CONTINUAR „FESTANDO‟: COMO A TRADIÇÃO DO SAMBA DE BUMBO SE MANTÉM VIVA1 Leonardo Coutinho Magnin2 Leonardo Yu Marins3 RESUMO: O Samba de Bumbo é uma tradição tipicamente paulista e possui raízes intrinsecamente ligadas à vinda de negros escravizados de origem bantu - trazidos da África entre os séculos XVIII e XIX. Apesar da presença dos sambas e batuques em diversas regiões brasileiras, no território paulista essa tradição adquiriu traços bastante específicos e guardou consigo elementos importantes da cultura africana. Com apenas oito grupos ainda ativos que se consideram tradicionais, nota-se, de um lado, a forte resistência da tradição, que segue viva e presente na forma das memórias, costumes, cantos, ritmos, danças e técnicas autênticas resguardadas pelos grupos ainda ativos; e, de outro, a necessidade urgente de uma forte mobilização com o intuito de propor e realizar ações advindas de diferentes instâncias no sentido de salvaguardar a manifestação e seus representantes. Baseando-se principalmente nas trocas, conversas e entrevistas semi abertas realizadas pessoalmente com um(a) ou mais representantes dos principais grupos de Samba de Bumbo ainda ativos, o presente artigo se dedicou a identificar as principais dificuldades e proposições destes grupos, problematizar como as políticas públicas colaboram ou não para manutenção das comunidades, além de traçar possíveis ações no sentido de atender as demandas identificadas. PALAVRAS CHAVE: Samba de Bumbo, Samba Rural Paulista, SAMBA DE ABRIÇÃO: Em um dos últimos momentos com seu avô, mestre de Samba de Lenço de quem herdou a tradição, Ediana Maria cantarolou ao pé de seu ouvido e, emocionada, ouviu do velho sambador, já de cama e bastante doente, um pedido que jamais esqueceria: “Continue „festando‟. Não deixe o samba morrer”. Hoje liderado a pulso firme pela neta de Seo Antônio, o grupo de Samba de Lenço de Piracicaba, em meio a desafios diários e nada exclusivos de manutenção, é um dos remanescentes da tradição do Samba praticado no interior paulista e, junto das comunidades que mantém vivos o Samba de Roda, o Samba de Bumbo, o Samba Caipira e o Samba de Lenço (denominações com as quais elas próprias se identificam), são os 1
Este artigo foi elaborado a partir do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do 4° Curso de Gestão Cultural do Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo, finalizado em maio de 2017. 2 Gestor cultural, sócio-colaborador da Diadorim Cultura Popular, membro do Grupo de Samba de Lenço de Piracicaba Mestre Antônio Carlos Ferraz - email: lcmagnin@gmail.com 3 Gestor Cultural, sócio-colaborador da Diadorim Cultura Popular e 3 Apitos Esporte + Cultura – email: leoyumarins@gmail.com
protagonistas de um breve estudo sobre a situação atual dos grupos guardiões dessa tradição paulista e que será apresentado neste artigo. Assunto que já conta com relevante bibliografia, sobretudo acadêmica, o artigo não pretende investigar a fundo as origens do Samba de Bumbo - ou Samba Rural Paulista - e as características detalhadas das danças e dos ritmos envolvidos. Quando abordadas, tais questões serão pontuadas sempre no sentido de traçar uma breve contextualização sobre o tema central: a sistematização de quais são os grupos ativos, suas principais demandas e a problematização sobre como as políticas públicas colaboram ou não para manutenção das comunidades e desta tradição. Compreendendo a perpetuação de tais manifestações culturais como alicerçadas quase que integralmente na tradição oral, em que “o livro é a memória da pele, a memória do inconsciente e dos sentimentos, a memória musical, a memória do movimento” (PACHECO, 2016, p. 73) e assumindo a potência desse costume de transmissão de conhecimento que, por meio de vivências espontâneas e passadas primordialmente de geração para geração, permite o entendimento do saber como um elemento vivo, as fontes de pesquisa deste artigo recaíram, além de uma importante revisão bibliográfica com autores de diversas áreas sobre o tema, principalmente sobre as trocas, conversas e entrevistas semi abertas realizadas pessoalmente com um(a) ou mais representantes dos seguintes grupos de Samba de Bumbo: Samba de Lenço “Mestre Antônio Carlos Ferraz” (Piracicaba); Samba de Lenço de Mauá (Mauá); Samba de Roda de Pirapora (Pirapora de Bom Jesus); Samba de Roda Dona Aurora (Vinhedo); Samba de Bumbo de Cururuquara (Santana de Parnaíba); Grito da Noite (Santana do Parnaíba); Filhos de Quadra (Quadra); “Vovô da Serra do Japi” (Santana de Parnaíba); Urucungos, Puítas e Quijengues (Campinas). Os oito primeiros grupos foram selecionados para as entrevistas por estarem relacionados como os únicos tradicionais de Samba de Bumbo ainda ativos no pedido protocolado em junho de 2013 para registro desta cultura como patrimônio imaterial junto ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Já o grupo Urucungos, Puítas e Quijengues, de Campinas, foi escolhido como representante dos outros grupos que se dedicam a esta
expressão, mas não se reconhecem como uma comunidade tradicional, por ser um grupo protagonista na manutenção desta tradição. Este trabalho foi concebido junto a realização do evento “Festa do Samba Rural Paulista”, organizado pela Diadorim Cultura Popular, que também constituiu uma rica fonte de informações sobre as manifestações estudadas. O evento sediou, entre outras atividades, uma roda de conversa entre as mestras, os mestres e representantes das comunidades, na qual surgiram importantes falas sobre a manutenção desta tradição - algumas, inclusive, que não haviam aparecido nas entrevistas anteriores,
possivelmente
incentivadas
pela
informalidade do encontro. Além disso, no momento das apresentações propriamente ditas foi possível observar de perto os cantos, danças e toques dos grupos tradicionais e toda a potência e ancestralidade envolvidas no rito. AS PRIMEIRAS BATIDAS DE BUMBO NO INTERIOR PAULISTA: O Samba de Bumbo, ou Samba Rural Paulista4, é uma manifestação típica da região central do estado de São Paulo, praticada hoje nas cidades de Piracicaba, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Mauá, Quadra, Campinas e Vinhedo. Locais em que se desenvolveu com sotaques e, inclusive, denominações diferentes, conforme dito acima: Samba de Lenço, Samba de Roda, Samba de Bumbo e Samba Caipira. João Mário Machado, sambador parnaibano de 31 anos e integrante de três dos grupos tradicionais abordados neste artigo, explica que, muito embora haja de fato diferenças entre as danças, instrumentos e melodias, a base rítmica é a mesma observada em todas as comunidades remanescentes e “o bumbo é o dono da brincadeira; é pra ele que se pede licença”5. Alceu José Estevam6, coordenador de 57 anos do grupo Urucungos, Puítas e Quijengues, descreve o protagonismo deste instrumento, ou “a batida mandona do bumbo” 7, da seguinte maneira: 4
O termo “Samba Rural Paulista” dá nome a um importante artigo publicado por Mário de Andrade em 1937 e foi usado pela primeira vez pelo escritor possivelmente para diferenciar o Samba que presenciou no interior do estado daquele que era praticado na Capital. Após a publicação do texto, a designação foi adotada pela academia e tornou-se também popular entre os próprios grupos tradicionais, muito embora o termo mais utilizado seja, ainda hoje, “Samba de Bumbo”. 5 Entrevista com João Mário Machado concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP. 6 Entrevista com Alceu José Estevam concedida aos autores em 02/04/2017, em Campinas/SP. 7 Expressão utilizada por ANDRADE, Mario de. O samba rural paulista. In: Revista do Arquivo Municipal. Ano IV. Vol. XLI. S: Departamento de cultura, 1937.
O Samba de Bumbo, ele é um bolo humano, as pessoas fazem um bolo ali na frente do bumbo, entendeu?, aí há uma introdução de um ponto, que são cantorias com estrofes pequenas e motes e, ao introduzir este ponto no coletivo, que não necessariamente são só aquelas pessoas que fazem parte do samba, mas aqueles que estão assistindo também, pelo menos em Pirapora eu via muito isso, depois que as pessoas aprendessem o samba, aí começa desenvolver o batuque [...] Então entra primeiro a caixa, pra dar o andamento, e o maracaxá (chocalho), pra acentuar este andamento, e o bumbo, que entra brincando. São várias síncopes, que apresentam muitas semicolcheias, como, ele tem uma marcação: tugutum tugudum ticutum durucutum ticactac... tututututu tum... então ele trabalha mais com o improviso. (Estevam, 2017)
Esta identidade e o desenvolvimento do Samba de Bumbo no interior paulista estão intimamente ligados a um grande contingente de negros escravizados que foram trazidos para esta região para trabalhar no cultivo do café, vindos diretamente da África entre os séculos XVIII e XIX (Manzatti, 2005). Pesquisas e registros dão conta de que uma grande maioria desta população era de origem bantu, principalmente originários das regiões de Angola e Congo do Norte - apesar deste grupo etnolinguístico ter se desenvolvido em toda parte média e meridional do continente africano (SLENES, 1992). Embora vindos de comunidades diferentes, os indivíduos possuíam muitos aspectos culturais e linguísticos comuns, questão apontada por diversos pesquisadores como fator que possibilitou um ambiente muito propício ao desenvolvimento de fundamentos e padrões culturais africanos, entre eles as manifestações dos sambas e batuques. Para os quatro integrantes do grupo Filhos de Quadra, que resiste no pequeno município de pouco mais de 3,5 mil habitantes, este fio condutor é bastante claro, ainda que sejam todos brancos. Chico Campos 8, de 56 anos, conta que o fundador do grupo foi o bisavô de João Ditão, 73, atual tocador de bumbo, que aprendeu, justamente por volta de 1850, a dançar e a tocar com os negros escravizados na fazenda da qual era funcionário. Campos narra: O patrão dava um sábado ou domingo pra eles fazê as festa deles. Então, lá eles faziam as comilança (sic) e cantavam e dançavam, só que como eles trouxeram da África esse costume, eles cantavam e tocavam o batuque, e tinha mais ou menos esses versos que a gente ainda canta hoje. Daí, o que aconteceu: logo veio a abolição, o avô do João continuou com o samba de roda, os sambeiros iam cantando na frente e os casais iam dançando atrás.
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Entrevista com Francisco Campos concedida aos autores em 03/04/2017, em Quadra/SP
Depois, com o pai do João, passaram para o Samba Caipira. Aí que foi feita essa fusão. (Campos, 2017)
Ilustrando também o processo histórico indicado pelos autores citados acima, Seo Carmelino9, sambador de 95 anos do Samba do Cururuquara, conta que o início da tradição em Santana do Parnaíba está intrinsecamente relacionado a um grupo de negros escravizados. Após 13 de maio de 1888, o avô de sua esposa Luiza (83 anos), Leandro Bueno, e outros negros recém libertados, herdaram de seu antigo senhor, Manoel Bueno, além do nome, um sítio localizado onde hoje é o bairro do Cururuquara. O terreno possuía uma pequena capela de madeira, que existe ainda hoje, local em que escolheram para festejar São Benedito e conversar sobre o que fariam da vida dali para frente. A celebração, com muito samba, durou três dias e três noites - quatro, segundo outros antigos - e, desde então, todos os anos os ex-escravizados e seus descendentes passaram a se reunir no mesmo local, onde também foram plantadas palmeiras em louvor ao Santo, para celebrar a data. Embora hoje enfrente diversas dificuldades que serão abordadas mais à frente, a festa já acontece há quase 130 anos. Tradicionalmente, os bumbos - também chamados de zabumba ou caixa - e os outros instrumentos, como chocalhos, reco-recos e pandeiros, variando um pouco de grupo para grupo, eram batidos em louvação a santos, como o próprio São Benedito, além de São João, São Pedro, Santo Antônio e da tradicional festa dedicada a Bom Jesus de Pirapora. Mas a celebração também acontecia em festas de casamento e aniversários de membros das comunidades, relato comum a representantes de várias delas, como: o de Dona Ana Rosa10, 66 anos, do Samba Lenço de Mauá; de Ediana Maria 11, 48 anos - que acompanhou todas as entrevistas - e de seu tio Benedito12, 80, do Samba de Lenço de Piracicaba; e de Dona Carmem13, 99, do Samba de Roda Dona Aurora, de Vinhedo.
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Entrevista com Carmelino Eusébio de Jesus concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP. 10 Entrevista com Ana Rosa Rocha concedida aos autores em 10/04/2017, em Mauá/SP. 11 Entrevista com Ediana Maria de Arruda Raetano concedida aos autores em 10/04/2017, em Mauá/SP. 12 Entrevista com Benedito concedida aos autores em 04/04/2017, em Piracicaba/SP. 13 Entrevista com Carmem Vieira Santana concedida aos autores em 02/04/2017, em Louveira/SP.
Além dos santos citados, a festa dedicada ao Senhor Bom Jesus recebia em Pirapora do Bom Jesus além dos devotos e romeiros que iam à cidade cumprir promessas e participar das missas e procissões, um grande número de visitantes, sobretudo negros, que compareciam em grupos vindos de diversas cidades paulistas, como Campinas, Itu e São Paulo, para praticar o samba que acontecia em um barracão da igreja (CUNHA, 1937, apud DIAS, 2008). SAMBA COM HORA PRA ACABAR: DIFICULDADES ATUAIS: Seo Carmelino e Dona Luiza (2017), de Santana do Parnaíba, contam que “não era a prefeitura que fazia a festa não. Cê ia no vizinho [...] „vamos fazer a festa!‟, aí comprava rojão, comprava açúcar, comprava café, comprava pão, pra fazer até à noite, né, que a festa amanhecia”. Os antigos faziam um rateio de contribuições em dinheiro e depois dividiam o arrecadado pelos leilões de acordo com o que cada um tinha contribuído. A madrinha de Dona Luiza era quem percorria toda a cidade recolhendo as “prendas” leiloadas. Com o passar do tempo, alvo fácil de grileiros e posseiros, as comunidades negras foram literalmente perdendo terreno. Este relato é bastante presente no grupo parnaibano, que viu “a sociedade branca, rica e dominante” - nas palavras resistentemente bem-humoradas de João Mário14 tomar o bairro do Cururuquara, renegar São Benedito, santo negro, a um segundo plano em sua própria capela e tornar o Samba de Bumbo um “intruso” em sua própria festa, que hoje conta como atrações principais grupos de estilos musicais mais comerciais, como o sertanejo universitário. O bumbo, que antes era batido a noite inteira, sem hora para acabar, em edições recentes contou com um espaço de apenas 30 minutos em sua secular comemoração de 13 de maio. Enquanto isso, há anos Dona Luiza e seus familiares tentam reaver na justiça as terras onde a celebração acontece e que foram legalmente adquiridas por seu avô no final do século XIX e início do XX. Intimamente relacionada ao problema do espaço, a questão financeira é apontada por todos os representantes entrevistados como um entrave fundamental para a sobrevivência das comunidades guardiãs das tradições. Embora algumas eventualmente recebam apoios municipais, corriqueiramente 14
Entrevista com João Mário Machado concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP.
limitados à confecção de figurinos e ao transporte dos integrantes para encontros e apresentações - sujeitos às vontades de cada gestão - em geral contam apenas com remunerações pontuais, basicamente de convites advindos de instituições como o Sesc. Dirceu15, uma das atuais lideranças do Samba de Roda de Pirapora do Bom Jesus, resume bem a situação: “Pra fazer isso aqui tem que gostar. Se for pensar financeiramente, morre de fome”. Nascido na cidade que recebia os tradicionais encontros já citados, conta que, após a festa perder a sede, por intermédio da ação da Igreja no final da década de 1930, os sambadores passaram a tocar nas ruas do município - o que se mantém até hoje. Em 2003, após a reforma de um dos mais antigos edifícios locais, Pirapora ganhou novamente um espaço destinado à prática e à divulgação da tradição, a Casa do Samba, como é conhecido. Porém, com as subsequentes trocas na gestão municipal, o grupo perdeu espaço gradativamente e passou a dividir o local com outros eventos realizados pela prefeitura, sem qualquer relação com o samba16. Com a desvalorização da tradição, o resultado é um processo crescente de falta de identificação do Samba de Bumbo pelas gerações atuais, em algumas comunidades. Chico Campos17 manifesta muita preocupação sobre a continuidade da tradição em Quadra, pois diz que os jovens não se interessam ou tem vergonha de se apresentar. Dona Lázara18, 74, e Seo Agenor19, 79, puxadores do Samba de Roda Dona Aurora, de Vinhedo, que ficou parado por décadas, mas retomou as atividades neste século, pontuam que, com os baixos cachês oferecidos - ou mesmo a ausência deles - os mais novos se afastam e não demonstram serem comprometidos com a tradição como os mais antigos.
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Entrevista com Dirceu Felipe concedida aos autores em 09/04/2017, em Pirapora do Bom Jesus/SP. 16 Os autores enfrentaram dificuldades para entrevistar Dirceu dentro Casa do Samba, muito embora se trate de um espaço público e destinado originalmente ao grupo de Samba de Roda de Pirapora do Bom Jesus. Um funcionário da Secretaria de Cultura tentou impedir a entrada no local, alegando que a autonomia do uso seria do órgão municipal e que o próprio mestre sambador, que há anos possui a chave do prédio, não estava autorizado a acessá-lo. 17 Entrevista com Francisco Campos concedida aos autores em 03/04/2017, em Quadra/SP. 18 Entrevista com Lázara da Silva concedida aos autores em 02/04/2017, em Louveira/SP. 19 Entrevista com Agenor da Silva concedida aos autores em 02/04/2017, em Louveira/SP.
No Grito da Noite, outra tradicional comunidade sambadora de Santana de Paranaíba, também remanescente do período da escravidão, a questão principal foi o crescimento do carnaval da cidade, momento em que os bumbos do grupo batem em procissão buscando contribuições alcoólicas de bares abertos - e amaldiçoando aqueles que não atendem aos pedidos. Com o inchaço das festividades no município, interessante para a prefeitura, as saídas do grupo acabaram por ganhar feições de bloco de carnaval, inclusive com o registro de casos de brigas na rua. Além disso, características bastante tradicionais desse festejo, como o uso dos cabeções - em geral figuras de monstros e fantasmas -, dos bonecões e de túnicas, são seguidas atualmente por apenas uma pequena parcela dos participantes do desfile. Nesse sentido, todos os grupos entrevistados se queixam de que em raros momentos o samba é tocado da maneira como se fazia tradicionalmente: em contextos de festas, celebrações participativas e encontros informais, sem cronograma ou hora para acabar. Se antes o bumbo ressoava em situações de lazer, religiosidade e sociabilidade por parte dos membros das comunidades, a necessidade de circular em espaços culturais e de eventos para garantir sobrevida e, portanto, de se adequar a um formato de apresentação com tempo e espaço pré-determinados, de certa maneira deu novas feições ao Samba de Bumbo. Notou-se, assim, o surgimento de figurinos padronizados, em contraponto aos trajes meramente cotidianos ou de festa, bem como a organização dos sambas em forma de repertório pré-definido, quando tradicionalmente a celebração é marcada pelos cantos de improviso. SAMBA DE DEMANDA: POLÍTICA PÚBLICAS E O SAMBA DE BUMBO: No sentido de salvaguardar a tradição, foi protocolado, em junho 2013, o pedido de registro do Samba de Bumbo como patrimônio imaterial brasileiro junto ao IPHAN, documento assinado pelos representantes dos grupos tradicionais na Festa de São Benedito daquele ano no Cururuquara. O mesmo foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Imaterial e, desde então, está aguardando o início da realização do inventário para posterior inclusão de fato nos livros de registro. O Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, junto a outras ferramentas regulamentadas pelo Decreto 3.551, do ano de 2000, constituem
hoje os principais instrumentos legais para salvaguarda do patrimônio imaterial brasileiro. Este decreto abarca uma noção ampliada de patrimônio - que teve como precursor o paulista Mário de Andrade, autor, além do artigo “O Samba Rural Paulista”, de diversos trabalhos decorrentes de suas expedições pelos territórios da cultura popular e das ações do Departamento de Cultura de São Paulo (1935-38) (CASTRO; FONSECA, 2008). Apesar do pioneirismo paulista no que se refere, portanto, à conceituação e formulação de políticas públicas relativas ao patrimônio imaterial, ainda é um grande desafio a implementação de ações efetivas e, principalmente, continuadas no sentido da manutenção das manifestações tradicionais do estado. É o caso do Samba de Bumbo, que se encontra em considerável processo de abandono, contando com um histórico apenas recente de tentativa de rearticulação dos grupos remanescentes e escassas ações de salvaguarda advindas do poder público - muito embora esta tradição se localize no estado com maior potência econômica do país. A ausência de políticas públicas para salvaguarda das tradições do estado de São Paulo pode ser verificada também por meio dos hábitos culturais da população. Embora metade dos paulistas afirmem serem frequentadores de festas populares, a maior parte cita as festas juninas, tipicamente nordestinas, como as preferidas (LEIVA, 2014, p. 144-145). Esse imaginário, que dá conta do estado paulista somente como aglutinador cultural e não como também fonte de tradições populares, pode ser reafirmado ao se constatar a presença de diversos grupos e espaços de pesquisa e disseminação de manifestações de várias regiões do país, como Forró, Maracatu, Côco, Capoeira e Boi Bumbá, e raríssimos dedicados às culturas locais. Essa questão, que passa pelo desconhecimento das tradições tipicamente paulistas e revela a importância de se trabalhar a valorização e a divulgação das mesmas junto à população em geral, pode ser observada mesmo dentre os jovens das próprias comunidades guardiãs. Thiago Risonho, sambador de 24 anos e integrante do grupo de Samba de Bumbo Vovô da Serra do Japi, também parnaibano, relata que não era muito afeiçoado à manifestação quando criança. Ainda na escola, porém, apresentou um trabalho que abordava esta tradição em um concurso internacional do qual foi vencedor
e, diante do reconhecimento de colegas e professores, sentiu-se incentivado a participar dos batuques. Algum tempo depois, inclusive, fundou um grupo com outros jovens, o PiraGalo, que hoje desfila no carnaval da cidade. Dessa maneira, ainda que boa parte da energia de mobilização das comunidades esteja dedicada no sentido de conquistar o registro do Samba de Bumbo junto ao IPHAN, seus representantes estão cientes de que esta ação, isolada, está longe de garantir a preservação da tradição. João Mário (2017) coloca desta maneira: “A gente tem que parar de entender a manifestação pronta pra começar a entender que a gente tem que agir na comunidade, nas pessoas que fazem aquilo acontecer. Dar estrutura pra essa comunidade fazer o que eles sempre fizeram”. No intuito de ilustrar essa perspectiva, João relata sobre um encontro promovido em 2010 no Cururuquara, no qual as comunidades foram convidadas a compartilhar uma feijoada. Sem palco, microfone, cronograma ou figurino, os grupos tradicionais sentiram-se à vontade para interagir organicamente, sem qualquer compromisso de se apresentar: “Vamo chamá todo mundo pra vim cumê (sic)! E aí todo mundo veio - claro que cada um trouxe seu bumbo [...] Era cinco, seis horas de samba sem parar, a poeira levantava no Cururuquara!”, afirmou. Dessa forma, livres, os grupos tiveram espaço para reconhecerem-se uns nos outros, os toques, as melodias e até parentescos. Ele relata ainda que, entre 2010 e 2011, após a feijoada, o grupo do Cururuquara passou a sambar com quase o triplo de participantes, incentivados pelo espaço informal de identificação que fora propiciado na comunidade. Financiado por meio de um edital do ProAC voltado especificamente para as Culturas Populares e Tradicionais, esse encontro de 2010 pode ser considerado um exemplo de como as políticas públicas podem atuar no sentido de salvaguardar as tradições - desde que possuam a sensibilidade e a flexibilidade de abarcar as particularidades de cada uma delas. Outros grupos aqui abordados já acessaram pontualmente esse incentivo, como Urucungos Puítas e Quijengues, Samba de Roda de Pirapora e, mais recentemente, o Samba de Lenço de Piracicaba, conquistando apoio para a realização da “Festa do Samba Rural Paulista”.
Vale ressaltar, entretanto, que, embora o ProAC Editais constitua uma importante fonte de financiamento para a viabilização de projetos relativos às diversas manifestações populares vivas em São Paulo, o volume de recursos destinados a elas é bastante escasso, representando apenas 3% do montante total destinado entre 2006 e 2015 por meio do programa20. Dessa forma, tendo em vista o grande número de tradições praticadas em todo o estado e a política de rotatividade adotada pela Secretaria de Estado da Cultura, sem dúvida a descontinuidade dos projetos é um ponto crítico a ser observado. Outra questão relatada pelos grupos no lido com editais e outros prêmios como o ProAC é a burocracia para a inscrição e prestação de contas de projetos. Alceu, do samba campineiro, ressalta que tanto as grandes instituições culturais como os mestres da cultura popular respondem às mesmas normas de licitação e contrato, e defende que os grupos de cultura popular poderiam ter outro tipo de tratamento para acessar os bens públicos, de maneira que os próprios mestres e integrantes da comunidade pudessem se representar, sem a necessidade de intermediários. Além da autonomia para acessar esses mecanismos, Alceu também demonstra em sua fala a importância dos próprios grupos se apropriarem de outros meios produção e salvaguarda que garantam o sentimento de pertencimento, citando o exemplo do registro dos fazeres, saberes e da história de cada comunidade e manifestação. “O SAMBISTA É AQUELE QUE PERDE O SEU TEMPO”21: CAMINHOS PARA A CONTINUIDADE DO SAMBA DE BUMBO: Retraçando o contexto histórico aqui relatado, tem-se que o Samba de Bumbo é uma tradição tipicamente paulista e possui raízes intrinsecamente ligadas à vinda de negros escravizados de origem bantu - trazidos da África entre os séculos XVIII e XIX. Apesar da presença dos sambas e batuques em diversas regiões brasileiras, no território paulista essa tradição adquiriu traços bastante específicos e guardou consigo elementos importantes da cultura africana, como o solo no grave, representado neste caso pelo toque do bumbo. 20
Boletim UM 10 Anos de ProAC Editais Unidade de Monitoramento Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo São Paulo, Dezembro de 2016, n. 3. 21 Trecho extraído da entrevista com João Mário Machado concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP.
Como pudemos observar por meio das pesquisas e entrevistas, essa tradição se constituía extremamente popular e protagonizou festas importantes como a do Bom Jesus de Pirapora ainda no início do século XX. Porém, com o constante processo de negligência e preconceito frente a instituições hegemonicamente estabelecidas, como a Igreja e as diversas instâncias do poder público, o Samba de Bumbo foi perdendo espaço e, atualmente, são apenas oito os grupos que se consideram tradicionais na manutenção desta manifestação. Diante deste cenário em que são poucas as comunidades tradicionais remanescentes, nota-se, de um lado, a forte resistência da tradição, que segue viva e presente na forma das memórias, costumes, cantos, ritmos, danças e técnicas autênticas resguardadas pelos grupos ainda ativos; e, de outro, a necessidade urgente de uma forte mobilização com o intuito de propor e realizar ações advindas de diferentes instâncias no sentido de salvaguardar a manifestação e seus representantes. Concretizar o registro do Samba de Bumbo junto ao IPHAN, pode significar um passo importante nessa longa jornada que se revela e se faz necessária trilhar. Esse reconhecimento, embora esteja longe de constituir uma meta final para os grupos, poderá firmar um importante alicerce para justificar a construção de políticas públicas municipais, estaduais e nacionais específicas para o Samba de Bumbo. Paralelamente, é necessário também que os esforços se concentrem no desenvolvimento de ações contínuas, construídas coletivamente pelos e para os representantes e mestres do Samba de Bumbo. Com isso, a intenção é criar condições para que territórios, conhecimentos, festas tradicionais e mestres desta manifestação possam, respeitadas as particularidades de cada comunidade, se articular em uma rede única e, portanto, mais fortalecida - em contraposição a aproximações individuais dos grupos junto aos respectivos órgãos públicos de seus municípios, por exemplo. Enquanto a rede de sambadores paulistas ainda busca consolidar-se no intuito de avançar na preservação e conquista de mais espaço para a tradição como um todo, os representantes entrevistados ressaltam que a falta de interesse dos membros mais novos das comunidades é crescente e consiste em um dos pontos que mais gera preocupação no sentido da sobrevivência da manifestação.
Sobre esta desconexão entre jovens e a tradição, Pacheco (2016), pontua que o formato atual de educação culmina no silenciamento dos mais jovens pertencentes às comunidades tradicionais diante do medo da repressão ou mesmo da “indiferença escolar à sua cultura, sua identidade e ancestralidade” (2016, p. 39). Sendo as manifestações da cultura popular tão intimamente relacionadas ao espaço que o corpo e a voz tem para brincar e se manifestar, mostra-se ainda mais desafiadora a missão de salvaguardar essas tradições em um sistema que caminha cada vez mais para a perpetuação de uma cultura que não reconhece os diversos níveis de aprendizado humanístico, social e de entendimento de mundo envolvidos nesses saberes e fazeres não formais. Sendo assim, verifica-se a importância da criação de espaços educativos, dentro e fora das escolas, que possibilitem a aproximação de crianças e adolescentes -
especialmente os pertencentes às comunidades
onde resiste a tradição - que permitam que este público, potencial mantenedor do Samba de Bumbo, familiarize-se ou simplesmente tenha conhecimento das manifestações originárias de sua própria região. Esta ação requer um trabalho contundente no sentido de sensibilizar as instituições de educação e cultura em especial as secretarias municipais e estaduais - sobre a importância desta tradição no contexto da cultura nacional. Contar a própria história é uma ferramenta potente e, nesse aspecto, há a necessidade de instrumentalização e inserção em mecanismos que aufiram autonomia às comunidades, seja na gravação de um documentário, no desenvolvimento de uma pesquisa ou na inscrição de um projeto cultural junto a um órgão público, por exemplo. Além de ampliar o acesso aos saberes e fazeres da tradição do Samba de Bumbo, é fundamental a manutenção e o fortalecimento das celebrações que tradicionalmente já ocorrem em Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus e Vinhedo, assim como abrir o espaço para o resgate e a consolidação de novos espaços de encontro - como a festa ocorrida em Piracicaba. Estes momentos, desde que se sambava no extinto barracão de Pirapora ou ao redor da capela que ainda resiste no Cururuquara, são fundamentais para a resistência, a revitalização e a sociabilização entre os membros dos grupos de Samba de Bumbo.
Há que se compreender que os guardiões da cultura popular são pessoas que, por toda a vida, respiram essas tradições e as tem como uma conexão com o sagrado e a própria ancestralidade; de algo que faz completamente parte do seu corpo e as motivaram a passar por cima de todas as dificuldades e resistirem por pura paixão, missão e verdade. Nessa perspectiva, Ediana (2017) descreve sua relação com o samba assim: “[...] pra gente é natural fazer o que é da gente, porque é como levantar, dormir; faz parte do cotidiano da nossa vida”. Essa ligação íntima com o toque do bumbo, a fluidez da dança e a espontaneidade dos cantos, que vivenciam desde pequenos, pôde ser notada nas entrevistas com todos os representantes dos grupos - em especial as mestras e mestres, atuais transmissores dessa tradição oral que é o Samba de Bumbo. A relação com o território e a história que traz consigo, sendo passado de geração em geração desde sua origem, constituem em uma importante rede de memória, profundamente ligada ao desenvolvimento do estado de São Paulo em diversos aspectos que não somente o cultural. Desse modo, trata-se de um rico patrimônio tipicamente paulista - e, portanto, brasileiro - que deve e merece ser devidamente reconhecido como tal. Que continuemos festando. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Mario de. O samba rural paulista. In: Revista do Arquivo Municipal. Ano IV. Vol. XLI. São Paulo: Departamento de cultura, 1937. BRASIL, Presidência da República, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Institui o registro de bens culturais de natureza imaterial. CASTRO, Maria Laura Viveiros de; FONSECA, Maria Cecília Londres. Patrimônio imaterial no Brasil. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008. CUNHA, Mario Wagner Vieira da. Descrição da Festa de Bom Jesus de Pirapora. In: Revista do Arquivo Municipal. Ano IV. Vol. XLI. S: Departamento de cultura, São Paulo, 1937. DIAS, Fernanda de Freitas. Na batida do bumbo: um estudo etnográfico do samba na cidade de Pirapora do Bom Jesus-SP. Pós-graduação em Música do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2008. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Boletim UM - 10 Anos de ProAC Editais, Unidade de Monitoramento Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo São Paulo, Dezembro de 2016, n. 3
LEIVA, João. Cultura SP: Pesquisa dos Hábitos Culturais dos Paulistas, São Paulo, 2014. MANZATTI, Marcelo Simon. Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o Samba de Bumbo ou Samba Rural Paulista. Departamento de Ciências Sociais. São Paulo: PUC São Paulo, 2015. MINC / IPHAN. Patrimônio Imaterial: O Registro do Patrimônio Imaterial: Dossiê final das atividades da Comissão e do Grupo de Trabalho Patrimônio Imaterial. Brasília: 4. ed, 2006. PACHECO, Lillian. A Pedagogia Griô: educação, tradição oral e política da diversidade. Diversitas - USP, São Paulo2016. SLENES, Robert W. "Malungu, ngoma vem!": África coberta e descoberta do Brasil." São Paulo, Revista Usp 12: 48-67, 1992. REGISTRO DE MEMÓRIA DOS ENTREVISTADOS Entrevista com Alceu José Estevam, Membro do Grupo Urucungos, Puítas e Quijengues, concedida aos autores em 02/04/2017, em Campinas/SP. Entrevista com Ana Rosa Rocha, membra do grupo Samba de Lenço de Mauá concedida aos autores em 10/04/2017, em Mauá/SP. Entrevista com Benedito e Ediana Maria de Arruda Raetano, membro do grupo de Samba de Lenço de Piracicaba “Mestre Antônio Carlos Ferraz”, concedida aos autores em 04/04/2017, em Piracicaba/SP. Entrevista com Carmelino Eusébio de Jesus, membro do grupo Samba de Bumbo do Cururuquara, concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP. Entrevista com Carmem Vieira Santana, membra do Samba de Roda Dona Aurora concedida aos autores em 02/04/2017, em Louveira/SP. Entrevista com Dirceu Fellippe, membro do grupo Samba de Roda de Pirapora concedida aos autores em 09/04/2017, em Pirapora do Bom Jesus/SP. Entrevista com Francisco Campos, membro do grupo Samba Caipira Filhos de Quadra, concedida aos autores em 03/04/2017, em Quadra/SP. Entrevista com João Mário Machado, membro dos grupos: Samba de Bumbo do Cururuquara, Grito da Noite e Samba de Roda de Pirapora concedida aos autores em 09/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP. Entrevista com Marcio Risonho e Thiago Risonho, membros do grupo “Vovô da Serra do Japi”, concedida aos autores em 08/04/2017, em Santana de Parnaíba/SP.