ISBN 978-85-7004-383-2
Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais
Organização Lia Calabre Alexandre Domingues Eula Cabral
Rio de Janeiro 2018
Seminário Internacional Políticas Culturais (9. : 2018 : Rio de Janeiro, RJ) Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais, 15 a 18 de maio de 2018, Rio de Janeiro / Organização Lia Calabre, Alexandre Pires Domingues [e] Eula Dantas Taveira Cabral. – Rio de Janeiro : Fundação Casa de Rui Barbosa, 2018. 1 e-book em format pdf (1.607 p.). ISBN 978-85-7004-383-2 1. Política cultural – Anais. I. Calabre, Lia, org. II. Domingues, Alexandre Pires, org. III. Cabral, Eula D. Tavieira, org. . IV Fundação Casa de Rui Barbosa. V. Título. CDD 306
Mesa I
Políticas culturais: direito à cidade
RESUMO: A crescente politização do carnaval vem trazendo pro festejo um debate sobre a potencialidade da festa carnavalesca como espaço de reivindicações políticas. O carnaval dos blocos de rua na cidade do Rio de Janeiro estão inseridos na disputa pelos significados simbólicos e políticos da festa. E a partir dessas disputas estão usando a performance carnavalesca - de cortejos e marchinhas - como estratégia para exigir através da luta pelo direito ao carnaval a ampliação para o direito à cidade. A dinâmica do carnaval dos blocos de rua hoje vai ser analisada a partir do estudo de caso do blocomanifestação Ocupa Carnaval e os significados políticos e simbólicos das suas ações. PALAVRAS-CHAVE: Carnaval, Política, Cidade.
INTRODUÇÃO O debate em torno do carnaval vem, cada dia mais, entrando em ebulição. questionamentos sobre politicamente correto versus politicamente incorreto, mau uso do dinheiro público versus investimento a longo prazo, transtornos vividos durante o período versus direito de todo cidadão de acesso a cultura, são temas centrais para pensar a folia momesca. O carnaval dos blocos de rua passou a se relacionar de forma mais intensa com a economia e com o poder público, seja como forma de viabilização da festa 1 BARROSO, Júlio. Ocupa Carnaval. Niterói, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 2 Doutora em Antropologia Social, professora do bacharelado em Produção Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense. Email: marinafrydberg@gmail.com. 3 Graduanda em Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense. Email: pinheirogomes. ayla@gmail.com. 4 Graduanda em Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense. Email: oliveirafabiana@ id.uff.br
43
15 a 18 de maio de 2018 • Fundação Casa de Rui Barbosa • Rio de Janeiro • Brasil
Marina Bay Frydberg2 Ayla Pinheiro Gomes3 Fabiana Santana de Oliveira4
Anais do IX Seminário Internacional de Políticas Culturais
“O CARNAVAL É ANÁRQUICO E A GENTE É A CARA DO ANARQUISMO DO CARNAVAL”1: O DIREITO AO CARNAVAL COMO DIREITO À CIDADE EM UM ESTUDO DE CASO DO OCUPA CARNAVAL
e de sustentabilidade dos blocos, como também de confronto com a lógica imposta por esses mesmos agentes. Inserido no campo econômico, político e cultural (BOURDIEU, 19965), tensionando os significados da festa e da política, nos perguntamos, afinal, o carnaval pode ou não ser visto como espaço de luta política e como uma manifestação do direito à cidade? David Harvey afirma que: A globalização e a guinada em direção ao neoliberalismo enfatizaram, ao invés de diminuir, as desigualdades sociais. (...) Os resultados foram indelevelmente gravados nas formas espaciais de nossas cidades, que cada vez mais tornam-se cidades “de fragmentos fortificados”6. Partindo deste pensamento nossa questão sobre a legitimidade do carnaval como espaço de discussão política não pode ser pensado sem apresentar a questão de classe em sua dimensão territorial, claramente demarcada quando se fala em carnaval de rua carioca, onde a maioria dos blocos se encontram no eixo centro-zona sul. A cidade do Rio se divide em um pequena fatia de elite financeira e uma maioria esmagadora de trabalhadores de baixa e média renda, que costumam ser marginalizados cotidianamente, muitas vezes não se sentindo pertencente a determinados territórios da cidade. É no carnaval que essa parcela da população consegue relacionar-se com esses espaços. (...) O carnaval é transgressão e portanto tem uma relação política de como o carnaval como questionamento político. O segundo passo é a relação entre o poder público e carnaval na conjuntura recente, ela é uma relação política também na medida em que a cidade do Rio de Janeiro é tomada por blocos de carnaval. E aí Você passa por uma tensão entre Associações de Moradores, por exemplo, moradores que sentem seu espaço invadido, que não querem que os blocos desfilem, que acham que a cidade fica muito tumultuada, gente que não gosta de carnaval mesmo; acessando o poder público tentando fazer com que o poder público ordene e controle o carnaval; e os foliões e os blocos de carnaval tentando ter o seu espaço.(...)7 O carnaval de rua tornou-se espaço de disputa pela cidade, por seus territórios e suas territorialidades, e também debate e manifestação política: feminista, racial, 5 BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 6 HARVEY, David. A Liberdade da Cidade. In: VAINER, Carlos et al., Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013. 7 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro.
44
LGBTQ+, e governamental também. É nesse espaço de reivindicações políticas e sociais em que desconhecidos gritam em coro e externam tudo que lhes aflige no cotidiano, quando se sentem amordaçados pela rotina e, muitas vezes, pelo não-pertencimento à cidade. O carnaval transforma-se em um espaço de luta, explícita ou alegórica, onde ocorre apropriação de espaços e denúncias. A partir do carnaval de 2014, pós jornadas de junho de 2013, há uma crescente onda de manifestações políticas ocorridas em diversos blocos de rua, resposta ao período de crise política e econômica que acarreta o governo em seus três níveis de representação. Compreender os significados destes fatores políticos agregados simbolicamente aos festejos reflete a necessidade de problematizar o carnaval, especificamente os blocos de rua do Rio de Janeiro, como espaço de contestações políticas, no seu sentido específico e ligados ao cenário contemporâneo brasileiro, mas também nas suas mais variadas expressões simbólicas e de disputas por representação. Inserido neste contexto surge no carnaval de 2014 o Ocupa Carnaval, estudo de caso para pensarmos o espaço do carnaval como forma de reivindicação do direito à cidade. (...) Como, em resumo, poderia o direito à cidade ser exercitado pela mudança da vida urbana? A resposta de Lefebvre é simples em essência: por meio da mobilização social e da luta política/social (...) A governança substituiu o governo; os direitos e as liberdades têm prioridade sobre a democracia; a lei e as parcerias públicoprivadas, feitas sem transparência, substituíram as instituições democráticas; a anarquia do mercado e do empreendedorismo competitivo substituíram as capacidades deliberativas baseadas em solidariedades sociais (...) Desafiados pela cidade de exceção, pela cidade empresa e pela democracia direta do capital, eles agora as desafiam. Querem outra cidade, outro espaço público. A convulsão social em que o país e suas cidades foram lançados abre extraordinárias possibilidades de interpelação e transformação. Mas nada ainda está decidido. O jogo está aberto. A história nos revisita, nos pisca o olho e nos lembra de que outra cidade é possível (...)8 É a partir de então que a discussão começa a mudar, pois o carnaval como espaço de luta política, passa-se a questionar a cidade do Rio de Janeiro como mercadoria que utiliza da sua cultura como potencial para ser vendida e não pelo valor cultural e social que possa ter para a sua população. Em uma entrevista para a pesquisa o vereador Tarcísio Motta do PSOL disse a seguinte frase: “A grande questão é que não existe prefeitura neutra, não existe estado neutro, e se não existe estado neutro toda a política pública 8 HARVEY, David. A Liberdade da Cidade. In: VAINER, Carlos et al., Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013.
45
que for olhar para o carnaval e tomar alguma atitude ela vai tomar alguma atitude para alguma das posições presente naquele momento.” (...) É porque tem esse primeiro lado que é pensar o carnaval com um ato político. O carnaval é e é desde sempre um ato de irreverência, de contestação. Não existe desfile de bloco carnavalesco que não tenha algo de transgressor; mesmo durante a Ditadura Militar quando, ou, por exemplo, durante o Estado Novo onde eles tentam tornar o carnaval oficial, mesmo nas frestas daquilo que eram obrigados a fazer, que era o enredo de exaltação ao Estado ainda assim havia transgressão ainda mais no carnaval de rua ele sempre foi um carnaval da cidade tentando domesticar, e o folião na rua tentando transgredir aquilo, inverter a ordem.(...)9 Seguindo a ideia de Bakhtin (2010) que compreende a festa como característica primeira e indestrutível da civilização humana por ser isenta de sentido utilitário e por usar de jogos, disfarces, risos, dança e etc. Desta forma, a festa possibilita que se exponha uma visão não oficial da sociedade, que se tenha a abolição, por um período determinado das hierarquias e diferenças. Na mesma linha de interpretação, Burke10 defende o carnaval como o momento de alteração da hierarquia e do status, o que o autor classifica de mundo virado de cabeça para baixo, gerando ambiguidades e ambivalências. DaMatta11 em seu estudo clássico sobre o carnaval no Brasil também parte da ideia da festa como um espaço de inversão, onde a sociedade brasileira nega e reitera a sua organização. Este artigo pretende, desta forma, complexificar essas reflexões através das ações e representações da política no carnaval dos blocos de rua hoje, pensadas como formas de inversão da lógica da luta política presente no tempo do cotidiano, através do estudo de caso12 com o Ocupa Carnaval.
9 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 10 BURKE, Peter. O mundo do carnaval. In: Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 11 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. 12 Foram realizados trabalho de campo durante os eventos organizados pelo Ocupa Carnaval em 2018 e entrevistas com dois participantes do Ocupa Carnaval.
46
OCUPA EU! OCUPA TU! OCUPA GERAL! OCUPA CARNAVAL!: A ORGANIZAÇÃO E AS AÇÕES DO BLOCO-MANIFESTAÇÃO OCUPA CARNAVAL Ocupa Carnaval é um grupo formado há cinco anos a partir da necessidade de uma mobilização mais integrada que atraísse as pessoas para atos políticos a fim de lutar pelas causas sociais cariocas que têm relação com o direito à cidade, usando como abordagem os cortejos carnavalescos. Desde o início, o movimento realiza dois cortejos por ano, um na quinta-feira anterior ao carnaval e um no domingo depois da quarta-feira de cinzas. Antes da criação do movimento, seus membros já atuavam em partidos políticos de esquerda, em coletivos militantes, outros faziam parte do bloco Nada Deve Parecer Impossível de Mudar, criado em meio às eleições municipais de 2012. Após terem participado ativamente das Jornadas de Junho de 2013, quiseram continuar a manifestar pelas causas levantadas naquele ano buscando manter viva a memória das lutas por uma cidade mais justa e igualitária. Organizando-se sempre em praças públicas e pelo Facebook, o grupo foi aumentando a rede de articulação com blocos oficiais, como o Orquestra Voadora, o Cordão do Boitatá, Céu na Terra, não oficiais, como o Cordão do Boi Tolo, e também com ativistas, militantes, artistas e coletivos com intuito de unificar o movimento, definir seus objetivos e formas de usar a arte como instrumento de atuação política. Os participante do Ocupa Carnaval não reconhecem uma nomenclatura específica para definí-lo: não é um coletivo, nem um movimento, mas uma rede de coletivos e movimentos. Tomás Ramos, um dos criadores do Ocupa, define o movimento como “uma frente ampla que agrega todos aqueles e aquelas que congregam que outro Rio é possível, que lutam, lutas em torno de cidade, e que apostam na arte como ferramenta, como instrumento principal de todas essas lutas.”13. Os participantes dessa frente ressaltam que o Ocupa não possui uma liderança, as decisões são tomadas por meio de consenso ou por voto, mantendo seu o caráter horizontal. Ao mesmo tempo, os membros podem se desligar dos cortejos e das discussões com facilidade, fazendo com que a articulação possa ser dificultada pela redução do engajamento dos participantes. Os cortejos possuem focos diferentes em cada uma de suas edições. Concebidos de maneira coletiva, seus temas partem de fatos da política do momento que eles julgam não poder passar despercebidos. O sustento do bloco é feito de forma colaborativa pelas pessoas que participam do movimento. Segundo os entrevistados, durante as reuniões, os membros dividem os custos para a confecção dos materiais dos cortejos. Cada um 13 RAMOS, Tomás. Ocupa Carnaval. Rio de Janeiro, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro.
47
oferece o que pode tanto em questão monetária quanto em mobilização para produzir os produtos, como a impressão dos panfletos com as marchinhas adaptadas que são cantadas no bloco e dos adesivos do Ocupa Carnaval14. Além disso, a frente conta com ajuda financeira de entidades e sindicatos15 que conheçam o trabalho do grupo e de doações de materiais para os cortejos. No primeiro ano do Ocupa Carnaval, em 2014, o cortejo de abertura do carnaval, intitulado de Cabralhada, falava sobre os escândalos que envolviam o governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e sua decisão de sair do governo antes do fim do mandato. Já o cortejo que fechava o carnaval daquele ano, Copa que Pariu, falava sobre a Copa do Mundo que estava prestes a acontecer. Paspalhada, cortejo de 2015, teve como tema o ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes e lutava contra as políticas voltadas para um modelo de cidade-mercadoria (VAINER, 200016). Em 2016, o primeiro cortejo partiu em defesa dos camelôs, que tiveram suas mercadorias confiscadas pela Guarda Municipal à mando da prefeitura e foi nomeado de Camelato. A manifestação seguinte ao término do carnaval daquele ano, Olim...piada, denunciava os Jogos Olímpicos Rio 2016 cujo planejamento realizado através de uma série de parcerias público privadas trouxe consigo gentrificação e obras superfaturadas. Para abrir o carnaval de 2017, o Ocupa Carnaval escolheu Luiz Fernando Pezão, atual governador como principal homenageado, no cortejo intitulado Caçadores de Pé Grande, enquanto o aniversário de cem anos da Revolução Russa foi escolhido para o segundo cortejo do ano, cujo cortejo foi nomeado Pagode Russo. Crivellada, realizado em fevereiro deste ano, o atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella foi o homenageado. Censura Nunca Mais, segundo cortejo de 2018, está previsto para o domingo pós carnaval.
14
Os produtos do bloco serão abordados mais a frente neste artigo.
15
Os entrevistados não citaram quais entidades colaboram financeiramente com o bloco.
16 VAINER, Carlos. Pátria, empresa e mercadoria notas sobre a estratégia discursiva do Planejamento Estratégico Urbano. In: ARANTES, Otília et al., A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Conceitos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
48
Figura 1 - Capa do evento Crivellada no Facebook.
Fonte: Evento do Ocupa Carnaval no Facebook.17
Como um movimento social, o Ocupa tem lutado contra questões que rodeiam o país e, mais especificamente, o Rio de Janeiro. Devido à sua formação no período entre os megaeventos sediados na cidade e da maneira como aconteceram, lutam contra a ideia de cidade-mercadoria (VAINER, 2000), processo que se desdobrou com mais força com a gestão de Paes na prefeitura. Lutam contra a dominação do capital econômico sobre o bem-estar dos moradores da cidade, a redução de direitos dos cidadãos. Outras bandeiras levantadas são antirracismo, a favor da causa feminista e LGBTQ+, contra a violência policial, contra os escândalos da corrupção a nível municipal, estadual e federal. Figura 2 - Chamada para o ato Carnaval Contra o Golpe
Fonte: Página do Ocupa Carnaval no Facebook.18
17 2018
Disponível em: <https://www.facebook.com/events/1989529807986696/>. Acesso em: 18 fev.
18 2018.
Disponível em: <https://www.facebook.com/events/204096353305579/>. Acesso em: 17 fev.
49
Durante a extinção do Ministério da Cultura, em 2016, o Ocupa Carnaval participou do Ocupa MinC. O movimento durou setenta e sete dias e promoveu palestras, aulas, rodas de conversa, oficinas no palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio. Vale ressaltar que esse movimento de ocupações também foi articulado em outros estados do país e contava com a participação de profissionais do setor cultural. Segundo os entrevistados, o Ocupa Carnaval é um grupo completamente desligado do poder público, entendido por eles como a atual gestão municipal e estadual. Contudo, alguns dos membros possuem ou já possuíram relação com partidos políticos de esquerda como o PSOL, PCB e PT e outros já participaram de mandatos no poder legislativo, como o entrevistado Tomás Ramos. Embora haja uma negação da relação direta do movimento com as instâncias de poder de forma direta, o movimento Ocupa Carnaval só acontece a partir de uma rede política fortemente estabelecida. Com relação aos desfiles, o Ocupa não pede autorização para realizar nenhum dos seus cortejos e também não faz parte dos blocos oficiais do carnaval do Rio. Ao mesmo tempo, seus cortejos não sofrem repressão policial com frequência e possuem um bom relacionamento com a Guarda Municipal e a CET-Rio por conta de relações pessoais dos seus membros. Durante o trabalho de campo realizado no cortejo do dia 8 de fevereiro de 2018, não houve em momento algum presença da polícia militar ou algum tipo de impedimento à realização do ato. Assim, o movimento anárquico definido por Júlio Barroso segue realizando suas manifestações e levando suas pautas adiante na luta a favor do direito à cidade e “de disputa por um modelo de cidade que tá colocado”19, como aponta Tomás Ramos. Também na pesquisa de campo, foi observado o caráter horizontal e de recursos limitados do bloco-manifestação. Havia apenas um carro de som, onde também comercializavam cerveja artesanal. Vários membros distribuíram panfletos que continham as marchinhas cantadas naquela noite juntamente com o manifesto. Embora o evento na rede social do bloco tivesse oitocentas e três pessoas confirmadas e três mil e quatrocentas interessadas, já as pessoas que estavam presentes não passavam de trezentas. Os foliões demoraram a chegar para a concentração, que estava marcada para 18h. O cortejo seguiu da Cinelândia até a Praça Tiradentes, no centro do Rio. Era nítida a dificuldade de fazer com que o som do carro alcançasse quem acompanhava o cortejo. Todavia, os foliões que já conheciam as paródias cantavam com empolgação enquanto outros tentavam aprender as letras para se unirem aos cantos do cortejo. Durante a troca de músicas, gritos de “Fora Temer” e “Fora Crivella” preenchiam o vazio deixado. 19 RAMOS, Tomás. Ocupa Carnaval. Rio de Janeiro, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro.
50
Por ser um bloco-manifestação, o Ocupa Carnaval possui algumas estratégias de atuação que fazem com que suas mobilizações e pautas continuem com visibilidade durante o ano. Na página do Facebook, o grupo posta informações sobre a situação dos assuntos pelos quais se engaja. Ainda é possível encontrar os resultados dos produtos criados pela frente, entre eles: todos os vídeos com as marchinhas adaptadas, o manifesto do Ocupa Carnaval e as letras das paródias que compõem os cortejos. As paródias fazem parte das ações do Ocupa desde o primeiro ato. Foram criadas porque os participantes do bloco perceberam a necessidade de atrair multidões para as manifestações de uma maneira diferente dos protestos não artísticos. Porque o bloco-manifestação sai em cortejos e cantar marchinhas tradicionais politizadas foi a solução encontrada para fazer com que as pessoas facilmente se identificassem com a pauta e cantassem com facilidade. Outro fato importante sobre a escolha de parodiar as marchinhas é que por elas já serem conhecidas, a organização do bloco não precisa realizar ensaios antes da saída do bloco. As paródias contém o humor característico do movimento e assumem um forte tom crítico, passando as mensagens com clareza. Não é necessário ter grandes conhecimentos sobre política para entender as referências, falam sobre fatos da política municipal, como a paródia da canção Jardineira, denunciam a violência policial como é o caso de Bola Preta, manifestam em prol da luta feminista, com As Águas Vão Rolar e, em especial, sobre o direito à cidade, foco central do Ocupa Carnaval, com Mamãe Eu Quero. Até o momento, foram escritas dezessete marchinhas parodiadas. Elas são escritas por compositores da rede do Ocupa Carnaval. Os organizadores do bloco se preocupam com o lugar de fala de quem irá compor, como aponta Júlio Barroso: “às vezes, assim, quando a gente vai fazer uma música pra falar da mulher, a gente sempre chama uma mulher pra escrever, se for uma música pra falar de um negro, é um negro que escreve. Pra não ter essa coisa de estar falando no local, no lugar de fala do outro.”20 Além disso, o entrevistado, que já fazia parte de blocos carnavalescos antes da criação do Ocupa Carnaval, argumenta que nos dias atuais tocar algumas marchinhas, como por exemplo O Teu Cabelo Não Nega21, se torna um constrangimento para o bloco e também para os foliões, pois se trata de uma música machista e racista. Contudo, Barroso (2018) argumenta que: “(...) a gente tem uma memória afetiva com elas muito grande também, aí o que que a gente resolveu fazer, a gente resolveu botar teor político nessas letras, nessas
20 BARROSO, Júlio. Ocupa Carnaval. Niterói, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 21
Música composta em 1931, pelos Irmãos Valença.
51
letras mais problemáticas, digamos assim.”22 Dessa forma, as releituras ressignificam as marchas tradicionais e permitem que se adequem às discussões políticas atuais. DIREITO AO CARNAVAL COMO DIREITO À CIDADE Vamos analisar agora o carnaval como o direito à cidade em um contexto onde festa e cultura enfrentam noções mercadológicas aplicadas a cidade e seus eventos. Para iniciar o pensamento a respeito temos os dois fragmentos do mesmo autor, David Harvey: (...)O direito à cidade, como comecei a dizer, não é apenas um direito condicional de acesso àquilo que já existe, mas sim um direito ativo de fazer a cidade diferente, de formá-la mais de acordo com nossas necessidades coletivas (por assim dizer), definir uma maneira alternativa de simplesmente ser humano. Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser reimaginado e refeito. (...) (...)afirma
Mitchell, [...] o direito à cidade é um grito, uma demanda, então é um grito que é ouvido e uma demanda que tem força apenas na medida em que existe um espaço a partir do qual e dentro do qual esse grito e essa demanda são visíveis. No espaço público – nas esquinas ou nos parques, nas ruas durante as revoltas e comícios – as organizações políticas podem representar a si mesmas para uma população maior e, através dessa representação, imprimir alguma força a seus gritos e demandas. Ao reclamar o espaço em público, ao criar espaços públicos, os próprios grupos sociais tornam-se públicos(...).23
Carnaval é em síntese ocupação do espaço público por qualquer grupo de indivíduos, para o carioca essa definição vai além; se trata de uma celebração universal onde ocorre a transgressão aos limites impostos, no carnaval de rua, e uma intensa troca de conhecimentos. Carnaval é dança, é canto, é indumentária, é conversa com desconhecidos que podem virar amigos; é interação humana de modo genuíno e espontâneo. (...) Os Blocos têm tudo isso, os Blocos têm uma manutenção de memória, de tradição, ou seja, na marchinha; isso portanto significa que a prefeitura que investir nisso ela vai ter um retorno para os seus cidadãos do ponto de vista do tipo de cultura e de
22 BARROSO, Júlio. Ocupa Carnaval. Niterói, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 23 HARVEY, David. A Liberdade da Cidade. In: VAINER, Carlos et al., Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013.
52
acesso a todo esse universo cultural que o cidadão carioca e o turista têm. (...).24 Não à toa o professor Carlos Vainer diz que essas manifestações públicas, não só necessariamente o carnaval, “(...) Trazem para nossas cidades e para a esfera pública o frescor do que ainda não foi contaminado pela ideologia do empreendedorismo e do individualismo competitivo que pretendem a totalidade da vida social (...)”25. Mas o carnaval não pode ser pensado só como um negócio porque carnaval é cultura e portanto deveria ser fomentado pelo poder público como meio de valorização destas expressões. Mas a realidade carnavalesca carioca se transfigurou de uma brincadeira conjunta para um cenário mercadológico acirrado onde lucro muitas vezes se sobrepõe a folia. (...) trata-se de abandonar a pretensão compreensiva e dirigista dos planejadores racionalistas e submeter a intervenção do Estado às lógicas, dinâmicas e tendências de mercado. Trata-se, portanto, de adotar, seguindo a fórmula do Banco Mundial, o “planejamento amigável ao mercado” (market-friendly planning), ou o “planejamento orientado para/pelo mercado” (marketoriented planning). (...).26 Esse é o cenário global hoje, onde países e cidades competem entre si, numa grande competição de autopromoção e venda, são “neoliberais, mas adoram um monopólio”27. E o mais instigante nessa questão é que ao se perguntar como se vende uma cidade, a resposta se adequa de acordo com quem vai comprar essa cidade. Assim sendo seus governantes costumam ter um plano de ação para cada grupo em potencial, como casais. jovens, idosos, estudantes, etc.; deixam de ser governantes de uma cidade ou país para se tornarem gestores de uma empresa. (...) Na prefeitura Eduardo Paes assim como o projeto de cidade dele era o projeto de cidade que a gente chama de “cidade balcão de negócios”, era a cidade do mega evento, a cidade portanto da Olimpíada, da Copa etc., o carnaval também era visto como 24 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 25 VAINER, Carlos. Quando a cidade vai às ruas. In: VAINER, Carlos et al., Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013. 26 VAINER, Carlos. Quando a cidade vai às ruas. In: VAINER, Carlos et al., Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, jul.2013, p.62-72. 27 VAINER, Carlos. Quando a cidade vai às ruas. In: VAINER, Carlos et al., Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, jul.2013, p.62-72.
53
um megaevento. E ele olha carnaval como negócio, como um negócio para cidade, (...).28 (...) O Paes começa com o choque de ordem né Paes vira prefeito em 2009, no carnaval de 2010 é quando ele primeiro tenta organizar os blocos, colocar essa coisa do registro, de, enfim uma espécie de choque de ordem no carnaval e que transforma o carnaval num outdoor, um projeto (...), projeto do balcão de negócios que a gente viu entre o Pan Americano e as Olimpíadas, são laboratório vivo desse modelo de cidade balcão de negócios, cidade mercadoria, cidade voltada para os megaeventos, voltada pra produção de mais valia urbana, a cidade voltada pra produção de valor e não um lugar pra se viver, como um laboratório do capital. (...)29 Quando aplicamos essa lógica ao Rio de Janeiro suas ações e reações se tornam explícitas, principalmente no carnaval. O desfile do sambódromo é um dos produtos culturais utilizados para vender a cidade para o mundo, mesmo o carnaval não se resumindo a isso; esse é inclusive um ponto de tensão entre a atual gestão da cidade com a população. Quando, segundo a estimativa da Riotur30 são esperados cerca de 6 milhões de foliões durante a festa que conta com 464 blocos em mais de 500 desfiles, tentar reduzir o valor simbólico dessa parte tradicional da festa é esquecer um importante parte da sua manifestação. Até porque para que as medidas necessárias sejam tomadas é preciso analisar cuidadosamente este universo de modo que a experiência seja a mais completa possível, tanto para os moradores da cidade que participem ou não dos festejos, quanto para os turistas. (...) de dar o suporte para que os blocos possam viver a cidade, é um momento em que a cidade é toda ela é subvertida. Sem que esse seja um controle, uma censura, um engessamento; mas dar a possibilidade de que isso aconteça portanto significa estrutura para desviar o trânsito, orientar o trânsito, garantir a segurança da cidade enquanto está acontecendo; são todas elas políticas
28 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 29 RAMOS, Tomás. Ocupa Carnaval. Rio de Janeiro, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 30 RODRIGUES, Renan. “ Rio deve reunir 6 milhões de foliões no carnaval de 2018”. O Globo, 11 jan. 2018. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/rio-deve-reunir-6-milhoes-de-folioes-nocarnaval-de-2018-22276804>. Acesso em: 18 fev. 2018.
54
públicas que poderiam ser pensadas para o carnaval, para os blocos e a partir disso serem muito positivas para a cidade. (...)31 Quando o vereador fala isso ele ainda completa dizendo que “não é controle que a prefeitura tem que fazer, ela tem que garantir o direito das pessoas e pra isso não é um controle sobre o carnaval”; é enxergá-lo como o todo e representá-lo, atendendo ao máximo possível da população que habita a cidade. Na gestão anterior do município, com o ex-prefeito Eduardo Paes, foi onde se aprimorou a visão de cidade balcão de negócios, onde um dos principais produtos disponíveis para venda era o carnaval, no entanto os blocos não eram excluídos desse sistema. (...) Foi nesse período que com o Paes o carnaval passou a ser esse grande outdoor da antártica né, então eu vi isso acontecer, eu vi o carnaval antes de ter tudo azul, depois eu vi tudo ficar azul depois eu vi a resistência a tudo ficar azul, esse azul, essas batalhas todas, acompanhei isso bem de perto, sei lá desde 2002, 2003 e nunca consegui sair, então eu vi realmente todas essas coisas acontecendo. (...)32 (...) carnaval de rua tinha que se encaixar nesse modelo daí a lógica dos cadernos de encargo, a lógica do monopólio da venda das cervejas uma lógica que portanto até havia algum tipo de incentivo pros blocos existissem mas eles tinham que estar a serviço de uma grande jogada da cidade a serviço dos negócios. (...)33 Tratar apenas como mercadoria turística a maior festa do mundo segundo o Guiness Book, é um recorte complicado por remover da equação o fator humano, onde ocorrem interações sociais, troca de saberes, manutenção de tradições, etc. É indispensável “(...) lembrar que carnaval não é só turismo carnaval é mais, carnaval não é uma questão de atração de turistas, carnaval é algo que a cidade tem que viver plenamente (...)”, diz Tarcisio. Ou como defende o Ocupa Carnaval em seu manifesto: “O carnaval é o mais belo grito do povo! Ocupamos as ruas com estandartes, confetes e serpentinas mostrando que o Rio é 31 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 32 RAMOS, Tomás. Ocupa Carnaval. Rio de Janeiro, 24 jan. 2018. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro. 33 MOTTA, Tarcísio. Sede do PSOL. Rio de Janeiro, 15 dez. 2017. Entrevista concedida à pesquisa “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”: cultura, economia e política no carnaval dos blocos de rua no Rio de Janeiro.
55
nosso: suas colombinas e pierrôs estão vivos e pulsam. Abaixo as catracas que transformam a cidade num grande negócio, onde o lucro prevalece sobre a vida, onde o dinheiro é mais livre que as pessoas. Enquanto capitalizarem a realidade, nós socializaremos o sonho. Viva a energia da rebeldia! Viva a criatividade das fantasias! Viva o Zé Pereira e o Saci Pererê! A cidade não está a venda e nossos direitos não são mercadoria. Foliões, univos! Ocupa eles, ocupa eu, ocupa tu, ocupa geral. OCUPA CARNAVAL!”34
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Brasília: Ed. da UnB, 1993. BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. BURKE, Peter. O mundo do carnaval. In: Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. HARVEY, David. A Liberdade da Cidade. In: VAINER, Carlos et al., Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013. VAINER, Carlos. Pátria, empresa e mercadoria notas sobre a estratégia discursiva do Planejamento Estratégico Urbano. In: ARANTES, Otília et al., A Cidade do Pensamento Único: Desmanchando Conceitos. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. ______. Quando a cidade vai às ruas. In: VAINER, Carlos et al., Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: BOITEMPO EDITORIAL; Carta Maior, 2013.
34
Manifesto Ocupa Carnaval. Rio de Janeiro. 2014.
56