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Memorável samba: a memória coletiva do samba na web e a preservação do seu acervo digital

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ISBN 978-85-7004-383-2


Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais

Organização Lia Calabre Alexandre Domingues Eula Cabral

Rio de Janeiro 2018


Seminário Internacional Políticas Culturais (9. : 2018 : Rio de Janeiro, RJ) Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais, 15 a 18 de maio de 2018, Rio de Janeiro / Organização Lia Calabre, Alexandre Pires Domingues [e] Eula Dantas Taveira Cabral. – Rio de Janeiro : Fundação Casa de Rui Barbosa, 2018. 1 e-book em format pdf (1.607 p.). ISBN 978-85-7004-383-2 1. Política cultural – Anais. I. Calabre, Lia, org. II. Domingues, Alexandre Pires, org. III. Cabral, Eula D. Tavieira, org. . IV Fundação Casa de Rui Barbosa. V. Título. CDD 306


Mesa VI

Ativamento de memória


RESUMO: Relato de experiência de projeto de pesquisa e extensão vinculado ao Laboratório de Preservação e Gestão de Acervos Digitais, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, que tem o objetivo de preservar os acervos digitais e promover a memória coletiva do samba, através da identificação e organização, tratamento e descrição colaborativa dos seus acervos na Internet, por meio do novo padrão internacional de descrição arquivística RiC (Record in Contexts), da plataforma Tainacan e das tecnologias da websemântica, visando contribuir para a criação de uma ontologia, uma genealogia, e uma cartografia do samba. PALAVRAS-CHAVE: Samba, Memória Coletiva, Acervo Digital, Records in Contexts.

1 – INTRODUÇÃO

Na tarde daquele memorável samba Eu me lembro Tu estavas de sandália, com teu vestido de malha No meio daqueles bambas2

Trata-se do relato de experiência do projeto de pesquisa e extensão “Memorável Samba”, sediado no Laboratório de Preservação e Gestão de Acervos Digitais – LABOGAD da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO, cujo objetivo é o de promover a memória coletiva do samba, através da identificação, captura, descrição e tratamento colaborativo dos seus acervos digitais na Web, que serão reunidos e acessíveis na plataforma http://acervos.culturadigital.br/memoravelsamba/. Relata também os desafios apresentados para tratar o acervo por meio do novo padrão internacional de descrição arquivística RiC (Record in Contexts) e para efetivar a interoperabilidade

1 Professor da UNIRIO, Coordenador do LABOGAD e do Projeto Memorável Samba – e-mail: jairmm@unirio.br 2

Parte da letra do samba “Meu Romance”, composta em 1938 pelo compositor J. Cascata.

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Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais

Jair Martins de Miranda1

15 a 18 de maio de 2018 • Fundação Casa de Rui Barbosa • Rio de Janeiro • Brasil

MEMORÁVEL SAMBA: A MEMÓRIA COLETIVA DO SAMBA NA WEB E A PRESERVAÇÃO DO SEU ACERVO DIGITAL


tecnológica dos metadados arquivísticos, biblioteconômicos e museológicos, através do protocolo OAI-PMH e a interoperabilidade semântica, por meio da Web-Semântica e da criação de uma Ontologia, visando contribuir para o estudo da genealogia e da cartografia do samba no Brasil e sua expansão no mundo através da plataforma “Samba Global” (www.sambaglobal.net/novo).

Fig 1 – Logos do Laboratório e das plataformas que abriga

Tendo como premissa o fato do samba ser um termo polissêmico, oriundo de uma ampla e diversificada manifestação cultural afro-brasileira, que abriga uma família de várias gêneros, expressões e significações, o trabalho sugere, metodologicamente, uma árvore genealógica do samba, para melhor representar essa família, classificar os seus documentos e integrar os registros no repositório digital. Para promover a sua memória coletiva, sugere a criação de uma árvore da lembrança, como contraponto àquele fato histórico marcante da árvore do esquecimento.3 A proposta da árvore da lembrança, tendo como referência a Infografia “Batuque” (figura 2), é uma representação conceitual para melhor abrigar essa família de várias gêneros, expressões e significações do samba, a partir da seguinte terminologia: Afoxé. Agueré. Alujá. Barravento. Batucada. Batuque de Umbigada. Bossa-nova. Cabula. Calango. Carimbó. Congo de Ouro. Ijexá. Jongo. Lundu. Maracatu. Maxixe. Nimbu. Opanijé. Pagode. Sambalada. Samba-canção. Samba-choro. Samba-chula. Sambaenredo. Samba-funk. Samba de breque. Samba de bumbo. Samba de carnaval. Samba de côco. Samba de embolada;. Samba de gafieira. Samba de morro. Samba de partido-alto. Samba de Roda. Samba de Terreiro. Samba-Jazz. Samba-Lenço. Sambalanço. Samba Raiado. Samba Reggae. Samba-Rock. Sambolero. Tambor de Crioula. Tambor de Mina.”4

3 Aquele fato que conta que os escravos antes de embarcarem nos tumbeiros, na cidade de Ajudá, em Benin, para a viagem de destino ao Brasil, eram obrigados pelos traficantes a caminharem várias vezes em círculos, em torno de uma grande árvore e que diziam, tinha o poder de apagar todo o seu passado, a sua memória, sua potência e toda a sua resistência cultural. (ARAUJO, 2009). 4

Terminologia inicial para classificação dos registros e criação da Ontologia do Samba.

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Figura 2 - Infografia do Caderno Especial do Jornal A Tarde, de novembro de 2008, feita a partir da pesquisa histórica do jornalista Paulo Oliveira e do Professor da UFBA Paulo da Costa Lima.

O projeto Memorável Samba é um projeto experimental, em fase de desenvolvimento e se constitui como um repositório digital colaborativo para a promoção da memória coletiva do samba. Por meio de colaboradores, vem identificando, digitalizando, capturando, classificando e disponibilizando coleções de sambistas, de grupos e de instituições de samba e carnaval no repositório digital, Tainacan (Figura 3) e na plataforma Samba Global (Figura 4)

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Figura 3 - Homepage do repositório digital Memorável Samba

Figura 4 - Homepage da plataforma Samba Global

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2 – O ACERVO DO SAMBA COMO CONTEXTO DO NOVO PADRÃO RiC A nova proposta de padrão internacional de descrição do documento arquivístico RiC (Records in Contexts)5, que surge para integrar os antigos padrões internacionais de descrição, ISAD6, ISAAR(CPF)7, ISDIAH8, ISDF9, proposto pelo Expert Group on Archival Description – EGAD (http://www.ica.org/en/about-egad) do Conselho Internacional de Arquivos, mais do que uma grande contribuição para o ordenamento das práticas profissionais, a universalização dos métodos de arranjo, descrição e classificação de funções e, para a facilitação ao acesso, ao compartilhamento, e à transferência de informações no âmbito das instituições de arquivo, parece também representar um divisor de águas para o futuro da Arquivologia, no trato científico e tecnológico do seu objeto, especialmente quando se vislumbra sua ampliação aos acervos de pessoas, grupos e instituições não arquivísticas, impactadas , contemporaneamente, pela web, como na comunidade e contexto do samba. Nesse novo contexto, mais do que a convergência tecnológica e digital, que desmaterializou o documento arquivístico e, o advento da internet, que o tornou acessível numa escala reduzida de tempo e espaço inimagináveis, a Arquivologia é também desafiada a superar o fenômeno da cultura da convergência, que, segundo JENKINS (2006), modifica substancialmente, na trama eletrônica das redes sociais, a própria forma de pessoas, grupos e instituições compartilharem, produzirem, difundirem e consumirem os seus próprios documentos, renomeados de objetos, mídias ou conteúdos digitais nesses novos tempos de inteligência coletiva. (LEVY, 2003). Nesse cenário, ao deslocar a informação dos seus suportes tradicionais - pela digitalização dos documentos textuais, iconográficos, fonográficos e audiovisuais ou pela produção de documentos já digitais - o documento arquivístico digital10 subverte o estatuto da prova e do testemunho material, tão caros à Arquivologia, instaura novas formas de gestão e preservação da informação arquivística RONDINELLI (2005), mas, mais do que isso, possibilita, de forma colaborativa, não só uma socialização sem 5

RiC-CM - http://www.ica.org/sites/default/files/RiC-CM-0.1.pdf.

6

ISAD - International Standard Archival Descriptions.

7 ISAAR(CPF) - International Standard Archival Authority Record for Corporate Bodies, Persons and Families 8

ISDIAH - International Standard for Describing Institutions with Archival Holdings

9

ISDF - International Standard for Describing Functions

10 O conceito de “documento arquivístico digital” empregado neste texto é aquele definido pela Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos do Conselho Nacional de Arquivos – CONARQ como: documento arquivístico codificado em dígitos binários, produzido, tramitado e armazenado por sistema computacional.

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precedentes dessa informação nas redes sociais, como também, parece permitir o compartilhamento de informações, a complementação de acervos e a reconstituição coletiva de memórias institucionais e sociais. Sendo assim, a proposta aqui defendida é a de que o uso desses novos padrões de descrição do documento arquivístico e o tratamento colaborativo da informação arquivística na Internet, possibilita a reconstituição da memória coletiva de uma dada comunidade, através do compartilhamento de suas informações, da complementação dos seus acervos e da fusão das várias memórias individuais e institucionais, fragmentadas na trama das relações sociais dessa comunidade, tal como nos diz HALBWACHS (1968) na sua clássica investigação sobre a memória. Para aferir esta proposta, tratando-a inclusive no contexto específico da produção musical - abordado também por HALBWACHS (2006)11 -, sugere-se, especialmente, que ela seja experimentada na comunidade do Samba, a partir da Cidade do Rio de Janeiro e, ilustrada empiricamente através do seu acervo de documentos arquivísticos, legado, mantido ou custodiado por alguns dos atores sociais dessa comunidade, interessados na reconstituição (colaborativa) da memória coletiva desse misto de manifestação cultural e gênero musical; desse patrimônio cultural material também eleito oficialmente como imaterial12. O projeto de pesquisa e extensão “Memorável Samba”, portanto, se justifica na medida em que se insere nesse novo contexto e se utiliza dos fundamentos teóricos e metodológicos desses novos padrões internacionais de descrição do documento arquivístico, para aferir, a partir do acervo da comunidade do Samba no Rio de Janeiro – a serem instalados experimentalmente na plataforma TAINACAN13 - não só, os mecanismos de formação e reconstituição das memórias individuais e institucionais da comunidade do Samba, mas também, a memória coletiva do próprio Samba. A relevância desta pesquisa também se faz na medida em que amplia o enfoque da Arquivologia para as redes sociais, para as tecnologias de interoperabilidade (OAIPMH), da Ontologia e da web-semântica, ao abordar seu objeto de estudo também como resultado das interações sociais na Internet. Ao investigar as inscrições nos acervos dos indivíduos e instituições inseridos na comunidade do Samba com essa perspectiva, busca11

A memória coletiva entre os músicos in: A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006 (anexo)

12 Conforme declarações da UNESCO e IPHAN para, respectivamente, o samba de roda do Recôncavo Baiano e os sambas de terreiro, enredo e partido-alto, do Rio de Janeiro 13 A plataforma Tainacan no endereço: http://acervos.culturadigital.br/memoravelsamba/, será a base inicial para a descrição dos documentos sobre o samba, mantidos por pessoas, grupos e instituições que participarão colaborativamente desta pesquisa.

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se também conhecer não só como se opera (ou se operou) essas interações sociais no seio da comunidade, mas também, como se processa (ou se processou) os mecanismos que afetam (ou afetaram) a construção desses documentos, acervos ou arquivos que reportam a essa memória coletiva do Samba na web. Portanto, a proposta tecnológica e política do projeto busca, em síntese, promover a memória coletiva do Samba, a partir da aplicação dos formatos internacionais de descrição (Records in Context), com as tecnologias de interoperabilidade do protocolo (OAI-PMH) e da web-semântica nos acervos digitais de pessoas, grupos e instituições da comunidade do Samba - inicialmente no âmbito da cidade do Rio de Janeiro -, a partir da observação e da participação voluntária desses atores sociais no processo coletivo de reconstrução de memória e do tratamento colaborativo da informação arquivística e, através da plataforma Tainacan, a ser baseado na internet, no domínio: http://acervos. culturadigital.br/memoravelsamba/.

3 – MARCO TEÓRICO-CONCEITUAL Para defender a tese de que o uso dos novos padrões de descrição do documento arquivístico e do tratamento colaborativo da informação arquivística na Internet possibilita a reconstituição da memória coletiva de uma dada comunidade, advoga-se que esses padrões de descrição se constituem, essencialmente, em uma linguagem documentária, baseada nos fundamentos da classificação facetada CAMPOS(2001), utilizada para classificar, conhecer, estabelecer uma comunicação ou dar acesso ao conteúdo dos documentos que testemunharam uma ação humana ou um evento sociocultural nessa comunidade. Advoga-se também que o acúmulo desses documentos no tempo e no espaço, organizados pela Arquivística, nas suas várias unidades funcionais (ou seja: arquivo, fundo, coleção, seção, série, dossiês, processos ou item documental), indicam em cada conjunto, não só a representação isolada das ações humanas e dos eventos de grupos e

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instituições sociais, mas também, a representação coletiva das interações sociais desses atores na comunidade, especialmente através da norma ISAAR(CPF)14. Representação essa, que funciona como um repertório de vivências comuns, passível de ser lida, por uma linguagem documentária, reconhecida e usada por eles para a reconstrução dos seus próprios repertórios individuais ou para ampliar esse repertório coletivo, tal como concebe HALBWACHS, para as memórias individuais e coletiva. Entende-se também que os elementos (ou categorias) estruturantes dessa linguagem, são análogos àquela “estrutura profunda” de que nos fala CHOMSKY, usada pelo homem para classificar e conhecer o mundo a sua volta. Como também, para estruturar as convenções verbais que constroem a memória coletiva de um grupo social. Tese também defendida por BOSI (1979) quando afirma: “O instrumento decisivamente socializador da memória é a linguagem(...) Os dados coletivos que a língua sempre traz em si entram até mesmo no sonho (situação limite da pureza individual). De resto, as imagens do sonho não são, embora pareçam, criações puramente individuais. São representações, ou símbolos, sugeridos pelas situações vividas em grupo pelo sonhador(...) As categorias que a linguagem atualiza , acompanham nossa vida psíquica tanto na vigília quanto no sonho(...) As convenções verbais produzidas em sociedade constituem o quadro ao mesmo tempo mais elementar e mais estável da memória coletiva.”15 O fato, no entanto, é que nesses novos tempos de inteligência coletiva, onde os conteúdos digitais – ou documentos arquivísticos digitais – se multiplicam exponencialmente nas redes de comunicação e, as memórias digitais incorporaram uma grande parte das representações e mensagens produzidas no planeta LÉVY (1998), como repensar essa nova linguagem? O quão adequada seria essa linguagem documentária 14 A ISAAR(CPF) inaugura, no âmbito da descrição, não só a possibilidade de reintegração, mas também a de compartilhamento dos documentos de um dado e inequívoco produtor por diferentes custodiadores de acervos e documentos desse produtor, onde quer que eles (custodiadores) estejam. Sendo assim, partituras de músicas, compostas e escritas por “Pixinguinha”, gravadas em disco de 78 RPM pela “Gravadora “Odeon” e registrada em fotos e filmes, quando interpretada pelo “Grupo da Velha Guarda”, por exemplo, não só poderiam ser melhor contextualizados pela ISAAR(CPF) ao possibilitar ao usuário da norma, referenciar e reconstruir as relações sociais entre a pessoa “Pixinguinha” com a entidade coletiva “Gravadora Odeon” e com o “Grupo da Velha Guarda”, naquele momento histórico da música brasileira, como também permitir a custodiadores institucionais de acervos musicais distintos, como Museu da Imagem e do Som – MIS, Instituto Moreira Salles - IMS, Biblioteca Nacional – BN, Fundação Joaquim Nabuco e, a custodiadores particulares, como Maria Luiza Kfouri, Hermínio Bello de Carvalho, Sergio Cabral, entre outros colecionadores japoneses, franceses e americanos de acervos de música brasileira, compartilhar e complementar, no âmbito da descrição, os documentos e acervos dos citados produtores, caso a forma autorizada do nome desses produtores fosse única, inequívoca e universal MIRANDA(2007). 15

BOSI. Memória e Sociedade. (1979: 18-19).

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originária desses novos padrões de descrição arquivística para acessar essa memória coletiva? Outra questão é: com a diversidade de formatos digitais e a crescente digitalização de documentos tradicionais - ou seja: textuais, sonoros, imagéticos, fílmicos, audiovisuais ou mesmo tridimensionais – já tratados esteticamente pela Ciência da Informação PINHEIRO&GÓMEZ (2000), como convergir nesse novo grande repositório essa variedade de documentos de forma a facilitar a recuperação de informação, documentos e fatos para a reconstrução dessa memória coletiva? Entende-se, mesmo assim, que para se conhecer o mundo nessa nova sociedade da informação e se fazer uma leitura eficaz do seu repertório (ou acervo) de experiências humanas arquivadas na memória coletiva, ainda persiste a necessidade de classificá-lo em categorias SOUZA (2000) - tanto sintáticas como semânticas - como nos mostra o seguinte quadro analógico16:

QUADRO ANALÓGICO DE CATEGORIAS DO CONHECIMENTO Categorias universais

Aristóteles

Porfírio 234 - 305

Comte 1728 – 1857

Einstein

1879 – 1955

Categoria arquivística

Ranganathan

Schellemberg

1892 – 1972

Categorias lingüísticas

Categorias sintáticas

16

Sintagma verbal

ação

Sintagma nominal

Objeto da ação

O que?

Matéria

verbo predicado

Energia

Sujeito significado

energia

Quem

Signo

Substancia corpórea

Matéria

Produzir

Substancia incorpórea

Concreto

Agir

Personalidade

Abstrato

Pensar

Classe de palavras

Classe de descritores

Substantivo próprio de pessoas ou instituições

Descritores onomásticos

1903 – 1970

agente

384 – 322 AC

Categorias bibliográficas

Objeto Direto e indireto

Verbo na voz ativa

Substantivo concreto locução adjetiva

Quadro retirado do texto “Tratamento da Informação em Arquivos” MIRANDA (1986 ).

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Descritores temáticos


Tempo

Numeral

Quando

Espaço

Onde

Descritores. cronológicos

Adjunto adverbial de local

Advérbio substantivo próprio de acidentes geográficos

Adjunto adverbial de tempo

Sendo assim, tendo o “quadro analógico de categorias do conhecimento” como referência conceitual, admite-se nesta pesquisa que as normas ISAD, ISAAR(CPF), ISDIAH e ISDF podem se constituir também em linguagens documentárias para se conhecer esse repertório de experiências humanas inscritos nos arquivos e podem ter, comparativamente, os seguintes elementos ou categorias de análise:

Normas de descrição

Elementos das normas

ISAAR (CPF)

Autor do documento (Pessoas, instituições ou famílias)

ISDIAH

Custodiador do documento

Categorias de HALBWACHS

Elementos de Análise

Memória individual

Agente

Memória coletiva ISDF

ISAD

Ação ou Evento (missão, função, projeto, atividade, tarefa)

Interação social

Ação

Documento (fundo, coleção, seção, série, dossiê, processo, item documental)

Testemunho

Objeto da Ação

Data/período

Tempo

Tempo

Local

Espaço

Espaço

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Descritores geográficos ou toponímicos


4 – DO MULTINÍVEL AO MULTIDIMENSIONAL “RiC-CM aspires to reflect both facets of the Principle of Provenance, as these have traditionally been understood and practiced, and at the same time recognize a more expansive and dynamic understanding of provenance. It is this more expansive understanding that is embodied in the word “Contexts” (…) RiC-CM is intended to enable a fuller, if forever incomplete, description of the contexts in which records emerge and exist, so as to enable multiple perspectives and multiple avenues of access”. (INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES, 2016) O EGAD (Grupo vinculado ao Conselho Internacional de Arquivos) ao apresentar em 2016 para a comunidade arquivística internacional a proposta do novo modelo conceitual de descrição Records in Contexts (RiC-CM), através de 14 “Entidades”, das suas 69 propriedades e de suas 792 inter-relações, visando a criação da futura ontologia (RiC-ON), lançou não só um grande desafio para o tratamento e acesso aos documentos de arquivo na era digital, mas também um possível abalo nos seus mais caros princípios epistemológicos, ou seja: os conceitos de “Proveniência”, “Respeito aos Fundos”, e “Respeito à Ordem Original”. Ao propor uma nova linguagem documentária para arquivos “mais amigável” para os usuários da web e mais acessível a outros contextos ainda inexplorados dos acervos arquivísticos, revendo e integrando os seus antigos padrões de descrição (ISAD, ISAAR, ISDIHA e ISDF), o documento do EGAD (aberto à consulta pública durante o ano de 2016) aponta também para uma possível crise ontológica na Arquivologia, presumindo de que a web, através da Ontologia, da Websemântica, dos Dados Abertos e de outras tecnologias já disponíveis para a internet, pode vir a ser um novo ethos para o conceito de Arquivo no mundo contemporâneo. O projeto de pesquisa e extensão Memorável Samba surge justamente diante dessas questões que ampliam a concepção do contexto tradicional, analógico, hierárquico e multinível e centrado no produtor dos arquivos, para uma concepção de contexto rizomático, colaborativo, digital, multidimensional e distribuído nas redes. Tem o objetivo de analisar e prospectar esse cenário por também entender que essa proposta do novo padrão de descrição terá um grande impacto na comunidade arquivística e sugere novas práticas de arranjo, descrição e classificação no “tratamento da informação em arquivos” (MIRANDA, 1986), (RANGANATHAN, 1967). Para além das novas práticas e tecnologias previstas para os Arquivos e a Arquivologia na era digital, o projeto busca também aprofundar, do ponto de vista sociopolítico, a noção de “Contexto” que é utilizada pelo EGAD para nomear o novo padrão “Records in Contexts”, tendo como referência as propostas de COOK (2001), para

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esse novo cenário “pós-moderno” da Arquivologia e a noção de contexto em arquivo, segundo FOULCAULT (1994): “Conjunto das condições que regem, em dado momento e em determinadas sociedades, a aparição de enunciados, sua conservação, os nexos que se estabelecem entre eles, a maneira em que se os agrupa em conjuntos estatutários, a função que cumprem o jogo de valores ou de sacralizações que os afetam, a maneira em que estão involucrados nas práticas ou nas condutas sociais em que são rechaçados, esquecidos, destruídos ou reativados.” (FOUCAULT, 1994, p. 45).

5 – CONSIDERAÇÕES E QUESTÕES FINAIS Tendo inicialmente os acervos do repositório Memorável Samba como laboratório de experimentação, o projeto buscará também responder as seguintes questões: 1ª Questão: Os elementos das normas de descrição e as entidades do RiC poderiam compor elementos de uma linguagem natural, segundo o Quadro 1?

Quadro 1 – Entidades do RiC e Linguagem Natural NORMAS DE DESCRIÇÃO

ELEMENTOS DAS NORMAS

ENTIDADES DO RIC

ELEMENTOS DE LINGUAGEM

ISAAR (CPF)

Autor do documento (Pessoas, instituições ou famílias)

Quem?/Sujeito/Agente

ISDIAH

Custodiador do documento

RiC-E4 - Agent

ISDF

Ação ou Evento (missão, função, projeto, atividade, tarefa)

RiC-E9 – Activity

Como?/Verbo/Ação

329


ISAD

Documento (fundo, coleção, seção, série, dossiê, processo, item documental)

RiC-E1 - Record

O Quê?/Objeto DiretoIndireto/Objeto da Ação

Data/período

RiC-E12 – Date

Quando?/Adjunto Adverbial de Tempo/Tempo

Local

RiC-E13 – Place

Onde?/Adjunto Adverbial de local/Espaço

2ª Questão: As entidades Record, Agent, Activity, Date e Place, do Padrão Records in Contexts - RiC (Quadro 2), poderiam ser consideradas categorias de conhecimento,

Quadro 2 – Entidades do nono padrão de descrição Records in Contexts – RiC

•

RiC-E1 - Record

RiC-E1 - Record

RiC-E2 - Record Component

RiC-E2 - Record Component

RiC-E3 – RecordSet

RiC-E3 – RecordSet

RiC-E4 - Agent

RiC-E4 – Quem?

RiC-E5 – Occupation

RiC-E5 – Occupation

RiC-E6 – Position

RiC-E6 – Position

RiC-E7 – Function

RiC-E7 – Function

RiC-E8 - Function (Abstract)

RiC-E8 - Function (Abstract)

RiC-E9 – Activity

RiC-E9 – O quê?

RiC-E10 – Mandate

RiC-E10 – Mandate

RiC-E11 - Documentary Form

RiC-E11 - Documentary Form

RiC-E12 – Date

RiC-E12 – Quando?

RiC-E13 – Place

RiC-E13 – Onde?

RiC-E14 - Concept/Thing

RiC-E14 - Concept/Thing Fonte: criado pelo autor

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3ª Questão 1 - O surgimento da Websemântica17, da Ontologia18 e das tecnologias Linked Data19, RDF20 e OWL21, tornariam a WEB um Arquivo Contemporâneo?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO, Ana Lucia. Caminhos Atlânticos: memória, patrimônio e representações da escravidão na Rota dos Escravos. Varia Historia/UFMG, Belo Horizonte, v. 25, n. 41, Junho 2009. BOSI, Eclea. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 2ª ed. São Paulo: T. A Queiroz, 1979

CAMPOS, Maria Luiza de Almeida. Linguagem documentária. Niterói: EdUFF, 2001 CHOMSKY, Noam. Reflexões sobre a linguagem. São Paulo:Cultrix. 1980 HALBWACHS, Maurice. La Mémoire colletive. Paris:Presses Universitaires de France, 1968 ______________A memória coletiva entre os músicos. In: A memória Coletiva. São Paulo: Centauro, 2006 COOK, Terry. Archival science and postmodernism: new formulations for old Concepts. Archival Science 1: 3-24, Netherlands: 2001 FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. São Paulo: Loyola,1994. 17 A Web semântica é uma extensão da World Wide Web atual, que permitirá aos computadores e humanos trabalharem em cooperação. A Web semântica interliga significados de palavras e, neste âmbito, tem como finalidade conseguir atribuir um significado (sentido) aos conteúdos publicados na Internet, de modo que seja perceptível tanto pelo humano como pelo computador. 18 Ontologias são utilizadas em inteligência artificial, web semântica, engenharia de software e arquitetura da informação, como uma forma de representação de conhecimento sobre o mundo ou alguma parte deste. 19 Usa tecnologias da Websemântica para: Publicar dados estruturados na Web e estabelecer links entre dados de uma fonte para outras. 20 É uma sintaxe padrão para representar um grafo dirigido em XML. Elementos do modelo – Recurso (Resource) – Propriedade (Propertie) – Valor (Value) – Declaração (Statement) 21 A OWL (Web Ontology Language) é uma linguagem para definir e instanciar ontologias na Web. Uma ontologia OWL pode incluir descrições de classes e suas respectivas propriedades e seus relacionamentos.

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INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES. Records in Contexts – A conceptual Model for Archival Description. Concultatio Draft v0.1, 2016. JENKINS, Henry. A Cultura da Convergência. New York: New York University Press, 2006, 308 p. LABORATÓRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARTICIPATIVAS. Documentos de apoio a gestão do projeto Política Nacional de Acervos Digitais. Disponível em: <http://l3p.fic.ufg. br/p/9580-documentos-de-apoio-a-gestao-do-projeto-politica-nacional-de-acervosdigitais> Acesso em 31 de maio de 2017.

LÈVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. MARCONDES, Carlos Henrique. Linked Data – dados interligados e interoperabilidade entre arquivos, bibliotecas e museus na web. Encontro Bibli, v.17, p.171-192, 2012. MIRANDA, Jair Martins de. Tratamento da Informação em Arquivo: uma metodologia para construção de banco de dados referenciais in: VI Congresso Brasileiro de Arquivologia, Rio de Janeiro, 1986. MIRANDA, Jair Martins de. MIRANDA, Marcos. Desafios para a construção colaborativa de uma ontologia do samba. in Complexidade e organização do conhecimento: desafios de nosso século. [recurso eletrônico] Vera Dobedei, José Augusto Chaves Guimarães. (organizadores). – Rio de Janeiro: ISKO-Brasil; Marília: FUNDEPE, 2013. PIAGET, Jean. Biologia e Conhecimento. Petrópolis: editora Vozes. 1996 RANGANATHAN, S.R. Prolegomena to library classification. Bombay, Asia Publishing House. 1967

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