CATALOGO-EXPO-INTERIOR-DIA-NATUREZA-MORTA

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INTERIOR DIA: NATUREZA-MORTA é uma exposição com curadoria de André Sheik e com a participação de artistas em diversos estágios de carreira, que produzem obras em variados meios, tais como: fotografia, pintura, desenho e objeto. Na exibição, os dez artistas apresentam suas interpretações a partir da provocação do título da exposição. Pensados para o local, o Cine Santa, os trabalhos estabelecem relações com dois termos: um, de roteiro de cinema, que indica o local onde se passa uma ação (no caso, “interior dia”), e outro, de um gênero tradicional da pintura, a natureza-morta, no qual, usualmente, são representados alimentos, objetos ou seres inanimados, em uma cena, no interior de um local. Dessa maneira, a mostra pretende tensionar o gênero específico das artes visuais, expandindo suas possibilidades, incorporando a ideia do movimento cinematográfico e ampliando as interpretações a respeito de ambos os conceitos. Enfim, uma conversa entre cinema e artes plásticas.

Em cartaz, 2024 Objeto

51 x 28 cm

Ad Costa

Em “A Obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” (1936), Walter Benjamin explica como o surgimento do cinema proporcionou uma nova experiência estética, modificando também a percepção sensorial dos espectadores. Segundo o autor, o filme desafiaria o valor de culto da arte, bem como a reprodutibilidade técnica seria uma ameaça à sua aura.

Contudo, na própria história da pintura, há questionamentos sobre o valor integral da aura de certos gêneros. A natureza-morta, por exemplo, teve um papel coadjuvante e de exercício para o aprendizado artístico. Foi a partir do Renascimento Nórdico, no século XIV, que ela adquiriu um status maior, ou seja, numa época muito anterior à invenção do cinema.

Em “Interior dia: natureza-morta”, essa discussão é colocada em evidência, o que é especialmente interessante por se tratar de uma exposição montada no saguão de um cinema – que por sua vez, é bem diferente do que chamamos de “cubo branco”.

Em “O cartaz”, Ad Costa utiliza um letreiro tradicional, típico dos cinemas antigos, para criar um caça-

palavras de termos relacionados à angústia e à ansiedade. Utiliza, portanto, um objeto vintage para abordar um tema contemporâneo (e sobretudo necessário). Ao mesmo tempo, faz o espectador movimentar o seu olhar diante de uma imagem estática e conforme seus próprios desejos – o que se opõe ao que acontece nos filmes, quando observamos passivamente sequências de imagens montadas pelo criador da obra.

Além disso, o suporte utilizado por Ad Costa permite que as letras encaixadas possam ser facilmente manipuladas e trocadas. É, portanto, um trabalho que possui certa instabilidade, contrastando-se novamente com o cinema, ao mesmo tempo que o exalta.

Mini bio

Ad Costa, nascida em 1981 no Rio de Janeiro, é artista visual e pesquisadora independente, com formação em Pedagogia e mestrado em Artes Visuais pela UERJ. Desde 2023, participa como bolsista/monitora na EAV/Parque Lage. Seus trabalhos exploram com humor crítico, temas como o excesso de medicamentos na sociedade e o controle biopolítico sobre corpos femininos.

Beatriz Lopes

Em “A Obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica” (1936), Walter Benjamin explica como o surgimento do cinema proporcionou uma nova experiência estética, modificando também a percepção sensorial dos espectadores. Segundo o autor, o filme desafiaria o valor de culto da arte, bem como a reprodutibilidade técnica seria uma ameaça à sua aura.

Contudo, na própria história da pintura, há questionamentos sobre o valor integral da aura de certos gêneros. A natureza-morta, por exemplo, teve um papel coadjuvante e de exercício para o aprendizado artístico. Foi a partir do século XVI, no norte europeu, que ela começou, aos poucos, a adquirir um status maior. Ou seja, numa época muito anterior à invenção do cinema.

Em “Interior dia: natureza-morta”, essa discussão é colocada em evidência, o que é especialmente interessante por se tratar de uma exposição montada no saguão de um cinema – que por sua vez, é bem diferente do que chamamos de “cubo branco”.

Barbara Herrmann apresenta uma obra que alude à ascensão de uma categoria da arte. “Paisagem” – termo que já foi um subgênero da pintura – se refere a uma forma fina e vertical executada em black foil, material utilizado por profissionais de iluminação em teatro, TV e cinema para cobrir passagens de luz. No caso, tal superfície cobre precisamente uma rachadura que vai do chão ao teto do Cine Santa, obrigando o espectador a se movimentar para observar a obra. Se, por um lado, a forma fica camuflada numa espécie de paisagem interior, por outro, sua verticalidade se opõe à posição do gênero clássico que dá nome ao trabalho.

“Paisagem” é então um site specific - formato típico da arte contemporânea - e que, nesse caso, ainda remete ao controle da luz, tema central na pintura, no cinema e até nas salas de exibição que são praticamente “cubos pretos” – nelas, a ausência de luz visa isolar o público de todos os demais estímulos visuais, deixando-o concentrado exclusivamente no filme.

Sem título, 2024

Alumínio preto e pregos

4 x 0,20 m

Mini bio

Barbara Hermann (Rio de Janeiro, 1984) faz trabalhos manuais desde criança, para se expressar criativamente. No colégio, explorou a pintura, a cerâmica e a fotografia. Formada em Desenho Industrial, atualmente trabalha na criação de joias. Em 2007, iniciou seus estudos na Escola de Artes Visuais no Parque Laje (EAV), onde começou a desenvolver uma poética própria. Fez cursos com Bernardo Magina e com André Sheik (curador da EAV). Participou de duas mostras “Ocupação” (2022, 2023), no Parque Lage.

Beatriz Lopes

Benjamin Rothstein

A estrutura da pintura de Benjamin Rothstein revela o pensamento do artista carioca que é, também, arquiteto. “Linha do limite” apresenta traços imprecisos, mas que sustentam a composição; espaços não preenchidos que não são plenamente vazios; figuras que podem ser fundos; linhas que se tornam manchas e tornam linhas; figuração e abstração.

Ben trata com humor o tema da natureza-morta, uma possível referência às icônicas latas de sopa do artista norte-americano Andy Warhol (1928-1987).

A menina, o urso de pelúcia, o esboço da cabeça de um bicho, são elementos intrigantes que abrem um universo de associações, fantasias e enigmas que lembram Alice no País das Maravilhas, romance de Lewis Carroll (1865).

Assim como na estória do livro, o sentido desta pintura está sempre escapando; o coelho de Alice e o urso de Benjamin não são bichinhos inocentes, eles trazem recados do mundo adulto. O pequeno

Linha do limite, 2024 Acrílica sobre tela 135 x 111 cm universo infantil é confinado no retângulo da tela, se fazendo de grande. “Aonde fica a saída?” - perguntou Alice ao gato que ria. “Depende” - respondeu o gato. “De quê?” - replicou Alice: “Depende de para onde você quer ir”. A execução é crua e expressiva. A junção dos elementos promove uma imagem própria, que evoca elementos da infância, onde a cor esboça e borra seus limites. Além disso, a ambiguidade cromática cria uma abstração e nos remete à reflexão. Por fim, os elementos figurativos presentes estimulam um encontro do passado com a atualidade, resgatando memórias afetivas que produzem o encontro da obra e com um passado íntimo.

Benjamin Rothstein é artista visual e arquiteto de formação, e trabalha com pintura desde 2009. Possui um trabalho figurativo em quase sua totalidade, mas que em vários momentos transita pelo abstrato no intuito de atingir uma abrangência maior dentro da pintura. O seu trabalho, segue uma linha de pesquisa focada nos aspectos do paisagismo, no desafio das situações diárias e das questões urbanas presentes nos tempos diversos em que vivemos.

Mini bio
Ana

Camila Canela

Fui para casa e lembrei do que sou feita. Você não tem poder sobre os meus sonhos, 2023 Óleo sobre tela 30 x 44 cm

Quem tem poder sobre os sonhos? Para quem acredita em destino, ninguém tem poder sobre o sonho que se sonha acordado. Para quem acredita em inconsciente, ninguém tem poder sobre o sonho que se sonha dor mindo. Para quem acredita em livrearbítrio, meritocracia ou no american way of life, é o próprio sujeito, que sonha acordado, o detentor do poder sobre o sonho. Fora das possibilidades mais filosóficas ou religiosas, há o pragmatismo das estatísticas sobre mudanças de comportamento de milhões de pessoas, a partir da propaganda - e aí, o detentor do poder sobre o sonho, o que se sonha acordado é o capitalismo (e, às vezes, também dormindo).

As tendências na economia dos sonhos acabam denunciadas pelos números, sendo improvável que o espírito de época seja mais forte que a indústria bilionária da publicidade. Essa equação tem sempre poucos elementos, dentre os quais, a constante que assegura seu sucesso: o desejo de ser aceito, amado, respeitado, prestigiado, reverenciado. Com esse motor, as redes sociais se tornaram o espaço ideal para vender novas versões de corpos, ideologias, identidades, gostos etc. Nele, o convencimento parece ser o único obstáculo real para a materialização da fantasia.

Fora da cena artística, um cavalo poderia estar em uma cozinha? Não haverá persuasão que faça desaparecer a quimera, ainda que a maioria não diga - não pela eficiência da retórica, mas pela falta de coragem, sob pena de deixar de ser aceito... (aqueles mesmos motivos citados acima, os que motivaram a farsa). E se for apenas um sonho autônomo, fruto de um desejo genuíno ou de um chamado honesto? Corta! A atriz se distrai com o fim da gravação, o cavalo sai à toda pelo estúdio e acaba dentro do cenário da cozinha. Quem tem poder sobre o sonho? O roteirista, o diretor ou o produtor?

Lopes e Daniele Machado

Mini bio

Camila Kahhykwyú Canela é uma pessoa indígena da etnia Apanjêkra Canela, sua pesquisa em artes tangencia assuntos como diáspora indígena, memória, identidade, corpo-território e contracolonialidade.

A partir disso, se interessa pela articulação da cura como estratégia política y afetiva. Participou de coletiva no Solar dos Abacaxis, (curadoria Solar dos Abacaxis, Galpão Bela Maré e ArtRio/2024). Suas obras constam em acervos particulares internacionais e nacionais, como no da galerista Karla Osório.

Ao tema desta exposição, que funde o cinema com as artes plásticas, por meio da natureza-morta, Fernanda Rosa responde com um jardim de rosas em quatro atos, em sentido horário: orquídea, rosa, alecrim e planta com bolinhas amarelas. Em jogos de cena cinematográficos, articulados entre pintura, desenho e planos fechados, a artista conta sobre quatro mulheres da família Rosa, respectivamente: sua mãe, ela mesma, sua avó e sua irmã (gêmea) - são as telas: Julieta, Fernanda, Aldemira e Juliane.

No entanto, sem a sinopse fornecida pela pintora, os dois ritmos sobrepostos da série tornam suspeitos cada um dos episódios desse jardim. Ora, tela a tela, uma tela por vez; ora, em repetição infinita, a casa que hospeda essas naturezas-mortas, uma única locação, suspende o mundo que passa, então, a existir somente ali. O desconhecido à espreita ganha força, ainda, com a legibilidade baixa dos quadros. Fora do primeiro plano, encontramos coadjuvantes,

Fernanda Rosa

Série: O jardim das rosas, 2024 Julieta, Juliane, Aldemira e Fernanda Acrílica e giz pastel oleoso sobre tela 35 x 27 cm (cada) figurantes e reminiscências das cenas cortadas, exigindo atenção para checar se tudo já foi interrogado. No entanto, sem a sinopse fornecida pela pintora, há poucos elementos que sustentem um roteiro mais popular. Sua narrativa experimental não oferece começo, ápice, fim ou alguma explicação. Uma única tela oferece algo excepcional ao repertório das plantas, a da própria “Fernanda” que encarna a única rosa, de fato, de seu jardim. Sobre a mesa coberta com uma toalha quadriculada, há ainda moedas, búzios e um livro “O tarot e as histórias de amor” - todos desenhados sobre fundo branco e manchado de lápis. Fora das linhas, uma paleta de vermelhos e beges esmaecidos e o rosa denso da rosa. A estrutura aberta para que esse filmes ganhem diversos finais - ou fiquem sem nenhum - pode ser, na verdade, uma única, em construção: a do livro sobre a única rosa do jardim, que torna suas referências femininas, oráculos.

bio

Fernanda Rosa é uma artista visual e muralista autodidata, nascida em Seropédica cidade da baixada do Rio de Janeiro, seu alto interesse por cinema e moda também a levou a conhecer as artes visuais através das pinturas iniciando assim o seu fazer artístico. Em seu trabalho busca trazer a reflexão do expectador de forma sútil através da beleza para partilhar de sua percepção sobre o mundo ao seu redor sendo uma mulher negra bissexual e vinda de uma família cristã evangélica.

Mini
Daniele Machado

Jeff Seon

Óleo sobre tela

80 x 60 cm

Jeff Seon sabe exatamente o que deseja com sua arte: não ser sombra. Nascido e criado no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, as chances foram inúmeras. O que vemos nesta obra nos mostra o cotidiano vivido, com muita luz e sombra, com muita cor e, principalmente, uma intensidade excessiva de laranja e roxo, como cores predominantes. O porquê? O artista conta que iniciou sua carreira no graffiti e essas eram as cores menos usadas pelos mais experientes e que sobraram para os novatos participarem dos murais. Trazendo essa bagagem para a tela, ele torna as cores menos cobiçadas o ápice das suas composições.

Na obra, encontramos um feirante trabalhando, oferecendo seus produtos, mas ele não é qualquer um. Jeff colocou em sua cabeça uma auréola verde, o que pode trazê-lo para um domínio santificado, evocar santidade ou pureza e, também, criticar e questionar quem, na sociedade contemporânea, merece ser considerado "santo" ou "divino".

A auréola pode ser usada de maneira irônica, simbólica ou conceitual, talvez destacando aspectos como a idolatria das celebridades, a pureza idealizada, e desafiando o espectador a pensar sobre o que significa santidade ou perfeição nos dias de hoje, em uma sociedade laica e plural.

A cor verde da auréola vem, com certeza, "coroar" a obra. É comum que ela tenha uma conotação positiva, ligada à vida e à espiritualidade em equilíbrio e em harmonia, à esperança... O cotidiano vivido pelo artista também se mostra quando ele retrata a feira livre e sua natureza-morta, posta à venda ao preço negociado, onde o interesse é não voltar para casa sem o leite das crianças. Ele é um herói coroado, que não vive na sombra, que sabe o que quer e, entre luz, sombra e muita cor, ainda passa despercebido pelo olhar de muitos. Esta é a história de muitos ao redor do artista e esta é a obra que ele quer mostrar.

Mini bio

Jeff Seon utiliza sua vivência cotidiana como inspiração para criar obras que abordem temas como cultura local, corpos negros e resiliência. Sua arte, além de expressar a realidade vibrante de sua comunidade, atua como ferramenta de transformação social. Jeff teve sua primeira exposição individual, “Santidades”, no Sesc Ramos (2024) e participou de coletivas em espaços culturais importantes, como a EAV Parque Lage, MAR e MUHCAB.

Zilah Garcia

Leo Stuckert

A natureza-morta de Leo Stuckert é mole, deformada e quente. Um clarão em meio à floresta densa e quase líquida hospeda o misterioso personagem central: um escorrega desgastado e quebrado. “Fingindo-se de morto” seria uma brincadeira infantil ou um dilema existencial? Chão, raízes e troncos se entrelaçam num ambiente que pode abraçar ou engolir. As memórias são falhadas? Enferrujadas? Faltantes? Mas o que escapa?

A infância, o equilíbrio, o medo? A prancha inclinada é interrompida. Deslizamos para o vazio? Numa graminha fofa ou em braços acolh edores?

As marcações em rosa sugerem aurora e crepúsculo, horários mágicos em que devaneios se desdobram sem bordas, sentimento compartilhado ao longo dos últimos séculos de história da pintura. Stuckert exprime ideias que escorregam, ao mesmo tempo, para direções diferentes. Com tantas ambiguidades, seu universo onírico estimula nossa imaginação.

As sensações forjadas pela forma e pelas cores são tão protagonistas quanto o objeto escorrega. Como em “O Grito”, do pintor expressionista norueguês

Edward Munch, sua obra também nos diz sobre estruturas psíquicas mais complexas: o artista aponta não para a realidade objetiva, mas para emoções e respostas subjetivas que objetos e eventos despertam. Por fim, o trabalho de Leo Stuckert suscita a percepção sensorial que é a nossa interpretação captada pelos sentidos, impulsionada pela distorção das formas e pela manipulação das cores.

Fingindo-se de morto, 2024 Acrílica e transferência manual de imagem sobre tela 95 x 62 cm/

Mini bio

Leo Stuckert é artista visual graduado em design. Desde 2017, frequenta os cursos livres, EAV-Parque Lage, Rj. O trabalho tem como fio condutor a edição e mistura de registros do passado e do presente. Por meio da transferência de imagens e pintura cria novas relações espaciais sobrepondo planos e superfícies. Em 2020/2021, participou do 1º Salão de Artes Visuais Galeria Ibeu Online. E em 2023, da exposição “Pessoas e Espaços” com o artista Pedro Mandarino, e curadoria de Osvaldo Carvalho no Espaço Cultural Correios Niterói.

Protagonismos, 2024

Lápis de cor e crayon sobre papel

72 x 108 cm

Marilene Nacaratti apresenta um trabalho de fragmentos, trazendo cenas de filmes assistidos por ela. Suas naturezas-mortas são feitas do cotidiano representado nas grandes telas que se ergue acima dos personagens, deixando-os com a vida em suspenso, remetendo à pintura egípcia antiga. A artista coloca diante de nós cenas estáticas de elementos sem vida que parecem ter sido

criadas apenas para decorar, mas, também, nos oferecem a possibilidade de um pensamento sequencial, onde a fotografia caminha e nos entrega o filme.

A natureza-morta de Nacaratti também evoca o pensamento dos egípcios que desenvolviam suas obras nas tumbas para que a próxima vida fosse repleta de tudo que consideravam essencial para essa existência futura. Do século XXI, a artista brinca com a ideia de uma nova vida, firmando esse paralelo entre vida e pós-vida, fotografia e pós-fotografia, filme e eternidade.

Por fim, entre essas 9 cenas selecionadas, uma boneca de porcelana se destaca. Nos demais quadros, deparamo-nos com imagens totalmente inanimadas, mas carregadas de uma grande força de representação que a artista conseguiu transmitir, como o prazer, a carência, a miséria e a violência. Será essa a protagonista de seu filme (e seu drama)? Uma tragédia sobre a vida banal e comum, uma saga com toda a intensidade que, qualquer um de nós, conhecemos intimamente.

MARILENE NACARATTI - Carioca, arquiteta/urbanista, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Usa o desenho, a fotografia e o video e suas interações como meios de expressão. Frequentou cursos livres de arte no ATELIÊ DA IMAGEM, EAV - PQ LAGE. Participou de exposições coletivas e de publicações. Dedica-se a examinar as relações e conflitos entre a sociedade e o meio ambiente por meio da memória imagética constituida por diferentes meios meios de aquisição de imagens.

Mini bio
Marilene Nacaratti
Zilah Garcia

Thiago Haule

A natureza-morta é um gênero artístico muito marcado pela presença de alimentos - e de facas. Para se apropriar dos diversos desenhos que cada fruta, legume, queijo, pão, carne etc. pode oferecer, o artista costuma ter o utensílio cortante entre as suas ferramentas, aplicando-o com a mesma dedicação com a qual utiliza um pincel, uma goiva ou uma câmera, por exemplo. Ou não. A natureza-morta pode, também, ser a cena idealizada como registro das cozinhas e dos vestígios dos respectivos

Luta, 2024

Objeto

38 x 4.5 x 2 cm

“espaços-tempos” que elas carregam. Independente da cena montada ou flagrada, servindo de modo genuíno ou cenográfico, a faca continua lá.

Essa faca sobre a qual pensamos até agora é um símbolo do processo civilizador, como analisou o sociólogo alemão Norbert Elias. No entanto, suspeito que foi a partir do cinema que essa simbologia passa a ter uma concorrente. A representação das classes baixas nas grandes telas corroborou a associação da faca e de seus variantes - como o facão, utilizado em ambientes externos, sobretudo, rurais - à luta revolucionária ou por direitos. Um instrumento rudimentar para enfrentar a máquina sofisticada das classes altas. Podemos inserir a obra de Thiago Haule nesse ensaio de iconografia pop ular da faca.

O viés conceitual do trabalho carrega consigo, também, a história dessa palavra na arte contemporânea brasileira, em obras icônicas do final da década de 1960, dos artistas Carlos Zilio e Rubens Gerchman, contextualizadas pela ditadura militar de 1964. Seis décadas depois, engana-se quem pensa que Haule teria sido ainda mais radical, ao trazer propriamente o instrumento de combate para encarnar a mensagem política. Tal qual a presença ausente da faca nas naturezas-mortas, o artista embute uma acidez sutil em seu trabalho. Enquanto a dupla acima, em seus respectivos “LUTE”(s), conjugam no imperativo, Thiago Haule traz o assombroso presente. Para completar, sua “LUTA” foi soldada na faca cega e enferrujada, sendo projetada como sombra na parede, a partir do contraste da faca com a luz. Tal qual a magia construída entre a sala escura e a projeção, o artista revela, denuncia e reivindica a utopia.

Mini bio

Thiago “Haule” Rodrigues, artista visual. Comecei na fotografia popular o que me levou para a arte de rua e outras vertentes; em minha produção construo narrativas a partir de objetos que recolho pelas ruas e faço inserção de imagens e interferências no meu território, articulando referência como o Pan Africanismo e a luta dos povos indígenas, para tratar das desigualdades do nosso tempo.

“Mesa posta” é uma série de fotografias. Talvez, pequenas instalações fotografadas. Virna Santolia fotografou as cenas e, também, as compôs. Seu gesto dialoga com a tradição dos primeiros fotógrafos que, mais que intervir, montavam quadros inteiros para, em seguida, capturá-los, recorrendo ao pensamento pictórico para forjar a nova técnica. O conjunto da obra pode remeter ainda, diretamente, à primeira “Mesa posta” (1826) da história da fotografia, a heliografia sobre placa de vidro realizada por Nicéphore Niépce, autor da patente que viria décadas depois, junto a Louis Daguerre. A natureza-morta inaugural e a contemporânea têm, em comum, uma refeição solitária.

Mesa Posta, 2024

Inkjet sobre papel finearts

30 X 45 cm (cada)

Nesse sentido, é notável que um episódio fundamental para a história da técnica moderna tenha optado por representar o indivíduo que renuncia à comunhão para se alimentar - o que inevitavelmente aponta para outra mesa posta, um dos temas mais célebres da história da pintura, a instituição da eucaristia, mais conhecida como última ceia. Virna Santolia, por sua vez, forja sujeitos assombrados pelo passado, imersos pela série de objetos que a artista adquiriu na Feira da Ladra (Lisboa, Portugal). Como nas feiras típicas do segmento de antiguidades, a feira portuguesa, há quase oito séculos, mescla raridades com todo tipo de bugiganga usada.

A cartografia não é novidade na pesquisa da artista, mas, desta vez, os itens são inseridos em uma cena maior, com vários outros elementos para pôr a mesa. De fato, as mesas não estão exatamente postas, ficando longe da assepsia que rege o momento pré-refeição. Nessas mesas

impossíveis, os pratos ficam impecavelmente limpos; as toalhas, imundas; o temido vinho se torna um bem-vindo pigmento sobre o delicado fundo branco para compor novas vidas para os objetos salvos da condenação ao passado. “Mesa posta”, então, está no título, mas não ali, representada; é uma série de fotografias e uma homenagem à história dessa técnica que se confunde com a identidade moderna - e, também, contemporânea.

Mini bio

Virna Santolia é artista visual e fotógrafa de moda com mais de 25 anos de experiência. Cursa mestrado em artes na UERJ, onde pesquisa a fotografia de moda brasileira inspirada em Otto Stupakoff. Em 2018, lançou a série "Capilaridade," exposta no Paraty em Foco (2022) e na Flach Galeria em Santiago (2023). Em 2024, participou da residência artística NowHere em Lisboa, desenvolvendo a série "Mesa Posta."

FICHA TÉCNICA

EXPOSIÇÃO INTERIOR DIA: NATUREZA-MORTA

ARTISTAS:

AD Costa

Barbara Herrmann

Benjamin Rothstein

Camila Canela

Fernanda Rosa

Jeff Seon

Leo Stuckert

Marilene Nacaratti

Thiago Haule

Virna Santolia

CURADORIA: André Sheik

COORDENAÇÃO TEXTUAL: Daniele Machado

TEXTOS:

Ana Dantas

Beatriz Lopes

Daniele Machado

Flávia Monteiro

Zilah Garcia

MONTAGEM: colaborativa com a supervisão de André Sheik

PRODUÇÃO: Adeilma Costa

IDENTIDADE VISUAL: Leo Stuckert

FOTOGRAFIA: Virna Santolia

AGRADECIMENTOS:

André Sheik

Daniele Machado

Alunos de Daniele Machado responsáveis pelos textos

Fernanda Oliveira e Adil Tiscati (GRUPO CASAL) responsável pelo Cine Santa

Público que prestigiou a exposição

Funcionários do Cine Santa

TEMPORADA: 20/09/24 a 03/11/24

VISITAÇÃO: de 21/09/24 a 03/11/24 - diariamente, das 13h às 20:30h

ABERTURA: 20/09/24 das 19h às 22h

CINE SANTA:

Rua Paschoal Carlos Magno, 136, Santa Teresa - Rio de Janeiro/RJ

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