RELATOS CARNAVALESCOS DE SÃO FÉLIX-BA Valdelice da Conceição Santos1 Janaiany Silva de Miranda2 Resumo: Este trabalho apresenta um estudo sobre a história do carnaval e da micareta da cidade de São Félix-BA, que tiveram grande valor cultural para a região do Recôncavo da Bahia durante o século XX. A pesquisa foi baseada em relatos orais dos antigos foliões, contidos em radiodocumentário, e em jornais que circulavam na cidade no período de 1925 a 1988. O material empírico inclui relatos de como eram organizados esses festejos, onde aconteciam, que músicas eram tocadas, a animação das pessoas e a movimentação na cidade. Durante um bom tempo, ambas as festas alcançaram sucesso surpreendente no Recôncavo, atraindo pessoas de outras cidades. Os foliões as esperavam o ano inteiro para poder brincar, pular e se divertir. Os bailes de carnaval, por exemplo, eram realizados com grande estilo pelos sócios de clubes. Na micareta, a animação e a ansiedade se multiplicavam porque existia um concurso para eleger o melhor bloco fantasia e todos queriam mostrar o seu talento. No entanto, por motivos financeiros as festas deixaram de ser realizadas na cidade. À vista disso, este trabalho propõe contar essas histórias e, por conseguinte, servirá para que as gerações presentes e as futuras passem a conhecê-las, uma vez que poucas pessoas na cidade e na região do Recôncavo têm conhecimento dessas manifestações culturais. Desse modo, este trabalho contribuirá para que a história dessas festas se torne mais conhecida e não se perca com o tempo. Palavras-chave: Manifestação Popular, Carnaval, Micareta, São Félix.
INTRODUÇÃO A história do carnaval no Brasil começou no período colonial com a celebração do entrudo dentro das casas e nas ruas, no século XVI. Só depois surgiram as festas de clubes. As marchinhas passaram a fazer parte da festa, popularizando-se no final do XIX e, assim, abriram-se as portas para outros gêneros musicais serem incorporados ao carnaval, como samba, maracatus, axé e frevo. Os anos foram passando e novos elementos também foram incrementados, a exemplo do trio elétrico e das escolas de samba3. Uma festa semelhante ao carnaval chegou ao Brasil no século XX: a micareta, que, segundo Cadena (2017), tem seu primeiro registro no Rio de Janeiro em 1908, 1
Bacharela em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e graduanda em Gestão Pública pela mesma universidade. Email: valdelicecsantos@gmail.com 2 Graduanda em Gestão Pública pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Email: janaiany93@gmail.com 3
Veja mais do carnaval em: <https://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval-no-brasil.htm>
desde então esse movimento se expandiu pelo Brasil a fora, tornando-se conhecido como carnaval fora de época. O Recôncavo da Bahia também pôde celebrar e experimentar o carnaval e a micareta durante muitos anos. Entre os anos de 1920 e 1970, havia em São Félix um carnaval um pouco diferente do que existe em outras cidades do Brasil. Os foliões usavam máscaras, serpentina, fantasias e outros adereços; brincavam nos bailes em clubes e, por alguns anos, saíram também em desfiles pelas ruas da cidade. Já a micareta foi realizada entre os anos de 1960 a 1990, segundo o Jornal Correio de São Félix e o radiodocumentário. Atualmente nenhuma das duas festas acontece mais na cidade. Havia carnaval também em cidades vizinhas a São Félix, como Maragogipe (mantém a tradição até os dias atuais), Cruz das Almas, Conceição da Feira, Castro Alves, Muritiba e Cachoeira (algumas comunidades rurais ainda realizam a festa). A história desses festejos carnavalescos é ignorada por muitas pessoas na região, principalmente no município de São Félix, pelos mais jovens e por moradores recémchegados na cidade. A pequena São Félix localiza-se no Recôncavo da Bahia, com uma distância aproximada a 110 km de Salvador, teve sua população estimada em 15.310 habitantes em 2017, e seu IDH é 0,639, segundo o censo 2010. Possui uma história profundamente ligada às manifestações culturais como: bumba meu boi; pastoril; quadrilha junina; queima de Judas; samba de roda; terno do Barricão; e terno do Mandu. À vista disso, nossa pesquisa visou investigar a história do carnaval e da micareta de São Félix-BA, e é uma releitura do radiodocumentário “Lembranças de outros Carnavais e Micaretas”4. Para isso, buscou-se saber como eram celebrados, em qual período do ano eram realizados, como era a animação dos foliões e o motivo que levou ao fim destes festejos na cidade. Visto que essas festividades, além de gerarem renda para a cidade de São Félix, eram muito importantes para a cultura local, viu-se a necessidade de realizar este trabalho para contribuir com a memória local e chamar atenção, principalmente 4
“Lembranças de outros Carnavais e Micaretas” é um radiodocumentário produzido por Valdelice Santos, uma das autoras deste artigo, como parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), intitulado “Alegria, folia e muitas histórias para contar – resgate histórico do carnaval e micareta de São Félix”, defendido em 2013. Disponível em: <https://carnavalemicaretadesaofelixbahia.wordpress.com>
dos jovens, para as histórias dessas manifestações culturais. Além disso, servirá como fonte de pesquisa para outros interessados no tema. Para elaborar este trabalho foram analisados depoimentos de pessoas que participaram das festas, presentes no mencionado radiodocumentário. Dessa maneira, foi possível extrair recordações dos foliões de como eram as músicas, os bailes, as fantasias, a animação dos blocos e outros fatos ligados aos festejos. Ademais, pesquisamos jornais disponíveis no Arquivo Público Municipal, que noticiavam as festas carnavalescas. METODOLOGIA A pesquisa se deu com base nas doze entrevistas presentes em arquivo de áudio e de jornais encontrados no Arquivo Público Municipal de São Félix, além de pesquisa eletrônica e bibliográfica sobre carnaval, micareta e manifestação popular. Portanto, a metodologia utilizada foi a qualitativa. A primeira etapa deste trabalho foi consulta aos documentos do Arquivo Público Municipal, com o “Jornal Correio de São Félix”, fundado em São Félix, em 1934, que noticiava acontecimentos de destaques na cidade e região, sobretudo o carnaval e micareta. O estudo foi feito com exemplares do ano de 1934 a 1988, sempre observando os meses de janeiro a maio, época em que eram realizadas as festas. Outro jornal também consultado no Arquivo Público foi o “Jornal A Vanguarda”, criado em 1925, a partir das edições de fevereiro de 1925 e de março de 1926, únicas edições encontradas no local, que falavam das festas. Ainda no Arquivo Público, pesquisamos o livro “Efemeridades Sanfelistas: um pouco da vida de minha terra”, com o intuito de encontrar as datas de fundação dos jornais, dos clubes – onde aconteciam os bailes de carnaval – e outros dados importantes. Além dessas pesquisas nestes veículos de comunicação, foram analisadas as entrevistas dos foliões que presenciaram as festas carnavalescas na cidade de São Félix, que fazem parte do radiodocumentário “Lembranças de outros carnavais e micaretas”. São doze personagens, dentre eles estão participantes dos últimos carnavais; baterista e vocalista que tocavam nos carnavais no grupo Cuba Jazz; organizadores de blocos da micareta; locutor dos trios das micaretas; e foliões do carnaval e da micareta. A partir da análise dessas falas, foi elaborado este artigo.
O CARNAVAL E A MICARETA NO BRASIL Para contar a história do carnaval e da micareta de São Félix é preciso entender como essas festas se concretizaram no Brasil. Segundo Xerez (2012), o carnaval é celebrado desde a Antiguidade e teve início na Grécia, nos cultos agrários realizados entre 605 a 527 a.C. Depois desse período, ele se espalhou pelo mundo. Mas foi por volta de 1545, no Concílio de Trento, que o carnaval torna-se reconhecido como uma manifestação popular de rua. O primeiro foco de concentração carnavalesca se localizava no Egito. A festa era nada mais que dança e cantoria em volta de fogueiras. Os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais. Depois, a tradição se espalhou por Grécia e Roma, entre o século VII a.C. e VI d.C. A separação da sociedade em classes fazia com que houvesse a necessidade de válvulas de escape. É nessa época que sexo e bebidas se fazem presentes na festa. Em seguida, o Carnaval chega em Veneza para, então, se espalhar pelo mundo. [...] É só em 1545, no Concílio de Trento, que o Carnaval é reconhecido como uma manifestação popular de rua (XEREZ, 2012).
Existem outras versões sobre a origem do carnaval, porém não cabe aqui aprofundar esse assunto porque não é o objetivo de nosso trabalho. O certo é que os colonizadores portugueses trouxeram o entrudo para o Brasil no século XVI, e esse fato pode caracterizar-se como sendo o carnaval antes do “carnaval”. O entrudo era uma festa que acontecia de duas formas: uma era a “familiar” (acontecia no interior das casas), a outra era o entrudo “popular” (saía pelas ruas e envolvia o povo mais pobre, como os escravos). As famílias normalmente brincavam em um espaço privado, previamente escolhido. As ruas e praças serviam de palco para as classes menos favorecidas, como os homens livres pobres e os escravos. Esses últimos, só podiam brincar em horários permitidos pelos senhores, quando não havia muita demanda de trabalho. Geralmente, saíam às ruas tatuados ou pintados de branco ou vermelho, ao anoitecer, dançando e cantando ao som de instrumentos musicais de percussão como atabaques, marimbas e zabumbas (GASPAR, 2009).
Conforme Trigueiro, os preparativos para o entrudo começavam “logo após o término do ciclo natalino se estendendo até a quarta-feira de Cinzas” (TRIGUEIRO, 2006, p. 1). A festa era realizada em três dias com muitas brincadeiras, algumas eram consideradas perversas, como atirar água de cheiro, água de chafarizes, café, groselha, tinta, lama e urina nas pessoas.
Os imigrantes chegaram ao Brasil logo após a abolição, mas não abraçaram o entrudo das ruas, pois não queriam juntar-se com os libertos. Embora se tenha relatos de que, no final do século XIX e começo do século XX, a baixa classe média foi às ruas brincar o entrudo, eles continuavam sem misturar-se com o entrudo popular. Nota-se, portanto, que é nesse momento que o entrudo começa a assumir um caráter de festa fechada. A partir de então, o “carnaval” deixa de ser manifestação de ruas e torna-se uma festa organizada por associações. Benoit Gaudin (2000) afirma que foi em 1880 que ocorreu a junção do carnaval de rua com o carnaval de salão e dessa união nasceram as associações carnavalescas. Os Bailes de Máscaras, também chamados Bailes a Fantasia, realizados no Brasil, ganharam destaques pela elegância. Os primeiros bailes carnavalescos foram realizados no Rio de Janeiro, por volta de 1835. Portanto, esses bailes podem ser considerados como os precursores do carnaval moderno brasileiro. Etimologicamente “a palavra carnaval provém do latim ‘carnelavarium’, e significa 'suspender, abastecer-se da carne. Mais tarde, com a evolução da língua latina, passou a corresponder a ‘carne vale’ com o significado de ‘deus carne’”, (SOUZA, 1980, p. 2). Porém, para muitos foliões, o significado da palavra é o que menos importa, é levada em conta a celebração da alegria durante a festa, em que todos se misturam com o objetivo de se divertir. Assim, pode-se dizer que o carnaval “é a festa das multidões, onde todas as classes sociais procuram se despir dos seus preconceitos e rivalidades, para se igualarem numa só condição de foliões", (SOUZA, 1980, p. 2). Dessa forma, percebe-se que o carnaval é a celebração da alegria, inícios de novas histórias e também é a festa do encontro. Todavia, foi no decorrer do século XX que o carnaval torna-se mais popular, com os blocos carnavalescos, cordões, trios e cortejos de carros alegóricos que percorrem ruas das cidades. Atualmente existem vários tipos de carnaval no Brasil. Em cada Estado é realizado de acordo com sua cultura. Em Salvador, por exemplo, é um gigantesco festival de música ao ar livre em que, durante seis dias, os blocos arrastam multidões pelo circuito da festa, ao som, principalmente, do gênero axé. No entanto, o ponto em comum entre todos os carnavais brasileiros é o período de realização, que pode começar no início de fevereiro ou na primeira quinzena de março, terminado às vésperas da quarta-feira de cinzas, a depender da data marcada no calendário brasileiro.
Já micareta, de origem francesa, chega ao o Brasil no início do século XX, como afirma Sousa, no texto “A origem das micaretas”: O termo micareta vem da expressão francesa “mi-carême”, que significa “meio da Quaresma”. Como o próprio nome diz, os primeiros carnavais fora de época da nossa história aconteceram na França do século XV, bem no meio da Quaresma, tempo estipulado pelo calendário católico-cristão para as pessoas se absterem dos prazeres terrenos (SOUSA, [201-?]).
Cadena (2012) observa que a palavra micareta é uma invenção brasileira, propriamente baiana. Para ele, “micareta” surgiu com o apoio da Associação Bahiana de Imprensa-ABI, por meio de “um concurso promovido pela Associação dos Cronistas Carnavalescos da Bahia, em 1935, por iniciativa do jornalista Amado Coutinho, presidente da entidade e que pode ter sido o idealizador da expressão”, (CADENA, 2012). Conforme Benoit Gaudin, “a micareta aparece como uma festa bastante antiga (existindo desde 1908), com uma rica história intimamente ligada ao carnaval de Salvador e à evolução dos trios elétricos e das bandas de trios baianas”, (GAUDIN, 2000, p. 47). O Rio de Janeiro foi o primeiro local de registro da festa no Brasil, datada em 1908, quatro anos depois ela chega à Bahia. Cadena (2017) cita que um grupo de foliões organizou um cortejo bem simples na cidade de Jacobina, em 1912, para festejar a micareta. A festa, conhecida também como “carnaval fora de época”, assume novas características e ganha forte popularidade, tornando-se uma das maiores manifestações populares do interior da Bahia, mais precisamente em Feira de Santana. O primeiro registro em Feira de Santana foi em 1937, em que “uma chuva diluviana impediu que o carnaval fosse comemorado normalmente e os foliões feirenses, inconformados e frustrados, decidiram postergar os festejos momescos, realizando-os algumas semanas depois da data convencional”, (GAUDIN, 2000, p. 51). Assim, a micareta caiu no gosto dos feirenses e a cada dia se fortalece mais. Atualmente também é realizada em outras partes do país. Portanto, percebe-se que tanto a micareta quanto o carnaval vão passando de geração a geração e a cada dia ganhando mais devotos. Para Canclini (2008), as culturas populares não caminham para o esquecimento, elas criam uma nova configuração e se desenvolvem para manterem-se ativas na atualidade. Assim, podemos perceber que o
carnaval e a micareta adotaram estratégias de sobrevivência na modernidade, inclusive utilizando-se dela para se fortalecer no Brasil.
O CARNAVAL EM SÃO FÉLIX Com a mesma alegria e riqueza cultural que era realizado nas demais partes do Brasil, o carnaval chega a São Félix. Nesta cidade, a festa consistia em bailes de clubes com foliões mascarados, serpentinas e lança perfume. Era esperada o ano inteiro pelos moradores de São Félix, que iam atrás da diversão pagã em busca da alegria. Não há registro em documentos da data precisa de quando o carnaval teve início em São Félix, porém de acordo com o Jornal “A Vanguarda”, tudo indica que a primeira festa de carnaval aconteceu em fevereiro de 1926: Na segunda-feira gorda, São Félix, vai assistir a uma das mais encantadoras festas que já se realizaram nesta cidade. É no Club Allemão. [...] São sem conta o numero de phantasia em confecção para essa encantadora festa de elegancia, que vai ficar registrada no mundanismo de São Félix como uma das suas melhores datas (ÀS VÉSPERAS..., 1926, p. 1).
A folia carnavalesca alcançou sucesso surpreendente, embora organizada de última hora em alguns anos e em outros realizados sem muito alvoroço. Em 1945, quando findava a II Guerra Mundial, por exemplo, o carnaval aconteceu sem influência extraordinária e nem máscaras puderam ser usadas. A festa ficou constrangida durante toda a guerra, como cita Pedro Dantas no Correio de São Félix: “Não mais o esplendor dos clubes, carnavalescos. Não mais o aparecido humorismo das máscaras inteligentes e folgazões. Não mais as redes enormes de serpentes. Não mais as batalhas reunidas de lança-perfume. Não mais os imponentes bailes de máscaras”, (DANTAS, 1945, p. 1). No ano seguinte ao fim da Guerra, a festa continuou sem brilhantismo. “O carnaval viveu constrangido durante toda a guerra. Não deixou – é fato – de mostrar o cara pela rua. O regime da censura tirou o encanto da sua boutade. Seu privilégio foi abolido pela exigência da lei de guerra”, (DIAS, 1946, p. 1). Os bailes eram realizados em grande estilo, como conta o Jornal Correio de São Félix.“Na Associação Atlética prepara-se para brindar os associados, adeptos e a sociedade sanfelixta, com o brilhantismo e sucesso costumeiros dos seus bailes os
quais serão efetuados durante os três dias dedicados a Momo, havendo ainda dois bailes infantis dedicados aos filhos dos sócios do club”, (O CARNAVAL..., 1946, p. 1). O carnaval era promovido pelos sócios dos clubes existentes na cidade e os bailes eram pagos, exceto para os sócios. A população só participava em maior número quando o carnaval saia pelas ruas da cidade. “Nesta cidade, não tem havido festejos de Mômo, caracteristicamente popular. As comemorações carnavalescas teem sido de iniciativa parcialmente privada, ficando restrita aos clubs ou bailes privados”, (CARNAVAL..., 1948, p. 1). Antes dos grandes bailes de carnaval, aconteciam os bailes dançantes précarnaval para escolher a rainha da festa. Cada Clube tinha sua rainha, que era escolhida através de concurso, tendo como jurados os sócios dos clubes. Os jornais de circulação local, a exemplo do Correio de São Félix, divulgavam o concurso. O baile que escolhia a rainha era denominado “Grito de carnaval”. As pessoas iam fantasiadas, cantavam e dançavam ao som de marchinhas de carnaval. “As máscaras tumultuam de envoltas com as fantasias mais ricas e imaginativas. Nas ruas. Nos clubes, Boites e cassinos. Mascarada entre nuvens de perfumes, chaves de confete; botes entrecruzados de serpentinas”, (DIAS, 1953, p. 1). De início, o carnaval era realizado apenas no Clube da Associação Atlética (localizado na Avenida Salvador Pinto), depois o Clube Floresta (situado na Rua Manuel Vitorino) passou também a promover a festa. O Clube da Leste ou Ferroviário (atualmente com sede na Praça do Relógio) promoveu a festa apenas um ano. Os bailes dançantes eram realizados entre três e cinco dias, antes da quartafeira de Cinza, e oferecidos aos numerosos adeptos e sócios dos clubes, animados por bandas como Jazz Continental, Cuba Jazz e Filarmônica União Sanfelista. Durante esses dias de festa as pessoas esqueciam a tristeza e aproveitavam o momento rico de simbologia e significados. O carnaval passou como tudo passa. Três dias de loucura, alegria e riso no mosaico da vida humana. Rei Momo imperou nas ruas e nos salões, com seu cortejo de seduções e pecados. Ricos e pobres, misturaram-se no mar agitado do Carnaval excedendo-se nas ruas expansões incontidas. As cores vivas das fantasias, as multicores serpentinas, o confeti, tudo isso, confundia-se numa policromia vistosa: As mascaras, desfilaram numa espantosa diversidade de expressões (DEIRÓ, 1958, p. 2).
Beatriz da Conceição5, uma das entrevistadas do radiodocumentário, se recorda que havia dois tipos de bailes de carnaval nos clubes. “Tinha o baile infantil que era à tarde e tinha o do adulto, às vezes eu queria vim também no do adulto, mas minha mãe não deixava”. Outro entrevistado, Davi Novaes6, lembra que por um período existiu um certo preconceito nas festas dos clubes. “O Floresta era um clube que entrava todo mundo e lá na Associação era escolhido tinha privilégio de qualidade. Preto lá só se fosse um médico como o Doutor Carlos pra ir pra lá, porque se fosse preto e não tivesse nada, existia dificuldade”. Porém, o carnaval era uma festa cheia de surpresas e todos gostavam da diversão, embora ocorressem fatos preconceituosos, como o citado por Novaes. A população de São Félix se organizava para os festejos ao rei Momo – o deus pagão que simboliza os festejos carnavalescos no Brasil. “Espalhando sua vibração e alegria pelas ruas, convocando os foliões populares para reverenciarem o Rei Momo, o carnaval anuncia sua presença na cidade”, (CARNAVAL..., 1971, p. 1). O carnaval também ganhou as ruas de São Félix e era chamado “Cordão da Vitória” e passou por vários pontos da cidade, como na Avenida Salvador Pinto, na Baixa Fria, no Varre Estrada, no Dendê (rua Manuel Vitorino) e no Salva Vidas. Marchinhas, batucadas, sambas, rumba, confetes, lança-perfumes, serpentinas e muita alegria marcavam o carnaval. “Contrariando a inércia aparente, o carnaval alvoroçou os arraiais da alegria, e botou pra quebrar nas ruas, enchendo a cidade de batuques, blocos, trio elétrico e foliões durante três dias”, (CARNAVAL..., 1974, p.1). As marchinhas fizeram sucesso nos bailes de carnaval na cidade e quem brincou, os últimos bailes, nunca mais esqueceu essas músicas. Os entrevistados se recordam de muitas delas, as quais davam certo colorido à festa. “As marchinha de carnaval era uma beleza. Tinha muita música interessante, Lambretinha, mesmo. O carnaval hoje em dia se toca tudo né, não se tem aquilo específico”, conta Lélia Maria Tosta7, uma das personagens do radiodocumentário. Assim como não encontramos registro preciso da primeira festa carnavalesca, também não há registro do último carnaval, sendo que as pessoas entrevistadas também 5
Beatriz da Conceição organizou vários blocos na micareta, inclusive um do Saci, com crianças. Na época do carnaval de clubes, ela era criança, mas participou de alguns bailes infantis no clube Floresta. 6 Davi Novaes participou do carnaval nos anos de 57 a 61. Faleceu em 2014. 7 Lélia Maria Tosta participou do carnaval e da Micareta. É uma das organizadoras do primeiro bloco afro da Micareta, o bloco Arerê.
não se recordam de uma data precisa. No entanto, a última notícia encontrada nos jornais pesquisados, a respeito da festa, foi do ano de 1975, no Clube Floresta.
A MICARETA EM SÃO FÉLIX A micareta de São Félix foi criada em maio de 1968, no governo do então prefeito Fernando Ramos de A. Alves. As pessoas saiam pelas ruas ao som de trios elétricos, em charangas, usando máscaras e fantasias e também participavam de bailes nos clubes. As primeiras micaretas eram ao som de marchinhas, mas com a explosão do axé em Salvador nos anos 80, elas incorporaram também esse ritmo. Os amantes da festa queriam destaque nas ruas, para isso se organizavam da melhor maneira possível. O motivo é que havia um concurso para escolher o melhor bloco da micareta e as pessoas usavam sua criatividade para desfilarem pelas ruas da cidade com sua melhor fantasia. Cada bloco tinha sua rainha e princesas, como o “Brilho da Lua” e o “H-Tiola”, do bairro Salva Vida, e o “Vamos Nessa”, do Centro de São Félix. “Com a participação de Trios-elétricos, blocos e cordões, a nossa cidade viveu momento de enorme euforia com a sua micareta […]”, (SUCESSO..., 1979, p. 2). Havia também outros blocos que desfilavam na micareta, a exemplo do Novo Oriente e do Status. A prefeitura patrocinava os festejos da micareta e os moradores da cidade organizavam os blocos. As primeiras edições da micareta aconteceram em clubes que promoviam os famosos bailes dançantes de carnaval. Quando chegavam os meses de abril e maio, período em que se realizava a micareta, São Félix ficava bastante movimentada. A expectativa e a ansiedade eram grandes para a festa que se concentrava na Avenida Salvador Pinto, popularmente chamada de Porto. Vinham trios elétricos de outras cidades como: “Destaque” de Salvador, “Brilhaê” e “Tapajós” de Feira de Santana, que animavam a folia com muito colorido. Vários artistas participavam da micareta de São Félix, como os cantores baianos Sarajane e Tonho Matéria, mas Reginaldo Nascimento8 se recorda, no radiodocumentário, da visita de outra artista. “Carla Peres era uma das dançarinas que
8
Reginaldo Nascimento fez parte da organização da micareta de 1994 a 1996.
o trio Destaque trouxe aqui, no ano de 1994. Nessa época, Carla Peres ainda não era conhecida nacionalmente porque ela simplesmente era uma dançarina de trio elétrico”. A Micareta tinha muitas semelhanças com o carnaval, como descreve um texto do jornal Correio de São Félix. “Conforme, se tornou costume, em lugar do carnaval, as comemorações idênticas são realizadas com a MICARETA que desperta mais vibração e brilhantismo na população citadina”, (PREPARATIVOS..., 1978, p. 1). A festa atraia pessoas de cidades vizinhas a São Félix como: Cachoeira, Muritiba, Governador Mangabeira, Cruz das Almas, Castro Alves, Sapeaçu, Castro Alves e até Feira de Santana. Essa movimentação de pessoas aquecia o comércio da cidade e, por conseguinte, gerava renda na cidade. Hoje as pessoas lamentam muito o fim dos festejos. As últimas micaretas aconteceram no governo do então prefeito Antonio Carlos Lobo Maia, em maio de 1996.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Nota-se que as manifestações populares do carnaval e da micareta de São FélixBA tiveram grande importância na cidade, tanto na parte cultural, como na social e na econômica. O carnaval atraiu foliões de todas as idades de São Félix e de cidades vizinhas, que prestigiavam os bailes dançantes oferecidos nos clubes e também os blocos que saíam pelas ruas da cidade. Os bailes eram patrocinados e organizados por sócios dos clubes. Com a morte de muitos deles e a migração para outra cidade e para outro estado, a festa foi perdendo o fôlego, pois os demais sócios não tiveram condições financeiras para continuar a festa de carnaval sozinhos, que acabou em 1975. No entanto, em 2015 e em 2016, Eduardo José de Macedo Júnior, prefeito que assumiu mandato de 2013 a 2016, em São Félix, realizou um projeto de retomada do carnaval, com título “Carnaval do 135 e Varre Estrada”. A festa foi realizada em dois bairros da cidade, com animação de charanga e cantores locais, mas o projeto não teve continuidade. Sete anos antes de acabar o carnaval de clube em São Félix, a micareta surge, em 1968, com brincadeiras e elementos diferentes do carnaval. No estilo mais moderno, com blocos fantasiados pelas ruas e trio elétrico tocando axé, a micareta foi destaque em São Félix até o ano de 1996, tendo a prefeitura como principal
patrocinadora. Os moradores organizavam-se em grupos para montar os blocos que desfilavam pelas ruas, concentrando-se no Porto, a espera de trios elétricos; já outros foliões preferiam apenas a diversão e não participavam da organização das fantasias. Porém, assim como o carnaval, a micareta não é mais realizada por falta de verba da prefeitura e os moradores não têm recursos para realizar a festa sem parceria financeira. O carnaval e a micareta eram realizados com bastante entusiasmo pelos foliões de São Félix e de cidades vizinhas, sem briga e sem confusões. Todos os entrevistados relataram momentos felizes das festas e buscam se acostumar com a ausência delas. À vista disso, este trabalho se preocupou em abordar os fatos relevantes desses festejos carnavalescos, desde o seu surgimento até seu término, para não deixar que caia no esquecimento das pessoas, visto que eram um dos principais meios de diversão na região, na época. Com isso, outras pessoas passarão a ter conhecimento dessas manifestações populares que foram muito importantes em São Félix-BA.
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