A CULTURA DE PAZ NO SAMBA DE RODA E SEU PROCESSO DE PATRIMONIALIZAÇÃO
Clécia Maria Aquino de Queiroz1 Rosângela Costa Araújo2
RESUMO: Fruto de uma pesquisa, em andamento, vinculada ao Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC-UFBA), este artigo examina como um conjunto de tradições, atitudes, valores e comportamentos relacionados com a Cultura de Paz (ONU), estão presentes na vivência do samba de roda do Recôncavo Baiano, reconhecido como Obra Cultural da Humanidade pela UNESCO. Para fazer esta reflexão, começamos por apresentar brevemente o contexto histórico do samba de roda, suas características, variações e múltiplas dimensões. Também procuramos analisar seu caráter holístico, comum às tradições africanas dos povos que vieram para o Brasil como escravizados, buscando refletir sua relação com os cultos religiosos afro-brasileiros e o catolicismo popular, e destacar ainda os possíveis aprendizados a partir da sua vivência, compatíveis com a Cultura de Paz. Para concluir, analisamos as medidas e ações realizadas pelos órgãos públicos, pesquisadores e pela Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia (ASSEBA) para garantir sua salvaguarda e as formas como elas refletiram nas atitudes e valores das comunidades que o praticam. Quanto às fontes principais, baseamo-nos nas abordagens de três pesquisadores do samba: Katharina Döring, Petry Lordelo e Carlos Sandroni. Valemo-nos também dos estudos de Rívia Bandeira e Raiana Maciel para compreendermos o processo de sua patrimonialização. O estudo sinaliza que em tal processo, os mesmos princípios éticos formativos do samba de roda, condizentes com a Cultura de Paz, foram também utilizados pelos detentores dos seus saberes e fazeres, objetivando a salvaguarda desse bem cultural. Palavras Chaves: Samba de Roda, Patrimônio Imaterial, Cultura de Paz
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Professora Assistente da Universidade Federal de Sergipe. Doutoranda do Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento/DMMDC-UFBA. 2 Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM) e do Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento/ DMMDC-UFBA.
Introdução Chamamos samba de roda a um tipo de tradição popular brasileira, que envolve movimentos corporais de dança, numa correspondência exata entre passos miúdos que deslizam num quase flutuar e requebro sutil dos quadris, associado a uma letra, canto, vozes instrumentais e ritmo envolventes. É realizado espacialmente em um círculo (ou semi-círculo) formado por homens – os sambadores – tocando instrumentos como a viola, violão, marcação, prato e faca, tamborim de couro e pandeiros, e completo por mulheres – as sambadeiras – que respondem ao coro, batem palma e vão ao centro sambar. Esta breve definição que sofre pequenas variações a depender do local onde é praticado, tem o propósito de introduzir a reflexão que faremos a seguir sobre o samba de roda e a Cultura de Paz, definida pela Organização das Nações Unidas, em 1999, no seu artigo 1º, alínea “a”, como “um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados: No respeito à vida, no fim da violência e na promoção e prática da não-violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação”. (ONU, 1999). Essa Declaração, cujo objetivo principal é orientar os Governos, as organizações internacionais e as sociedades civis para promoverem uma convivência pacífica entre os seres humanos, pela via democrática, se pauta nos princípios de liberdade, justiça, solidariedade, respeito ao outro, à diversidade. Este artigo, fruto de uma pesquisa, em andamento, vinculada ao Doutorado Multiinstitucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC), com sede na Universidade Federal da Bahia (UFBA), examina como os princípios da Cultura de Paz estão presentes nos princípios formativos do samba de roda do Recôncavo Baiano e como eles se refletiram no processo da sua patrimonialização pelos órgãos oficiais brasileiros. Praticado em todo o Estado da Bahia, com maior frequência na região do Recôncavo Baiano – faixa litorânea que envolve a Baía de Todos os Santos – o samba de roda resulta de fluxos culturais entre europeus (especialmente os portugueses), africanos e brasileiros. Há, contudo, uma forte predominância das contribuições dos povos africanos de origem banto, que mantiveram uma ligação com seus antepassados e preservaram sua memória e tradições que vêm sendo perpetuadas por várias gerações. Matriz fundante, o samba de roda está na origem do chamado “samba carioca”, tocado e praticado de forma mais ampla em todo o país e conhecido internacionalmente como um dos maiores símbolos brasileiros sendo, inclusive, um grande divulgador do carnaval. Preservado pelas comunidades locais, o samba de roda é uma tradição praticada sobretudo por grupos de afro-brasileiros, marcados por fortes relações familiares, de
vizinhança, de amizade. Atualmente está integrado na vida social dos vinte municípios do Recôncavo, marcando presença nos festejos públicos e sociais. Mas nem sempre foi assim. Há cerca de dez anos, podia-se observar na região a falta de estímulo dos grupos de samba por não terem condições financeiras para se manter e não contarem com incentivos ou apoio governamental. Também era possível notar o desinteresse e a falta de identificação das novas gerações, influenciadas por novos estilos de músicas similares, como o samba de partido-alto ou o pagode. Os saberes dos mestres pareciam fadados a ficar apenas na memória dos mais antigos. (IPHAN, 2006). A necessidade de não se deixar perder a tradição do samba de roda fez com que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)3 o registrasse como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2005, e com que várias medidas e ações fossem tomadas para garantir a sua salvaguarda4 e conseguir o reconhecimento como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, o que veio a ocorrer no ano seguinte. A primeira dessas medidas foi a criação da Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia ou ASSEBA – uma vez que no momento da pesquisa para o registro não existia uma associação que pudesse ouvir todos os grupos existentes e que trabalhasse para a união dos detentores dos fazeres e saberes do samba de roda. Essa união seria fundamental, pois o título de patrimônio cultural é válido apenas por 10 anos e depois desse tempo ele precisa ser revalidado pelo mesmo período, com o objetivo de acompanhar as transformações ocorridas com o bem e avaliar seu potencial de relevância para identidade e memória 5 Isso ocorre somente se o bem for avaliado como relevante para a identidade e memória das comunidades que o praticam. Aliada à ASSEBA, pesquisadores, professores, produtores e órgãos públicos trabalharam juntos em prol da salvaguarda do samba de roda. Durante dez anos, coordenados por essa Associação, grupos que se desconheciam, ou quase não se relacionavam, aprenderam a conviver de forma solidária e colaborativa, pautada no diálogo, num exercício cotidiano democrático de respeito à diversidade. Este estudo busca refletir como tais atitudes, valores e comportamentos, inerentes à pratica e vivência do samba de roda foram adotados pela ASSEBA e os detentores dos seus saberes 3
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é uma autarquia federal brasileira, que responde pela preservação proteção e promoção e conservação dos bens culturais materiais e imateriais, além da sua conservação, salvaguarda e monitoramento. (Fonte: IPHAN. Disponível em <http://portal.iphan.gov.br/> 4 O termo salvaguarda é uma das palavras-chave das políticas internacionais sobre o patrimônio imaterial. (SANDRONI, 2010) 5 Explicação constante no Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3551.htm>
e fazeres para garantir a salvaguarda desse bem cultural. Quanto às fontes principais, baseamo-nos nas abordagens de três pesquisadores do samba: Katharina Döring, Petry Lordelo e Carlos Sandroni. Valemo-nos também dos estudos de Rívia Bandeira e Raiana Maciel que examinaram minunciosamente o processo de patrimonialização trazendo as perspectivas do IPHAN e as vozes dos sambadores e sambadoras. Para fazer esta reflexão, nas sessões que se seguem começamos por apresentar brevemente o contexto histórico do samba de roda, suas características, variações e múltiplas dimensões. Também procuramos analisar seu caráter holístico, comum às tradições africanas dos povos que vieram para o Brasil como escravizados, buscando refletir sua relação com os cultos religiosos afro-brasileiros e o catolicismo popular, e destacar ainda os possíveis aprendizados a partir da sua vivência, compatíveis com a cultura da paz. Para concluir, analisamos as medidas e ações realizadas pelos órgãos públicos, pesquisadores e a ASSEBA para garantir a sua salvaguarda, e as formas como elas refletiram na atitude e valores das comunidades que o praticam.
O samba de roda do Recôncavo Baiano O Recôncavo Baiano foi um dos primeiros espaços da ocupação portuguesa no Brasil. Marcado por um rico passado histórico, político e econômico, sua região foi a maior produtora de cana-de-açúcar e fumo da colônia, moedas do comércio escravista. Também ajudaram na constituição da identidade cultural da região, o artesanato ceramista, as zonas pesqueiras e a produção de mandioca (SANTOS; SERPA, 2015). Salvador, a capital do Estado e primeira do país, se localiza na entrada da baía e durante muito tempo dividiu com o município de Cachoeira – situado no interior da região, às margens do Rio Paraguaçu – um forte trânsito fluvial e ferroviário de mercadorias agrícolas e de escravos. Outras cidades e vilas foram se desenvolvendo na região em função da lavoura açucareira: São Francisco do Conde, Jaguaribe, Santo Amaro, São Félix, Saubara, estabelecendo uma rede de trocas econômicas, humanas e culturais. (PINTO, 1958). Uma dessas trocas culturais foi o samba de roda, moldado pela criatividade dos africanos que ali chegaram na condição de escravizados e seus descendentes que, a despeito das condições adversas, souberam traduzir as dores do cativeiro em livre expressão de alegria e festa, numa atitude de resistência e proteção da memória dos seus antepassados. A partir do século XIX, a região entrou em decadência com o declínio da economia açucareira, a evasão da mão de obra para a mineração de ouro e diamante na
Chapada Diamantina, localizada em outro estado brasileiro e também pela extinção do trabalho escravo. A partir da segunda metade do século XX, a descoberta de petróleo em Salvador e Candeias e a criação da Petrobrás e do Centro Industrial de Aratu (CIA) aceleraram o desenvolvimento de algumas cidades, mas determinaram o isolamento de outras como Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe. (SANTOS, 2009; IPHAN, 2006). A presença do passado opulento dos antigos centros da produção de açúcar ainda se vê clara na barroca arquitetura dos casarios, igrejas e prédios históricos de algumas cidades da região. “Mas a memória africana marcaria para sempre a musicalidade, os sentimentos, a forma de vestir, alimentar-se, divertir-se, de criar os filhos, de celebrar a vida e lidar com a morte. ” (FRAGA, 2010, p.8). Ela está traduzida especialmente nos candomblés, na capoeira e nos ritos secretos da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte6 (esta, exclusiva do município de Cachoeira). O samba de roda, contudo, talvez seja a maior dessas traduções afro derivadas do Recôncavo Baiano. Suas origens não são muito precisas, mas há relatos de viajantes e literatos da existência de formas culturais similares, encontradas desde o século XVII, com a disposição espacial em círculo de coreografias, onde uma mulher vai ao centro de cada vez, requebrando os quadris de forma sensual e dele se retira convidando uma outra mulher para o centro da roda, através de uma umbigada7. (SODRÉ, 1998). Contudo, as menções a um tipo de manifestação mais próximo do que se produz atualmente como samba de roda datam do século XIX. As estruturas do passado, tanto da dança como da música, próprias da cultura dos povos banto que chegaram em grande quantidade nos primeiros séculos da colônia, foram se moldando, ganhando novos contornos no encontro com as matrizes diversas presentes no Brasil, onde se juntaram instrumentos de origem ibérica como a viola machete, árabe, como o pandeiro, os atabaques, danças e ritmos africanos, até chegar ao que se reconhece hoje como samba de roda. É preciso, contudo, chamar atenção para a predominância da contribuição dos africanos para essa manifestação popular. Os descendentes do grande contingente de escravizados de outrora são hoje os trabalhadores que se ocupam das pequenas lavouras, da pesca de marisco, da produção de cerâmica ou do refino do petróleo. São eles os 6
A Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte é uma das confrarias mais antigas do país, formada por mulheres ligadas ao culto católico, mas também às práticas religiosas africanas, que no período da escravidão promoviam ajuda mútua e conseguiam angariar grandes quantias financeiras que resultaram em alforrias de seus irmãos e irmãs. 7 Umbigada é um giro dos quadris em torno do centro do corpo ou do umbigo. É a forma como as sambadeiras em geral convidam umas às outras para entrar no centro da roda para sambar. Uma das possíveis origens da palavra samba está relacionada com esse giro conhecido entre os povos banto do Congo e de Angola como semba ou giro em torno do umbigo.
detentores dos saberes e fazeres do samba de roda, os mestres e mestras, conhecidos como sambadores e sambadeiras. Os mais antigos, com idade média entre 60 e 90 anos, apresentam ainda muita vitalidade nos seus corpos para tocar ou dançar e participam de praticamente todas as manifestações culturais tradicionais. Eles herdaram o samba de roda de seus familiares. Quando ainda eram crianças, a cooperação nas tarefas de casa era hábito, assim como a realização de pequenos serviços para complementar a renda familiar. A maioria deles possui baixo grau de escolaridade, existindo mesmo aqueles que nunca foram à escola formal. Apesar das condições adversas e de não conseguirem sobreviver apenas do ofício de sambador ou sambadeira, desenvolveram um conhecimento e expertise que incluem valores não apenas estéticos, mas de cooperação, cidadania, dignidade, honestidade, respeito à tradição e ao outro. (DÖRING, 2012). Há uma relação estreita, ainda que não explícita, dos praticantes do samba de roda com o candomblé e o catolicismo popular, que também guardam em si experiências históricas e a criatividade de populações africanas e seus descendentes no Brasil. O samba de roda está presente nos eventos que ocorrem em dias dedicados aos santos católicos, como São Roque, que por sua vez está associado a Omolu ou Obaluaê, qualidade jovem e idosa de um mesmo Orixá, entidades espirituais dos candomblés Ketu ou nagô, ou São Cosme e São Damião, associados aos Ibejes, também pertencentes ao panteão das divindades dos referidos candomblés. É comum o pagamento de promessa ou obrigação a esses santos e/ou Orixás em rituais privados, culminando muitas vezes com o samba correspondendo à parte pública e festiva da cerimônia. (IPHAN, 2006) O etnomusicólogo Carlos Sandroni (2010), diferencia o “samba de roda” do “samba carioca” através de dois pontos. O primeiro deles é a organização da dança que é feita em círculo, não circunstancialmente, já que essa posição define o gênero “samba de roda”; o segundo é o tipo de canto responsorial mais aproximado do canto coletivo geralmente associado à música africana e afrodiaspórica. Assumindo denominações diversas, conforme se apresenta nos diferentes municípios do Recôncavo e de acordo com as variações melódicas, timbre dos instrumentos, repertório, estilos coreográficos e cênicos, duas são, porém, as principais modalidades agrupadas pelo Dossiê IPHAN 4, sob o nome “samba de roda”: o “corrido” e a “chula”. O “samba corrido” é como o próprio nome sugere, mais rápido, versos curtos repetidos pelo coro em resposta ao solista. Por sua vez, o “samba chula” é mais lento, “amarrado”, e tem uma estrutura musical mais elaborada. A principal diferença entre os dois, entretanto, se refere ao canto e à dança, sendo que o “corrido” é mais livre, não
apresenta muitas regras. Nele, enquanto o solista canta, junto com os instrumentos, as sambadeiras podem ocupar a roda não importando o número de pessoas ali dentro. Já na “chula”, o canto é respeitado pelas sambadeiras, que não dançam enquanto as vozes ecoam. E no momento em que somente se escuta o som dos instrumentos, elas se revezam sambando, uma a uma, no centro da roda. (IPHAN, 2006; DÖRING (2016). Contudo, o samba de roda não pode ser visto apenas como música ou como dança ou ainda puramente como uma prática social. Nada existe nele de forma isolada, tudo é parte de um todo, como afirma a pesquisadora de Trinidad e Tobago, Pearl Primus (2004), quando se refere à Dança Africana como uma arte que não deve ser vista de forma separada e, sim, parte de todo um complexo. Mais que isso, que ela é apenas uma parte do complexo, sendo que a cerimônia em si é o complexo, ou seja, uma performance que está também atrelada a outras linguagens e a uma religiosidade, onde corpo e espírito estão articulados. Neste sentido, o samba de roda guarda o caráter multidimensional e holística, da arte africana, onde música, dança, indumentária, literatura e expressão cênica fazem parte de um todo, onde o psíquico e o somático parecem estar em estreita associação e o corpo responde dialogicamente com a música, em performances individuais e coletivas. A esse respeito Muniz Sodré (1998, p. 61) também argumenta que no samba negro, “a música não se separa da dança, corpo não está longe da alma, a boca não está suprimida do espaço onde se acha o ouvido. ” E essa relação não dicotômica entre corpo e espírito fica bastante explícito, por exemplo, nas palavras de D. Dalma Damiana de Freitas, sambadeira do município de Cachoeira, uma das maiores lideranças dessa manifestação popular, ao tentar explicar a importância do samba de roda na sua vida: “ (...) lhe digo, eu estou com as pernas travadas de reumatismo, pressão circulando, a coluna também, mas quando toca o pinicado do samba eu acho que eu fico boa, eu sambo, pareço uma menina de 15 anos. ” (IPHAN, 2006). A pesquisadora e arte educadora Katharina Döring (2012) argumenta que a vivência no samba de roda proporciona uma formação abrangente que envolvem aprendizados estético e artístico; psicoemocional; sócio pedagógico, cultural e econômico. Tais aprendizados proporcionam entre outras coisas, um bem estar, canalização de energia, maturidade interior, engajamento, compromisso, capacidade de agir e reagir, preservação de valores culturais, expertise para administrar e lidar com projetos culturais, que possibilitam a união e a sobrevivência do samba de roda.
Enquanto prática cultural tradicional, a vivência no samba de roda envolve estilos de vida, comportamentos e aprendizados de valores condizentes com a cultura da paz. Ao vivenciar o samba de roda nos diversos eventos onde ele acontece ou participando como integrante de um grupo, o sujeito passa pouco a pouco a incorporar movimentos corporais e gestos próprios dessa tradição, que são impregnados de técnicas dos afazeres cotidianos e da experiência com a música e dança dos cultos afro-religiosos. Ele experimenta dividir o centro das atenções com os outros, a respeitar o momento adequado de cantar, bater palmas, entrar e sair da roda, a dialogar com a música e com os outros praticantes. Sem pressão, sente-se incluído, acolhido e livre para improvisar e criar.
A ASSEBA e o aprendizado da salvaguarda do samba de roda Logo após o registro do samba de roda como Patrimônio Imaterial do Brasil, em 2005, o IPHAN iniciou uma corrida para a candidatura do título de Obra Cultural da Humanidade pela Unesco, junto às comunidades dos praticantes do bem registrado. Era necessário que várias medidas e ações fossem realizadas para atender às exigências daquela Organização, entre elas a descrição detalhada do bem cultural proposto e um Plano de Ação de 05 anos. (SANDRONI, 2010) O Plano de Ação foi estruturado em quatro eixos (a organização, a transmissão, a difusão e a documentação). O eixo Organização estava relacionado com os procedimentos necessários para que fossem criados os mecanismos de decisão coletiva e de representação do conjunto dos sambadores e sambadeiras do Recôncavo. A Transmissão enfocaria o incentivo para despertar o interesse das novas gerações através de espaços escolares e não escolares. A Difusão envolveria o apoio necessário para que o samba de roda fosse divulgado nos meios de comunicação, através de espetáculos profissionais, CD, DVD, internet. O quarto eixo, a Documentação garantiria o acesso aos acervos provenientes de pesquisas realizadas sobre o tema. A estruturação desse plano não se deu de forma simples, uma vez que geograficamente o Recôncavo possui um grande território, onde as tradições do samba de roda foram desenvolvidas de formas bastante diferentes, onde os diferentes grupos trabalhavam de forma isolada e muitas vezes não se conheciam. Foi necessária a realização de reuniões itinerantes, envolvendo cerca de quarenta grupos de sambadores e sambadeiras, para o entendimento do que significava o reconhecimento como patrimônio e os encaminhamentos de ações para a candidatura da UNESCO. Após várias reflexões, as comunidades do samba de roda apresentaram o desejo de constituir uma associação
que ouvisse suas demandas e estabelecesse uma interlocução com os governos locais e federal. Em 2005, no III Encontro de Sambadores. Foi criada a Associação dos Sambadores e Sabadeiras do Estado da Bahia (ASSEBA) que passou a ser a instância que dialoga com o IPHAN no Brasil na Bahia. (ALENCAR, 2010,2015). Dentro do eixo da Transmissão, houve o apoio financeiro da UNESCO para a salvaguarda da viola machete, instrumento característico do samba chula, que estava desaparecendo por falta de conhecimento de sua execução e fabricação – o último artesão de machetes havia falecido nos anos 1980. Em 2005 havia apenas um músico do Grupo Samba Chula Filhos da Pitangueira no município de São Francisco do Conde, o mestre Zé de Lelinha, com 82 anos, que possuía o instrumento em perfeito estado. O IPHAN arcou com os custos de uma oficina para jovens ministrada pelo Sr. Zé de Lelinha e investiu 25 mil dólares na confecção de novas machetes por um luthier local. (SANDRONI, 2010; MACIEL, 2007) No item Difusão, o IPHAN financiou a produção de um CD com livreto, com seleção do repertório dos grupos nas gravações realizadas em 2004, quando da realização da pesquisa para a UNESCO. Posteriormente lançou um livro – o Dossiê IPHAN 4 – Samba de Roda do Recôncavo Baiano (IPHAN, 2006) – repleto de imagens, mapeamento de grupos de samba de roda em 20 municípios e 33 localidades da região do Recôncavo Baiano. O livro vem acompanhado de CD com uma hora de música e DVD com registros audiovisuais do samba de roda. O trabalho traz ainda informações valiosas sobre a função social, cultural e simbólica do samba de roda, com descrição das características das suas várias modalidades e socializa o Plano de Salvaguarda. No que se refere ao eixo Documentação, em busca da salvaguarda da documentação existente no Brasil e no exterior, proveniente de pesquisas acadêmicas e folcloristas acerca do samba de roda, e também para o desenvolvimento de atividades que integrassem os grupos de sambadores e sambadeiras entre si e com a sociedade, foi criado o Centro de Referência do Samba de Roda, no município de Santo Amaro, ou Casa do Samba, como é mais conhecido. Faz-se necessário chamar atenção para o fato de que o Plano de Ação foi posto em prática através de um trabalho conjunto entre os órgãos públicos, pesquisadores, parceiros favoráveis à causa do samba de roda e, sobretudo, pelos esforços da ASSEBA, cujos associados eram os sambadores e sambadeiras, pessoas que desconheciam ou tinham dificuldades de compreensão sobre os mecanismos de obtenção de recursos públicos ou privados para a realização das suas ações. O desejo da salvaguarda do samba
era coletivo e os associados procuraram estender os benefícios para outras comunidades praticantes em toda Bahia, o que revela o seu espírito de inclusão. Por este motivo, dirigiremos o nosso foco, nos próximos parágrafos, para essa associação. O quadro gestor da ASSEBA é formado por quatro coordenações: Geral; Financeira; Pesquisa; Cursos e Eventos e Comunicação Social:
Entre os 12 itens que
compõem o seu regulamento estão: a realização de atividades destinadas ao fortalecimento do samba de roda e reconhecimento dos sambadores e sambadeiras do Estado da Bahia; a divulgação dos produtos que venham a ser gerados pelos grupos; a atuação na proteção dos direitos de uso de imagem, autoria e proteção do patrimônio imaterial; e da efetivação de programas voltados para crianças, adolescentes e jovens. O regulamento traz ainda um olhar para as produções e manifestações afro-brasileiras, para as questões de igualdade racial, intolerância religiosa e recuperação da história e memória de afro-brasileiros, mostrando que a salvaguarda do samba terminou por suscitar outras demandas relacionadas com o viver e a cidadania dos sambadores e sambadoras. Logo após a sua criação, a ASSEBA passou a realizar reuniões mensais, contando para isso com a parceria do IPHAN e de alguns pesquisadores. Aos poucos, os sambadores e sambadeiras foram se empoderando, conseguindo superar a falta de conhecimento e as dificuldades, passando a ter autonomia na direção das reuniões e na realização de suas ações. Para lidar com a burocracia exigida por editais e demais mecanismos de patrocínios e dessa maneira conseguir recursos suficientes para suas atividades, seus técnicos fizeram quatro oficinas de capacitação e quatro para elaboração de projetos com gestores dos grupos de samba de roda e agentes culturais da região. (ALENCAR, 2010). Essas oficinas foram fundamentais para a conquista de novas parcerias financeiras e para que as ações da associação se ampliassem cada vez, criando datas e momentos propícios para apresentação do samba de roda dentro do estado da Bahia. Buscou-se também melhorias para os seus associados em termos de saúde, com parcerias com secretarias de governo (agricultura e saúde); com implantação de política para mulheres (delegacia da mulher em todos os municípios e efetivação da Lei Maria da Penha8); com realização de cursos de profissionalização na área de artesanato, arte culinária. Passados 10 anos da outorga do título pelo IPHAN, constata-se uma série de mudanças em relação à posição que o samba de roda ocupa hoje na Bahia como bem
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A Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha foi sancionada pelo Presidente da Rebública do Brasil em agosto de 2006 para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
cultural, especialmente no Recôncavo Baiano. Entre as realizações da ASSEBA e seus parceiros estão o registro musical de 05 grupos de samba de roda da Bahia através do Catálogo e da coletânea de CDs “Sambadores e Sambadoras da Bahia”; o DVD “Samba de Viola Machete do Recôncavo”, que traz informações, depoimentos de mestres, aulas e um livreto com tablaturas e exercícios práticos para tocar a viola machete; o lançamento de um livro e um DVD sobre as mulheres no samba de roda e um livro e uma cartilha que inclui um DVD e CDs sobre o samba chula, com o registro vocal desse variação – talvez a mais tradicional – do samba de roda. Tudo isso é muito significativo enquanto preservação da memória dos saberes tradicionais, possibilitando o acesso não somente aos grupos da região, mais a educadores e a qualquer pessoa que queira aprender um pouco sobre esse bem cultural. A realização de cada um desses produtos foi idealizada e gerida em conjunto, com colaboração de todos e respeito às diversidades. Isso não significa que não houveram conflitos, sejam de ordem geracional ou conceitual. Contudo, o objetivo comum de fortalecer o samba de roda e as comunidades praticantes sempre prevaleceu e cada conquista foi celebrada com reuniões festivas com a presença de mestres vindo de seus municípios, regadas a comida e muito samba na mão e no pé. Outra mostra do fortalecimento do samba de roda é o aumento do número de grupos associados, somando hoje 161. Por outro lado, em 2011, ainda como parte do plano de salvaguarda, num convênio entre a ASSEBA e o Ministério da Cultura foram criadas ou fortalecidas Casas de Samba em 15 cidades do Recôncavo Baiano, voltadas sobretudo para a transmissão de saberes dos mestres e mestras para as crianças e jovens das suas comunidades. Isso implicou numa série de oficinas e na criação de 11 grupos de samba de roda mirins em diferentes municípios, com a promoção de encontro entre eles. Na educação dessas crianças é ressaltada a centralidade da oralidade, a importância da observação, das práxis e da convivência no aprendizado da música e da dança, noções sobre a cultura local e educação patrimonial. (FREITAS, 2016). Portanto, nesses grupos não se aprende a tocar e cantar o samba, mas a viver nele, respira-lo, a ama-lo como um patrimônio herdado dos seus ancestrais. Aprende-se a escutar e respeitar o outro, os mais velhos, a colaborar com eles. Aprende-se princípios que fazem parte da Cultura de Paz. Os trabalhos realizados pela ASSEBA foram motivos para sua condecoração com o título da Ordem de Mérito Cultural, dado pelo Ministério da Cultura em 2013. (MINC 2013). Aliado a isso, dois sambadores, D. Dalva Damiana de Freitas, do município de Santo Amaro e Antônio Ribeiro da Conceição, conhecido artisticamente como Bule-Bule,
receberam o título de Doutor(a) Honoris Causas por duas universidades – a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Universidade Polo de Lauro de Freitas. Isso denota o reposicionamento do samba de roda na sociedade e o entendimento da sua importância para a herança cultural africana no Brasil. Em 2015, no 8º. Encontro de Mestres e Mestras do Samba de Roda, os sambadores e sambadeiras responderam afirmativamente ao questionamento do IPHAN para a revalidação do título de Patrimônio do Brasil. Tal procedimento obedece ao artigo 7º. do Decreto 3.551/00 de 04 de agosto de 2000, que assinala que o IPHAN, pelo menos a cada 10 anos, fará a reavaliação dos bens culturais registrados e encaminhará ao seu Conselho Consultivo para a decisão da revalidação do título, com o objetivo de acompanhar as transformações ocorridas com o bem e avaliar seu potencial de relevância para identidade e memória. A resposta afirmativa dada em coro pelos mestres e mestras em resposta ao IPHAN, sambadores e sambadeiras no referido Encontro onde uma das autoras esteve presente, significa uma anuência oral coletiva, com um único desejo: fortalecer e salvaguardar o samba de roda
Considerações Finais Este artigo propôs-se a refletir o samba de roda enquanto manifestação cultural de matriz africana, patrimônio imaterial do Brasil e sua relação com atitudes, valores e comportamentos relacionados com a Cultura de Paz, definida pelas ONU como propulsores de relações humanas pacíficas, onde o diálogo, cooperação, respeito ao outro e à diversidade, são alguns dos itens fundamentais. Para isso trouxemos informações acerca de como essa prática cultural acontece no Estado da Bahia, especialmente na região do Recôncavo Baiano, do contexto histórico da sua candidatura ao título de ObraPrima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco e dos esforços do IPHAN e da ASSEBA para salvaguardar esse bem e garantir a revalidação do título brasileiro. Considera-se aqui que um indivíduo entende o mundo por meio de uma série de discursos preexistentes e que práticas tradicionais podem permitir a inserção desse indivíduo na história mundial. Neste artigo, foram relatadas as experiências dos sambadores e sambadeiras do samba de roda, uma manifestação afro-brasileira cuja origem está na tradição dos povos bantos. Essas experiências mostraram que é possível cuidar da manutenção de um bem cultural imaterial a partir de uma prática democrática
pautada em diálogos e cooperação e, ao mesmo tempo, colaborar para fortalecimento de uma identidade cultural e o aumento da capacidade de ação na sociedade. O registro do samba de roda como Patrimônio Imaterial do Brasil pelo IPHAN e da Humanidade pela UNESCO possibilitaram que alguns ensinamentos ancestrais, que estavam sendo perdidos e certamente morreriam com os seus mestres, pudessem ser transmitidos para as novas gerações. Isso foi possível através de esforços conjuntos dos órgãos federais e estaduais envolvidos com o patrimônio imaterial, de pesquisadores que serviram de mediadores entre o governo, sobretudo, dos sambadores e sambadoras e sua associação, a ASSEBA. Seus gestores, aprenderam a lidar com os trâmites burocráticos da gestão de recursos provenientes do MinC e os pormenores normativos de editais de patrocínio e assim poder executar suas ações e projetos. A gestão dessa associação, durante o período dos seus dez primeiros anos, para a salvaguarda do bem, focada não apenas para a prática do samba de roda em si, mas também para a difusão do conhecimento entre as gerações mais jovens, manutenção da memória e para a melhoria do bem estar das comunidades que o praticam, revela uma prática democrática, com compromisso e envolvimento nas ações realizadas em colaboração e respeito à diversidade e alteridade, princípios fundamentais para uma Cultura de Paz. A dinâmica e expressão do samba de roda é caracterizada pelo estabelecimento de diálogos musicais e corporais, respeito à tradição, aos mais velhos e a diversidade, cooperação, acolhimento, criatividade. Todas essas características que são praticadas e/ou adquiridas durante a formação dos sambadores e sambadeiras – e que também então dentro dos princípios da cultura da paz – parecem ter sido repassadas para o exercício cotidiano do fazer e autogerir da ASSEBA ao longo dos quase onze anos de registro do samba de roda como Patrimônio Imaterial do Brasil. Numa reunião de esforços conjuntos, os papéis da prática do samba de roda e dos detentores dos seus saberes e fazeres do foram reposicionados no cenário cultural da Bahia, especialmente no Recôncavo Baiano – onde é possível encontra-lo presente em praticamente todas as manifestações populares – e deu destaque ao fazer dos mestres e mestras, conferindo-lhes respeito e notoriedade. Por outro lado, o fato desta tradição ser trabalhada em dinâmicas culturais do cotidiano é uma boa reflexão sobre os enfretamentos aos desequilíbrios sociais que a força destas comunidades enfrenta. Isso nos sinaliza a potência dessa expressão artística e social afro derivada brasileira na formação dos sujeitos para agirem de forma significativa e pacífica na sociedade.
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