Portfólio
Marina Jerusalinsky
Biografia profissional
Marina Jerusalinsky nasceu em Porto Alegre, em 1990, e desde 2017 mora na capital paulista. É artista e pesquisadora, graduada em Artes Visuais pela UFRGS (2013) e Mestre em Artes pela UERJ (2018). Sua produção envolve principalmente a escrita e elementos da costura, como tecidos, alfinetes e linhas. Duas formas de tecer que por vezes se entrelaçam nos trabalhos. Esteve ligada ao grupo .p.a.r.t.e.s.c.r.i.t.a., coordenado por Elida Tessler (UFRGS), de 2011 a 2013, e ao grupo Cidadania e Arte, com coordenação de Cláudia Zanatta (UFRGS), entre 2013 e 2014. Desde então, tem trabalhado com a palavra e a costura em ações no espaço urbano, publicações e projetos participativos. Realizou sua primeira exposição individual pelo 3º Prêmio IEAVI, na Casa de Cultura Mário Quintana (Porto Alegre), em 2014. Participou da 13ª Bienal de Arte Jovem de Santa Fé (Argentina, 2018) e de diversas exposições coletivas, como Modos rítmicos: algo (Centro de Artes da UFF, Niterói, 2018), Va.zi.o (Espaço Vitrine, Casa Daros, Rio de Janeiro, 2015), 15/15 (Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre, 2014), entre outras. Atualmente cursa Doutorado em Estética e História da Arte na USP, desenvolvendo pesquisa teóricoprática sobre a história e experiências de mulheres presentes na arte participativa no mundo luso-brasileiro. Em 2021, como parte de sua investigação, publicou o livro de artista Adjetivo feminino: dicionário de experiências (em 1ª ed. pela Atelier Editora e 2ª ed. pela Bebel Books), presente em diversas livrarias do Brasil e em Portugal.
Escorrem do corte da palavra da palavra-corte: o ponto, o olho, o dedo.
Ponto cego 2012 Livro 21,8 x 13,2 x 4,3 cm
Procuro a delicada agressividade de um alfinete.
Habito 2010 Tecido e alfinetes Dimensões variáveis Apresentação em fotografia e instalação
O tempo que passa intenções e promessas unem bordado e espera. A linha que envolve, guarda apaga, branca o escuro das palavras.
De mim toda mentira aceito 2014 Bordado e impressão sobre papel 15 peças de 21 x 29,7 cm
Tato 2009 Tecido e alfinetes 100 x 100cm
Posso esperar contigo? Assim mesmo sem explicações aberta a qualquer acontecimento.
Tecendo esperas 2013 Ações na Rodoviária de Porto Alegre
No tempo da espera, uma linha, feita com o compasso do bordado, e ao esperador entregue na despedida.
Narrativa n.1 Estou com um nó na garganta. Desejei-lhe boa sorte. Depois de muito tempo – muito mais do que indicou o relógio – ela decidiu: “Não coloca mais linha. Ele não vem.” Ele disse que chegaria às 17h30. Diz que ela não tem horário, mas sempre chega atrasado. Ela veio de Viamão, combinou de encontrá-lo na rodoviária para comprar passagens para a viagem do final de semana. Perguntou-me se tenho namorado. Disse que não, mas contei uma pequena história, de uma pessoa por quem também fiquei esperando. Ela me contou a história de uma amiga, que tinha o mesmo desfecho: “parece que quando os dois se encontram, nunca dá certo.” Ela namora há mais de dois anos. “Aprendi a ser mais comunicativa com o trabalho; antes, nem teria conversado contigo”, ela me avisa. De fato, ela logo aceitou meu pedido – “Posso esperar contigo?”. Perguntou se eu também esperava por alguém, mas não pareceu estranhar quando informei que apenas queria esperar com ela. Ela estava de pé, olhando pela janela da sala, quando fui falar com ela. Ficamos o tempo todo ali. Minhas mãos tremiam quando comecei a bordar. O tecido escorria entre meus dedos, desajeitado, e a linha ficava completamente irregular; depois comecei a dominar melhor meus movimentos. Perguntei de que cor era sua espera: “meio nublada”. Depois de alguns centímetros de bordado, ela recebeu uma mensagem: ele estava sem passagem de ônibus para ir até a rodoviária. Ela ligou: “Como assim está sem passagem? Não, sério? Não acredito.” Ela estava rindo. “Tu estás aqui, né? Mas tu estás rindo, tu estás aqui! Sério, onde tu estás? Ok, então pega o ônibus que eu pago quando tu chegares. Claro que dá…” (ainda sorrindo). “Mas eu quero falar contigo… Porque sim. Não, não dá para ser por telefone. Não aconteceu nada, só quero falar contigo… Então me espera na avenida que eu vou até aí. O que custa me esperar aí? Então eu vou pra tua casa mais tarde... Como tu vais sair se tu estás sem passagem?” Ela não havia se afastado de mim. Acabou minha linha e comecei a procurar outra na caixa de costura. “Espera aí”, ela disse ao telefone; e para mim: “Espera... não coloca mais linha. Ele não vem.” O corte da linha marcou o corte da linha telefônica. Entreguei-lhe o tecido. Ela me abraçou. Desejei-lhe boa sorte.
Depois de cada espera uma história. Através da mão como antes bordava o tecido escrevo com carvão rastro de pó que imprime o que a ação deixou como rastro na memória.
Escritas para esperas passageiras 2013-2014 Intervenção na Rodoviária de Porto Alegre
Escritas para esperas passageiras, 2014, livro
Suspenso 2014 Tecido e alfinetes Dimensões variáveis
Detalhe
Vaga-se 2016-2018 Ações no espaço urbano, publicações e peças gráficas www.vaga-se.com Um processo de contratação: vagas ilimitadas de não-trabalho, com duração de um dia. Um anúncio (imagem ao lado), divulgado em sites de vagas e panfletos. O único pré-requisito: estar desempregado(a). Uma entrevista, com cada uma das 22 pessoas que compareceram, apresentando a função a ser exercida: não trabalhar, junto com a contratante (eu). O que seria “não trabalhar”: isso ficava a cargo do(a) contratado(a), podendo ocorrer ou não ocorrer em qualquer lugar da cidade de São Paulo. Uma remuneração: R$ 50,00, o mesmo valor por mim recebido por dia para a realização de minha pesquisa de mestrado, que consistia em não trabalhar; como não queria presumir o valor do não-trabalho dos outros, estes podiam definir o tempo que consideravam justo não-trabalhar por esse valor, no período de até um dia. 15 pessoas contratadas: o não-trabalho ocorreu em lugares diversos e não foi registrado, já que eu era obrigada a não-trabalhar junto com os(as) contratados(as). Posteriormente, foram criadas peças gráficas e publicações, como os Contra-pontos (figuras abaixo), também impressos em formato de bloco destacável, além de duas performances de narração das experiências de não-trabalho, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, e no espaço Coletivo Digital, em São Paulo. Este projeto foi desenvolvido no curso de Mestrado em Artes do Instituto de Artes da UERJ, com orientação do prof. Dr. Ricardo Basbaum e financiamento CAPES.
vaga(r) substantivo 1. lugar, espaço que não se encontra ocupado e pode vir a sê-lo; 2. falta, ausência, carência; 3. ocasião própria, ensejo; verbo 4. estar ou ficar vazio, desocupar-se; 5. sobrar, restar (tempo); 6. falta de pressa; lentidão, vagareza; 7. tempo desocupado, ócio, folga; 8. entregar-se a; 9. caminhar sem rumo, deriva.
Contra-pontos 2017 Impressão sobre papel 15 peças de 9x20 cm Exposição no Centro de Artes da UFF, 2018
Foi feita, ainda, uma intervenção com os Contrapontos em relógios-ponto de algumas empresas de São Paulo, por um(a) funcionário(a), a partir da qual foram coletados relatos sobre as interações e reções provocadas.
Grave som grave pesar gravar memórias gravurar. Uma leve uma pesada, qual o sentido da palavra? Grave, grave, grave.
Grave 2021 Conjuntos com 2 peças de 10x10 cm cada Tecido serigrafado, espuma siliconada e areia As peças possuem pesos diferentes, uma leve, uma pesada
Adjetivo Feminino: dicionário de experiências 1a ed. por Atelier Editora, 2021 Livro em brochura, 92 pág. 10 x 15 cm 2a ed. por Bebel Books, 2022 www.bebelbooks.com Que palavras são usadas para se caracterizar e definir uma mulher? E, o mais importante, o que ela tem a dizer sobre isso? Em isolamento, no período pandêmico, fiz um convite virtual para saber de situações muito reais: “Mulher, quais djetivos te marcaram ao longo da vida? Em que contexto lhe foram ditos?” Com esse convite, recebi relatos de mais de 40 mulheres, aos quais somei minhas próprias experiências, assim como alguns casos públicos de adjetivações sobre mulheres que ficaram conhecidos no Brasil. Foi a partir dessas palavras e histórias – dessas marcas – que criei os verbetes desse dicionário de experiências, com alta dose de ironia. Mas que pelas risadas não se enganem: não se trata de tornar o assunto “mais leve”. Pois os risos serão amarelos, a cada afirmação que, pelo absurdo, mostra seu avesso, repleto de preconceitos, ou que com uma reviravolta volta o olhar para o preconceituoso. Este projeto foi desenvolvido no curso de Doutorado em Artes da PGEHA-USP, com orientação do prof. Dr. Artur Matuck e coorientação da profa. Dra. Cláudia Zanatta (UFRGS).
Serviço mudo 2021 Fotoperformance
“Serviço mudo”: termo utilizado por museus e colecionadores para designar louças que não apresentam insígnias, como brasões, armas, coroas e acrônimos.
Currículo Formação 2019 (em curso) - Doutorado em Estética e História da Arte, USP, São Paulo. Orientador: Artur Matuck. 2019 - Grupo de estudos e experimentação em arte contemporânea, Escola Entrópica, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo. Orientadores: Virgínia de Medeiros e Fábio Morais. 2018 - Mestrado em Artes, UERJ, Rio de Janeiro. Orientador: Ricardo Roclaw Basbaum. 2013 - Bacharelado em Artes Visuais, Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre. Orientadora: Cláudia Vicari Zanatta. Exposição individual 2014 - Entre trama e corte. 3º Prêmio IEAVI de Incentivo à produção de Artes Visuais. Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre. Principais exposições coletivas e performances 2019 - Exposição do Núcleo de Cultura e Participação. Instituto Tomie Ohtake, São Paulo.
2018 - Bienal de Arte Joven de Santa Fe. Estación Belgrano, Santa Fé, Argentina. 2018 - Modos rítmicos: algo. Centro de Artes da UFF, Niterói, RJ. 2017 - Conversas-coletivas. Panorama da Arte Brasileira, MAM-SP, São Paulo. Obra de criação coletiva com Ricardo Basbaum, Bruna Beber, Júlia de Souza, Eduardo A. A. Almeida, Rafa Éis, Rodrigo Munhoz e Monise Rigamonti. 2017 - Não trabalho: não performo. Performance no evento I PEGA, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro. 2017 - Não-trabalho: uma performance não vista. Performance no evento de performances Ampliterra III, Coletivo Digital, São Paulo. 2015 - Va.zi.o. Vitrine Lugar das Dúvidas, Casa Daros, Rio de Janeiro. 2014 - 15/15. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre. 2013 - Palavra Habitada. Exposição-intervenção na Palavraria, Porto Alegre. Proposição do grupo .p.a.r.t.e.s.c.r.i.t.a., com coordenação de Elida Tessler.
Outras realizações artístico-culturais 2022 - Conferência na XXII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, Vila Nova de Cerveira - Portugal. 2022 - Participação na SP-Arte com lançamento da 2a ed. do livro de artista Adjetivo Feminino: dicionário de experiências, pela Bebel Books (2a ed.) 2021 - Publicação do livro de artista Adjetivo Feminino: dicionário de experiências, pela Atelier Editora (1a ed.). 2021 - Participação via edital do laboratório de criação Breve Atlas do Trabalho, proposto pelo artista João Emediato no 14 IC Encontro de Artes, Salvador BA. 2021 - Publicação do texto-obra Posso esperar contigo? na coletânea Revista .rar, pela Atelier Editora. Organizador e coordenador: Jandir Jr. 2020 - Apresentação do trabalho artístico Vaga-se, pelo edital SESC Cultura ConVida!, plataforma virtual. 2019 - Participação via edital no projeto Mulheres Possíveis. Proposta e organização: Coletivo Teatro Dodecafônico. 2017 - Ministrou curso Feminismo e questão de gênero:
transgressões através da arte para estudantes de Ensino Médio da escola Pedro II. Paço Imperial, Rio de Janeiro. 2017 - Curadoria Pedagógica para a exposição Viajando pelo mundo: Arte da Alemanha, Coleção IFA e Instituto Goethe. Paço Imperial, Rio de Janeiro. 2017 - Workshop Encontros Sensoriais para Bebês, no Festival PING, Rio de Janeiro. 2015 - Publicação do texto Dê a volta na quadra. Caderno Encontros da exposição Cuba: Ficção e Fantasia. Rio de Janeiro: Daros, 2015. 2014 - Publicação de texto em catálogo de exposição. Entre trama e corte. In: Catálogo do 3o Prêmio IEAVI de Artes Visuais. Porto Alegre: IEAVI, 2014.
Projeto gráfico Marina Jerusalinsky Fotografias Bruno Tarpani Adjetivo Feminino e Grave Carin Mandelli Ponto cego e De mim toda mentira aceito (detalhes) Filipe Conde Tecendo esperas e Escritas para esperas passageiras (ações) Natasha Jerusalinsky Tato, Suspenso e De mim toda mentira aceito (foto 1) Marina Jerusalinsky Habito, Escritas para esperas passageiras (livro), Vaga-se e Serviço mudo