Skip to main content

Revista MAG #1 - Maringaense Cultural

Page 1


ATÉ QUE ENFIM, MAG!

Antes de criar o Maringaense Cultural, em 2021, algo me incomodava: frequentar espetáculos com plateias quase vazias, muitas vezes, com apenas meia dúzia de pessoas presentes. Descobri que muitos desses eventos, ofertados de forma gratuita, sequer chegavam ao conhecimento do grande público.

Quando criei o perfil, eu não tinha ideia de onde aquela iniciativa me levaria e o que começou como um simples desejo de compartilhar a efervescência artística e cultural da cidade se transformou em algo muito maior. Em três anos, vi a página não apenas crescer, mas também ocupar um espaço importante na cena cultural de Maringá. Percebi, com gratidão, responsabilidade e, principalmente, profissionalismo, o impacto que este trabalho tem na formação de público, que hoje frequenta os teatros, os espaços públicos e também ocupa a cena independente, trazendo vida à arte produzida aqui.

Agradeço a todas as pessoas que, de alguma forma, acreditaram e apoiaram o meu trabalho ao longo dessa jornada. Cada gesto de incentivo, parceria ou palavra de apoio foi fundamental para que eu pudesse seguir em frente. Sou ainda grato pelas oportunidades de trabalho que me foram confiadas, permitindo que eu participasse de projetos incríveis.

A MAG nasce e se constrói nessa trajetória. É fruto de uma caminhada que me ensinou que a cultura precisa não só de planejamento e execução, mas também de divulgação. Maringá é rica em talentos, ideias e iniciativas, que merecem

mais do que um olhar passageiro, ou o cumprimento da prestação de contas para um edital. Por esse motivo, assim como Maringaense Cultural, a sua revista eletrônica/on-line, a MAG, não é apenas sobre cultura; é sobre valorizar quem faz cultura.

Este é um convite para olhar com mais atenção para a arte que nasce aqui em Maringá e para os profissionais que constroem as suas histórias aqui. Esta revista é dedicada a todes que acreditam que a arte é essencial.

Aos artistas, produtores e consumidores que sustentam uma cena vibrante e também a quem ainda não descobriu o quanto Maringá tem a oferecer, que a MAG seja uma ponte, um encontro, um lembrete de que a arte transforma – não apenas os espaços, mas as pessoas que os ocupam.

Espero que a MAG te inspire.

“A arte existe porque a vida não basta” Ferreira Gullar

FERNANDO SOUZA

Criador do Maringaense Cultural e idealizador da MAG

98. ANATODELA

Neste ensaio fotográfico, Isa Angioletto captura a essência de Elisa Riemer em seu “habitat criativo”. 61. A NOVA CASA AMARELA por Fernando Souza

06. SOBRE VER FILMES SEM PRESSA por PEDRO ROVERONI 26. LEO MOÇO E SEU PROCESSO CRIATIVO por Fernando Souza 64. CERVEJA, UMA BEBIDA ELEGANTÍSSIMA por Sara Araujo 90. O CINEMA DE PEDRO NASCIMENTO por Fernando Souza 81. ENTREVISTA: LUANA BRANCALHÃO por Fernando Souza 83. COLAB: O QUE É UMA ZINE? por The Kingdom

por Fernando Souza

CASAL DO CAFÉ por Lari Yuki e Lucas Ferreira

VALE A PENA RELEMBRAR por Fernando Souza

por Mariana V. Sarache

por Sidnei Puziol

por Aline Rodrigues

por Beatriz Protazio

por Bruno Pesch

por Fernando SOuza

por Rash Carreira

CRIAÇÃO, CUIDADO E COLETIVIDADE: a arte e a maternidade como potências para o futuro por Carolina Damião

por Fernando Souza

ALINE RODRIGUES, BEATRIZ PROTÁZIO, BRUNO PESCH, CAROLINA DAMIÃO, ISA ANGIOLETTO, LARI YUKI, LUCAS FERREIRA, MARIANA V. SARACHE, PEDRO NASCIMENTO, PEDRO ROVERONI, RASH CARREIRA, SARA ARAÚJO E SIDNEI PUZIOL.

PEDRO ROVERONI

É jurista pela Universidade

Federal do Paraná, atuando como pesquisador em Direito e Cinema.

Fotografia: Erick Costa Domingos

SOBRE VER FILMES PRESSA SEM

LA SAPIENZA PERSONA

POR PEDRO ROVERONI

CRÍA CUERVOS
THELMA & LOUISE

Imagine, se puder, a seguinte cena: você decidiu ver um filme no final de semana. Uma péssima decisão, mas está longe de ser a última, você decide vê-lo no cinema, e o desastre está feito. Se você tiver sorte, no meio de uma ocupação quase total das salas com filmes infantis, de boneco ou alguma bomba que cheira a lavagem de dinheiro, você encontrará alguma coisa que te acorde um mínimo de interesse. Pague pelo ingresso e se dirija ao shopping, uma vez que cinemas de rua não passam de uma lenda urbana contada por quem mora nas capitais. Entrando na sala no horário do filme, você será agraciado com pelo menos quinze minutos de propagandas e mais uns trailers que você talvez já tenha visto online centenas de vezes só naquela semana. E então o filme começa. O aviso “desliguem seus celulares” virou motivo de piada. Algumas pessoas já estão com a câmera aberta para tirar uma foto assim que o título aparecer em tela (Deus me livre ir ao cinema sem gravar dezenas de stories para que todos saibam que saí de casa para fazer alguma coisa diferente). No cinema, sua sessão será pontualmente agraciada com clarões de luzes vindos dos celulares de pessoas que fazem questão de colocar a iluminação do aparelho no máximo, essas as quais decidiram se sentar nas primeiras fileiras do cinema, para que todos pudessem ser iluminados por suas mensagens de WhatsApp. Não posso culpá-las, afinal, é uma tortura se sentar numa sala escura com cheiro de pipoca por duas horas sem algo para as distrair do filme que pagaram para ver. Enfim, bem-vindo à atual experiência do cinema.

Temos tão pouco tempo, tudo precisa ser feito, ou melhor, precisa ser postado para ontem. Hoje em dia, ver um filme nunca é sobre ver um filme, é, antes de mais nada, sobre fazer parte da conversa. É sobre postar stories, twittar algo e, claro, logar o filme no Letterboxd, sem esquecer de colocar suas estrelinhas. Cada minuto que se passa sem estar online consumindo conteúdo sobre o filme é um tempo que não volta mais, em que se está fora da conversa.

É a ditadura do imediatismo. A sensação que fica é a de que não posso mais me dar ao luxo de parar para pensar ou sentir o cinema, deixar um filme marinar por uns dias na minha cabeça,

para então formular minha opinião e saborear as sensações durante todo o processo. Não, eu preciso de respostas! Preciso saber uma descrição exata do que devo sentir assim que o filme acabar, necessito de uma solução para cada dúvida e provocação que o filme tenha levantado, só assim terei paz. Para isso, felizmente, há um batalhão de influenciadores digitais criando inúmeros posts, episódios de podcasts, vídeos de análise e até memes para que aquelas horas perdidas vendo o filme possam ser multiplicadas em ainda mais horas de distração na internet.

Engula todo esse conteúdo até não aguentar mais, e em poucos dias qualquer filme que tenha visto não significará mais nada para você, voltando temporariamente em sua memória apenas na época de premiações, para depois ser apagado por completo de sua mente para dar lugar ao próximo grande lançamento.

Não é por acaso que esses lançamentos não passam, em sua maioria, de remakes, reboots e continuações de filmes que são, por sua vez, remakes, reboots e continuações de outros filmes — quando você menos espera, já está amarrado em um novo universo cinematográfico!

Há, contudo, um espaço onde tenho me refugiado para longe dos lançamentos, das discussões cíclicas nas redes sociais e do consumo desenfreado movido à ansiedade, e é sobre ele que venho falar neste texto. Neste ponto, muitas pessoas te venderiam um curso de cinema, um novo serviço de streaming com apenas os filmes cult mais obscuros do underground cinéfilo. E aí que eu te digo a melhor parte de meu convite: é inteiramente gratuito, e ninguém aqui quer tirar o seu dinheiro. Talvez você já tenha ouvido falar do Convite ao Cinema, projeto da Secretaria de Cultura aqui de Maringá, do qual eu não faço parte e estou apenas escrevendo por meu bel-prazer (nada mais lindo do que ver um cidadão compartilhando desinteressadamente os eventos públicos de sua cidade). Todo sábado, às 20h no CAC, ali na XV de Novembro, alguns gatos-pingados se reúnem para ver um filme selecionado pelo excelentíssimo curador e coordenador Paulo Campagnolo. Os filmes são sempre precedidos por sua apresentação, e ao final da exibição, faz uma breve fala, na qual ele,

sendo uma enciclopédia viva sobre cinema, partilha de algumas opiniões apaixonadas e nos conta contextos históricos e culturais do filme. Depois, há sempre uma abertura para todos os presentes que quiserem conversar, em que discutimos sobre o filme (ou sobre qualquer outra coisa que nos der vontade).

Observe a linguagem: nós conversamos, nós vemos os filmes e nós discutimos. Há ali um sentimento de pertencimento, de fazer parte de um grupo. O Convite é tanto de Paulo quanto nosso —

mas é um pouco mais dele. Faço essa brincadeira porque, para mim e certamente para todos que participam, não há Convite sem o Paulo. E, para ilustrar como este espaço tem sido essencial para minha cinefilia, quero listar algumas coisas que aprendi com o Convite ao Cinema:

1) NENHUM FILME É IMPERDÍVEL:

Minha admiração com o projeto já começa no nome, Convite ao Cinema, e é apenas isso, um convite, um chamado amigável. É um espaço onde fugimos do imediatismo e da urgência propagados em redes sociais, onde é comum ler coisas como “imperdível”, “não deixe para depois”, “você precisa ver esses filmes”, “filmes para ver antes de morrer”, “série que todos os jovens devem ver”. Não, chega! Quase nada na vida é verdadeiramente imperdível, podemos deixar de ver algum lançamento e amanhã estaremos vivos iguais. O Convite não é diferente, você pode não ir e continuará sendo sempre convidado, esta é a beleza de um projeto aberto ao público.

Aqui temos um mero convite, uma abertura de um espaço onde você pode vir se quiser, e se não quiser, tudo bem, semana que vem tem outro, e na outra também. Não estamos vendo o filme do momento, aquele que está todo mundo comentando nas redes. Os filmes passados no Convite são em sua maioria clássicos antigos, porém, é claro que a sagacidade do curador não é de se subestimar, pois todos os filmes, independente do ano de lançamento, sempre dialogam com o atual. Trago como exemplo a escolha de passar Israelismo, um documentário que explora como o povo judeu e os indivíduos que o compõe são tratados pela comunidade internacional — uma questão sobre a qual é impossível se falar sem se pensar como a grande mídia filma o massacre do povo palestino.

ISRAELISMO, de Erin Axelman e Sam Eilertsen

2) O CINEMA REQUER, EM PRIMEIRO LUGAR, UM SALTO DE FÉ:

O Convite ao Cinema tem também sido um espaço onde expandi meus horizontes cinematográficos, tendo contato com novos diretores e culturas toda vez que apareço por lá. Lembro aqui do filme franco-italiano La Sapienza, do diretor Eugène Green. Eu, que jamais havia sequer ouvido falar deste diretor, saí da sessão e fui direto para casa para caçar todos os seus trabalhos, uma busca que me levou até os confins da internet. Green é um diretor que invoca justamente o poder da crença na palavra do que é posto em tela. Seus personagens falam com clareza e de forma franca, olhando diretamente para a câmera, enquanto declamam discursos apaixonados sobre vida, arte e amor. O diretor faz uma brincadeira justamente para chamar sua fé nas palavras: ele filma um cachorro, mas suas personagens falam que aquele animal é um leão, portanto, durante todo o filme, ele é um leão e será visto como um leão por todos que acreditarem, e isso inclui o espectador.

Assistir filmes é em primeiro lugar uma renúncia, um depósito de sua confiança ao que está sendo posto na tela, e quando é feito por um cineasta que sabe o que está fazendo, essa entrega é muito recompensadora. O Cinema é, originalmente, uma arte visual e invoca uma autoridade fotográfica — não é à toa que, quando queremos certificar alguém de que algo é verdade, dizemos “vi com meus próprios olhos”. Eu não estou vendo Christopher Reeve ser puxado por algumas cordas, eu vejo Super-Homem voando pelos ares. Uma provocação que diretores como Eugène Green fazem é: até que ponto podemos renunciar à nossa razão e acreditar em nossos sentidos? E para isso, todo bom cineasta fará os usos mais inteligentes das artimanhas cinematográficas, desde o som, a montagem e até mesmo a mise-enscène.

LA SAPIENZA, de Eugène Green

3) NÃO TENTE ENTENDER O FILME ANTES DE SENTIR ELE:

As conversas feitas no Convite após o filme estão longe, muito longe, o mais distante possível, do tipo de conteúdo que você encontra em um vídeo com “final explicado” no título. Não queremos explicar o final, queremos abraçar os mistérios da arte. Aqui não posso deixar de lembrar da exibição de Cría Cuervos de Carlos Saura, a qual foi a minha sessão favorita. Trata-se de um doloroso filme espanhol sobre como um regime totalitarista consegue invadir o íntimo do lar, e seus aparatos de violência lá são reproduzidos, atingindo a todos, principalmente os mais vulneráveis: as crianças, que carregam as feridas de sua infância durante toda a sua vida em forma de traumas.

Lembro-me que, ao final da sessão, alguém perguntou sobre qual seria a simbologia dos pés de galinha dentro da geladeira, os quais aparecem por mais de uma vez durante o filme. Eu posso agora mesmo inventar milhares, dezenas de milhares, de interpretações, porém, nada será melhor que a resposta dada por Paulo: “este é apenas mais um enigma, entre muitos outros, que agora fogem de nossa compreensão”. O que mais me marcou em suas palavras foi o completo desinteresse em se forçar a encontrar uma resposta. É um caminho de humildade você falar “eu não sei se entendi, mas eu com certeza senti”, é saber que a provocação feita é muito mais interessante que qualquer resposta.

Análises, é claro, são mais do que bem-vindas, e o que estou dizendo não se trata de abandonar qualquer atividade intelectual, isso apenas alimenta a ignorância. Estou falando, na realidade, de equilíbrio e sobre como evitar uma das maiores armadilhas do intelecto: a atrofiação dos sentidos. Como escreveu Susan Sontag, vivemos numa cultura manchada pela “hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte” É o motivo pelo qual artistas como David Lynch se recusam a explicar seus elusivos trabalhos; ao se

explicar uma obra, você estaria, nas palavras do diretor, “reduzindo-a” e “tornando-a pequena”

A partir do momento em que estou convicto de minhas respostas, eu abandono qualquer vontade de pensar mais sobre aquele filme, já estou pronto para assistir ao próximo.

Nas palavras de Sontag, “o que importa no filme é o caráter imediato, puro, intraduzível e sensual de algumas de suas imagens, e suas rigorosas, embora acanhadas, soluções de certos problemas de forma cinematográfica”. É justamente este tipo de pensamento (a meu ver, um que é muito mais saudável) que um espaço como o Convite funciona. A discussão deve sempre se guiar no sentido de acrescentar à experiência — deve nutrir, não castrar —, o que é dito agrega e faz florescer novos pensamentos e sensações, aumenta a curiosidade sem nunca a saciar por completo.

CRÍA CUERVOS, de Carlos Saura

4) PORQUE SAIR DE CASA PARA VER FILMES AINDA VALE A PENA:

Com o começo irônico deste texto, é fácil entender porque acredito ser cada vez menos atrativo me arriscar a sair do conforto da minha casa para ir ao cinema. Com poucos cliques eu tenho qualquer filme que quiser pronto para assistir sem sair de meu quarto, isso sem falar que temos o catálogo inteiro dos streamings na palma de nossa mão — posso ter a experiência única de assistir Persona em meu Xiaomi do jeito que o Bergman queria. Por que ir ao cinema quando posso ver qualquer coisa no conforto do meu sofá? Dia após dia, fica cada vez mais cômodo apenas ficar em casa vendo o filme popular da semana, ou talvez ver uma série que todo mundo está comentando seja melhor, o que importa é maratonar logo alguma coisa para não dar tempo ao cérebro para formular um pensamento.

Para responder este questionamento, volto para aquela que considero a pergunta mais importante dentro da cinefilia: “por que vemos filmes?”. E, como explorei no tópico anterior, a resposta me importa muito menos do que as reflexões que se desdobram da pergunta.

O motivo de ver um filme é tão sem-número quanto a quantidade de filmes em si: ver uma comédia para divertir depois de um dia estressante; ou um documentário para me informar sobre alguma coisa nova; ou um drama político para abrir meus olhos e articular ideias, ou até mesmo reassistir um favorito da infância para ajudar a me reconciliar com o meu eu-criança, e entender que eu e ele ainda somos — apesar de tudo — um só.

As sessões do Convite são para mim um retorno ao “carne e osso”, estar presente, ocupar um espaço, mais precisamente, um espaço onde cultura é valorizada — e não no sentido de gostar de tudo indiscriminadamente, mas gostar da arte enquanto um movimento, tanto psíquico quanto linguístico. Em tempos de conforto do streaming, é animador ver que ainda existem aqueles que decidem sair de seus lares e ir atrás do real. Pessoas que desejam participar de uma conversa ao lado de outras pessoas, e não apenas consumindo passivamente a opinião de um terceiro por meio de uma análise em vídeo na internet. Essa ocupação do real e a busca pelo “carne e osso” pode até mesmo ser vista na popularidade das apresentações teatrais em nossa cidade — mas divago, este é um texto sobre cinema, a sétima arte entre as sete.

Também não posso deixar de comentar que a capacidade de poder escolher o filme que eu quiser é sufocante. Qualquer plataforma de conteúdo pronto para ser consumido na internet é montada de tal forma que você acredita que a coisa mais incrível que você já viu está a apenas um clique de distância: deslize para cima, o próximo vídeo será o mais engraçado da sua vida. E se você escolher ver este filme, você pode estar perdendo a oportunidade de encontrar um ainda melhor perdido entre os milhares dos que estão no catálogo. A liberdade nos aprisiona no sentido mais sartriano.

PERSONA, de Ingmar Bergman

Retomo o que disse no segundo tópico sobre ser necessário um salto de fé: confie também no curador, o Convite também nos chama para ver algo diferente, algo fora da zona de conforto. E já te antecipo uma coisa: você não gostará de todos os filmes que verá lá. No começo do ano, fui à sessão do clássico Thelma & Louise com Geena Davis e Susan Sarandon, e eu infelizmente não gostei deste filme. Isso em nada me impediu de ter conversas muito enriquecedoras a partir dos temas que ele levanta, em ter o prazer em ouvir pessoas dizendo apaixonadamente por que elas gostaram daquele filme. Gostar ou não de alguma coisa se torna completamente acessório à experiência, pois ainda há tanto para se pensar e sentir. Hoje eu não gostei desse filme, mas pode ser que daqui a um, cinco ou dez anos eu vá assistir a ele de novo e ter uma experiência completamente diferente — uma que foi completamente enriquecida pelas conversas que tive sobre ele. No fim, ter assistido ao filme com certeza foi uma experiência agradável, nem que seja para bater boca com quem gostou depois da sessão, e nunca em forma de uma batalha de egos, para ver quem está mais certo que o outro, e sim um espaço para compartilhar.

5) CINEMA É COMPARTILHAR:

Nossa cidade continua distante de ter um evento como Olhar de Cinema de Curitiba, ou a própria Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ou o Festival do Rio, porém, talvez isso seja para o melhor. O Convite é um espaço íntimo, agradável, que invoca uma sensação análoga à saudosa época das locadoras, onde eu passava horas debatendo sobre filmes nos corredores recheados até o topo de DVDs com uma pessoa que eu nunca havia visto na vida. O Convite é um espaço ideal para pessoas que, como eu, adoram ir desacompanhadas ao cinema. Mas uma sala de cinema nunca está vazia, pois ver um filme em casa nunca te dará a mesma sensação de ver naquela salinha escura, onde você e outros podem compartilhar risadas,

suspiros e lágrimas. Quando a sessão acaba, as luzes se acendem, há alguns segundos de silêncio onde você olha em volta e se sente parte de algo. Todos vocês experienciaram o mesmo filme, contudo, em certa medida, cada um experienciou de sua maneira, e agora é hora de compartilhar. Enfim, se o sábado à noite chegar e você não souber o que fazer, venha ao Convite, certamente o Paulo selecionou alguma coisa interessante para a gente conversar nesta semana. Venha com um amigo, ou venha sozinho, participe do debate, ou não, afinal é só um Convite. Se vier, quem sabe você também não me encontra ali, no meu lugar de costume, na sexta fileira, um pouco à esquerda.

THELMA & LOUISE, de Ridley Scott

A poética visceral de AnatoMinha

Em agosto deste ano, Maringá recebeu a exposição “AnatoMinha”, de autoria da artista magista Elisa Riemer. Viabilizada pelo Prêmio Aniceto Matti e produzida em parceria com o produtor cultural Vanderlei Junior, a seleção de obras revelou um universo profundo na afetividade.

As doze obras apresentadas foram criadas a partir de colagens digitais e animações bidimensionais, em um verdadeiro diálogo entre a tecnologia e a visceralidade humana. Elisa explorou o corpo feminino de dentro para fora, construindo uma narrativa que destaca o conceito da mulher vitruviana. “AnatoMinha é

uma construção narrativa pela decupagem de uma mulher vitruviana, composta por órgãos afetados individualmente pelas experiências afetivo-amorosas que vivi. É um convite para observação do movimento dos órgãos internos que constroem essa mulher aprofundada no mundo interior sáfico”, refletiu a artista. A exposição transportou o público para uma sala de cirurgia poética, onde recortes de atlas de anatomia, postais femininos da Primeira Guerra Mundial e outras imagens de mulheres se entrelaçam em obras que hipnotizam.

Arte Fernando Souza
Fotografia: Renato Domingos
Arte Fernando Souza
Obra ESTÔMAGO
Fotografia: Renato Domingos

Elisa Riemer, que já ampliava fronteiras com seu trabalho em circuitos culturais de projeção nacional e internacional, reafirmou em AnatoMinha seu lugar como uma referência que transcende limites da emoção, do desaguar e do se recompor.

Para aqueles que vivenciaram essa exposição, a experiência foi mais do que estética — foi um convite à profundidade emocional. A mostra serviu como um lembrete de que a arte e o amor, em todas as suas intensidades, possuem a capacidade de nos reconstruir.

Meses após ser exibida em Maringá, a

artista foi convidada a expor suas obras em solo paulistano. Anatominha ocupa agora o Centro Cultural Olido, no Centro Histórico de São Paulo, onde permanecerá até o dia 22 de dezembro de 2024.

Ainda nesta edição, você confere um

Arte Fernando Souza
Fotografia: Renato Domingos
Arte Fernando Souza
Obra CLITÓRIS
Fotografia: Renato Domingos

LARI YUKI & LUCAS FERREIRA

Baristas comunicadores do café especial e apaixonados por cultura gastronômica.

Fotografia:
Erick
Costa Domingos

CASAL DO CAFÉ

Aqui, em uma belíssima missão, hoje viemos desvendar um pouco mais sobre esse amado grãozinho!

Antes de tudo, vamos deixar claro que o café que aqui falamos é o considerado Especial. Isto é, um café 100% arábica, com uma torra adequada e uma seleção de grãos livres de defeitos e avaliado em métricas técnicas, e deve atingir ao mínimo 80 pontos.

Por outro lado, aquele café tradicional, clássico de mercado, tem suas misturas, muitas vezes galhos, palha, folhas, pedras, grãos com defeitos… e por aí vai. E para esconder tudo isso, o processamento queima essa mistura até que o sabor da torra encubra tudo aquilo que não é café. Essa bebida, classificamos como tradicional ou até extraforte.

Entendendo isso, o café de especialidade tem algumas características únicas e muito importantes para tudo aquilo que vamos citar por aqui. A sua complexidade sensorial, ou seja, a possibilidade de sentirmos aromas e sabores específicos. Como por exemplo, notas doces como de caramelo ou chocolate, ou ainda notas mais cítricas como laranja, e frutadas como morango ou pêssego. Outra característica, é sua delicadeza, e para maior aproveitamento da bebida, passa a ser importante considerar o tipo de moagem para cada um dos métodos que escolham usar.

Panorama geral da cena do café no Paraná e Maringá

O Paraná tem uma longa jornada com o café. Durante o ciclo econômico, o estado foi a maior área extensa produtiva do mundo todo, vocês tem noção disso? Acredito que na memória de muitos, ainda tenham lembranças da trágica e marcante geada de 1975, que fez com que muitos produtores mudassem de rumo rapidamente, com legumes, verduras ou a dupla de maiores commodities do agronegócio: soja e milho.

Com os preços oscilantes, jogadas de mercado extrapolativas e tesouras de preço, os pequenos produtores não conseguem mais seguir produzindo cafés de qualidade de maneira rentável. Diante desse cenário, o panorama da cafeicultura, que por tantos anos foi tão real e marcante no Paraná, foi se apagando.

Vivemos hoje um cenário já um pouco diferente, com valorização e acesso à informação dos cafés de especialidade. Os chamados Q-graders, são profissionais capacitados treinados para avaliar os cafés saindo da fazenda para adequá-los, de acordo com suas

características, estabelecendo valor de mercado por comprovação de qualidade. Com isso, os produtores que conseguem entregar cafés dentro das exigências, tem suas sacas compradas por um valor coerente, e em situações de grãos exóticos, os chamados micro ou nano lotes, só podem, muitas vezes, serem adquiridos por meio de leilões. De fato, como uma joia preciosa.

Assim como vivemos a traumática geada no Paraná, uma preocupação real do mundo todo é a crise climática vivida na atualidade e projetada para os próximos anos. Se tratando de um bem tão delicado e sensível, como a fruta que é o café, é preciso considerar essas intempéries na produção para seu futuro. São previstas altas no valor de mercado de toda a cadeia produtiva da fazenda até a cafeteria.

Por isso, reforçamos a importância de discutir e considerar aspectos sustentáveis na produção e consumo de café. Ao falar de café de especialidade, necessariamente falamos de produção em baixa escala, e na maioria das vezes pequenos produtores. Poder nesse produto rastrear seus aspectos técnicos e produtivos, se torna cada vez mais valioso.

Geralmente, ao comprar um café de especialidade, sua embalagem vai contar com informações como nome do produtor ou família produtora, localização das regiões produtivas, nome da empresa ou pessoa que beneficia e torra, e às vezes pontuação e sugestões sensoriais. Tendo esse tanto de informações em mãos, não só a certeza de um produto que entrega tudo aquilo que você paga, mas também a retomada importante de todas as mãos que, com cuidado, garantiram isso. E no fim dessa longa caminhada desde a fazenda, estamos nós, baristas. A técnica

para extração de uma boa xícara de café também é honrar com toda essa jornada.

Aqui em Maringá estamos muito bem servidos com em média 40 estabelecimentos que oferecem café, e boa parte deles, cafeterias que trabalham já com o nosso amado café especial. Eventos que propagam essa cultura vêm tomando força nos últimos anos, destaco aqui dois: a Maringá Coffee Week, voltada aos estabelecimentos, organizando uma semana que impulsiona o mercado, por meio da proposta de um combo de bebida e comida em diferentes estabelecimentos da cidade por um valor fixo. Também o Tnt Pé Vermelho, que é a versão maringaense de um “get together” mundial, onde baristas, atendentes e apreciadores do universo do café, se reúnem toda última quinta do mês, para competir pelo melhor desenho em cappuccino, a latte art.

Gastronomia Lari Yuki e Lucas Ferreira
Gastronomia Lari Yuki e Lucas Ferreira
Fotografia: Erick Costa Domingos

LARI YUKI

Querido leitor, vamos começar pelo começo?

Prazer, sou a Lari! Sou barista há alguns anos, divido meu tempo e dedicação em duas paixões: o café e a comunicação. Costumo dizer que o fato de ser universitária me exige café, e ser barista me impulsiona a comunicar. Nessas duas funções que se alimentam, considero no fim das contas, que sou uma curiosa.

Uma das coisas que mais me empolga é descobrir novas possibilidades sensoriais dentro desse universo imenso que é o “comer e beber”. Lembro que meu interesse começou, assim como o Lucas, pela cerveja artesanal. Entender que era possível sentir cheiros e sabores de elementos que não estavam ali presentes como ingredientes foi revolucionário.

Depois das cervejas e vinhos, passo a enxergar no café toda essa diversidade e mais. A partir disso, o barismo como profissão surge a mim sem grandes floreios. Gostava muito de café e precisava de um emprego. Falando assim, parece prático demais, mas na verdade o universo do café é encantador. Isso porque ele te abraça, te inclui. Envolve pelo estilo de vida, pelas experiências sensoriais únicas, e certamente, viciantes, assim como é a cafeína.

Hoje, para além da rotina do dia a dia do barismo, continuo ainda, sem cansar, me encantando pelos aromas e sabores de tudo! Recentemente tenho abraçado a comunicação disso compartilhando um pouco dos devaneios criativos e gastronômicos de experiências, viagens, conversas em um blog pessoal. Acredito que o café, com toda sua promessa de energia e disposição, me surpreendeu também na sua grande capacidade de conectar. Entender que esse universo todo pode se ligar na comum paixão por comer e beber. Isso é muito rico, e seguimos explorando as cafeterias, restaurantes e botecos por aí. Vamos juntos?

E aí, pessoal, meu nome é Lucas Ferreira. Sou de uma cidade em que, quando digo, as pessoas costumam falar em sequência: “cê é da terra da Joelma?”. Sou de Belém do Pará, mais especificamente da Pedreira, bairro do samba e do amor, onde primeiro me apaixonei por movimentos culturais.

Moro em Maringá faz alguns anos, sete para ser mais exato. Uma coisa que sempre me chamou atenção na cidade foi o consumo de elementos que fazem parte do mundo gastronômico. Como bares, restaurantes, cafeterias com diversas propostas.

Fiz parte de momentos interessantes, como o boom da cerveja artesanal, e trabalhando no ramo me encontrei como um nerd, pelos sensoriais, na busca de aumentar cada vez mais meu repertório de degustação com diversos estilos, possíveis harmonizações e ingredientes diferentes, visitando diversos lugares. Assim, conheci o Quinta do Café, onde fui apresentado ao café de especialidade por dois baristas incríveis: Júlio e Juliana Califani, o serviço, a apresentação e o conhecimento me

fizeram apaixonar de vez pelo café e seu ramo.

Após um período, decidi entrar para o barismo. Me tornei um profissional cheio de energia para mergulhar no mundo do café. Conhecer um Brasil no qual eu não fazia ideia. Histórias, lugares e pessoas incríveis. Me deu acesso a viagens, momentos e pessoas, onde conheci minha namorada, Lari Yuki, uma barista incrível e decidimos dividir nossa paixão pela gastronomia juntos falando e servindo o que mais gostamos pelas cafeterias ou na mesa de um bom barzinho.

LUCAS FERREIRA

Receitinhas

Separamos aqui duas receitas de fácil reprodução, para que vocês possam fazer em casa sem grandes dificuldades. Mas cuidado!

Já te aviso agora que é um caminho sem volta!

UM BOM COADO

PRIMEIRAMENTE:

● Escolha um bom café, preferencialmente especial.

● Sua moagem deve ser média, se possível moer na hora, faz toda a diferença!

● Se tiver uma balança para acompanhar a extração, é ótimo. Mas se não, aposte no copo medidor e colher de sopa que vai ser sucesso também!

VAMOS AO COADO:

● No porta filtros Melitta ou Hario V60, acople o filtro de papel e escalde. Ao passar uma água quente e deixar escorrer, antes do preparo do café, todo o sabor residual do papel vai embora, assim seu café ficará mais limpo e gostoso.

● Adicione 20 gramas de café em moagem média. Isso é equivalente a duas colheres de sopa.

● Adicione água fervente em um primeiro ataque de 100ml, na intenção de umedecer todo o café. Aguarde 40 segundos.

● Adicione mais 100ml de água e aguarde até o tempo chegar aos 1 ‘30 “.

● O último ataque de mais 100ml de água finaliza a extração, que deve acabar por volta dos 3’.

● Por fim, misture e sirva.

Dicas dos baristas

Aproveite o momento de apreciar o café e não deixe de prová-lo em diferentes temperaturas. Geralmente o café mais frio vai evidenciar mais notas sensoriais e de maneira mais clara. Façam o teste!

COQUETEL COM CAFÉ

Para o Rabo de Galo com café, precisamos de um pré-preparo:

● Escolha uma cachaça de sua preferência, ela deve ser prata.

● Moa 80g de café em moagem grossa.

● Em um recipiente hermético (pode ser uma garrafa de vidro ou uma jarra bem tampada), adicione o café e toda a garrafa de cachaça.

● Deixe infusionar de um dia para outro.

● Coe com ajuda de uma peneira e reserve.

● É importante que armazene a cachaça infusionada em uma boa garrafa de vidro, pode ser sua embalagem original, assim não corremos o risco de oxidação.

VAMOS AO COQUETEL:

● Em um mixing glass (ou copo grande), adicione bastante gelo;

● Adicione no gelo: 30 ml de Cynar, 30 ml de Vermute tinto e 30 ml da nossa cachaça infusionada em café;

● Mexa bem com ajuda de uma colher bailarina por 30 segundos;

● Coe com ajuda de um Streiner ou peneira no copo que for servir, em gelo;

● Decore com um zest de laranja, ou laranja desidratada para aromatizar.

Nota dos baristas

Deixe a criatividade fluir! Esse é nosso coquetel favorito com café, mas com essa cachaça existem milhões de possibilidades, divirtam-se!

O processo criativo de Léo Moço

Leonardo Vinicius Silva Moço, nascido em 2000, deu seus primeiros passos na música ainda na infância. Aos 9 anos protagonizou sua estreia como guitarrista amador de maneira inusitada, durante um banho, com a guitarra Tonante de seu pai. A performance improvisada, quase teatral, marcou o início de sua relação visceral com a música.

O hábito de vasculhar o guarda-roupa em busca do violão escondido tornou-se uma metáfora perfeita para o espírito rebelde e inquieto que moldaria sua personalidade e sua arte.

Aos 11 anos, Leo ganhou seu primeiro violão de aço, um marco em sua jornada musical. Naquela época, dividia seu tempo entre partidas intensas de Call of Duty II, ao som de “Rope” do Foo Fighters, e sessões imersivas de Guitar

Fotografia: Kelly Salgado

Hero III: Legends of Rock. O novo instrumento trouxe desafios que o instigaram a compor suas próprias músicas aos 12 anos.

Seu primeiro álbum, Feito Passarinho, começou a ganhar forma aos 19 anos. As faixas iniciais, “Devagar” e “Longe de Mim”, foram criadas durante um período de intensa experimentação. Paralelamente, Leo se aventurava nas complexas harmonias de Tom Jobim. Quando um amigo perguntou: “Por que você quer tocar algo tão difícil?”, ele respondeu com simplicidade: “Porque ainda estou tentando aprender a tocar violão”.

Hoje, aos 24 anos, Leo Moço continua sua busca pelo aprimoramento musical. Admirador de clássicos como “Planet Caravan” do Black Sabbath, ele apresenta uma proposta intimista

e contemplativa em shows que passam por Maringá (PR), Joinville (SC) e São Paulo (SP). Sempre com seu espírito livre e seus acordes em mãos, ele transforma cada performance em um convite à introspecção — e, talvez, ainda esteja tentando aprender a tocar violão.

Nesta matéria, Leo Moço compartilha, por meio de uma audiodescrição, seu processo criativo e sua trajetória como autodidata. Aperte o play e aproveite a melodia!

Criação Fernando Souza

SIDNEI PUZIOL

Fundador e pesquisador do Núcleo Terreno, grupo que integra Teatro, dança Butô e (Eco)Poéticas do Corpo

Fotografia: Erick Costa Domingos

Butô - A dança japonesa que subverteu a arte por

O butô surgiu no japão no final da década de 1950 com Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, como uma resposta à influência ocidental e em busca por uma identidade corporal que rompesse com as formas tradicionais da dança e do teatro.

Chamado inicialmente de ankoku butoh - “dança da escuridão” -, o butô explora o lado sombrio e visceral da experiência humana. A performance inaugural, Kinjiki (1959), inspirada no romance de Yukio Mishima, chocou o público ao abordar temas tabus da sociedade japonesa como sexualidade e pulsão homoerótica. Desde então, o butô extrapolou suas origens

e impactou o cenário artístico global, inspirando novos diálogos sobre corpo, identidade e política.

Tatsumi Hijikata queria descobrir a dança que já acontecia dentro do próprio corpo, e diante desse desejo, desafiou a lógica e abraçou o imprevisível em busca de um corpo que fosse capaz de se metamorfosear. Para o artista, a dança deveria transcender o corpo físico, permitindo que o dançarino “sequestrado” expressasse uma identidade em constante mudança, como mencionou em 1968, em entrevista ao escritor Shibusawa Tatsuhiko na Revista Tembō:

HIJIKATA: [...]. Eu acho que eu sempre fui louco por bens e objetos pessoais. Eu adoro quando um ser humano quase vira uma coisa ou parte de um ser humano se transforma completamente em uma coisa, por exemplo, uma perna artificial, criando uma relação de apego para com ela, fica obcecado por esse tipo de coisa. Minha intuição me diz que o menino lobo era mesmo um menino e um lobo.

SHIBUSAWA: Você não consegue se tornar um animal?

HIJIKATA: Eu me torno, mas nesse caso eu não me limito a simplesmente imitar o animal. O que eu quero são os movimentos que um animal mostra a uma criança, não os que mostra a um adulto. Observe um cão, por exemplo. Como ele se move quando brinca com uma criança é totalmente diferente de como ele se move ao brincar com adultos como nós. Para chegar a esse ponto, você tem que se tornar um pedaço maciço de osso (apud Aleixo, Hashimito, 2022, p. 163).

Dança Sidnei Puziol

Em seus textos-manifestos, conhecidos por seu estilo único, intraduzível - e por muitos olhares vistos como incompreensíveis, Hijikata expressava seu desejo de se transformar em outra coisa, seja essa coisa um animal, um espírito ou um objeto, e acreditava que o butô seria uma forma de transformar seu corpo e expandir sua essência. Esse desejo de metamorfose é a parte essencial do butô, onde o dançarino experimenta a transformação na própria carne.

No final da década de 1960, o butô viveu uma reviravolta sob a influência das mulheres. Dançarinas como Yoko Ashikawa, Natsu Nakajima e Saga Kobayashi trouxeram profundidade e complexidade, moldando novos caminhos para sua evolução. Enquanto Hijikata dedicava-se à direção e desenvolvia uma metodologia rigorosamente coreografada, Ohno aprimorou sua abordagem mais espiritual e improvisada, dançando pelo mundo até os 90 anos. Essas duas abordagens, embora pareçam opostas, se completam de inúmeras maneiras, e reforçou a dança butô como um terreno

fértil do encontro entre o consciente e o inconsciente, onde os limites e regras foram destruídos.

Além das fronteiras

Ao longo da década de 1970, o butô ultrapassou as fronteiras do Japão, encontrando grande acolhimento na França e em outros países europeus. Esse encontro fomentou uma intensa troca cultural, provocando uma ruptura histórica na dança e no teatro, ampliando os horizontes da arte. Entretanto, por muito tempo, a dança butô foi vista com estereótipos e incompreensões no Ocidente. Mas, ao atravessar suas próprias barreiras culturais e simbólicas, essa dança começou a ressoar em diversas culturas, abrindo espaço para adaptações que incorporam diferentes vivências e identidades.

Vale destacar que, desde sua origem, o butô expandiu-se para além da estética e se tornou uma arte com forte engajamento político. Min Tanaka, renomado dançarino

Tatsumi Hijikata - Kamaitachi #31, 1968, Fotografia de Eikoh Hosoe
Dança Sidnei Puziol

japonês, expressou essa visão ao afirmar que “não se dança em um espaço; dança-se o próprio espaço”, sugerindo que o corpo se funde ao ambiente e está em constante transformação.

Dessa maneira, ao pensarmos na dança butô e sua relação com o Brasil é importante buscarmos repensar esse movimento, não apenas como estética, mas como uma abordagem filosófica e cultural, entender os significados mais profundos propostos pelos criadores dessa dança. Ao invés de ser vista como uma forma de expressão pessoal, o butô pode ser entendido como uma prática de resistência cultural e social, questionando relações de poder e afirmando identidades autênticas, livres dos estereótipos superficiais da arte globalizada.

Esse processo de adaptação e mestiçagem cultural tornou o butô simultaneamente japonês e universal. Hoje, os dançarinos de butô não se limitam a recriar as tradições de Hijikata ou Ohno; eles trazem ao palco suas próprias experiências A renomada dançarina Yumiko Yoshioka desenvolveu sua própria forma de trabalho corporal com a dança butô, apresentando a ideia de ressonância corporal como um meio de se abrir para as camadas mais profundas do mundo interior e redescobrir uma beleza sutil em cada movimento, retirando a tensão do corpo ao dançar. Enquanto, Motoya Kondo adota uma abordagem existencial e intercultural, enraizada no conceito de “kara-da” (からだ), que significa corpo em japonês, mas um corpo como espaço vazio. Ele vê o corpo como um canal para explorar a realidade por meio da relação entre corpo-mente-espaço, inspirado pelos ensinamentos de Yoshito Ohno, que transmite a essência do butô de Kazuo Ohno. Motoya também incorpora elementos de rituais e danças tradicionais de culturas como Bali, Nepal e Índia. A dança butô não se propõe a “representar” algo específico,

mas permite que cada dançarino projete suas próprias experiências na dança e no movimento, abrindo espaço para que a metamorfose ocorra.

Diante das inúmeras formas que os dançarinos de butô estão explorando e levando essa dança-filosofia para o mundo, o butô se expande e se ramifica como as raízes de uma grande árvore. Talvez o que mais fascine seja exatamente essa capacidade de se moldar e integrar outras culturas, revelando que, por mais diversas que sejam nossas origens, as emoções e os impulsos que nos movem são, muitas vezes, universais.

Aleixo, D. ., & Hashimoto, L. . (2022). Hijikata Tatsumi: duas entrevistas sobre a dança das trevas Estudos Japoneses, 48, 156-170.

Yumiko Yoshioka em “EN-ON”, 2009, 1968 Fotografia de Chronis Giannopoulos
Dança Sidnei Puziol

ALINE RODRIGUES

Doutora em letras, atua como professora particular de redação com o Método Raposa

Fotografia: Erick Costa Domingos

“CONECTAN TO, TUM, TÁ” E SOBRE AS SOLAS DOS PÉS por Aline Rodrigues

Eu li, uma vez, uma crônica da Marina Colasanti. Era uma espécie de dicionário feito por crianças. A primeira palavra que compunha o glossário era “adulto” e a definição do pequeno de oito anos foi mais ou menos assim: pessoa que toda vez que fala, primeiro, é dela.

Eu nunca vi verdade tão certa. Olha eu, no meu primeiro texto para a MAG, comecei já falando de mim (olha a primeira palavra da minha primeira publicação aqui).

Eu (tá aí, mais uma vez) me conformei: é assim mesmo, sou adulta, sou assim. Na mesa do “buteco” fico insuportável. Perdoem-me, amigas! Porém, a partir de agora, eu (dá-lhe) vou tentar jogar na dialogia. Vou falar de mim? Vou! Mas não desista da leitura agora, leitor!

Eu já te avisei, vou jogar na dialogia. Vou falar de mim me misturando a outras duas (ou quatro) mulheres.

Vai funcionar assim: vou contar a MINHA experiência assistindo duas artistas, em dois espetáculos que vi em Maringá. Se você for daqui ou da região, possivelmente, conhece o trabalho delas, (se não conhece, procure conhecer). Vou tentar te explicar um pouco de como cada uma dessas artistas me arrancou de mim, em movimentos demolidores que só a arte consegue provocar. Não é uma crítica, não é uma análise. Quero apenas compartilhar com você essa sensação de, por um momento, deixar de existir, deixar de ser adulta centrada no “eu”, deixar de SER eu.

Fotografia: Renato Domingos Arte: Fernando Souza

Não vou dar contextos longos dos espetáculos, as sinopses deles estão no Google. Eu quero agora somente reviver essas experiências que tive, porque eu sei que você também já se viu morrer e renascer enquanto assistia a um peça, ouvia ou dançava uma música, admirava uma pintura. Se nunca viveu isso, calma! A arte vai te encontrar, ela sempre encontra!

“Conectanto, Tum, Tá... Eu sou muito lógica, falei pro cê, eu sou muito lógica!”, repete Cléo, em “Tempos de Cléo”. Vi a Márcia Costa fazer esse monólogo e teve mesmo total lógica. Era lógico que aquele papel nasceu pra ela.

“Conectando... Tum, tá! Eu sei das coisas”. Você que assistiu à peça lembra da entonação da voz da Cléo repetindo essas frases? Para você que se esqueceu e para você que não viu, era mais ou menos assim: os homi tem preconceito é com os ticidos. Essa afirmação, numa voz forte, confiante; uma voz conectada, lógica, alta, feminina, com um fundo grave. Uma voz que saía alta pela boca dela e a gente sentia no ouvido e no nariz.

“Os homi tem preconceito é com os ticidos”. É lógico! Como pessoa em situação de rua, Cléo entendia de preconceito e, consequentemente, de tecido.

O ticido... O ticido... entrei nessa pira do ticido... Olhava pros meus, pros das outras pessoas. É lógico! Os tecidos! Lembrei dos tecidos do Nego Paulo, o morador de rua “de estimação” de Ubiratã onde eu nasci e passei a infância. Lembrei dos tecidos das camisas do meu avô, algumas já desgastadas e transparentes nas costas. Lembrei dos tecidos da minha vó: saia de brim até o joelho. Lembrei que minha mãe uma vez contou que, antigamente, pobre comprava a peça inteira do tecido e fazia roupas daquela mesma peça para todo mundo da família.

Seus tecidos, certamente, te entregam. O preconceito é com os tecidos!

“Conectando... Tum... Tá!” De palavra em palavra, Cléo me emaranhou na sua loucura lógica.

Escuta as notícias no rádio: menino de 12 anos atira, mata... E em meio a cada frase do jornalista,

ela repete o que ele tão racionalmente diz. Ela somente repete. A voz, firme, feminina, fundo grave, se enfiando pelos ouvidos e narizes da gente. Sem ironia. Só repete. E, assim, frase dele e frase dela, tudo se desmancha na loucura. A notícia passa a ser irracional e Cléo, claro, lógica! O rádio: Menino mata. Cléo: Menino mata. O rádio: Matou, 12 anos, bandido... E Cléu: Bandido! Menino Bandido! E eu: Menino, bandido, 12 anos!

A naturalidade do jornalista, a reiteração de Cléo, o fato, o acontecimento, o absurdo, o irracional.

Você já pensou, leitor, na força da arte? Como é possível alguém transformar esse contexto ilógico, imoral, essa sociedade doentia, em uma ironia questionadora, simplesmente sendo LÓGICA? Logicamente repetindo a “verdade” lógica e, nesse gesto, colocando a loucura dentro da verdade? Sem tom irônico, revelando a ironia... Escancarando a loucura que é cuspida de dentro do rádio (das mídias) todos os dias

Fotografia: Renato Domingos

nas nossas cabeças?

A peça toda é um desmanche da verdade diante da loucura de Cléo e, obviamente, ela me arrastou para essa loucura. Mas, ninguém cai desavisado na loucura dela não. Desde o início ela avisa: “Eu sei tudo, já sabia de tudo antes de nascer... Sabia de tudo o que ia acontecer... Mas ninguém me escuta”. E lá pelas tantas, naquele momento da peça em que a energia pode cair e o expectador ensaia voltar para a realidade, se desencantar e sair da “lógica” de Cléo, ela, para nos puxar de volta e para não deixar dúvidas de que ela é lógica, avisa

que está estudando economia. A “moradora de rua” está fazendo economia. Valha! E lá vai ela novamente, abrindo as portas do delírio humano com uma questão de seus estudos economísticos: “É a gente que faz economia ou é a economia que faz a gente?” Pergunta, grita e aponta. A voz entra nas minhas orelhas e no meu nariz.

“Cheque-mate!”

A segunda experiência não foi bem com uma peça de teatro. Foi, na verdade, em um espetáculo de dança. “Mizu” trouxe o Butô, uma dança japonesa com histórico de luta e resistência. Não vou me adentrar nesses detalhes técnicos, culturais e históricos. Voltemos para o foco.

Os dançarinos, logo de saída (ou de entrada, não sei), já dão aquele “pancadão” de desacelero na gente. A dança é calma, parada, lenta. Movimentos violentamente lentos se adentram na tormenta do espectador

que acabou de sair do mundo acelerado lá de fora do teatro. Em um dos momentos iniciais da dança, a atriz e dançarina Joyce Teruya caminha vagarosamente, passando as duas mãos pelo seu ventre. Ela faz só isso por vários minutos. Juro! Ela caminha e passa as mãos pelo ventre. Só!

O rosto dela está coberto, ou seja, é um trabalho plenamente corporal e de simplesmente caminhar e passar as mãos pela barriga.

Eu não sei o que isso significaria

Fotografia: Renato Domingos

dentro das lendas orientais que guiaram o espetáculo. Mas, para mim, essa caminhada foi arrebatadora. Ali, não existia mais Joyce e, consequentemente, não existia mais Aline. Aqueles passos vagarosos, aquela postura forte deslizando suave no palco iam me sugando praqueles pés. As solas se esfregando no chão. Uma e depois a outra. Parece que eu comecei a ouvir o som de cada pé passando pelo chão. Primeiro baixo, depois mais alto, e mais alto... Novamente, eu sendo levada pelo delírio desses artistas... O que vocês tem, artistas? Um pé depois o outro, devagar, uma mão e depois a outra, passando pela barriga, repetidamente. E a beleza de fazer um teatro inteiro vidrar nessa cena... De verdade, o que vocês tem?

Em outro momento, ela dança na água. Braços , pernas, joelhos, água, cabelo, água, dedos, água, pés, mãos, água... A cabeça! A face! Ela arregala os olhos, coloca a língua para fora, encara o público por alguns segundos e empurra todo mundo pra ancestralidade dela. Realmente, não era mais a Joyce, era todo mundo, todo o Butô, toda a galera dela, todos os seus ancestrais japoneses olhando Maringá.

E, claro, nessa encruzilhada em que ela estava, encontrando seu povo por meio da dança, ela me levou junto.

Em um dos últimos atos do espetáculo, entra uma deusa de branco, linda, com leque vermelho na mão, conquistando a gente, seduzindo... Caramba, que mulher! O teatro inteiro deve ter ficado com vontade de ficar mais um pouco na presença dessa deusa, daquele olhar... A deusa desce, deita no chão, de repente ela é mortal, como qualquer um de nós. E dança, rola, mancha o palco com o vestido branco. Eu queria lembrar mais detalhes, mas o que vem à tona sempre é o arrebatamento.

Como é bom sair de si, não concorda? Ser arrebatada, tocar as linhas tortuosas da loucura, ouvir com os ouvidos e com o nariz, escutar os pés se arrastando, encontrar uma japonesa nas águas, uma Cléo na economia, ticidos tecidos, desacelerar... Talvez, esse texto seja mesmo sobre mim, afinal. Mas

também queria que fosse sobre a Cléo, a Márcia, a Joyce, o teatro, a dança... A arte... Também queria que fosse sobre você, leitor... A dialogia, enfim.

Post scriptum: 1) Foi uma honra te conhecer, Márcia Costa; 2) O texto de “Tempos de Cléo” é de Carolina Santana; 3) Junto com a Joyce, o incrível Sidnei Puziol também fez o Mizu lindamente, aqui eu quis falar de mulheres artistas maringaenses que me impactaram. Mas, certamente, Sidnei brilhou e me impactou muito também; 4) Depois de Mizu, fico com uma espécie de vergoinha toda vez que vou encontrar a Joyce, coisa de fã.

Fotografia: Renato Domingos

BEATRIZ PROTAZIO

Professora e pesquisadora da Literatura. Brinco com as palavras de vez-em-quando.

COMEÇAR PELOCOMEÇO

porBEATRIZPROTÁZ

Será que é feio começar um texto com a palavra “não”? E com uma pergunta, então, será que é? Digo, feio, sabe, começar um texto assim?

Durante toda a minha vida — e não é como se eu tivesse vivido tanto assim —, tive sempre uma dificuldade monstruosa de começar coisas. Você já? Pois bem. Então você sabe como é que é. Rodeia, senta, levanta, passa café, varre o quarto, tira o pó dos móveis, vai à farmácia. Quem sabe depois do treino dá jeito? Outros círculos.

E como é lindo, né, aquele disco “Circuladô”, do Caetano. Eu, aliás, quase não sirvo pra falar mal do Caetano. Você pode até escolher a cor do meu pano.

E também, o que é que a gente tem pra falar hoje em dia? Todo mundo parece que já falou tudo... e continua a falar. Fala sim, mas será que ouve? Ai, são outros quinhentos, porque, afinal, rede social só beneficia quem fala, posta; recompensa pra quem ouve, não tem não. Somos maus ouvidores, e isso com Deus tendo dado pra gente dois ouvidos e uma boca.

E deu dois olhos também. É pena que a gente os fecha pra tanta coisa. Deveria é abrir um bocadinho. E vez-em-quando, até arregalar. Principalmente quando abre os jornais.

É assim que eu costumo fazer: e você já circulou comigo um bom bocado. Viu só? Falei nadinha do que queria dizer. Eu ia era começar falando dos amores de infância. Aquela primeira pessoa que a gente lembra de ter gostado e que, depois, não lembra mais. Até lembrar de novo.

Um dia, isso já tem muitos anos, um bocadão, encontrei o primeiro garoto que tenho lembrança de ter gostado: já adultos, numa balada. É curiosa a sensação que a gente tem quando isso acontece: é um passado que chega com calma, fazendo uma brisinha suave de noite de primavera, só pra dar o ar-da-graça e depois ir embora. Esse amor da infância, sempre prometido e, raramente,

realizado, tem gostinho de eternidade. Talvez este sim seja o nosso verdadeiro “happily ever after”. Um sonho eterno que só viveu e vive na nossa imaginação. Lidar com o ser humano real é outra história. Outras. Mas, tão importante quanto botar os pés no chão e olhar o outro nos olhos, quando a vida real encosta, é manter vivo o sentido de sonho. Uma das condições básicas pra manutenção da vida humana? Se você me perguntar, eu direi: a fantasia. Duvida? Vem cá espiar: Alguém ensinou você que você precisa sentir fome? Não, não é? Necessidade básica. Bingo!

Alguém ensinou você que você precisa sentir sede? Não? Não né? Necessidade. Bingo! E brincar, alguém ensinou você que você tinha de brincar? Hm... não lembra não? Procura aí na memória. A mim, ninguém ensinou. Brincava sempre, todo dia. E quando as responsabilidades com a escola começaram a tomar o tempo da brincadeira, não foi boa a recepção. Foi preciso muito manejo. Brincadeira: instintiva. Necessidade? Parece. Bingo? Bingo!

Brincar é fantasiar e ler também é fantasia... ou, momento em que a fantasia tem vazão. Escutar música. Assistir a um filme. Ir a um festival. Jogar futebol. Beach tênis. Jiu-Jitsu. Tudo isso é adulto tentando brincar de novo pra responder à necessidade de fantasiar. Tem gente até que escreve, pra dividir fantasia.

A lembrança daquele menino veio a este propósito numa manhã de quinta-feira: mesmo quando e se o amor do aqui e agora passar; o primeiro amor, o de infância, fica pra sempre, bem lá naquele lugar ao qual ele sempre pertencerá, o da fantasia. Num sol escaldante, depois de tomar uma xícara de café com gostinho de casa, senti uma brisinha fresca me abraçar e cochichar: Nesta vida — e, até onde me consta, a gente só tem uma —, o que importa primeiro, pra começar, é ter sentido de sonho.

BRUNO PESCH

Artista visual e professor de desenho e pintura. Graduado em Artes Visuais e Mestre em Letras.

Ser Criativo por Bruno Pesch

Há quem associe a criatividade à capacidade de criar algo “nunca feito”. Essa forma de entender a criatividade, comumente, está associada ao pensamento de que alguém criativo, ou que possui maior facilidade com algum fazer (seja ele artístico ou não), é uma pessoa que tem algum tipo de dom.

A criatividade e o exercício de criar estão mais próximos de nós do que imaginamos. Eles não são restritos a um pequeno grupo de pessoas. A única coisa que precisamos para ser mais criativos é estimular nossa percepção do mundo. As obras de arte, inclusive aquelas que são mais conhecidas, como as pinturas de Leonardo da Vinci, Caravaggio, Van Gogh, Anita Malfatti, as esculturas de Victor Brecheret, não surgiram do nada, ou apenas ao sabor do acaso; existe um processo que conduziu até elas, uma técnica que foi usada, uma temática que foi apresentada. Em outras palavras, ser criativo está relacionado à nossa capacidade de olhar para o mundo. O olhar do artista está voltado para os detalhes que formam o mundo. Em um trecho de “A poética do espaço”, Gaston Bachelard afirma que “o detalhe de uma coisa pode ser o sinal de um novo mundo, de um mundo que, como todos os outros, contém atributos de grandeza. A miniatura é uma das moradas da grandeza”.

Todas as pessoas podem ser criativas, buscar respostas diferentes das tidas como

“certas”. Um bom início para se tornar mais criativo é treinar o olhar para perceber os sutis detalhes que formam o mundo. É olhar para as nossas referências, ou para aquilo que gostamos (filmes, séries, fotografias, pinturas, espetáculos de dança, teatro etc.) e perceber seus detalhes. Se é um desenho, uma pintura, uma fotografia ou uma escultura, podemos atentar às suas cores, formas, traços, como a composição está organizada, sua temática, entender o que tudo isso desperta em nós mesmos.

Podemos nos perguntar: de quais outras coisas lembro ao ver? Como foram feitas? Todas essas associações colaboram no estímulo da criatividade.

No dicionário Michaelis, encontramse as seguintes definições para o termo criatividade: “1 Qualidade ou estado de ser criativo. 2 Capacidade de criar ou inventar; engenho, engenhosidade, inventiva. 3 Capacidade que tem o falante nativo de produzir e compreender um número enorme de enunciados em sua língua, mesmo aquele que nunca ouviu ou pronunciou”. Em todas as definições apresentadas no dicionário Michaelis existe um ponto em comum, a capacidade de olhar e entender o mundo à sua volta para criar algo.

Nas páginas iniciais de “Roube como um artista”, Austin Kleon afirma que não existe nada no mundo que seja completamente original e que todo trabalho

criativo é feito a partir de algo anterior. Para o autor, a grande questão é saber como se apropriar de nossas referências para criar ou, para usar as palavras do autor, “roubar como um artista”.

Uma das grandes dicas dadas por Kleon é estudar o processo de criação de alguém que você ame. Nesse estudo, o foco principal é conhecer sobre essa pessoa. Finalizada essa parte, busque por mais três pessoas que inspiraram o artista que você estudou e pesquise sobre elas. O artista não “rouba” de um único lugar ou pessoa, ele rouba de diferentes lugares. Nesse processo de furto, ele “estuda, credita, transforma, remixa”.

Em uma passagem do livro “Regras da criatividade”, Tina Seelig explica: “um modo de aumentar a criatividade é aperfeiçoando a capacidade de observar e aprender, ao conectar e combinar ideias, reenquadrar problemas e ir além da primeira resposta certa”. Para ela, a capacidade criativa pode ser aplicada com a construção de espaços que busquem pela resolução de problemas, que apoiem o desenvolvimento de novas ideias.

Toda pessoa criativa tem outras pessoas que a inspiram, referências (livros que leu, séries e filmes a que assistiu, músicas que já ouviu, desenhos, pinturas, esculturas que já viu). Cada um possui uma

forma de criar e, para isso, usa ferramentas e métodos que um dia aprendeu. Diariamente, devemos continuar buscando formas diferentes de usar esses mesmos materiais para alcançar novos efeitos. É nesse processo que se descobrem novas possibilidades de uso para os mesmos materiais. Em meu trabalho, uso lápis, giz, papéis, pincéis, tintas, solventes, paleta etc. Por mais que conheça esses materiais, as técnicas de como usá-los, estou sempre buscando formas diferentes de manipulálos e combinações que ainda não testei. Em meio a esses testes, erros acontecem. O que aprendi com o tempo foi os transformar em acertos, aprender com eles.

O que aprendemos com nossas referências (com as coisas a que assistimos, com as músicas que ouvimos)? Quais questionamentos elas provocam? Não existe um certo ou errado. O que precisamos aprender é olhar para os detalhes. Buscar inspiração no que outras pessoas fizeram, olhar para os detalhes de sua produção, estabelecer conexões com outras produções, experimentar coisas diferentes, fazer algo que te desafia, olhar para o caminho que você faz diariamente e observar as variações que acontecem nele no decorrer de um dia são ótimas estratégias de se tornar criativo.

Roube como um artista

Roube como um Artista, de Austin Kleon, é um guia prático para a criatividade. O autor explora como a originalidade surge ao combinar referências, aprender com mestres e compartilhar ideias. Com dicas acessíveis, incentiva a curiosidade e o aprendizado contínuo.

Movimento e arte em foco: conheça A CORPO INTENSA

Dança Fernando Souza

Desde o final de 2020, A CORPO INTENSA tem sido um ponto de encontro para artistas e comunidades se conectarem através do movimento. Nascido como um convite ao corpo e à experimentação, o projeto oferece oficinas e encontros que exploram a dança contemporânea e a performance, fomentando uma relação entre técnica e expressão artística.

O coletivo é composto por cinco artistas que trazem experiências diversas, em movimentos de enriquecer as práticas e ampliar os horizontes do público: Iraquitan Fagundes (ballet clássico e musicalidade), Higor Kuroi (performance e dança contemporânea), Francielle Germano (pilates, dança e condicionamento físico), Isabela Stresser (dramaturgia e performance) e Patrick Mazefe (dança contemporânea). Essa mescla de habilidades permite que as ações sejam marcadas por estímulos sonoros e visuais que dialogam com a cena e com a comunidade.

Mais do que uma iniciativa artística, o coletivo surgiu para preencher uma lacuna na oferta de atividades ligadas à dança

contemporânea na cidade e região. Ao criar um espaço inclusivo, especialmente para a comunidade LGBTQIAPN+, e ao promover encontros seguros para expressão e aprendizado, A CORPO INTENSA tem gerado impacto significativo, inspirado novos interessados e reaproximado antigos praticantes da dança.

Além das oficinas regulares, o coletivo tem se consolidado no palco com espetáculos como Estudo de Movimento N1 - A Morte e Estudo de Movimento N2O Amor, apresentados por meio do edital Convite à Dança, e com o projeto premiado Gravidade, previsto para estrear em 2025, e que contará com direção de Ana Clara Poltronieri.

A CORPO INTENSA é uma iniciativa que ressignifica o corpo e a cena, convidando o público a sentir, se mover e experimentar.

Dança Fernando Souza

Qual é a principal inspiração ou tema que guia o trabalho coreográfico de vocês?

Consideramos a própria corporeidade de cada integrante do coletivo, valorizando o momento presente e as trajetórias individuais. Desde o início, buscamos explorar como cada corpo se moveu até aqui, suas peculiaridades, desejos e desafios na dança. Essa abordagem nos permite olhar com atenção para a individualidade de cada bailarine, criando um espaço para a troca e para a construção coletiva.

Brincamos e aprendemos uns com os outros; buscamos incorporar aspectos dos movimentos de cada integrante em nossas pesquisas. Essa interação não só fortalece nossa identidade como coletivo, mas também enriquece nossas propostas de improvisação e contato físico, ampliando nossas possibilidades criativas.

Os temas que guiam nosso trabalho frequentemente emergem de nossas próprias vivências e demandas artísticas e surgem de forma orgânica nos encontros. Há uma constante troca de referências e um profundo respeito pelas histórias que compartilhamos, o que dá direção às nossas criações e conecta nosso movimento ao coletivo como um todo.

Como vocês equilibram a individualidade de cada dançarino com a necessidade de coesão no grupo?

Cada integrante traz uma estética corporal única, marcada por suas personalidades e experiências. Valorizamos essas particularidades e buscamos harmonizálas por meio de uma troca constante de ideias e movimentos. Muitas vezes, essa interação cria momentos de reconhecimento, onde um movimento de um integrante reflete o estilo de outro, mostrando como as individualidades se integram ao coletivo de forma orgânica.

Para alcançar esse equilíbrio, delegamos funções e dividimos responsabilidades nos momentos de pesquisa e isso permite que cada um contribua com sua visão e práticas. Além disso, trabalhamos com profissionais que

entendem e respeitam essa diversidade, o que ajuda a lapidar nossas criações. Assim, nossa base de ideias compartilhadas se conecta às singularidades de cada integrante, criando um grupo coeso, mas que nunca perde a riqueza de sua multiplicidade.

Apresentação Estudo de Movimento N1 - A Morte Fotos de Erick Costa Domingos
Dança Fernando Souza

Qual foi o maior desafio técnico ou criativo enfrentado na produção de algum dos espetáculos?

Um dos maiores desafios para um grupo como o nosso, que iniciou suas atividades sem subsídios e sempre trabalhou com um elenco numeroso, é organizar os horários para que todos possam estar em sincronia. O trabalho coletivo exige essa organização e o comprometimento de cada integrante para que os projetos avancem de forma consistente.

Um ponto interessante é que, embora as divergências de ideias pudessem ser um problema, sempre lidamos muito bem com elas. Temos um ambiente aberto, onde cada pessoa está disposta a ouvir o outro. Nosso foco é o bem coletivo, não nos apegamos a ideias fixas e fluímos com os processos criativos. Isso tem sido crucial para mantermos o coletivo unido e funcionando ao longo do tempo.

No início, tivemos um grande desafio ao propor nosso primeiro espetáculo. Apesar da vontade de estarmos juntos em cena, ainda

não tínhamos uma dramaturgia ou um tema definido. Cada um trazia sua individualidade, mas faltava um eixo comum. Essa dificuldade acabou sendo resolvida de forma quase natural: quando fomos selecionados para uma apresentação e recebemos a data de véspera de Finados, surgiu o tema ‘A Morte’. Esse tema nos atravessou de formas diferentes, mas nos uniu e abriu um caminho criativo coletivo. Curiosamente, nossa segunda apresentação foi no Dia dos Namorados, e isso acabou gerando uma brincadeira interna. Sempre que há um feriado ou uma data especial, as pessoas já perguntam se estamos preparando um espetáculo para a ocasião! É algo que virou uma marca do grupo e nos faz lembrar do quanto é especial transformar desafios em oportunidades criativas.

ISABELA STRESSER

Fotografia: Ellen Sara
Dança Fernando Souza

FRANCIELY GERMANO HIGOR KUROI

Dança Fernando Souza

Como vocês integram outros elementos artísticos, como música, iluminação ou figurinos, à narrativa corporal?

A estética sempre foi um elemento central no nosso trabalho, mas nem sempre buscamos o que é confortável ou agradável aos olhos e ouvidos. É mais sobre fazer da estética uma extensão do corpo em movimento. Por exemplo, mesmo quando a música para, o movimento de alguém no grupo carrega essa musicalidade, como se o som ainda pudesse ser ouvido através do corpo dançante. Essa relação visceral com a música e com o movimento é algo que nos define profundamente.

Somos um grupo multifacetado, no qual cada integrante explora diferentes segmentos artísticos além do movimento, como poesia, artes plásticas, música, atuação e cinema. Tudo isso se interliga, criando um tecido criativo único. A música, em particular, sempre esteve presente como um estímulo central. Desde o início, nossa ideia era nos colocar em um espaço com uma playlist tocando e deixar o corpo responder ao som. Quase todos os integrantes já tiveram experiências performáticas em

festas de música eletrônica pela cidade, e essa fusão entre cena e música contemporânea é algo que abraçamos e valorizamos. Ainda assim, também exploramos elementos mais orgânicos, como quando o bailarino Irakytan propõe exercícios baseados nas melodias dissonantes do clarinete ou em músicas com instrumentos acústicos.

O figurino, por sua vez, vai além de uma função estética; ele se conecta profundamente com o tema proposto, funciona como uma ferramenta dramática que dialoga com as artes visuais e com a narrativa que queremos construir.

Outro aspecto importante é como criamos o ambiente para as nossas oficinas. Ambientamos o espaço com luzes mais amenas, o que estimula os sentidos e nos ajuda a entrar em um estado performático. Esse recurso nos permite acessar nossas vulnerabilidades de uma forma intimista e torna cada encontro único. Para nós, essa atenção ao espaço, ao som, à estética e ao figurino é o que transforma cada experiência em algo singular e imersivo.

Oficina aberta O AMOR E A MORTE - Foto de Junior Dias
Dança Fernando Souza
Oficina aberta O AMOR E A MORTE - Foto de Junior Dias
Dança Fernando Souza

Playlist das oficinas

Confira a seleção de músicas utilizadas pelo coletivo em suas oficinas .

Dança Fernando Souza

RASH CARREIRA

Idealizadora do

Culturama e produtora musical no

.

Ateliê
Mora Music Studio

A dificuldade do artista em vender

Quanto custa sua arte?

Talvez uma das perguntas mais difíceis para artistas que estão “começando a se aventurar no mundo capitalista”. É difícil porque envolve amor, paixão, tempo, dedicação, sonho, suor, e [insira outro tipo de romanticismo aqui]. Antes de se desesperar e pensar: Meu Deus, o valor que eu gostaria, ninguém vai pagar! Respire fundo...

Talvez não agora..., mas tudo tem seu tempo. Eu entendo que é difícil ser artista, vendedor, fazer o marketing, postar, repostar, responder, investir, gastar, etc etc etc etc!!!! Por isso venho compartilhar um pouco da minha experiência no assunto (uuuui, fala dela!!)

Não é a primeira vez que, ao perguntar o preço de um serviço artístico (fotografia, encomenda de pintura, produção musical...) eu me deparo com uma pessoa insegura por trás da negociação. Normal. Não é fácil vender. Mas 99% das vezes, nós, clientes, já estamos interessados no seu produto ou serviço. Nós só queremos saber QUANTO custa. Pra ver se vamos conseguir pagar. E aí o artista-vendedor tremendo na base, manda 12 áudios de 5 minutos, 2 PDFS completos explicando tudo. Mas não manda o preço.

Isso quando não demora 3 dias pra responder, muito preocupado em mandar a resposta PERFEITA (spoiler: ela não

existe). E aí fala: Ai! Me desculpa, estou numa correria tão grande...!!!!!!! (E quem não tá? Kkkkk).

Mas vamos lá, meu anjo, venho trazer soluções. Vou literalmente te dar o OURO. Pegou papel e caneta pra anotar?? Ou tira uma foto e guarda pra ler depois!

Primeiramente, vou listar abaixo como eu faço e tem dado certo (são mais de 10 anos trabalhando com aulas, arte, música, cultura. Então aprendi algumas coisitchas).

1) RESPONDA o seu cliente. Gente, juro, vai levar 10 segundos pra você pelo menos mandar uma mensagem dizendo: Oi, fulano, agradeço a procura, já te respondo certinho!

2) RESPONDA o seu cliente. E não demore muito. Agora, com tempo, responda o que ele te perguntou. Não é pra ser tão difícil assim.

3) PARE com mensagens automáticas. Tudo bem ter um texto pronto com valores e informações, você deve ter isso. Mas ninguém merece ficar recebendo mensagem automática no whats toda hora, toda vez a mesma coisa, ugh, como enche o saco! Além disso, tenho certeza que você, assim como eu, odeia robozinhos que respondem. Eles quase nunca ajudam.

4) SEJA HUMANO! Você é humano, não é? Espero que sim. Então entenda que a pessoa que te procurou, quer,

minimamente, uma resposta humana. Seja claro, seja simpático, seja quem você é (a não ser que você seja muito chato, no mais, é tranquilo).

5) MATERIAL: Agora vem a parte mais técnica. Tenha pronto um material, de preferência bonito (pra isso eu indico Fernando Souza do Maringaense Cultural #publi kkkkk) com suas informações, valores, cargas horárias, materiais... e tudo mais que achar pertinente que o cliente saiba, como se fosse uma espécie de portfólio. IMPORTANTE: o cliente não precisa saber TUDO. Pelo menos não nesse momento inicial. Entendo que você quer explicar o seu conceito, suas influências, colocar seu currículo de 59 páginas, mas ninguém vai ler. Seja breve. Estamos na era do tiktok, ninguém mais tem paciência pra nada (herança da pandemia).

6) NÃO FOI DESSA VEZ... Não vendeu? O cliente não te respondeu mais? Fique tranquilo, é mais comum do que parece. Não vai ser a última vez. E não tem problema nenhum mandar uma mensagem perguntando se ele leu sua proposta, seus valores, se ele tem alguma dúvida. Coloque-se à disposição. Hoje em dia as pessoas estão carentes, elas querem atenção... Sério..., mas também não precisa encher o saco. Não deu, não insista!

7) OFEREÇA SOLUÇÕES: O cliente achou caro. É possível facilitar a venda? Parcelar, fazer permuta? O cliente não tem aquele horário ou aquela demanda. É viável diminuir? Esteja pronto para adaptar. Afinal, tudo é uma grande adaptação.

8) PRECIFICAÇÕES: Tá, mas quanto realmente custa o seu produto? Quantas horas você demorou pra fazer esse bordado? Quanto custou o material, as linhas, as agulhas? E seu equipamento de fotografia, quando investiu? Acho que aí é um começo. Outra forma é sair pesquisando pela cidade quanto outros artistas ou produtores estão cobrando. Não é fácil, mas uma hora você chega lá. Talvez no começo você não

consiga vender pelo preço real que seu produto vale (pensa o tanto de horas que você se dedicou pra aprender a desenhar?)

Mas nem tudo é sobre dinheiro. O cliente que você conquistou agora pode pagar mais depois que você mostrar um resultado de excelência. E a indicação vai ser sua melhor aliada. Por último: faça networking. Converse com os outros artistas, pergunte, questione, comente... Isso é imprescindível pra fazer a roda girar. Ninguém faz nada sozinho.

Num geral, é isso. Quando comecei a atender clientes e alunos, eu ficava super nervosa. Mas sempre fiz o exercício de ver essa procura de uma forma positiva. Essa pessoa quer o meu serviço! Ela quer o meu produto! YESSSSSSSS!!!!

NOVA SEDE

O novo espaço da produtora Casa Amarela vem aí!

A Casa Amarela, produtora musical de Maringá fundada em 2020, nasceu com a missão de apoiar a cena musical maringaense e oferecer suporte a artistas e projetos criativos.

Atuando como um ponto de encontro para músicos e profissionais de diferentes áreas, a produtora já oferece uma ampla gama de serviços. Agora, se prepara para inaugurar sua nova sede, que trará ainda mais possibilidades, como estúdios para gravações avançadas, residências artísticas e oficinas.

Em uma conversa exclusiva, Nicholas Emmanuel e Bárbara Bittencourt revelaram detalhes sobre as novidades que estão por vir.

Fotografia: Afonso Coutinho

Novas possibilidades criativas

O que motivou a abertura da nova sede e como ela reflete os valores da produtora Casa Amarela?

A principal motivação foi a necessidade de separar o pessoal do profissional, já que a produtora nasceu dentro da nossa própria casa. A nova sede busca oferecer uma estrutura mais organizada e acolhedora, proporcionando mais conforto e eficiência para nossos clientes e colaboradores. A Casa Amarela sempre foi um ponto de encontro para artistas de diversas áreas, e esse novo espaço intensifica essa característica. Ele reflete nossos valores ao promover criatividade, colaboração e um ambiente que estimula a produção artística de qualidade, com identidade nas áreas de produção musical e audiovisual.

Quais diferenciais o novo espaço oferecerá?

O novo espaço contará com duas salas de captação, uma nova sala de produção que poderá ser alugada ou utilizada para projetos próprios, capacidade para captações mais complexas, como corais e grandes bandas, e tratamento de áudio em Dolby Atmos para cinema. Além disso, oferecerá um amplo espaço de convivência, estacionamento para maior comodidade e uma sala de coworking destinada a produtores e profissionais que desejem trabalhar no local. Todas as salas serão climatizadas e tratadas acusticamente, com variações de ambiência para garantir uma captação de áudio de alta qualidade.

Como essa expansão impactará os tipos de projetos que vocês poderão realizar?

A nova estrutura, ampla e bem equipada, possibilitará uma variedade ainda maior de projetos, incluindo produções

musicais de diferentes gêneros, residências artísticas, oficinas expositivas, aulas de canto, captação e ensaios de coral com retornos individuais, além de voice-over com teleprompter e folley. Também permitirá mixagens analógicas e em 5.1. O espaço estará disponível para profissionais de diferentes áreas, incentivando parcerias e colaborações que ampliem as possibilidades criativas.

Que papel a nova sede desempenha no fortalecimento da cena local?

Com essa nova estrutura, esperamos atrair mais profissionais criativos e oferecer um ponto de encontro para artistas e produtores da região. O espaço de coworking e as salas de gravação fomentarão a troca de ideias e a criação de novos projetos, contribuindo diretamente para o crescimento da cena artística local.

Além disso, bandas, artistas ou projetos poderão reservar o estúdio por períodos específicos para gravação de álbuns e criação de trilhas sonoras. Essa dinâmica amplia a influência musical de Maringá, conectando a produção local a novos públicos, estados e até mercados internacionais.

Qual foi o maior desafio na concepção ou execução desse novo espaço?

O maior desafio foi conciliar os custos financeiros com a definição de prioridades. Tivemos que entender exatamente o que era essencial para o funcionamento da nova sede e equilibrar isso com nosso orçamento. Foi um processo de planejamento cuidadoso para atender às nossas necessidades e expectativas dos clientes.

Há eventos ou novidades planejados para marcar a inauguração?

Sim! Planejamos um evento de inauguração para apresentar o novo espaço e celebrar essa nova fase com nossos parceiros e clientes.

Além disso, em 2025 a Casa Amarela completará 5 anos, e acreditamos que essa inauguração será a melhor forma de celebrar esse marco. Será uma celebração dupla, marcando o início de um novo capítulo na nossa história. Ainda estamos finalizando a reforma, mas a previsão é que a inauguração aconteça em janeiro de 2025.

O que vocês esperam para o futuro da produtora com essa nova estrutura? Esperamos consolidar a Casa Amarela como referência na produção musical e audiovisual, proporcionando experiências de alto nível tanto para os clientes quanto para os profissionais. Queremos que o espaço se torne um ponto de convergência para artistas e produtores, fortalecendo nosso papel na cena cultural local e ampliando o impacto dos nossos projetos no mercado.

A nova sede estará localizada na Rua Maria Thereza Bergamasco, 457, próximo ao Posto Dubai, em Maringá - PR. O local foi escolhido para oferecer fácil acesso, conveniência e conforto tanto para nossos clientes quanto para os profissionais que utilizarão nossas instalações.

Vem

SARA ARAUJO

Formada em Direito, cientista social, mestranda em Ciências Sociais, especialista em História da África e da Diáspora Atlântica, escritora, palestrante e sommelière de cervejas. Idealizadora dos projetos @negracervejasommelier e @literaturanobar.

CERVEJA, uma bebida ELEGANTÍSSIMA

Um breve contexto histórico

A cerveja é uma das bebidas mais elegantes e faz parte de uma construção social que atravessa civilizações. Há registros arqueológicos e históricos apontando que a referida bebida foi uma das tecnologias responsáveis para que chegássemos até aqui.

A bebida, como já amplamente divulgado, teve seu nascedouro no continente africano, mais precisamente em Kemet, cidade localizada no norte da África. Kemet, parte do reino Kush, passou a chamar-se Egito após ser colonizada pelos gregos. Antes, sua população era composta por pessoas de tez escura.

Sabe-se que a primeira civilização a surgir foi no norte da África, os Kushitas e os Núbios. A primeira civilização a deixar de ser nômade e tornar-se gregária, cultivar o solo, plantar grãos e manusear o ferro, por exemplo.

Fazer cerveja era prática comum em Kemet/Egito. A cerveja fazia parte da vida social das pessoas, presente em ocasiões como festas de casamento, banhos públicos, festas fúnebres e no trabalho. É o que nos informa a doutora em química pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), Bárbara Carine, em seu livro ‘História Preta das Coisas: 50 Invenções Científico-Tecnológicas de Pessoas Negras’. Havia, inclusive, tipos/estilos de cervejas já sendo produzidos em larga escala. E não só: a utilização de insumos como mel, tâmara e gengibre era algo comum. Data dessa época a classificação entre cervejas mais suaves e cervejas mais robustas.

A cerveja, além de ser uma bebida altamente elegante, é também uma ferramenta de sociabilidade. Além de ser

muito democrática, é aquela bebida que terá sempre um estilo para acolher nosso paladar e gosto. Lembrando que o gosto é algo socialmente construído, como já nos apontou a antropologia.

Vencido um pouco esse processo histórico sobre a origem da cerveja e sua beleza, vamos falar um pouquinho sobre a pessoa que analisa a cerveja e harmoniza essa rica bebida com a comida.

Sommelière de cervejas ou sommelier – a/o profissional que estuda essa rica bebida

Bem, sou uma sommelière de cerveja. Sim, mulheres também são sommelières. Primeiramente, vamos à etimologia da palavra, sommelier provém do francês e tem como vocalização servir, é nesse lugar que o termo está implicado. Brasileiros têm como característica desprezar tudo que é nacional e abraçar termos e costumes estrangeiros. A palavra sommelier poderia ser facilmente substituída por “especialista no serviço de cervejas”, mas esse é assunto para outra pauta. Vamos ao que faz um/a sommelier/ère de cervejas. Primeiramente, há que se demarcar que é uma “profissão” extremamente recente no Brasil, a primeira turma foi formada em 2010. Ainda não há uma legislação específica que categorize a profissão. Os sommeliers de cervejas e outras bebidas estão amparados pela

Lei Federal 12.467/11, mas, recentemente, após uma demanda antiga das pessoas que atuam no mercado de cerveja artesanal, especialmente no campo do serviço, conseguiu-se o reconhecimento da categoria de “sommelier” como profissão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério da Economia, em 2022.

No Brasil, não há uma legislação que defina exatamente o que um/a sommelier/ ère de cervejas pode fazer. Porém, as escolas técnicas que formam esses/essas profissionais estabelecem algumas diretrizes, como: elaborar cartas de cervejas para bares e restaurantes, treinar profissionais para reconhecer diversos estilos de cervejas de acordo com guias específicos de catalogação, estudar a história da cerveja, logística, mercado de insumos, análise sensorial, harmonizações, entre outros. O campo de atuação de um profissional no serviço de cervejas é extenso, cheio de desafios e repleto de alegrias.

Harmonizar a cerveja com a comida

Garrett Oliver, um dos mais icônicos mestres-cervejeiros, em seu seminal livro

A Mesa do Mestre-Cervejeiro, pontuou que a cerveja tem mais vocação gastronômica que o vinho. Essa afirmação não está implicada em favorecer uma bebida e desprezar outra, mas se baseia no fato de que a cerveja possui um leque estrondoso de possibilidades de pareamento.

Você pode harmonizar pela semelhança, pelo contraste, pelo equilíbrio de forças ou pela complementação, por exemplo.

Equilibrar entre o doce e o salgado, dois gostos básicos opostos, mas que, juntos, levam seu paladar a outro nível. Harmonizar pela semelhança envolve elementos presentes tanto na comida quanto na bebida, como é o caso da cerveja que vou apresentar.

A cerveja Com Elas, cuja base é uma gose — uma cerveja salgada —, ganhou uma

releitura feita por mim e pela sommelière Carol Chieiranda, em colaboração com a Cervejaria Central/SP. Ela leva tomate-cereja, limão-siciliano e manjericão. É uma cerveja leve, refrescante e altamente aromática.

Para harmonizar, preparei um arroz caprese, que resultou em um delicioso pareamento. No entanto, o que mais me surpreendeu foi combiná-la com um sorvete de tomate, limãosiciliano, mel e iogurte. As semelhanças entre os ingredientes criaram a sensação de que a cerveja e o sorvete eram uma coisa só — uma delícia em boca.

Como dizem por aí: cerveja é gastronomia. E, por aqui, eu digo: cerveja é elegância pura.

Beba com moderação

COM ELAS, cerveja criada por Sara e pela sommelière Carol Chieiranda
Fotografia: Erick Costa Domingos

Sorvete de tomate, limão-siciliano, mel e iogurte.

Foto: Sara Araujo
Gastronomia Sara Araujo

RELEMBRAR VALE A PENA

por Fernando Souza | ilustrações de Bruno Naipez

Para mim, o teatro é um tipo de arte que me marca profundamente. Em Maringá, tive o privilégio de não apenas assistir a grandes espetáculos, mas também de trabalhar diretamente na criação de alguns deles. Estar nos bastidores, acompanhar o nascimento das ideias e a construção de uma dramaturgia foi uma experiência que vai além da catarse gerada no dia da apresentação ao vivo. Esses trabalhos deixam na minha memória um marco de criatividade, senso estético e reafirmam os talentos que temos na cidade.

Revisito aqui dois desses espetáculos que impactaram o público e tiveram impacto significativo na minha jornada profissional dentro da cultura maringaense: Mizu, idealizado pelo Núcleo Terreno, e O Falatório de Taro Quando Volta da Guerra, do Teatro do Alvorecer.

As duas obras agora ganham vida por meio de incríveis desenhos assinados pelo ilustrador maringaense Bruno Naipez.

Teatro Fernando Souza
MIZU é protagonizado pelos performers
Joyce Midori Teruya e Sidnei Puziol

Mizu Núcleo Terreno

Protagonizado pelos performers Joyce Midori Teruya e Sidnei Puziol (que também assina a direção), “Mizu” é um espetáculo de dança-teatro.

A obra investiga a poética da água bem como memórias, mitos e lendas sobre este elemento, tendo como referência o butô, dança de origem japonesa que é objeto de pesquisa e estudo de Puziol desde 2017 (que inclusive assina uma coluna dentro da temáticadisponível na página 32 desta edição). O butô é uma dança que surgiu no período de contracultura do Japão pós-guerra, criada por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, e busca uma expressão autêntica e orgânica de um corpo que se permite ser atravessado por fluxos, vibrações, imagens e estímulos, tanto internos quanto externos. Originalmente foi chamada de “Ankoku Butoh”, que pode ser traduzida como “dança das trevas”.

Mizu é composto por quatro atos: “A cosmogonia dos pescadores”, “A tempestade”, “As estações das garças e Ame-No-Uzume” e “Purificação e Recomeço”. Cada ato explora mitos, lendas, imagens e sensações vinculadas à água e a sua poética cíclica, como a chuva, as divindades da tempestade e da criação e as garças sobre a água. Os performers buscam corporificar e metamorfosear estas imagens por meio do trabalho corporal e da dança butô, encontrando a beleza do silêncio, do grotesco, da lentidão e tudo aquilo que se esconde nas profundezas da imaginação.

Teatro Fernando Souza
Teatro Fernando Souza
Teatro Fernando Souza
FALATÓRIO DE TARO QUANDO VOLTA DA GUERRA é protagonizado por Douglas Kodi, Kênia Bergo e Vinícius de Brito

O Falatório de Taro quando volta da guerra

Teatro do Alvorecer

A peça é uma tragicomédia que narra a história de um soldado chamado Taro (Douglas Kodi), que retorna à sua vila após a guerra, mais pobre e alucinado do que quando partiu, ansiando por reencontrar sua esposa Nhua (Kênia Bergo) e seu compadre Menato (Vinícius de Brito). Ao chegar, Taro celebra a fuga dos horrores da batalha e sonha com uma vida pacífica. No entanto, seu reencontro com Menato e Nhua revela o quanto a guerra o transformou.

Inspirada na dramaturgia do italiano Angelo Beolco (conhecido como Ruzante), especialmente em “O Primeiro Diálogo de Ruzante” de 1529, a peça mescla inspirações de teatralidades orientais com a atuação da Commedia dell’Arte. O resultado é um jogo cênico que ressignifica as propostas de cenografia, figurino e atuação características da dramaturgia ruzanteana em uma abordagem contemporânea. Essa abordagem flerta com características do teatro japonês e do teatro italiano, passando pelo cinema japonês de samurai dos anos 50 até cenas que beiram o terror.

- FOTOGRAFIA DE ÁLVARO SASAKI
Teatro Fernando Souza
Teatro

MARIANA V. SARACHE

Doutora em Educação, Assessora Empresarial e Educacional

Fotografia: Erick Costa Domingos

É preciso ARTE para educar

Eu me lembro de quando fui ao cinema pela primeira vez. Uma tia me levou junto de suas filhas e minha irmã mais nova. Todas nós com idades bem próximas, fomos animadas. Eu e minha irmã estávamos mais animadas que o normal, afinal, era a nossa primeira vez numa sala tão grande, tão escura, com uma televisão tão gigante e o som tão alto.”Será que dá pra ouvir de lá de fora?” eu pensava preocupada …

A tia Rô, irmã mais nova da minha mãe, sempre foi a tia mais estressada, mas também a mais divertida da família, temos muito em comum, aliás… aprendi com ela que é preciso ser teimosa com o que gostamos de fazer.

Nós não tínhamos muito dinheiro, tudo era contado para pagar as despesas que hoje eu entendo, são infindáveis… então, ir a um cinema era um passeio que estava fora de cogitação na minha casa, não tínhamos o nosso carro, o trabalho era comércio e também não tinha dia de folga. Quem acredita que para ter Cultura e Arte disponíveis em todas as formas e de qualidade não precisa de dinheiro, ainda vive de forma muito romântica a adultez e necessita ler mais que ‘Poliana’ como literatura para pensar fora de seu costume.

Nós morávamos em Iguatemi, distrito da cidade de Maringá, não é longe, mais próximo que muitos bairros com relação ao centro da cidade, mas Iguatemi com certeza é o lugar onde a cultura ainda não chega como na ‘cidade grande’. É o famoso lugar que só tem ‘igreja e boteco’, inclusive nós íamos sempre na igreja

e meus pais tinham um boteco. Imaginem meu susto progressivo quando já adulta pude conhecer Curitiba, São Paulo e Recife e aí sim entender como é uma cidade grande.

Bom, eis que meu primeiro dia de cinema não poderia ser melhor, pois além de ser um dia de passeio na “cidade grande”, era o filme da Xuxa, artista que minha mãe fez questão de deixar bem longe do nosso letramento infantil, mas eu sempre flertei escondida… e a pipoca de manteiga não era a do cinema, mas a que escondemos na mochila antes de sair de casa! Quanta aventura para nós, que não fazíamos nada escondido pois ‘Deus estava sempre vendo…’ Mas para a minha tia, essa era só mais uma de uma mãe maravilhosa dando drible no elitismo da cidade. Imaginem comprar aquela tão cara pipoca de cinema para 4 crianças vorazes.

Hoje, escrevo essa história com 33 anos, mas somente com 22 é que conheci de perto um teatro e após a pandemia é que fui me aproximando e consumindo mais eventos artísticos da cidade. Antes disso, na infância só tive acesso a esse formato de Arte e expressões culturais similares quando as companhias iam na escola em que estudei e eram raríssimos esses momentos. No meu caso, em que estudei sempre em escolas públicas, participei de alguns bons projetos enquanto pude e guardei esse sonho: pensava que quando eu fosse adulta eu viveria perto deles, das pessoas que fazem Arte e Cultura.

A primeira vez que fui ao teatro eu não me lembro o que assisti, só me lembro que guardei aquelas cores avermelhadas e o cheiro de madeira que ele tinha. Eu amo lugares que remetem a uma história e aquele espaço, de alguma forma, parecia guardar memórias. Apesar do esquecimento, o sentimento de emoção permaneceu gravado, mas também havia uma sensação de inadequação, como se eu pensasse que pela minha roupa e a minha falta de conhecimento aquele lugar não era pra mim.

Minha percepção mudou por causa da faculdade, com a história da educação entendi que o teatro sempre foi um recurso essencial de aprendizagem. Fiquei ainda mais fascinada, mas por longo tempo intimidada. Isso foi modificando-se na medida em que eu conseguia vivenciar e acessar mais e mais lugares como esse, o teatro com música, atuações, danças, shows, etc.

Recentemente eu tive a felicidade de ver uma companhia incrível aqui no nosso teatro Calil Haddad e lá naquela sessão metade dos lugares estavam ocupados por escolas convidadas e muitas crianças e adolescentes também estavam lá para “apreciar”. Quem dera eles soubessem o que é apreciar, até mesmo para as crianças que de fato gostariam de ter assistido entre seus colegas eu imagino que tenha sido uma espécie de tortura. Eu me lembrei de quando eu era aluna da pior turma da escola e morria de vergonha de estar num grupo tão desrespeitoso publicamente. Pensava que era um grande desperdício da minha imagem ser confundida com aqueles que nada era sagrado. Tudo era motivo de riso, grito, algazarra. Me sinto até uma tia falando assim, mas como não me posicionar com o que aprendi? Impossível.

Eu mesma repetia para o meu pensamento, “pelo menos estão aqui! saberão o que é teatro…” me recordando de como eu poderia ter gostado de ter ido mais nova a esse ambiente e não pude.

Eu fiquei pensando … eu acredito que

a formação é o caminho mais assertivo e naquela situação, a intenção de que a Arte fosse apresentada a um público carente dessa forma de expressão, de maneira gratuita e democrática foi muito bem atendida, porém, não muito bem executada.

CONTRAPONTO, espetáculo de dança do Balé Teatro Guaíra apresentado em Maringá, no Teatro Calil Haddad. Foto de Sabrina Pivado da Paz

Os adultos que estavam no papel de conduzir aquela garotada não se puseram nessa condição, de formadores. O adulto omisso é tão ruim quanto a falta de oportunidade.

Ao subir no palco para apresentar a companhia e dizer quem eles eram, da sua qualidade e que as crianças curtissem aquele momento, também poderia ter sido dito como se portar diante de uma apresentação para que até mesmo a catarse fosse possível a eles. Mas aí me perguntei: “será que esses adultos sabem como se portar em um teatro?”

Tivemos um intervalo e eu pensei, essa será a chance, eles vão falar alguma coisa… e falaram: “que havia minutos de pausa e poderiam ir ao banheiro” …

Me frustrei por mim, pelas pessoas que estavam indignadas, dava pra ver … e também pelos dançarinos… Eu realmente esperava que um professor dentre vários que estavam lá pudesse usar o microfone disponível e orientasse… Pensava que essa era a oportunidade de que eles ensinassem que é sim para aplaudir, mas somente ao final, que pudessem sim interagir durante a apresentação, mas não a ponto de abafar o som que era parte também da linguagem expressa na dança. Que aliás, não era um show, não cabia a gritaria… São linguagens diferentes de conversar com o público que os aprecia.

Ficava muito mais constrangedor quando nos movimentos de dança não havia mensagem que eles pudessem ler sem conotação sexual. O corpo é somente isso nessa fase da vida? Para aquelas crianças e adolescentes sim, a maioria esmagadora delas. Era a sua reação mostrando o quanto nossa governança é faltante. Desde a educação básica vinda do núcleo familiar, sem orientações suficientes de comportamentos básicos, passando pela escola em seu formato degradante de omissão até as dependências também culturais ausentes ou superestimadas.

Me lembrei que meus pais não puderam me ensinar como e onde ir para ter vivência cultural, mas mesmo que hoje eu não vá à igreja, foi lá que me educaram para ver, para

Educação Mariana Sarache

ouvir e respeitar os espaços para além da minha existência. Refleti que no conhecimento que eles tinham e com os recursos que usavam sempre me lembraram que ‘enquanto um fala o outro abaixa a orelha’ (e sempre me disseram que é para poder ouvir, não é submissão) se isso não é uma linda arte de como educar uma criança eu não sei o que dizer.

Ao

final da apresentação me encontrei com alguns amigos e conversamos brevemente sobre a incrível qualidade do grupo apresentado e também sobre a dificuldade que tivemos de aproveitar aquele momento.

Penso que a Arte pode ser tanto o aviso como o escapismo diante de uma realidade como aquela que invadiu o cenário, o som e forma que cada esfera da sociedade cumpre com o seu papel.

Por fim, refleti naquela ocasião o quanto estamos longe de atingir o que chamamos de EDUCAÇÃO BÁSICA em todas as situações. Talvez porque sempre esperamos que outra pessoa, outra instituição, outra qualquer coisa deveria fazer. Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, o básico é muito grande e abrangente, mas quando bem executado podemos acessar muito mais experiências.

Ter noções básicas de comportamento e postura, ter dimensões básicas de quais espaços podemos frequentar, ter o básico

aprendido nos direciona para sermos pessoas com autonomia de pensamento e articulação das nossas ações de forma consciente.

Os projetos de Arte e de Cultura que circulam na cidade são formas de agregar uma educação e conscientização sobre diversos aspectos do desenvolvimento humano. Sabemos que estruturar e entregar nossas ideias exige um planejamento de nossas ações de modo bem feito. Fazer chegar informações de forma clara, objetiva e atraente não é algo trivial, é, na atualidade, um dos nossos desafios como sociedade.

Ter a possibilidade de contribuir com os conteúdos da Mag e com a circulação da página Maringaense Cultural me faz pensar que sou grata por essa divulgação tão ampla, possibilitando que uma diversidade de projetos sejam conhecidos por tantas pessoas, antes que sejam adultos, para que as crianças não demorem tanto a conhecer um teatro e tantas outra formas de Arte.

Educação Mariana Sarache

De Maringá ao Palco: A voz de Luana Brancalhão, akaLUAA

Nascida em Maringá nos anos 90, a trajetória de Luana Brancalhão (LUAA nos streamings) reflete o espírito inquieto e apaixonado de uma típica pé vermelho. Desde cedo, a música esteve presente em sua vida, seja na escola, na igreja ou em experimentações autodidatas, como as primeiras aulas de violão aos 15 anos. Apesar de os acordes não terem se consolidado naquele momento, sua paixão por canto lírico, rock, MPB e jazz floresceu na juventude, inspirada por nomes como Etta James, Marisa Monte, Maria Bethânia e U2.

Com o tempo, o universo da poesia – de Khalil Gibran a Clarice Lispector – e o teatro se somaram à sua trajetória

criativa. Durante a pandemia, entre aulas de canto lírico e primeiras experiências no palco, nasceu uma vontade audaciosa: tentar o vestibular de canto lírico na Universidade Estadual de Maringá. A decisão veio em um momento improvável, enquanto limpava um fogão às onze da noite. Um mês depois, a aprovação confirmou que sua intuição estava certa.

Desde então, Luana tem explorado novos horizontes. Projetos como Cantoterapia com Goreti Maranho e experiências no mundo da ópera, como Ópera Viva e Ópera Porque Não, moldaram sua identidade musical. Aulas de palhaçaria no IFPR também enriqueceram sua expressão artística. O encontro com o DJ Dux, da Flex Music Produtora, foi outro marco transformador: da colaboração nasceu sua primeira música autoral, “É o Amor”, um lançamento que marca um novo capítulo em sua carreira.

Confira o bate-papo que tive com ela sobre os novos rumos da carreira:

Qual foi a principal inspiração por trás do seu primeiro single “É o amor” e como ela influenciou o processo de composição?

É engraçado pensar em perspectivas quando se fala de criação e arte – nunca sabemos exatamente quando a inspiração virá. Acredito muito na inspiração, mas também no treino e no aperfeiçoamento. Eu adoro consumir arte – música, teatro, livros – para mim, isso é essencial.

A inspiração para “É o amor” veio em um momento assim. Eu estava assistindo ao coro da Cantoterapia apresentando uma versão de “Além do Horizonte”, do Erasmo Carlos, quando me surgiu a melodia e os primeiros versos: “É o amor, chegou aqui, nem perguntou por mim.” Peguei o celular e gravei a ideia na hora. Naquele período, eu estava vivendo a intensidade de estar apaixonada por alguém e, ao mesmo tempo, enfrentando os desafios e delícias da faculdade. Em uma semana, a letra estava pronta.

Como toda boa música, ela carrega um pouco de dor, mas essencialmente é uma elaboração de sentimentos. A arte tem esse poder de nos fazer vivenciar o que precisamos para, depois, seguir em frente.

Como foi a experiência de gravar e produzir essa música? Teve algum momento desafiador ou marcante?

Gravar “É o amor” foi uma experiência extremamente especial. Eu já sabia a música quase de cor, mas um detalhe curioso é que ela não estava cifrada, eu apenas a tocava de ouvido. A melodia e a letra nasceram juntas, e o Dux (produtor) foi fundamental para os arranjos.

No primeiro encontro, testamos algo mais eletrônico, mas na segunda tentativa ele sugeriu um início com voz e violão, que acabou na versão final: uma bossa leve e suave. Gravamos no mesmo dia, de maneira tão orgânica que parecia uma brisa. Foi um processo marcante e fluido.

O que você espera que os ouvintes sintam ou pensem ao ouvir essa canção? Há uma mensagem especial que deseja transmitir?

A música fala de amor, é claro, mas principalmente daquele amor interno, do autoamor que descobrimos ao nos apaixonar profundamente. Mesmo quando um relacionamento não dura, acredito que o amor, em qualquer forma, nos constrói na afetividade.

Com sessões de terapia, como no meu caso, podemos nos encontrar e compreender melhor nossa própria afetividade. Em tempos de tantas mídias e relacionamentos virtuais, acredito que encontros olho no olho se tornam experiências ainda mais ricas. “É o amor” convida a buscar esse toque humano, uma mão para segurar, permitindo-se ser vulnerável para, então, encontrar-se consigo mesmo.

Quais artistas ou estilos musicais mais influenciaram esse trabalho e sua trajetória artística até agora?

Certamente Erasmo Carlos teve uma grande influência, mas também Marisa Monte, Maria Bethânia e até mesmo o Skank. A música me lembra um pouco a ideia de “Balada de um amor inabalável”, aquela noção de viver o amor no presente. Acho isso tão desafiador, mas é um excelente exercício.

Quais são os próximos passos na sua carreira? Podemos esperar novos lançamentos ou apresentações ao vivo em breve?

Com certeza! Estou compondo e criando novas músicas em parceria com o Dux, na Flex Music Produtora. Estamos a todo vapor, e logo deve sair um álbum cheio de novidades. Será uma mistura de bossa, MPB e toques de new soul. Tenho muito a dizer e cantar, e espero alcançar mais corações com meu trabalho.

OUVIR

O que é uma Zine?

O termo veio de fanzine, aglutinação de fan magazine, em outras expressões:
“revista de fãs” – no nosso caso, fãs de café.

As “zines” são revistas independentes criadas por alguém ou algum grupo, para tratar sobre qualquer assunto, sem regras específicas de design ou linguagem. Elas não são publicadas por editoras e a intenção é que sejam distribuídas de mão em mão para propagar o conhecimento sobre algo onde a única expectativa é que seja de forma autêntica e criativa.

A primeira zine brasileira foi lançada no dia 12 de outubro de 1965. O desenhista piracicabano Edson Rontani entrou para a história dos quadrinhos brasileiros ao criar o primeiro fanzine do país dedicado à nona arte. A nossa nasce em dezembro de 2023 com o intuito de difundir conhecimentos de café e arte.

Durante esse um ano publicamos seis edições tendo o café e a arte como seus temas centrais, mas compilando uma série de variedades e diferentes colunistas convidados durante cada edição. Ao todo foram em média 40 matérias, entre elas receitas, história, saúde mental, criatividade, viagens… E todo esse processo de editoria, desde a seleção de temas, entrevistas, redação, diagramação, impressão e veiculação, é feito do começo ao fim por nós mesmas (equipe de mkt do tk), a seis mãos.

Com o passar das edições a construção da revista foi também se tornando cada vez mais colaborativa, com convidados que contribuem fixamente ou pontualmente ao projeto. Um exemplo disso é a página dedicada a ilustração, a “vida de barista”, onde artistas independentes do meio do café compartilham alguma arte relacionada à rotina dos amantes de café, de autoria própria. Outra importante parceria riquíssima que compõe nossa revista é a agenda cultural, o “Q-Grader Cultural”, que há duas edições é curada e redigida pelo Fê,

aqui a quem escrevemos hoje. Procuramos sempre também adicionar algum tipo de interatividade na nossa revista, como caça palavras, espaços para preencher ou recortar. Assim, reforçamos seu caráter artesanal, de processo lento e criativo, fazendo com que quem a tenha em mãos, também se sinta parte desse apanhado colaborativo. Todas as edições podem ser encontradas em qualquer uma das duas unidades do TK! Fica aqui o convite para conhecerem o projeto e contribuírem para a existência e perpetuação de materiais como esse :)

Elas que

fazem

Tamires- editora
Vanny- designer
Lari- redação
TK Jardim

CAROLINA DAMIÃO

Atriz, produtora e escritora.

Fotografia:
Erick Costa Domingos

Criação, Cuidado e Coletividade:

a arte e a maternidade como potências para o futuro

“A gente precisa ter tempo para observar os nossos filhos sem ter que ficar pensando “quem é que vai limpar essa bagunça?””.

A gente devia poder criar em paz, é o que penso enquanto mãe sobrecarregada e com vontade de estar mais presente com qualidade na vida do meu filho. Enquanto artista eu sinto o mesmo, gostaria de não precisar performar outras trinta e sete profissões para poder estar em cena, dançar, compor e poder compartilhar. Sempre faltam outras pessoas, sempre falta dinheiro pra gente poder contar com outras pessoas, sempre falta tempo. São terrenos nos quais os direitos básicos passam a ser considerados privilégios.

O direito de fluir e de aproveitar os processos. O direito ao descanso. O direito a um salário digno sem precisar se destacar tanto. A perfeição que nos persegue, o futuro que nos movimenta. O exercício constante da criação e do cuidado. A arte e a maternidade compartilham da necessidade de ter com quem compartilhar, mas principalmente de um mesmo tipo de cansaço, do cansaço de cuidar daquilo que ninguém parece se importar.

Arte e maternidade não são sobre amor, por mais que insistam em pagar artistas com aplausos e mães com marcadores de desenvolvimento infantil bem sucedidos.

Mães e artistas precisam lutar para receber pelas funções que exercem, principalmente pelas questões de estabilidade, dignidade e liberdade. A mesma sociedade que exclui as crianças, que fecha os seus espaços para as mães, é a sociedade que costuma valorizar a obra somente póstuma ao artista. É a sociedade que narra as trajetórias maternas e artísticas como histórias de superação. Para a sociedade, o sucesso de mães e de artistas está condicionado ao esforço, à realização do impossível e ao destaque pelo desempenho sobrehumano.

Tanto mães quanto artistas carecem de criatividade e dedicação. Criatividade que exige descanso, dedicação que exige tempo. Descanso que exige tempo. Para a arte e para a maternidade o olhar para o futuro é uma necessidade que a exaustão bloqueia ampliar. Mesmo assim, mães e artistas constantemente revisitam o passado em busca de soluções para transformarem, questionarem e garantirem o futuro, ao mesmo tempo em que lutam por direitos básicos no presente. E uma coisa não funcionaria sem a outra.

“Você é artista? E você trabalha com o quê?”

A mesma sociedade que desconsidera a arte enquanto meio de sustento é a sociedade que sustenta a crença de que a mãe deve cuidar de seus filhos apenas por amor. Romantizam a vida das mães, romantizam a vida de quem é artista, culpabilizam mães e artistas por

suas atuais condições e por suas constantes necessidades de resistência. A gente devia poder relaxar, é o que eu penso enquanto mãe e enquanto artista, no relaxamento como um direito básico e garantido, também para quem cria.

“A mãe dessa criança é muito relaxada, uma irresponsável.”

Relaxada é um termo pejorativo para se referir às mães, a “mãe relaxada” remete à ideia da mãe que negligencia, que “não dá tudo si”. Não relaxar tornou-se um mecanismo de defesa para as mães. Como mãe, a sobrecarga nos conforta de que estamos fazendo de tudo pelos nossos filhos. O relaxamento não conforta as mães, mesmo que as mães busquem pelo descanso, a culpabilização materna amplia a sensação de que as mães deveriam estar fazendo algo mais, principalmente se relaxam. Como artista, sendo mãe, a criatividade precisa florescer em meio ao caos e o ócio criativo se desfaz como miragem. Já o “artista relaxado” é aquele que não se dedica o suficiente para a sua obra, que não aproveita cada suspiro, cada momento, todo e qualquer ócio para fluir. Para a sociedade, a mãe relaxada cria crianças mal educadas, e o artista relaxado cria obras mal acabadas, pois o que importa é a régua da exaustão: o cansaço pontua para ambas as partes.

Da narrativa da história da arte e da história da humanidade são retirados os momentos de descanso, as “boas mães” e os “bons artistas”, são figuras incansáveis. Para a sociedade a “boa arte” e “as boas crianças” são maduras desde cedo, estão a frente de seu tempo e atendem a todas as expectativas

nelas depositadas. Já que o que mães e artistas fazem não é visto como trabalho e sim como amor, talento, dom, falhar enquanto mãe e enquanto artista é uma desqualificação. O amor incondicional, o talento nato e o dom são postos para mães e artistas como indispensáveis, como características naturalmente presentes naqueles que os são.

Mas quais histórias contaríamos sem as crianças e sem as manifestações artísticas, se o que chega no futuro é aquilo que se preserva? Mães e artistas sabem que toda criação carece de cuidado, que o pão para fermentar precisa de descanso, que a criança para prosperar precisa de atenção, e que a arte para resistir precisa de pessoas. A aldeia do provérbio Africano - “É preciso de uma aldeia para criar uma criança” - que falta às mães, é a mesma aldeia que falta aos artistas, uma obra de arte não se cria só, assim como crianças também não se criam. A coletividade está para mães e artistas assim como a liberdade para o grande público, distante, desacreditada e indispensável.

“A única educação respeitosa possível é a coletiva.”

Mães e artistas são pressionados a seguir padrões, porque todos sabem que tanto mães quanto artistas são quem constroem o futuro de dentro de suas bases, as mães porque parem os operários, os artistas porque poderão entretêlos. A arte e a maternidade libertadoras, assim como a educação, estabelecem, portanto, uma ponte entre a atualidade e os tempos que

virão. O sucesso de mães e de artistas atuantes no presente, é a esperança da colheita para as próximas gerações, nas quais crianças e obras de arte possam existir e circular em suas máximas potências, sendo criadas por pessoas descansadas e cuidadas coletivamente para que prosperem.

“A gente devia poder relaxar, é o que eu penso enquanto mãe e enquanto artista, no relaxamento enquanto um direito básico e garantido, também para quem cria”.

O CINEMA DE PEDRO NASCIMENTO

Pedro Nascimento é um cineasta maringaense, formado em Comunicação e Multimeios pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e roteirista pela Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Ele é o fundador da produtora de cinema independente Chinelo à Milanesa, cuja atuação destaca e dialoga diretamente com a cidade de Maringá.

Nascimento roteirizou e dirigiu os curtametragens Quem Me Lembra Você? (2022), Escrito e Traduzido (2023) e I’m Sorry for the Potato Hands (2024), além de ter produzido outros filmes que participaram de importantes festivais de cinema no Brasil.

Atualmente, Pedro organiza o Coletivo Independente de Cinema Bem-Te-Vi e atua como produtor cultural em Maringá, desenvolvendo projetos voltados ao audiovisual.

Nesta matéria, apresento detalhadamente os trabalhos de Pedro, juntamente com um vídeo de apresentação do próprio artista.

QUEM É

PEDRO NASCIMENTO

QUEM ME LEMBRA VOCÊ?

SINOPSE

Após a morte de sua avó, um jovem parte em uma jornada introspectiva que o obriga a lidar com alguns traumas que atormentam sua vida.

Equipe técnica

Direção e Roteiro - Pedro Nascimento

Direção de Fotografia - Cauã Bris

Direção de Arte - Tina Piotto

Produção - Beatriz Finizola

Elenco Principal - Guilherme Veneral, Tigo Paixão e Catarina Granzotto

Festivais

Mostra do Filme Universitário Amador / Mafuá! 2022 - Vencedor Menção Honrosa

Intercom Sul 2023 - Vencedor melhor Média/ Longa-Metragem

Expocom Nacional 2023 - Vencedor melhor Média/Longa-Metragem

17º Taguá de Cinema

ESCRITO E TRADUZIDO

2023

SINOPSE

Um escritor-fantasma tem a difícil tarefa de criar a personagem principal do primeiro livro que será publicado sob seu nome, mas após ser confrontado por seu editor ele deve lidar com as inseguranças que o impedem de alcançar o ápice de seu trabalho.

Equipe técnica

Direção e Roteiro - Pedro Nascimento

Direção de Arte - Giulia Luchetta e Nathália Kretschmer

Assistente de Produção - Mariana Bedendo Elenco - Nicole Lopes, Guilherme Veneral e William Farias

Produção - Pedro Nascimento e Giulia Luchetta Trilha Sonora Original - Caio Henrique Alves

Festivais

Intercom Sul 2023 - Vencedor melhor Curta-Metragem; Festival Universitário Tainha Dourada, 2023; 6º Festival Universitário Assimetria; Expocom Nacional 2023; 7º Toró Festival Audiovisual Universitário de Belém; Mostra do Filme Universitário Amador / Mafuá! 2023; 16º Prêmio Cineclube Jacareí / Corvo de Gesso 2023; 22º NOIA – Festival do Audiovisual Universitário; 1º FECICO - Festival de Cinema de Colombo; 7º Metrô - Festival do Cinema Universitário Brasileiro; V Festival Beta - Prêmio de Audiovisual Universitário ESPM.

ASSISTIR O FILME

I’M SORRY FOR THE POTATO HANDS 2024

SINOPSE

Um gringo religioso recebe a visita inusitada de uma estrela do trap nacional, e acaba conhecendo o verdadeiro sabor de um dos salgadinhos mais amados da região sul do Brasil: o Miliopança.

Equipe técnica

Roteiro e Direção: Pedro Nascimento

Direção de Arte: Rebeca Marques

Assistência de Direção: Aluísio Stuani

Trilha Sonora Original: DJ Najoo

Assistência de Arte e Cenografia: Milton Jr. e Naju

Campos

Assistência de Produção: Daniela Marques e Mariana Bedendo

Dublê: Leonargo Gael

Elenco: Vinicius de Brito

Apoio: Cosmos Filmes

Produção: Chinelo à Milanesa

ASSISTIR O FILME

RASTRO NEURAL

Depois de A Cápsula, Ribamar Nascimento aposta novamente na ficção científica com novo filme previsto para 2025

Filmado no final de novembro em Maringá, o longa conta com uma com mais de 30 profissionais envolvidos e aborda como tema principal os TMRT (Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho), que são a terceira maior causa de afastamento do trabalho, segundo o Conselho Nacional de Saúde (maio de 2023).

O filme traz no elenco os atores Luiz Carlos Persy e Caio Mutai. Persy, considerado um grande nome do cinema brasileiro, é amplamente reconhecido por dublar personagens icônicos como Gandalf, Voldemort e Joel (The Last of Us). Já Caio Mutai participou da série As Five (Globoplay) e protagonizou a versão brasileira do musical Aladdin.

A trilha original é composta por Daniel Simitan, responsável por trabalhos marcantes em filmes brasileiros como Evidências, Calvário, Jesus Kid e Marte Um — o último representou o Brasil no Oscar 2023. Com Marte Um, Simitan conquistou o prêmio de Melhor Trilha Sonora no Festival de Gramado 2022.

O projeto reúne profissionais de Maringá e Londrina, além de colaborações do eixo RJSP. Todas as cenas foram gravadas em Maringá.

Caio Mutai - Foto: Reprodução

SINOPSE O DIRETOR

Rastro Neural se passa em uma sala futurista, onde um investigador androide acessa as memórias de suspeitos para resolver crimes. No entanto, ele acaba investigando seu próprio supervisor humano, que parece estar envolvido em uma conspiração de grandes proporções.

Com uma ambientação limpa e tecnológica, o filme combina suspense e ficção científica, entregando um interrogatório intrigante em que os segredos revelados surpreendem tanto os personagens quanto o público. Cheio de referências ao gênero, o roteiro instiga reflexões profundas sobre ética, tecnologia e a natureza humana.

Ribamar Nascimento é diretor, roteirista e produtor executivo com mais de 10 anos de experiência. Ele dirigiu o longa Momentos Roubados (2014), o curta-piloto Ressurgido (2022) e o longa A Cápsula, financiado pela Ancine. Com o último, recebeu o prêmio de Melhor Diretor Estreante no Pupila Film Festival 2023.

Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), Ribamar já atuou como conselheiro municipal de cultura em Maringá. Além disso, é cofundador e expresidente da Procinema e da MAVi (Maringá Audiovisual).

Luiz Carlos Persy - Foto: Reprodução

O DIRETOR RIBAMAR NASCIMENTO - Foto: Reprodução

A TRIZ KÊNIA BERGO - Foto: Reprodução

ISA ANGIOLETTO

Fotógrafa e criadora de conteúdo digital.

Fotografia: Augusto Perego

AnatoDela

Neste ensaio fotográfico, Isa Angioletto captura a essência de Elisa Riemer em seu “habitat criativo”.

Direção de Arte: Fernando Souza Tratamento: Augusto Perego

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook