O carnaval enquanto fábula: a percussão na periferia da folia1 El carnaval como fábula: la percusión en la periferia de juerga Marcos dos Santos Santos Doutorando PPGMUS - (Etnomusicologia) Universidade Federal da Bahia Resumo
Questão pouco discutida tanto no meio acadêmico quanto nos setores que administram o Carnaval-Negócio em Salvador, as relações de trabalho que são tecidas entre os músicos percussionistas e os seus contratantes apresentam indícios históricos de que os primeiros, os músicos, frequentemente sofrem discriminação e prejuízo financeiro no âmbito deste evento. Tendo como fonte relatos de músicos que atuam no carnaval desde a década de 1970, o presente texto busca apresentar esta temática no intuito de trazer à tona uma realidade que muitos fazem questão de invisibilizar e silenciar.
Resumen Poco discutido tanto en el ámbito académico y en los sectores que gestionan el Carnaval-Business en Salvador, las relaciones laborales que se tejen entre los músicos percusionistas y sus contratistas tienen evidencia histórica de que los músicos sufren discriminación y los prejuicios financiera dentro de este evento. A partir de los informes de algunos músicos que actúan en el Carnaval desde la década de 1970, este texto pretende presentar tal temática con el fin de poner de manifiesto una realidad que muchos están dispuestos a esconder y el silenciar. Palavras-chave Música Afro-brasileira; Música Afro-brasileña; Percussão; Percusíon; Carnaval da Bahia; Carnaval de Bahía; Interdisciplinaridade; Interdisciplinaridad; Os dois lados de um tambor O fenômeno do carnaval da Bahia é apresentado nos meios de comunicação como sendo o paraíso da música e da felicidade, agregador de gêneros musicais distintos que se inter-relacionam em prol da festa momesca - onde a Cidade de Salvador, neste sentido, se apresenta e é percebida como um espaço multicultural onde a tradição e a inovação 1
Trabalho apresentado no GT 7 - Diálogos interdisciplinares: música e comunicação.
dialogam felizes ao lado, na frente e atrás do trio elétrico. Enquanto estratégia da lógica capitalista de mercado, a qual busca apresentar e vender o seu produto a grandes investidores e fazer parcerias vantajosas (que, frequentemente, eliminam do folião a possibilidade de escolha de produtos consumíveis na festa), tal propaganda carnavalesca atua também enquanto elemento atrativo aos olhos de músicos instrumentistas, cantores, e produtores que expectam trabalhos nesta cena musical e, consequentemente, vislumbram alcançar tanto o prestígio e visibilidade local/internacional, quanto o suposto capital econômico então pré-acordado entre profissionais e contratantes. Embora o fato da propaganda publicitária do Governo Estadual e da Prefeitura Municipal utilizar a música baiana (de matriz africana) como o ponto forte da cultura local (basta uma simples visita à plataforma youtube, e lá, utilizando como palavras chave: carnaval da Bahia, ou propaganda carnaval Salvador, teremos acesso a inúmeros vídeo clipes sobre o festejo momesco onde, regra geral, a “cultura negra” percussiva tenta ser representada de diversas formas), é sabido que tanto no campo subjetivo quanto no âmbito das ações práticas (me refiro aqui aos territórios de valorações afetiva e econômica), percebe-se que o retorno direcionado aos profissionais que fazem/produzem esta música
costuma não estar de acordo com as negociações e
promessas (muitas vezes) pré-estabelecidas. Ou seja, afora a prática institucionalizada do não cumprimento de prazos para os pagamentos (dos órgãos públicos para com os empresários, destes para com os produtores, e, por fim, destes para com os músicos), há também a sólida estrutura hierárquica que divide preteridos e privilegiados conforme recortes racial e, sobretudo, de recorte organológico (referente ao instrumento que o músico toca). Apesar de serem múltiplas as formas pelas quais se pode analisar a engrenagem que movimenta a festa/espetáculo classificada por Miguez (1996) como Carnaval-Negócio: as esferas econômica, comunicacional, artística, de gênero e raça, etc., todavia, pretendo aqui me ater aos cruzamentos que envolvem a prática musical de artistas, neste caso de músicos percussionistas, e as relações de trabalho e (des)valorização que ocorrem entre estes profissionais e seus contratantes. Neste texto, a acepção de contratante abrange tanto o empresário/produtor que tem um escritório administrativo tal qual os sócios/proprietários
dos
grandes
“produtos”
da
Axé
Music,
como
também
intérpretes/cantoras e seus parceiros produtores que, em muitos casos, são contemplados
em editais municipais/estaduais para atuar no espaço carnavalesco e então contratam um grupo de músicos para os acompanhar. Na busca, portanto, de compreender os processos que conduziram as relações sociais/profissionais entre o percussionista e os demais agentes da sociedade, se faz necessário sinalizar questões pouco mencionadas quando se fala sobre música na/da Bahia no âmbito carnavalesco, neste caso me referindo à de matriz africana, onde se cultiva uma histórica conveniência do: é grosseiro/não refinado, mas pode nos trazer lucros. A partir desta observação, vejo que a percussão na Bahia sempre fora tratada (para além do contexto bibliográfico) de forma bastante peculiar. Ainda nos anos de 1720 na cidade do Salvador, Nuno Marques Pereira (1652-1728) em seu Compêndio narrativo do peregrino da américa (1988), nos apresenta um dos primeiros escritos (em língua portuguesa no território brasileiro) sobre o desagradável “estrondo dos tabaques (sic), pandeiros, canzás, botijas e castanhetas; com tão horrendos alaridos que se me representou a confusão do inferno (PEREIRA, 1988, p. 115). Seguindo a bibliografia oficial da época, vemos no documento conhecido como Resoluções do Presidente da Província (do ano de 1831 até 1879) que há uma série de sanções proibindo os “Divertimentos Estrondosos” (dando continuidade à ideia de ‘estrondo’ cunhada um século atrás) então identificados pelos Urucongos e atabaques dos africanos. Por conta destas leis, houveram muitas prisões e queima de instrumentos musicais - como pode ser observado nas informações veiculadas em jornais e documentos policiais de época. Ainda, também nas duas primeiras décadas do século XX, houveram alguns Decretos de Proibições Oficias dirigidas contra a “exibição de costumes africanos e seus batuques” (MIGUEZ, 1996. p. 72). Prontamente, informo também que desde sempre, e sobretudo neste período, houve muita, muita resistência – tal qual como é sabido pelos que estão atentos. Como expoente de maior significado desta luta, temos o exemplo da constituição do Candomblé, através do processo de desenvolvimento e perpetuação de suas diferentes nações: Angola, Ijexá, Jeje e Ketu. Foi este conjunto de práticas (o Candomblé) que ofereceu muito do suporte musical então levado paras as ruas e vielas em períodos de entrudo (carnavalesco) pela parcela afro-baiana, a qual, a partir do século XX, apresentou em seus Afoxés (Candomblés de rua), Clubes (Blocos ) de Negros, Blocos
de Índios, Batucadas, Escolas de Samba e, posteriormente, pelos Blocos Afro, linguagens e discrepância participatórias2 próprias da música de terreiro. É extensa a lista de instituições/agremiações que se colocaram em prol da luta por espaços públicos/privados onde a população de pele negra pudesse expressar-se das diversas formas, onde a percussão nunca se fez ausente enquanto protagonista. Tal qual foi explicado por Risério (1981), estes processos de exclusão dos negros dos espaços carnavalescos, assim como a posterior (re)tomada destes espaços, estão incluídos no que o autor chama de Reafricanização da Festa. O elemento musical da percussão, neste ínterim, fosse no âmbito bibliográfico ou na esfera das práticas orais quotidianas, o discurso entorno da função, valoração e relevância da percussão/percussionista perpassa constantes tensões e negociações, onde o fator racial, no caso do carnaval da Bahia, assume o papel delineador, se não principal, nas tomadas de decisões. Deixa flat, ou então mute: ainda está muito alto A trama mercadológica que explora a imagem de uma Bahia exótica, passa a incorporar o repertório estético - assentado sobre valores marcadamente étnicos - veiculado pelas novas organizações carnavalescas da comunidade "negromestiça", transformando-o em símbolo de baianidade, e conferindo-lhe o caráter de mercadoria a ser consumida nos mercados de bens simbólicos da indústria cultural e do turismo (MIGUEZ, 1996, p. 108).
Inegavelmente, a década de 1980 foi o período dos Blocos Afros. Conforme as informações do Conselho Municipal do Carnaval de 1996, entre os anos de 1974 e 1992 foram criados (e registrados neste órgão) 18 instituições nesta categoria de bloco. Miguez (1996) analisa que é, portanto, a partir dos anos 1980 que o carnaval de Salvador dá início a um modelo de estrutura e gerenciamento que se preocupa em comportar as novas demandas da indústria do turismo bem como integrar as reconfigurações apresentadas pelos grupos os quais desfilavam na festa. Reportando ao Ilê Aiyê e o Olodum, enquanto instituições de grande destaque neste cenário, a história mostra que estes grupos apresentam as suas “Baterias” como sendo um dos elementos principais para a existência e aparição destes blocos na folia carnavalesca (assim como 2
O Groove, enquanto um fenômeno subjetivo, sentido por aqueles que experienciam uma performance musical onde há fluidez e coerência, é percebido por Thomas Turino (2008) como parte das Discrepâncias Participatórias, a qual se estabelece a partir dos encontros e desencontros rítmicos e melódicos em uma execução musical coletiva.
também é visto nos demais blocos afro). Percebe-se, portanto, que neste momento há uma aparente ascensão da percussão e do músico percussionista enquanto protagonista (reconhecido) na folia carnavalesca; onde a destreza, dedicação e intelectualidade destes foi fundamental para engendrar novos gêneros, estilos e técnicas musicais, as quais (algumas) têm sido perduradas, outras modificadas e também hibridizadas. Mas, será que este reconhecimento para com o músico percussionista se transformou, de algum modo ou em algum momento, em recompensa financeira coerente, considerando os serviços musicais prestados à estes grupos no carnaval? Sobre isto, nada, ou quase nada, nunca é posto na mesa, colocado de forma aberta, para que então se conheça a situação (contada pela voz do subalterno) e se torne, de algum modo, pauta de discussão entre os pares e, quem sabe, venha a ser amenizada por meio de ações legais. A respeito dos blocos afro, sabe-se que muitos dos seus integrantes são pessoas (em sua maioria do sexo biológico masculino) que residem no próprio bairro onde estas instituições estão sediadas, e por consequência, estão sujeitas a desenvolver conexões outras, que podem vir a extrapolar a relação de trabalho, tais quais aquelas sinalizadas por Ari Lima (1995) entre o grupo Timbalada e os seus músicos moradores do bairro do Candeal. Apesar disto, novamente me referindo aos blocos de maior expressão, o Ilê e o Olodum, há muito é conhecido que ambos se constituíram em grupos culturais atuantes em diversos setores da sociedade (educação, moda, arte) e mobilizam um considerável número de músicos percussionistas. Do mesmo modo, os seus ‘eternos’ presidentes construíram parcerias duradouras com patrocinadores locais e internacionais de grande expressão, tendo sido possível a construção (e/ou compra) de imóveis, bem como a estruturação destes, em nível estético e técnico de grande primor. Ou seja, ante a expressão que estes grupos atingiram, não cabe imaginar (este é o meu pensamento) qualquer tipo de trabalho voluntário exercido por músicos neste grupos (aos quais é exigida a presença em ensaios e apresentações diversas). Todavia, apesar das conjecturas, o que permanece não posto e passível de ser questionado é o seguinte: haja vista a ausência/ineficiência do principal órgão de amparo ao músico profissional no Brasil (Ordem dos Músicos do Brasil – BA) e a precária condição de trabalho artístico-musical próprio das cenas soteropolitanas, como estas duas grandes instituições (Ilê e Olodum) lidam a questão trabalhista com os músicos que sustentam as suas Baterias?
Não se restringindo aos blocos afro e, consequentemente, ampliando a discussão, as transformações ocorridas nos diversos setores da então indústria do carnaval de Salvador, a partir dos anos 1980, potencializou o desenvolvimento de novos modos de criação, produção e gerenciamento musical. A Axé Music, enquanto um comportamento artístico, musical e estético sistematizado, é fruto, portanto, deste novo momento que a música de carnaval experienciou. Na verdade, como é bastante sabido, a Axé, então representada pelos grandes grupos empresariais, engendrou e sustentou por quase 30 anos um lugar de hegemonia na cena musical baiana, para além da festa momesca, onde o modelo de ‘Banda’ e a figura da(o) intérprete/cantor(a), enquanto “carreira solo”, passam a ser o padrão das grandes atrações do carnaval. Estes espaços, portanto, assumem o posto de principal e “monossonoro” campo de atuação de grande parte dos músicos que residiam em Salvador, sobretudo para os músicos percussionistas. Como consequência (dentre muitas outras) desta complexa estrutura na qual o carnaval se tornou, percebe-se que uma parcela dos músicos que conseguem atuar junto à estas atrações (em trios elétricos, camarotes, palcos, etc.) manifestam com frequência dificuldades e insatisfações nas relações de trabalho que são estabelecidas entre estes e os produtores das bandas. Bem verdade, as relações que envolvem o mercado da indústria musical do carnaval-negócio, tais quais os laços contratuais (legais ou “de boca”) que há entre os envolvidos, são permeadas por tensões e sentimentos então desenvolvidos através de uma via de mão dupla: dos contratantes a respeito da figura do músico e também pelo próprio músico em relação aos que o contratam. De fato, considerando as tensões e desencontros gerados nestes ambientes, o sentimento (muitas vezes de frustração) desenvolvido pelos músicos costumam não surtir muito efeito, uma vez que também nestes espaços prevalece a lógica perversa de que “a corda sempre quebra do lado mais fraco”. E nestas ditas bandas de Axé, o músico percussionista, no fator Trabalho versus Remuneração, sempre foi e é o lado mais fraco. Não pretendo demarcar que este tipo de situação seja específico deste momento “pósaxé music”. Uma vez que a problemática envolve a figura do músico percussionista perante sua atuação no carnaval, proponho olhar a criação dos blocos afro como um momento adequado à observação desta prática. Por outro lado, meu caminho profissional e o contato com antigos músicos do carnaval de Salvador me direciona a
olhar o período de monocultura da axé como tempo/espaço central para então pensar a temática aqui proposta. A reflexão sobre esta questão me permite perceber que há (ou pode haver) um conjunto de caminhos possíveis para que então se busque compreender de forma analítica as prováveis motivações iniciais, bem como as continuidades e consequências das práticas desfavoráveis nas relações de trabalho para com músicos percussionistas que atuam no carnaval de Salvador. Das falas, opiniões e sentimentos sobre a questão Primeiro, não posso refutar que muito ou tudo disto tem que ver com questões que envolvem a prática colonial racista, generalizante, a qual se habituou a depreciar a pessoa negra e, por consequência, tudo ao que a ela estava relacionado: neste caso os instrumentos de percussão bem como as expressões culturais ligadas ao continente africano. Também, considero que o número acentuado de músicos percussionistas disponíveis pode, talvez, gerar uma “fila de espera” na busca de trabalhos, sobretudo no carnaval. Esta condição, onde há mais músicos que trabalho disponível, pode vir a dar ao contratante, ou a um perfil específico de contratante, o sabor de poder abusar ou ridicularizar, como de fato acontece, a posição deste profissional, lembrando-o constantemente que ,“caso esteja insatisfeito, para o seu lugar, tem muitos outros esperando”. Pois então, em um bate papo descontraído com o músico percussionista Gabi Guedes3, este me revelou que atua na cena carnavalesca desde finais da década de 1970. Acompanhou intérpretes e bandas ligadas ao carnaval de nomes expressivos, aos quais, ou alguns deles, Gabi demonstra ter sido um tanto desgastante o período em que desenvolveu seu trabalho. Em sua observação, o modo como as bandas, os empresários lidam com o músico não mudou muita coisa, ou quase nada: Desde que passei a tocar no carnaval sempre procurei me impor. Não comparo as bandas de Axé com nenhum outro tipo de trabalho; os caras exigem que você tenha um monte de instrumentos, que toque todos, que carregue todos e no final 3
Gabi Guedes iniciou sua carreira musical aos 10 anos ainda no terreiro do Gantois enquanto Alagbê, quando do matriarcado de Mãe Menininha. Foi membro/músico do Balé do TCA, ministra oficinas na Alemanha, França, acompanhou o cantor/compositor Jimmy Cliff (1990-1999), turnês com Burnning Spear e The Wailers nas américas, Ásia e Europa. Atualmente lidera o naipe de percussão da Orkestra Rumpillezz, da Jam no MAM e é fundador do projeto Pradarrum.
das contas te pagam uma ‘merreca’. E ainda, pagam melhor aos músicos da ‘harmona’. Guitarrista, baixista, tecladista, sempre ganham mais que os ‘percussas’. Sem falar do cantor, o único “artista” da banda (...), esse ganha quase igual o dono (GUEDES, 2017).
No que compete à luta e resistência contra este tipo de condição, Gabi sinaliza que, apesar de ser recorrente as conversas entre os músicos, as indignações manifestadas, etc., há pouca organização efetiva. Carece de uma estrutura que se assemelhe a sindicatos, uma vez que não há contratos formais e, até para mover uma ação judicial se torna complicado. Acontece que as próprias bandas desta cena musical formaram uma espécie de “cartel”, onde foi estipulado valores regulares a serem pagos para determinados tipos de instrumentista. Como foi dito por Gabi, os que tocam harmonia recebem mais que os demais. Ainda, o que é recorrente nestes espaços, é a exclusão, o mal dizer e a sabotagem feita para com músicos que, por reação a determinadas injustiças trabalhistas, resolvem tornar público o problema no qual ele se encontra envolvido ou quando este profissional aciona a justiça do trabalho; haja vista o caso dos bateristas Marcelo Brasil e a produção da cantora Daniela Mercury (abafado pela mídia); de Toninho Batera com a produção de Ivete Sangalo e do percussionista Fabinho O’brian4 também com a equipe de Ivete Sangalo, os quais deixaram de figurar em grupos de destaque da cena carnavalesca. A percussão em Salvador, enquanto símbolo representativo de uma baianidade festiva, de uma negritude afro diaspóricas, assume um caráter meramente figurativo na esfera comercial/econômica do carnaval. Letieres Leite, em entrevista à Revista Bequadro (2011), explica que houve uma espécie apropriação, de tomada do poder e potência que o músico percussionista negro tem, enquanto produtor, e que poderia direcionar de forma comercial/econômica. …existe racismo na música baiana, mas isso não é conversado, é uma coisa velada. A Bahia se vende como negra, mas isso é só folclore, estética. Os meios 4
O caso de Fabinho Carvalho (O’brian) está relacionado ao desenvolvimento de um trauma causado em decorrência do seu trabalho como percussionista. O processo durou mais de 2 anos para ser resolvido. Fonte: (http://entretenimento.r7.com/musica/noticias/mais-um-funcionario-processa-ivete-sangalo-dizcoluna-20130215.html?question=0).
de produção são brancos. A elite branca descobriu cedo que a percussão dá dinheiro e começou a explorar isso. Mas, essas pessoas não têm compromisso nenhum com a singularidade da cultura baiana. [...]. Consegui coisas maravilhosas tocando para a indústria da axé music, mantive minha família com dignidade graças a isso. Mas também entendi, na prática, como a percussão define tudo, percebi que é ela que guia o cantor. Aprendi que os protagonistas da nossa história não são os cantores ou compositores: são os percussionistas (LEITE, 2011).
O discurso sustentando por Letieres gira entorno da denúncia ao sistema racista e da apropriação cultural-administrativa da produção musical afro-baiana. Nesta entrevista, concedida em 2011, apesar dele não adentrar nas questões profundas das relações de trabalho, percebe-se que suas ações (me refiro aqui ao projeto Orkestra Rumpilez) apresentam a percussão afro-baiana e os percussionistas como os protagonistas centrais das matrizes musicais, assim como declara que há igualdade de valores na remuneração dos músicos. Posteriormente, numa fala registrada em conversa com o jornalista James Martins em 2015, para o site do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT, Leite, respondendo ao questionamento do entrevistador, se coloca; James: […] em geral se chama violonista de músico, trompetista de músico, músico de músico, e percussionista de percussionista, de uma maneira quase pejorativa, como se não fosse músico, mas uma categoria inferior. Inclusive os cachês costumam ser menores, por quê? Leite: A percussão tá diretamente ligada com o elemento negro. E a gente tem uma dificuldade absurda, quando queremos exemplificar o ser humano brasileiro, de colocar a colaboração do negro nas questões de pensamento elaborado, principalmente na arte. Então, essa dificuldade é geral, vem lá de trás. A música do negro é sempre colocada como diletante, irresponsável…Resumindo, a gente não pode falar nesse assunto sem falar em racismo. As bandas de Salvador, de música negra, no início do Axé Music eram todas formadas por pessoas brancas. Os negros estavam confinados a tocar percussão. E os cachês sempre foram diferentes mesmo, no carnaval etc. Percussionista é como um sub-músico, porque é uma coisa ligada aos negros. Não é a questão dos instrumentos, mas da cultura, de onde vem (LEITE, 2015, grifo nosso).
Me parece evidente, também por conta destas declarações, que a classe burguesa (quase sempre branca e do sexo biológico masculino) que domina os meios de produção da música na Bahia, usurpou desde sempre o potencial financeiro que a percussão gera. Ainda, tanto no campo subjetivo e, sobretudo, no âmbito objetivo, penso que há uma articulação consciente coletivizada sobre esta questão, a qual obedece a uma hierarquia
estruturada, dando continuidade a uma prática perversa que nos dias de hoje, apesar de todo o suporte das novas mídias e redes sociais online que facilitam a comunicação e denúncia, tem se dado de forma sorrateira, silenciosa. Mas estes não são pontos isolados, e nem únicos, que se apresentam como forma de analisar a condição na qual os músicos percussionistas que atuam no carnaval de Salvador são colocados. Anos atrás, o professor e músico-pesquisador Jorge Sacramento (2001), também identificou que há um ciclo de continuidades desta prática não só no Estado da Bahia. Este autor, ao passo em que ampliar a possibilidade de análise e comparação destas relações valorativas com outras regiões no Brasil, também direciona a sua observação sobre esta problemática para o que ele considera ser uma provável “limitação” de conhecimentos musicais que muitos percussionistas têm e não buscam minimizar. Para Sacramento, essa insistência de muitos músicos percussionistas em não “estudar teoria musical”, faz com que eles continuem sempre um nível (ou mais) atrás dos demais músicos que tocam instrumentos de harmonia, o que por regra, atribui desvantagem ao seu poder de negociação junto aos contratantes. [A] questão trata da “cultura do batuque” que impera nesta cidade e que faz com que os “percussionistas” se preocupem somente em aprender a tocar seu instrumento, acompanhar a música, sem qualquer interesse na harmonia, melodia, textura, timbre, dinâmica, etc. Para mim o percussionista profissional tem que saber sobre o funcionamento geral da música, assim como um violonista, um guitarrista, um pianista entre outros. É preciso entender que a percussão pode e deve ser tratada dentro de um contexto harmônico e que o profissional da área precisa inclusive ter uma boa percepção musical para executar melhor os seus diversos instrumentos. [...]. Podemos perceber que em geral os percussionistas não participam da discussão sobre os arranjos da música, não fazem arranjos, nem do seu próprio instrumento inclusive, também não fazem nenhum tipo de ajuda vocal e não sabem como funcionam as partes harmônica, textura, divisão rítmica e melódica da música. Talvez este seja o motivo pelo qual são apelidados de “COZINHA”. Não sei a razão da relação. A cozinha é o lugar mais importante da casa e em geral ganham menos do que os outros músicos da Banda e não são respeitados pelos colegas, pelos produtores e empresários, justamente porque existem centenas de “percussionistas” que conduzem a música desta mesma maneira (SACRAMENTO, 2001, p. 178-180, grifo nosso).
Por transitar entre o mundo musical acadêmico (dito formal) e mundo o musical dito de rua (não formal? informal?), o autor apresenta o que ele considerar ser o ponto chave para a questão da desvalorização do músico percussionista na cena musical de Salvador, sobretudo no carnaval: a formação ampla como músico. Em seu ponto de vista, a
sociedade e, sobretudo, muitos músicos veem a percussão de forma muito limitada. Legando a este profissional lugares de pouco destaque na trama musical. Tratando sobre sua carreira particular, o professor/músico explica que o estudo dos instrumentos de percussão, associado ao estudo das fórmulas, estruturas, conceitos tonais; modais, etc,. euronormativos, lhe possibilitou agregar valor ao seu trabalho e poder de negociação no mercado musical (SACRAMENTO, 2001). Por minha vez, penso que as oportunidades nunca são as mesmas para todos os profissionais de uma área, sobretudo no campo da música em Salvador. Contribuindo para a discussão, apresento abaixo o relato proferido pelo professor de bateria do curso de Música Popular da UFBA em sua página do Facebook ainda no ano de 2016; Figura 1- Depoimento do professor/músico Uirá Nogueira após o Carnaval 2016
Fonte – (https://www.facebook.com/uira.cairo?fref=ts)
Em seu desabafo, o autor menciona o caráter individualista de alguns músicos e produtores envolvidos na festa carnavalesca e sinaliza a falta de respeito aos direitos, a desigualdade de remuneração paga entre os profissionais, questionando a ausência e inatividade da Ordem dos Músicos do Brasil (anteriormente mencionada). Não é um caso isolado. Nesta rede social muitos músico, intérpretes têm demostrado suas insatisfações com a estrutura na qual o carnaval tem se apoiado. Longe de esgotar ou finalizar esta questão/problemática, minha intenção neste texto é a de instigar a reflexão, debater e provocar questões que resultem numa discussão ampla sobre o processo histórico de depreciamento do músico percussionista que atua no carnaval de Salvador. A notória ausência de discussões, publicações e ações legais neste sentindo contribui, de forma sutil, para o silenciamento de vozes aqui subalternizadas, dando continuidade a um processo perverso no qual o protagonista não é reconhecido como tal e, contrariamente, tem sido, ao longo do tempo, colocado na periferia da folia carnavalesca. Ah! Vos informo que foram feitas algumas perguntas, referentes à relação de trabalho, a dois grandes mestres de bateria de dois importantes blocos-afro de Salvador. As respostas vieram em forma de silêncio. Sigamos, pois, a caminhada é longa. Referências bibliográficas GUEDES, Gabi. Gabi Guedes: entrevista [fev. 2017]. Entrevistador: Marcos Santos. Salvador, 2017 . LEITE, Letieres. ‘Já vi bloco recusar cantor por dizer que parecia macaco’: Direitos humanos. Revista da CEERT. Brasil, 2015. Disponível em: (http://www.ceert.org.br/en/noticias/direitos-humanos/12888/letieres-leite-ja-vi-blocorecusar-cantor-por-dizer-que-parecia-macaco). Acessado em 10 jan 2017. _____________. Percussão Soberana. Revista Bequadro. Brasil, 2011. Disponível em: (http://www.revistabequadro.com/entrevistas/percussao-soberana/). Acessado em: 10 jan 2017. LIMA, Ari. A estética da pobreza. Música, política e estilo. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ, 1995. MIGUEZ, Paulo Cezar. Carnaval baiano: as tramas da alegria e as teias de negócios. Dissertação de mestrado, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1996.
PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio narrativo do Peregrino da América. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1988.
RISÉRIO, Antônio. Carnaval Ijexá. Corrupio; Salvador, 1981. SACRAMENTO, Jorge. Percussão em Salvador. In: Depoimentos. Ictus- Periódico do PPGMUS/UFBA. Vol. 3, Salvador, 2001. Disponível em: (http://www.ictus.ufba.br/index.php/ictus/article/viewFile/26/34). Acessado em 10 jan 2017. TURINO, Thomas. Music as Social Life: The Politics of Participation. The University of Chicago: Chicago/London, 2008.