para o colaborador LGBT+”. O primeiro indicador de autenticidade não é ter apenas funcionários da comunidade, mas tê-los em cargos de frente de atendimento, ao invés de escondidos nos bastidores apenas para cumprir cota.

Karina reforça que “quando existe uma política genuína, isso se percebe desde o primeiro contato: na comunicação, na linguagem utilizada, na naturalidade da atenção e na forma em que a equipe recebe todas as pessoas sem gerar situações desconfortáveis ou diferenciações desnecessárias”.

O termo “Pinkwashing” surge para definir empresas que têm discursos de acolhimento, mas que não investem em protocolos claros e revelam incoerência entre o que comunicam e o que o hóspede realmente vivencia. Furtado frisa que o turista está cada vez mais responsável e dando preferência a empresas mais sensíveis e atentos a questões de gênero e inclusão. Esse público não apenas identifica rapidamente a falsidade nas práticas inclusivas, como age ativamente contra ela.

QUANDO INVESTIMENTO EM DIVERSIDADE VIRA NEGÓCIO

A narrativa sobre inclusão na hotelaria frequentemente flutua entre dois polos: o da militância social e o da oportunidade comercial. Ambos os especialistas entrevista -

dos confirmam que essa divisão é falsa e que a inclusão bem executada gera lucro. “A inclusão tem um impacto concreto tanto em reputação como em competitividade, hoje os viajantes valorizam cada vez mais os destinos e empresas coerentes com determinados valores: respeito, diversidade, sustentabilidade e qualidade humana na atenção”, reforça Karina.

Furtado relembra que a comunidade não apenas indica quando é bem acolhida, como também detona qualquer empresa que se furta do atendimento decente. Ele ainda lembra que “somos um dos grupos que mais gasta no turismo e perder esse dinheiro é uma opção irracional”.

A estrutura não precisa ser monumental, muitas vezes o investimento necessário não significa grandes orçamentos, mas decisões de gestão, como formação, revisão de processos, comunicação e cultura organizacional. Isso abre espaço para pequenas pousadas e hotéis independentes conseguirem implementar práticas de diversidade

Foto: IA / Chatgpt

e inclusão. “Negócios menores tem até mais facilidade por lidar com menos variáveis humanas do que grandes grupos”, ressalta Furtado. No Brasil, ele cita que o maior exemplo de sucesso nessa área é do grupo Accor, que “desenvolve um trabalho sério e de longo prazo, com reflexo claro nos resultados alcançados, que comprovam que o investimento, inclusive, traz retorno financeiro”.

No Uruguai, muitas das experiências melhor avaliadas por viajantes LGBT+ não são necessariamente de grandes cadeias, mas de hospedagens onde o público se sente genuinamente bem atendido e com um entorno confortável. “Se percebe uma evolução favorável, porque existe um contexto social e normativo que acompanha”, destaca Karina sobre o Uruguai, destacando Montevidéu, Punta del Este e Colonia como destinos que têm trabalhado esse enfoque de forma mais consistente.

O QUE MUDA A EXPERIÊNCIA

DE UM HÓSPEDE LGBT+ EM UM HOTEL?

Furtado destaca que a comunicação próxima, mas não invasiva, é fundamental e adverte que “não é incomum, na tentativa de mostrar que é acolhedor, acabar ultrapassando o limite da intimidade ou do espaço do hóspede”. É necessário atenção aos detalhes e entender qual o perfil do cliente, por exemplo, se um hóspede pediu cama de casal, é importante manter o pedido, mas trocando o enxoval, personalizando o atendimento.

Também é importante reforçar, independente do setor, o respeito ao nome social no caso de pessoas trans e a linguagem neutra para pessoas não binárias e agêneras. “Vale ressaltar que nem é preciso usar o que se chama de ‘terceiro gênero na língua’. Apenas substituir frases com marcadores de gênero e trocar o ‘O que o sr/sra

deseja’ por ‘O que você deseja’”, indica Furtado.

Karina complementa que essas são práticas internacionais que já ganham espaço no setor. “Não se trata de criar serviços especiais para pessoas LGBT+, mas de garantir que qualquer hóspede viva uma experiência confortável e respeitosa”. Ela aponta ainda para uma tendência global de inclusão transversal, onde a diversidade se integra naturalmente à proposta de valor do destino.

REPRESENTAÇÃO E TREINAMENTO DENTRO DAS ORGANIZAÇÕES

A representação dentro da hotelaria não se trata apenas de estar presente, mas de estar visível e em posições de liderança. O segundo passo, depois de contratar pessoas LGBT+, é integrar o funcionário, fazendo-o se sentir verdadeiramente acolhido no ambiente de trabalho. Se isso acontece, Furtado prevê que a chance de um cliente LGBT+ ter problemas diminui muito, porque já há o respeito no dia a dia. “Um funcionário LGBT+ que se sente bem onde trabalha será uma espécie de embaixador da empresa e o primeiro a detectar e se sentir confortável para destacar erros que precisam ser corrigidos”, completa. Alguns hotéis já se preocupam no impacto social na comunidade onde estão, empregando e fazendo ações junto à essa comunidade. “Isso também tem que se refletir no microcosmos LGBT+ da região. O que você faz para as pessoas LGBT+do seu entorno?”, questiona Furtado.

Treinamentos de equipes são essenciais, de acordo com ambos os especialistas, porém, um workshop anual durante o Mês do Orgulho não é mais o suficiente. É importante incorporar a inclusão como parte da cultura de serviço e não como uma ação pontual, por isso é ne -

cessário realizar treinamentos e capacitações constantes. De acordo com Furtado, “é preciso também trazer a comunidade para dentro do negócio, até porque o convívio no dia a dia com pessoas da comunidade irá ser uma espécie de treinamento diário”.

As situações incômodas mais comuns, segundo os entrevistados, envolvem suposições automáticas do pessoal. Assumir que um casal homosexual são “amigos”, erros na comunicação, linguagem pouco natural, uso incorreto dos pronomes, falta de resposta em determinadas situações, trato diferente, dentre outros fatores, são mencionados como determinantes. “Muitas vezes não existe discriminação explícita, mas sim pequenos gestos que afetam a experiência dos hóspedes”, conclui Karina.

O maior desafio para Furtado, porém, escapa ao controle direto do hotel: “a reação de outros hóspedes”. Porém, isso não exime o hotel da responsabilidade em como conduzir a situação. Neste caso é preciso ser firme no posicionamento e entender que é provável que o cliente preconceituoso seja uma perda, mas a pergunta que fica para Furtado é: “Você quer ter esse tipo de cliente no seu negócio?”

A INCLUSÃO COMO DIFERENCIAL ESTRATÉGICO

Hoje, existe uma mudança de paradigma na hotelaria, não se trata mais de inclusão como responsabilidade social corporativa isolada, mas como componente integral da estratégia de negócio. “A tendência global é de experiências mais humanas, personalizadas e autênticas, onde a diversidade se integra naturalmente à proposta de valor do destino”, prevê Karina.

A indústria hoteleira se encontra em uma encruzilhada: de um lado, existe a pressão comercial para atender um segmento de turistas dispostos a gastar e leais a empresas que respeitam seus valores; do outro, existe um risco reputacional considerável para quem tenta simular inclusão sem estruturar práticas reais. É preciso fazer de forma verdadeira uma mudança no setor. Para Furtado, o não-fazer é menos pior do que fazer apenas de olho no dinheiro da comunidade LGBT+. “Praticar `pinkwashing` é a ‘morte’ para qualquer negócio dentro da comunidade”.

O diferencial que define sucesso não está mais em campanhas visuais ou discursos eloquentes está na naturalidade com que o serviço funciona, no respeito que permeia cada interação, na coerência entre o que se promete e o que se entrega e, fundamentalmente, está na autenticidade.

A diversidade é a nossa herança

Aysha Pink transforma trajetória artística em política pública para fortalecer o turismo inclusivo de Porto Seguro

À frente da Gerência da Diversidade, Allan Cardoso une experiência como artista drag e gestor público para ampliar a representatividade

Beatriz do Vale

A trajetória de Allan Cardoso, conhecido nacionalmente como Aysha Pink, se confunde com a própria evolução das políticas de diversidade em Porto Se guro (BA). Artista drag reconhecido em diferentes eventos pelo Brasil, ele encontrou na gestão públi ca uma forma de transformar vivências pessoais em ações concretas voltadas ao turismo inclusivo.

Hoje, à frente da Gerência da Diversidade da Se cretaria Municipal de Turismo, Allan atua na cons trução de iniciativas que posicionam Porto Seguro como um dos destinos brasileiros mais acolhedores para o público LGBT+, segmento que movimenta bi lhões de dólares anualmente no turismo mundial e valoriza destinos comprometidos com inclusão, se gurança e respeito à diversidade.

“A Aysha Pink me trouxe até aqui e tenho muito orgulho de dizer isso. Estar hoje à frente da Ge rência da Diversidade representa a oportunidade de transformar em política pública tudo aquilo que vivi como artista.”

Mas a ligação com o turismo começou muito an tes da vida pública. Allan trabalhou durante anos em barracas de praia tradicionais da cidade, como Tôa Tôa e Axé Moi, convivendo diariamente com vi sitantes de diferentes partes do Brasil. Foi nesse ambiente que surgiu a percepção do turismo como ferramenta de transformação social.

“Sempre fui apaixonado por viajar, conhecer pes soas e entender a cultura de cada lugar. Quan do tive a oportunidade de ingressar no poder público, percebi que o meu propósito estava no turismo, porque é através dele que conseguimos apresentar nossa cultura, nossa arte e fazer as pessoas viverem experiências.”

Essa vivência artística segue presente na

atuação institucional. Como Aysha Pink, Allan participa de eventos em diferentes estados brasileiros e leva consigo a imagem de Porto Seguro. Ao retornar, traz novas referências para fortalecer as políticas desenvolvidas no município.

“Toda essa vivência eu trago de volta para Porto Seguro. Ao mesmo tempo, também levo Porto Seguro para o Brasil, mostrando a força da nossa cultura, da nossa diversidade e do potencial turístico da nossa cidade.”

Segundo ele, a experiência nos palcos e a atuação na gestão pública ca -

Foto: Acervo
Pessoal

minham juntas. Enquanto a arte aproxima pessoas e cria conexões, a administração pública oferece instrumentos para transformar essas experiências em projetos permanentes.

Esse trabalho vem ganhando reconhecimento nacional e ajudando a consolidar Porto Seguro como um destino que aposta na diversidade como diferencial competitivo dentro do turismo.

“Ver que a minha arte abriu caminhos, conquistou respeito e ajudou a construir uma cidade mais acolhedora para moradores e turistas é, sem dúvida, a maior realização da minha trajetória.”

Além da participação na LGBT+ Turismo Expo 2026, Porto Seguro mantém ações permanentes voltadas ao segmento, como a Rota do Turismo LGBT+, o Fórum da Diversidade, a Parada da Diversidade e programas de qualificação do trade turístico. A estratégia busca fortalecer a imagem do destino como referência nacional em hospitalidade, inclusão e respeito às diferenças.

Ver que a minha arte abriu caminhos, conquistou respeito e ajudou a construir uma cidade mais acolhedora para moradores e turistas é, sem dúvida, a maior realização da minha trajetória “ “
Foto:
Acervo
Pessoal

Muito além dos roteiros: os criadores que ajudam a tornar o turismo mais inclusivo

Para a comunidade LGBTQIA+, viajar também é encontrar lugares onde é possível viver a experiência sem esconder quem se é

Felipe Abílio

Há alguns anos, escolher um destino significava pesquisar passagens, hotéis e atrações. Para muitos viajantes LGBTQIAPN+, porém, ainda existe uma pergunta que vem antes de todas as outras: “Será que esse lugar vai me acolher?”. É justamente nessa lacuna que influenciadores e criadores de conteúdo ganharam força. Mais do que mostrar paisagens e roteiros, eles passaram a compartilhar vivências reais, indicar destinos onde é possível viajar com tranquilidade e transformar experiências pessoais em informação para milhares de pessoas.

A influência desses criadores já ultrapassa as redes

sociais. Ao compartilhar experiências reais, eles ajudam milhares de pessoas a escolher destinos com mais segurança, descobrir empresas que valorizam a diversidade e encontrar informações que muitas vezes não aparecem nos guias de viagem.

Depois de uma curadoria especial, o Mercado & Eventos reuniu quatro nomes que vêm ajudando a mudar a forma como o turismo conversa com a diversidade. Entre histórias de vida, relatos de viagens e experiências pessoais, eles mostram que, para a comunidade LGBTQIAPN+, viajar continua sendo muito mais do que conhecer um destino. É também poder viver a experiência sendo quem se é.

ALINE FORTUNA (@MUNDOSEMMUROS):

UMA MOCHILA NAS COSTAS E UM MUNDO SEM MUROS

Fotógrafa, filmmaker e criadora do projeto Mundo Sem Muros, Aline Fortuna transformou uma viagem de mochila nas costas, sem data para voltar, em um estilo de vida. O mochilão de baixo custo, vivido há quase dez anos, deu origem a um projeto que incentiva pessoas a explorar novos destinos, conhecer outras culturas e se reconectar com a natureza. “Acredito que viver um Mundo sem Muros transforma perspectivas, falsas crenças, amplia horizontes e nos ajuda a entender melhor o mundo e a nós mesmos”, resume.

As experiências acumuladas pelo mundo também fizeram Aline perceber que uma mesma viagem pode ser vivida de formas muito diferentes por quem faz parte da comunidade LGBTQIAPN+. Na avaliação dela, o turismo amadureceu e existe um olhar diferente da

indústria em acolher todos os perfis de viajantes. “Hoje parece existir uma preocupação maior por parte de destinos, hotéis, operadoras e marcas em criar ambientes mais acolhedores e respeitosos para diferentes perfis de viajantes”, afirma. Para a fotógrafa, porém, a verdadeira inclusão não nasce das campanhas publicitárias. “Mais do que as publicidades ou discursos, a inclusão é percebida nas atitudes”, diz.

Aline explica que a melhor experiência é aquela em que a orientação sexual ou a identidade de gênero deixam de ser uma preocupação durante a viagem. “A sensação de poder viver a experiência da viagem sem precisar esconder quem você é.”

É justamente por isso que Aline acredita no papel dos criadores de conteúdo. “Os criadores compartilham experiências reais e ajudam outras pessoas a tomarem decisões com mais segurança.” Mesmo reconhecendo os avanços, Aline lembra que muitos turistas LGBTQIAPN+ ainda precisam pesquisar o nível de aceitação local, possíveis restrições culturais e a segurança para demonstrações de afeto antes de embarcar.

Entre os destinos brasileiros que considera referência estão Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Ao mesmo tempo, acredita que o turismo de natureza também pode se tornar um espaço cada vez mais inclusivo. “Existe um enorme potencial para regiões de ecoturismo, montanhismo e aventura serem também cada vez mais espaços tranquilos para todos os viajantes.”

No fim, o próprio nome do projeto resume sua maneira de enxergar o mundo. Para Aline, viajar nunca significou apenas conhecer um novo lugar, mas voltar para casa carregando novas perspectivas.

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FLÁVIO FUSCO (@FLAVIOFUSCO):

DO SONHO DE VIAJAR À MISSÃO DE INSPIRAR

Muito antes de conhecer mais de 40 países, viajar de avião parecia um sonho distante para Flávio Fusco. Mineiro, ator, apresentador e criador do Fui com Fusco, ele transformou essa realidade em combustível para criar um canal que nasceu, em 2017, com uma proposta simples: mostrar que viajar pode ser mais possível do que muita gente imagina. “A verdade é que eu cresci acreditando que viajar de avião era algo muito distante da minha realidade”, conta.

Ao olhar para trás, Fusco percebe que sua própria trajetória acompanhou a evolução do turismo LGBTQIA+. Segundo ele, marcas famosas da indústria passaram a enxergar a comunidade de forma diferente. “Percebo uma mudança muito significativa como hotéis, companhias aéreas, destinos turísticos e marcas passaram a enxergar e acolher a nossa comunidade.”

Embora reconheça os avanços, ele acredita que o acolhimento precisa fazer parte da experiência do viajante

durante todo o ano, e não apenas em campanhas sazonais. “Quando um destino promove diversidade apenas durante o Mês do Orgulho, isso fica evidente. Quando esse acolhimento acontece durante todo o ano, a comunidade percebe.”

Na visão de Fusco, a inclusão não se mede por campanhas, mas pela forma como as pessoas são recebidas. “É possível perceber quando um casal LGBTQIAPN+ é tratado da mesma forma que qualquer outro casal.”

Essa vivência também moldou sua forma de produzir conteúdo. Em vez de apenas indicar lugares bonitos, Fusco passou a enxergar a responsabilidade que existe por trás de cada recomendação. “Não se trata apenas de mostrar lugares bonitos, mas de compartilhar informações úteis, honestas e seguras para quem está planejando viajar”, afirma.

Segundo ele, muitos seguidores estão vivendo experiências marcantes, como a primeira viagem internacional ou até a primeira viagêm de avião, e isso torna a confiança construída com o público ainda mais importante.

Mesmo celebrando a evolução do setor, Fusco observa que alguns comportamentos mostram que ainda há espaço para avançar. “Algumas demonstrações de afeto que seriam vistas como normais para casais heterossexuais ainda chamam atenção quando envolvem pessoas LGBTQIAPN+.”

Entre os destinos brasileiros que considera referência em acolhimento e diversidade estão Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Foz do Iguaçu, Pipa, Fernando de Noronha, Bonito e Minas Gerais.

Hoje, depois de mais de 40 países visitados, Flávio acredita que sua maior conquista não foi a quantidade de destinos conhecidos, mas a possibilidade de inspirar outras pessoas a realizarem sonhos que, um dia, também pareciam impossíveis. “Viajei o mundo para descobrir destinos, mas encontrei no caminho a missão de inspirar pessoas.”

Foto:

FÁBIO PASTORELLO E CLEBER ALCANTARA (@VIAGENSCINE):

A REPRESENTATIVIDADE QUE ENCORAJA NOVAS VIAGENS

Quando criou o Viagens Cine, em 2011, Fábio Pastorello queria apenas registrar as viagens do casal em formato cinematográfico. O projeto cresceu. Cleber Alcantara perdeu a timidez diante das câmeras e, aos poucos, os dois perceberam que o conteúdo publicado despertava uma dúvida recorrente entre os seguidores. “Os lugares são receptivos para pessoas LGBTQIAPN+?”

Foi justamente essa pergunta que fez o casal entender que seus vídeos iam muito além das dicas de viagem. Mostrar um casal gay vivendo experiências com naturalidade também ajudava outras pessoas a enxergarem aqueles destinos como possibilidades reais. “A representatividade é essencial. Quando uma pessoa assiste nossos vídeos e vê um casal gay viajando naquele destino, ela também se sente

encorajada e segura para viajar para lá.”

Na avaliação dos dois, o turismo evoluiu nos últimos anos graças ao trabalho contínuo de conscientização sobre respeito e diversidade. “Hoje entendemos que todo o trabalho de comunicação e conscientização sobre o respeito aos viajantes LGBTQIAPN+ resultou num acolhimento melhor nos destinos.”

Ao mesmo tempo, alertam que esse processo não pode ser interrompido. “Vemos ameaças e discursos conservadores frequentes contra a comunidade LGBTQIAPN+, então o trabalho de conscientização sobre o respeito aos viajantes nos destinos, hotéis e serviços precisa ser frequente.”

Depois de anos viajando pelo Brasil e pelo exterior, Fábio e Cleber chegaram a uma conclusão simples: um destino realmente inclusivo é aquele onde a preocupação desaparece. “A sensação de se sentir seguro em um destino é realmente quando esquecemos que precisamos nos preocupar sobre isso.”

Mesmo assim, eles admitem que ainda evitam alguns lugares por causa de legislações homofóbicas ou relatos de violência contra pessoas LGBTQIAPN+. “Então ainda não nos sentimos livres para viajar para qualquer destino do Brasil ou do mundo.”

No Brasil, o casal destaca Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas entre os estados que mais os acolheram. São Paulo e Rio de Janeiro também aparecem como referências, embora eles defendam que ainda existam poucas ações de comunicação voltadas especificamente para esse público.

Depois de mais de uma década produzindo conteúdo, Fábio e Cleber descobriram que seus vídeos fazem mais do que apresentar destinos. Eles também ajudam outros viajantes LGBTQIAPN+ a planejar viagens com mais confiança e representatividade.

DIDICAS (@DIDICASDORIO):

QUANDO UM LUGAR BONITO TAMBÉM PRECISA SER UM LUGAR SEGURO

Diego Soares Cardoso nunca imaginou que a criação de conteúdo faria parte da sua rotina. O perfil Didicas nasceu de forma espontânea, impulsionado pelas fotos e vídeos que publicava no Rio de Janeiro. A reação dos seguidores era quase sempre a mesma e acabou defi nindo o rumo do projeto. “Nunca foi um propósito de vida ser criador de conteúdo. Aconteceu naturalmente com as minhas postagens do Rio de Janeiro e as pesso as perguntando: ‘Que lugar é esse?’”, conta.

O que começou como um hobby ganhou audiência e, junto com ela, veio uma percepção que mudou sua forma de produzir conteúdo. “Com o tempo fui entendendo o tamanho e a dimensão que é criar conteúdo e influen ciar pessoas e passei a encarar não só como um hobby, mas como um trabalho, com responsabilidades e infor mações.”

Foi justamente essa responsabilidade que o levou a enxergar a criação de conteúdo sob outra perspecti va. Para Diego, uma simples indicação de destino pode ajudar outras pessoas a viajarem com mais tranquili dade, especialmente quando elas buscam informações

MOBILIDADE VAI ALÉM DE LOGÍSTICA

É parte da experiência do seu evento ou empresa

NOSSOS DIFERENCIAIS

√ Estratégia de mobilidade para eventos de alta complexidade

√ Gestão em tempo real, com total controle da mobilidade

√ Frota híbrida com rastreabilidade ESG

√ Foco integral na experiência da sua marca

O que o turismo LGBTQIAPN+ ainda não enxerga nos dados

Pesquisadoras do CNPq debatem como plataformas digitais expõem viajantes LGBTQIAPN+ a riscos invisíveis

Pelúcio

Beatriz Waehneldt

Em entrevista exclusiva ao Mercado & Eventos, as autoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+ e pesquisadoras do CNPQ, Bruna Irineu e Larissa Pelúcio, alertam para os riscos da violência algorítmica no turismo LGBTQIAPN+. Essa agressão passa por discriminação em plataformas de recrutamento, vigilância digital em países repressivos e o silêncio das Big Techs sobre as desigualdades que seus sistemas reproduzem. O debate chega ao setor de viagens com uma pergunta central: quem os algoritmos protegem, e quem eles expõem?

Um algoritmo não é neutro. É essa a premissa central que orienta o trabalho de Bruna Irineu, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), e de Larissa Pelúcio, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comuni -

cação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ambas são coautoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital e bolsistas de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As pesquisadoras descrevem como as estruturas tecnológicas das plataformas digitais reproduzem e amplificam desigualdades históricas.

O QUE É VIOLÊNCIA ALGORÍTMICA?

Bruna e Larissa explicam que o algoritmo é uma sequência de comandos, cálculos e decisões automatizadas que organiza o que se vê, quem aparece e quem desaparece, quem é considerado confiável, perigoso, desejável, empregável ou suspeito. A violência surge quando esse mecanismo transforma desigualdades sociais em decisões técnicas.

Para exemplificar, elas citam um exemplo bastante conhecido na literatura. A Amazon desenvolveu um sistema de recrutamento baseado em IA que analisava currículos a partir de dados dos últimos dez anos e, ao aprender com esse repositório majoritariamente masculino, passou a penalizar candidatas mulheres. Currículos com a palavra “mulheres” recebiam avaliações rebaixadas. A Amazon encerrou o projeto após identificar o viés.

O episódio não é uma exceção, é apenas a ilustração de um problema estrutural. Os dados não nascem limpos, eles carregam a história da sociedade que os produziu e se essa sociedade é racista, sexista, LGBTQIAPN+fóbica e classista, seus bancos de dados

Larissa
e Bruna Irineu, autoras do livro Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+ / ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital

tendem a registrar essas mesmas hierarquias. Para elas, um bom modo de explicar isso ao público é perguntar: “você já percebeu que conteúdos de ódio, escândalo ou sensacionalismo aparecem mais no seu feed, mesmo quando você segue páginas progressistas? Já teve a sensação de que falou sobre um assunto e, pouco depois, anúncios ou vídeos sobre aquilo começaram a aparecer?” Elas explicam que, “mesmo quando não há escuta literal pelo celular, existe uma imensa rede de rastros digitais, buscas, localização, curtidas, contatos, compras e padrões de comportamento que permite às plataformas inferir desejos, medos e vulnerabilidades.”

A DIFERENÇA ENTRE VIOLÊNCIA PRESENCIAL E A ALGORÍTMICA

A violência no espaço físico coloca o corpo em risco de modo imediato e reconhecível, como a agressão na rua, a recusa de atendimento, a expulsão de um espaço. “A violência algorítmica é mais difícil de nomear, porque se apresenta como automatização, personali -

pública, isolamento, adoecimento, evasão escolar e até risco de suicídio”, alertam.

QUANDO A RECOMENDAÇÃO VIRA EXCLUSÃO

O mercado global de turismo LGBTQIAPN+ movimentou cerca de US$ 357,6 bilhões em 2024, com projeção de superar US$532,8 bilhões até 2030, segundo levantamento da Research and Markets. É um segmento 30% mais rentável do que o turismo convencional, de acordo com a Associação Internacional de Turismo LGBT (IGLTA). Apesar do peso econômico, as pesquisadoras apontam que a infraestrutura digital do setor ainda não tratou com seriedade as especificidades desse público.

De acordo com as pesquisadoras, ainda não há muitos estudos provando que sistemas de recomendação turística entregam sistematicamente resultados diferentes para pessoas LGBTQIAPN+. Porém, o que existe são evidências em camadas adjacentes. Estudos sobre plataformas de hospedagem já documentaram menor taxa de resposta ou aceitação para casais do

Foto: Freepik

um segmento sem compromisso social com ele, e também extração de dados”, alertam.

Essa camada se torna crítica em países onde relações homoafetivas são criminalizadas ou socialmente perseguidas. As especialistas lembraram do caso do Grindr na região MENA, onde o aplicativo emitiu alertas a seus usuários após relatos de que policiais usaram perfis falsos para identificar e prender homens gays, bissexuais e mulheres trans. A Human Rights Watch documentou 45 casos de prisão arbitrária envolvendo 40 pessoas LGBTQIAPN+ no Egito, Jordânia, Líbano e Tunísia. Em todos os casos, as forças de segurança vasculharam os celulares das vítimas, na maioria das vezes por meio de coerção ou ameaça de violência. O aplicativo não era apenas um canal de encontros, tornou-se uma ferramenta de mapeamento da sexualidade em contexto repressivo, com consequências que incluíram prisões, extorsões e mortes.

O pinkwashing turístico também foi lembrando. Este termo serve para denominar quando uma plataforma,

por exemplo, promove um destino como “paraíso LGBT” sem contextualizar as condições políticas, sociais e de direitos humanos daquele território, produzindo uma imagem seletiva da liberdade. “A vida gay aparece como vitrine civilizatória, enquanto outras vidas são apagadas. A recomendação turística, nesse caso, não é neutra, ela organiza desejos, silencia conflitos e transforma direitos LGBTQIAPN+ em ativo de marca”, explicam.

Para quem viaja, as especialistas recomendam pesquisar a legislação local em fontes confiáveis, verificar alertas de organizações LGBTQIAPN+ e de direitos humanos, evitar expor localização em tempo real, limitar permissões de aplicativos, usar recursos de privacidade, pensar antes de compartilhar fotos íntimas ou dados de hospedagem, e considerar apagar ou ocultar aplicativos de encontro em fronteiras ou países hostis. “A questão não é culpabilizar pessoas LGBT por buscarem prazer e circulação, mas reconhecer que prazer, tecnologia e segurança estão desigualmente distribuídos.”

QUAIS ERROS EVITAR E COMO

PROTEGER O PÚBLICO LGBTQIAPN+

TRATAR INCLUSÃO COMO ESTÉTICA,

E NÃO COMO INFRAESTRUTURA:

Colocar uma bandeira arco-íris na campanha de junho é uma operação de imagem. A verdadeira inclusão está em garantir denúncia rápida quando um casal lésbico é constrangido no check-in, quando dois homens são recusados por um anfitrião, quando uma pessoa trans tem seu nome social desrespeitado ou quando uma reserva é cancelada de modo discriminatório.

PRESUMIR A HETEROSSEXUALIDADE:

Muitos sistemas ainda organizam ofertas românticas a partir do modelo do casal homem-mulher (lua de mel, quarto, pacote, imagem promocional, linguagem de atendimento, formulário e publicidade). “Isso não impede o consumo, mas empobrece a experiência. A pessoa precisa traduzir o tempo todo sua própria vida para caber em sistemas que não foram desenhados para ela.”

NÃO CONSIDERAR A SEGURANÇA DIGITAL:

Plataformas de viagem lidam com dados sensíveis, como nome, documento, localização, deslocamento, preferências, companhia de viagem e histórico de pagamentos. Para pessoas LGBTQIAPN+, esses dados podem revelar identidade, vínculos afetivos e práticas íntimas. Tecnologia pode acolher, mas também pode expor.

Manifesto do Turismo LGBT+ propõe destinos mais inclusivos e seguros

A iniciativa destaca a importância da diversidade como ferramenta de desenvolvimento econômico e fortalecimento da imagem dos destinos

O Manifesto do Turismo LGBT+ ganhou força nos últimos anos como uma iniciativa voltada à promoção de inclusão, segurança e respeito dentro da indústria de viagens. O documento reúne princípios e propostas que incentivam destinos turísticos, empresas e profissionais do setor a adotarem práticas mais acolhedoras para viajantes da comunidade LGBT+.

Entre os principais objetivos do manifesto está o combate à discriminação em ambientes turísticos, além da criação de experiências mais seguras e acessíveis para turistas que buscam viajar sem sofrer preconceito ou constrangimentos.

A iniciativa também destaca a importância da diversidade como ferramenta de desenvolvimento econômico e fortalecimento da imagem internacional dos destinos. Segundo representantes do setor, cidades e países que investem em inclusão tendem a ampliar sua competitividade no mercado global de turismo.

CAPACITAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS

ESTÃO ENTRE PRIORIDADES

O texto defende a capacitação de profissionais da hotelaria, aviação, gastronomia, entretenimento e serviços turísticos para garantir um atendimento mais preparado e respeitoso. A proposta é que empresas do setor adotem políticas claras de acolhimento e inclusão.

Além da iniciativa privada, o manifesto incentiva governos e órgãos públicos a criarem políticas voltadas à proteção de turistas LGBT+, incluindo campanhas educativas, ações de combate à violência e incentivo à diversidade cultural.

Outro ponto abordado é a valorização de eventos ligados à comunidade LGBT+, como paradas do orgulho, festivais culturais e encontros internacionais, que ajudam a impulsionar o turismo em diferentes destinos.

No Brasil, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo é frequentemente citada como exemplo do impacto econômico do segmento. O evento movimenta hotéis, bares, restaurantes, transporte e comércio local, além de atrair turistas de diferentes estados e países.

SEGMENTO MOVIMENTA BILHÕES NO TURISMO MUNDIAL

Dados da ONU Turismo apontam que o turismo LGBT+ representa uma parcela significativa das viagens internacionais e possui forte influência na economia do setor.

Especialistas afirmam que turistas LGBT+ costumam priorizar destinos reconhecidos pelo respeito à diversidade e pela sensação de segurança, o que faz com que inclusão e hospitalidade se tornem fatores estratégicos para cidades turísticas.

Mesmo com o crescimento econômico associado ao segmento, representantes da comunidade reforçam que o manifesto mantém foco na representatividade, nos direitos humanos e na construção de espaços mais igualitários dentro do turismo global.

Diversidade como estratégia: Accor transforma inclusão em compromisso permanente nas Américas

De acordo com o Censo de Diversidade da Accor, 19% dos colaboradores no Brasil se autodeclaram LGBTI+

Beatriz do Vale

A diversidade deixou de ser apenas uma pauta de responsabilidade social para se tornar parte da estratégia de negócios da Accor. É dessa forma que a vice-presidente sênior de Sustentabilidade, Comunicação e Relações Institucionais da Accor Américas, Antonietta Varlese, resume o compromisso da companhia com a inclusão, tema que vem sendo fortalecido por políticas internas, programas de empregabilidade, capacitação de colaboradores e uma governança voltada à promoção de ambientes cada vez mais acolhedores.

Rede hoteleira oficial da Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo desde 2017, a Accor afirma que o apoio ao evento é apenas uma das iniciativas de uma estratégia construída ao longo de vários anos. “A diversidade, a equidade e a inclusão fazem parte do DNA da Accor. Para nós, acolher todas as pessoas, valorizar as diferenças e promover ambientes seguros, respeitosos e inclusivos são princípios que orientam nossa atuação.”

Hoje, a companhia reúne mais de 5,6 mil hotéis em cerca de 110 países, enquanto nas Américas mantém um Comitê LGBTI+, formado por colaboradores de diferentes áreas e países, além de uma rede regional de embaixadores responsável por impulsionar ações locais de conscientização e inclusão.

Segundo Antonietta, esse compromis -

Foto:
Danilo Borges
Antonietta Varlese, vice-presidente sênior de Sustentabilidade, Comunicação e Relaç õ es Institucionais da Accor nas Américas

so vai além da participação em eventos e está presente na rotina da empresa. “O trabalho acontece ao longo de todo o ano, por meio de políticas internas, programas de empregabilidade, capacitação de colaboradores, desenvolvimento de lideranças e uma governança estruturada para fortalecer a diversidade e a inclusão em toda a organização.”

Os resultados aparecem também dentro da própria empresa. De acordo com o Censo de Diversidade da Accor, 19% dos colaboradores no Brasil se autodeclaram LGBTI+, indicador que reforça o desafio de construir ambientes onde as pessoas possam desenvolver seu potencial com autenticidade e sentimento de pertencimento.

HOSPITALIDADE ALÉM DA INFRAESTRUTURA

Para Antonietta, tornar um destino verdadeiramente inclusivo depende menos da infraestrutura e mais da cultura de acolhimento desenvolvida pelas empresas e pelos profissionais do setor. “Mais do que infraestrutura, a inclusão está relacionada à cultura organizacional, à capacitação das equipes e à adoção de políticas que assegurem um atendimento respeitoso e acolhedor para todas as pessoas.”

Na avaliação da executiva, a hotelaria também passou por mudanças importantes na forma de compreender o perfil dos viajantes. Em vez de criar produtos específicos para determinados públicos, o objetivo é oferecer uma experiência em que qualquer pessoa se sinta bem recebida.

“Nosso foco não é criar uma experiência específica para um determinado público, mas garantir que qualquer pessoa encontre um ambiente acolhedor, seguro e respeitoso em nossos hotéis.”

Ela observa ainda que consumidores valorizam empresas cujos valores estejam alinhados aos seus, fazendo com que a diversidade deixe de ser apenas uma pauta institucional para influenciar diretamente a reputação das marcas.

PRÓXIMOS PASSOS

Entre as prioridades para os próximos anos, Antonietta destaca o fortalecimento do Comitê LGBTI+ nas Américas, a ampliação da rede de embaixadores, programas de empregabilidade e novas parcerias com organizações da sociedade civil.

“Quando a diversidade é tratada de forma consistente e integrada à estratégia do negócio, ela fortalece a inovação, impulsiona melhores resultados

e nos permite cumprir nosso propósito de acolher todas as pessoas com respeito, autenticidade e hospitalidade.”

Além do trabalho interno, a Accor seguirá participando de fóruns, movimentos e iniciativas voltadas à promoção dos direitos humanos e da inclusão, reforçando a convicção de que a hospitalidade pode contribuir para transformar a experiência dos viajantes e também a sociedade.

Quando a diversidade é tratada de forma consistente e integrada à estratégia do negócio, ela fortalece a inovação, impulsiona melhores resultados e nos permite cumprir nosso propósito de acolher todas as pessoas com respeito, autenticidade e hospitalidade “ “

Atlas da Violência 2026 aponta aumento dos registros de violência contra a população LGBTQIAPN+ no Brasil

Levantamento do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra crescimento das notificações entre homossexuais, bissexuais, pessoas trans e travestis, com maior concentração de casos entre jovens

Os registros de violência contra a população LGBTQIAPN+ continuam crescendo no Brasil, segundo dados do Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento revela aumento das notificações em diferentes grupos e reforça a preocupação com a violência direcionada a pessoas em razão da orientação sexual e da identidade de gênero.

Em 2024, foram registrados 10.250 casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais, um crescimento de 5,5% em relação ao ano anterior. Na comparação com o início da série histórica, o aumento acumulado chega a 212,7%, evidenciando uma expansão significativa das notificações ao longo da última década.

Entre as pessoas homossexuais, os registros passaram de 7.043 para 7.378 casos, alta de 4,8%. Já entre pessoas bissexuais, as notificações aumentaram de 2.675 para 2.872, crescimento de 7,4%.

O estudo também aponta avanço dos casos envolvendo pessoas transexuais e travestis. Em 2024, foram contabilizados 5.575 registros de violência, número 2,6% superior ao observado em 2023.

Jovens são os mais atingidos

O Atlas identifica que a violência se concentra principalmente entre pessoas jovens. Entre indivíduos dissidentes de gênero, os maiores índices de vitimização estão na faixa dos 15 aos 29 anos, enquanto entre homens transexuais a incidência é ainda mais elevada entre 15 e 24 anos.

Segundo os pesquisadores, esse cenário pode estar relacionado ao período de afirmação da identidade de gênero e da orientação sexual, etapa em que conflitos familiares, escolares e sociais tendem a se intensi -

ficar, aumentando a exposição à discriminação e à violência.

SUBNOTIFICAÇÃO AINDA É UM DESAFIO

Os autores ressaltam que os números representam apenas os casos registrados pelos serviços de saúde e não refletem necessariamente toda a violência sofrida pela população LGBTQIAPN+. Barreiras para denunciar agressões, dificuldades de acesso à rede de atendimento e episódios que não chegam aos sistemas oficiais contribuem para a subnotificação.

O relatório também destaca que o crescimento das notificações pode estar associado à ampliação dos mecanismos de registro, ao fortalecimento da rede de proteção e ao maior número de pessoas que passaram a se identificar como integrantes da comunidade LGBTQIAPN+. Ainda assim, os pesquisadores afirmam que a magnitude do aumento sugere que o fenômeno não pode ser explicado apenas por melhorias estatísticas e exige atenção das políticas públicas.

Foto: Freepik / Magnific

5º 49ª

49ª

Realização: Não é associado? Entre em contato: abav sp@abav com br Venha pra Abav-SP | Aviesp!

Mais inclusão, novos destinos e alguns alertas: o que mostra o Gay Travel Index 2026

Ranking destaca países mais inclusivos e mostra que leis nem sempre refletem a realidade

Para grande parte dos viajantes, escolher o próximo destino significa comparar preços, atrações e opções de hospedagem. Para turistas LGBTQIA+, esse planejamento pode incluir mais um fator: entender como a diversidade é recebida em cada lugar. Isso não significa limitar as possibilidades de viagem, mas reunir informações que ajudem a conhecer melhor a realidade de cada destino e a planejar a experiência de acordo com o perfil de cada viajante.

É justamente essa a proposta do Gay Travel Index, publicado anualmente desde 2012 pela Spartacus. O levantamento reúne mais de 200 países e regiões e avalia critérios como legislação antidiscriminação, reconhecimento de direitos para casais do mesmo sexo, proteção às pessoas trans, criminalização da homossexualidade, restrições à liberdade de expressão, além de aspectos relacionados à segurança e à aceitação

social. O resultado é um panorama que acompanha a evolução da inclusão no turismo mundial e mostra como diferentes destinos têm avançado ou enfrentado novos desafios.

A edição de 2026 reforça uma tendência importante: enquanto alguns países ampliam direitos e consolidam políticas mais inclusivas, outros registram retrocessos. Ao mesmo tempo, o índice mostra que destinos antes pouco associados ao turismo LGBTQIA+ começam a ganhar espaço, refletindo mudanças culturais, sociais e políticas em diferentes partes do mundo.

OS DESTINOS MAIS BEM AVALIADOS DO MUNDO

O ranking deste ano tem forte presença europeia entre os primeiros colocados. A Islândia ocupa a primeira posição, seguida por Malta e Espanha. Bélgica, Alemanha, Portugal, Noruega e Suíça reforçam o protagonismo do continente, enquanto Canadá e Nova Zelândia também figuram entre os dez destinos mais bem avaliados.

Foto: Freepik
Planejamento, informação e inclusão ajudam a tornar a experiência de viagem ainda mais especial

Mais do que legislações inclusivas, esses países se destacam por combinar proteção jurídica, aceitação social e uma infraestrutura turística consolidada para receber visitantes de diferentes perfis.

A liderança da Islândia confirma uma tendência observada nos últimos anos, enquanto o Canadá mantém um histórico consistente desde a criação do índice, acumulando o maior número de aparições na primeira colocação.

DESTINOS EM TRANSFORMAÇÃO

Um dos aspectos mais interessantes do levantamento é mostrar que o cenário global está longe de ser estático.

A Polônia aparece como uma das principais surpresas de 2026. Após mudanças políticas recentes, o país apresentou melhora nos indicadores relacionados aos direitos da população LGBTQIA+. Embora ainda existam desafios, especialmente fora dos grandes centros, cidades como Varsóvia vêm fortalecendo sua cena cultural e turística, tornando-se cada vez mais receptivas à diversidade.

Na Ásia, o Nepal também chama atenção. O país ampliou o reconhecimento legal de pessoas trans e de identidades não binárias, consolidando-se como uma referência regional em inclusão.

Os avanços demonstram que novos destinos vêm investindo em políticas mais igualitárias e ampliando o acolhimento aos visitantes, tornando o mapa do turismo LGBTQIA+ cada vez mais diverso.

ESTADOS UNIDOS REGISTRAM QUEDA NO RANKING

Entre as principais mudanças apontadas pela edição de 2026 está a posição dos Estados Unidos, que caíram da 35ª colocação em 2023 para o 50º lugar.

Segundo o índice, a mudança reflete principalmente o aumento das diferenças entre as legislações estaduais. Na prática, isso significa que a experiência de um viajante LGBTQIA+ pode variar bastante conforme o destino escolhido.

Estados como Califórnia, Nova York, Washington, Nevada, Illinois e Colorado continuam sendo considerados referências em políticas de inclusão, enquanto outras regiões adotaram legislações mais restritivas.

Da mesma forma, cidades como San Francisco, Los Angeles, Manhattan, Chicago, Denver e Provincetown seguem entre os principais pólos do turismo LGBTQIA+, reunindo infraestrutura, programação cultural e comunidades historicamente ligadas à diversidade.

LEGISLAÇÃO E REALIDADE NEM

SEMPRE CAMINHAM JUNTAS

Outro aspecto destacado pelo Gay Travel Index é que a experiência do visitante nem sempre corresponde ao que está previsto na legislação.

A Bulgária ilustra esse contraste. Embora a homossexualidade seja legalizada, relatos de viajantes apontam um ambiente social ainda pouco receptivo em algumas situações.

Por outro lado, Marraquexe, no Marrocos, aparece como um exemplo inverso. Apesar das restrições previstas na legislação nacional, muitos turistas relatam experiências positivas de hospitalidade quando respeitam os costumes e a cultura local.

Esses exemplos mostram que conhecer a realidade do destino vai além de consultar leis. Aspectos culturais, comportamento da população e relatos recentes de viajantes ajudam a construir uma visão mais completa da experiência.

INFORMAÇÃO CONTINUA SENDO A MELHOR ALIADA

Especialistas em turismo LGBTQIA+ recomendam que rankings internacionais sejam utilizados como ponto de partida, e não como único critério na escolha de um destino.

Pesquisar relatos recentes de viajantes, acompanhar mudanças legislativas e consultar organizações especializadas ajuda a compreender melhor o contexto local. Em muitos países, grandes cidades costumam concentrar comunidades LGBTQIA+ mais estruturadas, além de eventos, estabelecimentos e iniciativas voltadas à diversidade.

Também vale lembrar que o cenário internacional muda constantemente. Avanços e retrocessos podem ocorrer em poucos anos, tornando importante buscar informações atualizadas antes de viajar.

Mais do que indicar quais países ocupam as primeiras posições, o Gay Travel Index funciona como um retrato da evolução da inclusão ao redor do mundo. A cada edição, o levantamento mostra que novos destinos vêm ampliando políticas de diversidade e acolhimento, enquanto outros passam por transformações que merecem atenção. Para o turismo, isso representa um cenário cada vez mais dinâmico, em que informação e planejamento ajudam o viajante a conhecer diferentes culturas com mais confiança e liberdade, sem deixar de reconhecer os avanços que tornam o mundo, aos poucos, mais inclusivo.

Vozes do trade: caminhos para um turismo mais inclusivo

Parceiros do setor compartilham como promover práticas mais diversas, respeitosas e alinhadas ao público LGBTQIA+

Rafael Torres

Construir um turismo verdadeiramente inclusivo vai muito além de campanhas e discursos. Exige escuta, compromisso e mudanças práticas em toda a cadeia do setor. Para entender como esse desafio vem sendo encarado pelo mercado, o M&E ouviu profissionais de diferentes

Foto: JanainaBrito - M&E

segmentos do trade sobre uma pergunta central: como o turismo pode atuar de forma mais inclusiva?

Confira, a seguir, os depoimentos de operadores, agentes de viagens e outros profissionais que compartilham experiências, desafios e caminhos para tornar o setor cada vez mais diverso, acolhedor e preparado para receber todos os viajantes.

“A verdadeira inclusão no turismo vai muito além de ações comerciais pontuais e exige um compromisso contínuo com o acolhimento e o respeito ao viajante LGBT+. O trade, com o protagonismo do agente de viagens, precisa investir em capacitação e letramento para atuar com empatia, para que o setor cumpra sua essência fundamental de contribuir para que cada destino seja inesquecível e especial para todas as pessoas, atendendo às necessidades de cada viajante. Percebendo essa realidade, a Abav Nacional tem se dedicado a capacitar e abordar essa temática com todos os seus agentes associados. Esse cuidado, portanto, deve se expandir para uma visão holística e hiper personalizada, onde o agente atua como um verdadeiro curador de experiências humanas. Compreender a fundo a personalidade de cada cliente significa ir além e abraçar todas as formas de inclusão. Ao identificar essas necessidades pontuais e moldar o roteiro ao indivíduo, e não o contrário, o profissional garante que toda e qualquer pessoa sinta um pertencimento real e um acolhimento genuíno nos destinos.”

Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav Nacional

Foto: Divulgação

“O turismo tem uma vocação naturalmente inclusiva, porque nasce do encontro entre pessoas, culturas e diferentes formas de viver. Mas o acolhimento ao público LGBTQIA+ começa muito antes da experiência da viagem, ele começa dentro das empresas. Está nas contratações, nas políticas de convivência, no respeito à identidade e na criação de ambientes seguros e genuinamente diversos. Um trade verdadeiramente inclusivo não apenas atende esse público: ele o representa, o valoriza e o incorpora em sua cultura. Inclusão não pode ser apenas discurso; ela precisa fazer parte da prática diária e da essência das organizações.”

Nice van Oorschot, diretora-geral da BestBuy

“Eu tenho uma perspectiva um pouco diferente para compartilhar. Quando falamos sobre o trade turístico, não o vejo como algo que precisa se tornar inclusivo; para mim, a inclusão é a própria essência do nosso negócio. O turismo, por definição, é feito para todos os públicos. Cada viagem, cada roteiro e cada experiência que desenhamos deve ser pensada para acolher a diversidade humana em sua totalidade. Portanto, não enxergo o trade como um setor em busca de adaptação, mas sim como uma atividade que já nasceu para ser, em sua base, plenamente inclusiva. O trade não precisa ser mais inclusivo; o trade, por natureza, já é inclusivo”.

“Mais do que falar sobre diversidade, o trade precisa transformar inclusão em prática real. Isso passa por comunicação respeitosa, produtos pensados para diferentes perfis de viajantes, treinamento das equipes e ambientes onde as pessoas se sintam verdadeiramente acolhidas. O turismo tem o poder de conectar culturas, histórias e pessoas, e ser inclusivo é entender que cada viajante deve viver experiências com segurança, representatividade e pertencimento”.

Priscila Fabri, gerente de Marketing da Diversa Turismo

“As operadoras devem atuar como um verdadeiro selo de segurança para o agente de viagens, oferecendo destinos adequados ao consumidor LGBTQIA+ e trabalhando com fornecedores, destinos e redes hoteleiras alinhados com esse propósito. A inclusão, no entanto, só se concretiza quando há conhecimento, o que torna essencial o fornecimento de ferramentas práticas, como manuais de boas práticas, webinars e treinamentos que permitam ao agente dominar o tema com naturalidade, além de acesso a informações sobre destinos seguros, políticas locais e legislações antidiscriminatórias, evitando a oferta de produtos que possam expor o viajante a situações desconfortáveis. Esse apoio também precisa ser contínuo: não termina na emissão do voucher, mas se estende por meio de canais de suporte para dúvidas específicas sobre destinos e protocolos de hospitalidade, transformando o receio de ‘errar na abordagem’ em uma consultoria de excelência e garantindo que o passageiro LGBTQIA+ seja tratado com respeito em toda a sua jornada”.

Jorge Souza, diretor de Marketing da Orinter

Foto: EricRIbeiro
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Como o turismo pode atuar de forma mais inclusiva?

“A inclusão no turismo começa quando as pessoas se sentem verdadeiramente bem-vindas. O trade precisa ir além do discurso e criar experiências onde cada cliente seja tratado com respeito, naturalidade e liberdade para ser quem é. Na Rio Water Fun, temos muito orgulho de receber um público diverso, especialmente a comunidade LGBT+, que hoje representa uma parte importante dos nossos clientes. Acreditamos que hospitalidade de verdade é fazer todos se sentirem pertencentes”.

“Mais do que falar sobre inclusão, o turismo precisa praticá-la em cada detalhe da experiência. Isso passa por acolhimento genuíno, comunicação respeitosa, parceiros alinhados e roteiros onde diferentes perfis de viajantes possam se sentir confortáveis, seguros e representados. Na TGK, acreditamos que personalizar viagens também é entender individualidades, respeitar histórias e criar experiências autênticas para cada pessoa”.

de Paula, gerente de Vendas da TGK Travel

“Mais do que adaptar produtos, o turismo precisa ampliar a escuta e entender que diferentes perfis de viajantes buscam experiências autênticas, acolhedoras e respeitosas. No universo dos cruzeiros fluviais e expedições, isso já faz parte do DNA das marcas com as quais trabalhamos na Velle, que valorizam a liberdade de viajar sendo quem se é, com conforto, segurança e naturalidade. Nosso papel como representante é fortalecer essa cultura, incentivando um olhar cada vez mais humano, diverso e atento às experiências de cada passageiro. As grandes diferenças de uma viagem deveriam estar apenas nos destinos, nas culturas e nas experiências vividas pelo caminho”.

Reno
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação - Velle

Lua de mel LGBT+ movimenta US$ 568 bilhões até 2030 e exige inclusão, não de vitrine

O casal que pesquisa mais, gasta mais e não perdoa destinos que só fingem acolher

Beatriz Waehneldt

O turismo LGBT+ honeymoon cresce como um dos segmentos mais lucrativos da hospitalidade global, mas impõe ao trade uma exigência que vai além de campanhas coloridas em junho. Segundo dados da UN Tourism, os casais do mesmo sexo representam entre 5% e 10% do mercado turístico global e geram mais de US$ 211 bilhões por ano. Esse segmento deve elevar seus gastos anuais de viagem de US$ 218 bilhões (2018) para US$ 568,5 bilhões até 2030, de acordo com a GlobeTrender. No Brasil, os números da pesquisa da Out Leadership também impressionam, o país é responsável por cerca de 27 bilhões de dólares no segmento, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

O que diferencia a jornada de compra do turista homoafetivo é a camada de pesquisa que precede qualquer decisão. Pessoas LGBT+ gastam mais tempo pesquisando online suas viagens, especialmente por segurança. Segundo levantamento de 2024 do Booking.com, 92% levam a segurança em consideração na escolha do destino e 67% consideram a legislação local, que ao menos teoricamente garante proteção.

Foto: Freepik/Magnific

DESTINOS PARA UMA

LUA DE MEL RELAXANTE

URUGUAI:

O país construiu ao longo dos anos uma reputação de destino coerente entre discurso institucional e experiência real. Tendo legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2012, o Uruguai é avaliado como o mais receptivo para o público gay na América do Sul, com alta aceitação social inclusive em espaços públicos. Punta del Este recebe aproxi -

madamente 100 mil turistas LGBT+ por ano e conta com infraestrutura de praia, resorts e vida noturna voltada para o segmento, incluindo a praia naturista Chihuahua. As opções para o público LGBT+ incluem Punta del Este e José Ignacio, com gastronomia e hotéis de alto padrão; Montevidéu, para cultura e vida urbana integrada; Colônia do Sacramento, para uma experiência mais intimista; e Rocha, para um turismo slow voltado para a natureza.

TAILÂNDIA:

O país legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção em 2025, tornando-se o primeiro da Ásia do Sudeste a alcançar a igualdade matrimonial plena. Segundo a Autoridade de Turismo da Tailândia, o gasto médio dos turistas LGBT+ ultrapassou 73 mil baht por viagem em 2024 (cerca de R$ 12.465), com aumento de 38% em relação ao ano anterior, e 68,97% desses viajantes visitavam o país pela primeira vez. Phuket e Bangkok concentram as principais ofertas para o segmento,

com hotéis especializados em cerimônias de casamento e resorts na orla.

DESTINOS PARA UMA

LUA DE MEL RELAXANTE

ESPANHA:

A Espanha reúne todos os ingredientes para uma lua de mel inesquecível para casais LGBTQIA+. Reconhecido como um dos destinos mais inclusivos do mundo, o país combina segurança, diversidade e uma ampla oferta de experiências românticas. De passeios pelas ruas históri-

cas de Sevilha e pelos vinhedos de La Rioja às praias de Ibiza e Formentera, passando pela vibrante vida cultural e noturna de Madri e Barcelona, há opções para todos os estilos de viagem. A hospitalidade, aliada a uma legislação que protege os direitos da comunidade LGBTQIA+, faz da Espanha um lugar onde casais podem viver o romance com liberdade, celebrando o amor sem preocupações.

PIPA (RN):

No mercado doméstico, o Brasil ocupa posição ambígua. O país conta com 5.749 acomodações com o selo Travel Proud do Booking.com, sendo o sexto no mundo e o líder na América Latina nessa categoria. A Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, tornou-se associada à IGLTA (International LGBTQ+ Travel Association) e estruturou certificação de estabelecimentos para recepção do turista LGBT+, com cartazes obrigatórios por lei estadual e selo próprio do movimento Preserve Pipa.

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JOÃO PESSOA (PB):

A Paraíba tem ampliado sua presença no turismo LGBT+ ao investir em ações de promoção da diversidade e da inclusão. João Pessoa reúne praias urbanas, boa oferta de hotéis e restaurantes e um ambiente reconhecido pela tranquilidade, enquanto o Litoral Sul, com destinos como Coqueirinho e Tambaba, ofe -

rece paisagens preservadas para casais que buscam uma lua de mel mais reservada. O estado também tem fortalecido a capacitação do trade turístico e participado de ações voltadas ao segmento em feiras nacionais e internacionais, consolidando-se como uma alternativa ao Nordeste tradicional.

PORTO SEGURO (BA):

Porto Seguro vem consolidando sua imagem como um dos principais polos LGBT+ do litoral brasileiro, especialmente por meio de Trancoso, Arraial d’Ajuda e Caraíva. A região reúne pousadas de charme, hotéis de luxo, gastronomia sofisticada e praias que favorecem viagens a dois. O destino também recebe eventos voltados ao público LGBT+ e tem ampliado ações de sensibilização junto ao trade turístico, buscando oferecer uma experiência baseada na hospitalidade e no respeito à diversidade.

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Pesquisa indica que 58% dos turistas LGBTQ+ brasileiros já sofreram algum tipo de discriminação durante viagem

Dados mostram que comunidade LGBTQ+ ainda enfrenta desafios na hora de conhecer o mundo, mas aposta em planejamento para ter uma experiência mais segura

ao programar suas viagens

Natália Strucchi

Turistas brasileiros da comunidade LGBTQ+ continuam enfrentando grandes desafios ao programar suas viagens. A informação faz parte dos resultados de uma pesquisa encomendada pelo Booking.com* para investigar as preferências e considerações que pessoas LGBTQ+ têm antes de viajar. mostra que eles sempre esperam alguma forma de comportamento discriminatório tanto por parte de outros viajantes (46%) como dos habitantes nos destinos (49%), sendo que 58% já sofreram alguma discriminação durante suas viagens. Paralelamente, quase metade (47%) concorda que ser LGBTQ+ os deixa mais inseguros e autoconscientes em viagens.

Os desafios na hora de tirar férias fazem com que os viajantes tomem cada vez mais o controle de suas viagens, se planejando para terem mais segurança. Segundo o estudo, a escolha criteriosa do destino, a pré-reserva de assentos em voos e até a criação de alter-egos são práticas comuns.

ESCOLHA DO DESTINO PASSA POR PESQUISA SOBRE ACEITAÇÃO

LOCAL DA COMUNIDADE LGBTQ+

Para três em cada quatro (75%) viajantes brasileiros LGBTQ+, ter a possibilidade de serem autênticos durante a viagem é o segundo fator mais importante na hora de escolher um destino, perdendo apenas para encontrar uma acomodação que caiba no orçamento (82%). Outras variáveis decisórias também estão ligadas a sua identidade: 70% avaliam o que consumiram nas notícias sobre experiências de viajantes da comunidade; 67% consideram a legislação local de um destino em relação aos direitos humanos, à igualdade de gênero e ao casamento de pessoas do mesmo sexo; e 64% avaliam se o destino aceita mais ou menos pessoas LGBTQ+ do que o seu país de origem.

Estas preocupações influenciaram claramente as percepções e a tomada de decisões dos viajantes LGBTQ+, com 38% dos participantes brasileiros da pesquisa tendo cancelado uma viagem em 2023 depois de perceberem que um destino não apoia os seus residentes LGBTQ+. Por outro lado, mais de metade (56%) reservou nos últimos 12 meses uma viagem para um destino considerado a favor dos residentes que se identificam como LGBTQ+.

Tendo como escolher, 62% afirmam preferir visitar destinos onde o turismo LGBTQ+ já está bem estabelecido, em comparação com 51% que preferem considerar locais onde a sua presença possa contribuir para aumentar a conscientização e a aceitação social. A cultura pop queer também desempenha um papel na tomada de decisões: 70% dos viajantes brasileiros LGBTQ+ dizem que são mais propensos a reservar experiências de viagem inspiradas nelas.

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Turistas brasileiros da comunidade LGBTQIA+ continuam enfrentando grandes desafios

MEDO DE DISCRIMINAÇÃO DURANTE O VOO É FATOR DE PREOCUPAÇÃO

Com quase uma pessoa em cada três (27%) no Brasil já tendo sofrido uma experiência negativa diretamente relacionada com a sua identidade durante um voo, e com 39% expressando apreensão com a ideia de se sentar ao lado de um estranho com medo da sua reação ou comportamento diante uma pessoa LGBTQ+, os viajantes têm tomado medidas proativas para reduzir suas preocupações em relação a uma possível discriminação dentro do avião. Dessa maneira, metade (52%) dos viajantes LGBTQ+ do país optam por reservar com antecedência um assento específico, minimizando assim a interação com outras pessoas por medo de discriminação.

ADOTAR PERSONAGENS E ALTER-EGOS TAMBÉM É ESTRATÉGIA

Uma das soluções empregadas é assumir personagens e alter-egos: um terço (33%) da comunidade no Brasil afirma que modifica aspectos da sua aparência e comportamento para evitar uma possível discriminação ou atenção indesejada, e 45% já criaram um alter-ego para se movimentar em diferentes ambientes quando viajam. A principal razão para os viajantes apelarem para a tática é para se protegerem e se sentirem em segurança (56%), com um em cada três (36%) fazendo isso para se adaptar às possíveis sensibilidades culturais locais.

ALIADOS DA INDÚSTRIA DE VIAGENS

Os viajantes LGBTQ+ reconhecem o progresso na indústria das viagens, com 82% dos brasileiros dizendo que a maior inclusão os fez sentir mais à vontade quando viajam. Visitar destinos que possuem uma legislação adequada aumenta a sensação de inclusão, se refletindo nas interações com quem trabalha na indústria de viagens: 89% dos viajantes LGBTQ+ no Brasil sentem-se à vontade ao chegar para fazer o check-in na sua acomodação, 88% ao se comunicar com os anfitriões das acomodações e companhias aéreas e 87% ao interagir com os profissionais do setor de hospitalidade, como guias turísticos, comissários de bordo e motoristas de táxi.

Além disso, quando questionados sobre quais recursos os viajantes LGBTQ+ gostariam de ver nas empresas de viagens para melhorar suas futuras experiências, 37% mencionaram filtros que facilitariam a identificação de propriedades que oferecem uma experiência acolhedora.

*Pesquisa encomendada pela Booking.com e realizada de forma independente com uma amostra de 11.469 viajantes LGBTQ+ de 27 países e territórios. Os participantes LGBTQ+ se identificaram em dados demográficos, como sexo, gênero e orientação sexual. Para participar dessa pesquisa, os entrevistados também tiveram que ter viajado a lazer nos últimos 12 meses. A pesquisa foi realizada on-line em abril e maio de 2024.

EXPERIÊNCIAS DURANTE AS VIAGENS

Já sofreram algum tipo de discriminação durante viagens

Esperam sofrer discriminação por parte de moradores locais

Esperam sofrer discriminação por outros turistas

Sentem-se

Brasil perde R$ 94,4 bilhões por ano com exclusão de pessoas LGBTI+ no mercado de trabalho

Relatório inédito do Banco Mundial calcula impacto da discriminação sobre emprego, renda e produtividade

Felipe Abílio

A discriminação contra pessoas LGBTI+ não produz apenas impactos sociais. Ela também custa caro para a economia brasileira. Um estudo inédito do Banco Mundial estima que o país deixa de movimentar R$ 94,4 bilhões por ano por causa das barreiras enfrentadas por essa população para acessar, permanecer e crescer no mercado de trabalho. O valor equivale a cerca de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) e reúne perdas provocadas por salários menores, desemprego mais elevado e menor participação na força de trabalho.

Batizado de “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho Brasileiro”, o estudo também calcula que a exclusão gera R$ 14,6 bilhões em perdas fiscais por ano, reflexo da redução na arrecadação de impostos e dos impactos provocados pelas desigualdades no mercado de trabalho.

O levantamento foi desenvolvido pelo Banco Mundial em parceria com um consórcio liderado pelo Instituto Matizes e buscou medir, pela primeira vez no Brasil, quanto a discriminação contra pessoas LGBTI+ representa em

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Planejamento, informação e inclusão ajudam a tornar a experiência de viagem ainda mais especial

de trabalho

Emprego, desemprego e inatividade por subgrupo LGBTI+ e nível de discriminação no local de trabalho

Homens gays

Índice de discriminação

Homens bissexuais

Índice de discriminação

Mulheres bissexuais

Índice de discriminação

Mulheres lésbicas

Índice de discriminação

perdas econômicas para o país. Para isso, os pesquisadores realizaram uma pesquisa nacional com pessoas LGBTI+, reunindo informações sobre renda, situação profissional, participação na força de trabalho e experiências de discriminação no ambiente de trabalho, além de entrevistas em grupos focais.

O relatório parte da premissa de que o estigma e a exclusão limitam o aproveitamento do potencial profissional dessa população. Segundo os autores, mesmo onde existem proteções legais, a discriminação reduz a participação no mercado de trabalho, diminui o retorno dos investimentos em educação e formação profissional e compromete a produtividade, fatores que acabam refletindo diretamente no crescimento econômico.

DESEMPREGO ENTRE PESSOAS LGBTI+ É QUASE O DOBRO DA MÉDIA NACIONAL

Os dados do estudo mostram que a exclusão também aparece nos indicadores do mercado de trabalho. A taxa de desemprego entre pessoas LGBTI+ foi estimada em

Pessoas não binárias Índice de discriminação Baixo

Alto

Médio

15,2%, praticamente o dobro da registrada na população brasileira, de 7,7%. O relatório aponta ainda que os índices mais elevados de desemprego foram observados entre pessoas que relataram sofrer níveis mais intensos de discriminação e estigma no ambiente profissional.

Pessoas intersexo Índice de discriminação

Outro dado que chama atenção é o percentual de pessoas fora da força de trabalho.

Segundo o levantamento, 37,4% dos entrevistados LGBTI+ não estavam trabalhando nem procurando emprego, índice superior aos 33,4% registrados na população em geral. Para os pesquisadores, esse cenário reforça que a exclusão não afeta apenas quem está empregado, mas também quem enfrenta dificuldades para conseguir uma oportunidade ou acaba desistindo de buscar uma vaga.

A pesquisa também identificou diferenças importantes dentro da própria comunidade. Pessoas trans, não binárias e intersexo foram as que mais relataram episódios de discriminação no local de trabalho, indicando que os impactos da exclusão não atingem todos os grupos da mesma forma.

Para chegar aos resultados, o Banco Mundial realizou uma pesquisa inédita com pessoas LGBTI+ em todo o Brasil durante 2025. O levantamento reuniu informações sobre salários, situação profissional, participação na força de trabalho e experiências de discriminação. Os dados quantitativos foram complementados por grupos focais, que ajudaram a entender como essas barreiras interferem na contratação, na permanência e no desenvolvimento da carreira profissional.

Segundo o relatório, os entrevistados eram, em média, mais jovens, viviam predominantemente em áreas urbanas e apresentavam maior escolaridade do que a população brasileira em geral, uma característica que os autores atribuem ao perfil de pesquisas realizadas pela internet e à própria composição da população LGBTI+. O estudo ressalta, por isso, que seus resultados podem não representar integralmente os grupos em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica.

foram resumidaspormeiodeumindicadorcompostoconstruídoespecificamentepara 0,67), média (2 a discriminatórias em pouquíssima mas não estigma no no

Emprego, desemprego e inatividade por subgrupo LGBTI+ e nível de discriminação no local de trabalho

Pessoas trans

Índice de discriminação

Pessoas não binárias Índice de discriminação

Pessoas intersexo Índice de discriminação

COMO O ESTUDO CHEGOU AO PREJUÍZO DE R$ 94,4 BILHÕES POR ANO

Observações: Os grupos não são mutuamente exclusivos. Mulheres lésbicas, homens gays e homens e mulheres bissexuais podem se identificar como pessoas trans, não binárias e intersexo. A categoria trans engloba todas as identidades trans (mulheres trans, homens trans e travestis). Os dados não foram ajustados à população em geral.

Diferentemente de estimativas baseadas apenas em projeções econômicas, o estudo procurou identificar como a discriminação afeta a trajetória profissional de pessoas LGBTI+ e quanto isso representa em perdas para a economia brasileira. Para isso, o Banco Mundial desenvolveu um modelo que reúne diferentes situações enfrentadas por essa população no mercado de trabalho.

O cálculo considera três fatores principais. O primeiro envolve trabalhadores que estão empregados, mas recebem menos do que poderiam ganhar porque não conseguem utilizar plenamente sua formação, experiência ou qualificação profissional. O segundo mede as perdas relacionadas ao desemprego entre pessoas que procuram uma vaga, mas encontram barreiras para ingressar no mercado. Já o terceiro considera quem deixou de buscar trabalho e saiu completamente da força de trabalho, reduzindo sua renda e sua participação na economia.

de empregos no setor privado”, destaca o estudo.

As perdas econômicas anuais foram estimadas em R$ 94,4 bilhões, o equivalente a aproximadamente 0,8% do PIB brasileiro. Desse total, R$ 40,1 bilhões correspondem às perdas entre homens e R$ 54,3 bilhões para as mulheres. O estudo observa que os maiores impactos foram registrados entre mulheres LBTI+ e entre pessoas que relataram níveis mais elevados de discriminação e estigma no ambiente de trabalho, revelando diferenças relacionadas a gênero, raça e território.

A figura 2 apresenta a distribuição da situação laboral nos três níveis de discriminação no local de trabalho dentro de cada subgrupo de pessoas LGBTI+. Entre homens gays e mulheres lésbicas, a maioria está empregada em níveis de discriminação baixo, médio e alto, com pequenos aumentos nos níveis de desemprego e inatividade à medida que a discriminação se intensifica. Entre homens e mulheres bissexuais, um nível mais alto de discriminação está mais claramente associado a uma maior taxa de desemprego, ao passo que a inatividade permanece comparativamente limitada Entre as pessoas trans, a discriminação média e alta coincide com níveis mais elevados de desemprego e inatividade, embora o padrão não seja estritamente monotônico Destaca-se o fato de que, no subgrupo de pessoas não binárias e intersexo, a situação de inatividade é substancial, mesmo quando a discriminação relatada é baixa; isso parece indicar que as barreiras à participação no mercado de trabalho podem existir independentemente das experiências capturadas pelo índice de discriminação, ou até mesmo antes delas

Segundo os autores, esses impactos vão além da renda individual. O relatório afirma que a exclusão reduz a produtividade, compromete o desenvolvimento do capital humano e diminui a capacidade de crescimento econômico do país. “Mesmo quando há proteções legais, o estigma persistente limita o uso eficaz dos talentos, levando a uma má alocação de habilidades, menor produtividade e redução da geração

Além do impacto sobre a atividade econômica, o levantamento estima que a exclusão também reduz a arrecadação pública. As perdas fiscais chegaram a R$ 14,6 bilhões por ano, cerca de 0,12% do PIB, resultado da combinação entre menor recolhimento de impostos e os efeitos econômicos provocados pelas desigualdades no mercado de trabalho.

Para o Banco Mundial, os resultados reforçam que a inclusão não deve ser vista apenas como uma pauta de direitos humanos, mas também como uma estratégia de desenvolvimento econômico. O relatório afirma que reduzir o estigma e fortalecer a aplicação das proteções legais existentes pode ampliar a participação de pessoas LGBTI+ no mercado de trabalho, aumentar a produtividade e reduzir as perdas econômicas e fiscais identificadas pela pesquisa. 31

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