As psiques de Joao Rubinato Identificar as op~6es pollticas, a historia pessoal, os gostos, os connportannentos e os pensannentos do autor passou a ser unn Innportante elennento na critica de qualquer obra de arte
P
olo menos, desde Sigmund Freud (1856-1939) - com 0 inconsciente -, e depois com Michel Foucault (1926-1984) - com os discursos filos6ficos e litera rios -, quan-
do da tentativa de compreensao da obra de anc, a analise sabre 0 pape1 do auto[ assumiu uma relevancia
muiro maior em relas:ao a propria obra de arte. Qu, ao menos, ele - 0 autor - paSSOll a ser uma importante porta de entrada para a analise de uma abra. Assim, quando urn artista sc diz "de csquerda", os criticos procuram em seus trabalhos elementos que reprcsentem essa posis:ao politica, excluinclo 0 que c contraditorio, ista C, 0 que nao combina com 0 que se entende por csquerda. Dcsse modo, ocorre uma classificas:ao da obra de arte e do artista que a criou. Dutra pratica corrente e reduzir 0 artista asua criac;ao "mais importante". E caso de Platao. A Historia da Filosofia privilegiou A Repliblica·como a sua principal obra. Para ser mais exato, privilegiou a momento em que Socrates defende que, para uma cidade ser justa, e preciso que 0 fi.16sofo seja rei au 0 rei filosofo. A partir desse momento, Platao etido como autoritario, e todas as suas obras sao lidas com esse vies.
°
T HI AGO
LUCAS ANDIUEITA
FERNANDES
F. ECONOM ISTA E
E
MESTRANDO EM
BACHAREL E
ECONOMIA SOCIA L
LlCENCIADQ EM
E DO TRABALHO
CiENCIAS SoCIAlS
PELA UNICAMP.
FRA NCO
PELA UNICAMI', BACHAREr. EM RELA<;OES iNTERNAC IONA IS PELA FACAMP E MESTRE E
DOUTORANDO EM HISTORIA ECONOM ICA PELA
www.portaicienciaevida.com.br •
UNICAMP.
ROBSON GA810NETA EMESTRE EM FILOSOFIA PELA UNICAMPE PROI:ESSOR DE F ILOSOI:IA DA EsCOLA ESTATUAL BARAO DE ATALlBA NOGUEI RA.
.fuosofia ciencia&vida·
45
A PARTIR DE DETERMINADO MOMENTO DE SUA CARREIRA,
JOAO R UBINATO,
PASSOU A UTILIZAR, PREPONDERANTEMENTE, o NOME DE UMDE SEUS PERSONAGENS: ADONIRAt~ B ARBOSA
Porem, a caracterizas:ao do homem c do cidadao Platao nao c tao fieu de ser
logos (teses, discurso, argumemos) que falam,sem voz, em sua alma",2
definida, lima vez que 0 proprio Platao sequer aparecc em seus dialogos: as fa-
Assim, para Marques, a cria<;ao de personagens nao c apenas urn recurso literario de PIa tao. Ele nao esti fazcn-
las scmprc pcrtenccm aos personagens. Do mesmo modo, com Joao Rubinato - tambem conhecido como Adoniran
do Literatura - muito menos para nos, leitores do seculo XXI. Platao quer
Barbosa ou como 0 autor de Trem das 011ze - , a classificac;ao tam bern nao
e
apresentar os "personagens" da sua cpoca, ou mais que isso, ele quer reIacionar
imediata. A partir de dctcrminado momento de slia carreira, inclusive, passoll a utilizar, prepondcrantemente, 0 nome
as pcnsamemos com as a<;oes. Ele quer nos rnostrar nao so como pensa urn politico, urn sofista, urn orador, mas ram-
de lim de seus pcrsonagcns: Adoniran Barbosa. Certamente aba ndonou seu
bern guer que possamos nos rcconhecer em nossa sociedade e em nos mesmos.
nome de batismo, que julgava "macarronico demais para urn sambista"; e por
Claro que, para isso, precisou reconhe-
muitas vezes sc apresentou como Ze Conversa, Barbosinha Mal-Educado da Silva ou Charutinho - alguns de
cer que havia nele proprio algo de cada urn. P latao foi urn pouco de politico, sofista, orador, filosofo, pocta. Elc pretendeu, com sua obra - seus di:ilogos -,
sells mms famosos personagens. Alias, elc proprio se considerava mais como
dar voz a todos, nao so para pcnsar, mas tam bern para agir, ou melhor, para que
ator do que como praticame de qual-
a Linguagem se tornasse a~ao c a a~ao pudesse ser clareada pela Linguagem. Bakhtin, em outro contexto, diz
quer outra profissao que tcnha exercido, inclusive a de cantor e compositor. Paradoxalmente, e propria de urn ator essa caracteristica de representar - quando nao de viver - varias vidas em apenas
tra~os
uma. Se for assim,Joao Rubinato tam-
urn heroi, seus
epis6dios de sua vida, seus atos, pensamentos, sentimentos, do mesmo modo
vamos ouvir alguns coment:i.rios acerca de outros auto res que, como Adoniran, criam seus personagens. Primeiro vejamos 0 que Marques fala de Platiio: "Os perso nagens criados par Platao, mais do que simples recursos de exprcssao, constinlem urn esfon;o para tornar explicitas e inteligiveis atitudes eticas e posi<;6es tcoricas fundamentais, detectavcis entre os cidadaos, artesaos, homens politicos, poems e pensadores de sua cpoca". I E mais adiante de completa: "A 'alteriza<;ao de si', atraves da (rc)inven<;ao de personagens, e urn modo de desdobrar e desenvolver os I MARQU ES, 2006, p(lg. 40
filosofia cicncia&vida
rna que "e nesse sentido que urn autor modifica todas as particularidades de
bcm c cantor, compositor, musico, carpinteiro, etc, Mas podemos ver na obra do ator confesso algo que seja proprio do homem Joao Rubinato? Para ajudar-nos nessa diffcil tarefa
46 •
algo nessa mesma linha quando afir-
I It!('111
caracteristicos, os
que na vida".J E depois que "0 autor reflete a posiC;ao emotivo-volitiva de seu her6i e nao a sua propria atitude para com 0 heroi [... ] 0 her6i dai em dian te tornou -se independente de seu criador, e 0 autor, por sua vez, tam hem sc tornou independente dele - homem, critico, pSic610go ou moralista":' Para Bakhtin, a autor cria seu her6i com aqu ila que lhe e particular, porem, nessa construC;ao, 0 her6i cria vida pr6pria, ganha uma psique que nao coincide com a psique do autor. Assim as ac;oes, os pensamentos, a linguagem, as relar;oes e a vida do her6i sao diferentes das de seu autor. D esse modo, tanto Platao, para Marques, como urn born autor - no caso Fi6dor Dostoievski (1821-1881) - , para Bakhtin - como 0 criador dos sambas dos malocas - , nao simplesmente transferem para seus personagens as seus proprios pensamentos, mas, ao contririo, utilizam-se de outros para pensar par si mesmos. E claro que, neste movimento de pensar pelo outro, alga de si permanece. Ponanto, a ourro, mesmo sendo outro, nao deixa de ser 0 pr6prio. Vejamos urn exemplo disso na musica Despejo nafove/a. Nela, 0 narrador, l
BAKHTl N, 2005, pag. 25
• Idem, 2000, p,igs. 28-29
PARA BAKHTIN, 0 AUTOR CRIA SEU HEROI COM AQQILO QQE LHE E PARTICULAR, POREM, NESSA CONSTRU<;:Ao, 0 HEROI CRIA VIDA PROPRIA, GANHA UMA PSI~E QQE NAo COINCIDE COM A PSI~E DO AUTOR urn morador de um a favela, conta que, a mando de urn juiz, 0 oficial de justir;a - que, portanto, nao pode partici par da decisao - entregou uma petir;ao para seu Narciso - provavelmente 0 lider da comunidadc: "Voces tern dez dias para desocupar este terreno que nao e propriedade de voces". Com cssa pctir;ao, seu Narciso - ou a narrador, nao podemos deterrninar de modo absoluto - diz para 0 oficial de justir;a que eles nao precisam de dez dias, urn dia basta para eles deixarem a unica coisa que possuiarn, Tudo parecia terminar bern, a comunidade, na voz do seu representante - ou do narrador, que a representa aqui para a posteridade, fazendo Hist6ri a-, indicava para 0 oficial de justic;a que eles iriam acatar a ordem, quando, porem, surpreendcntemente 0 narradorou seu Narciso - diz 0 seguinte: "Eu sei que construimos nosso harracao numa area que ainda nao tinha dono, sabemos disso, a questao nao e quem e0 dono da terra, a questao e esse povo ai que veio dc todos os lugares desse Brasilzao em busca de urn lugarzinho para descansar depois de um dia illtciro de trabalho em prol do desenvolvi mento do Brasil, nosso Brasil, essas pessoas VaG para onde? Me responde, cloto?" De quem e essa £1.1a desespcrada? Sera. a fala do filho de Francesco Rubinato e Emma Ricchi ni, dois imigrantes italianos' E de algum Jo.o da Silva? E do JOiio Rubinato, transfigurado em Adoniran Barbosa? E da Beth Carvalho, que tantas vezes interpretou
WW\N,portalcie nciaevida.com.br •
filosofia d enda&vida ·
47
Adoniran? E do Tio Beis:o, cantor campineiro cia nossa cpoea, que rantas vezes cantoll cssa musica? E minha,
Esua, porgue a leu e a canta? De quem e a autoria da frase que porgue a escrcvi?
pcrgl.lnta para lima suposta autoriclade para onde vai 0 povo brasileiro?!
Antes de qU<l.lquer caisa tcmos que
Percebemos que. letr. de Jaao Ru-
e
binato vai alcm da simples opiniao de algum morador de uma favela. Nao que de nao tenha que ser escutado, todos tcmos. Mas Adoniran vai alem quando m istura as falas do narrador e do seu Narciso c surpreende 0 oficial de justi<;a perguntando algo que cxige uma resposta que nao pode ser respondida.
dizer algo 6bvio, mas que nem scmpre
dito: essa frase £lZ parte de uma mllsica e, por isso, quando cantada, pertence aquele que a canta. Talvez Adoniran pcnsasse c
sentisse que ela rcpresenta urn moraclor de favela que nao tem para onde ir.Talvcz
Beth Carvalho a interprete com Dutro sentido: como boa marxism, pode aehar
I
desespero de migrantes como meu pai e minha mae, que viram a situac;:ao das favelas de Sao Paulo e por isso optaram par comprar urn terreninho em Campinas para construir sua casa. T alvC"".l voce pense em milhares de pessoas que estao vivendo em condic;:6es desumanas.
que, se nao abolirmos a propriedade privada, nao senl. posslvcl it a lugar algum.
AS PSlf4ES DE
Talvez
AD01-m.A~
0
Tio Bci<;o cante pcnsando nos
amigos £'lVclados que nao tcnharn para
onde it. Talvez; ell cante pcnsando no
Se Adoniran 56 fizesse isso que apontamos anteriormente, isto e, uni-
DO ERNESTO AO ARNESTO No dia 27 de fevereiro de 201+, foi sepultado no Cemiterio do Ara~a, na capital paulista, 0 corpo de Ernesto Paulelli, com 99 anos, que sofrera parada card{aca em deconencia de um procedimento cinirgico para tratar de uma ITattlra de femur. Seu nome - ou quase - figurara eternamente nos !i,"'os sobre a Hist6ria da musica popular brasileira. E nao pelos seus comprovados talentos como violonista, mas por um certo encontro que ocorreu por volta de 1938, em noite de boemia, com um outro trabalhador tambem filho de imigrantes italianos, um tal de Adoniran Barbosa, com quem teria entabulado a seguinte conversa: Me da um cigarro! Desculpe, eu nao fi.lmo. Entao me da 0 seu cartao. Examinando 0 cartao, 0 ja famoso interlocutor emenda: Arnesto? Naa, e Ernesto. Com E. Nao e nao. E Arnesto. E eu nao you te entregai meu cartaa pOl'que naa tenho. Mas vou fazer um samba pra voce. Aduvida?" Mais de llma decada mais tarde, Ernesto se emocionaria ao reconhecer 0 presente do amigo no radio
48 •
filosofia cicncia&vida
de sua casa. Essa nao e a unica versao da historia, mas e a mais prav'vel. Adoniran nunca se furtou de tramar diversas autras detalhadas versoes para 0 hoje famoso Samba do ArileJto, argumentando que "cad a veZ e diferente. E nova c6pia, copia nova". Mas depais de mllito tempo, ratificoll essa como a versao oficial quando presenteou Ernesto com a partitllra do registro do samba com llma dedicat6ria, posteriormente assinada com urn "de acordo" por AJocin, parceiro de Adoniran. Com efe ito, AJocin tambem era nome, digamos, trocado, invertido, de Nicola Caporrino, que mllitas vezes era constrangido a assinar sob pselld6nimo par obriga\oes contratuais com a empresa detentora dos direitos autorais do seu pr6pria nome. Hoje sabemos que a "bolo" nunca aconteceu, mas tambem que "sem a bolo nao existiria 0 samba", imortalizado pelos sensacionais Demonios da Garoa - e, posteriormente, par muitos outros. Foi, portanto, natural, que a familia Paulelli escolhesse a musica de Adoniran e Nicola (ou A1ocin, se preferir) como trilha para se despedir de seu mais famoso membra.
°
versalizasse as £-uas de tipos paulistanos, dando a eles voz e vez, ji seria considerado um grande artista. Poderiamos dizer que ele atende as exigcncias de Bakhtin e, por isso, poderia ser comparado a D ostoievski. 5 Nosso paulistan o caipira, porem, nao fica so nisso, ele consegue £1zer csscs tipos se relacionarem. Antes de vennos essa caracteristica de sua obra, vamos repetir 0 procedimento de co mpara~ao anterior e obscrvar 0 que ja foi diro sobre Dostoievski e sobre Plarao. Sobre 0 primeiro, Bakhtin diz 0 seguinte: "Os herois sao distribuidos pelo enrcdo e apenas numa base concreta determinada podem reunir-se uns aos outros. A s rcla~6es de reciprocidade entre cles sao criadas pelo enredo e conc1uidas peIo proprio enredo".6 E depois: "0 parodiar e a criat;ao do duplo destro nante, do mesmo 'mundo as avcssas'. POl' isso a parodia c ambivalcnte. A Antiguidade, em verdade, parodiava tudo: o drama satirico, por exemplo, foi inicialmcnte um aspecto comico parodi ado da trilogia trigica que 0 antecedeu [... Jisso parecia construir um autcntico sistema de espelhos deformantes: espeIhos que alongam, rcduzen1 c distorcem em diferentes sentidos e em diferentes graus [ ...] O s duplos parodiadores tornaram-se um clemen to bastante frequente, inclusive na literarura carnavalizada. 1 550 se manifesta com nitidez especial em Dostoievski: quase todas as personagens principais dos romances dostoievskianos tern varios dllplos, que as parodiam de diferentcs maneiras. Raskolnikov tern como dllplos Svidrig;iilov, Llljin, Libezyalnikov".i Bakhtin, ao analisar os personagens de Dostoievski, aponta qu e em primeiNo docutllell(:irio jltlrJs{/i(f)i-1/ m"l<'dr /Ido ll imll d:1TV Cultura. Fermmdo Faro dec b rou que :IS rllllSiC:IS de j\ donir:m rc presclIIam P;Ir:1 no~. br:lsiiciros,o que DosfO ic\'ski represent:1 par:! os russos. J
B lldlDill.
" lhkhlin.1 997. p:ig,1 04 ' ltklll,p;igs. 127-128
BAKHTIN, AO ANALISAR OS PERSONAGENS DE DOSTOIEVSKI, APONTA Q!JE 0 PERSONAGEM PRINCIPAL, PRECISA SER COLOCADO DENTRO DE UM ENREDO ONDE BAJA RECIPROCIDADE ENTRE ELE E OS OUTROS PERSONAGENS ro lugar 0 heroi, 0 personage m princi pal, precisa ser colocado dentro de um enredo onde haja reciprocidnde entre ele e os ml tros personagens. Para tanto, as caracteristicas do personagem central precisam ser espelhadas nos otltroS personagens, isto e, cada uma das particularidades do her6i precim de outro pcrsonagem para se tornar evidente, 0 aror principal sempre precisa de atores coadjuvantes, cujas personalidades correspondam a fragmentos da perso nalidade do primeiro. Isso ocorre tambcm em Platao, Vejames dois exemplos. No di:i.logo Protdgoms, 0 pcrsonagem principal, Socrates, tem como duplo 0 proprio Protahroras. Eles discutem acerca da possibilidade de ensino da virnlde politica. Cada urn dcles, inicialmente, represenra uma posis:ao ace rca da possibilidade ou nao de a virnlde ser ensinadaj Prot:igoras, a primeira; Socrates, a segunda. No final do di~liogo , eles ja nao sabem qual c a posit;ao de quem. Isso leva Socrates a conduir que eles trocaram de posi~ao: cle, Socrates, passara a achar que a virrude politica pode ser ensinada; aqucle, Protagoras, muda de opiniao, e passa a achar que a virnlde nao pode ser ensinada. PodCriamos dizer que na disputa argumenmtiva dos dois homre um empate, mas, na verdade, quem ganha e 0 leiror, que pode vcr duas posi~6es acerca do ensino da virrudc, Slras consequcncias, suas limitas:6es, seus desdobramcnros. Achamos que nos diaIogos de Platao ha espelhos por todos os lados, c que Socrates talvez seja 0 maior ref/etor. Talvez 0 di.liogo que tome
isso mais cxplfciro seja A lcebindes. No final desse diaIogo, Socrates fal a para AJcebiades se espelhar nelc e procurar o conhecimento antes de ir a agora. Na verdade, Socrates pede para AJcebiades procurar com eIe, por meio do di .t1ogo, o conhecimento de si. Esse conhecimen to c procurado na medida em que ambos, Socrates e AJcebiadcs, constroem um ou mais saberes, entre cles a Arte, a Cicncia, os valores morais e as leis necessarias para cidade. Vejamos um exemplo de urn espelhamcnto criado peIo nosso "paulistano" de Val.inhos. A musica Triste l11 a 1'gnridn cvi dcncia 0 rclacionamcnto de urn homem e de uma mulher que, ao que rudo indica, estao na mes ma "classe social". Elc, percebendo que cia nao
www.portalcienciaevida.com.br · filosofia dCnda&vida · 49
COMO SOCRATES, TALVEZ ADONIRAN PROCURASSE CONSTRUIR COM AS PESSOAS QQE SE RELACIONAVA - ENTRE ELES ERNESTO, 0 GRUPO DEMONIOS DA GAROA, o PRODUTOR OSVALDO MOLLES - UMA ARTE, UM MODO DE VIDA
I
o namoraria se dissesse que era jardineiro, mente para mo~a dizendo que e engenheiro. Ela, por desconhecimento das caracteristicas de urn engenheiro, acredita oa mentira, que dura ate a mos:a vcr 0 jardineiro no exercfcio de sua profissao. A musica diz que a moc;a oac quer mais saber do jardineiro, saber por que? Talvez ela te nha tomado co nsciencia de que havia acreditado numa mentira esrupida e de que urn engenheiro de metro, aquele que traz o progresso e a velocidade no deslocamento para a cidade, OaD poderia se interessar por uma mos:a simples. 0 jardineiro represenraria, assim, 0 limite das rela<;6cs amorosas que essa moc;a poderia ter. Talvez, por Dutro lado, ela oac tenha ficado com raiva dele, mas com raiva de si mesma, e Adoniran,
com essa musica, estaria evidenciando a mulher que quer urn status social diferente do que tern e 0 homem que, para 'ganhar' a moc;a do seu status social, precisa dizer que esta em outro. Qual dos dois e mais orgulhoso? Qyal dos dois e mais convencido? Qyal dos dais e rnais rnentiroso? Voltemos a pergunta: podemos ver na obra do ator confesso algo que seja
50 •
filosofia cicncia&vida
proprio do homemJoiio Rubinato? Um grande auror, como notou Bakhtin, nao fala em nome proprio, ele f..l.la algo que niio poderia deixar de ser falado, ele fala o obvio, ele fala em nome de todos. E como de consegue isso? Joao Rubinato, ao longo de sua vida, reladonou-se com diversas pessoas absorvendo, de cada uma delas, o modo de pensar, 0 jeito, os trejeitos, nao apenas para imitar, mas tambem para pensar, para se nti.r, para viver. Podemos atc dizer que, talvez inconscientemente, ele procurava espelhos de refere nda. Talvez procurasse nas pessoas aquilo que lhe faltava. Como S6crates, talvcz Adoniran procurasse construir com as pessoas que se relacionava entre eles Ernesto, 0 grupo Demonios da Garoa, 0 produtor O svaldo Molles, a cantora E lis Regina - uma arte, urn modo de vida. E a reciproca tam bern e vcrdadeira: talvez todos os que se relacionaram com 0 Barbosinha Mal- Educado da Silva tambem buscassem nele esse prop6sito. Se assim 0 for, 0 Joao Rubinato que nasceu em Valinhos no dia 6 de agosro de 1910 nao e 0 mesmo Adoniran que morreu em 23 de novembro de 1982, em Sao Paulo. Ou melhor, a psique do jovem paulista nao e a mesma do velho paulistano. E la foi absorvendo outras psiques e deixando suas marcas, suas obras. 0 lei tor que quiser ter mais clareza de cada uma debts pode busd.-las em biografias, ouvindo ou lendo os di,ilogos que ele ajudou a criar ou procurando pessoas que 0 conheceram.
Gostarfamos, por fim, de destaca r que, quando desejamos absorver um a obra de arte, duas situac;oes podem ser notadas. A primeira e que nao estamos satisfeitos com nos sa psique, por isso precisamo s buscar em outras psiques algo que nos completao A seg unda, que nossa psique fica diferente ao absorvermos algo que outra psique produz iu. Tornamo-nos outro que nao nos rnesmos. Ou, para sermos mais precisos e menos alarmistas, tomamo-nos "n6s mesmos diferente s". Nesta situ ac;ao, temos difi culdade de no s reconhecer, e dai vern a necessidade de outros espeIhos, de outras psiques que nos digam o que so mos. Hi quem cham e isso de aprendizado. Concordamos. ~ _
u
,~
~ w
'"
BAKHTIN, Mikhael. Problemas na poetica de Dostoievski. Trad . de Pau lo Bezerra. Rio de Janeiro: Florense Un iversilaria, 1997. Estetica dOl cria~ao verbal. Trad. de Pau lo Bezerra. Sao Pau lo: Martins Fontes, 2000. BENOIT, Hector. Em busca da odisseia dialogica: a questao melodol6gica das temporalidade . Campinas: Unicam p, 2004 (Tese de Livre-Oocencia em Filosofia). CAMPOS, Celso de Jr. Adoniran - Uma biografia. 2. ed. Sao Paulo: Globo, 2009. GABJON ETA, Rohson. Um estudo sabre a sofista Prola.goras nos dialogos de Platao. Campinas: Unicamp, 2004 (Oissertac;ao de Meslrado em Filosofia ). MARQUES, Marcelo Pime nta . Platao, pensador da dife ren~a: Uma leilura do Sofisla. Belo Horizonte: UFMG, 2006. MUGNANJ, Ayrton Jr. Adoniran - Oil licenC;a de contar. Sao Pau lo: Edilora 34. 2002 (Colec;ao lodos os canlos). PLATAO. Dialogos (Republica, Protagoras, Akebiades), traduc;ao portuguesa , Carlos Alberto Nunes, Belem, UFPA, 1972 .
==T:::'--:;:'