Foz do Iguaçu PR: UNIOESTE, 8 a 11 de dezembro de 2015, ISSN 2316-266X, n.4
A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
FERREIRA, Júlio César Valente Estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Memória Social – UNIRIO Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca – UnED Nova Iguaçu jcvferreira@hotmail.com
RESUMO O objetivo do artigo é pontuar a discussão dos processos de produção de hegemonias e estratégias de construção de relações de poder dentro do campo do carnaval carioca, tendo como foco a construção e a ocupação do lugar carnavalesco da folia carioca pelos blocos de rua. Para este debate, inicialmente serão promovidas considerações sobre os processos hegemônicos de representação identitária do carnaval carioca edificados a partir dos blocos de rua e da subalternização de outras manifestações carnavalescas que tem a rua como lugar, enquanto espaço socialmente construído. Posteriormente, serão estabelecidos os fluxos de subalternização estabelecidos pelos poderes públicos e pelas classes dominantes com relação aos blocos de rua, considerando que os mesmos, apesar de apresentarem um discurso de resistência ao carnaval hierarquizado das escolas de samba, também empreendem processos de negociações no intuito de legitimarem a ocupação das ruas da cidade no período carnavalesco.
Palavras-chave: Carnaval. Blocos de rua. Rio de Janeiro.
ABSTRACT The objective of this article is to show the discussion of hegemony production processes and power relations of production strategies within the Rio carnival field, focusing on the construction and occupation of the Rio carnival place of revelry by blocos de rua. For this debate, first considerations will be promoted on the hegemonic processes of identity representation of the Rio carnival built up from the blocos de rua and the subordination of other carnival events that have the street as a place, as an space socially constructed. Later, the subordination flows established by the government and the ruling classes in relation to blocos de rua will be established, considering that they, despite having a resistance speech to the hierarchical carnival samba schools also undertake process of negotiations in order to legitimize the occupation of the city streets in the carnival period..
Key-words: Carnival. Blocos de rua. Rio de Janeiro.
INTRODUÇÃO O carnaval na cidade do Rio de Janeiro não se resume aos desfiles das grandes escolas de samba. DaMatta (1997) já chamava a atenção para este fato ao constatar que muitos outros grupos (desde a época da primeira edição da publicação) compartilhavam o espaço
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carnavalesco. Nas duas últimas décadas, a cidade do Rio de Janeiro experimentou uma valorização de seu carnaval de rua, captada pelos estudos acadêmicos e pela mídia, sendo os blocos de rua responsabilizados por este agenciamento. Este artigo trabalhará a partir da premissa de estruturar o campo do carnaval carioca como mais um lugar de luta configurado socialmente onde se contesta ou se reproduz a hegemonia (BEVERLEY, 1999). Considerando as relações que estas agremiações carnavalescas possuem com os poderes públicos e entre elas, coaduna-se com a afirmação de Guha (1997) que identifica duas formas de subordinação. A primeira é baseada no quadro jurídico legal estabelecido pelo poder hegemônico e a segunda através dos significados simbólicos. No exercício de dominação, não se consome e nem se destrói as classes subalternas. Afinal, sem estas não haveria relação de poder e dominação. Este interstício favorece a construção de identidade dos subalternos e, consequentemente, possibilidade de resistência. Com isto, haverá sempre uma relação entre dominação e resistência. Esta pesquisa foi conduzida através da pesquisa bibliográfica sobre a atual produção acadêmica referente aos blocos de rua que desfilam no carnaval carioca comparada com os resultados oriundos da pesquisa de campo realizada desde 2011 sobre as manifestações carnavalescas de rua que ocorrem na cidade do Rio de Janeiro, no intuito de se verificarem os processos empreendidos de construção e ocupação hegemônica do lugar carnavalesco pelos blocos de rua, silenciando desta forma outros grupos que ocupam e disputam o mesmo espaço.
1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Ferreira (2005) sinaliza que no carnaval não se discutem as construções narrativas, sendo o mesmo debatido através de uma abordagem naturalizada, que não compreende os objetos como produtos de discursos, de narrativas. Para o autor, o carnaval é uma disputa por conceitos, sobre o que é e o que não é carnaval, e também compreende uma disputa pelo espaço. A premissa assumida nesta pesquisa é a de estruturar o campo do carnaval carioca como mais um lugar de luta configurado socialmente onde se contesta ou reproduz a hegemonia. Com isto, entende-se não ser suficiente margear este debate em torno das dualidades carnaval do povo / carnaval da elite, local / universal, tradição / modernidade e dispersão / concentração dos locais de desfile propostas por DaMatta (1997) para o estudo do carnaval.
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1.1. Subalternidade Guha (1997) ao estabelecer uma definição do subalterno, não estipula condições de contorno fechadas, considerando toda e qualquer forma de subordinação por conta da classe, gênero, idade ou outra qualquer, caracterizando-o como o ser a quem é negado algo e sem poder de auto representação, fora do poder da estrutura hegemônica. Com isto, o campo do carnaval pode ser configurado como possuidor de múltiplos fluxos de subalternização, pois ocorrem processos entre um tipo de agremiação carnavalesca e os poderes públicos e entre os tipos de agremiações. Spivak (2014) entende o termo subalterno representativo dos que não conseguem lugar no contexto capitalista globalizante e sem direito de voz. Seguindo este viés de análise, a autora identifica que a condição de subalternidade é a condição do silêncio e que o subalterno carece necessariamente de um representante. A questão que a autora coloca e que se ombreia com a posição assumida por Bourdieu (2004) é referente às possibilidades de subjetivação autônoma do subalterno para que esta representação não sofra uma operação de tradução através do discurso hegemônico internalizado por quem pretende praticar qualquer ato de resistência em nome do subalterno. Por outro lado, Spivak (2014) alerta que este mesmo agente pode atuar contra a subalternidade, potencializando espaços em que a fala do subalterno possa ser promovida e ouvida.
1.2. Lugar carnavalesco O processo de produção da diferença se dá em um espaço contínuo, conectado e atravessado por relações econômicas e políticas de desigualdade. E o próprio lugar (como espaço socialmente construído) não é apenas experimentado através de forças políticas e econômicas, mas também produz ou auxilia esta produção da diferença, alimentando estas forças. Com isto, as certezas e fixações culturais ficam perturbadas, rompendo a ilusão de uma ligação essencial entre lugar e cultura. A produção de lugares carnavalescos revela a festa como um processo de disputas multiplamente presente na série de relações que conectam os atores inseridos nestes espaços em instâncias e escalas diferentes (FERREIRA, 2005). Além disso, o autor destaca que há também as relações com os diversos objetos que compõem a festa e influenciam o evento como um todo.
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1.3. Blocos de rua e outros blocos ‘Os blocos são a explosão mais espontânea do carnaval carioca. Em geral um bloco nasce da decisão de vizinhos da mesma rua e do mesmo bairro.’ (COSTA, 2001: 175). Os blocos podem apresentar uma estrutura mais fechada ou formas mais livres. A importância deste tipo de manifestação carnavalesca é destacada por autores, como Valença (1996), por exemplo, que atestam a existência de centenas de agremiações deste tipo desfilando no carnaval carioca, ressaltando o fato de que os mesmos podem estar inscritos ou não em entidades representativas, registradas nos órgãos públicos ou não. Em linhas gerais, apresentam-se três denominações usualmente adotadas quando se abordam os blocos que desfilam na cidade do Rio de Janeiro. Os blocos de rua desfilam no formato de procissão1, sem o uso de fantasia obrigatória e sem necessariamente estarem filiados a ligas, associações ou federações de qualquer natureza. Os blocos de embalo (também conhecidos como blocos de empolgação) desfilam no formato de parada, sem alegorias ou enredo, mas com todas as fantasias iguais (atualmente, de forma geral, reduzida a uma camisa padronizada) e com o mesmo tipo de estatuto de filiação verificado nos blocos de rua. Os blocos de enredo possuem estrutura competitiva, estética visual e musical semelhante às escolas de samba, portanto desfilando no formato de parada 2 , sendo todas as agremiações deste tipo originadas e organizadas na Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FBCERJ), fundada em 1965. Pelo fato de existirem semelhanças visuais e musicais entre os blocos de enredo e as escolas de samba e da origem de muitas escolas de samba ter sido um ou mais blocos de enredo, tende-se a identificar os blocos de enredo como escola de samba de proporções reduzidas. Diversos autores centram esta similaridade com as escolas de samba para caracterizar este tipo de manifestação carnavalesca. ‘Os blocos de enredo eram escolas de samba em escala reduzida, que desfilavam e competiam.’ (COSTA, 2001: 177). ‘Embora funcionando como uma sub-escola de samba, o bloco de enredo mantém diferenças fundamentais com a escola de samba, pela presença do estandarte e a ausência de carros alegóricos.’ (FERNANDES, 1986: 24; grifo meu). ‘Nas noites de sexta e sábado desfilam na Intendente Magalhães os blocos de 1
Baseado em DaMatta (1997), o desfile em formato de procissão prevê o cortejo de pessoas passando percorrendo diversas ruas e avenidas orientado pelo caminho traçado e executado por um núcleo central, o qual neste caso é representado pelos intérpretes e músicos e sistemas móveis de amplificação do som gerado por estes. 2 Baseado em DaMatta (1997), o desfile em formato de parada prevê a preparação de um avenida ou rua para o ritual e nela se destacam locais por onde devem passar os desfilantes, onde deve ficar a plateia e o local destinado às autoridades e comissão julgadora. A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FERREIRA, Júlio César Valente
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enredo dos grupos de acesso. São grupos pequenos, protótipos de escolas de samba (...).’ (FERREIRA, 2008: 98; grifo meu). ‘Os blocos de enredo podem ser definidos como “mini-escolas de samba”, uma vez que além das fantasias são confeccionadas também algumas alegorias.’ (SANTOS, 2012: 21; grifo meu).
2. RESULTADOS ALCANÇADOS Na última década, a cidade do Rio de Janeiro experimentou uma valorização do carnaval de rua por parte de estudos acadêmicos e da mídia. Os trabalhos de Barros (2013), Herschmann (2013), Leopoldi (2010), Pimentel (2002) e Sapia e Estevão (2012) ao falarem dos blocos de rua nas últimas três décadas o fazem através de um discurso de renascimento, retomada e reestruturação; diferentemente de Andrade (2012), que opta pelo discurso de expansão.
2.1. A expansão dos blocos de rua no carnaval de rua do Rio de Janeiro Este artigo alinha-se à última tese e concorda que o fenômeno atual sobre os blocos de rua, sem querer negar sua importância no contexto carnavalesco da cidade, deve ser tratado como um fenômeno de expansão, pois o carnaval de rua na cidade do Rio de Janeiro nunca deixou de existir. Aliás, cabe notar que o discurso do esvaziamento das ruas não é uma novidade trazida pelo movimento em questão. Ao tecer comentários sobre a carta enviada pela UES ao prefeito da cidade, Silva (2007) constata que: Também é corrente, nos anos 1970, a palavra de ordem que protesta contra o sumiço do folião das ruas da cidade, baseada, normalmente, no crescimento das Escolas de Samba e na hegemonia do desfile como um dos únicos eventos carnavalescos. Cumpre notar, pois, que no documento em questão as próprias Escolas propõem-se, em face do governo do Distrito Federal, a contribuir, ainda em 1935, para a solvência de problema análogo, fazendo ressurgir o carnaval de rua.(SILVA, 2007, p. 17)
Leopoldi (2010) constrói seu discurso sobre os blocos de rua identificando nos mesmos o renascimento da carnavalização em detrimento das escolas de samba, consideradas manifestações carnavalescas domesticadas. Desta forma, o autor entende que as normas da “vida oficial” são extremamente flexibilizadas nos desfiles dos blocos de rua, ‘a ponto de propiciar aos foliões o sentimento de ausência de regras, de igualdade ideal e de alegria desmesurada’ (LEOPOLDI, 2010, p. 42). Com isso, o autor identifica os blocos de rua como subalternos rebeldes no carnaval normatizado do Rio de Janeiro, pois as escolas de samba A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FERREIRA, Júlio César Valente
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têm-se ‘(...) enquadrado nesse processo de domesticação da vida não oficial uma vez que não parecem mais instigar nos participantes da festividade carnavalesca e nos que a ele assistem comportamentos que enfatizam a rebelião contra a ordem estabelecida, como acontecia antes.’ (LEOPOLDI, 2010, p. 33). Essa essencialização do subalterno é estabelecida, por exemplo, por Moreiras (2001), o qual declara que os subalternos recusam a disciplina e o controle; resistência entendida como recusa às formas de representação pelo poder hegemônico. O autor afirma que ‘a recusa absoluta de se render à interpelação hegemônica chega até os próprios limites da representação e é, de fato, também uma recusa de representação.’ (MOREIRAS, 2001, p. 152). Desta forma, para o autor, fora da resistência, da negação subalterna, não há subjetividade. Esta pseudo-renascimento baseia-se prioritariamente na apropriação do carnaval de rua pelos segmentos médios da zona sul da cidade (região concentradora dos bairros com maiores índices de desenvolvimento humano municipal). ‘Há algumas evidências de que este ativismo musical que vem tomando as ruas do Rio na última década é um fenômeno de classe média e que está concentrado na Zona Sul’ (HERSCHMANN, 2013). Os trabalhos de Barros (2013), Herschmann (2013), Leopoldi (2010) e Sapia e Estevão (2012) apontam as décadas de 1970 e 1980 como marcantes no esvaziamento do carnaval de rua. Primeiramente, os autores associam o carnaval do Rio de Janeiro diretamente e exclusivamente às escolas de samba, contrariando o que já foi exposto anteriormente neste artigo e também com a constatação descrita por DaMatta (1997) e já citada neste trabalho. Em segundo lugar, os autores ignoram os blocos organizados na FBCERJ, os quais nas décadas citadas apresentavam-se em diversos locais da cidade; somando-se a estes os blocos de rua que sempre existiram, principalmente nas zonas suburbanas da cidade. Em entrevista ao Jornal do Brasil em 04 de março de 2011, e transcrita em parte por Andrade (2012), o professor e pesquisador Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, corrobora a última afirmação do parágrafo anterior ao declarar que: Os blocos, na verdade, nunca deixaram de existir. Eles estavam é meio fora do foco da mídia. Em Madureira e outros bairros da zona norte, sempre foram fortes. O que houve é que com esse esgotamento das escolas de samba o número deles cresceu muito na zona sul e no centro, onde tudo o que acontece tem mais repercussão na mídia. (ANDRADE, 2012, p. 44)
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Partindo das constatações descritas no início desta sessão do artigo, pretende-se a seguir apontar elementos que permitam o entendimento da constituição deste discurso e sua importância no estabelecimento dos blocos de rua como manifestação carnavalesca de rua hegemônica no Rio de Janeiro. Barros (2013), Herschmann (2013), Leopoldi (2010) e Sapia e Estevão (2012) identificam nas décadas de 1960 e 1970 um projeto de modernização autoritária, fruto do regime militar, o qual esvaziou as ruas como efeito das limitações de liberdade de expressão. Sapia e Estevão (2012) se estendem nesta questão e alegam que este denominado movimento de renascimento do carnaval de rua é construído por atores sociais oriundos dos movimentos de resistência ao regime militar e que buscou ocupar o espaço público, até então interditado, movidos por ideais de uma sociedade constituída de cidadãos que buscam rasurar o discurso hegemônico ao se estabelecerem como autônomos e portadores de direitos e obrigações. Herschmann (2013) pontua que esta denominada retomada do carnaval de rua, capitaneada por atores sociais da classe média, se estabelece em um ritmo de crescimento exponencial dos blocos de rua a partir da primeira década do século 21, ocorrendo uma expansão temporal, com desfiles ocorrendo desde o mês de janeiro até uma semana após o carnaval, e espacial, principalmente nas ruas da região central da cidade e da zona sul.
2.2. Os blocos de rua e as relações com os poderes públicos: fluxos de subalternização Andrade (2012) afirma que os poderes públicos tem procurado apoiar e normatizar o carnaval dos blocos de rua no intuito de explorá-los como atração turística como forma de maximizar as possibilidades de ganho financeiro na cidade. Em relação aos blocos de enredo, os blocos de rua são mais atrativos para os poderes públicos por três motivos: (i)
Os blocos de rua desfilam não somente durante o carnaval, mas antes e depois da data do mesmo, permitindo constituir uma agenda de eventos destas agremiações ao longo de boa parte do verão, época do ano em que a cidade recebe maior contingente de turistas.
(ii)
Os poderes públicos (mais especificamente a Riotur, empresa de capital misto da cidade do Rio de Janeiro e responsável pela organização do turismo na cidade) coordenam a realização do carnaval de rua, mas não possuem participação direta na elaboração dos desfiles dos blocos de rua. A infraestrutura disponibilizada é
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de responsabilidade de empresas privadas que participam de parcerias público-privadas sem ônus para os poderes públicos. (iii)
Como fenômeno inicialmente circunscrito aos bairros da região central e da zona sul da cidade, onde reside sua maior força, os desfiles dos blocos de rua são inseridos e potencializados na agenda de eventos da cidade, pois são nestas regiões que os turistas se hospedam preferencialmente.
Com isso, por mais que se identifique um contexto de rebeldia nos blocos de rua, os mesmos hoje também estão submetidos a processos de controle por parte dos poderes públicos de modo a maximizar as possibilidades de lucro (ANDRADE, 2012). Com relação ao quadro jurídico legal, trabalhos como o de Sapia e Estevão (2012) afirmam que os blocos de rua possuem o caráter de subalternos rebeldes no carnaval normatizado das escolas de samba com os poderes públicos e a indústria do turismo do Rio de Janeiro. Entretanto, Andrade (2012) atesta que os poderes públicos tem procurado apoiar e normatizar o carnaval dos blocos de rua no intuito de explorá-los como atração turística. Além disso, por mais que se identifique um contexto de rebeldia nos blocos de rua, os mesmos negociam com os poderes públicos as autorizações para os desfiles e a disponibilidade de serviços públicos nos locais em questão. Desta forma, os blocos de rua também estão submetidos a processos de controle por parte dos poderes públicos, os quais os utilizam atualmente como uma das principais atrações do carnaval da cidade do Rio de Janeiro.
2.3. Os blocos de rua e os blocos de enredo: fluxos de subalternização A partir da tipologia empregada por Guha (1997), entende-se que entre estas manifestações carnavalescas empreendem-se formas de subordinação a partir dos significados simbólicos. Conforme Pollak (1989), desta forma aponta-se para a existência de clivagens entre as chamadas memórias oficiais e subterrâneas. Também, a partir desta ótica, entende-se o silêncio dos blocos de enredo não a partir da perspectiva do esquecimento, mas de uma resistência ao excesso de discursos oficiais (resistência cultural, autenticidade, memória e identidade), principalmente sobre os blocos de rua (POLLAK, 1989). Apesar de disputarem o mesmo espaço geográfico, os blocos de enredo e os blocos de rua possuem uma característica básica de distinção. Enquanto o primeiro se desenvolve a partir de um modelo de parada, o segundo se faz a partir de um modelo de cortejo ou procissão. Com isto, a forma de ocupação do espaço geográfico é diferente. Os blocos de enredo demandam A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FERREIRA, Júlio César Valente
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estrutura de pista de desfile da mesma forma que as escolas de samba e os blocos de rua levam o público a juntos percorrerem um determinado conjunto de logradouros públicos. Desta forma, a subalternização atual promovida pelos blocos de rua em relação aos blocos de enredo está na construção de um discurso que os legitime como manifestação hegemônica do carnaval de rua da cidade. Diferentemente do processo verificado com as escolas de samba, com os blocos de rua o conflito está inscrito totalmente na dimensão simbólica a partir de uma construção sem alteridade, como se simplesmente os blocos de enredo não existissem. Este processo também possui uma característica de reforço da segregação espacial da cidade do Rio de Janeiro, visto que os blocos de rua possuem seu maior número de grupos nas regiões habitadas pelas classes dominantes e frequentada pelos turistas, ao contrário dos blocos de enredo, que sempre se caracterizaram por pulverizar os locais de celebrações carnavalescas pelo subúrbio da cidade (RIOTUR, 1991). Barros (2013) caracteriza os blocos de rua a partir de três vetores: resistência cultural, autenticidade e de memória e identidade. Mais uma vez, opera-se aqui o discurso hegemônico através da não inclusão da fala do subalterno. Por resistência cultural, a autora entende uma preocupação com a preservação de valores que estariam ameaçados. A oposição aqui é feita com relação ao desfile das escolas de samba (esquecendo-se totalmente dos blocos de enredo ou considerando que seria o mesmo tipo de manifestação carnavalesca), encaradas como evento midiático e opositor do carnaval espontâneo e informal promovido pelos blocos de rua. Por autenticidade, a autora considera que a entidade organizadora dos blocos das zonas sul e central da cidade representa um ‘(...) agente de resgate e revitalização da tradição do carnaval de rua (...)’ (BARROS, 2013, p. 27). O problema mais uma vez está na negação (através da invisibilização) das demais manifestações carnavalescas como agentes de tal ordem. Infelizmente, por razões de espaço, não será possível um debate mais pormenorizado sobre esta questão. Porém, interessante notar que em depoimento de Paulo da Portela ao jornal Diário Carioca em 22 de março de 1933, e transcrito por Valença (1996), o célebre sambista afirma que ‘o samba não está em decadência. O que há é evolução e inovação de estilo’ (VALENÇA, 1996, p. 59). Por memória e identidade, a autora significa este vetor como a necessidade de resistir à retórica da perda, coadunando-se ao referencial posto por Nora (1993). Desta forma, a autora A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FERREIRA, Júlio César Valente
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identifica nos atuais blocos de rua um discurso de continuidade com tradições do carnaval abandonadas pelas escolas de samba e blocos de enredo, considerando os blocos de rua como lugares de memória, conforme explicitado por Nora (1993). Outra oposição que a autora posiciona neste vetor é a identificação de dois projetos de brasilidade: o primeiro, associado com o projeto nacional modernizador da ditadura militar, encontrado nas escolas de samba e blocos de enredo, e o segundo, ligado à fase da abertura política, identificada em parte com os blocos de rua dos segmentos médios das zonas sul e central da cidade. Por último, destaca-se o fato da autora não configurar o conflito em que se situa a disputa pela memória e pela identidade (POLLAK, 1992), entendendo que, no caso em questão, isto naturalmente é associado aos blocos de rua. Somando-se a estas questões, particularizando-as mais para o caso dos blocos de enredo, aponta-se para a associação que pode ser feita entre a oposição dos vetores característicos dos blocos de rua e outras manifestações carnavalescas que ocupam as ruas. Com isso, os blocos de enredo são subalternizados pelo silêncio e por uma representação não oriunda de qualquer fala. Aqui cabe destacar o raciocínio de Spivak (2014) ao afirmar que o subalterno não pode falar, a qual coloca esta proposição no sentido de que a fala do mesmo não é reconhecida e não possui sentido dentro do discurso hegemônico. Para a reversão deste quadro, a autora pontua a necessidade de se alterarem as relações de poder e saber que formam este sujeito subalternizado. Esta ação se estabelece não falando pelo subalterno, mas criando possibilidades para que os mesmos se articulem e sejam ouvidos.
CONCLUSÕES Para o estabelecimento eficaz de um projeto hegemônico, as classes dominantes procuram estabelecer um sentido de cumplicidade, conforme explicita Martín-Barbero (2008), com as classes subalternas partilhando significados que permitem a identificação entre estas. Ao promoverem o reconhecimento destas manifestações carnavalescas e inseri-las no programa turístico na cidade, os poderes públicos estabelecem um discurso de igualdade, de corresponsabilidade pelo sucesso do turismo na cidade e de uma visão positiva da mesma no mundo através do carnaval, “o maior espetáculo do planeta”. García Canclini (2013) afirma que a conformação e articulação entre as culturas latino-americanas como processos híbridos não são questões da atualidade, pois já se impunham desde a época colonial. Com isso, a partir desta perspectiva, pode-se resignificar, A CONSTRUÇÃO E OCUPAÇÃO DO LUGAR CARNAVALESCO PELOS BLOCOS DE RUA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO FERREIRA, Júlio César Valente
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por exemplo, as escolas de samba, blocos de rua e blocos de enredo não em termos de resistência, pois, segundo o autor, o popular não resistiria aos processos de hibridização. García Canclini (2013) alerta que esta proposta não elimina os conflitos de classe, mas permite o entendimento de conjunções do tipo global/local e culto/popular, na perspectiva de se visualizar os processos culturais não mais a partir dos princípios de invasões e resistências culturais. Hall (1997) posiciona que a construção sobre o popular se dá através das condições sociais e materiais de determinadas classes que têm sido incorporadas a tradições e práticas populares. A questão cultural aparece como um campo em constante movimento onde se articulam relações de dominação e subordinação lutando na cultura e pela cultura. A partir destes pontos, questionam-se as generalizações que acabam construindo estas mesmas classes como objetos exóticos, passando também pelo que Oliveira (2013) cita de constituição do “subalterno de estimação”. Através da comparação da produção acadêmica sobre o carnaval de rua da cidade do Rio de Janeiro com os resultados da pesquisa de campo, chega-se à conclusão de que outros grupos carnavalescos disputam a rua durante o carnaval, possuindo cada um destes princípios reguladores de ocupação e significação, resultando em lutas pela legitimação de constituição de distintos lugares carnavalescos em um mesmo espaço. Desta forma, questiona-se o discurso que atesta a hegemonia dos blocos de rua como únicos enunciadores da rua como lugar carnavalesco na cidade do Rio de Janeiro e seu caráter de subalternos rebeldes no carnaval carioca, quando os mesmos também empreendem processos de negociação e concessão com os poderes públicos.
REFERÊNCIAS ANDRADE, Marcelo Rubião de. (2012) Música, espaço público e ordem social no carnaval de rua do Rio de Janeiro: um estudo etnomusicológico (2009-2011). Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Música (Musicologia)) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. BARROS, Maria Teresa Guilhon Macieira de. (2013) Blocos: vozes e percursos da reestruturação do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais) – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro. BEVERLEY, John. (1999) Subalternity and representation: arguments in cultural theory. Durham: Duke University Press.
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