Entrudo: Manifestações das Classes Populares no Rio de Janeiro no Fim do Império
Jean de Oliveira Quinelato*
Resumo: O texto busca contextualizar as práticas do Entrudo e do Carnaval no Rio de Janeiro no século XIX, principalmente durante a transição de império para república. Além disso, o artigo propõe mapear algumas manifestações populares e suas representações na imprensa. As festas que antecediam o período da Quaresma faziam parte da sociedade brasileira da época, porém havia uma tendência por parte dos intelectuais e da imprensa carioca de associar o que havia de pior do Entrudo nas camadas populares, ou seja, em negros libertos, escravos, moradores de cortiço, etc. Esse movimento anti-entrudo, encabeçado por jornalistas, associa a imagem das festas e práticas populares com violência, crime, caos e tudo de negativo.
Abstract: The paper seeks to contextualize the practices of Entrudo and Carnival in Rio de Janeiro in the 19th century, specially during the transition from the empire time to the republic system. Furthermore, the paper also proposes to map some popular manifestations and their representatios in the press. The parties which preceded the period of the lent were part of the brazilian society at that time, but there was a tendency of some intellectuals and Rio de Janeiro city’s press to mingle what there was of the worst of Entrudo with the popular strata, in other words, freedmen, slaves, tenement houses’ dwellers, etc. This movement against Entrudo, led by journalists, associates the image of parties and popular practices with violence, crime, chaos and all negative things.
Palavras-chave: Entrudo. Carnaval. Império. Imprensa. Rio de Janeiro.
Keywords: Entrudo. Carnival. Empire. Press. Rio de Janeiro.
Entrudo e Carnaval: Semelhanças e diferenças
A
ntes de olhar as manifestações populares em si, é preciso entender o contexto em que elas se encontram e a luta que se travava entre duas formas de festas no período: O Entrudo e o Carnaval.
O primeiro é de origem portuguesa, seus registros no Brasil datam de meados do século XVII e
não se limita somente à festa (ARAUJO, 2011). O Entrudo era um conjunto de práticas realizadas durante
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Graduando em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: jeanquinelato@gmail.com.
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o reinado do momo, como trotes, jogar limões de cheiro, águas servidas, contar mentiras, pregar peças, etc. (CUNHA, 2001). Araújo aponta que ao ler os documentos da época é perceptível que o termo “entrudo” é mais utilizado para se referir as festas em si, enquanto a palavra “carnaval” é normalmente empregada para designar os dias de folguedo que antecediam o período da Quaresma (ARAUJO, 2001). Em outros termos, o entrudo costumava se referir a brincadeira e a festa, já o carnaval, o tempo em que se brinca e se festeja. Apesar de essas práticas permearem toda a sociedade, uma parte dela, encabeçada por imprensa e intelectuais, tinham ideias diferentes sobre essas brincadeiras e festas. Para eles, o “verdadeiro carnaval”, era aquele que provinha das festas carnavalescas de Nice e Veneza, principalmente dos bailes de máscaras. Essa festa era representada como comedida, elegante e racional, ou seja, “civilizada”. Os bailes chegam ao Rio em 1846, mas antes mesmo disso o Carnaval e o Entrudo já são vistos como ideias opostas. Por sua vez, o primeiro desfile nos moldes franceses foi do Congresso dos Sumidores em 1855, organizado por intelectuais que eram contra as práticas entrudescas. Em pleno contexto de ideais abolicionistas e embates para a modernização da capital brasileira aos moldes franceses, o entrudo era combatido, pois remetia ao atraso colonial, à barbárie, e por isso precisava ser negado. Porém, se os jornalistas e cronistas escreviam contra ele, esses mesmos relatos eram sempre muito dúbios. Giron escreve que Gonçalves Dias, por exemplo, sempre deixava um ar de nostalgia nos seus textos sobre essas práticas (GIRON, 2002). As tentativas de eliminação do entrudo foram muitas, mas mesmo com as diversas proibições das brincadeiras, que datam de 1853 – inclusive com perseguições policiais e recompensas por levar vendedores de limões de cheiro à polícia - sua prática continuou a existir (GIRON, 2002). Elas estavam tão imbricadas nessa sociedade, que inclusive havia relatos de que Dom Pedro em Petrópolis as praticavam, o que era motivo de enormes críticas por parte da imprensa, e que por sua vez se estendiam em críticas à própria monarquia (CUNHA, 2001). Os embates entre essas duas “entidades”, Entrudo e Carnaval, eram, todos os anos, relatados nos jornais da capital, que ficavam na Rua do Ouvidor, também conhecida como a “artéria da civilização” (CUNHA, 2001). Olhando de cima das casas, esses jornalistas tinham vista privilegiada da festa, na principal rua em que ela ocorria, e escreviam in loco sobre os desfiles. Desde a década de 1850 eles escrevem sobre a morte do Entrudo, falando que ele agonizava e que era o seu fim, mas mesmo ilegal, ele reaparecia todo ano, podendo ser encontrado até em relatos de carnavais do início do século XX (GIRON, 2002).
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Entrudo: manifestações das classes populares no rio de janeiro no fim do império Figura 1. O entrudo em 1884. Rua do Ouvidor. Revista Illustrada, Angelo Agostini. Fonte: Disponível em http://memoria.bn.br/pdf/332747/per332747_1884_00373.pdf> Acesso em:19/03/2017.
Por mais que intelectuais e imprensa se esforçassem em criar uma imagem negativa dessas práticas, a polícia as proibisse ou avisos sobre perigo de doenças fossem divulgados, o Entrudo permanecia. Giron, através de sua análise dos escritos de Gonçalves Dias, escreve que a insistência dessas práticas em retornar ano após ano, só pode ser explicada pela origem na vida cotidiana e na válvula de escape da revolta e da agressividade que elas ofereciam à multidão (apud GIRON, 2002). Tentar abolir o entrudo era o mesmo que tentar abolir uma força da natureza.
Manifestações populares
Fantasias
As máscaras passaram a fazer parte do carnaval carioca por volta de 1834, com o surgimento de uma nova classe média e tendo o carnaval de Veneza como modelo. Nessa época, elas eram importadas de Paris, feitas, sobretudo, de cetim, cera e veludo e reproduziam as máscaras de personagens presentes nos palcos franceses e italianos (PERNY, 2015). Para Mattoso “A máscara, longe de ocultar, revela (...) ela serve enfim, para descobrir um certo sentido do rosto que está para além das aparências” (MATTOSO, 51:1999). Utilizando DaMatta, Perny acrescenta que a fantasia escolhida é a representação de um desejo escondido, “faz uma síntese entre o fantasiado, os papeis que representa e os que gostaria de representar” (apud PERNY, 67:2015). No Brasil, os bailes de máscaras, ou mascaradas, surgem com o intuito de civilizar o entrudo e são os salões que se tornam o novo espaço de convivência social elitizada. Assim “a civilização exige o encobrimento de certas tendências violentas incompatíveis com a civilização, ainda que esse encobrimento seja paradoxal, na medida em que também é revelador” (PERNY, 62:2015).
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Figura 2. Baile de máscaras no teatro lírico do Rio de Janeiro, Guerave (1883).Fonte: Disponível em <http://www.aentrudeira.com/2016/01/primeiro-baile-de-mascaras.html> Acesso em 19/03/2017.
Se os partidários do “verdadeiro carnaval” preferiam os bailes de máscaras em grandes clubes no estilo veneziano, as festas, para a esmagadora maioria da população, ocorriam nas ruas, principalmente na rua do Ouvidor. O tempo do Entrudo era marcado pelas brincadeiras como jogar farinha nos outros, água, bisnagas, limões e laranjinhas de cheiro, como já foi mencionado. Outra característica marcante, sem dúvida, era o uso das máscaras e das fantasias, que é possível observar até hoje. O uso de fantasias e máscaras rapidamente se estendeu por todas as classes. Porém, ao contrário do que se possa imaginar e inclusive do que é muitas vezes propagado, esses adereços só escondiam a identidade do indivíduo, pois o seu status social ainda era visível. O tipo de tecido, o material de fabricação e os adereços (como a utilização de tecidos finos para a confecção das peças ou até mesmo andar em cavalos, por exemplo) eram signos visuais que possibilitavam a identificação do lugar social dessa pessoa na hierarquia (CUNHA, 2001). Cunha explica que as práticas relacionadas ao uso de máscaras vão se modificando ao longo do século XIX. Assim como o Entrudo, a imprensa vai relacionando as fantasias a coisas negativas, principalmente crimes e relatos de violência (CUNHA, 2001). A década de 1880 é o ápice dessas tensões entre Carnaval e Entrudo, e é importante entender o contexto da época. As ideias abolicionistas, a diferenciação do que era civilizado e não-civilizado e a busca pela modernização do Brasil, tornam a capital tupiniquim em um lugar cheio de diferenças sociais em ebulição. O escravo e o negro liberto por detrás de uma máscara não se diferenciavam.
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Entrudo: manifestações das classes populares no rio de janeiro no fim do império Dentre as fantasias, algumas merecem destaque. A de dominó, por exemplo, consistia em uma
fantasia de corpo inteiro, semelhante ao gabão dos frades, com um amplo capuz. Ela podia ser utilizada por todas as origens sociais e tanto por homens, quanto por mulheres. Nos grandes salões o dominó era elogiado e trazia o fascínio dos homens pela mulher embaixo do capuz, segundo os relatos (CUNHA, 2001). Diferente da impressão causada pela fantasia de dominó nos salões, os trajes mais pobres e rudes não recebiam os mesmos adjetivos positivos:
Impressão muito diferente da provocada por aqueles que portavam suas “grosseiras” máscaras de papelão ou de arame, envergando também dominós confeccionados com sacos de aniagem ou panos grosseiros e fantasias estigmatizadas no período por sua “vulgaridade”: o “pai João”, cuja sujidade das palavras às vezes acompanhava a das roupas, [...] o doutor-da-mula-ruça, de cabela asinina e farto pacote de livros sob o braço” (CUNHA, 33)
Para Bakhtin, o carnaval é ao mesmo tempo onírico e real. Não é simplesmente uma representação, mas vivência. Se nas festas oficiais se reiteravam o existente e a seriedade e as distinções hierárquicas eram marcadas intencionalmente através de discursos cheios de pompas, títulos e insígnias, nas festas populares carnavalescas o riso e a inversão eram seus elementos fundadores (apud MIRANDA, 1997).
Em uma sociedade extremamente hierarquizada como a brasileira, com
elementos como a escravidão e a monarquia, fica bastante compreensível a resistência das práticas entrudescas e das festas populares mesmo com o constante ataque por parte dos veículos da imprensa. O período pré-Quaresma significava liberdade para muitos, ou ao menos, o mais próximo de liberdade que se fazia possível. As fantasias eram maneiras de ironizar elementos fundantes daquela sociedade, pelo uso de inversões muitas vezes. O homem se travestia de mulher, o negro usava um pó branco no rosto, o branco uma tinta preta, os pobres viravam princeses durante as festas. Um ótimo exemplo dessa inversão está na fantasia do velho. Na hierarquia dos trajes de dançarinos, se fantasiar de velho era estar no topo dela, já que era ele, ironicamente, o que melhor dançava (CUNHA, 2001). Se trajar de velho, além de significar saber dançar muito bem, também significava ter prestígio dentro desse meio. Porém, a única fantasia que superava a do velho era a do diabinho. Nos relatos de prisões e matérias envolvendo violências e crimes que estampavam os jornais durante o reinado do momo, era recorrente ler sobre prisões de pessoas fantasiadas de diabos.
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Figura 3. O mequetrefe, Capa, Angelo Agostini. n.401, ano 12, 1886. A figura mostra um negro vestido de diabo, onde seu cabelo se transforma em seus chifres. Fonte: Disponível em<http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=70967 0&pagfis=2844&url=http://memoria.bn.br/docreader> Acesso em 19/03/2017.
Eric Nepomuceno escreve que a imagem da fantasia de diabinho no Brasil era de festivo, jovem homem esperto, vivo, sabido, travesso, caluniador, autor de obras terríveis e maravilhosas. Todas essas características acabam sendo associadas àqueles que trajavam suas vestes, a grande maioria negros, segundo os jornais e crônicas da época. Nepomuceno acrescenta que na mesma época, os capoeiras também eram alvos de perseguições por parte da imprensa e que ao relatar o tipo de fantasia que eles usavam ao serem presos, a de diabinhos era sempre associada (NEPOMUCENO, 2013). Assim, os diabinhos não só remetem aos capoeiras, como também a crimes e violência. Ao serem citados nas notícias dos periódicos, nunca há relatos de harmonia sobre eles, somente de caos e desorganização. Logo, o diabinho deveria ter o mesmo fim do Entrudo, já que também representava a festa atrasada e perigosa
Grupos
Os mascarados, sobretudo os diabinhos, já eram normalmente vistos de forma negativa quando estavam sozinhos ou em pequenos grupos por esses que escreviam, no entanto, isso se agravava quando eles vinham acompanhados aos grupos carnavalescos. A rua do Ouvidor era um espaço em disputa por grupos das camadas populares e das Grandes Sociedades, financiadas por intelectuais, comerciantes e apoiadas pelos jornalistas. O cucumbi era um desses grupos que ali desfilavam durante o entrudo. Nepomuceno ressalta que esses grupos aparecem
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nos relatos após 1884, e que isso pode ser explicado pela eminência dos ideais abolicionistas da época (NEPOMUCENO, 2014). Os cucumbis eram grupos de negros que faziam uma dança dramática, cujo enredo lembrava as congadas, e seus elementos estavam muito relacionados aos povos bantos. Além da representação de personagens africanos como o feiticeiro, o rei do Congo, as delegações que os acompanham e o filho do rei, também havia o caboclo, que era derrotado pelo feiticeiro em uma espécie de exaltação da vitória dos negros (NEPOMUCENO, 2014). No bojo das práticas dos cucumbis, práticas africanas se misturavam com europeias. Nepomuceno explica que esses grupos incorporavam expedientes das Grandes Sociedades, como saudar as redações dos jornais e desfilar pela rua do Ouvidor. Com isso, eles procuravam ao mesmo tempo que fossem mais vistos e reconhecidos e impediam que fossem silenciados ou perseguidos pelas autoridades. No entanto, na década de 1890, passado o furor abolicionista, os cucumbis desaparecem dos relatos dos jornais (NEPOMUCENO, 2014). No exemplo das apropriações das práticas das Grandes Sociedades pelos cucumbis é possível enxergar o conceito de circularidade cultural de Carlo Ginzburg. Ele aponta para a relação de trocas entre a cultura popular e a cultura dominante, descrevendo o conceito como um relacionamento circular feito de influências recíprocas, que se movia de baixo para cima, bem como de cima para baixo (GINZBURG, 1987). Assim como os cucumbis foram influenciados pelas Grandes Sociedades, a fantasia do diabinho também adentrou aos grandes salões, porém metamorfoseado na forma de Mefisto, com tecidos mais finos e adereços mais caros. Outro grupo popular que reunia multidões eram os zé-pereiras. Enquanto os cucumbis eram identificados aos negros, principalmente aos de descendência banta do Rio de Janeiro, aos zés a imagem do cortiço e do povo “rude” estavam a eles associadas. Cunha explica que esses grupos arrastavam uma grande presença coletiva com barulho e zabumba pelas ruas.
A fantasia mais
característica era a dos portadores de estandarte, que trajavam uma roupa de capim. Elementos dos zépereiras também chegaram às Grandes Sociedades (CUNHA, 2001). Um ponto interessante para ser pensado é a proximidade da Rua do Ouvidor, principal ponto do Carnaval do Rio de Janeiro, com os cortiços e as habitações populares. Os periódicos, que desde a primeira metade do século XIX já pediam o fim dessas manifestações populares vistas como atrasadas e bárbaras, também vão apoiar a derrubada dessas habitações do entorno da “artéria da civilização”, como o famoso “bota abaixo” promovido por Barata Ribeiro na última década do século XIX (CHALHOUB, 1996). Não é tema para esse texto, mas é interessante pensar o quanto o carnaval da Rua do Ouvidor e da cidade não deve ter mudado após essas reformas urbanas e higienistas do início da República que afastaram esses habitantes do principal ponto de concetração das festas carnavalescas.
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Conclusão
Hobsbawm diferencia tradição e costume:
“costume” é o que fazem os juízes; “tradição” (no caso, tradição inventada) é a peruca, a toga e outros acessórios e rituais formais que cercam a substância, que é a ação do magistrado. A decadência do “costume” inevitavelmente modifica a “tradição” à qual ele geralmente está associado (HOBSBAWM, 10:1997).
O entrudo é um exemplo de costume. As tradições que o cercavam foram sendo modificadas no decorrer do século XIX. No século XX, por exemplo, aos poucos os limões de cheiro e as bisnagas foram sendo substituídas por confetes e lança-perfumes. Atrevo-me a dizer que hoje em dia esse costume de “sujar” ou tacar algo em alguém ainda permanece na forma do spray de espuma. Assim, as práticas do Entrudo eram costumes arraigados demais na sociedade para desaparecerem assim, de repente. Através do costume do entrudo, da emergência do carnaval europeizado e das lutas pela ocupação dos espaços públicos pelas camadas populares é possível perceber um pouco das tensões e ideias que permeavam a sociedade carioca, sobretudo no final do século XIX. Um recorte espaçotemporal no qual é possível identificar as tendências de ideais do que era ser civilizado e moderno e que encontrava nos periódicos e intelectuais da Rua do Ouvidor voz.
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