PROJETO SAMBA NA RODA DA SAIA EMPODERAMENTO FEMININO ATRAVÉS DO SAMBA EM MINAS GERAIS Rosane Pires Viana1 Elzelina Dóris dos Santos2 Resumo: O presente artigo visa discorrer sobre o desenvolvimento do Projeto Samba na Roda da Saia na perspectiva de evidenciar o protagonismo das mulheres no samba de Minas Gerais. Samba na Roda da Saia traz a força das mulheres periféricas que carregam consigo inventividade, criatividade sem perder a malandragem, resistência e atitude buscando a reconstrução do lugar da mulher no samba. Essas mulheres processam movimentos protagonizadores e de alteração do caminho sinalizado pelo patriarcalismo, produzem rasuras e rompem paradigmas. Trazemos a proposta de desvelar do imaginário da sociedade a ideia de que as sambistas possuem papéis coadjuvantes na história do samba brasileiro. Samba existe porque houve mulheres que o protegeu e nós continuamos essa história de salvaguardas no Samba na Roda da Saia - uma banda composta apenas por mulheres. Palavras-chave: samba; feminismo negro; empoderamento; reexisitência PROJECT “SAMBA NA RODA DA SAIA”: FEMALE EMPOWERMENT THROUGH SAMBA IN MINAS GERAIS Abstract: Or present artigo visa discorrer on or development of Projeto Samba na Roda da Saia na perspective of evidence or prominence das mulheres no samba de Minas Gerais. Samba na Roda da Saia maps to peripheral fortresses that I take with me inventividade, criatividade sem lose to malandragem, resistência and atitude looking for reconstruction of place da mulher no samba. Essas mulheres processam movimentos protagonizadores e of alteração do caminho sinalizado hair patriarcalism, produzem shaves and rompem paradigmas. Let's try to reveal the imagery of society to the idea that sambistas possuem papéis coadjuvantes na história do samba brasileiro. Samba exists because we houve mulheres that we protect and we continue this history of safeguards not Samba na Roda da Saia - a compost band just for mulheres. Kaywords: samba; black feminism; empowerment; reexistence. PROJET SAMBA DANS ROUE DE JUPE – EMPOUVOIREMENT A TRAVERS DU SAMBA DANS LE MINAS GERAIS Résumé: Cet article vise à discourir sur le développement du projet Samba dans la Roue de la Jupe dans la perspective de mettre en évidence le rôle des femmes dans la samba de Minas 1
Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e Mestrado em Teoria da Literatura pela UFMG (1998). Atuou como Assessora no Programa de Ações Afirmativas na Universidade Federal de Minas Gerais. É Professora na Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. É a Idealizadora e Produtora no Projeto Samba na Roda da Saia! 2 Graduada em Ciências Contábeis, Licenciatura Plena para 2º Grau pela UTRAMIG e Mestranda Profissional na linha de pesquisa Educação Ensino e Humanidades – UFMG/FAE. Autora e Coordenadora do Projeto Cantando e Contando a História do Samba projeto premiado Prêmio Educar para a Igualdade Racial - Experiências de Promoção da Igualdade racial/étnica no ambiente escolar, instituído pelo CEERT/SP -
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Gerais. Samba dans la Roue de la Jupe apporte la force des femmes périphériques qui portent avec eux l’inventivité, la créativité sans perdre la ruse, la résistance et l’attitude à la recherche de la reconstruction de la place de la femme dans la samba. Ces femmes traitent les mouvements protagonisteurs et changent le chemin signalé par le patriarcat, produisent des ratures et des paradigmes de rupture. Nous apportons la proposition de dévoiler l’imagination de la société l’idée que la samba ont des rôles de soutien dans l’histoire de la samba brésilienne. Samba existe parce qu’il y avait des femmes qui l’ont protégé et nous continuons cette histoire de sauvegardes dans la samba sur le volant dans le Samba dans le Roue de la Jupe – un groupe composé seulement par les femmes. Mots-clés: samba; féminisme noir; empouvoirement; réexistence. PROYCETO SAMBA EN RUEDA DE LA FALDA: EMPODERAMENTO FEMENINO A TRAVÉS DEL SAMBA EN MINAS GERAIS Resumen: El presente artículo pretende discurrir sobre el desarrollo del Proyecto Samba en la Rueda de la Falda en la perspectiva de evidenciar el protagonismo de las mujeres en la samba de Minas Gerais. Samba en la Rueda de la Saia trae la fuerza de las mujeres periféricas que llevan consigo inventiva, creatividad sin perder la malandragem, resistencia y actitud buscando la reconstrucción del lugar de la mujer en el samba. Estas mujeres procesan movimientos protagonizadores y de alteración del camino señalado por el patriarcalismo, producen raspaduras y rompiendo paradigmas. Traemos la propuesta de desvelar del imaginario de la sociedad la idea de que las sambistas poseen papeles coadyuvantes en la historia del samba brasileño. Samba existe porque hubo mujeres que lo protegieron y nosotros continuamos esa historia de salvaguardas en el Samba en la Rueda de la Falda - una banda compuesta sólo por mujeres. Palabras-clave: samba; feminismo negro; empoderamiento; reexistência.
Figura 1. Divulgações - Cards Convites para as Edições do Projeto Samba na Roda da Saia - I Edição do SRS
Fonte: Àile Pires
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Figura 2. Divulgações - Cards Convites para as Edições do Projeto Samba na Roda da Saia - II Edição do SRS
Fonte: Àile Pires
Figura 3. Divulgações - Cards Convites para as Edições do Projeto Samba na Roda da Saia - III Edição do SRS
Fonte: Àile Pires
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Figura 4. Divulgações - Flyer do Aniversário de 02 Anos do SRS
Fonte: Àile Pires
Figura 5. Divulgações - Estampa da Bolsa do SRS
Fonte: Àile Pires
SAMBA NA RODA DA SAIA - EMPODERAMENTO FEMININO PELO SAMBA!
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“Tava durumindo, cangoma me chamou. Tava durumindo,cangoma me chamou. Levanta povo cativeiro acabou”
Clementina de Jesus traduziu em versos o desejo de uma considerável parcela da população brasileira por dias melhores, principalmente para nós, mulheres negras, que continuamos na base da pirâmide social do país o que segundo nossos olhos e ouvidos dizem também o fazem os dados estatísticos. Segundo dados do IBGE, através do Censo de 2010 e o Mapa da Violência 2015, a violência contra as mulheres negras aumentou em 54% em contraposição o número da violência contra mulheres brancas caiu 9,8%. Os alarmantes números da violência contra as mulheres negras não nos permitem relativizações, é preciso lutar cotidianamente contra todas as formas de exclusão que nos são impostas, desde as mais visíveis – como exemplo na área da saúde, as mortes de muitas mulheres negras em função de um atendimento precário no país - quanto das exclusões que não se apresentam tão evidentes como assédio sexual e moral, a questão da estética que elegeu um padrão de beleza eurocêntrico no qual não há espaço para a pele negra, o lábio negro, os cabelos crespos e volumosos. Enfim, padrões nos quais não cabe o corpo da mulher negra. Contudo, há uma nova geração de jovens mulheres negras
(a geração
tombamento) que tem ocupado pequenos espaços na mídia apresentando imagens de si mesmas cientes de sua negritude, através de ensaios fotográficos, de desfiles de moda, nas artes, na produção cultural ou em projetos específicos para as redes sociais como facebook e instagran. Porém, nem toda essa movimentação nos retira desse lugar de dententoras de estereótipos que nos aprisionam tais como “negra só pra cama”, expressões que só nos desvalorizam, inferiorizam e ridicularizam. Se ainda hoje precisamos bradar que lugar de mulher nem sempre é onde ela quer como propagam as feministas negras, imagine em tempos outros, há 100 anos atrás. Imagine uma mulher, negra, musicista em meados do século XIX que decidiu dedicar-se à música como o fez Chiquinha Gonzaga – nascida no Rio de Janeiro em 1847 num parto dificílimo, aprendeu logo cedo a enfrentar o medo e as dificuldades que contrariou os planos de toda a sociedade e separou-se de seu marido que fora escolhido pelo pai. Diante da fatídica pergunta: ou a música ou eu – feita por seu esposo, Chiquinha Gonzaga não hesitou na resposta: fico com a música! Imaginou? 587 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
Então, esse texto se propõe a falar de mulheres guerreiras que ousam, em seu tempo histórico, desafiar a ordem patriarcal estabelecida. Não apenas através de seus corpos, mas pela produção musical, pela tradição negra, pela escola que é o samba. O samba já é por si só uma grande resistência e construção de brasilidade Muniz Sodré no seu livro Samba: O dono do corpo, acredita na imposição do samba como música urbana fundadora pela capacidade de o povo negro em proteger-se e afirmar seu patrimônio cultural de matriz africana. Assim como Chiquinha Gonzaga que, após desilusão amorosa, condenações morais, maldição da família, vivencia os mais perversos desgostos e resolve viver de música e, mais que isso, eivar e rasurar o cancioneiro brasileiro – até então composto por polcas, valsas e tangos – de sons e ritmos de matriz negra – lundu, jongos e marchinhas, muitas mulheres fizeram e fazem do espaço da música seu front de batalha. Nessa perspectiva de provocar rasuras no cânone, temos nomes como Madrinha Eunice, primeira mulher a presidir uma escola de samba - a Lavapés de São Paulo – abraçamos-nos à Dona Ivone Lara que foi a primeira mulher conhecida - antes tivemos tantas outras anônimas das velhas guardas que compunham e cantavam nas cozinhas dos barracões - a pertencer oficialmente à ala de compositores de uma Escola de Samba, espaço que exigia determinação e coragem. Trata-se de elementos que não faltam às mulheres sambistas desse país, que junto a Clementina de Jesus, se tornam as salvaguardas dessa tradição negra que foi mantida e preservada dentro dos terreiros e quintais onde se misturava à religiosidade de matriz africana. Outras mulheres também contribuíram para mostrar o universo feminino dentro das composições, mas que foram esquecidas pela história. Caso de Carmem Silvana, a primeira mulher a conduzir um samba-enredo na avenida. Era a música Aquarela brasileira apresentada em 1964 pela grande Império Serrano. Contemporânea de Carmem, a sambista Carmelita Brasil foi presidente de escola de samba Unidos da Ponte e compôs seis sambas. Lamentavelmente e apesar de sua grande contribuição, a história de Carmelita foi literalmente apagada da narrativa do samba, pois não há registros de suas letras. O samba tem sido preservado, cuidado e mantido por muitas mãos femininas, apesar da pouca visibilidade dentro do espectro musical brasileiro, em nossa lista de sambistas estão, além de Dona Ivone Lara: Tia Ciata, as mulheres da Velha Guarda do Samba da Portela, Velha Guarda do Samba da Mangueira e da Império Serrano, Beth Carvalho, Leci Brandão, Clara Nunes, Elza 588 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
Soares, , Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus, Teresa Cristina, Lúcia Santos, Mariene de Castro, Nilze Carvalho, Dona Inah, e Fabiana Cozza. SAMBA: EDUCAÇÃO E RESISTÊNCIA – O PROJETO CANTANDO A HISTÓRIA DO SAMBA "E na hora que a televisão brasileira, destrói toda gente com a sua novela, é que o Zé põe a boca no mundo, e que faz um discurso profundo, ele quer ver o bem da favela, está nascendo um novo líder, no morro do Pau da Bandeira..." (Leci Brandão)
O samba é patrimônio em matéria de arte e cultura, ele é a herança que o povo negro possui como uma das estratégias para lutar contra o racismo. O samba foi e continua sendo um poderoso instrumento de divulgação da nossa história e a importância histórica do samba, manifestação autêntica da cultura popular brasileira tem muito a contribuir no processo educativo. Nessa linha de resistência e educação pelo samba, temos em Minas Gerais, em novembro de 2000, o lançamento do projeto “Cantando e Contando a História do Samba” desenvolvido em escolas da rede pública e particular de Belo Horizonte e Região Metropolitana, buscando o envolvimento de professores e professoras das diversas áreas do conhecimento, por meio de seminários e minicursos, a partir de atividades lúdicas e pedagógicas, com base na musicalidade rítmica do samba. O projeto também abrange o conhecimento sobre a história da África e a importância da cultura afro-brasileira para a afirmação da identidade étnica racial. O projeto conta e valoriza a história do samba, gênero musical de raízes africanas surgido no Brasil, considerado uma das principais manifestações culturais populares brasileiras, como produto da resistência da cultura negra. A metodologia utilizada para a realização do projeto aborda sugestões e orientações quanto às formas de incorporar a história do samba em conjunto com a história e cultura africana em cada disciplina do currículo, envolvendo as aulas de Artes, História, aulas de Matemática e Química, buscando constituir uma interdisciplinaridade entre as áreas do conhecimento. Pesquisar a biografia dos compositores (as) intérpretes, analisar as letras dos sambas e seu contexto histórico, são algumas das atividades sugeridas aos professores para serem desenvolvidas em sala de aula com os estudantes. As letras dos sambas, a pesquisa biográfica dos compositores e intérpretes se torna uma importante forma de desenvolver na educação mecanismos que possam além 589 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
de potencializar o fazer pedagógico mais atrativo para os estudantes, criar possibilidades de compreensão crítica e reflexiva da realidade vivida, por ser uma manifestação de origem popular com uma linguagem simples, embora muito contundente em seus versos e significados. O desenvolvimento desse projeto educativo e cultural proporciona condições para uma apreciação rica e ampla na qual os professores, educadores e estudantes aprendem a valorizar os momentos importantes em que o samba se inscreve no tempo e na história. Figura 6. Percussionista SRS - Fabíola de Paula
Fonte: Àile Pires
Figura 7. Percussionista SRS - Solange Caetano – Pandeirista
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Fonte: Àile Pires
“Foram me chamar, eu estou aqui o que é que há”! Dona Ivone Lara
O signo samba junto ao feminino se apresenta como reexistência e ganha, nesse texto a centralidade da reflexão. Ao pensarmos na trajetória da população negra, afrobrasileira, africana ou afrodiaspórica afirmamos que resistir em lutas e embates históricos é reexistir, ou seja, nós reexistimos e nos reinventamos cotidianamente, e em meio a tantas adversidades somos escola, somos intelectuais aprendendo e ensinando, reeducando dentro e fora da academia, como afirma (sSuza, 2011, p. 36). É nesse rastro de resistência/reexistência das mulheres musicistas que surge o Projeto Samba na Roda da Saia, que é fruto de um longo processo de indignação e percepção do quanto o machismo e o racismo nos violentam imensamente e das mais variadas formas, cotidianamente. Circulando pelos sambas de Minas, nos cansamos de somente ver homens, muitos homens nas rodas de samba tanto de BH e região metropolitana, quanto no interior do estado. A idealização desse projeto surge, também, da necessidade de rediscutir, repensar e apresentar possibilidades outras às mulheres do Samba de Minas Gerais que estão produzindo, cantando, compondo, tocando, protagonizando.
Figura 8. Foto da Iª Edição do Projeto Samba na Roda da Saia – Setembro 2014 – Centro Cultural – Juvenas – BH
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Fonte: Àile Pires
O Projeto Samba na Roda da Saia traz a força das mulheres periféricas que carregam consigo inventividade, criatividade sem perder a malandragem, resistência e atitude numa perspectiva de reconstrução do lugar da mulher no samba. Essas mulheres processam movimentos protagonizadores e de alteração do caminho sinalizado pelo patriarcalismo, produzem rasuras e rompem paradigmas, elas re-existem, posto que as narrativas de reexistência são entendidas como maneira de fazer que sejam capazes de “capturarem a complexidade social e histórica que envolve as práticas cotidianas de uso da linguagem” (Souza, 2011, p. 36) “e que apontam para a reinvenção dos usos sociais da oralidade, do verbal e do não verbal, dos movimentos dos corpos que provocam as identidades étnico-raciais, de gênero, sexualidade, etárias e outras que nos são caras.” A atuação no Projeto prescinde de desejo, conhecimento e de uma articulação de empoderamento que traz pra cena musical um tripé que reverencia nomes de mulheres que compõem sambas, sambas que reverenciam as mulheres e mulheres que tiveram suas carreiras marcadamente instauradas pelo samba, ou seja, mulheres que fizeram alguns sambas se tornarem conhecidos em função da interpretação intencionalmente impregnada de si mesmas, tão nós mesmas como nos apresenta Adriana Calcanhoto “Vou à Lapa decotada, viro todas, beijo bem. Madrugada sou da lira, manhazinha de ninguém. Noite alta é meu dia, e a orgia é meu bem!”. (Música: Beijo Sem, composição: Adriana Calcanhoto)
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Figura 9. Samba no Feminino – Edição Especial do SRS em Nova Lima – Março de 2015
Fonte: Àile Pires
QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA! “Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu. Vai buscar essa saudade, sonho meu, e a sua liberdade, sonho meu...” Dona Ivone Lara.
No repertório organizado para as apresentações não falta jamais a companhia de Dona Ivone Lara - primeira compositora eivada de desejo de empoderamento, que buscou sair do lugar de coadjuvante pra ocupar a cena como protagonista de sua história de compositora da Escola de Samba Império Serrano. Historicamente, espaços negros de religiosidade, cultura, arte e resistência vêm sendo liderados pelas mulheres, desde tempos que remontam ao processo escravagista brasileiro, no qual tivemos a atuação protagonizadora de mulheres como Teresa de Benguela, Dandara, Luiza Mahim, Aqualtune, Acotirene – guerreiras negras que alicerçaram quilombos, construíram dezenas de fugas e que carregaram em suas cabeças ideias e sementes para novas paragens. Nessa medida, também o samba tem sido um espaço de tradição negra cuja salvaguarda esteve nas mãos de mulheres como Tia Ciata e outras tantas que o protegeram, que cuidaram desse legado. Samba é resistência e as mulheres reexistem através dele. Trazemos a proposta de desvelar do imaginário da sociedade a ideia de que as sambistas possuem papéis coadjuvantes na história do samba brasileiro. Samba existe porque houve mulheres que o protegeu e nós continuamos essa história de proteção no 593 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
Samba na Roda da Saia, porque se trata de uma banda composta apenas por mulheres, desde a idealização, por conta da minha produção cultural que sou eu a assinar – Rosane Pires Viana - até a formação da harmonia musical, da percussão e dos vocais. Além de toda assessoria que compõe o corpo que sustenta essa banda: jornalistas, assistentes, fotografia e coordenação. O Projeto busca evidenciar a presença de mulheres que, rodando a saia do Samba em grande estilo, acolhem e abrigam dentro dessa roda todas as mulheres que já vem de uma longa trajetória de carreira solo com o Samba – memória viva do nosso patrimônio cultural negro e, mais que isso, extremamente vincado nas camadas populares.
Figura 10. Samba na Roda da Saia – Carnaval 2016 Belo Horizonte -Apresentação pela Belotur
Fonte: Àile Pires
RODANDO A SAIA – COMO FUNCIONA, POR ONDE ANDAMOS E O QUE CANTAMOS “É no samba de roda, eu vou. No babado da saia eu vejo. A morena girando a renda. É prenda pro seu orixá!” Intérprete Roberta Sá.
Mensalmente, o grupo se reúne em bares, restaurantes, Casas de Shows, Teatros ou espaços culturais da cidade – como o Centro Cultural Juvenas, no bairro Serrano, a 594 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
Choperia Santa Tereza e o Bar e Restaurante Marmoretto, os dois últimos em Santa Tereza, espaços em outras regiões como Pampulha, Noroeste e Centro Sul também foram palco dessa proposta – para fazer e pensar o Samba mineiro, apresentando músicas consagradas no cancioneiro brasileiro, de Jovelina Pérola Negra à Fabiana Cozza, passando por Clara Nunes, Mart’nália, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Leci Brandão e as dezenas de nomes femininos de peso que temos na história do Samba no país. Entretanto, somos lúcidas o suficiente para sabermos que não rompemos totalmente essa barreira porque a visibilidade do samba ainda é masculina e, porque não afirmar que também é machista. Nossa participação é grande, nossa visibilidade como mulheres ainda é pequena, como mulheres e negras ainda menor. A atuação coletiva tem sido um esforço e uma estratégia muito poderosa de rompimento desse ciclo perverso que camufla a verdadeira situação de apagamento da produção de tantas mulheres que trazem consigo todo o sentimento, força, alegria, poesia e malemolência que o samba exige, transborda dessas mulheres que atuam no Projeto. Uma sobe e puxa a outra – as mulheres do Projeto Samba na Roda da Saia ocupam espaços outros a partir de sua participação no projeto, alcançam visibilidade ainda maior, são mais contratadas e, sempre estamos inserindo mulheres jovens iniciantes em suas carreiras. Buscamos atingir objetivos no desenvolvimento do Projeto Samba na Roda da Saia, principalmente construir e possibilitar condições para que as mulheres protagonizem sua própria história de sambistas, sendo intérpretes, compositoras, musicistas, produtoras, fotógrafas, jornalistas. Esperamos com esse trabalho, inserir mulheres que já estão numa situação de protagonismo feminino negro, pois as mulheres desse grupo já têm cada uma, longa carreira na música mineira e brasileira, algumas com formações autodidatas, outras tendo passado por espaços formadores de músicos de Belo Horizonte e Região Metropolitana, não deixando em absoluto nenhuma lacuna para que os homens, incomodados que sempre ficam com a autonomia feminina, possam apontar dedos para falhas ou imperfeições. Há outros movimentos que realizamos com o desenvolvimento do projeto, como destacar as mulheres envolvidas com o Samba na cidade de BH, bem como dar vez ao público feminino que tem atuado há tempos nesse espaço de cultura popular de mostrar 595 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
o quanto são competentes. Fazer junto um grande momento de superação de paradigma na medida em que ressignificamos o que está no imaginário das pessoas – o que é uma roda de Samba composta por mulheres? Ao possibilitar visibilidade ao produto final do trabalho desenvolvido por muitas mulheres, desmitificamos a ideia de que o samba é um espaço masculino e que às mulheres cabem os papeis coadjuvantes, tanto no samba quanto na vida. Nesse sentido, construímos em conjunto com as mulheres um espaço de protagonismo feminino negro com a quebra de paradigmas do tipo: e afinal, espaços negros de arte, cultura, resistência e religiosidade vêm sendo historicamente liderados por mulheres, porque então o samba de Minas contemporâneo não poderia ser? Figura 11. Roda do Projeto Samba na Roda da Saia em Abril de 2015 – BH – Aniversário da Secretária de Estado de Educação Professora Macaé Evaristo
Fonte: Àile Pires
As ações do “Projeto Samba na Roda da Saia” vão além do protagonismo no samba pelas mulheres nele envolvidas, há toda uma cumplicidade que ocorre nas rodas de samba feminina que são difíceis de mensurar, entretanto podemos elencar alguns dos bons resultados vivenciados: Somos cada vez mais cúmplices no que tange aos cuidados de uma mulher para com a outra, os problemas de uma passam ser de muitas e a busca por soluções te tornam coletivas. Há uma constante parceria no processo de empoderamento, circulam informações sobre cursos, ensaios, espaços e momentos de trabalho coletivos, há uma união intensa e o buscar avançar tem sido a marca desse 596 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600
projeto. Na hora do preparo para subir no palco uma cuida da outra, os lações e ojás são colocados por todas as mãos, os amarrados nos cabelos e a preocupação com a maquiagem se tornam momentos de muito prazer. Na contemporaneidade, nós mulheres negras, inseridas no samba, vimos resistindo e construindo nossa existência de forma coletiva, buscando espaços de visibilidade dentro de uma das matrizes negras que é o cooperativismo. Somos umas pelas outras. Como o Projeto Samba na Roda da Saia é uma narrativa de mulheres, sabemos por conta de toda a trajetória histórica e pelo machismo de nossa sociedade que todos os olhares a nós lançados são bem pouco acolhedores, não nos abrigam e nos cortam como flechas. Mas, não nos sentimos acuadas, a desconfiança, o desprezo, a surpresa por conta de nossa competência tem sido elementos e ingredientes para a continuidade de nossa história de resistência.
Figura 12. Musicistas do Projeto Samba na Roda da Saia se aprontando para acessar o Palco – Edição Nova Lima 2015
Fonte: Àile Pires
Figura 13. Musicistas do Projeto Samba na Roda da Saia se aprontando para acessar o Palco – Edição Nova Lima 2015
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Fonte: Àile Pires
Figura 14. Musicistas do Projeto Samba na Roda da Saia se aprontando para acessar o Palco – Edição Nova Lima 2015
Fonte: Àile Pires
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Figura 15. Musicistas do Projeto Samba na Roda da Saia se aprontando para acessar o Palco – Edição Nova Lima 2015
Fonte: Àile Pires
O Projeto Samba na Roda da Saia é um projeto que fratura o discurso hegemônico e configura rasuras num cânone marcadamente masculino da música popular brasileira que é o samba. Somos tradição de resistência que remete a nossa ancestralidade e nós repudiamos a história colonialista e resgatamos uma pertença de mantenedoras dessa tradição negra. Carregamos a bandeira do samba numa perspectiva guerreira e de militância, por mais mulheres no Samba!
Figura 16. Idealizadora e Produtora do Projeto Samba na Roda da Saia – Rosane Pires Viana
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Fonte: Àile Pires
Figura 17. Convite – Festa em comemoração aos três anos do Projeto SRS.
Fonte: Àile Pires
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REFERÊNCIAS FERREIRA, Edinéia Lopes; SANTOS, Elzelina Dóris dos; CARDOSO, Marcos Antônio. Contando a História do Samba. Caderno de Texto 3ª edição. Mazza Edições, Belo Horizonte, 2009. GOMES, N.L. Identidades e Corporeidades Negras.Reflexões sobre uma experiência de formação de professores(as) para a diversidade étnico-racial. Belo Horizonte: Autêntica Editora,2006.p77-84. GOMES, N.L. O movimento negro no Brasil: ausências, emergências e a produção dos saberes. Política & Sociedade, Florianópolis, v. 10, n. 18, p. 133-154, abr. 2011. LOPES, Nei. Sambeabá. O Samba que não se aprende na escola. Rio de Janeiro. Folha Seca Edições, 2003. PIRES, Aile. Fanpage do Samba na Roda da Saia. www.facebook/sambanarodadasaia>. Acesso em: 02 de dez. 2017.
Disponível
em:<
SANTOS, E.D. Temas Trnasversais/Pluralidade Cultural. AMAE Educando, Belo Horizonte, v.342, p.7-14, setembro. 2006. SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes,1988. SODRÉ, Muniz. Samba: O dono do corpo.Rio de Janeiro: Mauad, 1979. SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de Reexistência: poesia, grafite, música: hip hop. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
Recebido em outubro de 2017 Aprovado em novembro de 2017 601 Revista da ABPN • v. 10, Ed. Especial - Caderno Temático: Letramentos de Reexistência • janeiro de 2018, p.583-600