"Eis 0 rnalandro na pra<;a outra vez": a funda<;ao da discursividade rnalandra no Brasil dos anos 70 Gilmar Rocha*
Resumo A malandragem e urn des fenomenos sociais mais tradicionais e populares no Brasil. Ao lade das imagens do "pais do samba", "do futebolÂť e "do camaval", pode-se mesm o falar de uma "cultura da malandragem" no Brasil. Mas, curiosamente, essa cultura tern merecido ainda pouca aten~ao des cientistas sociais. Nos anos 70 a malandragem adquir;iu 0 status de problema socio16gico na medida em que, por meio dela, se buscava compreender a estrutura e a dinamica da sociedade brasileira. N esse pederlo, importantes int(lrpre ta~6es foram e1aboradas sende, heje. consideradas classicas . Ao conjunto dessas interpreta~oes chama de "so cio logia da malandragem". A compreensao da eficicia simb6lica do discurso sociol6gico sobre a malandragem nos anos 70, lange de ser unica e exc1usivamente uma resposta metaf6 rica ao fechamento polftico impasto peto Golpe Militar de 64, exige que se considere n ao s6 a contexto no qual esse discurso e produzido mas, sobretudo, a pr6prio discurso sociol6gico sabre a malandragem. Palavras-chave: Malandragem; Meclfan polhica; Cultura popular; Estrutura narrativa.
CULTO A MALANDRAGEM " ... Aquela tal malandragem, nao existe maisn. Assim Chico Buarque d enunciava em Homenagem ao malanclro, compos i~ao de 1978, a sua decep~ao por nao encantrarmais na Lapa, ÂŤa nata da malandragem", Para Ruben Oliven (1986), essa composiyao pode ser vista como uma especie de atestado de 6bito do ÂŤma-
, Verdo modificada do texto apresentado no Grupo Sociologia da Cuhura, do XII Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado entre os dias 31 de maio e 3 de junho de 2005, na cidade de Belo Horizonte. .. Pontif!cia Universidade Cat61ica de Minas Gerais . .;
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landro pra valer". Dele 56 nos resta uma imagem (ou imagens), muius vezes pintada com as tonalidades da nostalgia e de .urn certo romantismo, atingindo por vezes colora<;6es quase folcl6ricas. 0 terna de linho braneo 5-120, a camisa de secla, 0 sapato de duas cores, a navalha no bolsa e, na cabe<;a, ,0 indefectlvel chapeu-de-palha. fazem do malandro urn personagem iniguahivel no imaginario popular carioca, e quem sabe, brasileiro. I Apesar da anunciada marte "daquda tal malandragem", inumeras representa<soes do malandro e da malandragem ganharam espa<;o no cemirio cultural dos
anos 70, nas reflex6es e hos discursos musical, litenhio, teatral, cinematognHico e memoriaHstico. No Rio deJaneiro, algumas dessas representa~6es seriam motivadas pelas comemora~6es do IV Centenario da cidade. Contudo, outros epis6dios concorrem para 0 culto da malandragem no pedodo, a julgar pelos exemplos: em 1961, Boca de ouro, pe~a de Nelson Rodrigues que da titulo ao personagem malandro, e encenada no Teatro Nacional de Comedia do Rio de Janeiro; em 1969, Macunaima sai da literatura e ganha as telas de cinema na dire~ao de Joaquim Pedro de Andrade; em 1970, Antonio Candido publica 0 "classico" Dialetica da malandragem, ensaio sobre 0 romance Mern6rias de urn sargento de rnilicias; ainda sobre esse, ja em 1966, Millar Fernandes parodiava-o com Vidi¡ gal: mem6rias de urn sargento de milicias; Hugo Carvana leva ao cinema Vai trabalhar vagabundo em 1973; Chico Buarque homenageia a personagem com musicas e pe~a teatral em 6pera do malandro, de 1978; Madame Sata, apcs urn longo periodo de ausencia, reaparece no inicio dos anos 70, lan~a seu livro de Mem6rias e concede entrevistas ao Pasquim (1971 e 1976). Na musica, aparecern as primeiras interpreta~6es da malandragem com Gilberto Vasconcelos e Matinas Suzuki em 1977. No fim. da decada, Roberto DaMatta publica Carnavais, malandros e her6is. Tais manifesta~6es culturais podem ser interpretadas como uma indica~ao de que a malandragem e 0 malandro deixam de ser urn tema marginal para tornar¡se urn problema sociologico. Nesse momento, urn conjunto de manifesta~6es politico-culturais como os movimentos Cepecista (Centro Popular de Cultura da UNE), Tropicalismo, Cinema Novo, Poesia Marginal etc, contribuiriam para incrementar as discuss6es em torno da Cultura Brasileira e da Identidade Nacional. Paralelamente, acentuam-se os debates em torno: da presen~a do imperialismo cul,tural, sobretudo, norte-americano; do processo de manipula~ao simbolica da cultura popular pelo Estado e as elites represe~tativas da cultura erudita; e do processo de conscientiI
N:io se CTata aqui de ratificar (ou n:io) a autenticidade do malandro; essa ~ urna discussao que extrapola os limites dessa cornunica~iio. No entanta, vale ressaltar, 0 quanta 0 culto a rnalandragern tern se apoiado nesse tipo de repres e nta~ao, afinal, como sugerc: Bosi (1993), urn dos sentidos do culto reside, exatamente, na homenagern prestada aos mortos.
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zac;ao da realidade social e polftica do pais, visto entaa como subdesenvolvido, dependente e alienado. o culto a malandragem coincide com 0 momento poHtico e cultural da censura e ditadura militar no Brasil. Com efeito, as representaC;6es da malandragem passam a ter mais explicitamente uma significac;ao politica entre setores intelectualizados das camadas medias, mais au menos comprometidas com a esquerda, como forma de reac;5.o ao fechamento da vida politica e cultural da sociedade brasileira. Vinculada ao folclare da sabedoria popular, a malandragem aparece como uma possibilidade de ludibriar 0 cereo ditatorial da censura ao se dizer 0 proibido atraves do consentido. Em outras palavras, 0 significado cultural da , malandragem seria traduzido pela metafora da "linguagem da fresta", a {mica capaz de driblar a censura, declara Vasconcelos. 2 Enesse contexto que as representa~6es da malandragem alcan~am a legitimidade de objeto de estudo sociol6gico. Segundo Roberto Goto (1988),0 momento hist6rico vivido sob a ditadura militar contribuiu para 0 desenvolvimento de uma ideologia da malandragem como elabora~ao de urn certo pensamento social que, motivado pelo momenta hist6rico, recomp6s em tons que variavam da es. peran~a amelancolia, os motivos do ma!andro e do carater nacional brasileiro no curso de sua hist6ria. A malandragem adquire uma conota~3.o politica, aqui entendida como cdtica cultural discursiva. Assim, a compreensao dessa "politiza'13.0 da malandragem" tern correspondencia com as disputas ocorridas no pr6prio campo discursivo das ciencias sociais na epoca. Minha hip6tese e que a sociologia da rnalandragem produzida nos anos 70, desernpenha urn pape! canonico na compreens3.o desse fenomeno social, pois as interpreta~6es "classicas" de Antonio Candido, na literatura, de Gilberto Vasconcelos e Claudia Matos, na miisica. e de Roberto da DaMatta, no folclore, podem ser vista como uma especie de "fundadores de discursividade" que, no conjunto, somarn para a forma'13.o de uma estrutura narrativa sobre a qual ap6iase 0 sentido da cultura da malandragem
SOCIOLOGIAS, METAFORAS & DIALETICAS
o ensaio de Antonio Candido (1988), "Dialetica da rnalandragem (Caracteriza~3.o das mem6rias de urn sargento de milicias)", originalmente publicado em
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A musica Festa imodesta, de Caetano Vdoso, feita em hornenagern a Chico Buarque de Hollanda e, sem duvida, urn dos melhores exemplos dessa linguagem metaf6rica, afinal: "Tudo aquilo que 0 malandro pronuncial que 0 ot:irio silencia/ toda festa que se dol. ou nao se d5j passa pela fresta da cesta e resta a vida"; ver Vasconcelos (1977).
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1970, inaugura a ÂŤsociologia da malandragem" no ambito cia crftica liteniria. Trata-se de urn dos estudos mais importantes sabre a malandragem no Brasil, para
nao dizer, sobre a questao da Cultura Brasileira. Considerado urn chissico da sociologia da literatura brasileira. como 0 proprio subdtulo indica, e urn estudo sobre 0 romance de Manuel Antonio de Almeida, considerado por Candido 0 primeiro romance da novelIstica nacional.
Antonio Candido reavalia as crfticas feitas sabre Mem6rias de urn sargento de milfcias, ora como romance picaresco, ora como romance documentario, e prop6e pensa-lo como urn romance representativo no qual a malandragem tematizada metaforiza 0 pr6prio movimento dialetico da ordem e da desordem presente na sociedade de entao. 0 soCi6logo confere a diaIetica da ordem e da desordem urn valor estrutural e urn significado cultural na media'iao entre 0 romance e a realidade, 0 universal e 0 local. Assim, 0 livro de Manuel Antonio de Almeida compreende uma dupla significa'iao: de urn lado, como romance malandro, representa a versao nacional-popular brasileira de uma especie de aventureiro astucioso, comum a todos os folclores; do outro lado, como romance representativo, apre~enta-se como uma fic'iao que imita a realidade social do seculo XIX. A malandragem que aparece em Memorias de urn sargento de milfcias e a mesma que move a sociedade da epoca. 3 A malandragem funciona como uma especie de corretivo social em que as personagens navegam entre 0 Ifcito e 0 ilfcito. Suprimindo 0 escravo e as classes dirigentes, isto e, suprimindo 0 mundo do trabalho - 0 mundo do controle e do mando -, Manuel Antonio de Almeida poe em foco 0 espa~o intersticial ocupado pelas classes populares. Entre a ordem e a desordem, navegam 0 malandro e todas as outras personagens do romance.~ De acordo com Roberto Goto (1988), a malandragem caracteriza 0 romance em todos os niveis, desde 0 narrador, passando pela personagem principal, atingindo todos as outras vozes do romance. A pratica social embutida na dialetica da ordem e da desordem e, entao, a malandragem. Gilberto Vasconcelos (1977) refere-se a malandragem como uma especie de metafora poHtico-cultural cuja significa'iao hist6rica pode ser acompanhada de A dialCtica da malandragem corresponde, na verdade, a uma caracteriza~ao da sociedade brasileira. Nos limites da generaliza~ao, caracterizando 0 romance, esta a representa~ao de uma sociedade que sc revela como urn mundo sem culpa, isto e, uma sociedade cujos contornos culturais cxpressam uma terra sem males definitivos ou irrcmediaveis, sendo entao, rcgida por uma encantadora neutralidade moral. Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos configuram-se num pais de fane moralidade imposta pela sua forma~ao etico-religiosa protestante, como seria representado em romances como A letra escarlate, de Nathaniel Hawthornc. No scntido simmeliano, fugindo apresen~a constrictiva da lei e da ordem, no Brasil, as formas esponcaneas da sociabilidade flexibilizaram nossa forma~ao social permitindo, na avalia~ao de Antonio Candido, estabelecer nas rela~6es entre os individuos e os grupos sociais urn carater mais "cordial"'. Antonio Candido atribui ao silencio de Manuel Antonio de Almeida sobre as elites e as escravos urn "sentido fundantc", a exemplo do que escreve Orlandi (1993), em suas analises do discurso.
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ponta-a-ponta na musica popular brasileira. A presen~a da malandragem na musica consistiria numa resposta singular ao canher autoritario, antidemocratico e capitalista da sociedade brasileira. Como tal, 0 que estrutura essa representacsao e a diaIetica do trabalha e da vadiagem produzida peIo antagonismo entre 0 capital eo trabalha no Brasil. Vale lembrar 0 que disse certa vez Oswald de Andrade, no Brasil, 0 contnirio do burgues nao e 0 proletario, mas 0 boemio. Diferentemente, na Europa, a acumulacsao de capital centOll com 0 agenciamento do protestantismo 0 que, em parte, contribuiu para 0 desenvolvimento de uma etica valorativa do trabalho. No Brasil, as dificuldades quanto ao ample desenvolvimento de uma ideologia centrada nos valores do trabalho seriam sentidas ja nos primeiros momentos da transi~ao do trabalho escravo para 0 trabalho livre e assalariado, como aponta Fernandes (1972). 13 nesse contexto p6s-abolicionista, de acentuada polaridade entre capital e trabalho assalariado, e aproveitando a brecha do sistema, que 0 compositor popular assume como valor estchico e de conduta social 0 exercicio da malandragem, significando isso uma pratica de recusa constante aos apelos do mundo do trabalho e da produ~ao capitalista. Sem duvida, tal pratica exigia do compositor popular a necessidade de uma "prontidao" permanente frente as amea~as constantes do pauperismo e da mise ria. Portanto, nao e s6 como c6digo poetico que a malandragem se afirma no cancioneiro popular, e tam bern como regra de saber-viver. 0 resultado foi que a malandragem se tornou a tematica predileta do compositor popular, declaram Vasconcelos e Suzuki (1986). Com 0 tempo, a voz do malandro passou a confundir-se com a voz do compositor popular, formando uma s6 voz, e a malandragem tornou-se sinonimo de samba, convergindo para uma unica identidade cultural. 5 Para Claudia Matos (1982),0 samba consiste em urn texto cultural que funciona como documento e locus privilegiado do discurso malandro, afinal, 0 samba representa 0 modo basico de signjfjcac;ao do malandro no contexto da cultura negra popular carioca. Como "texto malandro", 0 samba consiste numa especie de cronica da vida social carioca, a partir da qual se pode ter acesso ao imaginario da malandragem. Em outro texto, Matos (1986) dira que e no samba que se constr6i a mitologia da malandragem. Configurando-se num registro mais ample e duradouro do que a manifesta~ao empirica do malandro de "carne-e-osso", a mitologia da malandragem e manifesta~ao simb6lica de toda uma cultura que se viu
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De urn modo geral, as analises sociol6gicas sobre as representa<;6es da malandragem na musica de~ senvolvem¡ se numa perspectiva hist6rica. Desde 0 seu nascimento, nas primeiras d ~cad as do seculo pass ado, 0 samba incorporou totemicameme a figura do malanclro. Foi cantanclo a vadiagem, a recusa ao trabalho, que 0 malandro ganhou expressao social. Aos poucos, a malandragem se afirmaria como urn estilo de vida das classes pobres e marginalizadas do Rio de Janeiro, cujas represencao;:6es tradu. zem uma visao de mundo da cultura popular. Mas, durante muito tempo, a malandragem seria perseguida e reprimida com violencia.
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relegada historicamente a margem da sociedade. Desse modo, a sociologia da musica, antes de ver no samba apenas urn "discurso malandro", compreende 0 malandro e a malandragem como performances. 0 malandro constitui urn elemento do discurso no samba, ou seja, nao e 0 malandro quem fala, ele e urn tipo de fala. Antes de ser uma Figura social e/ou hist6rica de "carne-e-osso", 0 malandro e uma Figura de linguagem e a malandragem urn discurso social. Trata-se de urn discurso cujo sentido pratico, lembrando Foucault, encarna-se no comportamento social e estetico do malandro sendo 0 samba, enquanto arte da ginga, sua melhor expressao cultural e simb6lica. o discurso malandro constitui-se, para Matos, numa linguagem simb6lica (polissemica) que tern nas letras de sambas 0 referente principal de significa~ao cultural da malandragem. Pode-se dizer entao que, a exemplo de Mem6rias de urn sargento de milicias, 0 samba funciona como diferentes vers6es de uma simb6lica que comp6em a mitologia da malandragem carioca. A caracteriza~ao do malandro como ser de linguagem confere urn valor puramente metaf6rico ao discurso malandro, expressao em linguagem de urn ideal, mas que proclama por sua vez 0 ideal de uma linguagem capaz, sobretudo, de conter em si uma multiplicidade de significa~6es simuldneas. Apesar da referencia hist6rica do discurso malandro, 0 texto musical pode ser tratado como mito. Nao se negam as rela~6es Intimas que se estabelecem entre 0 texto e 0 contexto, mas 0 texto malandro como na dialetica da ordem e da desordem - decola de seu fundamento hist6rico para tomar-se "linguagem representativa", portant,o, simb6lica, e metaforicamente, mitica - nao significando isso, uma ilusao ou fantasia, ao contrario. 6 Carnavais, malandros e her6is (1983), de Roberto DaMatta, publicado originalmente em fins da decada de 70, desenvolve uma interpreta~ao estrutural da realidade social brasileira atraves dos seus rituais principais. Carnavais, paradas e prociss6es sao rituais dominantes que revelam cada qual a seu modo os dilemas da sociedade brasileira. A malandragem funciona como urn modo ou estilo de vida originalmente brasileiro, ou seja, urn modo de viver e sobreviver atraves da media~ao entre universos sociais diferentes: urn, de carater hoHstico, correspondente ao plano tradicional da sociedade, 0 outro, de fei~ao individualista, representando 0 lado moderno e igualitarista da mesma. A esses dois universos correspondem dois c6digos culturais a partir dos quais se pode ler a sociedade e cu-
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0 pressupostO metodol6gico de Claudia Matos, a letTa de samba como texto malandro, aproxima-se da postura metodol6gica de Antonio Candido na medida em que tambcm 0 samba aparece como urn texto representativo, metaf6rico, capaz de revelar urn discurso, ele mesmo, malandro. Tal e a poetica da malandragem, fcito urn camaleao, a linguagem malandra muda constante e incessantemente de tom e colora~ao a fim de confundir 0 destinatario. Nessa perspectiva, a linguagem malandra que teria sido duramente reprimida e perseguida sob 0 Estado Novo, incentivando 0 sambista a participar do proj eto trabalhista dos anos 30, aparentemente, regenera-se.
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jas unidades basicas sao: 0 indivldua, sujeito social submetido as leis universais da sociedade; e a pessoa, sujeito social que utiliza as relaCjoes pessoais (nome de familia, amizades, parentesco, apadrinhamento), constituindo-se numa referencia do lado tradicional do sistema social. A maJandragem e, entao, urn campo relacional, pais representa a media~5.o de urna estrutu ra bipartida, possibilitando a relativiza~ao entre urna ordem e autra. Ao relativizar a ordem social, 0 malandro se aproxima do carnaval. Nessa perspectiva, 0 Carnaval se apresenta como iDem privilegiado do malandro, exatamente por constituir-se num lugar simb61ico de reconfiguras:ao da ordem social. Como nos ritos e mims, a malandragem visa a solu~ao de uma contradi~ao que no sistema social brasileiro e polarizada pelo moderno e 0 tradicional, 0 indivfduo e a pessoa. 7 No Brasil, as rafzes miticas do malandro encontram-se em personagens folcloricos como Pedro Malasartes. A versao utilizada por DaMatta (de Camara Cascudo) narra as aventuras de Pedro ao vingar 0 irrnao Joao, explorado no trabalho por urn fazendeiro rico e velhaco que fazia eontratos impossiveis de serem cumpridos pelos trabalhadores. 0 que se denuncia por meio do mito e a pr6pria estrutura da sociedade dividida entre explorado res e explorados, ricos e pobres, patr6es e empregados, e os valores e ide:ias que a sustentarn. Ernpregando a malicia, a esperteza, enfirn, uma especie de "razao astuciosa", Pedro utiliza 0 poder dos fracos, pobres e oprimidos, e destr6i pela obediencia cega as leis, levadas ao pe da letra, as ordens e a opressao imposta pelo fazendeiro. Por exemplo, mandado lim par a ro~a de rnandioca, limpa ros;ado literalmente tirando dele tudo. Como metafora, Malasartes sirnboliza, nos anos 70, a relativiza!jao do poder do
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patrao e, por extensao, da ditadura na forma de censura. Paradoxalmente, sem pretender com isso fazer uma reforma do mundo e apresentar-se como revolucionario. Urn mundo que, pouco depois, anunciaria a morte do malandro. Em resumo, a malandragem consiste num sistema simb6lico que se apresenta no campo da literatura, da musica e das narrativas folcloricas como variantes de urn "mito-histo ria", cujas vers6es Mern6rias de urn sargento de milfcias, 0 Samba e 0 Mito de Pedro Malasartes, sao solUl;6es parciais de uma contradi~ao que ora se move, nurn caso, entre a ordem e a desordem, noutro, entre 0 trabalho e a vadiagem, e, por ultimo, en tre 0 indivfduo e a pessoa. Ponanto, as interpreta!joes dos diversos estudos sociol6gicos da malandragem salientarn nas obras literarias,
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0 malandro constitui-se em personagem paradigm5.deo do carnaval brasileiro exatamcntc porque representa a promu sa de inversio ou relativiza'iao d.:l. ordem social. Fora dos domlnios do carnaval, o maJandro correspondc a urn papd social a cii s pos i~io dos brasileiros para ser assumido todas.:l.s vezcs que a lei e a impcssoalidade podem ser quc br..das te mporariamente. e 0 mu ndo carn.:l.valizado.
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rnusicais e/ou foldoricas urn conjunto de OposilSoes distintivas, ao mesmo tempo estruturais e historicas, que caracterizam a cultura brasileira. 8
A MALANDRAGEM COMO ESTRUTURA NARRATIVA
Esabido que 0
processo de fechamento polItico nos anos 60 contribuiu para a emergencia da ideologia da malandragem. Contudo, nao se pode tomar esse fato como 0 elemento unico e/ou determinante de seu desenvolvimento. Como se viu ate aqui, a malandragem esta mais proximamente re!acionada it estrutura da sociedade brasileira do que com a conjuntura politica. No entapto, tal re!alSao nao impede 0 reconhecirnento de outros fatqres significativos na compreensao da eficacia simb6lica (discursiva) da malandragem em tempos de ditadura militar. Urn dos fatos mais importantes nessa historia consiste na chamada crise dos paradigmas nas ciencias sociais e humanas. A avalialSao critica de Paoli & Sader (1986) sobre a produlSao sociol6gica a respeito das classes populares no pensamento social brasileiro consiste num importante ponto de partida na medida em que aponta 0 movimento de reinterpretalSao da situalSao das classes populares (leia-se classes trabalhadoras), bern como da propria sociedade brasileira a partir dos anos 60. Significativo, nesse processo, e 0 deslocamento da enfase depositada no pape! do Estado e das classes dominantes e suas re!alSoes de poder para outros atores sociais considerados marginais e/ou rninorias sociais, entao exdufdas da hist6ria. Esse movimento se propaga a partir da crise instalada no interior do rnarxismo e das novidades propostas por urn certo tipo de estruturalismo, ou p6s-estruturalismo, contribuindo assirn para a renovalSao tematica no campo de estudo das Ciencias Sociais. 9 Por sua vez, as primeiras formulalSoes sobre 0 conceito de cultura popular serao desenvolvidas a partir das formulalSoes teoricas e politicas dos Centros Populares de Cultura, vinculados ao Movimento Estudantil dos anos 60. A cultura popular adquire uma conotalSao polftica devendo estar a servilSO da conscientizalSaO da massa e da transformalSao cultural da realidade. As amHises de Carlos Estevarn (1963) e Ferreira Gullar (1965) funcionam como manifestos desse
Contrapondo-se ao sentido de uma interpreta'i3.o da cultura brasileira via a malandragem, tendo como refercncia 0 discurso memorialfstico de Madame Sata, urn discurso tao importante quanto as narrativas malandras na literatura, musica e folclore, sugiro uma Outra possibilidade de leitura socio16gica da malandragem onde a rela"ao mito/hist6ria e 0 problema da violcncia conferem 0 sentido da interpreta"ao. Ver Rocha (2004). , Do ponto de vista te6rico deve-sc ressaltar as comribui,,6es de Antonio Gramsci e Edward T.hompson, de origem marxista, assim como as analises hist6ricas de Michel Foucault, na verteme p6s-estruturalista.
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momento. E quando. e nta~, se pode falar de urn processo de ÂŤpolitiza~ao" do popular, sugere Arantes (1983), senclo 0 esp:l'i0 urbano 0 cenario politico privilegiado de expressao da cultura popular desenvolvida na cidade. 1o Com isso, seria dada uma aten~ao especial ao tema da cultura popular no contexto urbano da moderna sociedade brasileira. A explosao urbana nos anos 70 trouxe a necessidade de uma aten~ao redobrada as fafmas culturais desenvolvidas pelas popuJalioes pobres e marginalizadas no espa<;o das cidades. Embora se possa reconhecer na malandragem vincuJa<;oes com 0 mundo rural atraves do mito do amarelinho Ooao Grilo, Pedro Malasartes, Can<;ao de Fogo), predomina a versao urbana do malandro carioca nas musicas, nos romances, no teatro e no cinema. Nao se pode perd~r de vista, nesse processo, 0 papel desempenhado pelo consumo e a indust ria cultural no contexto urbano, deflagrando urn conjunto de reflexoes iluminado ras sobre 0 sentido da cultura popular nas cidades. ll Logo, e no quadro dessas manifestacroes intelectuais e culturais que se si~ua a emergencia da malandragem como problema sociol6gico. Isso nao exclui as razoes enumeradas anteriormente (0 fechamento politico, a mudan~a de paradigmas no campo das ciencias sociais. a influencia produzida pelas tran sfo rma~oes urbanas sobre 0 estatuto da cultura popular) na analise da malandragem no discurso soci016gico dos anos 70, senao que confere urn Iugar de destaque a esse discurso. Nessa perspectival a razao principal da eficacia sirnb6lica do discurso sociol6gico da malandragem deve ser buscada no discurso mesmo s.o bre a: malandragem. Retomando uma ideia anunciada anteriormente, podemos ver as analises sociologicas da malandragem manifestas na literatura. musica e folclore, como fundadoras de uma discurs ividade sobre a malandragem no Brasil. Cabe ao ensaio de Antonio Candido, urn papel de destaque nesse processo, tendo em vista tratar-se de urn modelo cuj as variacr6es anaIrticas na musica e na tradi!iao folcl6rica nao aiteram, substancialmente, seu principio dialetico na medida em que acaba sendo reproduzido n o conjunto da sociologia da malandragem. E nesse sentido que essa sociologia se apresenta como <Cestrutura narrativa" cujo significado, seguindo a definifiao de Bruner (198 6), "serve as intepretative guides; they tell us what
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No conjunto, os pr6prios movimentos cu hur;l.is d:1 EpoC3.. as veus motivados por essas e outras correntes de p ~n S;l.me nto, reavaliam 0 problem;l. d a d ependencia economica e d;l. c6pia cultural. do cad.ler a1ienado da cultura popular, das especificidades da cu ltura brasileira, tal como realizaram os movimcntos epc's da UNE, Tropicalismo, Can!iao de PrOteSlo, Cinema Novo, Teatro Brasi leiro de Comedia. A esse respeito, vcr Ortiz (1988) e Carvalho (1992) . TambemJose Guilhermc Magnani (1982) chama atem;iio para 0 clevado numcro de pesquisas e estudos realizados a partir d05 anos 70, tendo como foco de analise:1 culturtl. popular desenvolvida nas cidadcs. Os estudos de cu ltura popul:tr no cemirio urbano seri:1m acompanhados de uma nova p ~ rspect iva epistemo16gica quando comparada ao discurso do fo ldore. Segaco (1992) aponta e55a mudan~a de orien t a~ao epistemol6gica que 0 conceito de cultUf3 popubr sofreu ;I. panir do! anos 60.
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"Eis 0 malandro na prac;:a outra vez": a fundac;:ao da discursividade malandra no...
constitute data, define topics for study, and place a construction on the field situation that transforms it from the alien to the familiar" (p. 147). Em sua analise do discurso etnol6gico sobre a cultura dos nativos americanos, Edward Bruner reconhece duas estruturas narrativas que orientam, em momentos historicamente distintos, a percep~ao dos etn6logos .. No primeiro momento, nos anos 30, a etnologia orienta seu discurso para os processos da assirnila~ao, da integrac;ao cultural, das rela~6es de interac;ao entre os indios e outros gropos sociais. Posteriormente, nos anos 70, muda-se a perspectiva: agora e como forma de resistencia cultural, expressao dos conflitos entre gropos etnicos diferentes, que giram as percep~6es e os discursos dos etn610gos. Guardadas as diferen~as historicas, geognificas e culturais, 0 mesmo processo parece ocorrer com 0 discurso da malandragem. Muito embora nao se tenha desenvolvido uma produc;ao sociologica sobre a malandragem no contexto dos anos 30, mesmo que 0 samba expressasse urn conteudo sociologico que denunciava os conflitos da polftica do Estado Novo (1937-1945), a objetifica~ao da malandragern nos anos 70 evidencia urn processo de "domesticac;ao cientifica" de urn genero discursivo. 12 malandro vestido a caniter, com lenc;o no pescoc;o, navalha no bolso e chapeu-de-panama, foi pouco a pouco substituido pelo nao menos malandro "jeitinho brasileiro", na forma de urn conjunto de pniticas sociais mais domesticadas e purificadas e, ate cefto ponto, livre das representaC;6es marginais e ameac;adas de violencia e perigo, inscritas na malandragem carioca de "antigamente". Aliado as questoes de ordem politico-culturais dos anos 60/70, urn conjunto de transforma~6es estruturais - dentre as quais se destacam: 0 triunfo do capital internacional monopolista, a hegemonia da sociedade urbano-industrial, a emergencia do individualismo, 0 crescente processo de racionaliza~ao burocratica, secular e cientffica - parece "por fim" a uma certa representac;ao da malandragem. A malandragem de "antigamente" inscrita nas mem6rias dos boemios, nas letras de samba, nas paginas dos romances, que serviu rnuitas vezes de den uncia a urn estilo de vida e visao de mundo das classes populares, foi, com 0 tempo, superada pelo progresso e 0 desenvolvimento da sociedade. E como se a malandragem Fosse expulsa da historia para sobreviver, entao, como mito, ou, quando muito, como metafora politica da "linguagem da fresta". 0 malandro e a malandragem viraram coisas do passado, tornaram-se folclore, transformaram-se em reminiscencias de uma sociedade que cada vez mais a?ra~ou 0 projeto de moderniza~ao capitalista. 0 resultado e a vi~ao da malandragem como urn discurso bern com-
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Nao se pode perder de vista que tambem no eontexto dos anos 30 uma eerta "domestica<;3.o discur~ siva" foi realizada pelo Estado, se se considera 0 agenciamento do samba~exalta<;io na linha Ari Bar~ roso, ou entio, toda apologia feita it valoriza<;ao e glorifica<;ao do trabalho pela politica estadonovista.
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portado. 0 qua) expurgou as elementos de violencia para dar lu gar a enunciaclos da negocia~ao e reJativiza~ao. I} Nesse sentido, 0 pr6prio discurso socioJ6gico da malandragem encena uma performance malandra quando relativiza 0 pader dos ''Vidigal'' de plan taO, ao mesma tempo em que reafirma 0 sentido do mito da malandragem. 0 discurso sociol6gico da malanclragem nao se limita a falar de ou sabre a malandragem. sua performance e a de uma fala malandra. 14
A CULTURA DA MALANDRAGEM Concluindo.o Brasil, aiem de pais do samba, do futebol e do camaval, e tambern 0 "pais da malandragem" e seu significado cultural cleve ser buscaclo tambern no discurso socio l6gico des anos 70. Afinal. esse discurso co-participa dessa construc;ao cultura l da malandragem. 0 texto de Antonio Candido e, por extensao, os textos de Gilberto Vasconcelos. Claudia Matos e Roberto DaMatta, d ialet icamente, criam urn contexto, ou seja. fundam urn modo de ver e pensar a malandragem no Brasil. Com efeita, tarna-se praticamente imposslvel falar da malandragem sem se referir asociologia da malandragem. A sociologia da malandragem, por sua vez, apresenta-se como urn objeto privilegiado por meio do qual se pode falar da estrutura social brasileira. Na verdade, estamos falando de uma estrutura que e parte de urn processo mais amplo de mitificac;ao da malandragem, aqui entendida como uma narrativa de identificac;ao naciona1. 1S A transformasao da malandragem em problema sociologico configura-se num processo criativo de "invensao de uma cu ltura"; uma cultura com <I C" maiusculo, isto e, uma totalidade organizada na qual as pr.iticas e representas6es culturais de urn deterrninado grupo e/ou sociedade ganha inteligibilidade. Essa ideia encontra-se desenvolvida em Wagner (1981), para quem a antropologia estuda 0 hoIJ
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Aos poucos, as rcprcscnta~6es do "marginal" como elemenlO perigoso va~ lOmando 0 lugar do malandro no ima gin ~rio social dos anos 70. Essa performance lcvlria Schwarz (1987) e GOtO (1988) a SitUlrem 0 texto de Antonio Clndido, a cxcmplo do que ele mesmo propae, numa pcrspectiVl dialt!:tica e malandra. 0 efeito perverso, a CXcrnplo da eritica de Luil. E. Soares ( 1999) em ~A du plicidlde da eultura brasileira", e que a mlland ragem acaba 5endo ~ fu ncion ll" ao sistema que ela que r reiativiZlr. A no~ao de mitifiea~ao nao lraduz a iMia de uma ilusio ou fic~ao, mas narrativa que, 3. exemplo da analise de Uvi-Slrauss (1967), resolve no nfvel discursivo urna contradi~o. Em lermos sociol6gicos, penso que essa mit ifi ca~.io pode ser expressa na idt!:ia de "mito-16gica da malandragem", aproximando-nos, assim, do projeto weberiano do tipo ideal. Islo porque, a mito_16gica da mllandragem" represenn urna const ru~ao conccitual formanclo urna espccie de "tipo ideal da malandrlgem". tipo ideal, segundo Weber (1986) , corresponde 11 tarda analftica de se exagemT ou enhlizar determinados tra!r0s ou ponlOs de vista sobre urn fen 6meno social ou hist6rico, bU5cando descrev~-Io de forrnl conceitualmente pura, portanto, imposslvel de ser eneontrado empiricamente. As opos i~oes ciestacadas nos estudos soeiol6gicos cia malandragem formam a estrutura a partir da qual sc define a 16giea do mito da malandragem. .E nesse sentido que cstou ulilizando a ideia de rnito-16giel dl malandragern. K
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mem como se existisse cultura. 0 estudo da cultura e cultura, e urn fato da nossa cultura, pois se realiza atraves de nossas formas e de nossos termos, tomando emprestado nossas palavras e conceitos para sua significa'1ao. Ao mesmo tempo que 0 antropologo invema uma cultura nativa, ele recria sua propria cultura. Nessa perspectiva, 0 estudo da malandragem, a exemplo dos estudos de cultura, repre senta uma invenc;ao, no senti do de uma constru'1ao cultural, atraves da qual se tornam visiveis, em termos sociol6gicos, as experiencias da malandragem na musica, na literatura, no folclore, na vida das classes populares do Rio de Janeiro da prime ira metade do seculo passado. enfim, na sociedade brasileira. D e resto, a produc.rao sociol6gica da malandragern e parte de urn processo cultural rnais amplo, que ultrapassa as raz6es de urn certa pensamemo social brasileiro, Jogocentrico, pais no exato momenta em que a malandragem parece perder sua existencia real e hist6rica - afinal, "aquela tal malandragem" de que fala 0 poeta. "nao existe mais" - esta e, paradaxalmente, elevada a condic.rao de "mito nacional". M
Abstract Malandragem is one of the most traditional and popular social phe~ nomena of Brazil. Besides the images of country "of samba", "of soccer", and "of carnival", it can be said that Brazil, in fact, has elab M orated a whole "culture of malandragem". Curiously, this culture has deserved little attention of the social scientists. In the 1970s, malanM dragem acquired the status of sociological problem in the sense that, through its study, scholars expected to understand the structu re and dynamics of the Brazilian society. It was during this period that im~ portant interpretations, considered nowadays as classic, were elaborated. I call this set of interpretations as "sociology of malandragem". The comprehension of the symbolic efficacy of the sociological discourse about the malandragem in the 1970s - far from being solely a metaphoric answer against the political closure imposed by the 1964 . Military Coup - d~mand s that we consider not only the context in which this di scourse is produced, but, above aU, the sociological discourse itself about malandragem. Key words: Malandragem; Political metaphor; Popular culture; N ar M rative structure.
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