A IRREVERÊNCIA CARNAVALIZADA DAS RUAS
Solange Gusmão de Andrade 1 Resumo: O presente trabalho tem o propósito de apresentar parte do resultado do curso de Mestrado em Estudos de Linguagem da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), cuja dissertação intitula-se Nas trilhas do Cordel baiano: conteúdos simbólicos e efeitos de sentidos2. A fim de compreender as imagens materializadas no Cordel contemporâneo, constatou-se a necessidade de buscar aproximação com o conceito de carnavalização descrito por Bakhtin. Apesar dos avanços tecnológicos da modernidade, verificou-se que os ecos do passado continuam presentes no Cordel baiano, mesclados às novas tendências contemporâneas. Muitos conteúdos simbólicos da Idade Média continuam presentes nesses textos adaptados ao contexto atual. Palavras-chave: Cordel. Discursos. Carnavalização. Modernidade. 1 Introdução Este estudo é parte do resultado do curso de Mestrado em Estudos de Linguagem da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), cuja dissertação, desta autora, intitula-se Nas trilhas do Cordel baiano: conteúdos simbólicos e efeitos de sentidos (2012). Apesar de ter sido utilizada a Análise de Discurso de linha francesa como fundamentação teórica nesse trabalho, constatou-se a necessidade de buscar aproximação com o contexto de Françoise Rabelais descrito na obra de Bakhtin (2010, p. 27), A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, a fim de compreender “o tipo específico de imagem da cultura popular” em suas manifestações na Literatura de Cordel da atualidade. Verificou-se que, mesmo fazendo parte de outro contexto histórico, os cordelistas baianos contemporâneos preservam o “caráter extraoficial” descrito por Bakhtin (2010, p. 62) ao se referir à cultura popular da Idade Média, privilegiados pela ampla liberdade de expressão das ruas. Apesar dos avanços tecnológicos da modernidade, verificou-se, nesse estudo, que os ecos do passado continuam presentes no cordel baiano, mesclados às novas tendências contemporâneas. Muitos conteúdos simbólicos da Idade Média continuam presentes nos cordéis, adaptados, evidentemente, ao contexto atual. Por exemplo, são representações recorrentes: o burro simbolizando a
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Universidade do Estado da Bahia. sogusmao@gmail.com. Orientadora: Profa. Dra. Rosa Helena Blanco Machado.
transformação e a figura do diabo, que representa o “alegre porta-voz de opiniões não oficiais” (BAKHTIN, 2010, p. 36). Portanto, o propósito principal deste artigo é aplicar os estudos bakhtinianos sobre o discurso à Literatura de Cordel baiana contemporânea, com ênfase no conceito de carnavalização. Através de um “gesto” de interpretação possível, pretende-se relacionar diferentes discursos, a fim de determinar os conteúdos ideológicos que os constituem e que compõem esse tipo de linguagem. Dessa forma, os cordéis escolhidos materializam a visão carnavalizada de mundo na Literatura de Cordel baiana contemporânea. Eles são organizados em três grupos distintos: a) os que discutem a relatividade das verdades na política, religião e nas relações interpessoais, indo de encontro aos padrões vigentes; b) os que apresentam a realidade ao avesso, desconstruindo padrões pré-estabelecidos; c) os que apresentam a degradação como forma de entrar em contato com a vida da parte inferior do corpo (ventre, órgãos genitais), a fim de “dar lugar a um novo nascimento: o princípio material e corporal” (BAKHTIN, 2010, p. 18-19). Através da análise dos discursos ideologicamente constituídos, são relacionados os conteúdos simbólicos que compõem a linguagem carnavalizada, levando-se sempre em consideração que o sujeito fala no interior de uma “rede de interlocução” (SOBRAL, 2009, p. 55) e que ocupa diferentes posições-sujeito, em diferentes situações de enunciação. Será possível, também, refletir sobre os anseios, sentimentos e frustrações de um povo, que busca, através da literatura popular, retratar a sua realidade através da imaginação, do seu conhecimento de mundo, das vivências que ficaram registradas em sua memória ou outras, que mesmo afetadas pelo esquecimento, continuam produzindo seus efeitos. 2 Referencial teórico-analítico Este estudo está baseado nos pressupostos teóricos descritos por Bakhtin (18951975), particularmente os estudos sobre o discurso, com ênfase no conceito de carnavalização. Além das referências ao pensamento marxista, esse dispositivo teóricoanalítico relaciona aspectos linguísticos às relações sociais e à história. Para Bakhtin todo discurso é “arena de vozes”; é lugar de enfrentamento, de encontro ou desencontro com o outro. É no processo de interação, do intercâmbio verbal, que os “papéis sociais” são explicitados em situações concretas de uso da linguagem.
O sujeito “fala no interior de uma ‘rede de interlocução’ através da qual ocupa diferentes posições-sujeito, em diferentes situações de enunciação.” (SOBRAL, 2009, p. 53). Assim, os sentidos que surgem nas situações concretas de uso da linguagem, não são criações totalmente inéditas dos sujeitos no processo de interação, mas advêm das relações sociais. Outro conceito fundamental para este estudo refere-se ao que Bakhtin (2009, p. 123) denomina de “ideologia do cotidiano”, que, segundo o autor, constitui “o domínio da palavra interior e exterior desordenada e não fixada em um sistema, que acompanha cada um dos nossos atos ou gestos e cada um dos nossos estados de consciência”. Muitas invenções populares, inclusive a Literatura de Cordel, estão impregnadas espírito popular: crenças e valores vão se transformando na medida em que essas histórias são recontadas, e cada contador vai deixando sua marca naquilo que conta. Portanto, não existem critérios pré-definidos. Tudo acontece aleatoriamente, compondo uma vasta rede de sentidos interligados e desordenados que compõem o imaginário popular e se constitui na ideologia do cotidiano. Por outro lado, para entender as imagens e os conteúdos simbólicos na obra de Rabelais, Bakhtin (2010) empreendeu um minucioso estudo das fontes populares 3, que tiveram origem na Antiguidade, tomando por base os princípios estéticos do realismo grotesco: concepção estética, herança da cultura cômica popular, que teve como traço marcante “o rebaixamento, isto é, a transferência ao plano material e corporal, o da terra e do corpo na sua indissolúvel unidade.” (BAKHTIN, 2010, p. 17, grifo do autor). Bakhtin (2010) define esta concepção como o princípio material e corporal que está relacionado às imagens do corpo, da bebida, da comida, da satisfação das necessidades naturais e da vida sexual. A ambivalência permite compreender o mundo sobre outro ponto de vista: degradar para regenerar. “Tudo que é limitado, característico, fixo, acabado, precipita-se para o “inferior” corporal para aí ser refundido e nascer de novo” (BAKHTIN, 2010, p. 46). Partindo do princípio de que o carnaval da Idade Média representava uma forma de romper os limites e proibições medievais, opondo-se “à cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época” (BAKHTIN, 2010, p.3), Bakhtin amplia o conceito para uma visão carnavalesca do mundo, que ele denomina de grotesco carnavalesco e uma linguagem carnavalesca que têm Rabelais como seu principal porta-voz. A primeira refere-se à liberdade e ousadia de expressão; ao reconhecimento da relatividade das 3
A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.
verdades; à possibilidade de uma ordem totalmente diferente no mundo; a ir de encontro aos pontos de vista dominantes; à aproximação de tudo o que está distante através do riso. Quanto à segunda, ele afirma que “todas as formas e símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo da alternância e renovação.” (BAKHTIN, 2010, p.10). As grosserias blasfematórias dirigidas às divindades, por exemplo, eram ambivalentes: ao mesmo tempo em que degradavam e mortificavam, simultaneamente, regeneravam e renovavam; apresentavam-se pela lógica das coisas “ao avesso”; pela alternância constante do alto e do baixo; pelos coroamentos e destronamentos. 3 A linguagem carnavalizada das ruas Buscando-se aproximação com o estudo do contexto de François Rabelais descrito na obra de Bakhtin (2010, p. 27), A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, serão analisados os conteúdos simbólicos de alguns cordéis que fazem parte do corpus. Bakhtin afirma: [...] A riquíssima cultura popular do riso na Idade Média viveu e desenvolveu-se fora da esfera oficial da ideologia e da literatura elevada. E foi graças a essa existência extraoficial (sic.) que a cultura do riso se distinguiu por seu radicalismo e sua liberdade excepcionais, por sua implacável lucidez. Ao proibir que o riso tivesse acesso a qualquer domínio oficial da vida e das idéias (sic.), a Idade Média lhe conferiu em compensação privilégios excepcionais de licença e impunidade fora desses limites: na praça pública, durante as festas, na literatura recreativa. E o riso medieval beneficiou-se com isso ampla e profundamente [...] (BAKHTIN, 2010, p. 62).
É importante destacar que mesmo fazendo parte de outro contexto histórico, os escritores da Literatura de Cordel baiana preservam esse caráter “extraoficial”, privilegiando a liberdade de expressão das ruas, com “implacável lucidez”. Apesar dos avanços tecnológicos da pós-modernidade, os ecos do passado continuam presentes, mesclados às novas tendências contemporâneas. 3.1 A relatividade das verdades: política, religião e relações interpessoais Bakhtin (2010, p. 54) argumenta que a verdadeira natureza do realismo grotesco, herança da cultura popular, é “a expressão da plenitude contraditória e dual da vida” em que existem os dois lados da realidade em sua unidade contraditória: nascimento e morte, o novo e velho, posturas antigas e inovadoras, o bem e o mal etc. Nos textos estudados a seguir, o riso tem uma função de destaque na expressão do pensamento popular porque ele permaneceu sempre com “uma arma de libertação nas mãos do povo” (BAKHTIN, 2010, p. 81) e, por outro lado, segundo Bakhtin, ”ninguém conseguiu jamais torná-lo oficial”. O texto Luís Inácio da Silva o homem que não sabia, do cordelista Jotacê Freitas (Salvador), por exemplo, apresenta o escândalo do Mensalão e discute a
participação de Lula como representante do povo e presidente da República. Da mesma forma que o rei é ridicularizado na obra de Rabelais, Lula também é ridicularizado pelo mesmo povo que o elegeu. Nesse sentido, a cultura popular da atualidade se aproxima da cultura popular da Idade Média. Bakhtin (2010, p. 172) afirma que “nesse sistema o rei é o bufão, escolhido pelo conjunto do povo e escarnecido por esse mesmo povo”. Como o Judas que é malhado em praça pública por ter traído Jesus, as “grosseriasdestronamento” representam as “pauladas carnavalescas” no “velho poder” que corrompe e trai o povo. Por isso, a linguagem empregada retrata a fúria e a indignação da praça pública. “As palavras banais são banidas e substituídas por palavras injuriosas” (Bakhtin, 2010, p. 368). Dessa forma, Jotacê afirma que o homem que “era um honrado operário” se transformou em um “pilantra, sabotador da esperança, sacripanta salafrário”, “pegou todas as porcarias, jogou no ventilador”, “foi irônico e sarcástico”, “um canastrão bem dramático” (JOTACÊ, 2009, p. 11-13). Todos os adjetivos expressam a indignação do cordelista porque o ex-presidente Lula traiu a confiança dos eleitores: [...] Luís Inácio fez pacto Com o corrupto Satanás Queria era cagar ouro E não morrer nunca mais Pra presidir o Brasil Manda à puta que o pariu Quem lhe passar para trás [...] A linguagem injuriosa rebaixa para expurgar o mal que tantos escândalos trouxeram para a nação. Por isso, Luís Inácio queria “cagar ouro” e “manda à puta que pariu / quem lhe passar para trás”; isto é, a usura que corrompe e deforma o caráter do “sapo barbudo valente” (JOTACÊ, 2009, p. 15) (típica imagem grotesca que mistura formas de animais com características humanas), do defensor das causas populares. Ao se candidatar à presidência da República, Lula se transformou em um símbolo da ascensão do povo ao poder. A ambivalência está representada da seguinte forma: o antigo que morre, como argumenta Bakhtin (2010), e o novo que representa a necessidade da “consciência com decência” (JOTACÊ, 2009, p. 10) que se contrapõe a “meter a mão no erário”, isto é, roubar os cofres públicos que “cria onipotência” e “onisciência”, isto é, representa o poder absoluto de quem tudo pode, mesmo prejudicando e espoliando a nação:
[...] E eles pegaram gosto Pelo fazer o errado Mentir para o povo inteiro Meter a mão no erário Isso cria onipotência Com rasgos de onisciência Em doutos e operários [...] Bakhtin (2010, p. 78) reflete sobre a importância do riso na Idade Média como uma forma de se contrapor “às interdições” e “às restrições”, relacionadas ao medo, nesse período, que está associado ao misticismo, ao poder do discurso religioso ou à incompreensão das forças da natureza e, sobretudo, à moral que “acorrentava, oprimia e obscurecia a consciência do homem” da Idade Média. Nesse sentido, esse medo é vencido, transformando tudo o que era terrível em “espantalho cômico”, em “alegre espantalho” (BAKHTIN, 2010, p. 79). Por outro lado, quando se trata de cordéis cujo tema central é a religiosidade, a figura do diabo ocupa um lugar de destaque. Ele atua como um personagem na história Carta de satanás a um pastor, de Gilton Thomaz (Ilhéus), relativizando verdades ao ir de encontro ao discurso do pastor que vive de “fazer enganação” (THOMAZ, p. 6), prometendo salvação. Bakhtin (2010, p. 36) destaca que, na cultura popular da Idade Média, “o diabo é um alegre porta-voz ambivalente de opiniões não-oficiais (sic.), da santidade ao avesso, o representante do inferior material etc.” que não tem nada de aterrorizante. O mesmo acontece no cordel Carta de Satanás a um pastor na passagem em que o diabo dá o seguinte conselho ao pastor: [...] Peço que me deixe em paz Tenha de mim compaixão Sempre fui um bom sujeito Tenho um grande coração. Se tu fores meu amigo, Vais ter minha proteção [...] O diabo, protagonista da história, materializa a figura do “espantalho alegre” que dá “um duro dos diabos” e que lamenta a atitude dos pastores: por não terem agradado ao “pai eterno”, ou seja, a Deus, logo ele verá a todos “zanzando” no inferno:
[...] Tenho a lhe dizer pastor Honroso Simples Fraterno O que fazem neste mundo Magoa teu pai eterno Assim eu vejo todos Zanzando no meu inferno [...] Sagrado e profano dividem o mesmo espaço, compondo uma estranha unidade contraditória. Nesse sentido, Bakhtin (2010) argumenta: [...] Esses discursos contribuem para criar a atmosfera especial da praça pública com o seu jogo livre e alegre, no qual o superior e o inferior, o sagrado e o profano adquirem direitos iguais e são incorporados em coro na ronda verbal (BAKHTIN, 2010, p. 138).
As coisas também são apresentadas fora da sua ordem natural no cordel A corrida da lebre e a tartaruga, de Gilton Thomaz. A esperteza da tartaruga, “honesta, generosa”, é condição essencial para driblar a desvantagem diante da rapidez da lebre “avarenta,desleal, gananciosa”. Na corrida, a tartaruga consegue vencer sua adversária, colocando outras tartarugas ao longo do caminho para substituí-la durante a competição: [...] A tartaruga era malandra Muito esperta, genial Para vencer a tola lebre, Convocou seu pessoal Por serem todas parecidas Enganaram sua rival [...] Para driblar o mal, a tartaruga usa a astúcia, conseguindo vencer a deslealdade e a ganância da lebre. O cordelista caracteriza a malandragem como atributo essencial para vencer obstáculos intransponíveis, compondo também a unidade pela adversidade: o mal existe para ser superado pela esperteza, caracterizando “o par cômico tipicamente carnavalesco” (BAKHTIN, 2010, p. 176). Em condições desiguais, ocorre o destronamento dos mais fortes e a superação e a “renovação” dos mais fracos. 3.2 Realidades ao avesso Nesta seção, busca-se analisar o grotesco carnavalesco como “fenômeno em estado de transformação” (BAKHTIN, 2010, p. 21), em que as imagens são apresentadas de forma contrária ao que está, convencionalmente, estabelecido. Segundo Bakhtin (2010), alguns princípios norteiam a compreensão dessa concepção estética e que serão exemplificados durante a análise dos cordéis: 1) a ousadia da invenção; 2) a busca por aproximar realidades distantes; 3) a libertação de tudo o que é convencional, isto é, dos pontos de vista dominantes; 4) a compreensão de uma ordem diferente para o mundo – a transgressão.
O cordel O jumento que entrou na faculdade, de Jotacê Freitas, subverte completamente a ordem habitual dos fatos. A imagem do burro, normalmente associado à subjugação e à exploração, se rebela, e transforma sua vida através do estudo. Bakhtin (2010) justifica a utilização da figura do jumento no imaginário popular da seguinte forma: [...] O asno é um dos símbolos mais antigos e mais vivos do “baixo” material e corporal, comportando ao mesmo tempo um valor degradante (morte) e regenerador. Basta lembrar Apuleio e seu Asno de Ouro, os mimos de asnos que encontramos na Antiguidade e, finalmente, a figura do asno símbolo do princípio material e corporal nas lendas de São Francisco de Assis. A festa do asno é um dos aspectos desse motivo tradicional extremamente antigo [...] (2010, p. 67)
Bakhtin (2010, p. 184) menciona que o “sistema de imagens da festa popular formou-se efetivamente e viveu durante milênios”. À medida que as transformações vão ocorrendo, novos sentidos são incorporados às ideias antigas. São como camadas que vão se superpondo e “a língua das imagens, (da festa popular)” ganha “novos matizes” na contemporaneidade. No exemplo do jumento que entrou na faculdade, o ato de ousadia do cordelista ao compor uma história tão inusitada como essa transgrede e liberta o pensamento “dos pontos de vista dominantes”. Figura 1- Jotacê (capa)
[...] Encheu o caçuá de livros Lápis, papel e caneta [...] Pra enxergar letra grande Ir pra onde a mente mande Sem ter medo de careta [...] Escola tem que ter arte Indisciplina e prazer Cega desobediência Aos donos do poder Criar fantasia elástica Na massa neo-encefálica Ressuscitando o saber [...]
A imagem carnavalizada da capa aproxima realidades distantes: primeiro, o ser subjugado que consegue a libertação através do estudo indo “pra onde a mente mande”; e, segundo, a postura ereta do burro, vestido com uma beca de formatura, se assemelha à forma humana, compondo uma estranha alegoria. Na segunda estrofe acima, o cordelista compõe uma nova ordem para o ensino tradicional: “escola tem que ter arte/Indisciplina e prazer”, isto é, a arte liberta o pensamento e, através dela, é possível formar pessoas criativas, felizes e autônomas.
Além disso, a “cega desobediência aos donos do poder” remete, implicitamente, ao poder que o conhecimento pode proporcionar que se contrapõe aos “donos do poder” que subjugam, massificam e deturpam os conteúdos ensinados nas escolas. Somente através do estímulo ao pensamento autônomo e criativo, da “fantasia elástica”, ou seja, da inventividade sem limites, pode-se ‘ressuscitar’ o saber de posições dogmáticas que não contribuem para melhorar as condições de vida das pessoas. Aproximando realidades distantes, Anastácia Rasta também subverte os sentidos originais da história de Chapeuzinho Vermelho, no cordel A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau, apresentando uma menina da atualidade que vive conectada à internet e reencontra o Lobo que, ao tentar enganá-la, foi visto através da webcam. Além de parafrasear a história original, acrescentando-lhe novos sentidos, a cordelista apresenta outros padrões de comportamento, diferentes da realidade de uma menina do século XIX: [...] Ele a adicionou Na maior cara de pau Descobriu o seu e-mail E achou isso genial Mandou logo uma mensagem Dizendo veja a imagem De seu amigo Lobo Mau [...]
[...]−Lobo Mau, cabra safado Não me venha com besteira Saiba que sou criança Mas não tô de brincadeira Você não vai me enganar Nunca vou acreditar Em sua grande bobeira [...]
A ousadia da cordelista consiste em subverter a história original, apresentando outra versão da personagem Chapeuzinho Vermelho que vive conectada à internet, não tem medo de lobo e não se deixa intimidar. Esse “sistema de imagens” (BAKHTIN, 2010, p.184) que se adequa completamente à realidade contemporânea, transforma ideias populares antigas, filtrando, apenas, o que é essencial: a transformação do medo em coragem− a renovação. Por outro lado, cai a máscara do lobo, “cabra safado” (típica expressão popular do Nordeste brasileiro), que utilizou a internet como subterfúgio para enganar a menina, mas não consegue intimidá-la, como na versão original da história. 3.3 O princípio material e corporal Além do que foi destacado nas seções anteriores, o espírito carnavalesco descrito por Bakhtin (2010, p. 46), que ele denomina de grotesco carnavalesco, tem por base o princípio material e corporal já descrito, que está relacionado às imagens do corpo, da bebida, da comida, das satisfações das necessidades naturais e da vida sexual. O autor afirma que tudo que é fixo e imutável se transfere para o baixo corporal para ser
“refundido e nascer de novo”. Ou seja, degradar para regenerar. Nesse sentido, ele afirma: [...] Todas essas imagens topográficas visavam a fixar o próprio momento de transição e da alternância, a de duas autoridades e duas verdades, a antiga e a nova, a agonizante e a nascente. O ritual e as imagens da festa visavam encarnar o próprio tempo que simultaneamente trazia a morte e a vida, que transformava o antigo em novo, e impedia toda possiblidade de perpetuação [...] (BAKHTIN, 2010, p. 70-71).
As imagens topográficas estão relacionadas ao “alto”, céu e cabeça e ao “baixo” pela terra, os órgãos genitais, o ventre e o traseiro. Degradar significa “entrar em comunhão com a vida da parte inferior do corpo” (BAKHTIN, 2010, p. 18-19): gravidez, parto, coito, satisfação de necessidades naturais. Tomando por base esse princípio, serão analisados os textos da literatura de cordel baiana que se seguem. No cordel O coronel de saia, de Franklin Maxado (Feira de Santana), o cordelista descreve a história da viúva que jurou virar uma aranha depois de ter sofrido uma tentativa de estupro na época do coronelismo. Todo o homem que a possuísse teria “a sorte tamanha”, mas teria também o azar da morte. Apesar de ela enfrentar como homem a vida, “se entregava como fêmea” ao prazer. Como foi visto anteriormente, esta ambivalência, prazer e morte, rebaixa e mata, ou seja, se opondo à mediocridade dos parceiros: o ciúme, a estupidez, a hipocrisia, a falsidade, a violência etc. Como na tradição gaulesa, esta mulher funcionava, simbolicamente, como um “túmulo corporal do homem” destinando à morte tudo o que agride a natureza feminina. [...] Desse dia em diante, Jurou virar uma aranha Para quem a possuísse, Tendo a sorte tamanha Teria o azar da morte Após gozar sua entranha [...]
[...] ela já fora da cama, Via artefato cair De vez em cima do corpo Saciado a dormir. Então, ela mais gozava Vendo sangue e a sorrir [...]
A associação da viúva de luto com a aranha negra compõe a típica imagem grotesca: ambas matam o macho depois do ato sexual. A aproximação entre a mulher e a aranha reforça o caráter instintivo e animalesco da cena. Os homens mortos representam o triunfo dela diante da violência do estupro. Por isso, “ela mais gozava vendo sangue a sorrir”. Mas, como não “há mal ou bem que sempre dure”, ela morreu com a mesma armadilha que havia montado para os seus amantes. Mesmo sendo punida com a morte, a viúva representa a vingança de todas as agressões contra a natureza feminina.
Também no cordel A moça que pariu uma melancia, de Jotacê Freitas, o cordelista retrata a história de uma moça que ao comer uma melancia, fruto de um feitiço encomendado pela mãe para a amante do pai morrer ou perder o juízo, engravidou e pariu uma melancia e, mesmo assim, não perdeu a virgindade. Também as imagens desse cordel transferem para o baixo corporal para expurgar o mal representado pelo desejo de vingança. Figura 2 : Jotacê (capa)
[...] Desgraçada de uma figa A mãe gritou alto isso Era aquela melancia Fruto de um feitiço Para a amante do teu pai Morrer ou perder o juízo. [...] A mãe ninou em seus braços E enterrou no quintal Voltou e olhou a filha Que estava passando mal Toda banhada em sangue Mas com o hímen normal [...]
O realismo grotesco da cena descrita na imagem e nas estrofes acima rebaixa, isto é, aproxima da terra para que a personagem possa deglutir e expurgar o mal – o feitiço. A terra representa o “princípio de absorção” (BAKHTIN, 2010, p. 18-19) e neutralização da negatividade. A melancia, fruta rasteira que nasce e cresce próxima da terra, representa a fecundidade (um dos aspectos do princípio material e corporal) pela grande quantidade de sementes e a forma arredondada se assemelha ao ventre, ao útero materno; a cor vermelha da polpa da fruta remete ao sangue e ao desejo de comer até a saciedade plena (a satisfação das necessidades naturais). Segundo Bakhtin (2010), esse é o princípio da festa, do banquete: “[...] Não dispensou os caroços/Roeu a casca inteira/Os bagaços que sobraram/Era só uma besteira [...]” (JOTACÊ, 2007, p. 3). Como um animal roedor (imagem grotesca), a personagem devorou a melancia inteira. Da mesma forma que no texto bíblico, a personagem comeu o fruto proibido e, por isso, pariu, com dor, uma melancia. O “rebaixamento” consiste em aproximar da terra para, em seguida, dar origem ao “renascimento”. Ou seja, o feitiço foi devolvido para a terra: “a mãe ninou em seus braços/ e enterrou a melancia no quintal” e a personagem pode realizar o ideal de felicidade materializado no texto:
[...] trataram de ir embora Pra morar em outra cidade A filha achou namorado E curtiu a mocidade Se casou e teve filhos Viveu feliz sem maldade [...] Dessa forma, a personagem do cordel cumpre o papel tradicionalmente atribuído às mulheres: casar virgem, ter filhos e viver “sem maldade”. Ou seja, o mal que está representado na história pelo feitiço (a vingança) foi enterrado e ela pode cumprir a sina de toda mulher. Bakhtin (2010, p. 209) argumenta que na “tradição gaulesa” um tema recorrente era “o tema da corneação, sinônimo do destronamento do velho marido, do novo ato de concepção com um homem jovem”. Nesse sentido, o marido traído desempenha o papel de “rei destronado”, ridicularizado. Muitos cordéis da atualidade continuam abordando esse tema. Por exemplo, O corno no cordel 2, de Gilton Thomaz e Nova Enciclopédia dos cornos, de Antonio Barreto (Salvador). Ambos descrevem, da mesma maneira, vários tipos de ‘cornos’ que são ridicularizados, transformados em verdadeiros espantalhos cômicos, em praça pública. Por exemplo, o “corno socialista é aquele que divide o dinheiro e a esposa” (BARRETO, 2009, p. 3) e o “corno bobão” é um tolo “que em casa ao chegar/ nunca flagra o Ricardão” (THOMAZ, p. 4). Portanto, a “verdade carnavalizada” está materializada nesses textos da seguinte forma: de um lado está a mulher sedutora e, do outro, o marido traído que se deixa enganar. A traição feminina é apresentada como prática corriqueira, difícil de ser evitada: só resta ao homem traído “zombar e ficar chifrado” porque a traição é inevitável e acontece “o ano inteiro”. O Corno no Cordel 2 ( Gilton Thomaz) [...] Gostaria que o leitor Tenha consigo o cuidado Hoje corno está na moda Ontem isso era pecado Mas se lhe acontecer Aqui digo o que fazer [...] Zombar e ficar chifrado [...]
Nova Enciclopédia dos cornos (Barreto) [...] Quando é o dia do Corno? Seja rápido e certeiro Nada de usar o “Google” Nem pergunte ao companheiro... Somos privilegiados: Acontece o ano inteiro !!! [...]
Cada época tem seu repertório de práticas na “comunicação sócio-ideológica” (BAKHTIN, 2009, p.43). Mesmo assim, muitos conteúdos simbólicos da Idade Média continuam presentes na Literatura de Cordel da atualidade, adaptados, evidentemente, ao contexto atual. Por exemplo, são representações recorrentes: o burro simbolizando a transformação na história O burro que entrou na faculdade, de Jotacê Freitas; o diabo
que representa o “alegre porta-voz de opiniões não oficiais” (BAKHTIN, 2010, p.36) no cordel Carta de Satanás a um pastor, de Gilton Thomaz; as figuras do presidente e do ‘corno’ que simbolizam o “rei destronado” nos cordéis: Luis Inácio Lula da Silva, o homem que não sabia!, de Jotacê Freitas e O corno no cordel 2, de Gilton Thomaz e Nova Enciclopédia dos cornos, de Antonio Barreto. Portanto, as palavras “são tecidas a partir de uma multiplicidade de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” (BAKHTIN, 2009, p. 41). Por isso, nos cordéis estudados, é possível constatar a preservação de determinadas práticas e símbolos que se repetem desde a Idade Média e refletem as mudanças sociais que são inevitáveis.
REFERÊNCIAS ANDRADE, S. G. Nas trilhas do Cordel baiano: conteúdos simbólicos e efeitos de sentidos. 181 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Mestrado) – Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens, Universidade do Estado da Bahia, Salvador, BA, 2012. BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec, 2010. ______. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Editora Hucitec, 2009.
SOBRAL, Adail. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do círculo de Bakhtin. Campinas: SP. Mercado das Letras, 2009.