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“Saídas de Turma”: dinâmicas e performances de Bate-Bolas no carnaval do subúrbio carioca

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“SAÍDAS DE TURMA”: DINÂMICAS E PERFORMANCES DE BATE-BOLAS NO CARNAVAL DO SUBÚRBIO CARIOCA Marcos Vinícius Pinheiro da Silva 1 Fernanda Delvalhas Piccolo 2 Resumo: No Rio de Janeiro, a manifestação dos bate-bolas é muito recorrente no subúrbio. Além das máscaras, fantasias e temas anuais, os bate-bolas têm, como constituição de sua identidade, as brincadeiras. Entre elas estão as saídas de turma, momento em que as turmas, como são denominados os grupos de bate-bolas, aparecem pela primeira vez ao público usando a sua nova fantasia anual, sendo esse momento o auge para essas comunidades. Embalados ao som do funk, rap, samba e com um público ansioso para a sua aparição, os indivíduos que performam bate-bolas ganham na coletividade e na vestimenta utilizada uma nova personagem, elemento importante na construção da performance desses brincantes. Esses festejos carregam importância não só para os próprios foliões, mas elementos que complementam a festa como o público, os comerciantes do entorno e as equipes de som contratadas, movimentando e fazendo parte do calendário local. Com base na observação in loco desse evento, feito pela Turma do Complexo de Realengo, em Realengo, bairro do Rio de Janeiro em 2018, e de uma análise audiovisual da mesma turma, porém da edição 2016 da festa, este artigo busca, a partir do olhar multidisciplinar da produção cultural, mas especialmente a partir da antropologia, refletir sobre como uma manifestação da cultura popular mobiliza partes diferentes em um interesse comum e como se desenrolam as dinâmicas desses bate bolas no seu principal festejo, o carnaval, e quais são os estilos de performance dos indivíduos nessa coletividade. Palavras-chave: bate-bolas, saídas de turma, carnaval, performance, produção cultural Introdução O presente artigo abordará as denominadas “saídas de turma”, festas feitas pelos grupos de bate-bolas, nas zonas Oeste e Norte do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense no período de carnaval, para dar início ao calendário da turma e na sua trajetória pelos festejos de rua da cidade. Para tal partimos de um grupo específico da Zona Oeste carioca, o “Complexo de Realengo”, para então pensarmos, sob uma perspectiva antropológica, as performances feitas por esses grupos nesses eventos e salientar a interferência desses festejos na comunidade e no comércio do entorno, ressaltando a efervescência causada por esses acontecimentos no cotidiano de sua localidade. Para tal pesquisa, foi utilizada uma metodologia qualitativa, desenvolvida por meio da observação direta in loco de uma saída de turma do grupo selecionado, com o objetivo de 1

Graduando do Bacharelado em Produção Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). marcospinheiro04@hotmail.com 2 Doutora em Antropologia Social e Professora do Bacharelado em Produção Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). fernanda.piccolo@ifrj.edu.br


coletar informações do entorno da festa, tais como falas de moradores e o movimento do comércio, em Fevereiro de 2018 no período de carnaval, e também por meio da análise audiovisual de um vídeo disponibilizado por “willfox12” em 6 de Fevereiro de 2016 no YouTube de uma saída da mesma turma de bate-bolas, porém da edição 2016, para uma análise da performance de exibição dos bate-bolas ao público e os elementos extra grupo que compõem tal festividade. O tema dos bate-bolas vem sendo objeto de estudo de diversas áreas do conhecimento, como nas artes (PEREIRA; FERREIRA, 2009; PEREIRA, 2008, 2009; LOPES, 2013), que aborda as dinâmicas e a estética das turmas de bate-bolas, No turismo (SOUZA, 2003), quando se pontua essa manifestação como patrimônio a ser preservado e da antropologia (BARBOSA, 2014) que aborda os rituais e a simbologia dessas práticas culturais. Aqui, nesse artigo, buscamos compreender como se organizam essas festas e como elas movimentam uma série de aspectos, tanto sociais quanto comerciais. No âmbito da Produção Cultural, esses eventos são espaços importantes de compreensão da metamorfose dessa manifestação como cultura popular, como diz Arantes (1990) quando fala que “cultura é um processo dinâmico; transformações (positivas) ocorrem, mesmo quando intencionalmente se visa congelar o tradicional para impedir a sua “deterioração”” (ARANTES, 1990, p.21). As constantes aglutinações de novas tendências feitas pelos grupos de bate-bolas, como afirma Barbosa (2014) quando diz que “os brincantes fazem parte de um objeto complexo, mutável, que lida com adesões e recusas simbólicas” (BARBOSA, 2014, p.5) é uma porta de entrada para o produtor cultural explorar esse universo, tão rico e por muitos, ainda desconhecido, mesmo se tratando de parte do Carnaval, acontecimento mundialmente conhecido.

1. Bate-Bolas e suas constituições Inicialmente e sob o intuito de contextualização, os bate-bolas segundo Pereira (2009, p.116) são fantasiados tradicionais nos carnavais populares do Estado do Rio de Janeiro. Também podem ser chamados de Clóvis, “que seria o abrasileiramento da palavra “clown”, palhaço em inglês” (COSTA, 2000, p.42), já que suas vestes lembram a do personagem europeu. Conhecidos assim por assustar os caminhantes nas ruas pelo barulho de suas bexigas de ar ao chocar-se com o chão (PEREIRA, 2008, p.10). Suas fantasias na contemporaneidade podem seguir diferentes estilos, mas basicamente os quesitos em comum para “montar” o bate-bola atual são o macacão, que existe em diversos modelos, uma sobreveste, como capa


ou bolero e uma máscara, podendo ser de formas variadas (PEREIRA, 2009, p.118), essa última atualmente não sendo um requisito unânime em todas as turmas de brincantes. As fantasias de bate-bola são anualmente modificadas, tendo uma motivação diferente entre os carnavais atuais e os passados. Ao carnaval antigo, Costa (2000) atribui a atualização ao seguinte motivo que ele cita: A fantasia dos clóvis parece a mesma sempre, mas não é, o colorido e a padronagem dos macacões são surpreendentes. E a cada ano, segundo pesquisa de Hiram Araújo, eles têm que usar roupas diferentes para não serem identificados. (COSTA, 2000, p.42)

Já ao carnaval contemporâneo, Pereira (2009) elucida sob outra ótica:

Ocorre que as fantasias do carnaval anterior são descartadas e assim, a cada carnaval, as turmas apresentam trajes novos, atualizados conforme a escolha de um tema. O tema é o assunto que orienta a definição estética das fantasias, servindo de base para a escolha das cores e dos tecidos, a definição de estampas e das ilustrações das peças de roupa e a escolha dos tipos de complementos livres a serem produzidos, por exemplo. (PEREIRA, 2009, p. 121)

Nesta comparação de afirmações, vemos que de acordo com o passar dos anos, o estigma de violência do bate-bola, constituído até mesmo na construção do nome, por assustar pessoas, vai se desfazendo. A preocupação com a troca de figurinos por conta de uma possível ocultação da identidade dá lugar à um cuidado estético e artístico, para seguir uma linha de coerência dos temas abordados, mantendo-se a tradição das renovações de roupa, mas engajados por forças diferentes. Os Clóvis são representantes de uma parte do carnaval popular carioca, encontrados hoje nos festejos das Zonas Norte, Oeste e Baixada Fluminense. Segundo Lopes (2013, p. 1) “O ato de se fantasiar no Carnaval , mais do que um ritual de excessos é também um meio no qual os grupos se reúnem e se identificam socialmente” ou seja, eles também têm nos grupos a sua formação identitária e esses são chamados de “turmas de bate-bolas”. Nessa característica grupal, as atuais turmas de bate-bolas presentes do carnaval carioca são constituídas não somente de indivíduos que moram no mesmo bairro, torcem para um mesmo time de futebol ou integram a mesma turma de amigos,mas também por foliões que não têm qualquer vínculo além do pertencimento ao mesmo grupo de fantasiados. Seus membros são, predominantemente,indivíduos do sexo masculino, com idades entre 25 e 40 anos. (PEREIRA; FERREIRA, 2009, p.46)


Como grupos de brincantes do carnaval carioca, os bate-bolas têm como na espinha dorsal de constituição de identidade as suas brincadeiras que “não consta simplesmente da produção e do ato de vestir uma fantasia específica durante o carnaval, mas baseia-se em certas formas de exibição” (PEREIRA; FERREIRA, 2009, p.58). Brincadeiras essas que “através dos anos, carnaval a carnaval ainda resiste e insiste em se manter viva passando através das gerações a maneira divertida de se brincar o carnaval” (SOUZA 2003, p.5). Dentre essas formas de exibição faladas acima, estão as participações em concursos de fantasias, os passeios pelas festas de carnaval próximas e as “saídas de turma”, onde ocorre a primeira apresentação da turma de bate-bolas para o público.

2. Saídas de turma e o auge do bate-bola Para dissertar sobre esse evento, foi feita uma inserção in loco do autor em uma festa de saída de turma, no qual foram coletadas diversas informações como a movimentação e o ganho do comércio do entorno, as opiniões de vizinhos em conversas paralelas, a formação de público, a logística para a realização de tal feito, entre outros. Acompanhada dessa ida ao local, foi feita uma análise audiovisual de um material do mesmo grupo no YouTube, de um dos vídeos gravados durante a aparição da turma no espaço, para dissecar o comportamento da turma, os elementos externos, algumas individualidades que destoam no espaço, dentre outros. Dentro desse conjunto de brincadeiras citadas no subtítulo anterior, as saídas de turma têm uma especial atenção e cuidado dos bate-bolas, porque “representam o auge do momento carnavalesco, pois é quando o resultado do trabalho árduo e minucioso de idealização e produção das fantasias é, finalmente, exibido” (PEREIRA, 2009, p.120). É o momento de triunfo para os indivíduos do grupo, quando esses, de forma coletiva, ganham a total atenção da comunidade que se localizam. E pensando nas individualidades fruindo de um mesmo ideal coletivo, podemos caracterizar as turmas de bate-bolas nessa primeira ocasião pública agindo no coletivo, e também na sua globalidade, com o termo “comunidade de sentido”, discriminado desta forma por Janotti Júnior (2005, p.5): O primeiro critério considerado para a constituição de uma Comunidade de Sentidos é o compartilhamento de determinados valores, gostos e afetos que ressaltam o ‘ideal comunitário’[...]Os territórios das Comunidades de Sentido seriam, antes de tudo, territórios simbólicos que possibilitam a manifestação de sentidos[...]Dessa forma, se não se partilha o território físico, continua-se a


partilhar imagens, vestuários, posicionamentos corporais, valorações presentes nos objetos culturais que fundam esses territórios simbólicos, possibilitando, aos membros das comunidades, reconhecerem-se dentro desse território..

Assim, podemos entender que as individualidades dos participantes das turmas de bate-bolas quando em grupo se fundem, formando uma identidade comunitária, tendo um interesse comum e isso se torna bastante visível nos festejos de saídas de turma. O interesse comum nesse momento é o de apresentar o fruto do planejamento de um ano, como falado por Mariana, uma bate-bolete (vertente feminina dos bate-bolas) que faz parte da turma, quando foi perguntada por uma espectadora, possivelmente amiga dela qual era a sensação e a mesma respondeu “ sentimento de missão cumprida”. Na observação feita, notava-se que ela e todos os outros componentes estavam tomados de uma euforia que mostrava ser fruto do alívio por tudo estar acontecendo da forma planejada. Assim como Janotti Júnior cita, no vídeo analisado se tem uma clara visão sobre esse reconhecimento dentro do espaço. Os vestuários iguais, a forma de andar que não é convencional, mas performática, com as batidas de bolas no chão, a dança que seguia o ritmo da música, sacudindo seus largos ombros de pano, gingando, as falas soltas durante a apresentação, como visto no vídeo onde é recorrente a expressão “é, porra!!” de euforia vinda de vários integrantes, tudo isso os destacam do resto dos indivíduos, fazendo ainda mais coerência classificá-los como uma “comunidade de sentido”. As festas de saída de turma do Complexo de Realengo, grupo pesquisado para a fundamentação deste artigo, são avisadas com antecedência ao público, dada a sua proporção e a quantidade de processos e elementos envolvidos para a realização da mesma, estes analisados no momento da observação como a grande quantidade de comerciantes no entorno da festa, o expressivo público e uma quantidade relevante de curiosos, e no vídeo como a ostentosa equipe de som chamada para embalar o evento e a faixa produzida com o nome da turma. Estas festas, como pontuam Pereira e Ferreira (2009, p.60) “pode requerer diferentes níveis de preparação antecipada, mostrando variados graus complexidade”, sendo especificamente desse grupo bastante elaborada, tendo outros grupos que não se utilizam de tantos elementos. De acordo com Pereira, “as informações sobre o local e o horário da saída de turma costumam ser transmitidos para a comunidade por meio de comunicação oral” (PEREIRA, 2009, p.120), mas na situação da turma pesquisada, o convite foi feito através das redes


sociais, com uma divulgação de uma arte contendo as informações via Facebook para a comunidade geral e WhatsApp para os mais interessados e que conheciam os integrantes. Anteriormente à saída da turma de bate-bolas, momento específico com hora marcada em que há a primeira aparição, a festa já começa com música, que de acordo com a observação feita do grupo selecionado, é tocado o funk com maior freqüência. Dada a finalização de todos os trâmites necessários, como a chegada do público, o tocar da música, a abertura dos bares e chegada dos comerciantes, é só esperado o momento para “abrir os portões e liberar a passagem dos fantasiados” (PEREIRA; FERREIRA, 2009, p.60). Quando isso se finaliza, o que pode durar alguns minutos, os bate-bolas vão em direção a outros carnavais de coreto da região (PEREIRA, 2008, p.97).

3. Elementos complementares e performance: o espetáculo na saída de turma Adentraremos neste artigo um pouco mais a fundo nas análises realizadas e nos elementos presentes que somam para a realização de tal evento e deixaremos de lado neste momento a contextualização, feita acima para melhor entendimento do assunto. Existem muitos fatores externos que contribuem para as saídas de turma de bate-bolas no geral, mas usarei como exemplo a saída da “Turma do Complexo de Realengo”, para demonstrar tais elementos. De acordo com Pereira e Ferreira (2009, p.60), As saídas de turma podem ser aguardadas com ansiedade pelo público espectador. De acordo com o volume de espectadores –que costuma ter relação com o poder e a fama das turmas – pode haver, inclusive, uma estrutura rudimentar de comerciantes ambulantes no local. Para anunciar que é chegada a hora de abrir os portões e liberar a passagem dos fantasiados, algumas turmas promovem queima de fogos. É comum também haver sonorização do evento, através de equipamentos de som montados no local ou do uso de carros de som. No momento da saída, o hino da turma costuma ser tocado e então, os fantasiados tomam o espaço público apresentando uma espécie de coreografia constituída por muita correria, movimento e barulho.

Utilizando dessa fala, destaco como elementos complementares tudo aquilo que não é bate-bola, tais como o comércio e equipe de som, a queima de fogos e o hino da turma e como performance o comportamento e movimentação dos bate-bolas como atores do espetáculo. 3.1.Os comerciantes O comércio do entorno é um dos grandes beneficiados na saída de turma do Complexo de Realengo, pela grande movimentação causada pelo público e pelos próprios bate-bolas. Foi


percebido que o local selecionado pela turma para realizar o evento da turma selecionada para a pesquisa é cercado de bares e de comerciantes de alimentos confirmando a fala de Pereira e Ferreira (2009) quando diz “pode haver, inclusive, uma estrutura rudimentar de comerciantes ambulantes no local” (PEREIRA; FERREIRA, 2009, p.60) mas discordando quanto ao termo “rudimentar”, pois os comerciantes do local já têm pontos fixos no local, contendo trailers e lojas. Na observação, foi visualizado um bar grande, no qual a festa estava acontecendo em frente a ele e no entorno vários trailers de sanduíches, salgados, açaí e uma loja de hambúrguer artesanal, sendo essa mais sofisticada. Pelas falas ouvidas naquele dia de uma comerciante, enquanto conversava com uma cliente que aparentemente estava ali para ver a saída de turma, aquele momento é “o único que a gente ganha dinheiro no carnaval aqui”, sendo aquele local deserto durante o período de carnaval, por não ter festas de rua nele, a não ser a saída de turma do Complexo de Realengo, pois de acordo com a comerciante “isso aqui fica morto durante o carnaval, não tem nem uma musiquinha”. 3.2. Equipe de som A equipe de som é o que embala a festa. Como diz Pereira no parágrafo acima citado para definir os elementos complementares, a música pode tocar por equipes de som montadas ou por carros de som (PEREIRA, 2008, p.60), mas no caso do Complexo de Realengo, é contratada uma equipe de som com uma aparelhagem mais sofisticada de luz e sonorização como visto no vídeo escolhido para a análise. Num momento do vídeo, é mostrado os aparatos de som com detalhes, desde o painel de LED colocado acima das caixas de som para demarcar qual a equipe que está presente, até as caixas luminosas que piscam conforme a música. Isso é feito para demonstrar poder ante às outras turmas na região, no jogo de ego dos bate-bolas. A música tocada era, quase que em sua totalidade, o funk. Talvez pelo fato de ser um local do subúrbio carioca que, mesmo não sendo favela, o funk se faz presente e representa, como diz Maciel e Moraes: “Esse caráter local-global faz do funk uma voz representativa não apenas para comunidades locais- as favelas cariocas- como também para a sociedade subalternizada em geral” (MACIEL; MORAES, 2014, p.36) 3.3. O hino O hino serve como um “grito de guerra”, algo que motiva e anima os participantes da turma, pode ser mudado de acordo com o tema anual das fantasias dos bate-bolas, como no caso do Complexo de Realengo, chegando a essa conclusão se pondo em comparação a


observação feita e a análise do vídeo que são de anos diferentes, ou pode ser um hino fixo, algo que represente a turma em si. Sobre a composição das músicas, elas exaltam a coragem dos brincantes da turma, como no caso do Complexo de Realengo quando diz “No Complexo de realengo, o bonde ta pesadão”, falam sobre a rotina do mundo dos bate-bolas quando na música analisada através do vídeo diz “O complexo ta aí, mais um ano vai vir”, referenciando que ano após ano os integrantes se planejam para pôr sua turma nas ruas em época de carnaval ou quando os próprios bate-bolas cantam como um grito de guerra “um, dois, três, soltem os bichos de uma vez”, se comparando a bichos ofensivos. Sobre o ritmo da música, como dizem Pereira e Ferreira (2009, p.59) “as turmas costumam usar bases sonoras que variam entre o samba, o rap e o funk, referências musicais cotidianas no seu universo social”, e no caso da turma analisada, o ritmo, como dito anteriormente, é o funk. 3.4. Queima de fogos Esse elemento é primordial para a saída de turma do Complexo de Realengo, podendo ser opcional para umas, ou nem existir para outras. Seja ele em menor ou maior escala, serve como um “demarcador” de que naquele espaço está sendo apresentada uma turma de batebolas, tanto para as pessoas que conhecem a dinâmica, ou seja, moradores do entorno, quanto para outras turmas de bate-bolas, o que às vezes pode ser sinônimo de conflito. A queima de fogos divide o evento em pré-saída e saída dos brincantes, assim como aponta Pereira, Quando está tudo pronto, os fantasiados ganham a rua embalados pela música e pelo espetáculo pirotécnico. Forma-se uma paisagem dinâmica, em que as coreografias ensaiadas se misturam à correria do público, gerando muito barulho e confusão. Isto dura, aproximadamente, cerca de 15 minutos. (PEREIRA, 2009, p.121)

Esse trecho define bem o que se passa no vídeo analisado. Nessas festas, algumas queimas de fogos são tão densas que podem abafar o som da equipe de sonorização no momento de aparição dos bate-bolas e o único ruído que se pode ouvir são das explosões. Esse show pirotécnico pode ser programado para durar toda a apresentação ou apenas no momento de sair a público. 3.5. As performances Antes de dissertar sobre a performance dos bate-bolas, termo utilizado por Pereira (2008, p.91) para denotar a exibição desses personagens, vamos ao conceito de performance salientado por Schechner (2003, p.27) “performances afirmam identidades, curvam o tempo, remodelam e adornam corpos, contam histórias”.


Essa afirmativa se encaixa bem na performance dos bate-bolas, pois é visível, através da análise audiovisual e a observação feitas, a mudança de postura, de comportamento, como se tivessem o corpo remodelado assim que colocassem as vestes da fantasia. Eles assumem um personagem, como Barbosa (2014) diz: Durante o carnaval, os participantes dos Bate-bolas simulam um personagem, produzindo atitudes que não são habituais, desta maneira, o participante deixa de ser quem é e se transforma em alguém além de si mesmo e assim, revela uma nova realidade. É a partir desta realidade que é criada uma consciência coletiva e uma energia que une todos em torno do fenômeno. (BARBOSA, 2014, p.43)

São figura principal ali, durante a coletividade tomam a importância e atenção total, assim como pontua DaMatta (1986) quando diz que “É a fantasia que permite passar de ninguém a alguém; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica de uma história absolutamente essencial para a criação do momento mágico do carnaval” (DAMATTA, 1986, p.50). No momento da performance, da primeira aparição, diferente da idéia de DaMatta (1986, p.55) quando diz que é “o carnaval promovendo a igualdade e a supressão de fronteiras”, vê-se uma separação não espacial, mas de status: mesmo as pessoas estando misturadas, fantasiadas ou não, os personagens principais, bate-bolas, possuem o prestígio do momento. No vídeo posto em análise, um dos integrantes, com o andar típico dos bate-bolas, pulando e sacudindo os ombros, chocando sua bexiga ao chão e dançando ao som do funk se vira para a câmera e grita “é o poder!”. Os bate-bolas assumem um poder, uma certa autoridade e admiração por conta do público. O andar em círculos por volta deles mesmos, o balançar das bandeiras que compõem a fantasia, tudo isso os enchem de uma estima que como DaMatta (1986, p.50) fala em alguns parágrafos acima, é proveniente da fantasia, como uma roupa de gala que para alguns representa um poder aquisitivo. Ao invés de poder aquisitivo a fantasia de bate-bola, na ocasião do carnaval, garante um poder de autoridade, talvez pelo tamanho e volume das fantasias, talvez por possuir um instrumento de flagelação, a bola, como Lopes (2013) afirma que “o uso de fantasias denuncia relações e ações que identificam determinados grupos sociais, bem como desloca os indivíduos de sua vida rotineira” (LOPES, 2013, p.1). Esse deslocamento é justamente a obtenção de poder que a fantasia dá aos integrantes quando esses são “cidadãos comuns” na sua vida rotineira. Existem espectadores do espetáculo que apreciam e outros que não, assim como no teatro. No momento da observação, ouviu-se falas de vizinhos reclamando do alto som e


dizendo máximas como “se esse barulho passar das onze horas, vou ligar para a delegacia”, ou seja, sendo positiva ou não, a saída de turma dos bate-bolas mobiliza a comunidade do entorno, seja no sentido comercial, de reações, de expectativa, sendo parte constituinte do carnaval popular do Rio de Janeiro.

Considerações finais Entende-se que os bate-bolas são fantasiados tradicionais do carnaval carioca, sendo personagem relevante dos festejos do Rio de Janeiro e que dentro de suas dinâmicas interativas e brincadeiras, existem as saídas de turma, elemento de grande importância paraa “Turma do Complexo de Realengo”, grupo utilizado para a pesquisa do presente artigo, pois é o momento de inserção da turma no carnaval do ano vigente, a primeira aprição, mas que pode não fazer diferença para outros grupos. Através do grupo escolhido, mostrou-se alguns elementos importantes para a constituição das festas de saída de turma, tais como a música, o hino, queima de fogos, o público e o comércio, mostrando a importância dessas festas para o mercado local, movimentando o capital na região. Outro elemento muito importante é a performance desses indivíduos, que quando na coletividade assumem um outro papel nas festas de saída de turma. O andar, o comportamento, os gritos de guerra, tudo constitui um personagem performático, remodela o corpo dos indivíduos e gera reações do público, quer positivas ou negativas. Por fim, nota-se que as festas de saídas de turma formam um ritual presente numa manifestação tradicional do carnaval carioca. Importante não só para os bate-bolas, mas também para outros personagens que circundam esse universo, as saídas afirmam-se como verdadeiros festejos constituintes do carnaval no Rio de Janeiro. Referências ARANTES, A.A. Um aglomerado indigesto de fragmentos?. In.:________O que é cultura popular. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. P.7-22. BARBOSA, N.S.Ilusão: do ritual ao espetáculo. As dinâmicas em torno de um grupo de Bate-bola. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, UFF, Niterói, 2014. Disponivel em<https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=6&ved=0ahUKEwj YpujpvL3aAhXEG5AKHdmaAOMQFghHMAU&url=http%3A%2F%2Fwww.narua.uff.br%2Fi mages%2Filusao-do-ritual-ao-espetaculo-nathaliabarbosa.pdf&usg=AOvVaw3kdgSmr5KX83ciUvm19qAr>, acessado em <10/04/2018>


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