Organizadoras
Debora Krischke Leitao Diana Nogueira de Oliveira Lima Rosana Pinheiro Machado'
Antropologia
&Consumo
Dialogos entre Brasil eArgentina
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Antropologia e consumo: diaIogos entre Brasil e Argentina / [Organizado por] Debora Krischke Leitao, Diana Nogueira de Oliveira Lima e Rosana Pinheiro Machado. - Porro Alegre: AGE, 2006. 16x23 em. ; 211p. ISBN 85-7497-291-6 1. Antropologia. 2. Consumo. 1. Leitao, Debora Kirschke. II. Lima, Diana Nogueira de Oliveira. III. Pinheiro Machado, Rosana.
CDU 572:330.567.2
Catalogac;:ao na publicac;:ao: Leandro Augusto dos Santos Lima - CRB 10/1273
PORTO ALEGRE 2006
Mais que feijoada e samba: notas sobre a cultura negra brasileira MAruA.ALICE REZENDE GONc;:ALVES ANA PAULA ALVES RIBEIRO
A
feijoada e 0 samba, consagrados simbolos de nossa identidade nacional, tambem podem ser simbolos da identidade negra brasileira? Dedicamo-nos, neste artigo, a pensar esta e outras quest6es relativas a cultura negra no Brasil. Pretendemos discutir 0 processo de constrw;:ao e reconstrw;:ao da cultura negra brasileira, destacando seu cadter global des de a ongem. E notorio que a pluralidade cultural e uma das grandes riquezas da nas:ao brasileira, porem 0 reconhecimento das d iferens:as culturais existentes entre as diversas populas:6es brasileiras e recente. Aproximadamente a partir de meados do seculo XX, a composis:ao heterogenea das nossas populas:6es passa a ser valorizada e a diversidade cultural e, entao, cons iderada uma caracterlstica positiva de nosso povo. Nos tempos atuais, 0 processo de globalizas:ao tern fomentado 0 surgimento de uma cultura globalizada que envolve a todos. Sendo assim, algumas perguntas sao necessarias: como conciliar a recente descoberta da pluralidade cultural da sociedade brasileira com 0 processo de globalizas:ao das culturas? E possivel determinar fronteiras entre as culturas etnicas no Brasil, onde predominou urn modelo assimilacionista durante decadas? Existiria, aqui, uma cultura exdusivamente negra? A integras:ao ou busca da integras:ao, representada pelo mito da democracia racial, significou 0 fim das culturas etnicas no pais? A primeira vista, aqui, onde 0 mito fundador da nas:ao pressupunha a miscigenas:ao entre as tres ras:as, conceitualmente pensada durante an os como culturas homogeneas - a negra, a branca e a india -, parece inverossimil falar de culturas etnicas. Nossa cultura nacional e composta de itens que guardam urn forte componente etnico, alguns deles facilmente identifidveis como componentes das culturas das populas:6es negras brasilei-
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ras, tais como a feijoada, 0 candomble e 0 samba. Manifestacr6es culturais que sao, ao mesmo tempo, simbolos da nossa brasilidade e de nossas raizes africanas sem que saibamos estabelecer 0 que e a nossa identidade nacional e 0 que faz parte da nossa identidade etnica, ou seja, as fronteiras entre 0 que e brasileiro e 0 que e negro. A escravidao e a miscigenacrao foram responsaveis pela transformacrao do Brasil contemporaneo no segundo pais com 0 maior contingente negro do mundo. A intensidade das trocas entre Africa e Brasil durante a Colonia e a producrao cultural dos africanos e seus descendentes no Novo Mundo fez surgir 0 que hoje cham amos de cultura negra do Brasil. Esse legado e visivel inclusive nos vodbulos originados das linguas africanas, incorporados a nossa lingua, e conseqlientemente sao marcas irrefutaveis da producrao de uma cultura negra brasileira. As trocas entre as culturas, entretanto, nao nos man tern aprisionados ao passado - aos quilombos, lundus ou cucumbis; estao vivas no corpo e na mente das populacr6es brasileiras, nos cultos dos orixas, nos estilos juvenis - no hip hop paulista, no reggae maranhense ou no funk carioca -, nas ciencias, nas tecnologias, nas artes e em todos os campos da vida social. Sem negar a participacrao de outros grupos, entendemos por cultura negra 0 conjunto de simbolos que agregam manifestacr6es das culturas produzidas pelas populacr6es negras espalhadas pelo mundo e por cultura negra brasileira, 0 conjunto de simbolos cujos significados estao inexoravelmente vinculados as diferentes populacr6es negras brasileiras. A nocrao de que as culturas criadas no Novo Mundo sao necessariamente hibridas nos coloca diante da dificuldade de estabelecer fronte'iras entre as culturas dos diferentes grupos que comp6em a sociedade brasileira e a cultura nacional; e de definir a autoria das manifestacr6es culturais criadas no Novo Mundo, dado 0 grande dialogo existente entre as culturas que aqui circulam. Alem disso, a ideia de pureza cultural esta cada vez mais distante do nosso mundo de culturas globais. Estas demonstram to do 0 tempo seu dinamismo atraves da circulacrao de pensamentos, pessoas e coisas. Os exemplos que se seguem demonstram quanto e complexa a tare fa de tracrar limites entre as culturas. Revelam tens6es no que diz respeito ao significado dos simbolos - nacionais ou etnicos, transnacionais ou nacionais -, confirmando 0 fato de que a cultura negra ja nasceu global.
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Robert Slenes (1995) destaca em seus trabalhos as relacr6es culturais que advieram dos contatos estabelecidos entre os povos da Africa bantu, do mundo europeu e das Americas durante a escravidao. 0 historiador constata a existencia de urn modelo billnglie da senzala no centro-suI do Brasil. Para ele, enquanto durou 0 trafico transatlantico, os escravos mantiveram vivas as linguas faladas por suas comunidades de origem, como tambem uma lingua franca de origem bantu. Alem disso, falavam uma lingua crioula baseada no portugues regional e recorriam a sua herancra africana para nao serem entendidos por senhores e feitores. Ao se comunicarem, por exemplo, com express6es como ngoma vem estavam trocando de codigos, ou seja, estavam inserindo palavras de sua herancra bantu nas frases em portugues. Ngoma e uma palavra praticamente universal nas linguas bantu que, agregada ao verbo vir da lingua portuguesa poderia ter 0 significado de "urn toque de alarme", demonstrando a existencia de significados compartilhados apenas pelos escravos e de urn mundo lingliistico e cultural certamente desconhecido pelos senhores. Urn outro exemplo encontrado nos trabalhos desse historiador e a popularidade do culto a Santo Antonio entre os escravos no seculo XIX. Sugere haver semelhancras entre as caracteristicas do santo - curar doenc;as, encontrar objetos perdidos ou promover casamentos - com 0 complexo cultural ventura/desventura da Africa Central. Santo Antonio ofere cia aos negros vindos da Africa Central a possibilidade de reinterpretar simbolos e objetos rituais estrangeiros, nos term os basicos de sua cultura de origem. Estes e outros exemplos ilustram a formacrao de uma teia de significados em comum compartilhados pelos africanos escravizados e seus descendentes durante a colonia.
COMIDA E MUSICA Segundo a associacrao corrente na literatura e nas entrevistas, quando o ass unto sao as reuni6es onde 0 samba aparece como estrela principal, e impossivel nao falar da comida farta co-estrelando essa relacrao. Segundo Silva & Oliveira Filho (1981 ) e' Ribeiro (2003), nas reuni6es sociais, nos nascimentos e nas mortes, nos jongos, pagodes, piqueniques e festas das classes populares, a fartura de comida e bebida era obrigatoria. Fosse ma-
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carronada, rabada, mocoto, sopa de ervilha e feijoada, ¡era a com ida que ajudava a agregar os amigos e parentes. Era tambem a comida que ajudava a agiientar a folia dos blocos, quando 0 carnaval chegava, e nas co?fraternizas:6es que ainda acontecem nas quadras das escolas de samba. E 0 que podemos ver na famosa feijoada (que nem sempre e fe ijoada) da Portela, com um ana de sucesso da sua roda de samba e quadra lotada. "Para esquentar os tamborins para 0 ensaio tecnico marcado para o sabado, 7 de fevereiro, e comemorar a chegada do Carnaval e 0 lans:amento do CD, nada melhor do que juntar tudo 0 que as pastoras sabem fazer de melhor: samba e comida. Na tarde nublada do verao carioca, a quadra da Portela lotou com 650 pessoas, que foram aplaudir a roda de samba da Velha Guarda e provar 0 prato da vez: rabada com arroz, agriao e polenta. 'E yOU te dizer, foi uma senhora rabada. Comprei 80 quilos de rabo, quarenta de batata e mais de cem pes de agriao. Nao sobrou nada', conta ela [tia Surica], com orgulho. Foram 17 panelas gigantes, e a comida comes:ou a ser preparada na vespera, por componentes da ala das baianas." Claudia Rezende vai mais alem quando nos lembra que "na teoria social, a nos:ao de sociabilidade se refere geralmente a situas:6es ludicas em que ha congras:amento e confraternizas:ao entre as pessoas. Aries (1981) circunscreve neste termo as visitas, encontros e festas que envolvem trocas afetivas e comunicas:6es sociais para alem do circulo familiar. Musica e dans:a sao elementos comuns, e a comensalidade figura quase obrigatoriamente nos momentos sociaveis" (Rezende, 2001: 167). Do inkio do seculo XX aos dias atuais, observa-se uma estreita relas:ao entre 0 prato feijoada e 0 samba. Nota-se uma preferencia por este prato nos encontros ludicos das comunidades negras urbanas cariocas. Na fundas:ao do GRES da Portela, destacam a presens:a feminina de Dona Ester, Dona Nenem, Dona Martinha e Dona Vincentina, entre outras. As casas destas tias eram ponto de encontro onde se fazia um bom pagode, sempre com uma boa comida - feijoada, angu a baiana ou uma peixada. Dona
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Vicentina ficou conhecida por preparar uma excelente feijoada mencionada no samba Pagode do Vtwa, de Paulinho da Viola. Nele 0 compositor se refere ao "famoso feijao da Vicentina, que so quem e da Portela sabe que a coisa e divina" . E importante observar como um prato da culinaria nacional como a feijoada pode ser interpretado sob varios aspectos. Fry (2001), ao tratar da manipulas:ao de simbolos etnicos e nacionais encontra nesse prato tipicamente brasileiro um bom exemplo. Para ele, 0 mesmo prato elaborado por escravos, uma mistura de feijao com carnes - 0 soul food nos Estados Unidos e a feijoada no Brasil-, tem significados diferentes. No Brasil, 0 prato foi incorporado com simbolo da nacionalidade, enquanto nos Estados Unidos se tornou simbolo de negritude. Nesse artigo, 0 antropologo considerou que a conversao de simbolos etnicos em simbolos nacionais nao apenas ocultava uma situas:ao de dominas:ao racial, mas tornava muito mais diHcil a tarefa de denuncia-Ia. Desse modo, concluiu que, ao serem transformados em simbolos nacionais, os possiveis simbolos de ftonteiras etnicas converteram-se em algo limpo, seguro e domesticado. Vinte e cinco anos depois, Fry reconsidera a ideia de que a dominas:ao e ocultada. Em seus trabalhos mais recentes, considera que os ideais de mistura e de nao racismo sao tao concretos e reais quanto os desejos pela pureza e pelo racismo. Alerta para 0 fato de que "a ideologia oficial brasileira do nao-racismo e da libertas:ao do individuo de qualquer determinas:ao 'racial' sao valores cada vez mais raros no mundo contemporaneo; sendo assim, vale a pena levar esses ideais a serio'." Sob ontra perspectiva, a feijoada tambem serviu de tema para Elias (2004), que, ao tras:ar uma breve historia da feijoada, lans:a duvidas sobre sua origem. Para ele, a mistura de carnes e graos ocorreu no seculo XIX e - ao contrario do que diz a lenda - bem longe das senzalas. Contam que os escravos cozinhavam 0 feijao e juntavam os restos de carne da casa-grande, partes do que nao servia ao paladar dos senhores. Para contestar essa lenda, 0 autor recorre a existencia de pratos que antecederam e inspiraram a feijoada. Menciona uma mistura de carnes, verduras e legumes que remonta pelo menos aos tempos do Imperio Romano e para varias:6es deste como: 0 cozido portugues, a casoella italiana, 0 cassoulet frances, a paella espanhola. A essa tradis:ao europeia trazida pel os portugueses se acresce a ideia de prepara-Io com feijao. Nasce, assim, a feijoada - um
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prato da casa-gr~nd.~ e nao da senzala. Vma das referencias mais antigas que se conhece a felJoada em restaurantes esd no Diario de Pernambuco de.7 de a?osto ~e 183?, no qual 0 Theatre, do Recife, informa que a~ qUllltas-felras sena servlda ftijoada a brasileira. Conclui que a feijoada e u~ prato em construs:ao e que ha variac;:6es aqui e acoia, adaptaC;:6es aos chmas e produc;:6es locais. . Entao
pr~to
- feijao com carne - teria apenas urn significado ou slglllfica~o~ .locals ~re.nte a grande diversidade de populas:6es espalhadas pelo te~ntono ~raSIlelro? Sabe-se que 0 portugues, 0 indio e 0 negro ja conheclam 0 f~IJao, e ~ ~arne de porco ja fazia parte da culinaria europeia. E ~laro q~e eXIs.tem varlOS pratos que lembram a feijoada. 0 que parece obJeto de lllVeStlgas:ao e: em que contexto historico e social 0 prato feijao com carnes se torna tambem "a comida da senzala", de negros, e identifi:ad.a com s~as festas, acumulando, dessa forma, uma posic;:ao de simbolo etlllco e naclOnal. .
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A black music, originalmente musica negra norte-americana, e urn outro born exemplo para discutir a questao da transnacionalidade da cult~ra ne~r~. Me.s mo com a adoc;:ao de urn modelo segregacionista de relac;:oes raclals, 0 Jazz se torna urn dos simbolos nacionais norte-americanos. Essa contradi.c;:ao produziu urn sentimento entre os negros de que mesmo apartados fazl am parte do todo. Segundo Vianna (I988), enos anos 30/ 40 que 0 blues, ate entao musica rural, se eletrizou, produzindo 0 rhythm and blues. Essa musica encantou os adolescentes bran cos como Elvis Presley, que passaram a copiar 0 estilo dos negros. Nasce, assim, 0 rock. Em 1954, Elv~s ~rava Th~t's all right mama, consagrando, assim, 0 13 de julho como 0 dla lllternaclOnal do rock n'roll. Alguns negros continuam tocan~~ rh!thm and blues ate hoje, mas a maioria deles partiu para novas expen;nclas, co~o 0 soul, 0 funk e 0 hip hop. Hoje, parece estranho que esse genero r;tlUslcal possa ser tam bern interpretado como urn simbolo etnico. ~ock lllternacio~alizou-se como genero juvenil, deixando suas marcas etlllcas de lado, aSSlm como a musica country, tam bern originada do blues passa a ser identificada com os brancos do suI dos Estados Vnidos. ' . 0 hib.ridismo das culturas americanas e a busca das origens das mUl~lplas malllfestac;:6es culturais que aqui se desenvolveram tern revelado as llltensas relac;:6es interculturais estabelecidas no Novo Mundo. 0 usa de categorias abrangentes, como cultura popular, cultura do povo e cultura
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' onal aliado ao modelo assimilacionista adotado pelo pais, tern impedinac l , . , ,. . d visibilidade das diferenc;:as culturals rio palS. Nos classlcos artlgos e d o a Rodrigues, produzidos em fins do seculo XIX, a contn'b' Nina Uls:ao d0 foi . assimilado, com tendencias a esmaecer-se, . . . neg ro e' vista como algo , que ue as diferenc;:as etlllcas tendenam ao desapareclmento. Mals tarde, q .. d por . outroS pensadores sociais a interpretaram como algo VIVO, conStltulllte a ultura nacional, ate chegarmos a interpretac;:6es contemporaneas que des~acam as especificidades de uma cultura denominada negra. Se hoje vivemos a afirmas:ao de nossas diferens:as, simultaneamente assistimos ao fenomeno da globalizac;:ao cultural.
A DINA.MICA DA GLOBALIZA<;Ao CULTURAL A recente intensificac;:ao do processo de mundializac;:ao da economia tern lanc;:ado novas luzes sobre a questao da multietnicidade das n~c;:6es: As culturas exercem influencias mutuas mais rapidamente do que JamalS 0 fizeram. Po rem, 0 desenvolvimento em direc;:ao a uma sociedade multicultural e multietnica nao esta ocorrendo sem conflitos. Em alguns casos, esta nova realidade coloca em risco a propria sobrevivencia dos Estados-nac;:ao, ou seja, a emergencia e/ou fortalecimento de grupos etnicos tern implicado 0 surgimento de conflitos incompativeis com os cont~rno~ geograficos e politicos dos Estados-nas:ao nos quais esses grupos estao lllsen~o~. Se, por urn lado, a globalizac;:ao trouxe a auto-afirmac;:ao dos grupos etlllcos, por outro, intensificou a intolerancia e a repulsa. Po rtanto , configura-se como urn desafio do seculo XXI a conviver com a diferenc;:a, 0 estabelecer do diaIogo entre as culturas. No Brasil, ao contrario das nac;:6es que vivem intensamente uma racializa<;:ao dos conflitos sociais, 0 reconhecimento da diversidade cultural colocou em risco nossa unidade nacional. Nossos grupos etnicos reivindicam 0 reconhecimento de suas especificidades e, simultaneamente, a plena integras:ao a Nac;:ao. 0 que parece novo na retoma~a da pe~spectiva da heterogeneidade do nosso povo e a nova forma de Vlver a dlfere?<;:a, .o,u seja, ela tern servido de referencia para a organizac;:ao dos grupos n:lllontarios e de elemento agregador para a busca da eqiiidade entre os dlferentes grupos sociais na luta contra as desigualdades sociais.
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f A certeza de que somos urn pais plurietnico e cultural significa aceitar uma certa autonomia das culturas dos diferentes grupos etnicos, rompendo, assim, com a nos;ao de homogeneidade cultural construida e idealizada pelas elites nacionais. Nesse sentido, a critica a democracia racial simbolizada pelo mito fundador da Nas;io brasileira abre caminho para 0 reconhecimento das diferens;as culturais e etnicas das populas;oes brasileiras, como tambem possibilita uma reinterpretas;ao do nosso mito, permitindo coloca-Io em seu devido lugar, ou seja, 0 de mito e nao de urn retrato real das relas;oes raciais brasileiras, sem com isso negar a perspectiva positiva de nosso mito - a integras;ao e nao a segregas;ao.
A MERCANTILIZAc;Ao E 0 CONSUMO DA CULTURA NEGRA Se, por urn lado, assistimos a globalizas;ao das praticas e costumes dos povos do planeta, por outro, na mesma velocidade, ha uma busca de identidades grupais. Essa fragmentas;ao de identidades pode ocorrer de forma pacifica ou violenta. De conflitos etnicos que ameas;am a unidade das nas;oes a pacatas mudans;as de atitudes e comportamentos. A crescente visibilidade dos grupos etnicos tern varias faces neste mundo globalizado, como, por exemplo, as mudans;as no uniforme da Scotland Yard. Preocupada com a igualdade racial, essa instituis;ao pretende adotar urn estilo etnico em seus uniformes: a policial feminina mus;ulmana ja pode usar veu (hijab) e futuramente os indianos poderao usar turbantes e os negros rastafaris seus dreadlocks. A policia briranica preve que, nos proximos anos, vinte e cinco por cento de seus oficiais serao negros e asiaticos . A abertura dessa instituis;ao est<! comes;ando pelo uniforme, mas pretende ir mais longe, com creches para a policia feminina e espas;os para praticas religiosas em seus postos, abrindo assim caminho para a adesao das minorias etnicas a seus quadros. 1 Mas nem tudo ocorre pacificamente, como na Scotland Yard, ja que esse mesmo pais serve de cenario de disturbios raciais. Em Bradford, gangues de jovens brancos confrontam-se com descendentes de imigrantes
asiaticos.2 A chegada dos imigrantes se dera nos anos 50, sendo absorvidos em parte pela entao prospera industria textil. A historia de sucesso nao se repetiu nas geras;oes seguintes. 0 declinio da regiao, nos anos 70 e 80, provocou 0 empobrecimento dos imigrantes e 0 surgimento de uma onda de intolerancia racial. Urn jovem bengales, de 23 anos, cujos pais emigraram para a Inglaterra nos anos 60 esta desempregado ha tres anos. Com dificuldades em encontrar trabalho, atribui a situas;ao a sua condis:ao de mho de imigrante, facilmente identificada pelos possiveis empregadores pelo seu sobrenome. Com baixa escolarizas:ao e excluidos do mercado de trabalho, os jovens filhos de imigrantes reagem a discriminas;ao nos permanentes conflitos que explodem em Bradford e em outras localidades britanicas. 3 0 preconceito contra as minorias etnicas, demonstras;oes publicas de intolerancia e xenofobia ficaram mais explicitos apos 11 de setembro, tanto nos Estados Unidos como em diversos paises europeus. Os mercados globalizados, os meios de comunicas:ao e os fluxos migratorios intensificam 0 intercambio entre as culturas. Sabe-se que, des de o inicio do trafico, ainda na Africa, circulavam mercadorias, vestimentas, instrumentos musicais, mlisica, filosofias e ate mesmo alimentos originarios de culturas nao africanas. Thornton (1998), ao se referir ao uso de turbantes pelas ¡africanas, observa que, ao contrario de ser urn indicador da cultura puramente africana, significava sinal de adesao ao cristianismo. A cultura global nao e urn espas:o livre de poder. 0 processo atual de globalizas:ao das culturas nao promove a participas:ao igualitaria de todas as culturas nem parece estar promovendo urn mundo mais justo. Ha urn padrao cultural hegemonico que nos torna cada vez mais parecidos, nao iguais. Nesse sentido, a ideia de urn mundo multicultural onde as diferentes culturas tenham 0 mesmo status ainda esta por ser construida. Assim, como as outras culturas, 0 complexo de tras;os que compoe a cultura negra esta sujeito a estereotipos, ou seja, ao que podemos chamar de aJricanizar;ilo da cultura. Apela-se sempre para uma Africa primitiva e idealizada, representada pelo que se acredita estar mais proximo da natureza, da pureza, do primitivo, afirmando, assim, uma estetica africanizada baseada em
econhecida como a capital mw;:ulmana da Gra-Bretanha: 15% dos 482 mil moradores sao de origem paquistanesa ou bengalesa. 0 Globo, 0 Mundo, 15 de julho de 2001. 3 0 Globo, 15 de julho de 2001. 2 Bradford
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Globo, Ela, 5 de maio de 2001. CONSUMO E CULTURA BRASILEIRA
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cores fortes, em batuques, em animais ferozes, em elementos considerados nisticos: pedras, palhas ou marfins. Cabe lembrar que essas imagens nao sao novas. Nos filmes, desenhos e musicas, essas imagens da cultura negra se difundiram por todo 0 mundo. Atraves da moda quando busca estilos, dos movimentos negros em busca da afirmas:ao de identidade negra, do cinema buscando 0 exotico, pela musica ao classificar a musica negra como musica do mundo, nas artes, enfim nos diferentes campos SOCIalS. A busca das origens na Africa tern unido abordagens teoricas de diferentes tendencias - des de os essencialistas ate os culturalistas. Os pesquisado res dedicam-se a pesquisar as origens dos vodbulos, determinar a localidade africana de onde veio determinada manifestas:ao cultural ou, ate mesmo, identificar os indicios da continuidade das culturas africanas no Novo Mundo. Tomando como exemplo 0 samba, mwtos dicionarios 0 definem como urn vocibulo do quimbundo semba, dans:a cantada de origem africana, compasso binario e acompanhamento obrigatoriamente sincopado. "Encontrao, dado geralmente com 0 umbigo, mas tambem com a perna, serviria para caracterizar esse rito de dans:a e batuque. 4 Uma linha de evolus:ao e tras:ada a partir de uma origem africana - samba, genero musical que vern do batuque de Angola e do Congo evoluiu ate chegarmos ao partido alto. Nessa evolus:ao encontramos 0 lundu, aos sambas rurais baianos e paulistas, e a outras manifestas:6es musicais. Todos conflulram para 0 samba amaxixado da Pequena Africa da Pras:a XI que deu origem ao samba de morro. Este Ultimo se bifurcou em samba urbano, proprio para ser dans:ado e cantado em cortejo e em partido-alto, proprio para ser cantado em roda... (Lopes, 1992, apud Vianna, 1998). Observa-se, nos dias atuais, urn movimento de redescoberta da Africa no Brasil, tanto por parte de musicos internacionais quanto nacionais. A musica negra nacional adquire prestigio internacional como musica do
Sodre (J 998) diz que a palavra samba tern outras possibilidades etimo16gicas, como a apresentada pdo pesquisador Baptista Siqueira. Para de, 0 termo tern origem aut6ctone, pois viria do dialeto kiriri, falado por indigenas do sertao nordestino do pais.
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mundo, ou seja, e dassificada como as manifestas:6es musicais originarias dos pals do terceiro mundo. Comparada a produs:ao musical de outros povos, a musica do mundo e aquela mais proxima da pureza, aquela que guarda pouc~ ~u nenhuma infl,uencia .de outros po~os. A redesc~ber;a ~a musica brasllelfa e de suas ralZes afncanas tern ahmentado a mdustna musical e influenciado 0 circuito internacional de musica. Os estudos culturalistas de Gilberto Freyre (1987), realizados nas primeiras decadas do seculo XX, produziram urn novo bloco de interpretas:oes a respeito do negro que superam os estudos iniciados por Nina Rodrigues (1977) em fins do seculo XIX, onde os tras:os da cultura dos negros sao interpretados como sobrevivencias dentro de urn conjunto mais amplo. "Formou-se na America tropical uma sociedade agraria na estrutura, escravocrata na tecnica de exploras:ao economica, hlbrida de Indio - e mais tarde de negro - na composis:ao, afirmava Gilberto Freyre. A cultura produzida era diferente da europeia e da africana. Essa versao da hibridizas:ao da cultura pressupoe 0 isolamento continental, 0 apagamento das diferens:as culturas em funs:ao da hegemonia de uma cultura nacional. Nessa perspectiva, a construs:ao da nas:ao com uma cultura, uma lIngua, urn povo homogeneo e prioriraria em detrimerito das identidades etnicas. Atualmente, 0 hibridismo das culturas e interpretado a partir de outros referenciais. Ha que se entende-lo, 0 hibridismo, de uma forma continua, nao acabada, circulante. Esse novo bloco de interpretas:6es tomam 0 Atlantico como objeto de estudos enfatizando as relas:6es intercontinentais. Isso significa induir a Africa como participante ativa na economia do Atlantico. Entende que a comunicas:ao entre europeus e africanos e a hibridizas:ao das culturas tiveram inkio no proprio continente africano e permaneceram no Novo Mundo. Essa comunicas:ao nao se interrompeu durante todo o periodo do traftco. Como as culturas sao dinamicas, e imposslvel concebe-las como transplantadas da Africa ou de qualquer outro lugar. Os pesquisadores que adotaram essa nova perspectiva abandonam a nos:ao de isolamento continental e operam com a nos:ao de comunicas:ao, inovas:ao, fusao e difusao das culturas em redes transnacionais de comunicas:ao que deram origem a novas culturas, centradas nas vivencias do africano e seus descendentes no Novo Mundo. 0 traftco transatlantico e redimensionado e induldo num projeto mais amplo - a modernidade -, do qual fizeram parte a Africa, a Europa e a Asia (Thornton, 1998; Gilroy,
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1995). Dai 0 surgimento de uma cultura negra transatlantica reinventada nas Americas. Formaram-se redes transatlanticas transmissoras e receptoras nos fluxos culturais ao longo do Atlantico Negro. Isso nos faz entender 0 samba, o jazz e os outros generos musicais que aqui surgiram, que percorreram urn longo caminho antes de se tornarem simbolos de identidade nacionais. Passaram por processos de fus6es e inovas:6es e s6 vieram a se constituir realmente como generos musicais urbanos representantes das culturas de suas respectivas nas:6es nas primeiras decadas do seculo xx. Esses generos musicais nao sao express6es contempodneas das culturas tradicionais africanas. 0 jazz e 0 resultado de urn encontro entre varias linguagens musicais, originarias de diferentes partes dos Estados Unidos e do Caribe. Ele nao e so mente de Nova Orleans; e principalmente fruto da unificas:ao de diferentes influencias culturais que, na decada de vinte, deu origem ao jazz contemporaneo (Muggiatti, 1983; Hobsbawn, 1991; Martin, 1991). Trajet6ria similar percorreu 0 samba. Vianna (1995) narra como se deram as negocias:6es entre os varios grupos que contribuiram para a construs:ao do samba como genero musical ate sua elevas:ao a posis:ao de musica nacional. Esse autor, no entanto, ao reals:ar a transnacionalidade desse genero deixa de reconhece-lo como urn tras:o da cultura negra urbana carioca, fato que e resgatado na tese de Sandroni (2001). Segundo Martin, 0 caminho para a superas:ao do dilema da origem da musica afro-americana esta na ados:ao das duas hip6teses - filias:ao e inovas:ao - e nao apenas de uma delas. As opini6es em tomo da destruis:ao ou sobrevivencia da herans:a africana nas Americas estio sendo superadas pelas abordagens que sugerem haver mais inovas:ao que herans:a nas culturas criadas no Novo Mundo. Nao e que a filias:ao deva ser descartada, mas a inovas:ao deve ser colocada no centro da cena. O/que ocorreu nas Americas foi uma fusao de culturas originarias da Africa, da Europa, da Asia e das culturas indigenas, criando, assim, verdadeiras dreas superpostas, ou seja, nao ha fronteiras claras separando 0 que e de origem africana do que foi criado no Novo Mundo (Martin,1991). Alem disso, existiam mais similaridades entre as culturas dos african os escravizados que diferens:as entre elas. 0 contato dos africanos com outras culturas ja havia se iniciado na Africa, permaneceu durante todo 0 pedodo do trafico e permanece nas formas
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contemporaneas de interas:ao, gerando inovas:6es permanentes e ainda desconhecidas. Apesar das semelhans:as culturais, os negros, originarios de diferentes areas, trouxeram uma herans:a cultural rica: linguas, rnusicas e costumes. Nas Americas, as culturas em contato, tanto dos negros como de outros grupos etnicos, serviu de base para as inovas:6es que deram origem a cham ada cultura negra. . . ~ A necessidade de uma cultura que proporclOnasse a humaIllzas:ao dos escravizados, construisse uma identidade do negro na diaspora e servisse de referencia para a luta contra a opressao da escravidao fez surgir em diferentes contextos americanos a chamada cultura ~egra: hibrida, fruto da circulas:ao de pessoas, ideias, simbolos e deseJos. A musica, a arte, a culinaria e outras manifestas:6es serviam a esses prop6sitos. Povos escravizados vindos de diferentes regi6es e longe de suas culturas de origem criaram uma nova forma de expressar suas necessidades e aspiras:6es, nao obstante a ambivalencia e a complexidade que ela (cultura negra) possa ter. E forte a mercantilizas:ao da cultura negra, principalmente em torno da musica: generos como 0 funk, 0 jazz, 0 samba e 0 reggae circulam mundo afora com mais intensidade ao norte que ao suI do Equador. A difusao dos simbolos da cultura negra no mundo se da em intensidades variadas, e as cidades globais tern papeis diferentes no processo de difusao da cultura. Nesse vai-e-vem transatlantico, algumas cidades desempenham papeis centrais e outras papel periferico; sao receptoras e transmissoras nos fluxos culturais ao longo do Atlantico Negro da cultura negra no mundo: Londres, Nova Iorque, Paris, Amsterda ou Kingston, por exemplo, sao nucleos difusores centrais. Nessa divisao de atribuis:6es, as cidades perifericas vern alimentando, em nivel internacional, 0 mercado em torno da musica do mundo. Os sons e simbolos vern das periferias para serem editados em urn dos centros. Porem, a posis:ao subalterna desses nucleos perifericos pode mudar: os centros podem nao ser necessariamente os mesmos e a posis:ao de algumas cidades do terceiro mundo pode crescer. A difusao e 0 acesso a esse capital cultural e diferenciado. A industria musical visa primeiramente aos mercados mais pr6speros, aqueles dos paises mais ricos e secundariamente aos paises mais pobres. Portanto, a aquisis:ao dessas mercadorias e inevitavelmente mais cara e seletiva para a peri feria do que para 0 centro. Urn fenomeno curioso acontece com 0 chamado samba de raiz, encon-
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trando dificuldades de inclusao no rnercado fonografico . Alguns CDs sao lanyados prirneiro no mercado europeu e asiatico e s6 depois de muito tempo no Brasil, com e 0 caso de Wilson Moreira, Guilherme de Brito e Nelson Sargento, entre outros. Com isso, certas gravayoes ficam restritas ao mercado internacional. As dificuldades encontradas por compositores como Noca da Portela e Walter Alfaiate para gravar seus discos tern provocado encontros e comparayoes com a hist6ria dos musicos cuban os de Buena Vista Social Club,s ou seja, alijados do mercado fonografico, precisam exercer outras profissoes para sob reviver. Mesmo assim, os sambistas acreditam que ha interesse por parte do publico na sua arte. Trata-se de urn mercado dinamico sempre em busca de novidades. Urn fenomeno recente que coloca as cidades perifericas como nichos, mananciais da cultura do mundo, e a crescente valorizayao das chamadas velhas guardas das escolas de samba cariocas. Elas sao compostas de velhos sambistas que retornam ao mundo da musica organizados em grupos musicais que difundem 0 samba carioca. Esses grupos tern participado do premio Grammy latino representando a musica brasileira. Apesar de urn papel periferico na difusao da cultura negra mundial, algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Sao LUIs e Salvador, tern desempenhado 0 papd de centros produtores de musica negra e tern alimentado 0 mercado da musica com seus sambas, reggaes e axes. Nas representayoes mundiais sobre os nucleos produtores da cultura negra, essas cidades sao consideradas nichos culturais onde se pode encontrar a genuina musica negra. Acreditamos que a presenya marcante de negros nessas cidades explique a imagem internacional das mesmas, especialmente 0 Rio de Janeiro, com 0 samba e 0 carnaval, e Salvador, com seus ritmos e generos musicais identificados como afro-brasileiros. Levando em conta a perspectiva local, as referidas cidades tern significados diferentes. A cidade do Rio de Janeiro e considerada moderna, centro cultural do pals, produtora de uma cultura negra hlbrida, devido a intensa circulayao de culturas, e a cidade de Salvador e considerada uma pequena Africa, foco irradiador da tradicional cultura negra. Nessa gradayao de imporrancia e significados, a cidade de Sao LUIS do Maranhao pode 5 Walter Alfaiate encontra Compay Segundo: trajetos similares nas velhas guardas do Brasil e
Cuba. (Pimentel, J. Alternativas roqueiras para 0 samba 'de raiz, 0 Clobo, Segundo Carderno, 20/05/00).
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ser considerada urn foco emergente, devido a crescente imporrancia do reggae maranhense.
o CONSUMO E A CONSTRUC;Ao DE IDENTIDADES Como ja foi dito, a globalizayao, em lugar de trazer uma homogeneizayao do mundo, tem provocado interpretayoes distintas de produtos e ideias globais. As sociedades tratam as influencias externas de maneiras variadas, que vao da resistencia a adaptayao criativa e ate a adoyao sem cdticas. Ao que parece, no caso brasileiro, 0 consumo pode ser visto como fatar importante na construyao das identidades das populayoes negras e na sua inclusao na esfera social. 0 gradual processo de aboliyao da escravatura e, posteriormente, a pr6pria industrializayao do pals exigiram e influenciaram, ao longo do ultimo seculo, a criayao de uma nova estetica negra. A exigencia de boa aparencia por parte das empresas incentivou a comercializayao de prodlltos que moldavam 0 corpo do negro as novas exigencias do mercado de trabalho. Sao produtos caseiros e industrializados especializados em cabelos crespos, tais como pentes, chapas e cremes. Cresce um pequeno comercio, mas principalmente cria-se urn mercado destinado nao apenas aos profissionais da beleza e da estetica, mas tambem ao publico em geral, que tera maior alltonomia, por ter mais opyoes, na construyao de uma estetica afro, que tanto pode ser criada como pode ser remetida aos modelos africanos e norte-american os, por exemplo. Essa maiar liberdade em termos esteticos s6 acontecera a partir das reformas culturais em marcha a partir dos anos sessenta. Nossos jovens, para compor a estetica afro, buscavam inspirayao nas capas de discos, nos estilos dos artist as e ativistas negros da epoca. Hoje, somos alimentados, com maior intensidade, pelas notlcias e imagens transmitidas pela mfdia. Porem, essa liberdade s6 e amplamente vivida por aqueles que nao tern uma inclusao classica no sistema produtivo, incluindo ness a categoria os artistas, trabalhadores ligados ao mercado informal de trabalhos, profissionais considerados
donos do tempo. Com a globalizayao da economia aumenta a circulayao de mercadorias. 0 mercado substitui a pergunta "quem e negro no Brasil" por "quem pode ser negro no Brasil". Surgem novas mercadorias, classificadas como
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etnic~, dando ao consumidor maior ou menor liberdade de escolha e adesao
aos dlferentes estilos inspirados na cultura negra global. 6 Discos fitas CD 'd ' , S, Vl eos e filmes conectam 0 jovem com urn estilo negro mundial. Os proble~as: poucos podem consumir. Quanto mais distantes dos grandes centros dlfu~ores do produto, mais caro ele se torna. Sendo assim, 0 que chega ao Brasll ou que e aqui produzido custa caro. Nem as mercadorias nem 0 consumo sao amplamente democratizados. Quem primeiro tern acesso a e~sas m~r~adorias e u~ p~blico reduzido de negros com urn poder aquisitlvo m~dlO. Para a malOna negra e pobre criou-se urn mercado paralelo, onde clrculam outros produtos, capias nem sempre bern acabadas de roupas, produtos de beleza, fitas e CDs, que sao facilmente encontrados em locais de grande circulac;ao, como estac;oes de trens, comercio dos bairros populares, favelas e vefculos de transporte populares, como os trens. Os produtos sao caros para a maio ria negra e pobre brasileira. Os recurs os para p~rticipar ~essa cultura negra globalizada sao criativos: CDs pirate ados, etlquetas plratas de moda, saloes de beleza domesticos entre outras iniciativas. Nos. bairros perif~ricos do Rio de Janeiro e possIve! comprar urn pe~ueno banqumho de madelra com gavetas embutidas que e urn verdadeiro salao de beleza ambulante. Nele, a manicura, a cabeleireita ou a esteticista tern onde guardar seus utensilios para realizar seu trabalho e tera urn lugar para se sentar enquanto exercita seu trabalho de porta em porta. Esse novo contexto define novas formas culturais e de identidades que nao se enquadram dentro das tradicionais formas de compreensao da cultura. A cultura como urn sistema dinamico rompe continuamente veIhas relac;oes e estabelece novas ligac;oes. A globalizac;ao da cultura transforma as formas locais, formando verdadeiras sociedades transnacionais. Por meio desse sistema mundial de referencias sao abordadas as diferenc;as e encontrad~s ?S in~eresses comuns. Dessa forma, as culturas negras podem construu ldentldades locais e/ou transnacionais. ~A mercantilizac;ao dessa cultura negra tern fomentado 0 desejo de indusao pelo consumo. Como 0 consumo pode ser urn marcador etnico e
6 Em :el:<;:ao a essa construyaO estetica observamos,
principalmente para 0 publico feminino, uma amphayao. do mercado de cosmeticos e maquiagem para a pele morena e negra, que VaG desde produtos tmportados, exclusivos para esse segmento, como a marca Iman, ate produtos das empresas Avon, Natura eO Boticario, que atendem varias classes, pelos preyOS de seus produtos.
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a forma de expressao da cidadania, vern adquirindo cada vez mais imum ' portancia na determinac;ao do status, principa1mente dos Jovens negros , (Sansone: 2000). Apresentando mais interrogac;oes que respostas, conclUlmos que as culturas negras sao conjuntos de slmbolos em constante processo de transformac;ao que, ao assumirem diferentes configurac;oes, refletem as especificidades locais. A capacidade inovadora e criativa d~ cultura negra brasileira tern servido para 0 fortalecimento da auto-estlma das populac;oes negras brasileiras e instrument? ~ecessari~ no processo de con~ truc;ao das identidades negras. ConStltUl-se no Clmento que une as dlferentes populac;oes negras. 0 reconheciment? da prod~c;a? cultura~ dos grupos etnicos/raciais que compoem a sOCledade ~raslletra pode~a ser urn caminho para a construc;ao de urn pais verdadeuamente mul~l cultural. Se, por urn lado, 0 mito da democracia racial m~scara 0 raC1Smo, por outro, aposta na convivencia pacifica entre os dtferentes grupos etnicos. . Entender que existe uma cultura produZlda pelos negros no. ~o~o Mundo tern urn sentido politico. Ela nao e apenas 0 espac;o da conVlvenCla grupal; e tambem 0 lugar do c?mpartilhamento ~e vivencias, da constr~ c;ao de identidades, do fortaleclmento d: auto-estlma de gr~pos despr:stl~ giados socialmente. Ao longo da escravldao, a cultura servlU de reac;ao a opressao, humanizando 0 escravizado, e continua tendo a func;ao de fazer com que 0 negro se sinta enraizado, ou seja, sujeito ativo, construtor de seu passado, do presente e do seu futuro.
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