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O samba é Filosofia

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Reflexão e prática 106

encarte do professor

Resiste quem pode à força dos nossos pagodes

A história de um grupo de samba que tomou a indústria cultural

Samba é filosofia, fidalguia do salão

O samba como uma forma de enfrentar a vida

Com curadoria de Carolina Desoti Fernandes e Tiago Brentam Perencini Carolina Desoti Fernandes é graduada em Filosofia pela PUC-Campinas e pesquisa o feminismo vinculado às manifestações tradicionais brasileiras. É professora, editora, redatora e produtora cultural. Tiago Brentam Perencini é licenciado e bacharel em Filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia pela Unesp e professor de Filosofia Contemporânea na Faculdade João Paulo II de Marília.


O samba é Filosofia Por Fernando Pedrazolli Filho, Lucas Andrietta, Raul Pinheiro da Silva e Robson Gabioneta

“O

samba só não acabou porque o povo não deixou”, defende Paulinho da Viola em entrevista ao jornal El País.1 Nessa frase, o sempre sensato sambista se refere a um momento específico da história do samba: a década de 1970. Mas ela também sintetiza a relação tensa entre o samba e o mercado musical. E tem um sentido mais amplo, que pode ser pensado a partir de outros gêneros musicais e outras manifestações culturais além da música. A frase explicita uma das contradições mais importantes existentes entre a cultura e a indústria cultural. De um lado temos a cultura, tema estudado pela Filosofia, Antropologia e Sociologia. E que pode ser entendida, no contexto em que fala Paulinho da Viola, como tudo aquilo que compõe a experiência humana e que emerge da convivência e da necessidade de expressar-se, nesse caso, musicalmente. 1

O samba como expressão cultural espontânea, rica, variada e, sobretudo, carregada do conteúdo que o “povo” – o que quer que isso seja – quer expressar. De outro lado, a indústria cultural, conceito introduzido por um grupo de filósofos alemães – conhecidos como Escola de Frankfurt – nos ajuda a interpretar a dinâmica econômica de um setor em formação na transição dos séculos XIX e XX, mas também – e mais importante – os efeitos sociais da apropriação da cultura pelos circuitos de produção e de distribuição de bens culturais. A experiência do grupo Fundo de Quintal, como veremos a seguir, é esclarecedora desse momento da história do samba porque, ao mesmo tempo em que se tornou um fenômeno comercial, manteve paralelamente um espaço de convivência – samba, futebol e festa – em que sempre se produziu música/cultura não necessariamente limitada às demandas da indústria cultural.

Cultura, 8/2/2016 Fernando Pedrazolli Filho é mestre em sociologia (UFSCar). Professor de Sociologia na E.E. Residencial São José, Paulínia-SP. Lucas Andrietta é economista e mestrando em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp. Raul Pinheiro da Silva é músico e graduando em Física. Robson Gabioneta é mestre em Filosofia pela Unicamp. Professor de Filosofia da prefeitura de Itupeva e do Colégio Visconde de Porto Seguro em Valinhos.

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ETAPA I – Fundo de Quintal: berço de terreiro de bambas

imagens: shutterstock

Em meados dos anos 1970, no subúrbio da região da Leopoldina-Rio de Janeiro, surgia o grupo Fundo de Quintal, que marcaria como um giz o cenário do samba na música brasileira. Criados nas rodas de bambas que eram realizadas às quartas-feiras na quadra do Cacique de Ramos, os pagodeiros do Fundo começaram a chamar a atenção no cenário do samba carioca com seus novos instrumentos e técnicas, além de uma levada muito suingada de se fazer samba. Cantando o cotidiano como nas músicas Pela hora e Papo de Samba e fazendo da vida poesia expressão popular foram aos poucos conquistando seu espaço. Hoje, possuem mais de 30 discos gravados e milhões de cópias vendidas. O time de pagodeiros responsáveis por mostrar que o grupo Fundo de Quintal é berço de terreiro de bambas e que o pagode é o samba é enorme – traremos alguns deles ao longo do texto. Os primeiros integrantes do grupo foram: Neoci, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sereno, Sombrinha e os irmãos Ubiraja (Bira Presidente) e Ubirany. Apesar do enorme sucesso e relativo reconhecimento na atualidade, foi enfrentando no peito um certo preconceito e muito desdém que o grupo passou boa parte da carreira. Muitos sambistas da época, e principalmente a “mídia”, criticavam1 o grupo e sua forma de fazer samba, tentando transformá-los em sambistas menores. Uma das razões da crítica é a difícil adequação da roda de samba como produto comercial, ou melhor, aquilo que era – e continua – a ser produzido numa roda de samba é de difícil gravação e vendagem. Um exemplo atual é a música Meu lugar de Arlindo Cruz/Mauro Diniz que segundo a gravadora não deveria ser gravada por se tratar de uma música regional, mas que pela luta dos artistas foi aceita e se tornou mais um sucesso de vendagem da dupla.

A mídia – um dos agentes da indústria cultural, segundo os filósofos da Escola de Frankfurt – obcecada pela uniformização, criticava a falta de padrão do samba feito pelo Fundo de Quintal, ao ponto de alguns antigos sambistas não reconhecerem a música deles como samba. 2 O pagode do Cacique já estava ganhando nome dentro do mundo do samba no Rio de Janeiro na década de 1970, inclusive com a presença de sambistas já famosos. Mas o reconhecimento midiático começa a surgir em 1978, com um convite feito por Beth Carvalho para que os moleques atrevidos do Cacique gravassem com ela o álbum De pé no chão (RCA Victor, 1978). Vale destacar aqui o papel exercido pela madrinha do samba (Beth), abrindo as portas da indústria para que o pagode se popularizasse. O disco – que fez um enor2 Para aprofundar o assunto ver o exercício proposto na página 38.

me sucesso – projeta de uma vez por todas Beth Carvalho como cantora de samba e consolida sua relação de madrinha com o grupo. Depois de quase 20 anos de bloco e sambas, o grupo consegue lançar seu primeiro disco, Samba é no Fundo de Quintal (RGE, 1980). Os pagodes estavam tão quentes e era tanta música boa que rolava por ali que, já no ano seguinte, o grupo lança Samba é no Fundo de Quintal – Vol. 2 (RGE, 1981) e, graças à convivência que todo brasileiro conhece – samba, futebol, comida e cerveja –, não parou mais. Cacique de Ramos: um doce refúgio pra quem quer cantar “É ali no subúrbio/Um doce refúgio pra quem quer cantar/É o Cacique.”3 Era fundado – não por acaso – no dia 20 de janeiro de 1961, dia de São Sebastião (Oxóssi no 3

Doce Refúgio de Luiz Carlos da Vila

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O Fundo de Quintal é um dos grupos que mais falaram (revelaram) sobre sua forma de fazer samba. A discussão sobre o que é samba e o que não é acontece desde o primeiro samba gravado: Pelo telefone

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O documentário Brasil, Brasil produzido pela BBC mostra a música brasileira a partir do nascimento do samba

candomblé) e do aniversário do seu Domingos (pai de Bira e Ubirany), o bloco de embalo Cacique de Ramos, que viria a fazer muito barulho nos carnavais carioca. O Bloco, originalmente chamado Caciques da Boa Boca, é fruto da união entre três famílias que tinham em comum, entre muitas outras coisas, a forte religiosidade afro-brasileira e o gosto pelo samba e pelo carnaval. A família Félix do Nascimento (Bira, Ubirany e Ubiraci), a família Oliveira (Walter, Chiquita, Sereno, Alomar, Jorginho e Mauro) e a família Espírito Santo (Aymoré e Conceição). Bira Presidente matrícula 000 e Ubirany matrícula 001 são filhos de pais muito representativos no mundo do samba e dentro das religiões de terreiro (umbanda/candomblé). O pai, Domingos Félix do Nascimento, boêmio e sambista, frequentava as mais importantes rodas de samba e choro no Rio de Janeiro. Amigo de ícones como Pixinguinha, Cartola e Aniceto do Império foi responsável por “batizar” os filhos na Estação Primeira de Mangueira, quando eles ainda tinham por volta de 7 anos. A mãe dessa família, Dona Conceição de Souza Nascimento, foi filha de santo da Mãe Meni-

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ninha do Gantois aos 16 anos de idade e mais tarde teve um importante terreiro em Nova Iguaçu. Existe, na quadra do Cacique de Ramos, uma tamarindeira (árvore que dá o fruto tamarindo) muito cantada pelo grupo, a qual se atribui a mística do lugar e o sucesso dos que ali passaram. Dona Conceição foi a responsável por tornar as tamarindeiras da poesia guardiãs, “preparando” a árvore com o “axé” enviado pelo caboclo Sete Montanhas, garantindo que “aqueles que ali pisassem [...] para o bem” teriam suas virtudes destacadas e conquistariam seus objetivos.4 Seus frutos são inquestionáveis: Dudu Nobre, Anderson Molejo, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e muitos outros que faltariam páginas para citar. Dentro da riqueza de culturas do bloco e das pessoas que por lá passaram, podemos ver o quão grande, diversificada e complexa era a “raiz” do grupo. É desse caldeirão cultural que surge o grupo Fundo de Quintal, que atualmente possui a seguinte formação: Bira, Ubirany, Sereno, Ronaldinho, Mario Sergio e Ademir Batera. Importante destacar, como aponta Renato Ortiz, que a Escola de Frankfurt não discute cultura valendo-se da rica produção da Antropologia.

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exercício I

O grupo Fundo de Quintal fala muito sobre sua forma de fazer samba e o que eles pensam ser o samba. Por outro lado, outras pessoas, tanto internas como externas ao universo musical, também falam o que elas pensam ser o samba. Confronte algumas delas: Feitiço decente do Carlos Sandroni, o documentário dividido em três episódios Brasil, Brasil (https://www.youtube.com/ watch?v=9WOgH4gs0R8) e as letras do Fundo de Quintal (podem-se somar a elas letras dos compositores que fizeram parte do grupo, entre eles, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto). Pesquise a trajetória e a obra de alguns artistas que passaram pelo Cacique de Ramos e fizeram carreira solo: Jorge Aragão, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha e Jovelina Pérola Negra. Escolha cinco artistas do seu Estado: um músico, um ator, um artista plástico, um escritor e um cineasta. Pesquise a vida e obra de cada um deles. Como a indústria cultural influenciou a trajetória de cada um?

No carnaval de 2012, a Estação Primeira de Mangueira homenageou o grupo Fundo de Quintal e Cacique de Ramos com o samba-enredo Vou Festejar! Sou Cacique, Sou Mangueira


ETAPA II – Cultur a popular: você não samba mas tem que aplaudir Esse samba é pra você / que vive a falar / a criticar / querendo esnobar / querendo acabar / com a nossa cultura popular / É bonito de se ver / o samba correr / do lado de cá / fronteira não há / pra nos impedir /você não samba mas tem que aplaudir. Tratar, genericamente, do termo “cultura popular” não é uma tarefa simples.5 Esse conceito, pelo fato de referir-se a muitas coisas diferentes, pode carregar um vazio em seu significado. Mais importante é reconhecermos que se trata de um elemento discursivo em disputa por vários segmentos políticos, culturais, econômicos e que atende a interesses diversos. A ideia de música popular, por exemplo, foi e continua sendo objeto de estudo há pelo menos um século. Isso sem falar na ambiguidade (política) que carrega a palavra “popular” e os preconceitos de cor, travestidos de “bom ou mau gosto” que envolvem qualquer discussão sobre ela. Para ficarmos com apenas um exemplo da dificuldade do uso do termo, detemo-nos em um caso histórico, importante para a discussão proposta nesta seção. Consideremos o “P” da sigla MPB (Música Popular Brasileira). O “Popular” aí representado pode ser considerado síntese de um processo histórico que tem origem nos anos 1950. A metáfora do “olhar para dentro do Brasil” – ação contraposta à da elite brasileira e seu comInclusive um estudioso da Escola de Frankfurt, prof. da USP Vladimir Safatle, recomenda que não mais usemos esse termo: https://www.youtube.com/ watch?v=yMWZWrcnXf4. Acesso em 16 fev. 2016 5

O termo “popular” representa uma idealização do povo brasileiro, com características demasiadamente forjadas e romantizadas por certos setores artísticos e intelectuais

portamento tipicamente colonial de “olhar pra fora” –, buscando a beleza na “rusticidade”, “força” e “resistência” do “povo brasileiro”, foi chamada de “nacional popular”. Todas essas aspas que cobrem tais características do povo brasileiro revelam a carga de romantização da realidade. Esses artistas e intelectuais, geralmente de esquerda, buscavam valorizar a genuinidade do

“Brasil profundo” como arma ideológica para combater a “invasão estrangeira” – os “estrangeirismos” – especialmente a norte-americana, no meio cultural.6 Essa atitude ideológica foi absorvida pela indústria e se tornou hegemônica no meio artístico, principalmente na música 6

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O pagode está sempre associado a festas populares animadas com música, bebida e comida

­ opular – importante lembrar o p quão restrito e elitista era o campo artístico e intelectual brasileiro nos anos 1950/60. É desse processo que surge o termo “Música Popular Brasileira”. Voltando ao samba, um dos desdobramentos desse processo foi a utilização do termo “raiz” para designar a legitimidade do samba. A impertinente e confusa diferenciação entre samba de raiz e qualquer outro tipo de samba se configura, portanto, como uma atitude derivada daquele processo. Confusa, porque o chamado “samba raiz” passou a designar coisas tão diferentes quanto os interesses de venda do produto. E impertinente, pela insistência no erro e pelo elevado grau de elitismo que ela carrega. Dando um longo salto na História, evidencia-se nos anos 1970/1980 no Rio de Janeiro o movimento dos “pagodes” que, como explica Leci Brandão, significa originalmente uma celebração do samba e dos amigos, espontânea e natural, com música, comida e bebida fartas. Observa-se nesse período uma recondução do samba para as ruas e para

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os fundos de quintais, relembrando o que acontecia no mundo do samba no início do século X X. Como vimos, as rodas de samba do Cacique de Ramos formavam um legítimo pagode. Termo que também passou a designar o estilo de samba por eles cantado, para diferenciá-lo dos outros tipos de samba, devido ao posterior sucesso comercial do grupo. Tão logo o estilo se comercializa, surgem as críticas e a inevitável comparação com os sambas de outrora. A alcunha de “pagode” passa a ser depreciada em detrimento do samba “autêntico”, de raiz. Essa alcunha é elevada ao extremo quando surgem os pagodeiros de São Paulo dos anos de 1990, muitos deles apadrinhados pelo Fundo de Quintal. O problema que queremos abordar se dá pela confusão atual entre os termos. Hoje, os considerados sambistas de raiz são justamente aqueles pertencentes à geração formada pelo Cacique de Ramos. Ou, mesmo, como ocorre muitas vezes, quando os próprios sambistas referem-se às suas músicas, ora como pagode, ora samba de raiz.

Justamente por serem responsáveis pelo resgate de formas passadas de se cantar e tocar samba, o que gerou importantes inovações artísticas que, hoje, já fazem parte de certa tradição do samba, o grupo Fundo de Quintal encontra-se certamente na fronteira entre alguns tipos de samba: o partido-alto e o samba romântico, o tradicional e o pós-bossa nova, mas, principalmente, entre o samba de raiz e o pagode. O violão tocado com “a unha seca”, o “contato direto” da mão com os instrumentos, sem ­ i ntermediários, são alguns dos elementos tradicionais introduzidos nas rodas do Cacique. O que significa, em termos práticos, estar nessa fronteira? Qual o significado da confusão (não diferenciação) que eles próprios estabelecem entre samba de raiz e pagode? Exemplo disso são os trechos das músicas: Pois o samba marca como um giz, é eterno porque é raiz; cantou a dupla Arlindo Cruz e Sombrinha, comissão de frente do grupo (em 1986 – lançamento do disco). Três anos antes, Jorge Aragão, já em carreira solo, cantava: resiste quem pode à força dos nossos pagodes. Mais do que responder à questão, interessa-nos evidenciá-la, mostrar o quão contraditório podem ser tais discursos que apelam para o termo “raiz” em nome de uma suposta autenticidade de tal ou qual samba. Entretanto, para nos ajudar a pensar a questão, recorremos aos próprios protagonistas dessa história. A confusão que se faz do tipo de samba cantado por eles mesmos, na verdade demonstra uma lucidez histórica de quem não se prende a convenções criadas estranha e externamente por pessoas (físicas ou jurídicas) alheias ao processo. Dizem que o pagode é moda, o samba de roda é o partido-alto, mas isso já vem da antiga, a onda de briga é coisa do asfalto. Ou, como resume Sereno:


exercício II:

A canção O Neguinho e a Senhorita foi composta por Noel Rosa de Oliveira e Abelardo Silva na década de 1960 e gravada pelos intérpretes Noite Ilustrada, Elza Soares, Fundo de Quintal e pelo Salgueiro. Escute cada uma das versões e descreva as semelhanças e diferenças musicais entre elas. Quais instrumentos são utilizados? A cadência, o ritmo e a forma de cantar são os mesmos? Considere três canções das quais você mais gosta de artistas ou grupos diferentes. Para cada uma delas, faça o exercício proposto. Quando e por quem ela foi composta? Tente se lembrar de quando e como você teve contato com elas pela primeira vez. Como a indústria cultural interferiu ou foi responsável por esse contato? Pesquise a história dos artistas ou grupos e tente descobrir quais os principais fatores que os levaram a ser conhecidos por seu público. O que faziam antes do sucesso? Quem acreditou neles pela primeira vez? Quem ajudou em sua carreira? É possível classificar essas canções e esses artistas em um gênero musical? Qual? Que critérios você utilizou? Compare seus resultados com o de seus colegas. Construa um gráfico que indique os gêneros preferidos da turma. p­ agode é o samba/não tem ti-ti-ti/ que tá com Deus e Zumbi. Essa dialética entre presente e passado considerando-se seus vieses e suas contradições parece-nos a melhor forma de se apreender o fenômeno Fundo de Quintal. Pelo menos, para nos contrapormos ao modo classificatório que se prende a um dualismo (pagode/samba de raiz) a-histórico que tenta vender, a qualquer preço, uma classificação evolutiva do samba. Para botar mais dendê nesse caruru, acresce-se o fato de que o grupo e muitos sambistas da geração foram apadrinhados musicalmente por Beth Carvalho, uma sambista já consagrada na época, que saiu das rodas de violão dos apartamentos da Zona Sul. Beth Carvalho, como ela mesma diz, escolheu o samba e se consagrou como uma das maiores sambistas do Brasil. Amparado por ela, veio o reconhecimento da qualidade musical do grupo Fundo de Quintal. A partir daí, o samba ganha um novo fôlego comercial tendo como protagonista a geração

formada pelo Cacique de Ramos e na ponta da lança o grupo Fundo de Quintal. Não à toa, a sambista é venerada e citada em praticamente todas as falas públicas do grupo. Ainda hoje, o apadrinhamento é uma, senão a principal forma, de adentrar na restrita, elitista e antidemocrática mídia brasileira. No campo artístico-musical, há sempre certa veneração das madrinhas e dos padrinhos musicais, certo “endeusamento”, como no caso da madrinha do samba, Beth Carvalho. Relação que não deixou de ser criticada por alguns artistas. Certo é que quem foi bem apadrinhado não renega jamais (não deixa de beijar a mão) quem “descobriu” e “investiu” no seu talento. Ademais, utilizando o mesmo exemplo, podemos dizer que a relação de apadrinhamento tem duas mãos. Beth Carvalho também se beneficiou, seja pelo insistente reconhecimento público dos seus afilhados (famosos), seja pelo revigoramento comercial do samba protagonizado pela geração Fundo de Quintal.


ETAPA III O pagode é o partido popular “Domingo, lá na casa do Vavá / Teve um tremendo pagode / Que você não pode imaginar”.7 Cerveja gelada, gente de todo lugar, pessoal à vontade, comida no fogo e cachaça na mesa: pagode formado. O pagode cantado por Paulinho da Viola – dedicado ao amigo Norival Reis (Vavá da Portela) – tenta mostrar um pouco o jeito suburbano de celebrar o samba. Outros nomes importantes e considerados referência dentro da música brasileira, como João da Baiana, Candeia, Pixinguinha e Nélson Cavaquinho, também se reuniam para cantar (celebrar) sambas nessa forma descontraída e sem muiNo pagode do Vavá de Paulinho da Viola

noite: Madrugada fascinante do qual sou amante e não posso negar/Que me envolve a todo instante quando me ponho a versar/Pois o verso me aproxima das mais belas rimas que nunca têm fim/E aquela menina a lua ilumina e traz as estrelas pra junto de mim. Como não tinham dinheiro para alugar os boca-de-ferro (microfones) – mas não só por isso – e, influenciados pelas batucadas de terreiro, os pagodeiros foram adaptando a forma de fazer o samba, introduzindo novos instrumentos e criando novas técnicas para tocar.8 Outra marca dos pagodes do Algumas dessas técnicas podem ser vistas de maneira mais clara no Workshop de Percussão com Nene Brown (https://www.youtube.com/ watch?v=VsDRpYCx36U). Acesso em 16 fev. 2016

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imagem: divulgação

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tas regras – mas com muito respeito. Nesse ambiente, eles mostravam seus sambas, compunham em parcerias e celebravam o samba. Existiam também os pagodes nas escolas de samba e nos terreiros, sempre com comida e marcados pela batucada e versos de improviso. Vemos, então, que essa não é uma invenção nem exclusividade do Cacique de Ramos, mas uma herança cultural cultivada por seus integrantes. Às quartas-feiras na quadra do Cacique de Ramos o pessoal jogava futebol e ficava após a “pelada” para confraternizar e tomar “uma” cerveja. Aos poucos, pegavam os instrumentos, formavam a roda e, então, começavam os versos de improviso, que virariam a

O grupo Fundo de Quintal participou três vezes do programa Ensaio da TV Cultura. Em 1991, em1996 e, por último, em 2015

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exercício III

Escolha um instrumento musical para tocar (também pode ser a sua voz ou o seu próprio corpo). Sentados em roda, uma pessoa começa a tocar ou cantar uma música. As outras, uma de cada vez, devem acompanhar com seus instrumentos próprios atentos ao som produzido por todos. O programa Ensaio, da TV Cultura, já recebeu o grupo Fundo de Quintal mais de uma vez. Assista aos programas de 1991 e de 2015 e reflita sobre as respostas dadas pelos integrantes do grupo em cada entrevista. Como se referem à carreira do grupo? Como se referem ao seu papel na história do samba? Como se referem a outros grupos de samba? Ao longo do texto foram citados em itálico alguns trechos de músicas relacionadas ao Fundo de Quintal. Identifique cada um deles e pesquise as canções das quais fazem parte, o ano em que foram gravadas e a(s) pessoa(s) que as compuseram. Cacique era o partido-alto (um tipo de samba caracterizado pelo refrão fixo e versos de improviso) executado de uma forma bem peculiar, que se diferenciava do jeito “tradicional” de se tocar esse gênero. Concomitante às (re)invenções do grupo acontece também um trabalho de “resgate da raiz”, como no caso do banjo tocado por Almir Guineto, que fora usado no maxixe e por alguns sambistas mais antigos, mas que havia sido esquecido e deixado de lado; além do(a) tam-tam introduzido por Neoci e Sereno e do repique de mão inventado por Ubirany, ambos tocados sem baqueta; isso sem falar da levada suingada do pandeiro do Bira Presidente e das lindas harmonias criadas por Cleber Augusto, Sombrinha, Arlindo Cruz e tantos outros compositores. Aos poucos, e com o crescimento da roda do Cacique, começa a surgir no subúrbio do Rio de Janeiro um “movimento de pagode”, que rapidamente chegaria a outros locais e posteriormente chamou a atenção da indústria cultural. Essa cena abriu espaço para os compositores dos morros voltarem a divulgar seus sambas, trazendo o protagonismo de volta para o subúrbio.9 No artigo anterior, Revista Filosofia Ciência & Vida, ano VIII, número 110, pág. 46, relatamos, a partir de Foucault, quão importante é apropriar-se da própria história. Nesse sentido destacamos algo que já havíamos dito: o Fundo de Quintal, corajosamente e musicalmente, falou, talvez mais do que qualquer outro grupo, o que é o samba.

Como canta Nélson Sargento: samba agoniza mas não morre. Vieram também a profissionalização dos músicos, uma maior abertura – ainda que pequena – no mercado das gravadoras e um aumento nas vendas de instrumentos de samba, espalhando as rodas de pagode pelo Brasil. Fundo de Quintal berço de terreiro de bambas/Vamos que o pagode é o samba eh laiá laiá.

PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Cacique de Ramos Uma História que deu Samba. Ed. Frutos, 2003. RIDENTI, Marcelo. Brasilidade revolucionária: um século de cultura e política. São Paulo: Unesp, 2010. SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações no samba do Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2ª edição 2012.

referências

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Audiovisual Programa O Som do Vinil - De Pé no Chão, Beth Carvalho - Canal Brasil Programa Ensaio com Fundo de Quintal (TV Cultura, 1991) Programa Ensaio com Fundo de Quintal (TV Cultura, 2015) Programa Samba na Gamboa com Fundo de Quintal (TV Brasil, 2015) O Patuá Tamarindo. Dirigido por Eduardo Maruche e Natara Ney (GLP Marketing, 2013). BBC: Brasil Brasil - Episódio 01 - Do Samba à Bossa (2007) Cultura Popular em Questão - Vladimir Safatle


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