| Abre-Alas |
Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro / Secretaria Municipal de Cultura
E
antes que pudéssemos nos dar conta, o prêmio Plumas & Paetês Cultural deixa de ser uma criança e completa 12 anos. E tal qual nossos premiados, após muitas dificuldades, hoje somos reconhecidos. Uma trajetória que muito nos alegra, mas queremos fazer ainda mais. Revista Plumas & Paetês Cultural 8ª Edição - julho 2017 Tiragem: 20.000 exemplares Circulação Gratuita - Venda proibida www.plumasepaetescultural.com.br /plumaepaetescultural/ PRODUÇÃO: Diretor Executivo: José Antônio Rodrigues Coordenador Administrativo: Gustavo Luiz Jornalista Responsável: Tiago Ribeiro (REG.4412/RJ)
Con�ra a programação da Rede de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura www.rio.rj.gov.br/web/smc facebook.com/SMCulturaRio
CULTURA+
D IVERSIDADE
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REDAÇÃO: Editor: Tiago Ribeiro Produtor e Projetista Gráfico: Levi Cintra Revisor: André Camargo (JP.24067-RJ) Textos: André Bonatte, André Camargo, Evandro Gomes, João Gustavo Mello, José Antônio Rodrigues, José Mauricio Tavares, Luiz Ricardo Leitão, Nilcemar Nogueira e Tiago Ribeiro. Fotografias: Acervo Riotur, Bruno Motta, Edimar Silva, Luz Foto Filme, Maickell Abreu, Marcos Mello e Robson Talber. Foto de Capa: Marcos Mello Impressão: Grafica MEC - Rua Visconde de Santa Isabel, 420 Grajaú - RJ CNPJ: 42.459.891/0001-99 Agradecimentos: Jorge Rodrigues, Dominique Marceau e Gauthier Mercier. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução sem autorização prévia e escrita. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo a opinião do Plumas & Paetês Cultural.
Nós, que começamos como um prêmio, já tivemos camarote nos desfiles, criamos uma companhia de artes, oferecemos cursos de capacitação e gestão em artes carnavalescas, há 4 anos somos, também, os responsáveis pela confecção e design da coroa do Rei Momo da cidade do Rio de Janeiro. Em suas mãos está outro desdobramento de nosso trabalho: a Revista Plumas & Paetês Cultural, que chega à sua oitava edição. Um projeto que lança o holofote sobre os nossos premiados, faz um paralelo com o passado e o presente do carnaval e se empenha para trazer uma mescla de conteúdo cultural com a economia criativa, uma máxima que, mais do que nunca, a festa reafirma. E é acreditando em toda a potência e importância do carnaval, marca do Brasil no mundo, que seguimos crescendo e amadurecendo, dando sequência à nossa linha evolutiva, sem jamais envelhecer.
José Antônio Rodrigues Filho Gestor do Prêmio Plumas & Paetês Cultural
| Sumário |
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ZÉ KATIMBA Um Castelo para reis e rainhas
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Conheça o nosso premiado, Sandro Carvalho, e seu Chateau Rouge
A Historia que o povo faz
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O empoderamento dos que ao bem cultural pertencem
Antes de tudo um forte
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Zé Katimba e sua arte de vencer as adversidades
Quem Leva Fama?
26 06
DOIS GÊNIOS, DUAS ESCOLAS
Uma reflexão sobre o individual e o coletivo no fazer carnavalesco
Antes de tudo um forte
22
NA INFINITA IMENSIDÃO DO
ARTÍSTICAS, MUITAS LIÇÕES
MEU OLHAR
30 anos sem Arlindo Rodrigues e
O tititi das marcas de enredo
Fernando Pinto
18
Zé Katimba e sua arte de vencer as adversidades
Edições anteriores baixe o qr reader
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ENTRE PLUMAS & PAETÊS: En-
20
PRESERVAÇÃO E MOVIMENTA-
saio fotográfico e bate-papo com
ÇÃO CULTURAL NAS ESCOLAS
Giovana Angélica, musa da Mo-
DE SAMBA
cidade
Os 50 anos dos departamentos culturais
| Gestão de Carnaval |
QUEM LEVA FAMA?
Por: José Antônio Rodrigues Filho
O coletivo e o individual no fazer carnavalesco
Para o público em geral, não habituado aos bastidores da festa, ainda existe a ideia de que o carnavalesco é o onipotente responsável pelo desfile, talvez por uma visão nostálgica, de quando o carnaval ainda não era profissional e não atraía tan-
M
uito se diz que os casais de mestre-sala e porta-bandeira carregam todo o peso de um quesito nas costas, apenas duas pessoas res-
ponsáveis por 1/9 das notas de uma agremiação. Quem conhece os bastidores do carnaval sabe que esta afirmação não é de toda verdadeira. Além dos já costumeiros ensaiadores de casais, que tanto auxiliam na elaboração das coreografias, como no condicionamento físico dos defensores do pavilhão, o quesito ao qual se referem não avalia somente a dança, mas a confecção da fantasia, que foi pensada pelo pesquisador, elaborada pelo desenhista e confeccionada por um ateliê. Marcada, atualmente, pela presença de vários autores, a composição de samba já foi uma arte feita por apenas uma mão. Se em 2017 a média de compositores por samba enredo do Grupo Especial é de 7 autores, nos anos 1970 era de aproximadamente 2 poetas. Para se ter uma ideia, na referida década, 24 sambas foram escritos por apenas um autor, o que significava que apenas uma pessoa era responsável por até 20% dos pontos de uma agremiação, já que em 1974 e 1975, o samba enredo correspondeu a 2 dos 10 quesitos: letra do samba e melodia.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
tos desfilantes, público e mídia. Provável que ficariam surpresos ao descobrir que muitos destes artistas nem desenham figurinos, o que não é nenhum demérito. Atualmente, o projeto de um carnaval é tão grande e complexo que assistentes, pesquisadores, desenhistas, enfim, uma equipe é indispensável. Boa parte dos carnavalescos começaram como aderecistas ou figurinistas, desde as revelações recentes como Leandro Vieira (Mangueira) ou Fábio Ricardo (Império Serrano) e até os consagrados Renato Lage (Grande Rio) e Rosa Magalhães (Portela), ex-alunos de Fernando Pamplona. Engrenagens desta grande indústria criativa. É assim que cada componente, artista, público e profissional de mídia traduz o que é o desfile de escola de samba. Seja o compositor que faz um samba solo ou o carnavalesco-faz-tudo de uma escola da sexta divisão dos desfiles, ninguém faz um desfile sozinho. Por isso que devem ser louvadas todas as iniciativas que destacam cada profissional envolvido com a festa, de ferreiros e eletricistas a coreógrafos e destaques de luxo. Valorizar o indivíduo pode ser a melhor maneira de aprender sobre o todo. JOSÉ ANTÔNIO RODRIGUES FILHO é idealizador e gestor do prêmio Plumas & Paetês Cultural.
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Galeria 2016 | Confira as imagens dos premiados da 12ª edição do prêmio Plumas & Paetês Cultural, em homenagem ao compositor Monarco. A premiação ocorreu em, 23 de julho, na quadra da Portela, e reuniu representantes das agremiações de todas as divisões dos desfiles.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Gestão de Carnaval |
A HISTÓRIA QUE O POVO FAZ O empoderamento dos que ao bem cultural pertencem Por: Nilcemar Nogueira
Com o passar dos anos, o sentido de espetacularização dos desfiles trouxe novos conceitos que acabaram atropelando justamente a gênese do que conhecemos como escola de samba. As costureiras, rendeiras e artesãos locais, arraigados
A
nas comunidades que transbordavam no entorno dos barra-
s escolas de samba – e repito isso sempre que tenho
cões, foram substituídas pelos ateliês industriais. O que antes
oportunidade e o farei sempre que tiver voz e saúde –
era feito dentro dos saberes e tradições de cada localidade
são muito mais que os espetáculos a que assistimos
transformou-se em modo de produção massivo, sem origina-
anualmente na Marquês de Sapucaí. E ninguém parece dis-
lidade, padronizado, dentro da visão do lucro fácil e rápido.
cordar disso, pelo contrário. Mas muitos parecem não refletir
E a consequência central desta opção das escolas refletiu-
sobre isso. Os afazeres por trás do que se convencionou cha-
-se no afastamento destes profissionais artesãos e dos sam-
mar de “o grande espetáculo da terra” envolvem costureiras,
bistas tradicionais do processo todo que envolve a feitura do
rendeiras, artesãos, mecânicos, numa cadeia de serviços e
carnaval. Processo este anterior ao barracão, traduzido na for-
produção que, dentro das favelas, ajudam a gerar emprego,
ma de vida daquelas pessoas, que acabou rompido por uma
renda, dignidade, apego à cultura local e reconhecimento.
lógica que considero perversa e destrutiva.
O crescimento das escolas como espaços de encontro e
Precisamos redesenhar este modelo, criando cursos de es-
socialização de populações historicamente marginalizadas
pecialização técnica nas comunidades, proporcionando novas
acabou gerando toda uma estrutura de trabalho necessária
oportunidades e o empoderamento destas ao bem cultural que
para colocar as agremiações na avenida. Desta forma, o que
lhes pertencem. As escolas de samba podem se transformar
nasceu da necessidade atávica de unir, colher tradições, criar
em elos de uma aliança rompida pela tragédia da violência e
estímulos locais e visibilidade social também transformou-se
a falta de perspectivas nas áreas mais pobres da cidade, prin-
em modo de sustento e empregabilidade. Nascia das mãos
cipalmente entre os mais jovens. Tirá-los do esquecimento, da
das costureiras os estilos de fantasias, com muitas escolas
invisibilidade, tornando-os atores centrais de seus próprios
tendo seu modo próprio de criação e produção. Toda uma
destinos, é um desafio que temos de encarar com muita se-
engenharia foi pensada e construída, por gente humilde, sem
riedade. E os nossos antepassados deixaram um legado que
escolaridade, para que tudo desse certo e os componentes
pode nos ajudar a mudar o nosso futuro para melhor.
pudessem, com muita beleza e alegria, representar aquela comunidade, no gingado de uma tradição rica e que fazia parte do dia a dia de cada uma daquelas pessoas.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
Nilcemar Nogueira é Secretária Municipal de Cultura da cidade do Rio de Janeiro e neta de Cartola.
| Entre Plumas & Paetês |
N
ascida e criada em Padre Miguel, neta de costureira que
fazia fantasias para a Mocidade Independente de Padre Miguel, Giovana cresceu admirando a agremiação, acompanhando os
Giovana angélica Há 12 anos o prêmio da Revista Plumas & Paetês Cultural vem destacando os mais
ensaios junto de sua mãe. Aos 10 anos de idade, com o falecimento da matriarca, acabou se afastando do mundo do samba, mas continuou seguindo a estrela guia à distância. Em 2016
file campeão sobre o Marrocos, segunda alegoria, a que trazia os tradicionais mercados do
Samba. Sendo assim, não poderia esquecer
país. Sua fantasia, “Candeia Marroquina”, foi confeccionada
as beldades que somam ainda mais ao espe-
pelo estilista Alex Castro, a quem ela classifica como mara-
res exerçam um papel importante na festa.
vilhoso. “Antes de eu pedir alguma coisa ele já vinha com a solução, ele superou a minha expectativa”. E confessa que sentiu o peso da estreia: “no carro, o objeto real não é você,
E para estrear este novo espaço, trazemos a
é o carro, você é componente. Como musa, sou eu sozinha”.
Fotógrafo: Marcos Mello
musa da Mocidade Independente, Giovana
Hoje, aos 31 anos, Giovana Angélica é mãe de um me-
Beleza: Déborah Dejaniria
Angélica, num misto de ensaio fotográfico
nino de 11 anos. Com 1,60m de altura e 60kg, o corpo da
FICHA TÉCNICA:
Assistente de styling: Fábio Martins
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Revista Produção: Cláudia Plumas & Magalhães Paetês Cultural 2017
e enquanto outra celebra o seu casamento
No último carnaval, no des-
engrenagens dos desfiles das Escolas de
de bateria, é inegável que estas belas mulhe-
menagem a Alice no País das Maravilhas
como composição de alegoria.
Giovana veio como musa da escola, desfilando na frente da
seja como destaque de chão, musa ou rainha
elas, o brasão da família Silva, uma ho-
trear na escola do coração,
variados integrantes que são verdadeiras
táculo dos desfiles. Seja no alto das alegorias,
sambista é marcado por 5 tatuagens, entre
se reaproximou e resolveu es-
em Las Vegas, em 2012. A musa está no 5º período da faculdade no curso de Turismo, setor que ama e, que defende um maior incentivo por parte do governo, e já pensa em uma futura pós-graduação em Empreendedorismo. Além dos estudos, se dedica às aulas de dança com Dandan Firmo, bailarina da cantora Ludmilla, pratica Muay Thai com o campeão mundial Victor Santos, além de musculação. Condicionamento físico e estético, que somado às suas raízes em Padre Miguel, prometem iluminar ainda mais a estrela guia de Padre Miguel, em 2018.
e entrevista, para revelar além do que os olhos podem ver no carnaval.
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Capa |
Por: Tiago Ribeiro
FILHO DO CORDEL E PAI DO SAMBA
Conheça a história do nordestino sambista, Zé Katimba
Foi 9 meses depois do carnaval,
Eu era miudinho, magrinho, sem saber
em 11 de novembro de 1932, que
de nada. Por isso que eu acredito nas
nasceu, em Guarabira, no interior
almas. Tem uma luz, tem alguma coisa
da Paraíba, José Inácio dos San-
que cuida de mim, da minha vida”. De-
tos. Filho de Josefa Francisca dos
pois de ter morado na rua e nos morros
Santos, herdou a música e o nome
da Formiga e de São Carlos, foi parar no
do pai, que era violeiro, cantador e
Morro do Adeus, onde surgiu o interesse
poeta de cordel. Filho único, nasceu
pelo samba: “nos dias que caía água, eu
em uma fazenda chamada Lagoa
descia o morro para pega-la, com outras
de Pedra, onde brincava com as ro-
crianças e adultos. As crianças iam batu-
chas e caroços de frutas, no meio
cando na lata, foi aí que fui fisgado pela
dos animais. Dessa época lembra-
mosca azul do samba e me apaixonei”,
-se da seca, mas sem esquecer os
quase como diz sua música “Do Jeito
bons momentos: “Mesmo com todo
que o Rei Mandou”, em parceria com
aquele sofrimento, de necessidade de água e alimento, existia
João Nogueira: “Sorria, meu bloco vem descendo a cidade, vai
uma coisa acima de todas essas, que é o amor”. Certamente,
haver carnaval de verdade, o samba não se acabou”.
uma inspiração para compor seu último samba vencedor na
Zé nunca sentou diante de um professor: “Uma menina me
Imperatriz Leopoldinense, em 2016, “É o Amor, que Mexe com
ensinou a escrever na fazenda onde nasci, eu escrevia fazendo
a Minha Cabeça e me Deixa Assim. Do Sonho de um Caipira,
uma força danada e não sabia juntar direito as letras. Nunca fui
Nascem os Filhos do Brasil”.
matriculado em escola nenhuma. Mas nunca mais parei de ler e
Aos 6 anos de idade, saiu de Guarabira para a Praia do
me formei na faculdade da vida”. Encorajado por um senhor que
Poço, a 20km de João Pessoa, onde sua mãe lavava as roupas
o ajudou a tirar seus documentos – Zé foi registrado como nasci-
dos ricaços que iam passar o verão na praia. Seu pai, que já
do em 1942, com dez anos a menos – passou a ler jornais, já que
não conseguia mais tanto trabalho como violeiro, fez amizade
morava na rua e não tinha acesso a livros: “eu não entendo até
no cais, conseguindo embarcar clandestinamente num navio
hoje uma nota musical” e mesmo assim consegue compor can-
de carga, em direção ao Rio de Janeiro, procurando uma vida
ções sofisticadas, sem deixar de ser popular. E ainda confessa: se
melhor, mesmo sem nenhum parente em terras cariocas. Ele
não fosse compositor, seria jornalista. Passou fome, mas venceu
veio sozinho e depois voltou para buscar dona Josefa e seu
as adversidades: “Eu era pra ser um viciado, mas não. Eu ia ven-
filho, levando-os para morar próximo a outros paraibanos que
der limão, dançar na gafieira e namorar na praia”. Lavou carro,
tinha conhecido, em Niterói, no Largo da Batalha, local que
limpou fossa, foi camelô, faxineiro e porteiro: “Eu era miserável.
teria este nome por conta das famosas batalhas de confetes e
Quando passei a ser pobre, festejei”.
serpentinas.
f
Mas a vida em família na cidade grande não durou muito
artístico – Catimba, mas que anos depois, por influência de uma
tempo. Sua mãe logo faleceu e depois foi a vez de seu pai,
namorada e da numerologia, tornou-se Katimba. Lá no Morro
que nesta altura trabalhava como vigia de obra, quando sofreu
do Adeus também percebeu que preferia conviver com os mais
um acidente. Neste momento da entrevista, se emociona ao
velhos: “As crianças me sacaneavam muito porque tudo que não
undador da Imperatriz Leopoldinense, personagem de novela, compositor com
lembrar-se do pai, para quem compôs a música “Viola de Fita”,
prestava era paraíba: roubou é paraíba, tá mal vestido é paraíba,
mais de duas mil músicas gravadas e reconhecido por alterar a forma de compor
poucos dias antes de sua morte: “o maior amor que eu já ví de
falou errado era paraíba. Então eu saí de perto das crianças e me
samba enredo. A história de Zé Katimba vai muito além dos seus feitos, é marca-
um casal é o do meu pai e da minha mãe. Hoje, a pessoa que
aproximei dos mais velhos, porque eu percebi que ali eu não era
mais amo na vida é meu pai”.
sacaneado e aprendia mais. Hoje eu prefiro conversar com os
da, principalmente, pela maneira inspiradora de levar a vida. E ele, que tem esse nome artístico pela fama de catimbar no futebol, não fugiu das perguntas e deixou a entrevista correr solta, como pode ser visto a seguir.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
Foi ainda no morro que ganhou o seu apelido, que virou nome
Aos 14 anos, Zé se viu sozinho no mundo: “Aí me larguei
jovens, porque eu aprendo mais, não sou sacaneado e eles tem
na rua. Achei até que ia enlouquecer, sem muita experiência.
respeito por mim. Porque hoje, se eu parar para conversar com os Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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caras da minha idade, eles sabem os
moleque: “Na subida do Morro do Adeus, tinha uma menina
como Elza Soares, Alcione, Zeca Pa-
Romântico inveterado, frisa que nun-
nomes de todos os remédios, fala
que ficava na janela e eu me apaixonei por ela. Ela não sabia
godinho, Leci Brandão, Luiz Carlos da
ca pronunciou uma frase que fale mal do
de doença, eu lá quero falar dessas
nem meu nome, mas eu fiz a canção”.
Vila, Emílio Santiago, Elymar Santos,
sexo feminino: “a mulher está acima do
O sucesso foi tão grande, que o livro homônimo de Cassia-
Diogo Nogueira, Jorge Aragão, Demô-
bem e do mal pra mim”. Preso político na
no Ricardo teve as vendas alavancadas e a música ajudou a
nios da Garoa, Marcelo D2, Simone
época da ditadura (por conta da música
Foi através dessa convivência com
Imperatriz a ser a escola de samba escolhida para ser cenário
e Julio Iglesias (que vendeu mais de
de protesto “Bandeira da Fé”), venceu o
os mais velhos, que se reuniam numa quitanda
da novela Bandeira 2, da TV Globo, escrita por Dias Gomes. A
150 milhões de discos com a sua mú-
câncer por 3 vezes. Teve sua vida retra-
do Morro do Adeus, que Zé Katimba fez amizade com
canção virou tema de abertura do folhetim, Zé Katimba ainda
sica “Me Ama Mô”).
tada em biografia, pela primeira vez, em
aqueles que, junto dele, fundaram a Imperatriz Leo-
virou personagem da trama, vivido por Grande Otelo. E como
E Zé Katimba ainda quer mais:
2009, pelo escritor Fernando Paulino (Zé
poldinense, em 06 de março de 1959. Nesta altura,
a novela estreou no final de 1971, quando chegou o carnaval,
“eu continuo querendo aprender, com
Katimba: que grande destino reservaram
Zé estava com 26 anos, já batucava, mas nunca havia
o samba já estava na boca do povo. De quebra, a Imperatriz
força e disposição. Eu tô querendo me
para você!) e em 2017 a dose se repetiu,
desfilado em escola de samba e tinha apenas uma certa
furou o dificílimo bloqueio das 4 grandes (Portela, Império Ser-
formar em aprendiz. Eu ainda não fiz
como tema do livro + CD + DVD do pro-
admiração pelo Salgueiro. Na verde e branca da Leopoldina
rano, Mangueira e Salgueiro) e conseguiu entrar pra disputa das
a melhor música da minha vida, estou
jeto Memória do Samba, de Luiz Ricardo
primeiras colocações, acabando em 4º lugar.
tentando fazer. A hora que eu achar
Leitão, um dos colaboradores desta edição da revista do Plumas.
coisas? Eu quero é aprender e estou sempre me renovando”.
fez de tudo um pouco, e muito disso se deve ao preconceito:
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“Eram todos cariocas, então pra empurrar alegoria quem é que
Em 1973 venceria a sua terceira disputa seguida na escola,
que tá tudo certo, eu tô morto. Eu
ia? O paraíba. Botar o couro uma semana de molho quem ia?
mas com a renúncia do presidente e entrada de outro dirigen-
não posso parar de compor. Data e
O paraíba. Quem vai puxar a corda? O paraíba. Pensei: não vou
te, o novo mandatário resolveu levar pra avenida o segundo
nome de rua eu não lembro, então tenho que ficar exercitando
2009 a medalha Pedro Ernesto, da câmara municipal do Rio
brigar. Aí fui ser passista. Depois pensei: quero carregar o pavi-
colocado. E é aí que começa uma certa discordância sobre a
a cabeça, continuo fazendo. Tenho muita música guardada”. E
de Janeiro, por seu destaque na sociedade. No mesmo ano foi
lhão da escola. Isso dá mais importância. Levei 10. No quarto
quantidade de sambas que Katimba ganhou pela Imperatriz.
mesmo garantindo que não entra mais em disputa de samba
homenageado pelo bloco Carmelitas. Foi eleito Cidadão Samba
ano que levei tudo dez parei. Aí fui presidente de ala, saí na ba-
Segundo a escola, ele possui 10 sambas, mas o nosso home-
enredo, promete ainda compor um exemplar do gênero, com
pelo Jornal Extra, em 2013 (que era um grande sonho distante,
teria (tocando repique), presidente da escola. Passei por todos
nageado, com toda propriedade, soma este - que ganhou mas
Martinho da Vila, mas que não pertença a escola nenhuma.
já que a premiação havia sido suspensa) e recebeu o Estandar-
os setores de uma escola de samba. O preconceito de ser feio,
não levou - e mais dois sambas vitoriosos em disputas para-
Conselheiro do Centro Cultural Cartola e dono da carteirinha
te de Ouro, do Jornal o Globo, pelo samba de 2015 e como per-
de ser pobre, miserável e paraíba me empurrou pra fazer isso.”
lelas em concursos da RIOTUR, entre todas as escolas (Rio
002 da Imperatriz Leopoldinense (a 001 pertence ao presiden-
sonalidade, em 2013. Além disso, foi agraciado com o diploma
Em toda essa trajetória, o destaque maior é como compo-
Patropi, em 1978, e Homenagem a Santos Dumont, de 1971),
te Luiz Pacheco Drumond), não poupa críticas ao modelo de
de Baluarte do Samba Carioca, pela Secretaria de Turismo do
sitor. Mas antes de vencer como poeta na sua escola, começou
totalizando 13 sambas. Os outros anos em que Katimba ouviu
disputa de samba atual. É contra a influência dos carnavales-
Rio e com a medalha Zumbi dos Palmares, recebida no próprio
a se destacar nos discos de sambistas famosos. A sua primeira
seus sambas cantados na avenida foram: 1978, 1981, 1987,
cos ao alterar a letra das canções: “é mais fácil mudar uma
quilombo, em 20 de novembro de 2014.
música gravada foi “Meu Drama”, por Niltinho Tristeza, com
1988, 1990, 1997, 2015 e 2016. Destaca-se a sua habilida-
alegoria do que mexer na poesia do compositor”; lembra que o
Mas o reconhecimento maior, até hoje, foi na ocasião em
quem comporia seu primeiro samba para Imperatriz, “Barra
de em compor sambas de enredo em homenagem à artistas da
nome da instituição é escola de samba; defende a criação do
que recebeu a medalha Osmar Araújo Aquino, pela Câmara
de Ouro, Barra de Rio, Barra de Saia”, de 1971, já propondo
música: Lamartine Babo, Dalva de Oliveira, Chiquinha Gonza-
quesito alegria; e ainda mostra a superioridade da música sobre
Municipal de Guarabira, para onde retornou, em 2013, após
mudanças na forma de compor para as agremiações: “Samba
ga e Zezé de Camargo e Luciano. Além disso, disputou uma vez
as outras artes: “ela não envelhece, não pega pó, não enferruja,
70 anos, quando apresentou a canção “Mãe Paraíba”, espécie
enredo era feito com 50, 55 linhas e fizemos um samba com
na Viradouro, junto com seu filho Inácio e amigos (num período
não ocupa espaço e é eterna”.
de mistura de partido alto com repente, em homenagem à oca-
18 linhas. Repeti em 1972, com 18 linhas, o “Martim Cererê”,
em que ficou afastado da Imperatriz) e é coautor do samba de
que foi pro mundo e aí todo mundo passou a fazer com 25
1999, encomendado pela Tucuruvi, de São Paulo.
Por toda esta trajetória, recebeu, em
Após alguns casamentos, foi pai de dois filhos, de mães
sião: “o povo foi chorando... todo mundo foi dando as mãos e a
diferentes: José Inácio dos Santos Júnior e Inácio Rios (este
gente cantando. Depois, qualquer lugar que eu passava na rua,
linhas, tudo diminuiu, mas na época me chamaram de louco”.
Bem antes disso, em 1981, Zé Katimba iniciou sua princi-
último também cantor e compositor – inclusive coautor do
todo mundo batia palma. Eu era pra fazer literatura de cordel,
E a mudança não foi só no tamanho do samba, mas na
pal parceria musical, com Martinho da Vila, tendo a sua canção
samba de 2005 da Mocidade). Quando o assunto é religião,
como meu pai fazia, minha herança musical, mas eu venci na
forma coloquial aplicada, como nos versos “Vem Cá”, ao invés
“Me Faz um Dengo” gravada no disco “Sentimentos”. Daí pra
ele, que foi crismado por Frei Damião e conheceu Mãe Menini-
terra do samba e é por isso que eles tem esse chamego comi-
de “Venha Cá” e o famoso “Fala Martim Cererê”. Propostas ou-
frente foram várias as composições de Katimba na discografia
nha do Gantois, diz apenas que acredita em Deus. Mas revela
go”. E é por essas e por outras que ele é o grande homenageado
sadas e que foram encorajadas pelo amigo João Nogueira. Ka-
de Martinho. O grande destaque vai para a música tema do
que a melodia do samba “Só Dá Lalá”, que deu o título pra
do Plumas & Paetês Cultural pra 2017. Uma história que ainda
timba aproveita pra sentenciar: “Martim Cererê é tão moderno
CD “Tá Delícia, tá Gostoso”, através do qual, o poeta de Vila
Imperatriz, em 1981, tem origem em uma canção de terreiro
falta ser enredo, mas que já merece nota DEZ!
pra época, que hoje ninguém tem coragem de fazer um samba
Isabel tornou-se o primeiro sambista a ultrapassar a marca de
pra cabocla Jurema, ouvido em uma de suas viagens à Bahia,
assim, nem eu”. Vale salientar que a melodia deste samba já
um milhão de cópias vendidas em tempo recorde. Sem contar
que tomou emprestado, após pedir autorização pra zeladora da
existia, veio da primeira canção criada por Zé Katimba, ainda
os outros grandes intérpretes que gravaram suas canções, tais
casa e realizar a devida obrigação.
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
TIAGO RIBEIRO é carnavalesco da S.R.E.S. Lins Imperial, mestrando em Artes e editor da revista do prêmio Plumas & Paetês Cultural
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Homenagem |
deiro na Lagoa de Pedra, os três
ANTES DE TUDO UM FORTE
reeditaram
os
passos das Vidas Secas de Gra-
Zé Katimba e sua arte de vencer as adversidades Por: Luiz Ricardo Leitão
ciliano
Ramos,
fugindo da terra natal. A viagem clandestina em um cargueiro até Niterói veio a ser, portanto, o desfecho inevitável da infância de José Inácio. Escondido no porão do barco junto com a mãe, alimentando-se com os restos da boia que o cozinheiro preparava para a tripulação, o
O encontro da sanfona e da viola de fita com o surdo e o cavaquinho
N
estes tempos adversos que a pátria de Pixinguinha, Noel & Cartola enfrenta, vale parodiar a receita do velho Chico: pra vencer esse deserto, um
bom samba é tiro certo; e dos filhos do agreste, Zé Katimba é inconteste! De fato, a vida e a obra do artista homenageado pelo prêmio Plumas & Paetês Cultural, constituem uma alegoria viva do nosso samba, que sempre padeceu o desprezo das elites e a perseguição implacável das forças policiais, mas venceu a intolerância e tornou-se a carteira de identidade cultural do país da casa grande & senzala. Cada qual a seu modo, Katimba e o gênero musical que o consagrou revelam ao público facetas únicas da longa luta de resistência do povo negro do Brasil e do Rio de Janeiro ao longo do século XX. Afinal de contas, o criador de grandes sucessos do samba é filho da mãe Paraíba, nascido em uma fazenda no interior de Guarabira, que ele deixou para trás ainda criança com os pais, fugindo da seca e da fome para abrigar-se nos morros cariocas e aí, reinventar seu destino. Como diria a jovem musicista Lucy Alves, sua conterrânea (hoje também radicada no Rio), como seria possível, em meados do século passado, um nordestino, negro, órfão de mãe e morando sozinho no Morro do Adeus, sem ninguém da família para ajudar, fazer carreira na capital do país? “Tinha tudo para dar errado – mas deu certo”. Sem dúvida, a história de José Inácio dos Santos é digna de um romance ou de um folheto de cordel.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
Filho único do casal de pequenos lavradores Josefa Francisca dos Santos e João Inácio dos Santos, seu pai era trabalhador de eito nas terras de um coronel do brejo paraibano, mas a vida dura da roça não o impediu de se tornar um membro destacado da orgulhosa confraria de violeiros do interior da Paraíba e de terras vizinhas, que se enfrentavam em cantorias e desafios, por vezes varando a madrugada, sob o alento das suas cordas. Eles improvisavam ao melhor estilo dos menestréis provençais e ibéricos, recriando temas do romanceiro popular nordestino, desde as proezas de cangaceiros como Virgulino Ferreira da Silva, o lendário Lampião, até os causos pitorescos e fantásticos reinventados pela poesia de cordel. João e seus camaradas cantavam onde o povo estivesse: nos galpões humildes das fazendas, nas feiras e praças dos vilarejos, ou até mesmo nos salões da gente remediada. O grupo era recebido sempre com muito entusiasmo pelas pessoas, desde simples vaqueiros semianalfabetos até coronéis
garoto intuiu que, a partir dali, sua vida haveria de mudar. Ele jamais renegaria suas raízes sertanejas, mas tampouco se furtou a absorver a cultura singular que brotava nos morros onde viveu (Formiga, São Carlos e Adeus), sobretudo os ritmos cadenciados que pulsavam nas animadas rodas de samba dos blocos e agremiações de cada comunidade. Conforme frisou Lucy Alves, Zé Katimba sempre acreditou no encontro do violão de sete cordas com a sanfona no país do samba, do coco, do forró e de tantos ritmos sincopados criados pelo talento do povo brasileiro. E iria demonstrar isso ao longo de toda a carreira, como fez em 2016, na Sapucaí, quando, por sua iniciativa, a sanfoneira tocou no desfile da Imperatriz, dando um molho especial à interpretação do samba-enredo criado por Katimba e seus parceiros, que fundia na justa medida o universo sertanejo com o gênero criado nos morros cariocas: É o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim... Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil.
Vida e arte severina O poderoso destino, porém, reservava alguns episódios amargos para Katimba, que entre o final dos anos 1990 e o início do século XXI precisou superar, por três vezes, a terrível luta contra o câncer. O combate aos tumores e, mais tarde, no natal de 2014, a aparição de uma erisipela bolhosa, que o deixou literalmente arriado em um leito do Hospital Carlos Tortelly, em Niterói, mais uma vez provaram que a melhor resposta para a morte será sempre o “espetáculo da vida”, esse fio que, teimosamente, a si mesmo se desfia. Por certo, nada disso seria possível sem o amparo de notáveis figuras que trataram de apoiá-lo nessa etapa mais adversa da vida severina. O incansável Dr. Bigu (médico de dezenas de sambistas), Ilton Mendes (dono do bar Candongueiro), Nely Silveira (assessora de Zé desde 2009), Adelzon Alves (o radialista “amigo da madrugada”) e muitos outros estiveram sempre atentos aos altos e baixos de Zé, cuja história pessoal, sobretudo nas lides amorosas, está longe de ser aquela linha reta dos contos de fadas. O talento e a persistência do artista, porém, prevaleceram. Ele não fez fortuna com a sua obra, apesar de tantos sucessos cantados mundo afora. Como aquele Severino do poema de João Cabral, o paraibano negro e catimbeiro venceu a intolerância, a fim de provar, uma vez mais, que a fibra sertaneja não verga assim tão fácil. Com a devida licença de Euclides da Cunha, vale reescrever a frase de Os Sertões: na vida e na arte, Zé Katimba é, antes de tudo, um forte. LUIZ RICARDO LEITÃO é escritor e professor doutor associado da UERJ. Coordena o Acervo Universitário do Samba. Entre outras obras, publicou Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil (2009), Aluísio Machado: sambista de fato, rebelde por direito (2015) e Zé Katimba: antes de tudo um forte (2016).
com filhos instruídos na cidade. Cada vitória de um cantador no duelo com outro violeiro dava-lhe o direito de atar, no braço do seu instrumento, uma fita colorida, que equivalia a um troféu pelo “título” conquistado. É essa lembrança que marca a memória de Katimba, conforme o próprio artista retrata na canção “Viola de Fita”, composta em homenagem ao pai. A miséria e a fome na Paraíba não ofereceram outra saída à família. Sem ter como suportar a seca e a opressão do fazenRevista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Gestão de Carnaval |
PRESERVAÇÃO E MOVIMENTAÇÃO CULTURAL NAS ESCOLAS DE SAMBA Os 50 anos dos Departamentos
surge com força midiática no final da década de noventa, ou
Culturais
estrada do carnaval. Considerado por muitos como o maior
Por: André Bonatte
asas sobre nós” em comemoração ao centenário da proclama-
seja, quando a escola já trilhava há mais de quarenta anos a carnaval da história gresilense, “Liberdade, liberdade abre as ção da república, desfilou sem os dois principais personagens
O
do enredo: O imperador e o Marechal. Já no ano de 1995, s versos do samba exaltação “Cartão de Identidade”,
a escola conquistou o seu quinto campeonato mesmo com
dos compositores Jorge Carioca e Djalma Crill, do
a ausência de uma alegoria, que por motivos técnicos, não
G.R.E.S. Mocidade Independente, nos remetem a
entrou na avenida.
um questionamento inerente à maioria dos sambistas: Qual a cara da minha Escola de Samba?
Analisando as manchetes dos principais jornais sobre os cinco primeiros campeonatos da Imperatriz Leopoldinense,
A imprensa desempenha um papel preponderante nessa
percebemos que a mídia tratara de forma efusiva as conquis-
rotulação dada as escolas de samba e muitas vezes pecam
tas gresilenses, destacando a empolgação, a riqueza plástica
em suas análises, ao tentarem restringir toda pluralidade cul-
e relevância cultural dos seus enredos. O título de escola téc-
tural de uma agremiação a um simples título ou a uma única
nica só aparece na conquista do carnaval de 1999, quando a
característica. Qual a escola de samba mais tradicional do
escola por não cometer nenhum erro durante o desfile recebe
carnaval? E a mais africana? Qual a escola de vanguarda? A
de bandeja o troféu das mãos da grande favorita Mocidade
mais técnica? A mais ousada? A diferente? Tomando como exemplo a Imperatriz Leopoldinense, pri-
Eu posso provar a
(criado em 1967), muitas vezes definida como uma escola
verdade a essa gente
20
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
moverem exposições, debates e gincanas de conhecimento.
frente ao módulo de julgamento recebe uma nota 7,5 e ter-
Outra forma na qual os departamentos culturais (DC)
mina em quarto lugar. Será que um único desfile pode res-
encontraram para difundir a memória de suas escolas é jus-
tringir de forma definitiva a personalidade de uma escola? Eis
tamente saindo das quadras e ganhando novos espaços, le-
a questão!
vando a história de suas agremiações para aqueles que não
Os Departamentos Culturais possuem um papel de ex-
frequentam assiduamente os ensaios, assim estreitando os
trema relevância e as atividades promovidas por estes depar-
laços com essa comunidade. O DC da Unidos de Vila Isabel
tamentos variam de escola para escola. Algumas entidades
vem se destacando nessas atividades, promovendo debates
possuem grupos independentes, na maioria das vezes for-
e gravações de depoimentos em locais públicos. A Imperatriz
mados por torcedores apaixonados, que mesmo não estando
Leopoldinense levou o projeto “A história através do samba”
diretamente ligados a estrutura hierárquica “oficial”, desem-
para escolas municipais da Zona da Leopoldina, e o Departa-
penham ações importantes para a manutenção da memória
mento Cultural da São Clemente tem sua sede própria, com
de suas agremiações. Geralmente o tripé em que se sustenta
exposições e pesquisas abertas permanentemente.
os Departamentos Culturais é a preservação de mídia estáti-
Um dos departamentos culturais mais ativos é do
ca (texto, fotografia, gráfico) e mídia dinâmica (vídeo, áudio,
G.R.E.S. Acadêmicos do salgueiro, que serviu de modelo para
animação), o apoio na pesquisa bibliográfica para a defesa
a maioria dos departamentos atuais. Entre as diversas ativida-
dos enredos produzidos pelos carnavalescos e, especialmen-
des promovidas pelo DC da Academia, destacamos a produ-
te, a difusão da memória da escola para seus componentes e
ção e pesquisa dos últimos enredos apresentados pela escola
admiradores.
em seus desfiles.
A internet, através da web e das redes sociais, se tornou a
A preservação da memória de uma escola de samba está
maior ferramenta para a divulgação e manutenção da história
nas mãos de seu departamento cultural, que a conduz dri-
das escolas. Os sites das agremiações geralmente disponibi-
blando o “mudernismo” e as diversas influências impostas ao
lizam uma seção dedicada aos antigos carnavais, em que o
desfile. A identidade de uma agremiação é sua maior rique-
pesquisador tem acesso aos principais dados de cada desfile,
za, ela é traçada não só no conceito academicista, plástico
como samba, sinopses e fichas técnicas. Nesse quesito pode-
e visual mas, sobretudo, nas mãos que sangram no couro
mos destacar os sites da Portela e da Mocidade Independente
dos surdos, nos giros e meneios das tias baianas, nos versos
de padre Miguel. As atividades culturais realizadas nas qua-
cantados do samba, no riscado e na ginga dos passistas ... na
dras também fortalecem a preservação da memória das es-
lágrima clara sobre a pele escura. Não tem definição!
colas e agregam valores. Muitos departamentos utilizam dos eventos oficiais da escola como feijoadas, rodas de samba e até mesmo os ensaios preparativos para o desfile, para pro-
ANDRÉ BONETTE é Vice-presidente cultural do G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense
“Mostrando a minha identidade
meira escola de samba a possuir um departamento cultural técnica ou “certinha”, vamos perceber que tal qualificação só
Independente, que em função de um “buraco” formado em
Como eu sou da Mocidade Independente...”
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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| Gestão de Carnaval |
Por: Evandro Gomes
NA INFINITA IMENSIDÃO DO MEU OLHAR O tititi das marcas de enredo
carnaval, a mesma função que os pôsteres têm para os filmes
Hoje, Thiago, que chegou
e peças de teatro, que é gerar expectativa no público e divul-
a trabalhar como aderecista
gar aquele trabalho”. O designer ressalta ainda que apresentar
no barracão da Viradouro em
um trabalho profissional, impressionar pela qualidade, pode
1999, colhe os frutos do tra-
até auxiliar a agremiação na hora de buscar patrocínio: “não
balho como designer: “tenho
que isto vá decidir algo, mas é sempre bom”, afirma.
conseguido boas alianças e
O processo se inicia muitas vezes antes do tema ser divul-
consequentemente bons tra-
gado, tornando o processo uma relação de confiança: “Geral-
balhos. Com alguns, essa par-
mente o carnavalesco me procura assim que fecha o enredo,
ceria já tem três anos, como,
a gente conversa, ele me passa alguns setores, o que ele quer
por exemplo, o Júnior Pernam-
pontuar, ou me passa um texto. A maioria me deixa bem li-
bucano, Fábio Ricardo e Ed-
vre e a partir daí a gente troca e faz alguns ajustes”, conta
son Pereira”. Thiago Santos se
o artista, que começou a desenvolver marcas de enredo por
diverte com a importância que as torcidas dão para as logos:
acaso, em 2014: “Eu tinha uma marca de camisas chamada
“entre abril e julho (que é quando desenvolve e entrega os
Momo’s que trazia estampas relacionadas a antigos enredos
trabalhos) é um período morto no calendário carnavalesco,
das escolas de samba. Para divulgar as camisas criei capas
o público que curte escola de samba não tem muito o que
de Facebook com os enredos de 2014. A da Mocidade che-
debater. Com o lançamento das marcas de enredo, a galera,
gou até o Paulo Menezes, carnavalesco responsável pelo en-
nas redes sociais, promove até concurso para eleger a mais
redo Pernambucópolis e, como a escola ainda não tinha uma
bonita”. E pra você? Qual merece um like?
marca definida, ele quis usar o trabalho que eu tinha feito. Realizamos algumas alterações e assim lancei meu primeiro trabalho. A partir de então, as pessoas começaram a me procurar e novos trabalhos vieram”. lha ponto, a importância de profissionalizar este trabalho se
tão aquela que tem a função de sintetizar todo o enredo
tornou cada vez mais evidente. Se antes as logomarcas eram
de uma escola de samba. E de antecipar, numa tacada,
feitas de forma simples e, por vezes, até amadora, atualmente
a história, o visual, os sons e a emoção de um desfile inteiro,
as agremiações andam atentas a este item, a exemplo da Mo-
muito antes de cruzar as fronteiras do barracão e, assim, gerar
cidade Independente de Padre Miguel, que para o Carnaval de
a maior expectativa possível. Esta é a função da logomarca
2017 trocou sua logo após desenvolver uma identidade visual
de enredo.
que não agradou a torcida.
Para os foliões antenados na festa de Momo e torcedores
“Não basta ter um computador e dominar alguns progra-
fiéis de suas agremiações, a marca de enredo não é apenas
mas de edição. O fundamental é ser focado, criativo e contar
mais um detalhe em meio a milhares de outros dos quais o
com a parceria dos carnavalescos”, afirma o designer Thiago
evento é feito. Por meio dela, as quadras são ornamentadas,
Santos, autor de 13 logos, só para o carnaval 2017 (4 delas
as redes sociais, o site e os produtos são personalizados. É
no Grupo Espe-
ainda esta imagem que estampa a camiseta das torcidas e
cial, 5 na Série
assim por diante. A logomarca ambienta o público quanto ao
A e outras na In-
enredo escolhido, chamando a atenção, conquistando e levan-
tendente e outras
do os foliões a consumir nas boutiques das escolas, automati-
cidades). “A logo-
camente gerando renda para as agremiações.
marca tem para
Embora a marca de enredo não seja um quesito que va-
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
os
projetos
de
Estúdio Marcos Mello 2017 com muitas novidades! Agende já seu ensaio com nossa equipe altamente qualificada. modelo: Ingridy Araújo
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| Gestão de Carnaval |
Por: José Maurício Tavares
UM CASTELO PARA REIS E RAINHAS... DO CARNAVAL
| Vem de Lá... |
UM CARNAVAL SOCIAL
Um empreendimento que o levou a receber o prêmio de melhor gestor de ateliê do Plumas & Paetês Cultural 2017. Segundo Sandro Carvalho, o espaço Château Rouge, que, em português, significa castelo vermelho, foi estruturado para atender os clientes como verdadeiros reis e rainhas, objetivando assim a busca por um diferencial no mercado da arte do carnaval. Além disso há também o compromisso com a ques-
Conheça o nosso premiado, Sandro Carvalho, e seu Chateau Rouge
tão social e econômica de nossa cidade, pois ao longo do ano
T
um ciclo produtivo e positivo que não termina na quarta-feira
odos os anos, artesãos e artistas, de diversas áreas,
são oferecidos desenvolvimento profissional e oportunidades de trabalho, além do intercâmbio com artistas de outras áreas. É de cinzas.
trabalham nos barracões das Escolas de Samba e
A ideia do Château Rouge e a atuação dos profissionais que
em ateliês espalhados por toda a cidade do Rio de
hoje criam fantasias e roupas para as mais belas mulheres da
Janeiro, criando fantasias, adereços e grandes alegorias que
sociedade brasileira, remete-nos à figura de Charles Frederick
encantam a todos na Marquês de Sapucaí. Mas, diante de
Worth, que trabalhou como aprendiz na casa Swan & Edgar
tanto luxo, inovação e criatividade, ainda perduram mazelas e
(comerciantes de tecidos) em Londres no anos 1800. O ta-
contradições, contrapondo-se ao brilho que reluz nos olhos dos
lento de Worth como estilista chamou a atenção da imperatriz
expectadores.
Eugênia, esposa de Napoleão III, e, através dela, de toda a alta
Diante de tal situação e já cansado das dificuldades que
sociedade parisiense. Em seu apogeu, a Maison Worth chegou
envolvem a preparação de um desfile de escola de samba, San-
a empregar 1200 pessoas e ditou os padrões da moda de toda
dro Carvalho, estilista, que trabalha há anos para as principais
a Europa. A partir do pioneirismo de Charles Frederick Worth
agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro e também fora do
outros grandes estilistas como Yves Saint Laurent, Coco Cha-
Brasil, decidiu apostar no sonho de colocar a criação carnava-
nel, Cristian Dior, Valentino, Clodovil, Dener e, agora, Sandro
lesca em um patamar de destaque e, principalmente, respeito.
Carvalho com o seu Château Rouge, fizeram com que seus
Estudioso do mundo da alta costura e admirador dos esti-
sonhos se desdobrassem em algo positivo para a vida das pes-
listas Thierry Mulgler, Alexander Macqueem e da carnavalesca
soas, marcando, assim, suas contribuições para a História da
Rosa Magalhães, Sandro Carvalho, aliou sua experiência artís-
moda e do nosso carnaval.
E
Por: André Camargo
ste ano, o Plumas e Paetês Cultural homenageará,
30 anos do Grupo Pellinsky
na categoria “Vem de Lá”, um grupo que vem de Brasília e propõe valorizar o folclore brasileiro por
meio da dança. A capital brasileira acolhe a ONG Pellinsky, que há 30 anos promove aulas de dança de diversos ritmos, como
qualquer outra criança, adolescente e idoso, por meio da dan-
samba, o Boi-Bumbá de Parintins, o carimbó, o frevo, a dança
ça, agregando valores e trabalhando noções de cidadania”.
cigana e o balé clássico, com a missão de transformar indivíduos através da arte do movimento.
As palestras e apresentações de danças nas escolas públicas realizadas por um grupo de professores voluntários desta
Foi através do carnaval que Andreoni Cabral, fundador e
ONG despertam o interesse das crianças e dos adolescentes,
presidente da ONG Pellinsky, aprendeu a confeccionar fanta-
estimulados a também fazer parte do projeto. Segundo Andreo-
sias, adereços e indumentárias para ilustrar seus espetáculos
ni, já foram atendidos mais de 3 mil pessoas durante estas três
“Ele foi e é a base para o grupo Pellinsky”. Durante sua traje-
décadas de existência e as apresentações do grupo já renderam
tória na Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro (A.R.U.C),
três prêmios no Festival Internacional de Dança de Cabo Frio/RJ
Cabral chegou até a ser carnavalesco por um período. E foi lá
e 33 apresentações no exterior. Atualmente são 150 assistidos,
que percebeu que a folia dura 365 dias, envolvendo artesãos,
na faixa etária de 6 a 88 anos.
pesquisadores, figurinistas, desenhistas, e demais profissionais
Preocupando-se com a consciência socioambiental, o grupo
ligados a essa paixão. É também no barracão das escolas que
deu vida a personagens antológicos, como a Flor do Cerrado, o
se dão o aprendizado, o desenvolvimento, a pesquisa e a pro-
Lobo Guará, a Candanguinha, a Rainha da Cultura Popular, o
dução do enredo.
Pai das águas e Paranoá (o índio apaixonado). Todos represen-
Ainda menino, em 05 de outubro de 1986, Andreoni orga-
tam a flora, a fauna, os candangos, a cultura local, as águas e
nizou uma apresentação de dança, homenageando seus profes-
os índios, respectivamente, sem deixar de lado a Mãe do Ouro
sores do colégio. Aplaudido de pé, surgiu o interesse de ajudar
e a Florzinha do Ipê.
meninos e meninas carentes da região do Cruzeiro, resgatando
É através da arte e da dança folclórica do Boi Bumbá
os jovens dos vícios do mundo moderno, transformando-os em
de Parintins que os pequenos apresentam valores como com-
cidadãos mais capacitados ao valorizar as ações das crianças
panheirismo, igualdade, disciplina e responsabilidade sociocul-
tica e empreendedora para criar o Espaço Múltiplo Château
que sofriam bullying, sendo muitas delas marginalizadas. “En-
tural. Para participar do grupo, os menores de 18 anos têm que
Rouge, hoje, localizado no centro do Rio de Janeiro e o único
sinamos não apenas um hobby, buscamos a reinserção social
estar matriculados em escolas públicas, somando boas notas,
de diferentes tipos de públicos, como autistas, portadores de
enquanto os maiores devem ao menos possuir o ensino médio.
na cidade que integra a linguagem carnavalesca ao design, a fotografia, a moda, a consultoria artística e a noções de etiqueta.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
JOSÉ MAURÍCIO TAVARES é historiador, com especialização em arte, cultura, figurino e carnaval.
deficiência física, pessoas com problemas psicológicos, ou
ANDRÉ CAMARGO é jornalista e e graduando em Letras.
Revista Revista Plumas Plumas&&Paetês PaetêsCultural Cultural 2017 2017
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| Gestão de Carnaval |
Por: João Gustavo Melo
DOIS GÊNIOS, DUAS ESCOLAS ARTÍSTICAS, MUITAS LIÇÕES 30 Anos sem Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto Às 16h10min do dia 8 de outubro de 1987, Arlindo Rodrigues, 56 anos, deixou o mundo das artes e do carnaval órfão das suas criações. Uma embolia pulmonar tirou o carnavalesco da cena foliã. Ficou um vazio numa festa que desde 1960 contava com o bom gosto dos seus figurinos, alegorias, adereços e enredos. Menos de dois meses depois, na manhã de 29 de novembro de 1987, um Gurgel branco com placa do município de Miguel Pereira colidiu contra um poste na Avenida Brasil. Um dos ocupantes era Fernando Pinto, o carnavalesco fora de série e fora de órbita, que dois anos antes havia levado a festança foliã para as estrelas, com
U
o enredo Ziriguidum 2001 - Carnaval nas estrelas, campeão m par de episódios trágicos que em 2017 completam 30 anos uniu também na dor o que a arte já havia tratado de juntar: o talento de dois grandes mestres
do carnaval. Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto. Cada um tinha seu estilo, uma assinatura. Arlindo era barroco, rococó, histórico. Da gramática visual criada pelo artista, nasceu a visualidade moderna das agremiações. Materiais como placas de acetato, pingentes com muitos brilhos e tecidos sobrepostos deram um novo vigor aos desfiles das escolas de samba. Já Fernando Pinto era delirante, cabeça nas nuvens e pés fincados na oca, no espírito antropofágico brasileiro que misturava passado, presente e futuro num só balaio. Era o artista de experimentações, um pajé miraculoso que rimava indígena com alienígena, o senhor dos totens caminhantes, da loucura tupinicopolitana desvairadamente tropical e futurista. Fernando era a irreverência das Dzi-Croquetes com ar de Zaquia Jorge, a vedete estelar de Madureira, enredo que criou para o Império Serrano no carnaval de 1975.
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Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
pela Mocidade. O artista não resistiu ao impacto do acidente. Se um talhava a arte de um Brasil cheio de histórias, o outro tramava em palha a ancestralidade que corre nas nossas veias tupiniquins. Caminhos que se cruzavam na genialidade. Cada um na sua, mas com muita coisa em comum. Entre elas, a imaginação, o brilho, a vontade inequívoca de deslumbrar, questionar, refletir, carnavalizar. Mas como seriam as criações de Arlindo e Fernando Pinto hoje? Qual espaço no carnaval ocupariam esses dois gênios da folia? Difícil responder. O que dá para cravar é que até certo ponto os dois vivem na cabeça de cada um dos carnavalescos, mesmo que de forma inconsciente. São evocados cada vez que um artista reinventa na avenida a estética e o discurso dos Brasis esculpidos na maior manifestação de arte popular do planeta. Salve Fernando e Salve Arlindo! Dois craques da imagem que o carnaval imortalizou. João Gustavo Melo é jornalista e um dos autores do enredo do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro de 2017, no qual Arlindo Rodrigues foi um dos homenageados.
Revista Plumas & Paetês Cultural 2017
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