A CIRCULAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA EM PORTUGAL: OS ESPAÇOS DO SAMBA, CHORO, FORRÓ E MARACATU Claudia Góes1
Resumo:
Esse artigo é um recorte da tese de doutorado que desenvolvo no âmbito do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa (INET/FCSH/UNL), a cerca da indústria do espetáculo e a música brasileira em Portugal. Há muito, a cidade de Lisboa, com cerca de três milhões de habitantes, é conhecida por sua multiculturalidade marcada pela presença de imigrantes africanos e brasileiros. A diversidade cultural lisboeta também tem a marca dos imigrantes indianos, paquistaneses, marroquinos, chineses e, mais atualmente, dos povos do norte europeu. Considerando que em Portugal reside a maior comunidade brasileira na Europa, achamos pertinente um estudo sobre os espaços da música brasileira nesse país. A prática das manifestações culturais na contemporaneidade tem gerado a construção de redes de sociabilidade, sejam elas locais ou transnacionais. A partir daí, desenvolvemos algumas idéias acerca das cenas em torno da diversidade musical brasileira e dos espaços criados por portugueses e imigrantes brasileiros, nomeadamente, o circuito do samba, do choro, do forró e do maracatu. Entrevistas em profundidade e a presença do pesquisador em campo nos ajudou a observar as nuances dessas experiências musicais que ocorrem em eventos sociais, na vivência em workshops e concertos. Esses momentos proporcionam a circulação da música, o surgimento de grupos e a conformação de novas redes sociais. Palavras-chave: musica brasileira, cena musical, circuito cultural.
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Doutoranda do Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Portugal. Email: musicabrpt@gmail.com
Introdução
A partir dos estudos do canadense Will Straw (1977) sobre cena musical analisamos como se dá a construção de uma cena brasileira em Portugal, nomeadamente, de práticas expressivas associadas a contextos regionais como o maracatu e o forró. O conceito estabelece a ideia de um local de construção de redes sociais que envolvem gosto, identidade, prazer, criatividade e associativismos que fundamentam a relação entre local e a música que se produz nele. Para Straw cena musical é “um espaço cultural em que várias práticas musicais coexistem interagindo entre si com uma variedade de processos de diferenciação” (1997, p.494). Para o pesquisador brasileiro Jader Janotti, a globalização das culturas musicais ampliou a ideia de cena musical “Com a virada do século, as fronteiras pensadas por Straw foram modificadas pela forte presença de práticas de produção, circulação e consumo de música presentes na Internet. Portanto, a ideia de cena musical foi ampliada, valorizando ainda mais questões como a globalização das culturas musicais e os novos limites abertos pelas tecnologias de comunicação. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das redes sociais dedicadas à música, a noção de cena passaria por mais mudanças adquirindo novas possibilidades e mais importância dentro dos estudos de música, comunicação e estudos Culturais. Afinal, como todo conceito produtivo, a ideia de cena teve de ser ampliada para abarcar as transformações que atingiram o mundo da música ao longo da primeira da década do século XXI.” (JANOTTI JR & PIRES, 2011). Segundo os sociólogos Andy Bennett e Richard Peterson, as cenas musicais são de três tipos: local, translocal e virtual, devendo-se considerar a (...) “relação orgânica entre a música e a história cultural local e as maneiras nas quais a cena emergente usa a música apropriada via os fluxos globais e redes para construir narrativas particulares locais” (BENNET & PETERSON, 2004, p. 07). Para discutir as articulações entre os processos de produção, consumo e circulação de bens culturais, retomamos o conceito de “circuitos da cultura” de Richard Johnson (1996), dialogando com as ideias de Paul du Gay (1997). Para Johnson, circuito cultural pode ser compreendido como diversos movimentos atuando individual e
simultaneamente em torno do fenômeno da cultura, aí entendida como um movimento circular entre pontos que se relacionam e que reflete, ao mesmo tempo, cada ponto individualmente, o todo e a troca entre eles. O entendimento da dimensão simbólica produzida no universo desses circuitos culturais, pode nos levar à compreensão dos fatos sócio-políticos em nossa sociedade. Das telenovelas à indústria do espetáculo Não é novidade que a música brasileira encontra grande ressonância em terras portuguesas através da indústria do espetáculo. Em um primeiro momento, essa visibilidade teve como protagonistas nomes como Carmen Miranda, Yara Rodrigues, as irmãs Dircinha e Linda Baptista, a dupla Alvarenga e Ranchinho e a Orquestra Fon-Fon. Na segunda metade século XX, esse movimento foi intensificado com a presença do músico Sivuca. A partir da década de 80, as telenovelas foram o principal canal de propagação da música popular brasileira, incluindo a música de vertente regional ainda não midiatizada no Brasil. Gabriela Cravo e Canela, a primeira telenovela brasileira exibida em Portugal, trouxe ao conhecimento do país a voz da cantora Gal Costa na música Modinha Para Gabriela. Podemos listar aqui um grande número de artistas brasileiros que ficaram conhecidos do grande público português através das telenovelas. Dentre eles, destacamos: As Frenéticas (Dancing Days, 1980); Pepeu Gomes e Baby Consuelo (Água Viva, 1982); Ney Matogrosso (Belíssima 1983); Nara Leão (A Sucessora 1985); Elba Ramalho (Roque Santeiro, 1987). Esse movimento que se irradiou pela década de 80 em diante, levou aos palcos portugueses músicos como Edu Lobo, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Baden Powell, Luís Gonzaga, Alceu Valença, Gonzaguinha. O circuito dos festivais e os concertos realizados pelo Casino Estoril apresentaram ao público português nomes de destaque como Egberto Gismonti, Fafá de Belém e Roberto Carlos. Evidencia-se, portanto, a grande aceitação da música brasileira no mercado local.
Diferentemente de Portugal, países como França, Alemanha, Reino Unido, Espanha e Dinamarca possuem um número significativo de grupos organizados com apoio institucional a difusão de vertente regional como maracatu, forró, coco, ciranda, afoxé através de eventos que fazem parte de um calendário local. Muitos desses grupos recebem incentivo que possibilita a circulação dessa música por outros países europeus. No caso de Portugal, país onde os imigrantes em situação regular, totalizavam em 2009, 451.742 indivíduos, com destaque para a comunidade brasileira, que contava 115.742 cidadãos (Anuário Estatístico do Instituto Nacional de Estatística/2009), existe um grande distanciamento dos órgãos oficiais e instituições em relação à propagação da cultura brasileira no país. Instituições como a Embaixada do Brasil, por exemplo, não atuam de forma a promover políticas publicas que abracem esse movimento de circulação da música brasileira na Europa. Assim, nossa pesquisa avançou em direção às cenas nascidas no contexto dos circuitos alternativos de produção, divulgação e consumo de música brasileira, reflexo do fluxo migratório da última década. Esses novos imigrantes, em sua maioria estudantes universitários de classe média em busca de especialização (mestrado e doutorado) e de experiências de vida no exterior, irão estabelecer uma nova dinâmica às trocas culturais entre os dois países e redesenhar a cena da música brasileira em Portugal. Como parte dessa investigação, tratamos de mapear os espaços alternativos de circulação da música brasileira. No ano de 2008, encontrei no bairro de Alfama, região da antiga boemia lisboeta, o meu primeiro terreno de atuação, o Tejo bar. Frequentado por jovens portugueses e por estudantes estrangeiros, esse pequeno espaço, comandado por um brasileiro nascido no estado do Acre, tornou-se em pouco tempo o reduto da música brasileira dos mais variados estilos. As noites de tertúlias no Tejo bar conta sempre com a presença de músicos brasileiros de passagem pela Europa. Já passaram por lá
o percussionista Marco Suzano, o grupo A Barca (SP), integrantes dos
Barbatuques (SP), músicos do Monobloco, o percussionista Bernardo Aguiar do Pife Muderno dentre outros. No Tejo bar não se toca apenas Bossa Nova ou clássicos da MPB como é “regra” em outros espaços de música brasileira na cidade, há sempre a possibilidade de canjas musicais envolvendo músicos de diferentes gêneros.
Uma cena significativa se deu a partir de 2011 com a criação do coletivo cultural luso-brasileiro Arte&Manha. O grupo realizou durante um período de dois anos shows e workshops com artistas brasileiros em passagem por Portugal. Localizado no centro de Lisboa e sem horário para fechar, o Arte&Manha era frequentado por artistas de todas as artes, apreciadores da musica eletrônica aos ritmos tradicionais. Em minha tese, dedico maior espaço ao trabalho desenvolvido pelo coletivo Arte&Manha, que denominei de “ponte do afeto”.
Samba Sambe, você está em Sesimbra! Este poderia ser o outdoor na entrada da cidade de Sesimbra, a trinta quilômetros da capital portuguesa. Essa afirmação tem um motivo pertinente, a música do carnaval carioca é ouvida durante todo o ano nas casas da pequena cidade. E não é à toa, ali está localizada a mais antiga escola de samba de Portugal, a Grêmio Recreativo Escola de Samba Bota no Rego. A Bota, como é conhecida, fundada em 1976 é a escola de samba mais antiga de Portugal. Segundo seus membros, a cidade se orgulha de já ter sido visitada por Dona Zica, viúva do compositor Cartola. Esse fato foi fundamental para tornar Sesimbra, uma cidade irmã do Rio de Janeiro. A ideia de pertencimento ao mundo do samba carioca faz com que, anualmente, seus diretores viajem ao Brasil para a compra de fantasias, instrumentos e principalmente, à visita e participação nos ensaios das escolas de samba do Rio. Em Sesimbra encontramos ainda outro refúgio do samba em Portugal, o Quilombo Santiago. A pequena garagem da casa foi decorada como se fosse um barraco do morro da Mangueira. O espaço, pintado de verde e rosa, têm fotografias espalhadas nas paredes dos grandes compositores mangueirenses. Seu proprietário, Ronaldo Nunes, português filho de brasileiros, promove disputadas noites de feijoada e samba para um público seleto, em sua maioria, portugueses, que são convidados pessoalmente pelo anfitrião. Por lá já passaram o cantor carioca Marcos Sacramento, o músico Marco Suzano dentre outros. É Ronaldo que afirma: “Em Sesimbra há um ex-líbris fundamental, quando a população gostou do modelo da escola de samba, toda se entregou para o seu desenvolvimento. Hoje, se houver mil desfilantes, neles estão
representadas todas as casas sesimbrenses. Na casa de todo sesimbrense é mais fácil você encontrar discos de samba do que de música portuguesa”. Choro Primeiramente, temos que ressaltar, em Portugal, choro se dança, se canta, aplaude e fala-se alto. Isso porque a forma de estar em um espetáculo de choro em PT é completamente diferente do que se entende como evento de choro no Brasil. As noites de choro promovidas pelo grupo Roda de Choro de Lisboa foram feitas para a dança. O grupo executa ritmos e transforma suas apresentações em um evento para a “malta” dançar. São os famosos bailaricos da Roda, todas as terças em Lisboa. Outro grupo de choro em atividade em Lisboa é o Raspa de Tacho. Composto por brasileiros e com apenas um português no grupo, o Raspa gravou dois CDs e têm em seu repertório basicamente os clássicos do choro brasileiro além de algumas composições autorais. O grupo não têm um local fixo nem uma atividade contínua. Talvez isso explique a menor visibilidade em relação ao outro grupo.
Forró O forró ensaia seus passos em Portugal há mais de uma década com a presença de brasileiros que foram ganhar em euros através do trabalho na construção civil e outros serviços. Mas, só na última década é que o gênero ganha contornos de uma atividade profissional. Nesse universo destaca-se o mineiro radicado em Portugal Enrique Matos. O brasileiro que é integrante da banda Luso Baião, fundou o Espaço Baião – Centro Cultural e Escola de Dança e desempenha as funções de professor, DJ e diretor. Matos, responsável pela profissionalização das atividades em torno do forró em Portugal, realiza anualmente o Baião in Lisboa Festival e é um dos maiores incentivadores
do
movimento
na
Europa.
O forró desterritorializado também faz suas adaptações. O forró luso acontece muitas vezes em espaços públicos como miradouros e avenidas que pode ser na Praça Camões, Miradouros da Graça e São Pedro de Alcântara e mais comumente na Avenida da Liberdade.
Nesses espaços abertos, mesmo nos meses de inverno, jovens
portugueses e brasileiros dançam o forró universitário embaixo de pesados casacos, luvas e cachecóis.
Maracatu Em Portugal, o movimento começou na década de 80 com a chegada do dançarino Pedro Queiroz, ex-integrante do grupo Nação Pernambuco. O artista foi um dos primeiros responsáveis pela divulgação da cultura nordestina, principalmente o maracatu. Mas se passaram trinta anos para surgir em Lisboa o primeiro grupo de maracatu de Portugal. O encontro de percussionistas brasileiros em Lisboa tornou possível a criação do grupo Maracatu Du Bairro que imediatamente agregou estudantes estrangeiros, portugueses e os recém-chegados estudantes universitários brasileiros. O grupo fez importantes atuações representando a Casa do Brasil junto às atividades oficiais, mas cessou suas atividades ao término de 2010. O rufar dos tambores tomou novo fôlego com o surgimento no ano seguinte do grupo Nação Arte Pura, que realiza oficinas e shows por todo o país. Hoje, já se pode falar que a cultura do maracatu faz parte da cena musical em Portugal. Considerações finais: Para caracterizar a cena musical brasileira em Portugal podemos afirmar que os músicos brasileiros do universo do choro também promovem as disputadas rodas de samba do Quilombo Santiago assim como músicos, alunos e professores do circuito do forró também se integram às oficinas e desfiles de Maracatu. Assim, podemos afirmar que o circuito em torno da música brasileira em Portugal se desenvolve em forma de rede entre as diversas cenas musicais ali existentes. A essa rede de trocas e articulações denominamos de “pontes do afeto”. Em minha tese, utilizo essa expressão para explicar os processos produtivos que ligam diferentes cenas e estabelecem novos circuitos culturais
em
torno
da
música
brasileira
em
Portugal.
Esse é um processo no qual estão sendo redesenhadas as novas formas de relação entre as diversas expressões culturais e dessas com o mercado que emerge em terras lusitanas. Esperamos que tais reflexões permitam subsidiar o desenvolvimento de políticas culturais que melhorem o fluxo musical entre os dois países com abrangência à diversidade musical brasileira.
Referências
BENNET, Andy e PETERSON, Richard A. Music Scenes: Local, Translocal, and Virtual. Nashville: Vanderbilt University Press, 2004. DU GAY, Paul; HALL, Stuart; JANES, L. e NEGUS, Keith (orgs.) Doing Cultural Studies: the story of the Sony Walkman. Londres: Sage, 1997. JANOTTI JR., Jeder Silveira; PIRES, Victor Almeida Nobre. “Entre os afetos e os mercados culturais: As cenas musicais como forma de mediatização dos consumos musicais” . Artigo apresentado no VII ENECULT, Salvador, Bahia, 2011. STRAW, Will. Communities and Scenes in Popular Music. In: GELDER, Ken; THORTON, Sarah (org.). The Subculture Reader.Londres: Routledge, 1997.