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MAG #2 - Maringaense Cultural

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FICHA TÉCNICA

EDITOR CHEFE

FERNANDO SOUZA

REVISÃO

CAMILA COLOMBO

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO

FERNANDO SOUZA

COLUNISTAS

ANDRÉ ROSA

ALINE RODRIGUES

BEATRIZ YOSHIDA PROTÁZIO

BRUNO PESCH

CAROLINA DAMIÃO

ISA ANGIOLETO E AUGUSTO PEREGO

JOÃO HENRIQUE BALBINOT

LARI YUKI E LUCAS FERREIRA

MARI PARMA

MARIANA VIEIRA SARACHE

PEDRO ROVERONI

PEDRO NASCIMENTO

RASH CARREIRA

SARA ARAÚJO

SIDNEI PUZIOL

AGRADECIMENTOS

ANDRÉ FERREIRA AMÂNCIO

ATELIÊ CULTURAMA

DIG FOR FASHION

ESPAÇO SOLAGASTA

HALANA BRUSCHI

ILHA COMUNICAÇÃO

JOYCE MIDORI

JÔ SERBAI

JULIANA CASTRO

PEDRO HENRIQUE DANIEL

VANDERLEI JÚNIOR

6. DJ COMO ARTISTA DO PRESENTE

Por Fernando Souza, Isa Angioletto e Augusto Perego

46. SUCESSO É CERTEZA? por Mariana Sarache

52. MAJIS E SUA NARRATIVA QUE CONQUISTA por Fernando Souza

56. QUE GOSTO TEM A CRIATIVIDADE? por Lari Yuki e Lucas Ferreira

60. SONHOS DE LUA por Pedro Nascimento

67. “AINDA ESTOU AQUI”, UEM! por Aline Rodrigues

70. A JORNADA BIOTECH DE HIGOR KUROI por Fernando Souza

76. PORQUE DEUS ME CRIOU E AGORA EU GOSTO DE DANÇAR por Beatriz Protazio

80. SOBRE A INSTITUCIONALIZAÇÃO D DA ARTE E DA CULTURA por André Rosa

87. LITERATURA - UM CAMINHO POSSÍVEL PARA O DIÁLOGO por Sara Araújo

90. DISSIDENTE CAOS por João Henrique Balbinot

100. LEFFS E A ERA ATRAVESSADA por Fernando Souza

106. POEMAS BY RASH por Rash Carreira

112. VER, REVER, TRANSVER por Bruno Pesch

118. MADRUGADA MATERNA por Carolina Damião

124. NO SILÊNCIO DO SEU OLHAR por Mari Parma

130. CORPO E O RITO por Sidnei Puziol

134. VEJA, MAS VEJA COM ATENÇÃO por Pedro Roveroni

FOTOGRAFIA ISA ANGIOLETTO E AUGUSTO PEREGO

STYLING JÔ SERBAI

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO

JOYCE MIDORI TERUYA E PEDRO HENRIQUE DANIEL

Demorei, mas voltei!

Quando a primeira edição da MAG foi lançada, em dezembro de 2024, meu propósito era claro: oferecer aos interessados por cultura e arte de Maringá um formato que convidasse à pausa, apostando no conceito de conteúdo lento — o ainda pouco falado slow content. No entanto, o intervalo entre aquela edição e esta revelou uma aceleração cotidiana. Percebi que a dinâmica mudou: se antes eu lutava para que a informação chegasse ao público, hoje o meu desejo é que ela permaneça.

Neste último ano, vimos novamente o cenário digital se tornar um campo de batalha de algoritmos cada vez mais maluquinhos (e a tendência é piorar, não é?). O Instagram, onde o Maringaense Cultural escolheu nascer, mudou (mais uma vez) as regras do jogo: o feed tornou-se uma vitrine onde fotos e textos profundos perdem espaço para a velocidade frenética dos vídeos verticais. E olha que curioso: o Instagram agora permite reels de até três minutos, tentando forçar uma retenção que ele mesmo ajudou a destruir. A maioria dos usuários mal consegue manter o foco nos primeiros 10 segundos antes que o próximo conteúdo — possivelmente de alguém que eu sequer sigo — apareça para mim.

Enquanto a rede social nos empurra para o imediatismo, sigo acreditando que a MAG escolheu o caminho inverso. Percebi, com o retorno de pessoas que

leram a primeira edição, que esta revista não é para a massa que busca o consumo rápido; ela é para quem busca a pausa. É para quem ainda valoriza o tempo da leitura, a análise cuidadosa e o prazer de entender que o que fica registrado aqui também serve de memória histórica para a cidade.

Infelizmente, Maringá viveu, entre uma MAG e outra, retrocessos que doem em quem respira arte. Assistimos a apagamentos culturais literais, como o fim de grafites icônicos na Vila Olímpica — cores que foram cobertas pelo verde do desrespeito. Esses episódios reforçam que o nosso trabalho de documentar a arte é mais urgente do que nunca.

Meu agradecimento profundo aos colunistas que tenho a alegria de ter ao meu lado, cujas vozes elevam o nível do debate cultural aqui, e às pessoas que aceitaram ser destaque desta edição, confiando suas histórias a este projeto. E, claro, agradeço a você, que escolheu sair do fluxo caótico das notificações para se dedicar a este encontro. A MAG continua sendo uma ponte, mas agora é também um refúgio.

Espero que a MAG te inspire mais uma vez.

Com carinho, Fernando Souza, o Maringaense Cultural

DJ COMO

ARTISTA DO PRESENTE

por Fernando Souza

FOTOGRAFIA ISA ANGIOLETTO E AUGUSTO PEREGO STYLING JÔ SERBAI CABELO ANDREIA NOMA

MAQUIAGEM ELOISE PIMENTEL UNHAS PAOLLA NAIL ART ASSISTENTE DE STYLING LUCCAS LIMA

CAMAREIRA MARIANA MULLER ASSISTENTE DE PRODUÇÃO GIOVANNA MARANA

AGRADECIMENTOS DIG FOR FASHION, NAJU CROCHÊ E HANA ACERVO

Há algum tempo, aprendi a olhar para a pista de dança como um palco, um espaço vivo e pulsante, onde o tempo é construído em batidas e o público participa da obra em tempo real. Nesse contexto, é absolutamente correto dizer que o ato de um DJ apresentar sua setlist em uma noite é, sim, uma performance. Diferente de quem apenas reproduz músicas, o DJ compõe atmosferas. Ele lê o ambiente, percebe os corpos em movimento e escuta o humor da sala — ou pelo menos deveria fazer isso. Cada transição, cada pausa e cada escolha de faixa representa um gesto artístico. Há técnica, claro, mas também há sensibilidade, improviso e presença, que são elementos fundamentais de qualquer linguagem performática.

Em poucas horas, esse artista pode levar a pista da euforia à contemplação, do delírio ao abraço entre desconhecidos. Sua obra acontece no exato momento em que é criada e, logo em seguida, dissolve-se na memória de quem dançou. Seu material é o agora. Recentemente, voltei a frequentar esse universo noturno, um território que, por muitos anos, também fez parte da minha história. Não foi um retorno planejado. Na verdade, surgiu por um motivo muito

especial, daqueles que a vida apresenta de forma inesperada, como um convite silencioso. Esse mergulho na noite também me permitiu atravessar a fronteira da pista e conhecer esses profissionais nos bastidores. Ali, observei os verdadeiros desafios de uma carreira que exige muito mais do que apenas apertar botões.

É preciso dizer que nem todo aquele que sabe plugar um pen drive é, de fato, um DJ. A técnica e a curadoria musical muitas vezes dão lugar a performances rasas, em casas noturnas que parecem ter parado no tempo. Nesse cenário, cabe também ao público o exercício de apurar o ouvido para aprender a apreciar a construção de uma setlist bem executada.

Com esta matéria, meu objetivo é lançar um olhar atento sobre a mistura entre técnica e sensibilidade, em que a mixagem deixa de ser mecânica para se tornar experiência. É uma das formas que encontrei para destacar a importância desses profissionais na construção da identidade noturna maringaense. Com vocês: André Fam, Amandateixxe, Disruptyvo, Higa Hashi, Maré e Vick Vírus.

André Fam

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse. Em 2021, com a flexibilização póspandemia, comecei a frequentar as casas noturnas LGBTQIAPN+ da cidade, como o New York Lounge e a Haus Club, com mais assiduidade. Depois de tanto tempo isolado, tudo o que eu queria era sair, ouvir músicas e conhecer pessoas, além de curtir a noite. Sempre gostei muito de música, e viver essa experiência em uma pista de dança é algo muito maior do que apenas ouvir em casa. Foi assim que comecei a me interessar pela figura do DJ: eu queria tocar as minhas músicas favoritas. No mesmo ano, iniciei um curso de DJ e, em 2022, fiz minha estreia oficial.

Como você define o seu estilo musical? Eu toco música pop internacional, dando preferência a artistas mais underground e pouco conhecidos, além daqueles que incorporam elementos da música eletrônica. Também gosto de construir sets de décadas passadas, focados nos anos 70, 80, 90 e 2000.

Quais são suas principais referências musicais?

Alguns nomes que amo e que não podem faltar nos meus sets são Robyn, JADE, Slayyyter, Charli XCX, Kylie Minogue, Lady Gaga e Madonna.

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Acredito que o público maringaense tem se acostumado a consumir “mais do mesmo”. É difícil trazer propostas diferentes para as pistas de alguns lugares da cidade. Muitas pessoas ainda veem o DJ apenas como alguém que toca o que elas já conhecem, e não como um artista que vai lhes apresentar novas músicas e sonoridades.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

É difícil elencar um único momento, mas acredito que foram as festas independentes que produzi e ajudei a criar, como a Sodoma, imPOPssible, Nostálgica e Dance in the dark. Cada uma delas foi muito marcante.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria?

Teria que ser um lançamento: “Talk to me”, da Robyn.

“Talk to me”- Robyn Uma música?

Amandateixxe

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse.

Sempre amei ouvir música; minha mãe até diz que eu já escutava desde a barriga dela. Meu pai também sempre me apresentou muita coisa, então cresci muito conectada a esse universo. Eu admirava demais a figura dos DJs e tinha curiosidade de entender como tudo funcionava. Quando fiz uma aula experimental na Line, percebi na hora: é isso que eu quero fazer.

Como você define o seu estilo musical?

Defino meu estilo muito pelo funky house, tanto o internacional quanto o brasileiro. Mas também amo tocar pop e criar misturas entre o house e o funk BR.

Quais são suas principais referências musicais?

Minhas principais referências hoje são

Aline Rocha e Camila Jun.

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Acho que um dos maiores desafios em Maringá é o DJ ser reconhecido, de fato, como um profissional. Ainda existe uma desvalorização, principalmente em relação aos cachês, então enfrentamos um processo constante para construir esse reconhecimento.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

Com certeza, minha primeira gig em São Paulo. Dividi o line-up com artistas que admiro muito, como Aline Rocha e Jayboo, além de ter conhecido nomes como Curol e Marcel Woo.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria?

Sem dúvida, “Everybody’s free (extended mix)”, do Paul Jockey.

“Everybody’s free” - Paul Jockey Uma música? extended mix

Disruptyvo

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse. Desde 2016 eu já “tocava” nas festinhas que fazia em casa; era no mouse mesmo, bem na brincadeira. Sempre achei muito gostosa a ideia de selecionar músicas e ver a galera curtir. Mas acredito que o principal motivo sempre foi poder tocar o que eu gostaria de ouvir em uma pista. Sempre foi difícil achar rolês com sonoridades diversas por aqui.

Como você define o seu estilo musical? É bem difícil para mim definir o que eu toco; gosto de pensar que é sempre uma surpresa para quem está ouvindo.

Busco sempre fazer algo diferente do que fiz antes, mas sei lá… seria isso o que denominam open format?

Quais são suas principais referências musicais?

Minhas principais referências também são DJs (e meus amigos): Chá di Lirian e Irakytan. Eles foram os primeiros a me mostrar o que é ser DJ de verdade e os primeiros a me fazer sentir fã de alguém que está ali, pertinho. Lembro que eu sempre ficava “besta” e admirado com o que rolava na pista deles. Essa energia e a imprevisibilidade me pegam muito — e é exatamente pensando nessa sensação que eu monto os meus sets.

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Conseguir espaço para tocar. Grande parte dos produtores ainda segue a mesma fórmula para definir quem entra no line-up. Além disso, poucos rolês têm um público realmente aberto a sonoridades novas, o que acaba desanimando um pouco quem quer propor algo diferente.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

Sem dúvida, quando fui convidado pela Equinócio para tocar no meu primeiro Carnaval da prefeitura. Foi algo grandioso e inesquecível; sou muito grato pela oportunidade e pela confiança que depositaram em mim naquele momento.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria?

Uma que tenho pensado muito e que define bem meu som é um remix de “Careless whisper”, do George Michael, na versão voltmix. É a track perfeita para dar aquela “quase choradinha” sem precisar parar de dançar.

“Careless whisper” - George Michael Uma música?
versão voltmix

HigaHashi

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse. Foi em 2020, meio “sem querer”, depois que ganhei o sorteio de um curso de mixagem eletrônica. Em momento algum pensei em não fazer; eu simplesmente fui. Sempre tive um pé no campo das artes, mesmo tentando seguir outros segmentos profissionais. Fosse no teatro ou em bandas, estive sempre perto da música.

Como você define o seu estilo musical?

Formato aberto (open format). Isso significa que meus sets abrangem e conectam diversos gêneros musicais.

Quais são suas principais referências musicais?

É uma pergunta difícil, especialmente pelo formato aberto que escolhi para guiar meu trabalho. Mas David Bowie e George Michael sempre foram presenças marcantes na minha trajetória pessoal. Também vejo como referência o som de Ogoin & Linguini, L’Impératrice e Duquesa. Já no campo da discotecagem, minhas inspirações são DJ Akila, Blackat, BADSISTA e CRAZED (BR).

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Acredito que existam problemas em relação ao reconhecimento do nosso trabalho. Ao longo do tempo, eu me deparei com produções de eventos que não levam em consideração todo o esforço prévio ao momento de tocar — o que envolve pesquisa, curadoria, montagem e seleção das músicas.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

Quando participei da Noise clash, um evento de Londrina que propõe batalhas de sets de forma amistosa, criativa e divertida, com a participação do público. Ter participado de uma dessas batalhas como DJ foi a realização de um sonho particular.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria? “Last train”, de Marsy.

“Last train” - Marsy Uma música?

Maré

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse. Minha relação com a música é intensa desde a infância; ela sempre teve um papel emocional, me conectando a memórias e pessoas. Na adolescência me aproximei da prática através da bateria, do violão e, mais tarde, compondo e cantando rap no grupo GdoubleC. Foi quando mergulhei na cultura hip-hop. A decisão de ser DJ veio em 2017, quando usei a rescisão de um emprego para investir em um curso e nos meus primeiros equipamentos. Comecei tocando em casamentos e aniversários — uma grande escola onde aprendi a lidar com públicos diversos e a desenvolver leitura de pista. A virada ocorreu em 2018, ao ter contato com o toca-discos. Sentir o vinil e ver a música acontecer de forma física me conectou à profissão de um jeito profundo. Pouco depois, tive a oportunidade de tocar em uma festa de hip-hop que eu frequentava como público. Ao ver a reação da pista, tudo fez sentido: entendi que era aquilo que eu queria construir para a minha vida.

Como você define o seu estilo musical? O hip-hop é a minha base, mas hoje defino meu som muito mais pela construção da pista do que por um gênero específico. Gosto de criar pontes: sair de um pop internacional e chegar a uma brasilidade, ou trazer um clássico do hip-hop para uma roupagem atual. Meu estilo é sobre conexão e fluidez. Observo o momento e conduzo a energia, buscando fazer com que as pessoas se reconheçam ali, seja pela nostalgia ou pela surpresa.

Quais são suas principais referências musicais?

Minhas referências fundamentais vêm do hiphop, com nomes como KL Jay, Erick Jay, DJ Hum e DJ Jazzy Jeff. Outra grande influência foi o campeonato Red Bull 3Style, que me ensinou que é possível transitar entre estilos sem perder a identidade. Musicalmente, bebo do rap nacional (Racionais, Emicida, Marcelo D2), mas carrego muita brasilidade com Tim Maia, Djavan e Gilberto Gil, além de referências de reggae, rock e pop das décadas de 90 e 2000.

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Acredito que seja o equilíbrio entre o crescimento do número de profissionais e a quantidade de espaços disponíveis, o que torna o mercado muito competitivo. Além disso, ser DJ hoje exige ser um pouco de tudo: artista, comunicador e empreendedor. O público está mais seletivo e busca experiências completas, então o desafio é se manter relevante e entregar algo que realmente conecte dentro desse cenário.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

Sem dúvida, foi em 2018, quando toquei pela primeira vez com toca-discos em uma festa de hip-hop em um lugar que eu frequentava como público. Aquele espaço tinha um significado forte, pois era onde eu ia para me inspirar. Quando subi ao palco e vi as pessoas dançando e se conectando com o meu som, tive a certeza de que a música não era mais apenas uma vontade, mas um propósito. Foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria?

Escolheria “À procura da batida perfeita”, do Marcelo D2. Ela resume minha fase atual: a mistura do rap com o samba e essa busca constante pelo encaixe certo para cada momento da pista. Essa essência também define o Baile maravilha, projeto que desenvolvi para explorar justamente essa fusão de brasilidades.

“À procura da batida perfeita” - D2 Uma música?

Vick Vírus

Quando e como decidiu ser DJ? Conte um pouco do processo inicial e o que motivou seu interesse. Desde muito novo, sempre fui ligado à música dos mais diversos tipos. Quando criança, passava praticamente o dia todo ouvindo compilações de clipes animados de camelô, Xuxa só para baixinhos, sertanejo com meu avô, Summer eletrohits com meu pai aos finais de semana e as divas do pop e da disco dos anos 80 nos churrascos de família. Todas essas referências e experiências me trouxeram para o caminho onde estou hoje. Sempre tive a certeza de que seria artista; nunca me identifiquei com nenhuma outra profissão. Eu me encontrei na música e pretendo lançar produções autorais, mas, enquanto esse momento não chega, sigo me apresentando com toda essa carga que faz parte de mim desde sempre.

Como você define o seu estilo musical? Nostálgico e futurista, melancólico e dançante. Gosto de brincar com os sentimentos que a música pode causar no público.

Quais são suas principais referências musicais?

Kendal, Xoxottini, Vermelho Wonder, Cashu e Carol Mattos são, hoje, as minhas maiores referências dentro do meu som.

Qual é o maior desafio de ser DJ em Maringá hoje?

Segue sendo a falta de oportunidades e de locais que abracem a musicalidade diversa e os artistas LGBTQIAPN+ dentro do cenário noturno de Maringá.

Um momento inesquecível da sua trajetória?

Minha maior gig até hoje foi o Carnaval de Maringá, que teve o maior público para o qual já me apresentei. Mas o evento Arcade mora no meu coração,

pois foi onde dividi o line-up e tive a chance de conhecer uma das minhas maiores inspirações, que é a Xoxottini.

Se tivesse que escolher apenas uma música para definir o seu trabalho neste momento, qual seria?

“Supernature (instrumental climax edit)”, de Cerrone.

“Supernature” - Cerrone Uma música? instrumental climax edit

Isa Angioletto e Augusto Perego

A Angioletto Fotografia é formada por Isa Angioletto e Augusto Perego, dois fotógrafos especialistas em marcas e publicidade. Juntos, somam mais de 16 anos de experiência na fotografia e um repertório bastante diverso.

sucesso e Certeza por

Mariana Sarache

Nossas dúvidas nos levam aonde? Para frente, para sempre um crescimento ou para uma trava? Uma espécie de moda sobre a procrastinação vem sendo dita pelas pessoas como se as travas emocionais não existissem antes dos anos 2000. Talvez realmente elas não pudessem acontecer em público, ocorriam debaixo do chuveiro, no banho, nas rezas antes de dormir, em cantos escondidos e escuros para que ninguém notasse, pois ser frágil era sinônimo de ser incapaz.

Quem cresceu nessa fase sabe que as mães bancavam, na maioria como superpoderosas, um trator de trabalho e qualquer desafio familiar, e os pais, distantes, com todas as ressalvas de que isso não tenha sido escolha deles. Homens que não choram, não sentem dor e também não adoecem, nem sempre por escolha também.

O ano de 2025 se destampou com uma sociedade mezo, mezo doente, mezo despreocupada. Foi a onda do bebê reborn como rebote de pessoas que não foram atendidas nas suas necessidades mais básicas emocionais, a onda de pessoas que preferem a ausência de liberdade civil a aprender sobre democracia, a onda de pessoas que acreditam que a vida está toda estampada na rede social tal e qual é a realidade, onda de casais que não se dão ao respeito no que é mínimo na comunicação, disputando quais são os papéis ideais de cada um, sem nenhuma ética afetiva. Onda das crianças sendo diagnosticadas finalmente em suas dificuldades e atribuições fisiológicas, porém massacradas pelos próprios adultos que deveriam cuidar delas. Por essas e mais tantas que nem sou capaz de acompanhar no noticiário que a vida anda difícil. Não sei às vezes se canto como a Elis, “aqui quem fala é da terra”, pois já está batida a ideia de que estamos sem variar em guerra.

pensado; afinal, ter dúvida é nosso legado. Temos dúvidas, e eu acho que ainda bem.

As incertezas são o caminho da minha infância e adolescência, e eu as vejo como margaridas e folhagens verdes. As minhas preferidas. Elas não me incomodam, são, ao contrário disso, enfeites, coloridas e de verde vivo, verde esperança. Penso que, se há incerteza, é por ter mais que uma possibilidade e eu gosto de mais de uma possibilidade para as minhas decisões. As incertezas é que me deram sempre a sensação de ter para onde voltar ou outro caminho a tentar, caso minha escolha nem seja tão assertiva assim. Eu estou aqui escrevendo sobre dúvida, incerteza e possibilidades e, sem um motivo aparente, quero que você pense se não é assim que se sente aí também. Pode ser que não, e, se não, quero conversar com você. Vamos ler as nossas ideias em voz alta e ver se perdemos alguma coisa nessa de não prestar tanta atenção quando ouvimos ou lemos alguém.

Por essas e outras, pensar no conceito de sucesso e saber se ele vem ou não acompanhado de dúvidas é algo que tenho

Será que escutamos ao ouvirmos e, de fato, nos modificamos pelo que lemos? Tenho me questionado sobre isso. Vim aqui questionar você também. É dito, escrito, afirmado que estamos na geração que mais oportuniza circulação de informações, mas às vezes eu penso que é isso mesmo, quem já andou em ônibus circular sabe que a passagem é rápida para que se dê logo conta do itinerário. Não se espera quem não tiver chegado no ponto, não se para pra criança ou idoso, não se desacelera para nada nem ninguém; até mesmo se sabe que, na nossa cidade, furase o sinal sem nenhum pudor ou resposta.

Mas eu estava falando de informação circular, então voltemos. As informações passam, não ficam, não esperam, não param, não se acomodam, não dá nem tempo de sentar, não sei se há espaço para elas também.

Foi aí que, parando um pouco do ritmo que eu tinha me imposto pela busca de sucesso,

percebi que tenho me deparado com certezas que não questionava por falta de um repertório diferente, como se uma nova vegetação viesse a compor meu caminho de margarida e folhagem e, nessa de conhecer nova vegetação, me reconheço um tanto a menos, um tanto a mais do que achava que fosse. Esses dias me peguei notando o quanto cresci numa família que, de muitos ângulos e camadas, teve comportamentos naturalizados que hoje percebo machistas, racistas e gordofóbicos, além de histórias que revelaram posturas de natureza homofóbica também. Não no meu núcleo, esse teve que se adaptar às mudanças. Ao conhecer meus pais, meus colegas e amigos dizem que eu tenho sorte. Acho que tenho mesmo, porque penso também que eles gostariam de ter tido. A grande família, aquela que se sabe a brasileira que tenta ser toda correta, toda dentro dos padrões tradicionais, essa aí, eu me deparei dentro dela e, por isso, fora de mim por anos.

Sair dos estereótipos, buscar nossas próprias referências e insistir pelos nossos valores é algo demasiado desgastante e envelhecedor, mas eu amo envelhecer. Com uma intervenção estética aceitável aqui, uma mudança de hábito alimentar ali, mas amo envelhecer. Contar pro tempo que aquela nova ruga foi do último choro que durou mais do que eu gostaria é, ainda que agridoce, reconfortante, pois sinaliza que você pode continuar tentando, vivendo e agora mais esperto que antes. Mas divaguei de novo e já não sei se você está me acompanhando. Quero só dizer neste texto das experiências que me formaram na dúvida, eu disse isso lá no início, não sei se você ainda se recorda das suas dúvidas, se fez uma lista de desejos ou de incertezas… eu, como sempre gostei de escrever, fiz as duas e mais algumas de outras categorias.

Permaneço, porém, tentando re-conhecer o sentido de sucesso, o problema, eu não sei vocês, mas o problema é guardar conhecimento. Diz-se que, para ter sucesso,

é preciso conhecimento, e como fica essa conta para quem se esquece? O quanto mexeram comigo as incertezas que foram causadas pelo esquecimento, que hoje eu entendo sempre causadas pela condição do TDAH. Aliás, essa é uma pauta que cabe neste texto em devaneios. Uma pessoa com TDAH tem o que você está vendo aqui, uma mania incontrolável e imutável de tratar de tudo ao mesmo tempo e, sim, com profundidade se a gente quiser, porque, pra isso, basta nosso hiperfoco estar ativado no assunto.

Vamos para o hiperfoco que sempre foi da minha natureza de TDAH e gosto de personalidade: aprender. Eu amo aprender, mas nem tudo. Tudo o que for sobre relações humanas, linguagem, jeito de se comunicar, maneiras de tratamento, como se formam os pensamentos, como se desenrolam as emoções. Por causa dessa característica, sempre gostei de ficar perto de quem gostava de falar, cantar e contar histórias.

Aprender a sorrir, dançar, gesticular com gracejos, ter uma mentalidade leve e conseguir envolver as pessoas que estavam em volta sempre foi muito sedutor pra mim. Mal sabia eu que essa também era eu. Nos espaços em comum, familiares, amigáveis e coletivos, eu queria me sentir livre assim. E, quando eram acolhedores, eu de fato era essa menina. Leve e comunicativa, sem timidez.

Acontece que as oportunidades, os repertórios e as referências não me levavam para um lugar de curiosidade e conhecimento. O que estava visível era sempre o semblante das pessoas, as situações sinuosas, as mal resolvidas, os olhares de canto, as picuinhas.

Como era fácil desde criança perceber essas linguagens, essas nuances. É claro que, ao longo do tempo, me adultizei nesses ambientes a ponto de notar o que se passava por detrás das caretas e ausências de palavras. Me acostumei a ler, mas não lhes atribuía tanta atenção. Sabia que estavam

trancadas no falso rigor da moralidade e dos bons costumes comportamentais. Lembrase de que disse que cresci em uma família cheia de preconceitos? Além disso, em um distrito de uma cidade também assim. Pois as cidades são feitas de pessoas, e pessoas, de pré-conceitos.

Com o passar das experiências e desejos de estar em outro ambiente que não o que eu vivia, ingressei na faculdade, fiz parte de grupo de estudo, realizei mestrado e doutorado. Fui ser professora numa escola de ensino particular (na qual eu nunca havia estudado), fui crescendo e me tornei figura de liderança. Aos poucos, sempre caminhando com esse olhar e ouvidos atentos às pessoas, aprendi sobre o comportamento de que as pessoas gostam de mentir para si mesmas, mas longe de mim dizer que sucesso é uma mentira, só quero questionar se ele é carregado de certeza.

Por exemplo, se você, assim como eu, cresceu em uma família de preconceitos e em uma cidade com gente cheia de certezas, deve ter ouvido a maior mentira que nos contam, aquela de que é preciso “ser alguém na vida”… tem até aquela pergunta que fazem para as crianças: “O que você quer ser quando crescer?”… poxa, nessa ótica, é preciso crescer para ser, e o triste é que nessa métrica crescer tem poucos critérios geralmente. Tem criança que é mais crescida que muita gente grande. Afinal, na minha visão e na de mais algumas pessoas, ainda bem, a criança já nasce sendo.

Mesmo meio cegos, confusos ou de ouvidos tapados, nós tentamos seguir o que dizem, ensinam e nos pedem, mas nos esquecemos de olhar para os gestos, as expressões não ditas e ouvir o que as frases incompletas podem nos dizer. Caímos no conto malicioso de que o que nos falta é esforço e vamos nos desgastando em caminhos que nos levam à falência, de tantas formas possíveis. Aqui é que muita gente se estanca na procrastinação. Aquela de que falava no início

do texto. Assuntos e mais testes e hábitos são sugeridos para que se mude a rota da paralisação, menos o que se deve de fato fazer: reconhecer o conceito compreendido e buscado de sucesso.

O conceito de sucesso me atravessa de uma forma que o TDAH sempre me ajudou, e eu nem sabia. A hiperatividade não me deixava parar. Não fiquei estagnada, pois não conseguia me conformar em esperar, em fazer uma coisa de cada vez, em aprender devagarinho e por partes. Desde que cresci emocional e profissionalmente, venho me perguntando o que é sucesso e tentando alcançá-lo também, como não?

Eu escrevo como quem nasceu nos anos 90 e cresceu com a ideia de sucesso em crise. Chegamos todos na famosa crise dos 30 aos 30. Questionamos nossa condição emocional, financeira, profissional e de saúde física, pois não temos os parâmetros que são o padrão divulgado nas redes sociais, que precisamos ser quem faz na hora de descansar. Essa teoria você já leu em algum lugar, já aprendeu sobre isso na prática ou até passou distante por ter nascido antes ou depois dessa crise, mas certamente viveu outras crises.

À minha pergunta inicial do título, eu respondo que “não”. Sucesso é certeza? Não. Não há como ter certeza de algo que sucede o tempo todo a algo anterior em uma roda infindável de acontecimentos. A vida é feita de reação em cadeia. Como ter a ilusão de conceito ou controle do que seja sucesso pode nos ajudar a ter mais certeza? Que baita cilada! A incerteza é movedora, é ela que nos impele ao próximo passo, é por ter uma dúvida que aprendemos a próxima ideia, fase, etapa. Sucesso, portanto, só pode ser algo que se faça com a máxima verdade possível, com intenção de que dessa ação aconteçam várias outras na mesma medida ou mais de benesse.

Sucesso, pra mim, é poder me relacionar com quem quero, gosto e preciso, sem ter que me desvincular dos meus valores e princípios. É poder manter a minha sanidade enquanto vejo pessoas próximas a mim desejando descaradamente que eu esteja muito cansada do que escolhi fazer, sucesso é ter como maior objetivo não desistir do que um dia já foi impossível e hoje ver a metade disso realizada e a outra se construindo com mais pessoas junto de mim.

Sucesso é saber que posso lidar com a minha tristeza chorando, sendo triste e contando com amigos e pessoas que me acolhem sem pedir que eu não perca a esperança, só me dando um abraço para aquele momento que é realmente um drama; e depois ver essas mesmas pessoas comemorando comigo uma vitória alcançada.

Sucesso é, sim, poder ter recursos financeiros e estruturais para que as vontades mais criativas e produtivas se revelem a mim e aos meus, sem culpa ou medo de ambicionar ainda mais. Sucesso pode ser algo a ser redefinido, desde que o empenho em não disfarçar cinicamente o que desejamos seja nosso maior princípio. Desejar sucesso ao outro que tenta arduamente a vida mesmo com seus receios é o maior conceito de sucesso!

Pedagoga, mestra e doutora em Educação. Assessora empresarial e educacional

Mariana Sarache

MAJIS

E SUA NARRATIVA QUE CONQUISTA

por Fernando Souza fotos Isa Angioletto

Entre o R&B urbano, o hip-hop e a performance corporal, Majis constrói uma obra que transforma vulnerabilidade em força e narrativa. Cantora, compositora e dançarina nascida em Maringá (PR), a artista vem se consolidando na cena independente ao unir intensidade emocional, identidade vocal marcante e uma presença de palco magnética.

Com influências que dialogam com artistas como Melly, Sotam, Duquesa, Ajuliacosta, Liniker e 2ZDinizz, Majis desenvolve uma estética musical que atravessa o R&B contemporâneo e o rap, combinando flow sensível, narrativas íntimas e posicionamento social.

Sua trajetória começou a partir da dança, linguagem que pratica há cerca de sete anos e que se tornou parte fundamental da sua construção artística. Há três anos, iniciou sua caminhada profissional na música, após seu primeiro contato com o estúdio em uma colaboração com um amigo. Desde então, vem desenvolvendo sua carreira de forma independente, explorando a conexão entre música, corpo e performance.

Nos últimos anos, Majis realizou mais de trinta apresentações ao vivo, incluindo aberturas de shows para artistas como FBC, Yago Oproprio e Ebony, além de participações em eventos e projetos da cena urbana. A artista também integrou o projeto Recital de Rua, idealizado por MC Hariel, e já dividiu palco com diferentes nomes da nova geração do rap nacional.

Seu trabalho vem ganhando reconhecimento dentro da cena e nas redes sociais, sendo citado e compartilhado por artistas como L7NNON, Stefanie, MC Luanna, 2ZDinizz, Rodrigo Ogi e Sotam.

Entre seus principais lançamentos estão os EPs Two luv (2023), Sem possíveis amores pra vida (2024) e Expoente (2025), que juntos acumulam dezenas de milhares de reproduções nas plataformas digitais. Seu single mais recente, “BPP” (2026), ultrapassou 15 mil streams no Spotify em seu primeiro mês de forma orgânica,

além de contar com um videoclipe que soma mais de 8 mil visualizações.

A faixa propõe uma crítica direta ao racismo estrutural, aos discursos de ódio e à invisibilização dos pioneiros da cultura preta e periférica, além de tensionar questões sobre protagonismo e gênero dentro da cena do trap contemporâneo.

Nos palcos, Majis apresenta dois formatos de show: uma versão acústica (voz e violão) e uma performance expandida com DJ, dançarinas e guitarrista, com duração média de 40 a 50 minutos. Suas apresentações combinam performance vocal, direção criativa, coreografia e estética visual pensada para dialogar com cada fase artística, criando uma experiência intensa e imersiva.

Em suas músicas, Majis aborda temas como afeto, vulnerabilidade, críticas sociais e amor homoafetivo, dialogando principalmente com públicos periféricos, pessoas negras e comunidades LGBTQIAPN+. Sua arte propõe novas possibilidades de afeto, potência e representação para histórias historicamente marginalizadas.

Em ascensão na cena independente, Majis segue consolidando sua voz como uma artista que une sensibilidade, posicionamento e performance, representando uma nova geração do R&B e do hip-hop brasileiro.

O single “BPP” funciona como texto poético e performativo, cujo conteúdo lírico e sonoro está alinhado a uma crítica social, explorando temas como identidade, pertencimento, resistência e crítica interna à cena hip-hop. Sua estrutura musical concisa favorece um impacto direto e denso, possibilitando a construção de visuais de alto teor simbólico e político.

“BPP” é um clipe musical e peça audiovisual que articula imagens, símbolos e referências histórico-políticas para conectar a tradição do hip-hop como prática política à crítica da cultura contemporânea. A obra reconstrói visualmente momentos icônicos da luta contra o racismo estrutural e confronta a superficialidade das representações dentro da cena urbana atual.

O clipe utiliza um repertório simbólico que articula ações históricas do movimento negro global (como a saudação do Black Power de Tommie Smith e John Carlos) e referências a figuras culturais (Lil’ Kim, gravadora M.A.F.I.A.) para estabelecer um diálogo entre passado e presente.

qUE GOSTO TEM A CRIaTIVIDADE?

por Lari Yuki e Lucas Ferreira

Desde o primeiro momento da nossa vida, alimentar e nutrir é fisiologicamente relacionado a estar vivo: o leite materno e, mais à frente, a introdução alimentar, que inaugura um universo de possibilidades de cheiros, formas, texturas e sabores. Um pouco mais de tempo, e as escolhas surgem, os gostos pessoais, o entendimento sobre aquilo que é bom e as palavras repetidas “mais, mais” ou aquilo que desagrada, um tapa no pratinho que o vira no chão, uma careta que reflete o azedo desagradável ou a textura esquisita.

Quando passamos das reações, quase que animalescas, que aprovam ou desaprovam a comida para um requintado gosto particular que tem o seu prato favorito, preparado com esmero da bela forma que agrada? Infelizmente se espera uma resposta neurológica, biológica, ou ainda sociológica; provavelmente não vai ser aqui que a encontrará. Mas, ao escolher abordar esses assuntos, pensamos em algumas provocações.

Quando pensamos na evolução de um paladar, alguém que come de tudo, relacionamos isso possivelmente a uma certa intelectualidade alimentar, quase como um símbolo de elegância e requinte. O oposto disso seria o intitulado “paladar infantil”, composto majoritariamente de alimentos com baixa complexidade sensorial, texturas pouco diversas e, na maioria das vezes, desequilibrado em açúcares e gorduras. Por esse olhar, um deles parece obviamente superior ao outro.

Mas convidamos a pensar nas motivações que implicam a existência e o incentivo do consumo de alimentos que agradam ao “paladar infantil”.

O que é comida de verdade e como o afastamento de seu acesso pela indústria molda a cultura alimentar?

Comida de verdade não se define como comer saudável, mas sim no consumo de alimentos naturais ou minimamente processados. É literalmente o prato feito de todo dia de um brasileiro. Isso inclui, na maioria das vezes, o arroz, o feijão, uma proteína como bife ou ovo, um refogado de legumes e uma salada. De maneira enxuta e simplista, produções industriais em larga escala, barateamento de insumos e produção e alto incentivo mercadológico em publicidade impulsionam, cada vez mais, o mercado dos alimentos ultraprocessados.

A quem cabe preparar uma refeição repleta de ingredientes frescos todos os dias? Ainda anteriormente, a quem cabe a ida semanal à feira e a compra de vegetais frescos direto do produtor? Algumas escolhas alimentares são tomadas antes mesmo de sentarmos à mesa.

A partir disso, pensando no desenvolvimento do paladar, é necessário, sobretudo, o olhar do adulto ao paladar infantil, propondo e defendendo politicamente, antes de tudo, o acesso à comida de verdade e a regulamentação de produtos ultraprocessados e sua massiva divulgação. São processos longos, que enfrentam

incentivos financeiros opostos a esse alcance de maneira muito consolidada. Mas, assim como qualquer outra luta política, a alimentação digna deve ser tida como direito básico e defendida em todas as esferas. Ao falar de gastronomia, entender minimamente o panorama alimentar que precede as discussões criativas é necessário. No fim das contas, comer e cozinhar é um ato político!

Tendo em mente a anterior problemática, percebendo que o paladar está em constante construção e que o tempo levado para que isso aconteça é muito mais conectado a acessos do que a qualquer-outra-coisae-nós-odiamos-o-capitalismo, podemos passar a olhar para a parte artística e criativa do rolê?

A gastronomia, assim como alguma vertente artística, depende de um conjunto

de técnicas e práticas. Para nós, meros mortais comilões e curiosos, que não estamos à frente de grandes e sérias cozinhas, vamos nos ater ao ato de comer. Preparamos para cá um passo a passo prático que transforma a refeição em um prato cheio para a criatividade! Se liga:

1. Sua presença e curiosidade serão seus aliados principais. Tenha atenção ao ambiente, sinta o cheiro e identifique o espaço.

2. Um bom cardápio te guiará nas boas escolhas, mas não pense duas vezes em sentar no balcão e conversar com um atendente ou até mesmo com o chef. O que eles querem mesmo é só uma pessoa com apetite e curiosidade para explodir a mente de quem ainda não conhece o mundo por meio dos alimentos. Algo que você não tenha experimentado ou gostado

até o momento não foi apresentado por uma outra perspectiva criativa, e isso pode mudar tudo!

3. Em um primeiro ato canino, podemos sentir o cheiro dos ingredientes todos juntos ao prato, formando sua primeira identidade. Depois podemos entender sensorialmente os ingredientes presentes. Existe uma complexidade nos aromas dos pratos, eles dizem muito sobre o preparo, antes mesmo de provar.

4. Bem como na cena de Ratatouille, Remy guia seu irmão a saborear queijos, nozes e frutas, ajudando a descrever as sensações. As explosões são a demonstração visual de tudo aquilo que se sente. Aqui seguimos o mesmo exercício, o de saborear os ingredientes e sentir todas as características. Feche seus olhos e, enquanto mastiga, deixe sua personalidade traduzir, da forma mais simplória, o que sente. Exatamente como na cena, deixe as cores, formas, sensações e memórias trabalharem ao seu favor!

5. Depois de conhecer o sabor de cada ingrediente, vamos conhecer o poder da composição! Em um prato com diversas características, você há de perceber que cada garfada te promete algo diferente! Imagine isso em um simples prato de arroz com feijão: a quantidade de arroz soltinho se grudando ao feijão cremoso e temperado, a dose perfeita de farofa trazendo o crocante necessário, espetando com o garfo aquele frango assado com a pele quase caramelizada — juro que eu não escrevi isso em um domingo — e, se tiver um vinagrete, pode crer que você fechou com chave de ouro, ou melhor, garfo de ouro! Nessa garfada temos doce, salgado, azedo e amargo. Além disso, o que está presente em toda a culinária mundial: o umami.

6. Não estranhe quando estiverem falando de comida em um jantar com amigos ou família. Antes de você chegar,

provavelmente essa conversa começou porque alguém quis falar de uma experiência em algum lugar, desde uma viagem para outro estado do Brasil até mesmo no bairro mais distante do centro, onde sempre encontramos boas surpresas. Ou ainda aquele momento antes de começar a cozinhar, em que se conversa coletivamente para uma decisão em grupo. Compartilhar nossas curiosidades gera ótimos companheiros de rolês culinários!

7. Temos um repertório, antes de tudo cultural: nossos avós e pais já nos apresentaram a base da nossa alimentação, seja por origem, seja por regionalidade. Pense no lugar em que você está, vá às feiras, observe o que é comum de ser levado para as casas, as comidas servidas em períodos festivos, o que mais se come em cada período do ano, a maneira como os alimentos são respeitados. Explore o que você já conhece e aventure-se em coisas novas.

8. “Roube como um artista”, eles disseram. Depois de criar um repertório por meio de tantas curiosidades pelos alimentos e pelos lugares que os servem com tanto amor, podemos descobrir que, além da presença e curiosidade, ao sentar ao balcão, cheirar feito um cão farejador, “sinestesiar” os sabores, compor uma orquestra num garfo, falar de comida enquanto come, revisitar nossa base alimentar, copiar uma receita, testar diferentes técnicas e ter paciência com os processos, você aprendeu a criar formas de entender o mundo pelos alimentos.

Lari Yuki e Lucas Ferreira

Baristas comunicadores do café especial e apaixonados por cultura gastronômica.

SONHOS DE LUA

A TRAJETÓRIA ATÉ A PRODUÇÃO DO CURTA-METRAGEM ENLUARADA

Um pulo do travesseiro, corpo suado. A janela aberta e o ventilador ligado não fazem diferença nenhuma nessa noite quente do verão interiorano brasileiro. Isso foi um sonho ou um pesadelo? Um carro passa na rua, e o clarão de seus faróis atravessa o meu quarto inteiro, projetando a sombra da janela gradeada em cada canto do meu espaço mais íntimo. Em seguida, escuridão novamente. O sono já foi embora, então o que resta é aproveitar essas sinapses oníricas sobressalentes na minha cabeça. Se cavucar direitinho, decerto que tem alguma narrativa aqui ainda… nada. Só o que resta é uma pergunta: como surge um filme?

Repare que eu não estou falando do nascimento de um roteiro, tampouco de um argumento ou premissa, mas de um filme por completo. Óbvio, passamos por esses postos durante a caminhada até os créditos iniciais, mas é uma caminhada que pode demorar anos após o FADE OUT fechar a narrativa no papel.

Enluarada teve seu big bang como vários outros projetos dentro da minha filmografia. Não havia nada. Nem história, nem roteiro. Apenas sentimentos soltos, fragmentos imagéticos e uma pulsação por capturar algo dessa escuridão; aos poucos ir iluminando esse vácuo com palavras, objetos, atores e câmeras.

Entretanto, Enluarada se tornou algo especial nesse processo por ser o primeiro trabalho que

surgiu de uma colaboração embrionária. É difícil imaginar que uma pessoa que passou sua vida, pessoal e profissional, tão alheia à minha me aborde, por vontade própria, com um texto que seja capaz de traduzir tão bem, em uma estrutura poética, sentimentos que me atravessam, mas que, além disso, seja capaz de confiar ao meu trabalho um canto tão sensível do próprio ser. Bom, por mais improvável que isso seja, foi exatamente o que Naju Campos fez. Sempre adorei seu trabalho como diretora de arte, até cheguei a dividir alguns sets com ela, mas nunca chegamos a unir forças como diretor e diretora. Nunca era o projeto certo. Pelo menos até ela me abordar com um descarrego em formato ensaístico, que faço questão de expor a seguir, ipsis litteris:

A vontade de desaparecer de repente volta. ela bate na porta todos os dias, alguns deles eu me recuso a atender.

Foto de Isa Angioletto

Já em outros, deixo a porta destrancada e o café passado esperando ela chegar. Tem dias que só a vontade de não estar mais viva é que me lembra que eu ainda estou.

Cada batida ressoa na minha cabeça como uma explosão. A qualquer momento ela vai perder a paciência e arrombar de uma vez.

Sentada em minha frente, consigo ler seus olhos que mais parecem os meus. Ela se move como eu, se veste como eu, tem a mesma estatura e o mesmo peso. Ela parece muito mais bonita do que dizem. Seus olhos brilham pra mim, eles me querem junto dela. Nunca é perto o suficiente, me engula, me deixe habitar dentro de você. Ela diz.

Me dê ao menos a paz de um túmulo. Li isso em um título de obra de arte e pensei que realmente ela não é feia assim.

Sinto seu cheiro de longe, seu gosto é uma explosão de sabores na boca, seu toque penetra a carne viva sem ferir, seu abraço acalma toda a minha agonia. Não deve ser tão ruim aí dentro de você. Me falaram pra não te deixar entrar, me disseram que você me faria mal, mas você ainda é a única que se senta à mesa comigo e me espera tomar café antes de pronunciar qualquer palavra.

Não arriscaria dizer que a única presença que ainda sinto é feia assim. Parece aconchegante do seu lado. Consigo ouvir ruídos ao fundo, o tilintar dos seus olhos piscando ressoa uma canção familiar. Uma lembrança já esquecida, enterrada no fundo da garganta, que ela puxa pra fora, arranca de dentro de mim com tanta facilidade que começo a acreditar que não sou de verdade. Confundo as imagens, tudo parece indefinido, borrado. Me olho no espelho tentando procurar algum resquício da pessoa que já fui e só o que consigo ver é ela, a vontade. Como foi parar aí?

Mais uma vez eu abro a porta, ela está lá. Pontualmente, entra sem pedir licença e já se ajeita em seu lugar à mesa. Dessa vez ela se contenta em devorar apenas as lágrimas que fazem cachoeira na sala de estar.

O apartamento está inundado.

Preciso construir um barco.

— Naju Campos, no meu zap, dia 5 de julho de 2024

A adaptação é algo que assombra a maioria dos roteiristas com quem já tive o prazer de confraternizar, e eu não escapo desse temor. O cinema, diferente das introspecções dos romances e dos monólogos das dramaturgias, se sustenta na ação de personagens, ações em páginas que se transformam em movimentos nas telas. Como transformar um ensaio sobre as ansiedades que atormentam o coração alheio em uma jornada de uma personagem que não apenas possa ser captada por um sensor fílmico, mas uma jornada que seja capaz de convencer pareceristas anônimos a acreditarem que essa ideia merece qualquer verba que eles estejam dispostos a oferecer em sua agenda política?

“NÃO HAVIA NADA. NEM HISTÓRIA, NEM ROTEIRO. APENAS SENTIMENTOS SOLTOS.”

Minha estratégia foi apelativa, mas familiar. Busquei no surrealismo, que trabalho desde meus primeiros filmes, um porto seguro para arriscar simbolismos que trouxessem satisfação para mim como realizador e para a Naju como vítima de uma adaptação (entre nós, aqui) bem insegura. Fui sagaz ao escrever apenas fenômenos que eu sabia que eram possíveis de serem realizados. No final, me orgulho de termos feito o filme inteiro apenas com efeitos práticos e muita engenhosidade, por mais amedrontador que tenha sido inundar um

cômodo inteiro.

Entre a contemplação no edital, dificuldades para encontrar uma locação, adaptações de última hora e um dos processos cinematográficos mais satisfatórios que eu tive durante minha jornada até aqui, no dia 26 de setembro de 2025 finalizamos as gravações. O que havia sido sugerido como uma singela brincadeira entre duas pessoas com sentimentos similares e uma vontade de expressar a própria arte se engrandeceu no que eu julgo ser meu filme mais espiritual. Um texto trocado pelo celular, adaptado para um singelo roteiro que buscava um final um pouco mais esperançoso do que seu texto original, transmutou-se para o verdadeiro nascimento de uma entidade.

O envolvimento de figuras como a de Bianca Silvério, que absorveu Lucilia, protagonista do filme, como um reflexo da própria alma; de Jô Serbai, na sua extrapolação conceitual em busca do figurino perfeito; de Lucas Bulgarão, que deu à luz todas as nossas ideias, apagando todos os meus pavores técnicos; e da própria Naju Campos, que tão magistralmente ergueu (e derrubou) as paredes que fazem parte do mundo que nós criamos, elevou o filme a um patamar que outros diretores apenas sonham em

alcançar. Me sinto sortudo.

Enluarada é o quinto curta-metragem no qual eu assumo o papel de roteirista, diretor e montador. Atualmente, o filme está começando a ser construído na ilha de edição, deixando claro que minha satisfação supracitada vem de um lugar onde eu ainda nem sei se vamos ter algum material digno de um público criterioso de frente com uma tela grande. Portanto, o que me resta é acreditar nos meus sonhos. Nos sonhos de fazer cinema, nos sonhos que me escapam em noites quentes, nos sonhos que transformamos em filmes e nos sonhos que alcançam tempos e lugares muito além de nós mesmos. Até porque, após os créditos finais, há apenas escuridão novamente.

Fotos de Isa Angioletto

BIANCA SILVÉRIO COMO LUCÍLIA

Foto de Isa Angioletto

Pedro Nascimento

Cineasta maringaense, formado em Comunicação e Multimeios pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e roteirista pela Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Ele é o fundador da produtora de cinema independente Chinelo à Milanesa.

UEM “Ainda estou aqui”,

por Aline Rodrigues

A proposta é a seguinte: vou escrever a redação proposta pela Universidade Estadual de Maringá no vestibular de verão de 2025.

Neste ano, o audiovisual brasileiro ganhou o mundo. Brilhamos! “Ainda estou aqui”, obrigada!

Fui ao Google e contei: foram 23 prêmios. Dentre eles, o mais glamourizado, “Oscar de Melhor Filme Internacional”. E, não adianta, por mais que não queiramos ser colonizados e que torçamos o nariz para esse evento nada autêntico, nada justo e, há muito tempo, muito brega, ficamos todos torcendo pela nossa diva Fernanda Torres e por esse filme que conta uma parte triste da nossa história de maneira tão forte e delicada.

Valeu a pena torcer! Aquele climinha de Copa do Mundo, todo mundo falando de cinema, filmes, cultura… Nós, amantes irremediáveis de cultura, tivemos um ano marcante nesse quesito. E, por isso, achei essa proposta de redação do vestibular da UEM espetacular e completamente coerente com 2025.

Os alunos deveriam escrever uma resposta argumentativa sobre o tema: A cultura no Brasil só é valorizada quando ganha destaque no exterior?

Eis a minha versão:

Enquanto colaboradora de uma revista online voltada para assuntos envolvendo mídias digitais, e convidada a discutir acerca do papel da cultura nacional, escrevo ao público dessa revista com o objetivo de refletir sobre esse tema. Assim, na minha opinião, a cultura no Brasil só é valorizada quando ganha destaque no exterior, haja vista a imposição de culturas estrangeiras à sociedade brasileira e a escassez de incentivo à participação cultural.

Nesse sentido, ao meu ver, logo que o imperialismo cultural se impõe, temos um obstáculo que nos impede de valorizar nossa cultura. A Escola de Frankfurt analisa a transformação da arte em produto e manipulação. Nesse cenário, quem tem mais capital apropria-se da cultura para torná-la instrumento de manobra da massa, no intuito de aumentar ainda mais o lucro. Dessa forma, fica evidente que produções americanas ganham maior destaque, mesmo em solo brasileiro, e exemplo disso são as salas de filmes da Marvel lotadas, enquanto os nacionais só são prestigiados quando ganham prêmios internacionais — “Ainda estou aqui” e “Central do Brasil” são provas disso. Assim, a massa torna-se manipulada e o lucro hollywoodiano aumenta, enquanto a arte nacional sobrevive.

Além disso, o fato de nós, brasileiros, só darmos valor à arte nacional se esta ganha alguma notoriedade de outros países se deve à falta de recursos ao que é produzido aqui. Isso acontece na medida em que há pouco incentivo do governo e da própria indústria cultural para que a população vá ao teatro, ao cinema e aos museus prestigiar o que é nacional. Se, por um lado, temos poucos investimentos em nossas produções — e, ao pensar no contexto completamente oposto que é o de Hollywood, isso fica bem evidente —, por outro, os administradores públicos não cuidam do que já temos, a exemplo: o incêndio do Museu Nacional do Brasil em 2018, que se deu devido à falta de manutenção. Logo, a população reproduz esse mesmo despropósito para com a própria arte e a valoriza somente se houver validação exterior. Portanto, reitero que, para mim, infelizmente, nossa cultura só ganha destaque nacional quando reconhecida no exterior. Logo, incentivo governamental e indústria cultural nacional fortalecida são saídas para esse cenário.

Não sou vestibulanda. Sou professora de redação, e esse texto também foi um exercício de me colocar no lugar dos meus alunos.

A universidade pública tem o dever de nos fazer pensar sobre nossas posturas, e essa pergunta proposta pela UEM não coloca apenas vestibulandos a refletir, mas nós mesmos, que nos proclamamos amantes da cultura, porém não nos dispomos a prestigiar espetáculos, peças, apresentações, produções maringaenses e voltamos nossos olhinhos para Curitiba, São Paulo… (Falei e saí correndo.)

Enfim, viva a cultura, viva a educação e viva a universidade pública!!!!!

Aline Rodrigues

Doutora em letras, atua como professora particular de redação com o Método Raposa.

A jornada de Higor Kuroi BIOTECH

PERFORMER

HIGOR KUROI

FOTOGRAFIA, CAPTAÇÃO E EDIÇÃO LUARA FAGUNDES TRILHA SONORA CHÁ DI LIRIAN

Atualmente, vivemos em uma sociedade que nos exige expansão, movimento e a busca incessante pelo novo. Mas para onde voltamos quando o “fora” gera sensação de excesso? Em sua mais nova performance, BIOTECH, o artista maringaense Higor Kuroi investiga a arquitetura do autoacolhimento e a necessidade vital de construir redes de afeto.

Utilizando um casulo de cipó tecido à mão por ele mesmo, o performer transforma um elemento orgânico em uma poderosa metáfora de proteção. Para Higor, o autocuidado não é apenas um conceito abstrato, mas uma estratégia tecnológica de convivência. Ao retornar para o ninho, ele nos lembra que a verdadeira inovação humana pode estar em nossa capacidade ancestral de criar abrigo.

O casulo de cipó não é apenas uma escultura, mas um dispositivo biotecnológico de proteção. Nele, a “estratégia de convivência” se materializa, sugerindo que o autocuidado e a construção de redes de apoio são as ferramentas raras que desenvolvemos para navegar o caos do mundo externo.

Com exclusividade para esta edição da MAG, mergulhamos nessa obra audiovisual e em uma conversa com Kuroi e com a artista Luara Fagundes, responsável pela captação audiovisual e fotografia desse projeto.

Em que momento da sua vida você se deu conta da importância do autocuidado e do retorno ao espaço seguro?

Felizmente, consegui construir uma rede de amigos próximos muito sólida, em que o cuidado mútuo sempre esteve presente. Acredito que, a partir daí, comecei a sentir vontade de retornar para esse cuidado e carinho, compreendendo, consequentemente, a importância que isso passou a ter na minha vida e como facilitava e contribuía com outros aspectos internos.

Já tive problemas com uso abusivo de drogas no passado, e foi justamente nesse momento que tive a certeza de que os espaços seguros que criamos e cultivamos ao longo da vida precisam estar sempre em manutenção, para que permaneçam vivos e consigam nos amparar até mesmo quando menos esperamos.

O casulo é uma estrutura de transformação. Como foi o processo de trabalhar com o cipó, um material tão rígido e, ao mesmo tempo, maleável? E o que a construção manual desse “ninho” ensinou a você sobre paciência e estrutura?

Falar sobre o significado do casulo chega a ser engraçado, porque metaforicamente ele representa o cuidado, mas fisicamente ele me machuca muito. Sempre saio com vários hematomas após a ação da performance (risos). Mas, brincadeiras à parte, a conexão em cena com o casulo acontece muito devido à pré-preparação, que foi a construção dele. Esse casulo que uso para a captação desse material audiovisual não é o primeiro que construo. Antes dele, eu já havia construído outro com a ajuda essencial de uma amiga próxima — um beijo pra Isadora, inclusive — e desde lá entendo que a principal prova de paciência foi a questão de encontrar os cipós ideais para esse trabalho, porque não podiam ser finos o bastante para não dar estrutura e não podiam ser grossos o bastante a ponto de não serem maleáveis. E, partindo disso, acho que esta é a maior lição: não basta ter se não for funcionar (risos). Encontrar, e na quantidade necessária, e depois fazer a coleta foi um perrengue de que poucos têm noção, mas valeu a pena.

Sou bastante feliz com o resultado e espero que o público possa sentir a intensidade dele.

Na sua opinião, quais são os principais desafios de trabalhar com performance artística em Maringá? Olha, acredito que a gente ainda não tenha um público formado para essa linguagem artística, diferente, por exemplo, da dança, música etc. Não é que não exista interesse, mas acredito que falta articulação para que possamos diminuir a baixa recorrência de eventos e projetos destinados a essa categoria.

Como foi o processo de colaboração entre você e Higor?

Luara: Quando Higor me chamou para fazer essa captação, me senti lisonjeada! Admiro muito o trabalho dele, então foi uma honra poder gravá-lo. Eu já conhecia essa performance e tentei ao máximo não interferir; meu papel foi praticamente o de observar e tentar trazer em imagens a movimentação dele com o mínimo de interferência possível.

O que vocês esperam que o público sinta ou questione ao ter contato com o registro audiovisual dessa performance?

Higor: Que consigam, a partir do material assistido, refletir sobre quem são [as pessoas que compõem] sua zona de conforto e onde está seu espaço seguro.

Luara: Eu espero que as pessoas se sintam sensibilizadas.

“FELIZMENTE, CONSEGUI CONSTRUIR UMA REDE DE AMIGOS PRÓXIMOS MUITO SÓLIDA, EM QUE O CUIDADO MÚTUO

SEMPRE ESTEVE PRESENTE.”

“Agora sei: apenas o amor nos rouba do tempo”. Mia

Porque Deus me criou e agora eu gosto de dançar

por Beatriz Protazio

A verdade é que ele me convidou para dançar e eu disse sim. Então, delicadamente, passou uma das mãos pela minha cintura, estendeu o braço, sorriu para mim um sorriso de fazer inveja às estrelas, me encostou ao seu corpo e fizemos um baile na sala de estar. Um jazz manouche particular. Só quem já provou um amor assim sabe que gosto tem. Naquela noite fria, no sul do sul do mundo, naquele apartamento no coração da cidade, naquela cozinha até então desconhecida para mim, investi todo o afeto que eu tinha, cortando cebola, dentes de alho, cenoura, tomates e pães, para preparar um capeletti in brodo. Abrimos o vinho, ele acendeu o cigarro, conversamos, rimos, ele leu um trecho de alguma coisa francesa, a paixão da última hora. Não sei quantas pessoas vivem um amor assim, mas eu tive sorte. E ele também. Outro dia ouvi alguém dizer que existem amores que não são para ficar conosco para sempre (pergunta: e algum é?), que eles cumprem um papel em nossa jornada, que vêm para nos ensinar algo sobre nós mesmos e sobre a forma como nos relacionamos com o outro. Tem coisas

que não importa se a gente acredita ou não, elas são. Tenho para mim, o amor é. Confie.

Enquanto ele estudava na manhã seguinte, eu lia o seu Escritos, só de brincadeira. Agora, olho para a minha cópia e penso em quanta alegria existe em compartilhar um sonho com alguém.

Todos os amores, veja bem, os grandes amores, os amores que abalam coisas dentro de nós, que nos ajudam a construir coisas novas, penso em como esses amores são importantes, mesmo que não permaneçam conosco pela eternidade, mesmo que nos venham encontrar somente de 12 em 12 anos para nos dizer que estão perdidamente apaixonados.

Aqui um parêntesis para dizer a você que me lê: tenho a forte impressão de que o amor não acredita em linha reta, em sentido de progresso. Ele faz ondinhas em nós, alguns chamam de arrepio, outros de borboletas no estômago. Sentiu aí? Se você não sentir; inútil eu tentar explicar…

Acho que não há como explicar também quando um amor acaba. A gente cruza a linha de chegada sem saber, como sem saber estava na partida. E procura explicação quando quer evitar sofrer. E se doer, não é sinal de que está vivo? Assim que entrei na plataforma, sabia que não voltaríamos mais a dançar. Então chorei umas 6 horas sem parar. Desabando. Talvez me lembre das horas porque fora do amor voltamos ao tempo do ordinário. Logo logo assim que puder…, mandei pra ele aquela do Jorge.

Essa história eu conto a pretexto de dizer a você que tem mais graça a vida quando a gente ama alguém. Então vou contar de mim mais um pouquinho e você pense aí nos seus chamegos. Aliás, chamego, palavra gostosa até de falar. Bom mesmo é ser brasileiro, usar e fazer chamego, dengo, cafuné.

E eu gosto de sorrir à toa no meio do dia quando aquela lembrança gostosa de amor me assalta os pensamentos e me leva longe, longe, longe… e, às vezes, tão pertinho, que dá até pra sentir o cheiro da pessoa… um cangote, outra palavra nossa, hm… coisa boa é um cangote pra gente se

encostar, sentir o coração do outro bater, ser consumido por aquele cheirinho da pessoa, da nossa pessoa…

Também tem uma que já se tornou clássica, ah!, o nosso tempo presente, que é abrir a mensagem de voz repetidas vezes só pra ouvir como a voz da pessoa vez-emquando modula pra cá ou prali numas partes da conversa. Eu, que vivo com pé atrás com tanta tecnologia metendo o bedelho na nossa vida, tenho de dar o braço a torcer pra essa aqui.

E gosto de saber dos mínimos detalhes do dia de quem eu amo, mas não sempre, porque acho que o amor há de ser se se conservar algum mistério. A pessoa lá, vivendo a vida dela, fazendo as coisinhas dela, vivendo vivendinho gostosamente; e a gente cá, com as nossas. Então, o encontro delicioso dos mundos.

Em outras tantas vezes, abro o bloco de notas pra escrever uns versos que jamais publicarei apenas para treinar a inscrição do desejo em algo concreto. Como se fosse inevitável, me contamino com o Universo que o outro encerra em si, pra aprender a pessoa, não a coisa, porque navegar em outras águas, no desconhecido, é uma forma de ter prazer. Só assim é que quem ama vive: quando habita terras distantes do eu. E como é bom ser estrangeiro num país que acolhe a gente! Sensação de casa fora de casa.

Outro dia, entre-tempos, trocamos olhares, sorrisos, estabelecemos toda uma conversa que só a gente é que podia, meio sem entender nada, entender tudo perfeitamente. Assim é o amor: caprichoso. Colei minhas retinas em você, mas, pra ver o que sinto, basta fechar os olhos. O mistério do fundo do olho, canção de Lula Queiroga. Foi assim que aprendi a contar que começou uma nova dança… e eu sou flor de vento que circula ao redor do seu corpo até o encantamento. Se você deixar…, como diz aquela canção. Só não convidei você a ver as estrelas, porque você brilha mais do que o sol. Talvez o gesto mais gostoso de carinho que trocamos foi quando existimos juntos. Uma dança lentinha. Nariz com nariz, boca com boca, os batimentos cardíacos e a respiração entrando no mesmo compasso. Não sei se me dei conta da trilha sonora, intuo que você sim. E ali juntos, presença pura, vivemos. Já não saberia dizer se segundos, minutos, horas. Na verdade, isso importa quase um nada: “apenas o amor nos rouba do tempo”.

Será que alguém vem em meu socorro dizer que sim, é verdade, se eu disser que uma das coisas mais raras e maravilhosas e fascinantes e deliciosas do mundo é a gente morar confortável no silêncio a dois? Que acha você disso? Sem trocar uma palavra… Dois cometas em rota de colisão, criando um mundo novo. Uma constelação a dançar. E amar também se faz assim: uma dança de dedos pelo corpo. Subir e descer ladeiras. Malemolência é outra palavrinha nossa que olha! E, por falar em língua, em par também criamos o nosso idioma e até inventamos glossário. Algumas palavras significam pra nós o que não significarão jamais para os outros. Como é bom ter um segredo assim com alguém! E esse dialeto também cria um estado em que habitar. Espero de todo o coração que você que me lê tenha habitado, ou habite um lugar assim. Depois me conta?

E sim, posso pular primeiro; e se espero? Espero que você faça como eles, “You Jump, I Jump, Jack”, porque “I’d be crazy not to follow / Follow where you lead” … Quem sabe se lá de baixo do fundo do abismo… eu acene e você venha me levar pelo braço para me embalar em outras canções.

E por falar em esperar… A esperança, li esses dias, não admite contrato, ela precisa da palavra do outro e de confiança para haver futuro. E que assim seja. Então, vamos combinar, que, se a gente se encontrar no meio da pista e, por acaso, dançar juntinho, na volta pra casa, já amanhecerá… e quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar, para passar o café enquanto eu faço ovos mexidos e torradas. Coreografia a dois para amanhecer.

Ei, você aí atrás da página, olhos colados nas letrinhas… Perde tempo não! É quase carnaval, ou quase páscoa, sei lá, arranja uma desculpa qualquer, convida também alguém pra formar um par. Na dança, no corpo, a gente resolve. E, se não resolver, pelo menos, dança. E dançar é tão bom… Depois me diz?!

Professora e pesquisadora da Literatura. Brinco com as palavras de vez-em-quando.

SOBRE A

INSTITUCIONALIZAÇÃO

DA ARTE E DA CULTURA

por André L. Rosa

Cara pessoa leitora,

O título pode parecer rebuscado demais, mas o papo é reto e direto sobre direitos e iniciativas para garantir que a arte e a cultura sejam asseguradas a todas as pessoas, com a diversidade que o tema exige e nos convoca. Se você ficar comigo mais alguns parágrafos, prometo: estamos falando da sua vida — daquilo que você faz sem nem perceber que já é arte, já é cultura, já é política.

Se me permitir, gostaria de fazer um recorte, pois o tema é espinhoso e, quando falamos em políticas públicas para cultura, uma das primeiras questões levantadas, sobretudo pelos setores conservadores e reacionários, se dá na importância e relevância da arte e da cultura para o cotidiano das pessoas e dos territórios; e no orçamento e recursos destinados para essa área.

Ora, você já parou para pensar por que arte e cultura são tão fundamentais para a vida de qualquer pessoa? Você já pensou, por um instante, na quantidade de ações culturais e artísticas que acessamos a todo o momento? Pare agora! Pense no dia de ontem: o que você fez ou acessou que poderia indicar alguma interação com esse tema?

Você colocou um fone de ouvido e deixou tocar aquela música que te emociona? Parou alguns minutos diante de um vídeo, um filme, um episódio da sua série favorita? Escolheu com cuidado a roupa que vestiria — não só pelo clima, mas porque queria “dizer algo” com ela? Reparou nos grafites da Vila Olímpica (pelo menos os que restaram e ainda não foram apagados)? Cruzou com uma feira de rua e viu diversas barraquinhas do que popularmente chamamos de artesanato? Atravessou ruas e se deparou com uma pessoa indígena vendendo suas cestarias? Talvez tenha visto alguém dançando, improvisando, ocupando um espaço qualquer com presença e gesto.

Percebe? A arte e a cultura não estão “lá longe”. Elas estão grudadas no seu cotidiano, respirando com você. E então por que, mesmo

assim, tanta gente diz: “Eu não tenho contato com arte.”? Essa afirmação é menos ingênua do que parece.

A arte e a cultura estão nos nossos cotidianos, e por que não as reconhecemos?

Não reconhecemos a maioria das coisas citadas e muitas outras tantas com que nos deparamos em nosso cotidiano, porque, no Brasil, e isso se dá na história de constituição deste país, a arte sempre foi designada como esfera de privilégio de um grupo social, uma elite dominante, seja intelectual e/ou econômica. A todo o instante, sempre nos foi dito, e isso é reafirmado em pílulas diárias, que a verdadeira arte é aquela promovida e realizada, ou melhor, financiada, por uma determinada camada social, e tudo o mais passa a ser considerado mera cópia malfeita, ou algum arremedo do que seria considerado verdadeira arte e cultura, como é vista ainda, em muitas ocasiões, a famigerada divisão entre cultura erudita e cultura popular. Retóricas e poder!

Arte e cultura são lugares de poder! Não vamos nos esquecer disso, jamais!

Se nos é informado que não existe território sem culturas, não existe povo sem culturas, não existe país sem culturas, não existe memória sem culturas. A grande sacada da elite dominante sempre foi deslocar e deslegitimar os lugares de pertencimento e identidade de muitas culturas e manifestações artísticas que constituem nossos territórios e nossos corpos, fazendo-nos acreditar que uma gama imensa de práticas artísticas não poderia ser reconhecida como arte.

Mas, cara pessoa leitora que ainda está comigo nessas urgentes divagações, você poderia me dizer: “Isto é coisa do passado. Veja os editais, fomentos, como temos tido acesso às artes para todas as pessoas”. E eu, humildemente, devolveria: “Será?”.

Na educação, por exemplo, reconhecemos como linguagens artísticas oficiais, pelas legislações vigentes para o ensino da arte, apenas as artes visuais, o teatro, a dança e a

música. É claro que houve um avanço imenso na inserção dessas linguagens no cotidiano escolar e no ciclo de formação das pessoas. Mas e as outras manifestações culturais?

Nos editais e fomentos, temos uma hierarquia de valorização de determinadas linguagens em detrimento de outras, e tem aquelas que nem se configuram nos editais e muito menos são fomentadas pelo poder público. Se grande parte das políticas públicas não asseguram acessibilidade à diversidade cultural presente nos diferentes territórios que constroem este país, imagine o que acontece com as pessoas artistas dessas artes todas, seus corpos, ideais, desejos e trajetórias? Onde estão? Como estão?

E, quando o discurso de Estado mínimo é posto em jogo pelo neoliberalismo e ondas reacionárias, um dos primeiros setores a sofrer cortes é a cultura. Porque não se entende — ou melhor, não há interesse — que a cultura esteja na mesma urgência do saneamento básico, da moradia, da segurança alimentar. A cultura, aquela mantida ideologicamente pelas elites dominantes, é supérflua e entretém num deleite proposital. Assim, a classe operária, as pessoas marginalizadas, não teria por direito, em tempo e espaço, acesso às artes e culturas, muito menos àquelas que produziram, inclusive, suas próprias existências e identidades, na medida em que as negociações socioculturais não as reconhecem no dia a dia dessas mesmas pessoas; se não há nem comida na mesa e sapato para usar, quiçá, arte!

Nessa engrenagem de imagens e atos muito bem delineados e requintados de usurpação do direito à arte e à cultura e, sobretudo, das pessoas se reconhecerem como produtoras de arte e cultura, a maioria das pessoas passa uma vida supondo que não tem condições de acessar a chamada “verdadeira arte”, porque aquilo que fazem e produzem em seus cotidianos não se configuraria como tal. Ou pior: não se veem interagindo com lugares reconhecidos como culturais. “Nunca entrei num teatro.” Frase mais que corriqueira, e nessa simples afirmação cabe a nossa historicidade com a

arte e suas manifestações. Isso se configura um desmonte diário, uma expropriação das nossas identidades, do nosso lugar de pertencimento no território que ocupamos e nas relações que estabelecemos.

E, se os recursos são escassos e o Estado mínimo legitima seu poder numa retórica de escassez de condições para garantir tais acessos e amplificações da arte e da cultura em nossas vidas, um gesto simples ocorre: o bastão do poder de manter ações culturais é passado totalmente para iniciativas não públicas, que, por sua vez, mantêm apoio para algumas expressões artísticas, porque sabem do poder da cultura nas pessoas e nos territórios, mas também compreendem a seletividade do que lhes convém. Logo, o sistema cultural neoliberal transforma ruptura em produto, dissidência em tendência, performance em entretenimento. Aquilo que nasceu como gesto insurgente pode ser domesticado.

E a roda gira e gira no mesmo lugar. Como escapo dessa areia movediça?

Não existe resposta simples. Mas talvez existam pistas.

A primeira é reconhecer: você já está dentro da cultura. Você já produz sentido, estética, mundo.

A segunda é desconfiar das hierarquias prontas. Perguntar sempre: quem decidiu isso? Quem fica de fora dessa definição? Quais corpos e subjetividades são permitidos e são representados pelos artefatos artísticos?

A terceira é defender — com a mesma urgência com que defendemos comida, moradia, saúde — o direito à cultura. Não como luxo, mas como condição de existência.

E a última, talvez a mais importante: criar rachaduras. Frequentar, apoiar, produzir, compartilhar, tensionar. Ocupando espaços institucionais, sim — mas também inventando outros.

E, nesse sentido, gostaria de compartilhar com você, pessoa leitora que se manteve

comigo até aqui, algumas iniciativas de institucionalização da arte e da cultura na Universidade Estadual de Maringá (UEM), fomentadas pela Diretoria de Cultura (DCU). Quando menciono as iniciativas da UEM por meio de sua DCU — um setor que, há mais de 40 anos, resiste, insiste e reinventa suas práticas —, estou apontando para uma história de disputas, negociações e afirmações políticas sobre o lugar da arte no interior de uma instituição historicamente tensionada, também, por lógicas produtivistas.

Se, por um lado, o pensamento neoliberal tenta reduzir todas as dimensões da vida ao valor de troca — aquilo que é útil porque gera lucro, desempenho mensurável ou retorno imediato —, a arte tensiona esse paradigma ao afirmar outras formas de valor: o simbólico, o sensível, o coletivo, o dissenso. A arte é necessária porque produz mundo, produz linguagem, produz modos de existência. É nessa perspectiva que iniciativas como o selo Ocupa UEM: Arte e Cultura não são apenas projetos de programação cultural, mas dispositivos institucionais que afirmam a arte como direito e como política pública dentro da Universidade.

Ocupar, aqui, não é apenas preencher um espaço físico com atividades. Ocupar é disputar sentidos sobre quem pode estar, circular e produzir naquele território. A Universidade pública ainda carrega marcas profundas de exclusão simbólica. Por isso, ao convocar docentes, discentes, agentes universitários e a comunidade externa — em toda a sua diversidade de corpos, histórias e pertencimentos —, a política cultural assume um papel de mediação: não apenas oferta atividades, mas cria condições de reconhecimento e pertencimento.

É nesse ponto que proponho deslocar o tradicional tripé universitário — ensino, pesquisa e extensão — para uma compreensão ampliada: ensino, pesquisa, extensão e cultura. E não como um quarto elemento isolado, mas como aquilo que atravessa e articula os demais. A cultura é a dimensão que dá sentido às práticas educativas, que

orienta as perguntas da pesquisa e que sustenta o diálogo da extensão com as pessoas e os territórios. Formar profissionais sem compreender os contextos culturais em que atuarão é formar tecnicamente, mas não eticamente; produzir conhecimento descolado da cultura é produzir inovação sem enraizamento; realizar extensão sem escuta cultural é reproduzir assimetrias.

Há uns parágrafos, falei sobre o reconhecimento da arte e da cultura no nosso cotidiano. Não se engane e não se iluda: esse reconhecimento ainda está longe de ser consenso. A arte e a cultura seguem, muitas vezes, relegadas a um lugar secundário dentro das Universidades. A luta, portanto, é cotidiana e estrutural: luta por orçamento, por espaço físico, por políticas continuadas, por reconhecimento acadêmico e institucional. Nesse cenário, o movimento recente do Ministério da Educação em direção à construção de uma Política Nacional de Educação Superior que inclua a arte e a cultura como dimensões estratégicas é um sinal importante — ainda que dependa, evidentemente, de continuidade, participação social e compromisso político para se efetivar.

Como disse anteriormente, é significativo que uma Universidade com uma DCU consolidada há décadas avance hoje para políticas mais amplas de ocupação e circulação, porque compreendemos que os espaços da Universidade são públicos e devem estar escancarados para ações artísticas e culturais múltiplas que façam as pessoas se reconhecerem como pertencentes ao espaço acadêmico e universitário. Recentemente, passei por uma situação que, num primeiro momento, poderia ser corriqueira, mas revela muito das dinâmicas socioculturais.

Numa ocasião, uma senhora me perguntou onde ficava determinado setor da UEM, e eu expliquei o percurso mostrando um atalho pelo câmpus para chegar a tal destino; quando ela me questiona: “Mas posso ir por aqui?”. Essa pergunta tem camadas tão profundas, as mesmas que fazem muitas pessoas não se sentirem confortáveis e convidadas a adentrar um teatro, uma casa de show, visitar

um museu. Nessa pergunta está a resposta sobre a formação histórica do Brasil e as colonialidades que ainda operam nos nossos dias e nossos corpos: quando os marcadores sociais de raça, gênero, sexualidade, classe social, deficiência, faixa etária e tantos outros são acionados e não deixam determinados corpos, subjetividades e vidas ocuparem os espaços de poder, os espaços públicos com plenitude, sem medo ou receio de serem expulsos ou retirados, ou simplesmente sofrerem aquele olhar desconfiado e de reprovação que interpela tantas existências.

A política cultural, nesse contexto, tem uma função radical: desnaturalizar essas barreiras, produzir coletividade e afirmar, na prática, que o espaço público é, de fato, público. Temos ocupado a Universidade com muita arte, mesmo à revelia de muitas críticas. Quando se abre o câmpus para festivais, mostras, circuitos e ações continuadas — como a retomada da Semana de Artes, a criação do Gira Cultura, o Intercult: Programa de Intercâmbios Culturais, o RU das Artes, o Arraiá da UEM, a Calourada Cultural, o aumento do incentivo à pesquisa e extensão em arte e cultura com bolsas de estudos e ampliação dos grupos e fóruns temáticos, a realização da 1ª Conferência de Cultura da UEM e a aprovação de seu Plano de Cultura, entre tantas outras iniciativas —, o que está em jogo não é apenas programação, mas a produção de vínculos entre Universidade e sociedade.

Não posso deixar de citar os equipamentos culturais, imprescindíveis à Universidade e à cidade de Maringá e região: o Teatro Universitário de Maringá, o primeiro teatro de Maringá, que, em 2027, completa quarenta anos de existência; a Sala Cine UEM, uma conquista recente com uma programação extensa e cuidadosamente pensada para o acesso amplo às produções audiovisuais; o Museu da Bacia do Paraná, tendo a primeira casa do gerente da Companhia de Melhoramentos do Norte do Paraná situada em pleno câmpus sede; a Galeria de Artes da BCE e a Galeria Colchetes, espaços expositivos que recebem mostras nacionais e internacionais;

e os Laboratórios Artísticos da PEC que, desde antes da criação da DCU, promovem arte e cultura para toda a comunidade.

Por fim, quando falamos em institucionalização, não estamos falando apenas de criar eventos ou ocupar agendas, mas de consolidar sistemas: políticas de financiamento, editais permanentes, bolsas, infraestrutura, formação de redes, reconhecimento de trajetórias. É isso que permite que a arte e a cultura deixem de depender exclusivamente de gestões pontuais e passem a constituir um campo estruturado dentro da Universidade.

E talvez seja justamente aí que reside a virada que pode nos mover da areia movediça: quando a arte e a cultura deixam de ser vistas como exceção e passam a ser compreendidas como parte constitutiva da vida cotidiana, abre-se a possibilidade de um outro modelo de desenvolvimento — mais sensível, mais inclusivo e também mais sustentável. Um modelo em que a economia criativa não é apenas um setor, mas um desdobramento de políticas culturais consistentes; em que a Universidade — como um dos setores da sociedade — não apenas forma profissionais, mas informa pessoas capazes de imaginar e construir outros mundos possíveis.

Artista e pesquisador das Artes da Cena e das Imagens em Movimento. É docente na Licenciatura em Teatro da Universidade Estadual de Maringá. Doutor em Estudos Artísticos – Estudos Teatrais e Performativos ¬– pela Universidade de Coimbra/ Portugal. Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Licenciado em Educação Artística com Habilitação Plena em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).

A LITERATURA É UMA CHAVE DE ANÁLISE

PARA ENTENDERMOS A REALIDADE

EM QUE VIVEMOS

Literatura — um caminho possível para o diálogo

Em 2018, eu estava em aula na disciplina sobre a Lei nº 10.639/2003, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino de “História da África, cultura africana e suas epistemologias” no currículo escolar (era graduanda em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá). O comando legislativo e sua materialização foram fruto de uma luta intensa travada pelos movimentos negros para que a diversidade que compõe a sociedade brasileira fosse respeitada. Eu apresentava um trabalho e escolhi levar para o diálogo o livro A mulher de pés descalços, da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga.

Trata-se de um livro seminal e disruptivo; uma autoficção em diálogo com uma autobiografia. A história narrada por Mukasonga é sobre memória e preservação: uma luta para não apagar a história de seu povo e de sua mãe, configurando um combate direto ao colonialismo. O livro traz relatos íntimos que revelam como era Ruanda antes da colonização, durante a invasão e no pós-independência. Apesar de narrar um período difícil, a obra transborda beleza, força e resistência. Como aponta a teórica afro-americana do campo das artes, Saidiya Hartman, para os corpos que historicamente foram defenestrados da história e deslocados do status de humanidade, é preciso fabular não como forma de inventar, mas de resgatar a memória. Combater a narrativa única é um caminho para a alteridade, como nos orienta Chimamanda Ngozi Adichie.

Quando apresentei a história de Stefania, Scholastique e Ruanda, ouvi do meu professor, Walter Praxedes: “Excelente escolha, Sara. Não há nada mais fidedigno do que a literatura para conhecermos uma sociedade; ninguém entra de forma mais íntima na casa das pessoas do que um escritor ou escritora. Quer conhecer a França do século XIX? Leia Madame Bovary, leia Flaubert”. Esse diálogo com meu querido professor nunca mais saiu da minha cabeça. Passei a prestar mais atenção às minhas leituras, praticando uma escuta ativa do que elas diziam. Aprendi a olhar, a escutar, a dialogar e a elaborar o mundo a partir dessas leituras qualificadas. A fala de meu querido professor faz todo sentido. Pude observar de perto no livro Cartas a uma negra, de Françoise Ega, livro epistolar em que a autora conta à Carolina Maria de Jesus como a sociedade francesa das décadas de 60 e 70 trata de forma abjeta os corpos negros, sobretudo mulheres negras. É Françoise Ega, por exemplo, que funda o sindicato das trabalhadoras domésticas na França, lutando contra o tratamento indigno que recebia nas casas em que fazia faxinas.

A literatura tem esse poder de mobilização. Isso posto, quero deixar ao nobre leitor desta coluna oito dicas de leitura (uma delas já pontuada no início deste texto). Faço isso seguindo a Orí-entação de Conceição Evaristo, a qual nos exorta no seguinte sentido: “É preciso política de citação para combater política de apagamento”. Tatuei essa frase nas minhas costas para nunca esquecer. Enfim, segue a lista:

A mulher de pés descalços (Scholastique Mukasonga)

Venha conhecer Stefania pela íris de sua filha, a própria autora. Coloque os pés no chão e vá de coração aberto ao encontro de Ruanda.

Voladoras (Mónica Ojeda)

Entrando na América Latina, mais precisamente no Equador, convido-o a ler com calma esses contos-denúncia na luta pela vida das mulheres. É desconfortável, mas necessário para nos mobilizar em direção à mudança. Preste atenção no conto “Cabeça voadora”; que a revolta seja a mola para nos ejetar dos lugares marcados socialmente com fixidez.

Uma história feita por mãos negras (Beatriz Nascimento)

Uma das maiores vozes que pensou e pensa o Brasil. Não há como pensar a dignidade da pessoa humana na contemporaneidade sem passar pelas águas atlânticas e pela Orí-potência de Beatriz. Venha se aquilombar.

Por

um feminismo afro-latino-americano

(Beatriz Nascimento)

Nesta obra seminal, Lélia nos convoca a descentralizar o olhar, descolar-se do norte global e mirar-se no sul global. Afinal, nós também pensamos e elaboramos o mundo. Ela nos convida a tomar consciência de que somos um povo com história e nos chama a construir um mundo mais justo para as mulheres, sobretudo as racializadas, que foram alijadas do processo de humanidade.

“É fragrante fôjado dôtor vossa excelência” (Carla Akotirene)

De forma arrojada e com uma escrita fina, a autora apresenta a primeira tese no Brasil sobre audiências de custódia. A obra é uma fenomenal etnografia em diálogo com a antropologia clássica, mas deixando em cada linha epistemologias afrocentradas. A autora faz um giro epistemológico e insere na gramática discursiva saberes fora do eixo europeu.

Educando crianças antirracistas (Bárbara Carine)

Uma das jovens intelectuais brasileiras com pesquisa nos campos da química, filosofia e educação, Bárbara traz, neste brilhante trabalho, pedagogias antirracistas valiosas para que educandos e educadores lutem por um mundo mais diverso, plural e equânime.

Coração sem medo (Itamar Vieira Junior)

Livro que fecha a Trilogia do chão. Rita Preta, uma mãe solo, trabalhadora e cuidadora, nos mobiliza com sua dor e garra. Ela nos mostra que, apesar do peso da vida, o amor, o afeto e a esperança são ferramentas possíveis para mudanças reais.

O sol na boca do estômago (Jef Garcia)

Livro que é um canto de amor à liberdade, ao amor e à vida. A poesia pode ser uma pedra jogada na vidraça deixando cacos pelo caminho, no qual temos que redobrar o cuidado para andar. Essa mesma pedra pode servir de alicerce, dar base firme, ser suporte para uma flor. Esse segundo ponto é o que Garcia nos mostra, deixo um pedacinho do poema da página 4: “comprei teu café favorito, te vi em Guimarães Rosa, Diadorim.” Se eu puder lhe dar um conselho, meu caro, minha cara, leia Jef, sem moderação.

Sara Araújo

Formada em Direito, cientista social, mestranda em Ciências Sociais, especialista em História da África e da Diáspora Atlântica, escritora, palestrante e sommelière de cervejas.

dissidente caos

escrevo para me dizer aqui

os traços se alternam, as faces se transmutam não sei sua verdade, tampouco sei a minha em realidade vejo sua desimportância

perdida nos detalhes sequestrados pelo peso da noite os furos talvez contem a história completa

tulsa jesus freak

o azul de minhas unhas, pedaços daquele céu que consecutivamente nos negam, te desenham o caminho de volta a nós. compre uma bebida para dois e diga amém, enquanto crianças correm em um clima de comunhão numa ignorância quase angelical que tanto, por tanto, partilhamos. mesmo sabendonos no escuro de nossas alegrias, nós, que também nos sabemos pequenos erros, frutos de uma noite escusa, vítimas de nossos pais que, ao mesmo tempo, estavam suficientemente rijos & suficientemente férteis, em algo como um encontro cataclísmico, ou apenas um equívoco vulgar a se perder na sucessão dos dias. seguimos à guisa de caminho, indo além, em busca de paraísos caídos e demais contextos bíblicos, para a fúria de nossas pragas, para além de todo ódio, sem saber o que será de nós ao final do sétimo dia, mas ansiando de corpo e lágrima o esvaziar desse medo.

the blackest day

entrego meu corpo à sua cama, mas poderia ser a toda e qualquer queda, tudo soa errado nessa escuridão, sua voz rouca cantando melodias das músicas que sequer decoramos. eu peço mais, você repete, suplantando as vozes do rádio, cada vez mais grave, cada vez mais triste. meus pensamentos me levam para longe. você percebe, mas receia minha derrocada. é quase doce. sou quase só.

seguiramandovocê é

como habitar umaáreade exclusã o cient e d e t o d o s so soicífelam ad

alep azeleb euq a dacotniazerutan a tneer ag oa s o l h o s.

os minutos se inflamam conforme as músicas vão se adensando no acumular das horas. no incontornável registro da minha brevidade, vou perdendo o prumo e a sobriedade em um esquecimento lento, depois de ser alcançado pelo cansaço de emular a felicidade que desejava destinada a mim, e colidir na implacabilidade da indiferença. a meia-luz escurece meu entendimento, no momento em que esmaeço, rememorando os erros que talvez tenham me trazido até aqui, puxando mais uma vez a responsabilidade para mim em um torto senso de controle. a infelicidade tem o agridoce da tentativa, mas na boca o que permanece é um amargor que embrulha minhas palavras parcas que vão rareando à medida que o álcool esquenta uma parte que há muito tentei acalantar e falhei. o sorriso fechado guarda os dentes que se abriam a qualquer sinal de fácil apreço, na ingenuidade de uma continuidade torpe que naturalizei no automatismo de resistir. estou aqui, porto um corpo e uma consciência que seguem à minha revelia. meus enganos me escancaram, ainda que meus ombros se fechem, ainda que a fumaça me dissipe, mesmo no falhar da minha voz.

candy necklace

entre absorto e boquiaberto, assisto você discordando energicamente das tragédias narradas pela melhor cartomante desse canto da cidade, enquanto imagino os diferentes futuros em que eu estou com você, me convencendo de todas as mentiras doces e também bonitas que você é capaz de nos contar, incidindo nesse querer que partilhamos entre algodões-doces e pelúcias que mal cabem dentro do nosso carro. então cruzar a cidade, fazendo o caminho de volta ao nosso canto, enquanto escolhemos os nomes dos filhos que nunca teremos, cometemos outras inventividades em tudo o que dizemos e calamos, gargalhando um rompante de um novo estar aqui e estar de novo, reafirmando os equívocos que nos fazem únicos, sussurramos novas tragédias, partilhamos do mesmo frio na barriga. à frente, o breu.

do universo partilhado às solidões catastróficas: assolados. enquanto descobrimos as geografias, da cidade e do corpo, nos maravilhamos com os becos que portam seus segredos, que talvez apenas ignoremos pela pressa de se prolongar em busca de um pouco de amor, nem sempre o mesmo, nem sempre o próprio, mas sempre a minar e correr como um rio, que a tudo que passa pelo seu caminho sustenta.

did you know that there’s a tunnel under ocean blvd

get free

apesar de deixar as cenas de destruição pra trás, elas seguem vívidas na memória, sendo dissipadas apenas pelo revoar dos pássaros que ludibriam a ideia obsoleta de liberdade e, em corpo e canto, restituem os caminhos do outro, tridimensionando as alternativas que por vezes ignoramos. no céu tudo é tão azul.

Nascido em 1989, paranaense de interior.

João Henrique Balbinot

E A ERA ATRAVESSADA

Leffs é artista travesti, cantora, compositora e produtora, natural de Maringá-PR.

Faz parte do movimento da Nova MPB, agregando elementos do pop à música nacional com o intuito de promover novas conexões e sonoridades possíveis para a brasilidade e latinidade.

A partir de ferramentas de fabulação e autoficção, Leffs constrói a narrativa de suas obras tensionando os padrões de gênero e propondo outras afetividades possíveis.

Como uma artista da Nova MPB, Leffs promove conexões através de suas composições. A letra, a voz, a música são ferramentas para que seu público possa acessar sentimentos e ideias por novas perspectivas.

Nos palcos, Leffs já passou por festivais do Sesc Paraná, como o Femucic, em Maringá, e o Festiban, em Curitiba; festivais independentes, como o Pare a Nave Aí; e o Rolê das Manas. Além disso, foi a primeira artista travesti a tocar na Virada Cultural de Maringá.

Oie, mana, que delícia conversar com você! Fala pra gente das novidades? 2026 está sendo um ano bem cheio de coisas muito legais! Estou entrando numa nova era artística com o lançamento do meu primeiro álbum, Atravessada, com dez faixas e vários desdobramentos audiovisuais também. Durante o primeiro semestre, vou lançar alguns singles e, em julho, o álbum chega ao mundo! E é muito emocionante e gratificante enquanto artista trazer um trabalho sólido para o público como o Atravessada É um momento de maturidade artística e estou empolgada para celebrar com todes. O processo de composição foi muito especial, pude explorar possibilidades narrativas e de autoficção, num sentido de propor realidades solares e fabulosas nas músicas. Percebo, depois de seis anos de carreira, que música é um tanto de feitiço, por isso produzir algo num registro mais positivo e propositivo é tão importante pra esse momento. As faixas estão recheadas de referências a brasilidades e latinidades, com elementos de diferentes gêneros musicais, sempre com uma roupagem de Nova MPB e pop. Só maravilhosidades que estão no forno pra esse ano!

Legal demais, miga. Fala agora um pouco da equipe por trás desse lançamento babadeiro?

O álbum Atravessada é o maior projeto que realizei até agora e, consequentemente, com a maior equipe (o que me enche de orgulho!). Uma das coisas que prezo desde que comecei a desenvolver meu trabalho artístico é a diversidade na equipe. Primeiramente porque quero trabalhar com as minhas e com os meus, mas também como uma ação afirmativa para profissionais da área musical e do audiovisual. Pra esse projeto não foi diferente; o que foi diferente foi a magnitude. São mais de sessenta pessoas que trabalharam em alguma parte do projeto. E a grande maioria ou é mulher, ou é uma pessoa racializada, ou é LGBTQIAPN+, ou as três coisas ao mesmo tempo. Tivemos quatro pessoas trans em função de direção: o diretor dos clipes e live session, TH Fernandes; a diretora de

elenco, Lua Lamberti; o diretor musical, Chá di Lirian; e eu, Leffs, na direção criativa do projeto. Colocar no mundo um projeto com essa equipe, por si só, já é um sucesso tremendo.

Estamos curiosas, no que seu novo trabalho difere dos outros que já conhecemos?

O Atravessada surge da premissa de desenvolver um álbum solar. Eu vinha de uma produção de músicas numa chave muito melancólica, o Leviana, meu EP anterior, em maior ou menor grau era carregado de um melodrama (o que eu amo e acho uma das formas pelas quais expresso a latinidade em meu trabalho). Porém, circulando com o Leviana, fui percebendo cada vez mais como as músicas atuam como feitiços. O processo de composição, produção e, depois, a repetição da performance das músicas nos shows é tão profundo e imersivo que reverbera na artista, no público, em tudo. Para o Atravessada, quis mudar a tônica dos mantras que estão sendo repetidos e continuarão ainda mais depois de lançados e trazer uma perspectiva mais otimista (sagitariana, né?), propositiva, viciada em viver das fabulações que faço da realidade em minhas músicas. Penso que essa é a diferença principal em relação a meus trabalhos anteriores, além do salto de qualidade em termos de produção das músicas e visuais, lóooooogico.

Qual a track que mais vai abalar as estruturas?

Ai, que difícil escolheeeeeeer! Cada uma teria um motivo para abalar as estruturas de um jeito diferente, sabe? O álbum tem uma diversidade sonora dentro de referências brasileiras e latinas da Nova MPB e do pop. Então eu realmente acho que cada tipo de ouvinte vai ser abalado por uma música diferente.

Mas, pra não fugir da pergunta, hehe, acho que a música mais impactante é “Peligrosa”, em parceria com a Trava da Fronteira. Vou deixar assim, no ar. Se prepara pro impacto.

Qual a track que mais te pegou pra fazer? Aquela que você tem um <3? Sabe? Sempre temos essa filha querida, rsrs.

AH, LÁ! LÁ VEM DE NOVO ME PEDINDO

“Acredito que a música é a forma mais profunda de comunicação e que travestis vivendo plenamente, felizes e com voz ativa é o que move o mundo. A brasilidade é travesti.”
Leffs

PRA ESCOLHER! Cara, eu sou mãe de planta e eu não consigo escolher minha filhaplantinha favorita, não. Que isso?! Mas vamos lá. Acredito que cada faixa tenha me pegado de um jeito diferente. Tiveram as que chorei algumas vezes durante a produção, tiveram as que dei risadas muito sinceras e longas. Todas são especiais mesmo, quero muito saber como irão impactar as pessoas que vão ouvir tudo isso. ENFIM, vou precisar roubar um pouquinho e falar duas, hehe. Primeiramente, “Antúrio”, que é uma música que escrevi sobre minhas avós, que já se foram, mas que são grandes exemplos e guias espirituais pra mim, então essa tem um lugar afetivo e pessoal muuuito simbólico. E acho que vale o destaque para “Pé de guerra”, a faixa em parceria com a maravilhosa Rúbia Divino, porque penso que essa música sintetiza a energia de se deliciar nos altos e baixos da vida que o álbum como um todo transmite.

Mana, você já tá no corre faz tempão. Como você vê essa nova fase musical (agora com o babado da IA) e quais expectativas você tem pro futuro? Tá otimista? Tá pessimista? Habla!

São seis anos, mona. Seis grandes anos. Futuro, bom, veja bem, eu vou precisar explanar meu mapa astral aqui pra defender meu ponto. Eu sou sagitariana com ascendente em capricórnio e lua em peixes. O que isso quer dizer, pelo menos como eu interpreto, é que sou uma sonhadora otimista ancorada pela realidade. Vejo que essa nova fase musical é bastante promissora, tenho grandes expectativas para esse álbum, um trabalho sólido que tem boas chances de ser um sucesso de público e de crítica e ampliar os horizontes da minha carreira. Só que essa expectativa toda me provoca, na verdade, a ser ainda mais responsável por materializar esse sucesso com muito trabalho e dedicação. Então, uma otimista que trabalha muito e sempre pautada na realidade.

Ah, sobre IA, assim, isso é um assunto que daria muuuuito pano pra manga. Mas, num resumo bem resumido, acho que é inevitável que esse tipo de ferramenta apareça cada vez mais na rotina, especialmente de artistas que trabalham com poucos recursos. O perigo é que isso engula nossa arte e nossa

capacidade criativa e, em relação a esse aspecto, devemos agir ativamente para resguardar a perspectiva humana de nosso trabalho.

Fomentos, editais, oportunidades culturais… Quanto disso te ajuda a viver como artista? Dá o papo pros artistas que estão começando a se aventurar nesse mundo? Há esperança pro autoral? Mona, os editais são fundamentais para que artistas possam produzir. Assim como todo e qualquer setor, a cultura precisa de fomento público para que seja possível operar. Pessoalmente, são essas oportunidades que possibilitam meu trabalho há seis anos. O Atravessada é um projeto contemplado em edital da Política Nacional Aldir Blanc no Paraná. Então, sim, os editais são uma via fundamental para novos artistas se desenvolverem e se profissionalizarem. Mas não são a única via. Tenho percebido, cada vez mais, como é importante para a sustentabilidade de projetos que os editais sejam mais uma oportunidade dentre outras que acontecem por outras vias, parcerias independentes, projetos em outras áreas etc.

E a esperança pro autoral vai existir enquanto tiver alguém produzindo música autoral. Essa chama depende de ação de pessoas atuando em conjunto.

E a minha esperança é que isso não se apague facilmente.

Vitória por Leffs e Leffs por Vitória?

A Vitória, na perspectiva da Leffs, é a produtora que bota a mão na massa nas burocracias, nos aspectos administrativos e que processa emocionalmente o desenrolar da vida de forma cuidadosa e afetiva.

Já a Leffs, na perspectiva da Vitória, é a expressão máxima desse trabalho todo. É colocar no mundo a sua verdade de forma inegociável.

Pra encerrar… Manda um recado final ou uma frase de efeito pra gente tatuar?

A brasilidade é travesty.

Entrevista por Rash Carreira

Rash é artista, produtora, professora & louca do bem. Atualmente é coordenadora do Ateliê Culturama, espaço multicultural em Maringá desde 2016, e produtora musical no Mora Music Studio. Com mais de vinte trabalhos já lançados, Rash está na cena cultural desde 2012.

poemas

por Rash Carreira

#PoemasCurtinhosRapidinhosDeLer — Um respiro

INSISTÊNCIA

Há uma brecha, uma fonte

A flor que insiste em nascer na ponte

Momento breve

Quis escrever mais do que a caneta escreve

Quis transbordar o aquário, incendiar a cozinha

Rasgar os panos de prato, pra ver se algo mudava

Pra ver se o vizinho notava que eu também morava ali

Observar o simples já me parece o bastante

Ser grata por quem veio e não por quem deixou de ir

CAFEZINHO

Fomos tomar café na padaria

E você me falou de coisas eternas

Tão breve

Estivemos ali

Pra sempre

CIGARRO

Eu nem sei fumar

Mas às vezes queria ter um cigarro

Pra fingir que sei relaxar

DEUS ME LIVRE

De igreja

BIRUTA

Todo bairro

Toda rua

Tem um doido

Já percebeu?

Será que a doida da minha rua sou eu?

Rash Carreira

Rash é artista, produtora, professora & louca do bem. Atualmente é coordenadora do Ateliê Culturama, espaço multicultural em Maringá desde 2016, e produtora musical no Mora Music Studio.

VER, rever, transver porBrunoPesch

Assim como um desenho ou uma pintura, uma viagem pode ter inúmeras linhas, cores, formas, degradês, texturas, cheiros e sabores. A transitoriedade dos momentos em um mero dia guarda uma vasta e rica paleta que, por vezes, é inimaginável e imperceptível à nossa retina e à nossa consciência. Nessas linhas, escrevo aquilo que ficou registrado em minha memória em um pequeno sketchbook, de tamanho A6. Hoje, meses após os traçados a lápis terem sido feitos na superfície de um papel, meu pequeno caderno de artista se transformou em uma porta estreita que me leva, mais uma vez, ao dia em que tudo aconteceu.

Mesmo se tratando de uma experiência pessoal, singular e bastante singela, gostaria de pensar com você sobre as maneiras de descobrir ou redescobrir uma cidade: suas cores, suas formas, seus cheiros, as sensações que ela nos desperta; e sobre como as situações a que nosso corpo foi exposto podem ser uma ferramenta para nossa imaginação e um estímulo contínuo para nossos processos criativos.

Por um tempo, fiquei pensando em termos que poderia usar para pensar acerca dos processos de se permitir ser afetado pelo mundo. Acredito que uma boa maneira de iniciar este relato/pensamento é emprestando um termo usado por Baudelaire em O pintor da vida moderna, o flâneur. Não pretendo tecer uma discussão sobre os conceitos e reflexões sobre o belo, ou acerca do renascer das coisas observadas no papel, discutidos pelo autor. Mas partir do que é a essência do flâneur, desse observador apaixonado, que é descrito por Baudelaire, para imaginar possibilidades de ver os elementos que modelam nosso mundo circundante. É um imenso gozo para o flâneur escolher um domínio em meio à multidão, ao fugaz e ao infinito, afirma Baudelaire. O gesto de eleger tal domínio o coloca fora de casa; contudo, a sensação experimentada pelo flâneur é de estar próximo à própria residência.

O flâneur vê o mundo, está no centro dele, ao mesmo tempo que permanece

escondido do próprio mundo. Esses são alguns dos prazeres desses espíritos, descritos por Baudelaire como livres, independentes e imparciais. Em suas palavras: “O observador é um príncipe que goza por todo lado do seu estatuto de incógnito. O amante da vida faz do mundo a sua família, tal como o amante do belo sexo compõe a sua com todas as belezas encontradas, encontráveis e inencontráveis; ou como o amante de quadros vive numa sociedade encantada, feita de sonhos pintados sobre a tela”.

Mas voltemos ao ponto inicial: os traços feitos em meu pequeno sketchbook durante uma viagem a Curitiba, em maio de 2025. O que era para ser uma viagem entre amigos para ir a um festival de música transformou-se em uma das melhores e mais enriquecedoras vivências dos dias que passamos na capital do estado: rever a paisagem urbana através de sua transformação em traços no papel.

Numa sexta-feira, após uma visita a uma loja de materiais de arte — esta é uma curiosidade sobre mim: eu adoro visitar lojas especializadas em materiais de arte, sempre compro materiais diferentes ou ditos profissionais para testar —, voltei para o hotel com algumas tintas a óleo, giz pastel seco, dois pequenos sketchbooks e dois lápis 4B aquareláveis. Quando retorno ao quarto do hotel, que estava dividindo com Joyce Midori (amiga e produtora das minhas últimas exposições), presenteei-a com um caderninho e um lápis 4B aquarelável e a convidei para desenhar em alguma praça da cidade, um convite aceito de imediato.

Naquela tarde, visitamos o Museu Oscar Niemeyer. As exposições que estavam abertas à visitação alimentaram nossos olhos com sua beleza e riqueza de detalhes, provocando nosso olhar e convocando, a todo momento, nossa sensibilidade e a capacidade de nos deixar ser afetados pelos sutis detalhes de cada objeto artístico que contemplávamos. Durante a visita, tivemos a oportunidade de ver objetos cerimoniais e

esculturas africanas feitas em madeira, bem como tapeçarias do Afeganistão, que nos colocaram diante de sua beleza, dos horrores da guerra e de cenas de paz. Claro, obras contemporâneas, como as de Alex Fleming e Gabriel de la Mora, inquietaram nossos olhos, convidando-nos a brincar com cores, formas e uma diversidade de materiais, que iam da tinta aos palitos de madeira e da pintura em tela à pintura em superfícies não convencionais, como malas de viagens.

Após as 18 horas, fomos então ao Parque Barigui, lugar escolhido para desenhar livremente nas páginas de nossos pequenos sketchbooks. A ideia era simples, desenhar, com traços rápidos e despretensiosos, algo da paisagem que chamasse nossa atenção naquele começo de noite. Antes de encontrarmos um lugar para iniciar nossos tracejados no papel, caminhamos um pouco pelo parque até acharmos um banco do qual tínhamos uma vista de parte da pista de caminhada, das árvores do parque, dos prédios residenciais ao fundo, iluminados por uma luz que vinha de trás das construções. Enquanto escrevo este texto, em uma noite quente de setembro, lembro e sinto em minha pele o vento gelado daquele momento, no qual apenas observávamos os detalhes da cidade e, com traços rápidos, os transformávamos em desenhos a grafite em pequena folha, que, agora, não era simplesmente uma folha A6, mas um registro de uma tarde recheada de arte, cores, formas e de um começo de noite gelado, aquecido pela partilha dessa experiência.

Em meu desenho, feito de uma série de riscos verticais e horizontais, com um pouco de pigmento de grafite aquarelável e alguns ml de água, criei uma composição com uma parte da pista de caminhada e as luzes que a iluminavam; as árvores ao fundo; e, ao fundo, algo que parecia distante aos meus olhos, mas que estava tão próximo a nós: a cidade, em seu fluxo cotidiano, foi retratada com fortes linhas verticais e horizontais; refiro-me aqui ao aglomerado de prédios, naquele momento, longe de

nós. As luzes que vinham das pequenas janelas dos apartamentos e as luzes da cidade iluminavam as silhuetas dos prédios. Ficaram impressas em minha memória e em meu pequeno caderno.

É interessante perceber que a maneira como captamos as coisas não é a mesma em diferentes horas de um mesmo dia, muito menos em dias distintos ou estações do ano diferentes. Existem inúmeras variações na luminosidade, na temperatura, na dinâmica do vento e na forma como nosso corpo reage a cada estímulo. Enquanto escrevo este texto, lembro daquela noite gelada, em que meus dedos sentiam o efeito da baixa temperatura. Contudo, diferente daquele momento, escrevo em um dia quente, com a umidade do ar bastante baixa — o pensamento que mais me toma neste instante é: “Que calor e que saudade dos dias frios!”. Aquele pequeno rabisco me mostra que o clima interfere diretamente na maneira de estar, perceber e agir no mundo.

Enquanto escrevo, trechos de duas poesias escritas por Manoel de Barros ecoam em meu pensamento e neste texto. Ambas me acompanham desde a redação de minha tese de doutorado. O primeiro deles é um trecho de “As lições de R.Q.”, publicado no Livro sobre nada:

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.

É preciso transver o mundo.

Isto seja:

Deus deu a forma. Os artistas deformam. É preciso desformar o mundo: Tirar da natureza as naturalidades”.

O segundo trecho pertence à obra intitulada O livro das ignorãças; sendo mais preciso, faz parte do final da poesia “Uma didática da invenção”:

“Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da mão não se abre com faca

b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que umedece o primeiro etc etc etc

Desaprender oito horas por dia ensina os princípios”.

Essas poesias de Manoel de Barros se encontram com a experiência vivida, e aqui relatada, no ato de ver, rever e transver o que está ao nosso redor. Nesse contexto, deformar a forma criada por Deus é inventar novas possibilidades de compreensão das cores, das formas e das nuances do habitar no mundo em diferentes momentos de um mesmo dia ou, ainda, de entender e estar no mundo em estações do ano opostas. Desaprender as formas do mundo ensina não apenas os princípios, ensina a ver, a perceber detalhes como a direção da iluminação, uma rachadura no concreto da qual a vida brota, o caminho feito pelo vento etc.

Retornamos para casa, para nossas rotinas. A viagem pode ter terminado, a vivência permaneceu, ela escreveu na minha pele e na minha alma o quão prazeroso e desafiador é atribuir novas formas aos espaços por onde caminhamos. A experiência não terminou aqui. Em uma noite de agosto, revisitei o desenho feito há meses. Ao olhar novamente para ele, senti a necessidade de dar-lhe novos contornos, novas cores. Cores que ficaram pintadas em minha memória, não que elas correspondessem à cidade de Curitiba vista do Parque Barigui naquela sexta-feira, depois das 18 horas, mas porque me remetiam àquele início de noite no qual desenhávamos. O resultado foi uma pintura acrílica feita em uma tela de pequena dimensão, 16 x 22 cm. Uma tela que transvê aquilo que um dia foi visto e rabiscado, pela

mescla de tonalidades de azul, amarelo, magenta, preto, branco e cinza.

Deixo aqui um convite: quando viajarem ou estiverem em algum lugar que consideram belo, para além de fotos, desenhem. Rabisquem em um papel a maneira como seu corpo percebe aquele lugar, suas formas, direções, movimentos etc. Não existe um certo ou um errado, é a sua forma de ver o mundo. E o que são os processos artísticos se não as maneiras como vemos o estar no mundo?

Artista visual e professor de desenho e pintura. Graduado em Artes Visuais e Mestre em Letras.

MADRUGADA

De noite não funcionam os caminhões da obra em frente ao prédio, apenas o choro dos bebês. A maioria dos bebês dorme melhor ao som de betoneiras que ao som do ronco de cansaço das próprias mães. Quando uma mãe dorme, um bebê acorda. É sempre alternado.

As mães gostam de aproveitar o silêncio das ruas, de casa, de suas cobertas. A maioria das pessoas acordadas entre meia-noite e 6 horas da manhã são mães: amamentando, trocando fraldas, medicando, medindo febre, dando banho, fazendo mamadeira, fazendo comida, limpando vômito, acolhendo birra, fazendo faxina, lavando o rosto, lendo um livro, comendo um doce, adiantando o dia de amanhã, desejando um vinho, uma companhia, um desabafo, um abraço e um pouco mais de tempo que pudessem ter para si. A madrugada é materna, triste é que seja tão solitária.

No café da manhã, existem mães que estão dormindo em pé enquanto fazem panquecas de aveia. Mexendo com fogo, com facas, com óleo e água quente, muitas mães cozinham enquanto calculam trajetos, brincam com os filhos enquanto ensaiam, mentalmente, pedidos de ajuda, enquanto negociam dívidas, enquanto enfrentam processos, enquanto dirigem atrasadas, enquanto se reinventam. Ao meio-dia, uma pausa para o almoço e para o descanso; algumas mães abdicaram de tudo o que sabiam e comem quando dá e descansam quando podem. Quase nunca dá, quase nunca podem. Na cabeça das mães, os filhos; no sono das mães, os filhos; no jantar das mães, os filhos; no trabalho das mães, os filhos; na vida das mães, os filhos; os filhos por inteiro, porque não há com quem compartilhar. Na madrugada as mães compartilham a solidão, que fica assim mais leve por sabê-la coletiva. Durante o dia, as mães multiplicam os cansaços. Durante o dia, quando estão todos despertos, mesmo que a noite tenha sido em claro, mesmo

que as crianças estejam dormindo, mesmo que todo trabalho tenha por garantia o direito ao descanso, as mães se sentem culpadas por dormir, principalmente se aproveitaram um pouco, entre meia-noite e 6 horas da manhã, a própria vida. Após o jantar, a rotina afiada do sono, a pressa pelo silêncio, o desejo pelo respiro, o cansaço batendo no corpo, a vontade de ser livre, a energia para aproveitar bem pouco.

É de madrugada que as mães contabilizam os pratos caídos. Algumas tentam colar os pedaços. Algumas varrem para debaixo dos tapetes. Algumas acabam pisando nos cacos. Há mães que não pensam em nada. Há mães que pensam em tudo. Algumas escutam o filho chorar, o filho chamar, o filho caminhando pela casa, enquanto ele ainda dorme. A cabeça das mães vive em estado de alerta. Outras pisam em brinquedos pequenos, tropeçam em brinquedos grandes, organizam os brinquedos espalhados pela casa. A maioria chora, já chorou, tem vontade de chorar. A paz da madrugada materna é ambígua: o desejo de aproveitar e a necessidade de descansar entram em disputa.

Às 3 da madrugada, tem mãe segurando o sono enquanto o filho adolescente não envia notícias. Às 6 da manhã, tem mãe ainda acordada, já acordando os filhos. Às 4 horas, o que mais tem é despertador de mãe tocando pra ver se ela dá conta do dia. Às 5 horas, o sol se aproxima, algumas mães vão se deitar, algumas mães vão enfrentar o trânsito, o vagão lotado, o caminho até o outro ponto da cidade. Às 2 da madrugada, crises de ansiedade, olhos vidrados nos feeds tentando encontrar algum sentido, algum significado, alguma forma de pagar as contas sem sair de casa, sem abandonar os filhos, sem ficar acordada 24/7, sem precisar de tanta rede de apoio. Meia-noite,

e ainda tem mãe tentando fazer a criança dormir, tem mãe preparando lanche, tem mãe servindo copo d’água. À 1 hora, uns minutos de silêncio, uma chance de encontro consigo mesma, um alívio, um suspiro, um desejo e a luta pelo sono. A tentativa de ler um livro, a tentativa de ver um filme, terminar uma série, comer tranquilamente, pintar os cabelos, fazer as unhas, ouvir uma música, dançar, gozar, sorrir, viver com alguma liberdade.

A madrugada materna é como um farol em meio ao oceano, cuidando de todos com sua luz. Toda a energia das mães é destinada ao cuidado, a manter a luz do farol acesa, protegendo todo mundo, cultivando uma semente, germinando alguma coisa, gestando a Lua. A madrugada materna é feita da coragem da flor que brota entre as pedras e desabotoa-se, desviante. A madrugada materna é como um pincel que sonha com um pouco de tinta, para poder pintar para além dos sonhos. A madrugada materna é um processo silencioso de retorno a si mesma, é momento no qual é possível que as mães escutem seus próprios pensamentos, seus próprios barulhos e passos. As mães sabem identificar todos os barulhos que os filhos fazem enquanto dormem, e esse alfabeto é importantíssimo para que elas possam relaxar, sem medo de que alguma sinfonia desconhecida as surpreenda. Demora um tempo até uma mãe se desconectar da respiração dos filhos dormindo. Com o tempo, a noite vai ficando mais silenciosa, o espaço mais estendido e as mães vão podendo escutar mais a si mesmas e percebendo o quanto delas próprias elas não mais reconhecem.

Dizem que as crianças não devem ir dormir depois das 22 horas. Dizem que as crianças não devem comer depois das 22 horas. Dizem que as crianças

devem ter todas as suas necessidades básicas sanadas durante o dia e antes das 22 horas. Quando o primeiro raio de Sol se anuncia, a criança que dormiu às 18 horas desperta, e a mãe apenas troca a noite pelo dia. Que imagem é essa que se amontoa no reflexo do espelho? Que peso esse corpo tem sem as cargas que carrega? Como se arrepia essa pele? Como florescem os sentimentos? Como se organizam as emoções? Quais os sonhos que resistem? Dizem que as mães devem dormir quando as crianças dormem. Dizem que a madrugada é da boemia, mas ela é principalmente daqueles que trabalham de plantão, como socorristas, como anjos da guarda, como mães, sempre em estado de alerta. O sono demora a chegar depois de um dia exaustivo, a cabeça, mesmo que deitada, gira. Os pensamentos não cessam, os músculos buscando relaxar, as ideias confusas, o sistema digestivo remexido, os pulmões a todo vapor, os cabelos molhados, ou sem lavar, os desejos perdidos como balões de hélio a caminho do Sol. A cama é movediça, a fome complexa, o gozo esquecido, os olhos cansados, a boca murcha, os ouvidos quentes, as lembranças tristes. O choro da bebê da vizinha, um choro que ela reconhece. O sono demorou a chegar, e a madrugada venceu. Como um abraço, como um campo magnético, como a infinidade do céu sobre a cidade silenciosa da Lua, como uma estrela cadente que atende a um pedido, a madrugada se apresenta às mães como uma planta trepadeira, agarrando-as pelos pés e envolvendoas por todo o corpo, como um carinho de raiz, a pele fecundada como a terra úmida, o leito do rio se formando, abrindo caminho entre as árvores, entre os medos, entre a luz das estrelas. A madrugada acolhe as mães, para que elas não sejam colhidas antes de florescer.

São 5 horas, preciso acordar às 6. Meus olhos cheios de lágrimas, meu corpo tenso no sofá onde me joguei quando pude, da forma como deu. Eu não dormi, você acredita? Só vou dormir essa uma hora. Se eu dormir exatamente agora, eu ainda durmo uma hora. Amanhã só me deito de novo às 23. Não é falta de organização, é muita coisa pra fazer sozinha. E daí que eu quis ter filho? Isso que você está fazendo é violência, me culpabilizar por ter dado à luz uma criança, por tê-la desejado, por ter sonhado um mundo para ela. Um mundo melhor. Minha cabeça não consegue respirar. Eu bebo um copo d’água e começo a cantarolar alguma canção, meus pés se movimentam pelo piso da cozinha, tudo é muito silêncio, sinto a água me atravessando e, quando o sono vem, eu já estou dançando.

Carolina Damião

Atriz, escritora, produtora e criadora de conteúdo com enfoque na desromantização da maternidade, com o propósito de ampliar os debates sobre o tema questionando a culpabilização materna, a invisibilização das tarefas de cuidado e o descomprometimento da sociedade em geral para com a criação, o bem estar e a garantia dos direitos das crianças. Nascida e criada em Maringá, mãe solo, mãe do Miguel.

Entre silêncios e descobertas: filme maringaense aposta na escuta além das

palavras

Com mais de vinte anos de experiência no audiovisual, o diretor TH Fernandes acumula produções marcantes — e uma delas ocupa um lugar especial em sua trajetória: o curtametragem No silêncio do teu olhar, dirigido e roteirizado por ele.

A história acompanha Rafa, um adolescente surdo em uma escola de ouvintes, e Davi, um garoto popular e vocalista de uma banda escolar. Entre olhares, os dois atravessam as dúvidas e os encantos da juventude — e descobrem, um no outro, a escuta.

O filme mergulha em temas como identidade, descobertas e pertencimento. Com uma abordagem sensível e cuidadosa, a narrativa valoriza o protagonismo surdo e convida o público a perceber o que se comunica além das palavras sonorizadas.

O diretor conta que o projeto é especialmente significativo em sua trajetória. TH afirma que escreveu o roteiro após a produção do documentário Uma história em muitas mãos, em parceria com o ator e produtor audiovisual Alan Gaitarosso. O documentário registra a trajetória, os desafios e as conquistas da comunidade surda em Maringá.

Ao dirigir No silêncio do teu olhar, TH refletiu sobre a falta de produções que abordem romances entre surdos e ouvintes. Além disso, sua sobrinha, que se interessava por histórias com essa temática e também por narrativas LGBTQIAPN+, foi um incentivo para a realização do projeto.

“Um filme que é uma referência muito forte para mim nesse filme é o Eu não quero voltar sozinho. E um dia eu estava assistindo com a minha sobrinha, e ela gostou demais do filme. E aí um dia eu comentei com ela: ‘Ah, você quer que o tio faça um filme desse para você? Se quiser, eu faço’. E ela falou que queria. Daí eu fui lá e escrevi o roteiro. É meu primeiro roteiro… profissional assim, que eu próprio dirijo, porque geralmente eu não gosto de dirigir os próprios roteiros. Dei para ela ler, e ela quase chorou lendo o roteiro. Ela falou: ‘Nossa, ficou muito lindo. Você consegue fazer mesmo, tio?’ Eu falei: ‘Claro’. Aí fui atrás, né? Prometi pra minha sobrinha, tinha que cumprir.”

Sobre o processo de direção, TH aponta que este foi um dos melhores sets em que já trabalhou. Segundo ele, a equipe era colaborativa e, como o filme foi gravado em uma escola real, algumas gravações foram acompanhadas por estudantes. Além disso, o reconhecimento de um orçamento adequado foi fundamental para a produção.

“Eu acho que não tem uma pessoa que não estava naquele set ali que não foi marcada, porque foi uma alegria constante. Quando a gente trabalha dentro de um orçamento que é o ideal para a produção, você vê os profissionais sendo valorizados, podendo colocar todo o seu potencial criativo numa obra e ser valorizado por aquilo… Poder trabalhar dentro de um horário que é o aceitável, com respeito, sabe assim? Um set totalmente com respeito. Foi maravilhoso.”

O filme foi gravado integralmente em Maringá e contou com a colaboração de mais de cinquenta profissionais do audiovisual — a maioria maringaense. TH também destaca o impacto econômico da produção. Segundo ele, a escola inteira foi caracterizada, resultando na compra de materiais de pintura. Os uniformes foram confeccionados, estimulando a contratação de costureiras e a aquisição de insumos. Além disso, a equipe se deslocou até os sets e movimentou o setor de alimentação.

Esse impacto integra a cadeia produtiva do cinema nacional: segundo relatório da Oxford Economics, o audiovisual adicionou R$ 70 bilhões à economia brasileira em 2024, movimentando 608.970 empregos diretos e indiretos.

A produção, que começou como uma promessa pessoal, hoje lota salas de cinema e emociona o público.

“Ele é recomendado para pessoas que estão a fim de ver algo relativamente sensível e estão a fim de se emocionar e ver uma história bonita.”

Foto de Lírica Aragão
Foto de Lírica Aragão

Por fim, TH resume a principal mensagem do filme:

“Respeitar. Saber respeitar as diferenças, saber respeitar o próximo. Eu acho que o respeito é a maior missão desse filme”.

Fotos de Lírica Aragão
Mari Parma

Comunicóloga, jornalista e criadora de conteúdo sobre cultura brasileira.

O CORPO E O RITO

Há muito tempo, antes mesmo de o corpo ser este ciborgue distraído, que pulsa ao ritmo das notificações, confunde o calor da pele com o calor da tela, havia o corpo que escutava as vozes dos rios e que respirava com as árvores.

Antes de o palco ter refletores, havia o chão, o vento, a poeira.

Talvez o primeiro espetáculo tenha sido uma oferenda ao Sol: um pequeno gesto, uma dança sem plateia. Era o corpo se conectando com o mundo e dizendo: também estou vivo.

Podemos chamar isso de rito, mas hoje também chamamos de arte.

O animismo, conforme dizem os antropólogos, é uma crença de que todos os seres e fenômenos naturais possuem uma alma. Mas há algo profundamente moderno nessa ideia. Se o mundo está adoecido pelo excesso de luz e de telas, talvez seja porque esquecemos de conversar com as sombras. No hinduísmo antigo, essa conversa era dança. No Tibete, era areia. No Japão, o “funeral” das agulhas. E no Brasil, a

cosmologia indígena e as entidades da natureza do candomblé e da umbanda.

I. A oferenda

Nas paredes úmidas dos templos da Índia, uma dançarina começa o Alarippu: Os olhos, o pescoço, as mãos e os pés em ritmo de prece. O corpo se transforma em flor.

Não há pressa.

Cada movimento rítmico, sem expressão facial, conecta o humano ao divino. Alarippu pode ser traduzido como “botão de flor desabrochando” e ajuda a relaxar o corpo do dançarino e a preparar sua mente, simbolizando um despertar.

Essa dança, o Bharatanatyam, é uma das oito danças clássicas da Índia, caracterizada por movimentos precisos, gestos das mãos e expressões faciais para narrar histórias da mitologia hindu. Historicamente não nasceu para o espetáculo, nasceu para o templo como forma de devoção. Uma oferenda em movimento.

Acreditava-se que a arte era a expressão direta da religião, mas, como observa Diana Mickevičienė (2004, p. 229), essa é uma leitura incompleta: “Bharatanatyam é uma dança da Índia, não uma dança hindu, embora seu corpus performático tenha historicamente se concentrado em personas e narrativas envoltas pela fé hindu”.

A dança, como o yoga, é neutra em valores — o que não significa ausência de espiritualidade. Dissociado do templo físico, o Bharatanatyam continua sendo uma oferenda porque carrega o templo dentro de si.

O corpo, nesse espaço, é uma passagem: o gesto não representa, ele invoca. O espaço sagrado migra da pedra para a carne.

E eu penso:

Quantas vezes dançamos sem perceber o sagrado presente no movimento?

II. A dissolução

No alto das montanhas tibetanas, monges desenham o universo com grãos de areia colorida.

Passam horas, dias, construindo o que será, em outro momento, destruído.

Princípio da impermanência: A natureza transitória de todas as coisas neste universo. Tudo possui um fim.

Mas ali há um ensinamento: criar é também aprender a deixar ir.

A mandala (que significa “círculo” em sânscrito) me lembra o teatro — esse instante entre o ser e o desaparecer.

Na mandala há também uma lição política; um outro modo de pensar o tempo — lento, espiralado, resistente à pressa das corporações e dos estados.

Um tempo que não se mede em lucro ou poder, mas em ciclo de aprendizado, em reencarnações de pensamento.

Assim também é o palco: o que acontece ali só respira enquanto alguém respira junto.

III. O corpo vazio

Tatsumi Hijikata chamava o Butô de “dança da escuridão”. Não por ser sombria, mas por nascer do que não se vê.

Em A revolta da carne (1968), o corpo é convocado à sua própria destruição simbólica — não para morrer, mas para renascer. Dois anos depois, em 1970, Hijikata e Ashikawa reuniram dançarinas para literalmente “a grande experiência da dança como ritual de sacrifício e cremação do corpo”.

Urmila Sathyanarayanan Fotografia de S.R. Raghunathan

Essa imagem de cremação é central: o corpo que dança deve queimar a si mesmo, livrarse de suas formas conhecidas, apagar sua biografia. Só assim pode tornar-se canal para outras presenças como imagens, memórias, espíritos do mundo. A dança, então, é um ritual de sacrifício que começa pela anulação de si. De acordo com Fraleigh e Nakamura (2006, p. 3), o corpo, esvaziado, torna-se receptáculo do que é invisível.

O vazio não é ausência, mas é preenchido de muitos significados. É um modo de existir. Um intervalo onde o corpo se deixa ser atravessado por inúmeras poéticas. Um lugar onde o humano e o não humano se fundem — como nos antigos ritos animistas.

IV. A urgência

Mas o altar mudou de lugar… agora vivemos uma outra religião: a do imediatismo. Tudo precisa ser visto, gravado, compartilhado. A vida virou “conteúdo”. O gesto virou algoritmo.

Até o silêncio é interrompido por notificações.

Entre um deslizar e outro, esquecemos que o corpo também é matéria que envelhece, respira, espera.

Nosso novo templo é uma tela. E para tudo se exige urgência.

V. O retorno

Por isso o teatro deve existir como resistência.

Não o teatro que grita, mas o que ouve. Aquele que escolhe o caminho do silêncio, da lentidão, do pequeno gesto.

Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de recordar o que se perde quando tudo acelera.

Imagino um palco de barro, onde o ator caminha descalço. O som de um tambor distante.

A luz que se apaga lentamente, uma longa pausa na respiração, e nesse instante o mundo inteiro respira junto.

Talvez seja isso o que o animismo tentava nos ensinar: que o humano não está no topo da criação, mas no meio desse sopro.

Entre o visível e o invisível, entre o ruído e o silêncio, junto de todos os outros seres.

VI. Epílogo

Quando o espetáculo termina, as pessoas se levantam.

Mas há algo que não termina ali; há um rastro de um perfume, uma presença que fica.

Como a fina areia da mandala, levada pelo vento, espalhando-se até o mar.

E penso:

Se toda arte fosse um rito, se todo gesto fosse oferenda, se voltássemos a ouvir os rios, talvez o mundo voltasse a respirar.

Tatsumi Hijikata
Fotografia de Yasuo Kuroda

Sidnei Puziol

Mestre em Estudos Literários, fundador e pesquisador do Núcleo Terreno, grupo que integra teatro, dança butô e (eco)poéticas do corpo

VEJA. MAS VEJA COM ATENÇÃO.

Preste atenção no seguinte cenário: um certo dia de aula, jovens vão até a sua escola, e, tirando o fato de estar um pouco mais ensolarado do que o normal, é um dia como qualquer outro. No meio do pátio, um adolescente tira fotos de seus colegas para um projeto de seu clube de fotografia. Enquanto isso, um casal está vivendo um romance de juventude, trocando beijos e carinhos que buscam esconder um passado de brigas e traições. Em um outro canto da escola, uma menina, ignorada por seus colegas, está enfrentando problemas quanto à sua autoimagem, ela não se sente bem em seu próprio corpo. Um rapaz, por sua vez, está tendo problemas com seu pai alcoólatra, e se torna cada vez mais difícil acompanhar as aulas. No refeitório, um grupo de amigas está combinando de se encontrar no shopping depois da aula. E, enfim, dois alunos, Alex e Eric, entram na escola armados, preparados para fazer um massacre.

Essa é a sinopse de Elefante (2003), dirigido por Gus Van Sant. A história, diretamente inspirada pelo massacre de Columbine, de 1999, não é contada de forma linear, mas sim por diferentes ângulos em diferentes tempos, buscando mostrar um pouco da vida de cada um dos adolescentes no dia do atentado. Até a narrativa chegar na cena em que os dois rapazes armados entram na escola, o filme já apresentou vários personagens, detalhando de forma exaustivamente descritiva e extensa suas rotinas. Algumas cenas, inclusive, são mostradas mais de uma vez, e tais repetições apenas realçam o caráter fragmentário da obra.

Assistindo ao filme passivamente, é possível que nos questionemos no que deveríamos estar prestando atenção, qual detalhe vai revelar ou explicar o que está acontecendo. Porém, quanto mais se presta atenção, menos as coisas têm uma resposta clara, e mais cansativo tudo se torna. O quebra-cabeça não parece ter fim.

Nós igualmente vivemos os vários segmentos de nossas vidas cercados de coisas que demandam nossa constante atenção. Tudo é tão intenso que poucas vezes somos capazes de ver um desastre se aproximando

até que seja tarde demais. Hoje qualquer evento é coberto pelos mais diferentes pontos de vista, e não mais só pela mídia tradicional, mas também pelas redes sociais. As repetições do filme de Van Sant ecoam as reiterações que encontramos em nossas telas, no discurso público e até em conversas privadas.

Prestar atenção se tornou exaustivo. Cada detalhe deve ser analisado e destrinchado, demandando toda a sua concentração. O mesmo pode ser dito sobre a leitura do presente texto, uma vez que fomos ensinados a ler palavra por palavra, extraindo-se o significado de cada uma delas, até não sobrar mais nada além de um ponto-final.

Tenho pouco tempo até que outra coisa tire a sua atenção do presente texto, pois sempre haverá algo mais interessante acontecendo na tela ao lado. Talvez começar o texto descrevendo um filme sobre um massacre seja uma boa forma de prender o leitor, mas como posso continuar daqui? Sexo! Sexo sempre vende. Pense em sexo! Pensou? Perfeito. Vamos continuar com o texto menos sexy da revista e vamos falar de economia e commodities.

As redes são arquitetadas para atrair ao máximo nosso olhar; afinal, mais tempo de tela significa mais tempo assistindo a anúncios. Estimula-se a atenção de tal maneira que ela, agora exausta, torna-se passiva, dócil e mais vulnerável à propaganda, resultando num consumidor perfeito.

A ECONOMIA DA ATENÇÃO.

Nossa atenção é uma das mais valiosas commodities da atual conjuntura. Falamos de uma atenção que deve ser constante, mas a profundidade permanece sendo zero. Tudo deve ser notado e compreendido imediatamente, a explicação deve ser instantânea, a fim de que não se perca um só segundo com o presente — a maior preocupação deve ser com o que vem a seguir, nunca com o agora. Poucas horas separam o lançamento de um novo álbum da publicação de suas primeiras críticas, positivas ou negativas, pois as redes

não perdem por esperar para finalmente ter algo para discutir pelos próximos dias (ou, ao menos, pelas próximas horas).

Para mim, isso é tolice. A mesma obra desperta sensações diferentes em diferentes pessoas, e até mesmo pode provocar novas reações num mesmo indivíduo em tempos distintos. Penso em um exemplo mais recente: quando escutei o álbum Renaissance, de Beyoncé, foi amor à primeira vista (ou, nesse caso, à primeira escuta). Por outro lado, Mayhem, de Lady Gaga, foi somente após ouvi-lo algumas vezes que senti uma profunda conexão emocional com a obra. Isso não quer dizer que o primeiro seja melhor que o segundo, até porque minha reação poderia ter sido o contrário, ter demorado mais tempo para gostar do álbum de Beyoncé, e em nada afetaria minha percepção atual das obras. Sequer acho que os trabalhos podem ser comparados de alguma forma que realmente importa, e, dependendo do dia em que me perguntar qual dos dois é o meu favorito, a resposta pode mudar.

Perdeu-se o espaço para se formar uma opinião, deixar que ela evolua e mude com o tempo. Somos seres impermanentes, nossas opiniões devem ser assim também. Há uma polarização: ou devemos ter uma convicção radical sobre tudo que está acontecendo no momento (e, quando tudo é importante, nada verdadeiramente o consegue ser), ou nosso discurso é inconscientemente vestido de tanta imprecisão e vagueza que teremos o conforto de dizer que não nos posicionamos da maneira errada no passado. Afinal, o importante não é estar certo, mas sim nunca ter errado e que tudo deve ser opinado.

Essa hiperatenção superficial está mais próxima de uma desatenção, e serve bem à ignorância, pois não abre espaço para qualquer reflexão, apenas para aceleração. Não estamos mais observando um mundo parado, e sim um em constante movimento, informações passam por nossas telas como veículos em alta velocidade numa rodovia. Vemos apenas borrões, deslizando nossos dedos na esperança de que a próxima coisa seja mais interessante, tudo para evitar um segundo sequer de tédio. Em certa oportunidade, perguntei ao diretor japonês Takashi Makino por que

ele considerava a sala de cinema um espaço político — um aspecto que ele constantemente citava em seu trabalho —, ao que ele me respondeu dissertando sobre a força ideológica de se enfileirar centenas de pessoas numa mesma sala, tal qual um batalhão, voltando o seu olhar (e, portanto, a sua atenção) para o mesmo objeto. Não é por acaso, contou Makino, que salas de cinema durante a Segunda Guerra Mundial eram usadas para passar filmes de propaganda, para justificar à população as empreitadas imperialistas de um governo fascista.

Como tenho reiterado, a vida tem demandado uma consciência constante de tudo que está acontecendo a todo momento, e isso é exaustivo. Então, procuramos uma forma de cessar essa atenção gritante. Contudo, enquanto nosso corpo e mente clamam pelo descanso, o que conseguimos nos dar é a mera distração, entorpecendo os sentidos das mais variadas formas.

O cenário da ditadura do imediatismo não é bonito, mas também não é desesperançoso. Se um mundo hiperconsumista nos colocou nessa situação, não é com mais consumo que será possível uma mudança.

Ainda falando de Takashi Makino, é no mínimo curioso pensar em sua atitude quanto ao aspecto comercial de seus filmes, os quais se encaixam naquilo que se convencionou chamar de “cinema experimental”. Ele disse expressamente preferir exibir seus filmes em salas de cinema, as mesmas sobre as quais ele guarda fortes sentimentos pelo seu passado com a propaganda militar, do que em museus, uma vez que nestes lhe parece que as pessoas só se interessam em ver seus filmes para, na saída, comprar suvenires na lojinha.

Isso, é claro, está refletido diretamente em seu trabalho com o cinema, como no caso da sua obra Imagination (2025). Diante de diversas filmagens interpostas do céu, o espectador é convidado a relaxar e se afundar naquele azul conforme mergulha em sua própria consciência. Para Makino, o principal movimento desse filme acontece entre a poltrona e a tela, dentro de cada pessoa.

Ao invés de nos ocuparmos com o conteúdo que distrai, devemos nutrir a arte que convoca um novo olhar.

POR UMA

ATENÇÃO PRESENTE

A arte é simultaneamente uma experiência individual e coletiva, e, nesse sentido, acaba representando a experiência humana em si. Cada um de nós pode apenas olhar com seus próprios olhos, pensar com sua própria cabeça e viver com seu próprio corpo. Todavia, igualmente verdadeiro é o fato de que a vida só passa a fazer algum sentido quando, a fim de atravessarmos nossas particularidades, construímos pontes para que possamos compartilhar entre nós as nossas experiências, nossas visões e nossos pensamentos. Assim, nossas singularidades não apenas se somam, mas se multiplicam: o mundo é meu e é seu, mas também é o meu com o seu e o seu com o meu, é nosso.

As pontes das quais falo são aquilo que chamamos de linguagem, a qual pode tomar muitas formas, desde palavras até gestos ou olhares. Nesse sentido, arte é uma linguagem, ou melhor, são linguagens, pontes que podem ser cruzadas de diversas maneiras.

A arte — e, por extensão, a vida — requer atenção. E, quando falo de atenção, não falo daquela (des)atenção exaustiva do começo do texto, e sim daquela descrita por Simone Weil, que disse que a atenção, em sua forma mais aguçada, confunde-se com a oração. Penso na atenção que afia nosso ser, que desperta nossos sentidos e nos faz estarmos cientes dos estímulos que a vida proporciona. É também o grau máximo de caridade: é sobre ver, e ver de fato, o outro. A atenção que, num genuíno ato de generosidade, podemos presentear a nós mesmos — enxergar a si.

Devemos também ter atenção àquilo que desperta o nosso próprio interesse, puxar

esse fio que chamamos de curiosidade e ver até onde ele nos leva. Falo de descobrir o que norteia nossa consciência, para então compreendermos os caminhos pelos quais a arte se comunica conosco. Se existe algo que sempre acordou sua curiosidade, vá atrás; pois, mesmo se você se desapontar, certamente descobrirá algo novo sobre si e sobre sua própria vida, sobre as coisas que te interessam.

Não desejo dar à minha consciência um microscópio para poder examinar minuciosamente minha atenção, dissecando-a e catalogando cada um de seus movimentos. Não. Quero dar uma caneta — ou talvez um lápis seja melhor, assim teria menos medo de errar — para desenhá-la, dar-lhe uma forma. Se eu pudesse desenhar aquilo que move minha atenção, certamente seria um desenho do Amor. E, quando falo desse intenso sentimento, falo daquele que se confunde com a vida em si. E penso que, talvez, seja isso que procuro na arte.

Encontrar um filme ou um livro que verdadeiramente desperte minha atenção de forma genuína não é fácil — ainda mais na sociedade da distração, onde tudo, sobretudo a arte, é senão mais uma forma de matar o tempo. Nós matamos o tempo. Matamos, continuamos matando e mataremos ainda mais.

Estamos exaustos. Porém, o cansaço não é um estorvo, e sim um convite para o presente mais generoso que podemos dar a nós mesmos: o descanso.

O DESCANSO PODE

VIR DO SONO, PODE

VIR DA MEDITAÇÃO, PODE DESPERTAR

NOVAS SENSAÇÕES, PODE REACORDAR VELHOS SENTIMENTOS. O DESCANSO PODE

A HISTÓRIA SOMOS NÓS.

“No Brasil, a censura é um instrumento de defesa dos valores morais e do patriotismo. O que é contrário a isso deve ser eliminado.”

A citação acima foi retirada de um pronunciamento oficial da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Criado em 2 de junho de 1972, o órgão era vinculado ao Departamento de Polícia Federal e, como se pode adivinhar pelo seu nome, era responsável pela censura de peças teatrais, rádio, telenovelas, filmes, séries de TV, letras musicais, livros e revistas (a própria MAG não escaparia desse pente-fino).

Desde 1988, com a promulgação da Constituição Federal, o órgão não existe mais, e a censura é expressamente vedada em nosso país. Porém, a atuação dos órgãos, seus pareceres, decretos e pronunciamentos são uma mancha na história brasileira, uma mancha fresca que não vai sumir com facilidade — nem devemos permitir que se apague.

Em um tempo como o nosso — um tempo sem temporalidade, do hiperinstantâneo e do sujeito cujo presente está tão deslocado que o seu “agora” já é passado —, a história é, por si mesma, uma forma de resistência. O filósofo Byung-Chul Han chamou nosso tempo de um “tempo sem aroma”, ou seja, sem profundidade, ritmo e sentido, no qual tudo é extremamente plano e raso. Trocamos uma escultura do tempo por um arquivo .png, pelo qual não temos mais onde a luz pode tocar ou criar sombras, agora o próprio objeto emite um brilho artificial e apresenta apenas uma perspectiva, não há mais nuance.

Curioso pensar que um dos maiores poetas do cinema, Andrei Tarkovski, reforçou com tanta veemência que a arte de seus filmes não estava naquela dança que estamos habituados entre imagem e som, nem mesmo, como alguns teóricos soviéticos certa vez defenderam, na montagem. Para Tarkovski, a essência do trabalho de um diretor de

cinema — e o processo pelo qual conseguiu se expressar de forma mais sincera — está naquilo que chamou de “esculpir o tempo”, ou seja, usar sua câmera para capturar o tempo e então, como um escultor que lapida um bloco de mármore para revelar a estátua que sempre esteve ali dentro, eliminar tudo aquilo que for supérfluo até encontrar o que havia de mais verdadeiro. Tarkovski, assim como Han, acreditava num tempo com profundidade e forma, o que aqueles com uma sensibilidade mais esotérica (ou hegeliana) podem chamar de “espírito”. Um bom filme do diretor soviético para ilustrar essa materialidade do tempo e da memória foi o seu O espelho (1975), uma autobiografia em que a memória e os sonhos da infância tomam a forma de imagem e som, cuja beleza se encontra no surreal e na poesia daquilo que é invisível aos olhos, mas não ao coração.

Para mim, resgatar a história e, além disso, estudá-la para extrair novos sentidos, é uma das principais chaves para devolver ao tempo a sua devida forma. Pensar no mundo em termos instantâneos resulta em nos sentirmos permanentemente atrasados ou “por fora”. Estar constantemente caçando novidades para “estar por dentro” é uma prisão da mente, cuja saída é entender que somos — corpo e alma — compostos de história, somos o resultado de tudo aquilo que veio antes (as partes boas e as ruins), e só então nos entenderemos como uma engrenagem naquilo que está por vir. Diferentemente do que a ditadura do imediatismo prega, nosso presente não está fadado a se tornar o passado, pois nosso passado também está presente. Isso porque nossos próprios corpos carregam o nosso passado. Por mais que tentemos ocultar as cicatrizes, seja de forma consciente ou não, elas continuarão lá. Desse modo, remédio é encarar os fatos pelo que são. Como Angela Davis disse, qualquer corpo hoje, independentemente de sua raça, gênero ou classe, carrega consigo uma bagagem histórica muito maior que qualquer indivíduo, trata-se, portanto, de uma questão coletiva. Não devemos evitar ou contornar a questão histórica, pois não se trata de virar uma página, e sim encará-la, aderindo à nossa consciência

o passado e o presente, para então, e só então, falarmos de um futuro com igualdade. Cinema, e arte como um todo, é também um registro. E, como todo registro, serve como uma janela para nossa história. Para enaltecer a diversidade, precisamos não apenas buscar novos filmes e novas vozes, precisamos também resgatar nossa própria memória cinematográfica. Devemos recuperar e ter em mente o cinema de pessoas como Charles Burnett, sem nos esquecermos do nosso próprio cinema negro brasileiro, com nomes como o de Zózimo Bulbul e Adélia Sampaio, bem como de dúzias de outras pessoas que ainda estão esperando serem redescobertas.

Nossa experiência com a arte é indissociável dos papéis que exercemos na sociedade; portanto, nosso paladar artístico é inevitavelmente constituído pela nossa trajetória profissional, acadêmica, familiar, amorosa, sem nos esquecermos de todas as outras obras de arte que já experienciamos, mas também pelos nossos corpos e existências. O tempo não fica mais material do que isso, somos corpos compostos de história.

O NOSSO OLHAR DOMESTICADO.

Ainda pensando no processo de lapidação de Tarkovski, acredito que existem convergências curiosas entre uma operação médica e a operação cinematográfica. Penso em dois filmes de Stan Brakhage: Window water baby moving (1959) e The act of seeing with one’s own eyes (1971).

O paralelo entre os dois filmes é bem evidente: no primeiro, Brakhage filma sua então esposa, Jane, dando à luz um dos filhos do casal em um parto natural, feito em uma banheira. O segundo, feito mais de uma década depois, filma processos de autópsias realizados em um necrotério.

São filmes gráficos, para dizer o mínimo, especialmente o segundo. E, em minha experiência com cada obra, houve um ponto em comum: estranhamento. Não foram poucas as vezes em que quis desviar meu olhar da tela — afinal, não são coisas comuns de se presenciarem. Enquanto no primeiro se vê o corpo de Jane se abrindo para de lá sair uma vida, no segundo vemos corpos sendo abertos para se remover seus órgãos na busca de um melhor entendimento sobre a morte.

Brakhage é um cineasta do olhar, e a contraposição dos dois filmes é reveladora, pois me faz questionar para o que nosso olhar está acostumado. Ambos os trabalhos filmam aspectos essenciais da vida, a inescapável realidade de que todos nós passamos por um (nascer) e passaremos pelo outro (morrer). Ainda assim, mesmo se tratando de eventos certos à nossa trajetória, sua representação na tela causa estranhamento.

Enquanto partos e autópsias são tão estranhos ao olhar, estamos completamente habituados a cenas de assassinato e violência sexual, vemos incessantemente corpos sendo agredidos, esquartejados, alvejados e até explodidos. E não falo apenas no cinema, todas essas coisas já estão presentes em nossas televisões e jornais — e, claro, celulares. Em ambos os filmes, os processos representados, um natural e o outro cirúrgico, são filmados como os mais íntimos rituais, e os dois são um convite do diretor ao espectador para um novo olhar, um que prega pelo respeito à vida, seja por aquela que começa, seja por aquela que termina.

TODA ARTE É MÚSICA.

Os dois filmes citados no tópico anterior são, como a maioria dos filmes de Brakhage, sem som, mas isso não quer dizer que sejam sem música.

É impossível explicar a musicalidade de seus filmes em palavras, porém é possível escrever sobre a música da escrita em si. No início do texto, escrevi que somos ensinados a ler e interpretar os textos palavra por palavra. Com isso quis dizer que acabamos focando os detalhes em detrimento de sentir o escrito como um todo, incorremos em olhar para um fragmento e não para o conjunto, para a unidade.

Sobre isso, posso divagar horas sobre a escolha de uma palavra de um poema de Fernando Pessoa, contudo isso seria não enxergar o ritmo de suas palavras, a harmonia que existe em suas estrofes. Os melhores textos, quando lidos em sua completude, revelam uma partitura cujos instrumentos invisíveis precisam apenas da condução do leitor para invocar uma potente música. Um poema é muito mais do que um mistério para ser decifrado, é um momento para ser desfrutado.

O mesmo pode ser dito sobre o cinema: posso analisar isoladamente um elemento de encenação, ou um plano, ou até mesmo uma cena inteira. Porém, isso seria ignorar o que há de mais grandioso nos filmes, qual seja, o encadeamento rítmico de imagens que desperta em nós uma sensação musical. Para mim, os filmes de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, como Gente da Sicília (1999), estão entre os filmes mais musicais a que já assisti, e não apenas pelo som, como também pela musicalidade que está naqueles movimentos de câmera que parecem girar o mundo, ou pela sua montagem precisa, cujos cortes parecem partir os diálogos de seus filmes para revelar algo mais profundo, mais verdadeiro. A música não está apenas no movimento; afinal, uma fotografia ou até mesmo uma pintura podem apresentar rimas tão belas quanto as melhores melodias. Nem mesmo está no som, como Susan Sontag escreveu: “os elementos mais poderosos numa obra de arte são, muitas vezes, seus silêncios”.

SOMOS CÚMPLICES

DO CINEMA E DO TEATRO.

O poder do silêncio, mais especificamente sua crueldade, pode ser observado claramente no teatro. Basta ir uma vez nele e uma vez ao cinema para perceber que são experiências completamente diferentes.

O cinema, por um lado, prende o olhar sob um único ponto de vista: o quadro. Mesmo o filme que emprega a montagem mais analítica e experimental possível, fragmentado em todos os seus pontos de vista, ainda assim deve assumir a forma de uma sequência ordenada de planos que habitam a tela.

Por outro lado, o drama do teatro se desenrola em tempo real em nossa frente, com atores em “carne e osso” — os quais, inclusive, muitas vezes são obrigados a trocar de roupas às pressas nos bastidores, longe de nossos olhos. Ir ao teatro é estar presente de corpo e alma na apresentação da obra, e, por mais distantes que possamos nos colocar do palco, a presença dos atores é tão bem sentida pela plateia quanto a desta é sentida pelo elenco. O cinema e o teatro são, evidentemente, experiências diferentes, e o que se encontra em um pode não ser possível de se encontrar em outro. E aqui vale contar uma história.

Jamais esquecerei de quando fui assistir à peça “Janaína e a estrada para a silhueta de gazânias”, de Thayse Mochi. Em certo ponto da obra, há uma cena de abuso sexual, um dos momentos mais violentos e críticos do drama. Foi difícil não esconder os olhos ou desviar o olhar, não foi algo fácil de encarar.

Até aí, não é uma experiência ímpar do teatro, não são poucos os filmes que usam do mesmo artifício em suas tramas. Porém, naquele teatro, a personagem de Janaína, interpretada pela atriz Kênia Bergo, estava presente e, durante a cena, estendia suas mãos em direção à plateia, chamava, ou melhor, gritava por ajuda. E nós estávamos lá, sentados frente ao palco, imóveis. Se eu também estendesse meu braço, se eu me levantasse de meu assento, certamente eu poderia alcançar Janaína e interromper aquela violência.

Claro que eu não fiz nada disso, apenas assisti à cena se desenrolar como todas as que vieram antes e todas as que vieram depois, mas agora com um frio na espinha que me acompanhou pelo resto da noite do espetáculo. Eu respeitei o pacto que existe no teatro, cumpri o meu papel em meu assento. Porém, por uma fração de segundo durante a cena, meus olhos se encontraram com os de Janaína, e então eu me senti cúmplice de toda aquela violência. Um sentimento de que, de certa maneira, sou cúmplice de muito mais do que aquele momento da peça em específico. Saio do teatro me questionando sobre quantas coisas eu permaneço cumprindo o meu papel de ficar sentado em meu lugar ao invés de me levantar e tomar uma atitude.

A peça, é claro, não causou uma mudança radical em minha vida. Porém, uma nova semente foi plantada, um novo contexto foi adicionado em meu repertório artístico, e até uma nova sensação (uma bem desconfortável) foi apresentada ao meu coração. Daqui em diante, eu terei que carregar o peso de ter sido, em minha inércia, cúmplice naquela cena, e o que eu farei com esse peso é o que realmente importa.

Faz muito tempo que vi essa peça, e a semente não é mais uma semente. Acredito que ela tenha germinado, ao menos neste texto, em algo um pouco maior do que apenas um desconforto que habita minha mente. Continuarei nutrindo essa e muitas outras obras que existem dentro de minha memória e em meu coração. Os mais poderosos efeitos de uma obra de arte não estão no imediato, mas sim naquilo que há de duradouro, naquilo que permanece.

Esse ímpeto de devorar obras de arte — ou “consumir”, como muitos falam hoje em dia — com a vontade de que elas mudem alguma coisa em sua vida imediatamente é uma vontade de quem ainda é jovem, comigo não foi diferente. Hoje sei que boas coisas levam tempo, uma obra-prima muitas vezes precisa de tempo e mais de uma visita para se revelar. Nas palavras de Fred Camper: “Compreender um artista pode, de fato, ser a jornada de uma vida inteira”

O CINEMA DO ÓDIO

Se para mim o amor à vida é a chave de um bom cinema — ou, ao menos, um cinema que me agrada —, então aquele cinema que prega um desprezo ao humano não me tem nada de interessante. Falo daqueles filmes que usam de todas as suas energias para jogar luz às maiores misérias da humanidade com o único fim de satisfazer um prazer masoquista, em poder rir alto e dizer: “Eu sabia! Sempre soube que o mundo em que vivemos é podre e horrível!”

Os bons filmes de terror (e até mesmo alguns ruins) certamente não se encaixam nessa definição. Ao mostrar os corpos sendo dilacerados, repartidos e torturados, conseguem provocar uma graça. Trata-se de um movimento de expiação pelo qual nos libertamos, ao menos por alguns segundos, de medos primitivos, exploramos partes asquerosas de nosso ser e retornamos de cara limpa para encarar o mundo com uma nova leveza na mente e no olhar.

Não, eu não falo dos filmes de terror. Eu falo de um outro tipo de cinema, muito presente em trabalhos como os de Lars von Trier e Michael Haneke, que, apesar de todo o seu apreço à técnica e por toda a excelência em filmar, falham em encontrar algo verdadeiramente sagrado com suas lentes. Para mim, filmes como O assassino (2023), de David Fincher, cumprem unicamente a missão de afagar o ego de seus criadores e o sadismo de seus espectadores. De que me serve esse cinema? Nada, e não me interesso mais por filmes assim.

Apenas a escuridão do ódio não é capaz de transmitir algo que verdadeiramente valha a pena ser dito. É necessário, mesmo que no fundo, uma luz, qualquer tipo de luz.

Um artista que conseguiu se afundar nas mais desamparadas partes da humanidade e resgatou um brilho genuíno foi Pedro Costa. O diretor dedicou parte de seu trabalho a filmar Fontainhas, em Portugal, uma comunidade completamente tomada pela pobreza e drogas, um lugar abandonado pela luz, pela memória e pelo Estado. Quando gravava seu primeiro filme nesse lugar, uma mulher daquela comunidade, Vanda Duarte, veio lhe contar que, se ele quisesse realmente filmar algo verdadeiro, não deveria recorrer a quaisquer truques ou ficções, deveria apenas se sentar ao seu lado, ligar sua câmera e ouvi-la. Foi então que nasceu a obra-prima No quarto da Vanda (2000)

O documentário cumpriu com as palavras daquela que se tornou a sua protagonista, mostrou sem filtro algum o uso excessivo de drogas, os efeitos da pobreza e uma estética miserável, sem o verniz habitual do cinema — tudo gravado por uma simples e rudimentar câmera digital. Tinha tudo para ser um filme que lhe arranca qualquer esperança na humanidade. Ao invés disso, Pedro Costa filmou o inusitado: Vanda rindo com a sua irmã, não apesar de sua desgraça, mas por conta dela. Gravou também laços genuínos dos moradores de Fontainhas, sua resiliência e realidade.

Durante toda a longa duração do filme, a câmera não desumaniza seus sujeitos, não os reduz nem os martiriza. Grava-se sem usar de moralismos, sem se esconder por trás de um sentimento de pena para com aqueles filmados. Todos são filmados à mesma altura, em pé de igualdade com o espectador; afinal, aquelas são pessoas, como eu e você, e merecem nossa atenção, nosso olhar e nosso amor.

Costa encontrou em Vanda, Ventura e Vitalina, bem como em todos os outros com os quais filmou na comunidade em Fontainhas, uma luz num lugar onde não a imaginamos. E, justamente por isso, sua luz é intensa, é incomparável com qualquer outra luz que já vi no cinema.

O BOBO E O OTÁRIO

Nós não estamos fazendo papel de bobo o suficiente. Pelo contrário, é justamente nossa insistência em nos levar a sério que muitas vezes acaba nos fazendo parecer tolos. O medo de não ser levado a sério deve ter acabado com mais artistas do que qualquer regime autoritário, pois se trata de uma censura que vem de dentro e consegue invadir o que nenhum censor consegue: a mente do artista.

Este texto foi escrito quase um ano antes de sua publicação, ou, pelo menos, a sua primeira versão. Pouca coisa se manteve, e passei por muitos entraves no processo. O escrito original era no formato de uma investigação criminal, que buscava subverter a ideia de “o cinema está morto” para “o cinema é quem mata”. Alguns temas, sobretudo o da atenção, sobressaíram-se durante esta escrita, e percebi que teria que abrir mão do que estava fazendo para abraçar o novo texto que aparecia em minha frente.

Durante este ano em que o texto veio sendo escrito, tive um dos anos mais frutíferos no quesito de leituras em minha vida. Não digo pela quantidade de livros que li, que se manteve na média de sempre, mas sim pela qualidade do que tive contato. Sobre isso, eu devo meus agradecimentos às diversas amizades que fiz desde a primeira edição da MAG — inclusive algumas pessoas que conheci justamente por conta da revista —, que me apresentaram novas perspectivas e referências, por me ajudarem a continuar crescendo. Também devo agradecer às pessoas que já estavam ao meu lado antes mesmo da revista acontecer, pois elas mesmas também descobriram coisas novas e puderam compartilhar comigo visões revigorantes. Uma das vantagens de ter velhas amizades é poder estar ao lado, observar e acompanhar o crescimento e amadurecimento de quem amamos.

Claro que aquilo que é novo para mim não é necessariamente novo para outros, é uma questão relativa. Porém, quando se tem um apetite para descobertas, tudo pode se tornar uma novidade, inclusive coisas com as quais já se teve contato, através de uma nova leitura. Uma boa obra é tão rica quanto você consegue oferecer a ela, por isso que, às vezes, munidos de novas

ideias e olhares, reencontramos um antigo favorito apenas para redescobrirmos nosso amor por meio de novas lentes.

Busco escrever com uma leveza que nem sempre me é possível, procuro colocar a música que tanto admiro em minhas palavras. Muitas vezes o resultado é desastroso, e sempre corro o risco de cair de cara e perceber que fiz o bom e velho papel de bobo. O antídoto é muito simples: enfrentar essa possibilidade, sempre de frente, saber rir de si quando as coisas não saem como o esperado, aprender com o processo e se animar para a próxima vez que teremos a oportunidade de sermos bobos.

O bobo é o mais livre dos artistas, pois pode tentar uma cambalhota ousada sem a trava do medo. Isso porque, se for bem-sucedido, será aplaudido, e, se não der certo, pode rir junto dos outros de seu próprio tombo. Em um mundo de gravatas, o papel de bobo é a máscara de arlequim que permite ao adulto abandonar toda pretensão de seriedade e rir mais uma vez como uma criança. É claro que não estou falando aqui do otário. Não, essa é a figura da falsa humildade, aquele que forçosamente ri da própria desgraça antes que consigam rir dele. É um escudo daquele que se diminui e se autodeprecia constantemente apenas para fisgar algum elogio dos outros, é o paciente zero do “coitadismo”. Trata-se da pessoa que finge esconder o rosto por ter vergonha do próprio trabalho, mas abre o canto do olho para ver se consegue enxergar algum aplauso de piedade. Diferente de não ter medo de cair, o otário está certo de que vai falhar e, quando não pode afagar o seu ego com a surpresa de um triunfo, dá-se por satisfeito, pois sempre soube que não seria bemsucedido.

O bobo não é assim, ele se orgulha das suas cambalhotas tanto quanto de seus tombos; afinal, saber cair com estilo é uma arte em si. Enquanto o otário gasta todas as suas energias se preocupando com a sua falta de sucesso, o bobo está interessado no processo em si, independentemente de seu resultado.

Por isso eu digo, devemos fazer mais o papel de bobo, para, quem sabe, encontrar alguma graça naquilo que fazemos.

Pesquisador, Jurista e Mestrando em Direito pela Universidade Federal do Paraná

Pedro Roveroni

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