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Por uma gestão cultural transformadora nos espaços populares de cultura

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Anais

VII

Seminário Internacional

políticas culturais 17 a 20 de maio de 2016- Rio de Janeiro Organizadores: Lia Calabre Maurício Siqueira Adélia Zimbrão Deborah Rebello Lima

Edição: Fundação Casa de Rui Barbosa ISBN: 978-85-7004-337-5


Anais do VII Seminário Internacional de Políticas Culturais

Organizadores: Lia Calabre Maurício Siqueira Adélia Zimbrão Deborah Rebello Lima

17 a 20 de maio de 2016 – Rio de Janeiro


Seminário Internacional Políticas Culturais (7. : 2016 : Rio de Janeiro, RJ) Anais do VII Seminário Internacional de Políticas Culturais, 17 a 20 de maio de 2016, Rio de Janeiro / Organizadores: Lia Calabre... [et al.] – Rio de Janeiro : Fundação Casa de Rui Barbosa, 2016. Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World WideWeb: <http://wwwhttp://culturadigital.br/politicaculturalcasaderuibarbosa/> ISBN: 978-85-7004-337-5

1. Política cultural. I. Calabre, Lia, org. II. Siqueira, Mauricio, org. III. Zimbrão, Adélia, org. IV. Lima, Deborah Rebello, org. V. Fundação Casa de Rui Barbosa. VI. Título.

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POR UMA GESTÃO CULTURAL TRANSFORMADORA NOS ESPAÇOS POPULARES DE CULTURA Álvaro Maciel1 RESUMO: O texto pretende trazer novos elementos para os debates e reflexões acerca do desenvolvimento das cidades e suas influências na produção e fruição cultural nos setores mais populares da sociedade, a partir de algumas inflexões a respeito dos formatos da gestão cultural aplicada em espaços ligados ao samba, na Cidade do Rio de Janeiro. A observação realizada no Centro Cultural Cartola – Museu do Samba confirma a importância da Educação Patrimonial para o exercício dos direitos culturais e ressalta os resultados positivos conseguidos junto aos jovens da Mangueira e bairros vizinhos, através de um modelo de gestão cultural contemporânea. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento, gestão, cultura, patrimônio.

1. UMA GESTÃO CULTURAL TRANSFORMADORA 1.1 Desenvolvimento urbano e gestão dos espaços do samba A vivência em nossas cidades repete cenas tragicômicas de isolamento, interdições, proibições e impedimentos que nos remetem à impossibilidade da realização das ações culturais no formato dos nossos gostos. O metrô lotado, o engarrafamento, a irregularidade dos meios de transportes coletivos, a lei de silêncio, a rigidez burocrática das leis e normas sociais nos fazem tecer críticas diárias à vida urbana contemporânea, embora sem abrirmos mão dela. A intenção mais ampla deste trabalho foi trazer novos elementos para os debates e reflexões acerca do desenvolvimento das cidades, em contraponto à melhoria ou manutenção da qualidade de vida da população de um determinado local, através da gestão cultural de determinados espaços, onde são realizadas ações culturais populares, com destaque para a prática da cultura do samba nos centros urbanos. Foram visitados os seguintes pontos: Roda de Samba da Velha Guarda do Leme, Roda de Samba do Leme, Samba da Confraria (Niteroi), Centro Cultural Cartola, Botequim do Império Serrano e Feijoada do Renascença. As atividades de campo foram fundamentais para a obtenção de informações atualizadas, referentes às recentes movimentações existentes no mundo do samba, que se constituem 1

FUNARTE, 21 999482770/ 999482788, alvarosamba@gmail.com

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num excelente material para evidenciar as influências e a pressão do crescimento urbano sobre os espaços pulares de cultura nas cidades. Outro ponto que podemos destacar é a constatação de que há pouco material que aborde a questão da ancestralidade, tão presente nas ações culturais nesses territórios. O processo histórico do surgimento e evolução do samba carioca e suas primeiras contribuições ao campo social, segundo alguns estudiosos, influenciam o presente processo, pois, a memória social se constrói ao longo de muitas gerações de indivíduos mergulhados em relações determinadas por estruturas sociais e sua construção implica na referência ao que não foi presenciado. Se a sociedade atual traz as marcas das estruturas sociais que lhe antecederam e se estas marcas são potencialmente suportes da memória, então é também pela seleção, pela análise e pela interpretação destes suportes que serão construídas a memória, sendo que a construção desta sempre envolve esquecimento. Por uma série de fatores algumas manifestações culturais relevantes para o meio são transmitida e passadas; selecionadas por um processo social natural (ou incentivado em alguns casos); já outras são esquecidas, apagadas pelo próprio processo e fluxo da vida em constante transformação. Portanto, devido a sua continuidade por um logo tempo, pode-se afirmar a importância do samba para essas comunidades. A extinção de algumas agremiações carnavalescas e a criação de outras, faz parte de um processo contínuo e aberto, onde a memória coletiva nesses grupos, construída socialmente, representa um conjunto de ações internas e que se fortalecem quando contribuem para a preservação do samba e de sua própria cultura. Nas pesquisas de campo pode-se observar que a recuperação e a preservação da memória do samba depende da ação de agentes culturais que adquiriram reconhecimento junto à população de sambistas tradicionais, ao longo do tempo, e que hoje se desdobram em empreendedores, gestores e amantes do samba, simultaneamente. Inicialmente o samba não é um produto e sim uma cultura. O processo de fortalecimento da identidade dessas coletividades nos revela, no entanto, certo grau de conflito e de disputa interna por hegemonia política, que é determinante para a definição e organização do processo decisório. Neste caso, os produtores culturais concorrem com os mais velhos, o melhor ritmista, o cantor preferido, as matriarcas e uma série de outros formadores de opinião que participam ativamente das rodas de samba: músicos, compositores, cantores, ex-diretores de agremiações, cozinheiras e outros agentes culturais reconhecidos no bairro, que aos poucos ganharam notoriedade local. A observação de que uma manifestação cultural se transforma e adquire características do grupo que a sustenta, caminha ao lado do fato de que essa manifestação cultural pode ser a

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mesma, mas a forma de fruição e relação afetiva dos seus frequentadores depende da ligação histórica com a vida do individuo participante. É necessário um olhar mais técnico para avaliar as relações existentes entre os espaços culturais e a manutenção de suas atividades e a ação, ou omissão, da esfera pública. É surpreendente como tais movimentos, envolvendo grande número de pessoas, acontecem numa cidade como o Rio de Janeiro e muitas vezes não são percebidos. Há uma interdependência entre o sucesso ou insucesso de eventos com as características de uma roda de samba e os serviços oferecidos pelo município; transporte, segurança, iluminação, banheiros públicos, etc. até água e energia elétrica, que estão ligadas à sociedade como um todo, mas que, em certos casos são determinantes para manutenção desta ou daquela ação cultural. 1.2 Centro Cultural Cartola – Espaço do samba e do social Fundado em janeiro de 2001, o Centro Cultural Cartola é uma organização sem fins lucrativos que reúne a mais variada gama de pessoas devotadas à causa da cultura brasileira e do desenvolvimento social. O complexo cultural possui espaço de exposição, auditório, sala de projeção, teatro, biblioteca, loja, café, bar e restaurante. São desenvolvidas nas dependências do CCC oficinas de teatro, dança, música, rodas de leitura, mostra de vídeos, debates, palestras, depoimentos, shows e exposições. Em média o público direto beneficiado é de 500 pessoas/mês e o indireto de 1500/mês. Intelectuais, artistas, produtores culturais e formadores de opinião se uniram para promover o desenvolvimento cultural e social de nossa gente, proteger as tradições e preservar a memória de nossas manifestações culturais. A base deste empreendimento é a vasta obra de Angenor de Oliveira, também conhecido pelo seu apelido de Cartola, cuja imensa importância para a música popular brasileira é mundialmente reconhecida. A palavra cultura, no entanto, pode significar pouco quando uma população que se encontra sem perspectivas, sem chances, sem oportunidades e sem esperança. Pensando nisso, o Centro Cultural Cartola aliou à sua atuação em defesa da cultura brasileira uma série de iniciativas de cunho social, visando combater a pobreza, a marginalização da população carente, a exclusão social e a falta de esperança no futuro. Em busca de seus ideais, o Centro Cultural Cartola procura atuar junto às parcelas mais desfavorecidas da população, dando especial atenção ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, à inserção do jovem na sociedade e ao amparo ao idoso. Tudo isso em torno da cultura e da música brasileiras, importantes instrumentos para a valorização da identidade nacional. A escolha de Cartola como patrono da instituição se justifica não apenas por sua importância no mundo musical, mas também por sua história de luta, de superação de dificuldades e de inserção ativa do indivíduo na sociedade através da produção cultural. Tendo como referência

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a vida e obra de um grande mestre, morador da Mangueira, poeta sofisticado e um dos maiores ícones da música popular brasileira, o CCC consegue atrair jovens da comunidade para as diversas atividades voltadas à capacitação profissional e artística. O mestre mangueirense se torna, assim, um exemplo a ser seguido pelas crianças e pelos jovens ansiosos por um lugar ao sol, que têm no Centro Cultural Cartola uma fonte de aprendizado, de experiência e de incremento de suas capacidades. A preservação da memória de Cartola e de seu legado cultural requer uma participação ativa da instituição junto à comunidade. A mera disponibilização de sua produção musical não bastaria para traduzir a importância social deste ícone da música popular, deste cidadão que, apesar de todas as dificuldades encontradas em seu caminho, conseguiu imprimir seu nome entre os mais importantes artistas brasileiros. Desta forma, além da criação de um espaço destinado à exposição e à divulgação da produção cultural do Cartola, o Centro Cultural se dedica à educação musical e artística de crianças, jovens, adultos e idosos, em projetos sociais de grande abrangência. Valorizar a cidadania, a liberdade, a participação na sociedade, a assistência social, o trabalho voluntário, o aprendizado musical e a cultura brasileira, são as metas do Centro Cultural Cartola, que teve como primeira presidenta de honra a companheira de nosso Mestre, a incansável Dona Zica, cuja história de luta e sucesso é de todos conhecida. O Centro Cultural Cartola acredita na força da cultura brasileira, na vontade de crescer de nosso povo e na efetiva possibilidade da inclusão social. Dedica-se, assim, à mais nobre das missões: transformar em realidade um ideal. Situado à Rua Visconde de Niterói, 1296 - Mangueira/RJ, o Centro Cultural Cartola se tornou uma referência nacional em termo de gestão e aproveitamento de espaços ociosos para a cultura. Situada numa área pobre, passou a se dedicar à inserção social da juventude local pela arte, educação, construção da cidadania, valorização da cultura e preparação profissional com vista ao resgate da dignidade humana. Pode ser considerado um modelo de excelência no enfrentamento ao risco de perda de memória imposto pelo crescimento urbano. 1.3 O Pontão de Cultura e o Museu Cartola O resultado do trabalho de pesquisa e documentação realizado no CCC contribuiu de forma decisiva para o reconhecimento do Samba como Patrimônio Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, que mais tarde, em 2009, por sua força criativa, veio a reconhecê-lo como Pontão de Memória do Samba Carioca. A motivação do reconhecimento deu novo gás ao centro, que continuou a desenvolver o Projeto do Inventário das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, dedicado à documentação do samba e de sua manifestação, seja nas rodas de samba, nas quadras das escolas e outras agremiações carnavalescas, nos terreiros ou na atuação dos seus atores sociais.

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Em 2011, o CCC foi reconhecido como Museu do Samba do Rio de Janeiro e em 2012 começa suas atividades musicais. A área onde funciona possui sete mil metros quadrados e pertence ao IBGE. A missão do Museu do Samba é desenvolver ações de resgate, preservação e difusão dos conhecimentos relativos às matrizes do samba no Rio de Janeiro bens registrados como patrimônio cultural brasileiro, dar suporte ao ensino, pesquisa e extensão e promover a reflexão crítica da realidade histórica, tendo como referência as políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial brasileiro. ( site oficial da instituição). Em 2013 a exposição itinerante “Para Não Perder a Memória – D. Zica 100 Anos” foi um marco na gestão cultural do CCC. O projeto foi uma homenagem a Dona Zica da Mangueira, esposa de Cartola, que nasceu em 06 de fevereiro de 1913 num domingo de Carnaval. Através dele a educação patrimonial consagra o Museu do Samba Carioca, que contou com patrocínio da Petrobras e apoio da Secretaria de Estado de Janeiro. Um grande sucesso de público e crítica. As parcerias com as instituições de ensino e a divulgação de suas atividades nos sites que integram o circuito do samba fazem do espaço expositivo um grande sucesso. Há exposições que recebem mais de cinco mil alunos, com idade entre 9 e 17 anos da rede pública e privada de ensino. No projeto Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro, por exemplo, as escolas que formaram a parceria foram: Escola Municipal Nilo Peçanha, CIEP Nação Mangueirense, Escola Municipal Gonzaga da Gama Filho, FAETEC – Adolpho Bloch, Escola Municipal Uruguai, Escola Municipal Marechal Trompowsky, Escola Municipal Cardeal Leme e finalizando com Escola Tia Neuma. 1.4 Uma gestão com foco na educação patrimonial Umas das principais diretrizes do Centro Cultural Cartola-Museu do Samba Carioca é promover a educação patrimonial. Na prática, significa levar informação e formação cultural ao público a fim de difundir e preservar o samba carioca e suas matrizes, gênero que em 2007 foi alçado à condição de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, por meio de um processo liderado pela instituição. A educação patrimonial nada mais é do que uma proposta interdisciplinar de ensino voltada para questões atinentes ao patrimônio cultural. Compreende desde a inclusão, nos currículos escolares de todos os níveis de ensino, de temáticas ou de conteúdos programáticos que versem sobre o conhecimento e a conservação do patrimônio histórico, até a realização de cursos de aperfeiçoamento e extensão para os educadores e a comunidade em geral, a fim de lhes propiciar informações acerca do acervo cultural, de forma a habilitá-los a despertar, nos educandos e na sociedade, o senso de preservação da memória histórica e o consequente interesse pelo tema (ORIÁ, 2005).

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Samba de partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo são bens culturais e a ideia de sua apropriação e preservação pela comunidade perpassa pela Educação. Desde sua fundação, a instituição é dinamizadora de processos educativos em ações sistemáticas, com abordagem interdisciplinar, de proteção e promoção do Samba em que o patrimônio humano também se evidencia. Dessa forma, o espaço contribui na formação de cidadãos críticos, que respeitam e valorizam seu patrimônio cultural, que constroem e compartilham saberes através de vivências integradoras da comunidade escolar e de segmentos da sociedade local. A preservação desse patrimônio possibilita a construção coletiva de conhecimento, seja pela ação educativa direta com crianças e jovens, seja pela vivência entre gerações em eventos e outras iniciativas. No térreo, além de áreas de convivência variadas, há um salão apropriado para cerimônia e, é evidente, realização de rodas de samba de excelentíssima qualidade. Os diversos projetos da instituição estabelecem referenciais de pertencimento e são muitos os exemplos bem-sucedidos no Centro Cultural Cartola na sua realização e nos objetivos. Assim, o perfil do equipamento passou a ser um notável exemplo em educação voltada à compreensão e valorização de nossa diversidade cultural. Preservação é o conceito genérico. Nele podemos compreender toda e qualquer ação do Estado que vise conservar a memória de fatos ou valores culturais de uma Nação. É importante acentuar esse aspecto já que, do ponto de vista normativo, existem várias possibilidades de formas legais de preservação. A par da legislação, há também as atividades administrativas do Estado que, sem restringir ou conformar direitos, se caracterizam como ações de fomento que têm como consequência a preservação da memória. Portanto, o conceito de preservação é genérico, não se restringindo a uma única lei, ou forma de preservação específica. (CASTRO, Sônia Rabello de. O Estado na preservação de bens culturais. Rio de Janeiro: Renovar, p.19, 1991). A Educação Patrimonial visa estabelecer um melhor relacionamento da população com estes bens, heranças que fazem parte da sua história de modo a fortalecer a vivência real com a cidadania, num processo de inclusão social. É importante perceber que essas práticas aumentam a responsabilidade pela valorização e preservação do Patrimônio. Uma boa educação faz com que os membros de uma determinada população cobrem essa responsabilidade dos seus membros. A própria natureza do vocábulo Patrimônio pode explicar tal fenômeno: originalmente, à herança paterna ou herança familiar, ou seja, aos bens materiais transmitidos de pai para filho. No Brasil a valorização do Patrimônio Cultural é muito incipiente. Podemos observar o desconhecimento na maior parte da população, que deveria ser muito mais trabalhado nas escolas para fortalecer a relação das pessoas com suas heranças culturais. Isto revela o quanto o assunto está ausente ou distante da sociedade, em particular do cotidiano de uma cidade. Fiquei muito entusiasmado ao perceber no trabalho da equipe coman-

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dada por Nilcemar Nogueira, a neta de Cartola, uma visão diferenciada das muitas instituições do mundo do samba. O uso do termo Patrimônio como herança social aparece na França pós-Revolucionária, quando Estado decide tutelar e proteger as antiguidades nacionais com valor e significado atribuídos como importantes para a história da nação. Patrimônio Histórico passa desde então a ser “o conjunto de bens entendidos como herança do povo de uma nação”. Essa definição já incluía “não apenas os bens imóveis, mas também os bens móveis, tais como acervos de museus e documentos textuais” (TEIXEIRA et alli, 2004, p. 02). Trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento individual e coletivo. A partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho de Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto desses bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num processo contínuo de criação cultural. (HORTA; 1999, p. 06). Seria um equívoco dessa pesquisa a não apresentação de um pequeno histórico sobre a Educação Patrimonial, já que o mais se vê no CCC é a prática da abordagem educacional no trato com as noções e práticas patrimoniais, com participação de jovens da comunidade do Morro da Mangueira e das escolas dos bairros vizinhos. 1.5 Uma experiência de gestão exemplear Da experiência da Mangueira quero destacar os elementos de uma gestão cultural diferenciada, como: 1) a institucionalização da do espaço, 2) a relação deste com o território, e 3) a permanente abertura para formação de novas redes. Tais elementos funcionam como fatores facilitadores ao conhecimento crítico por parte das comunidades e dos indivíduos em relação ao seu Patrimônio Cultural, o que fortalece o sentimento de pertencimento. O formato de gestão implementado no CCC, é sem dúvida uma grande contribuição para os espaços populares de cultura. Um exemplo de Gestão Cultural Transformadora. É um modelo que consagra a importância da Educação Patrimonial para o exercício dos direitos culturais e da cidadania. Infelizmente, tais conceitos configuram-se numa proposta pouquíssimo difundida nos espaços populares de cultura. O conhecimento acadêmico de Nilcemar, somado a sua experiência comunitária, trouxeram excelentes resultados à gestão cultural do CCC. Ela conseguiu fechar parceria com a Ford Foundation, em dezembro de 2004, voltada para uma implementação de um novo formato de gestão cultural, que inclui toda a parte de desenvolvimento organizacional (gestão, governança), marketing, projetos e mobilização

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de recursos. Outra parceria fundamental foi fechada com a Fundação Roberto Marinho, que se dedica a contribuir para que a estrutura física do prédio seja equiparada às instalações dos grandes museus do Rio de Janeiro. A sustentabilidade das instituições culturais se constitui num grande desafio. A principal fonte de recursos advém de convênios com órgãos públicos que obrigam a equipe administrativa a cumprir toda aquela burocracia exigida pelo setor público, que muitas vezes acabam por limitar algumas ações consideradas prioritárias. A nova gestão do Centro Cultural Cartola, com Nilcemar, passou a buscar a ampliação do diálogo com o poder público e com as organizações representativas, a diversificar as fontes de patrocínio, o acompanhamento de editais públicos nas diversas esferas de governo, dar visibilidade as lideranças locais, garantir a execução do plano de educação patrimonial. 1.6 A Gestão o Sujeito e o Território Frente aos desafios impostos pelos ambiente de mudanças das cidades, uma gestão contemporânea no campo da cultura tem o dever de estar atenta às movimentações dos governos e do mercado, a fim distinguir que políticas públicas representam um novo desenho de desenvolvimento, baseando-se em algumas perspectivas que diluam essa contradição. Já que as duas narrativas (mais investimentos à cultura e desenvolvimento) são sensos comuns gerados nos debates do setor nesses últimos doze anos, os projetos desenvolvidos nesses espaços devem apresentar soluções mediadoras a partir de um diálogo direto com os setores de fomento (públicos e privados), da elaboração de bons projetos e do acompanhamento das políticas públicas das secretarias de cultura nos governos. Além da percepção da dimensão da cultua é importante que haja uma visão empreendedora voltada para elaboração de projetos complementares afinados com as politicas que mudaram o pensamento sobre Cultura no país, tais como: Sistema Nacional de Cultura, Cultura Viva, premiações a setores alijados do processo distributivos como as “minorias”: negras, indígenas, populares fortalecendo a visão de diversidade. Estes são ótimos exemplos desenvolvimentistas aplicados ao território e no sujeito. Os projetos e as instituições culturais do campo popular devem estar inseridos num processo de desenvolvimento que passa pela potencialização do território e dos sujeitos incentivando e fomentando arranjos locais. Assim através desta ótica aumentaremos o lastro de participação social (desconcentração). E quando se fala de uma gestão cultural voltada para a os espaços populares é necessário forcar o tempo todo no comportamento coletivo, presente nas relações do cotidiano, sujeito às mudanças e às influencias das novas tendências. A visão crítica da Administração deve seguir em sintonia com a visão comunitária. Esta em momento algum poderá ser desprezada. O termômetro

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social oscila constantemente e indica o grau de satisfação ou insatisfação referente aos serviços prestados, o que em muitos casos será usado como divisor de águas no processo decisório. O conceitos que se relacionam com a Cidadania Cultural estão vinculados aos conceitos de patrimônio cultural, acesso à produção e à fruição cultural, igualdade de oportunidade, acesso às informações em todas as fases dos processos produtivos. A Gestão Transformadora, com foco na Educação Patrimonial, requer o conhecimento profundo dos limites entre o público e o privado e deve estar atenta tanto às questões de preservação das tradições, quanto aberta às novas experiências. Não se transforma uma realidade local de um momento para outro. É um processo longo, com avanços e recuos, que vai depender do grau de conscientização em cada fase do processo de transformação. Será preciso, além de tudo, lidar com as resistências à mudança, no seus patamares mais amplos, envolvendo aspectos sociais, antropológicos e culturais, dentro e fora do Território. Por fim, ela dever orientar que a descoberta dos potenciais talentos artísticos e intelectuais dentre os membros das comunidades deve ser tratada como um resultado esperado nesse caminho transformador, ou seja, quase uma premissa. 2. CONSIDERAÇÕES FINAIS As alterações decorrentes do crescimento urbano e suas movimentações transformadoras geram, muitas vezes, a distorção do carácter público do espaço urbano e passa a servir à exploração econômica e financeira, em detrimento da construção de locais de convivência coletiva e pública. Minhas observações se concentraram nas experiências exitosas que representam a retomada e manutenção de locais públicos como lugar de encontros, políticas, trocas, convívio e realização coletiva, que possibilitem o fortalecimento das ações culturais. A presente pesquisa tentou reunir ações e atores que trabalham para intensificar a dimensão empresarial nos espaços do samba e da cultura como um todo, através de uma gestão cultural contemporânea que age de forma cuidadosa e preocupada com a recuperação e/ou preservação dos traços culturais. No entanto temos que ter a noção de que tais iniciativas são ainda bastante reduzidas em relação ao grande universo das manifestações culturais em todo país. É comum encontrarmos nos espaços populares de cultura formas inadequadas e descontínuas de gestão cultural. As observações aqui realizadas foram amparadas por reflexões acadêmicas que envolvem campos diversos, tais quais antropologia, sociologia, história, arquitetura e urbanismo. Podemos concluir que as ações culturais ligadas ao samba conecta diretamente a manifestação de cultura e arte à dimensão social do território e sugere um grau de relação entre os agentes que atuam nos espaços, ao mesmo tempo de afetividade e responsabilidade. O conceito ampliado de patrimônio cultural consolidado na Constituição Federal de 1988, influenciado pelas convenções internacionais, consagra a noção de bens imateriais, com-

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preendidos pelas manifestações culturais e suas diversas formas de expressão; como componente do Patrimônio Cultural Brasileiro. Mais do que isso, nossa Constituição prevê a participação da comunidade na proteção do patrimônio cultural, principalmente através de dois novos instrumentos jurídicos: o inventário e o registro. Todavia, sabemos que a Constituição não é capaz de implementar sozinha uma política cultural democrática e inclusiva. Tal construção só será alcançada a partir de uma ruptura com as bases ideológicas que influenciam o pensamento conservador do Estado. O discurso dominante ainda é segregacionista e dicotômico. Separa cultura popular de cultura erudita, não valoriza a subjetividade, a dinamicidade e a espontaneidade do processo cultural de todo e qualquer grupo social. Trata processos e bens culturais como produtos e lida com a cultura como instrumento, ora eleitoral, ora para promoção midiática de suas ações; dentre outras posturas incompatíveis com a visão contemporânea de patrimônio cultural. Modelos de gestão como o observado no Centro Cultural Cartola - Museu do Samba podem ser difundidos como exemplos positivos de uma gestão cultural transformadora, que introduziu a busca constante por cidadania num espaço de samba. Espaço este que alcançou o status de museu com e consegue manter um excelente grau de convivência, lazer, formação, fruição artística e preservação. Que democratizou o conceito de Educação Patrimonial e, mesmo diante das dificuldades e problemas aqui expostos, nos apresenta caminhos e tecnologia para um tempo mais promissor para a gestão cultural voltada para os espaços populares. A experiência de Nilcemar, à frente do Centro Cultural Cartola, vem confirmar que a ruptura paradigmática, esperada no campo ideológico para a efetivação das políticas culturais mais democráticas, deve ser acompanhada por novos modelos de gestão cultural contemporânea, que além visar alcançar a sustentabilidade deverá saber bem dimensionar o seu papel social. Enfim, novos caminhos promissores começam a ser desenhados, pois, uma vez comprovada a sua eficiência, haverá a necessidade de um grande esforço por parte dos grupos sociais, políticos e acadêmicos para que esses novos formatos de gestão cultural sejam mais pesquisados, aperfeiçoados e propagados.

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