Skip to main content

Nas veredas para a modernidade: a comissão de frente e as suas inúmeras expressões

Page 1

VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 NAS VEREDAS PARA A MODERNIDADE: A COMISSÃO DE FRENTE E AS SUAS INÚMERAS EXPRESSÕES. Elizeu de Miranda Corrêai

RESUMO O presente artigo tem-se como objetivo dar visibilidade para os impactos da modernidade na comissão de frente, suas inúmeras expressões, bem como as tensões e contradições. Não se pretende ratificar ou atestar nenhuma categoria analítica, mas superar velhas certezas sobre esse quesito, que com o findar dos anos de 1980, assumiu uma dimensão imprescindível no contexto do Carnaval carioca, na especificidade das Escolas de Samba. Palavras-chave: Escola de Samba – Comissão de Frente – Tecnologia

ABSTRACT This article has aimed to give visibility to the impact of modernity on the Front, its many expressions, as well as the tensions and contradictions. It is not intended to ratify or attest any analytical category, but overcome old certainties about this question, which ended with the 1980s, assumed a vital dimension in the context of the Rio Carnival, the specificity of Samba Schools. Keywords: School of Samba - Front Commission – Technology Esse ano foi bom porque percebi mudanças no quesito, que agora virou show. A comissão de frente está se perdendo. Se não for repensada, o quesito morrerá. [...]. É possível inovar e ser criativo, aliar tecnologia. Tem milhões de recursos na arte para avançar sem jogar a história no lixo. Não quero voltar ao tempo da velhaguarda com cartola, [...]. Não tenho medo da renovação, tenho medo da adulteração. Temos que guardar para o povo um pouco dos segmentos da escola de samba. O que eu fazia, se for mesclado, ainda dá certo atualmente. Houve evolução, mas, com busca da identidade, é possível. [...].ii

Diante do exposto, fica evidente uma crítica atroz do coreógrafo Fábio de Mello acerca das inovações vivenciadas no Carnaval carioca, ele promoveu intensas rupturas no metiér das Escolas de Samba (ES), quando na década de 1990, reformulou as propostas apresentadas pela comissão de frente (CF) da ES Imperatriz Leopoldinense, transcendendo o modelo tradicionaliii para o modernoiv. O profissional acredita que a CF diante das intervenções ocorridas, tornou-se um show e consequentemente perdeu sua identidade.

1


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 Desta forma, para o artista, esse quesito necessita de forma urgente ser repensado, evitando um estado de trevas. E diante de todas as intervenções ocorridas nas ES, ele acredita nas possibilidades abertas ao novo, utilizando-se da criatividade mediante aos recursos oferecidos pela tecnologia sem deixar de lado as referências históricas, o que pressupõe certo sentimento tradicionalista, referente ao seu tempo em relação aos dias atuais, o que em outrora, ele também colocou sob o destino fatal o trabalho das CF, compostas por integrantes da velha guarda da agremiação, deixando à margem e colocando no lixo a “história” do samba. Diz o coreógrafo, que as renovações não o “assombram”, mas, revela ter medo da adulteração, justificando esse temor a partir da necessidade da preservação de segmentos da ES, entende-se que para as próximas gerações. Novamente, ele se detém a resistir à ideia do novo, justificando a permanência de um modelo de trabalho a ser conservado, em função do povo. Nesse cenário, enquadram-se perfeitamente os ensinamentos de Hobsbawn, pois: “[...]. O objetivo e a característica das “tradições”, inclusive as inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que eles se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição”.v O coreógrafo apresenta ao longo da entrevista concedida ao jornalista Isaac Ismar, reflexões que estabelecem um ponto de convergência com os preceitos de Marx e Engels, contidos no Manifesto Comunista, decorrentes da emergência do capitalismo somado aos efeitos da modernidade. [...]. A revolução constante da produção, os distúrbios ininterruptos de todas as condições sociais, as incertezas e agitações permanentes distinguiram a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações firmes, sólidas, com sua série de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis foram varridas, todas as novas tornaram-se antiquadas antes que pudessem ossificar. vi

Assim, escrevia Marx e Engels no Manifesto do partido comunista fruto de anseios e contestações inseridas na primeira metade do XIX, contexto da revolução industrial. Embora, essas reflexões sejam produto de um tempo, onde a sociedade da época encontrava-se resistente às inovações tecnológicas, quanto às mudanças e adaptações originadas pela revolução industrial, não obstante estagnada no sentido de efetuar uma análise, do que era moderno para aquele contexto, pode contribuir para esse estudo, no que se refere às transformações experimentadas atualmente pela CF, ligadas ao sentimento de modernidade. Nesse sentido, a impressão que se tem, a partir do contato com as “novas” CF, enquadra-se com a narrativa de Marx e Engels sobre as dissoluções dos padrões e instabilidades sociais, decorrente do processo de industrialização.

2


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 Todavia, é preciso apresentar a ideia de modernidade utilizada no corpo desse texto diante da leitura de trabalhos consultados e refletir sobre o pensamento de que, mesmo com todas as interferências efetuadas na CF, o grupo consegue permanecer junto ao corpo biológico da ES, desde os tempos de sua origem, enquanto agremiação nos desfiles carnavalescos do Rio de Janeiro. Na medida em que: [...]. É natural que qualquer prática social que tenha de ser muito repetida tenda, por conveniência e para maior eficiência, a gerar certo número de convenções e rotinas, formalizadas de direito ou de fato, com o fim de facilitar a transmissão do costume.vii Mas, então o que é modernidade? Como esse conceito pode ser empregado, tendo em vista, apresentar as transformações vivenciadas pela CF como estratégia para sua permanência? O sentido de modernidade associada à CF pode ser definido na materialidade de um estilo inovador? Entendo que o sentido de modernidadeviii é alternativo, ou seja, tudo aquilo que permite novas construções, para tanto, o tempo, torna-se fator imprescindível, para conformar a concepção do novo em sua efemeridade persistente, que como bem disse Marx e Engels, nem mesmo chegam a se ossificar, tornando-se constantemente ultrapassado. No entanto, questiona-se ainda qual o sentido de tradição associado à CF? Revisitando Eric Hobsbawn, o autor ensina que, Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácida ou abertamente aceita; tais práticas de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica automaticamente; uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade à um passado histórico apropriado. ix

Considera-se aqui, haver pontos de convergência em relação, ao desenvolvimento e expansão das CF as pensamentos de Hobsbawn expostos acima. O autor também considera em outra passagem que, a tradição é o campo das permanências e o costume o das mudanças, das disputas e das trocas. Inventam-se novas tradições quando ocorrem transformações suficientemente amplas e rápidas, tanto do lado da demanda, quanto da oferta. É certo que as CF vivenciam um processo de transformações constante em sua estrutura. No entanto parece haver entre os grandes coreógrafos dos dias atuais, elementos tradicionais “implícitos” no arranjo do seu espetáculo na Passarela do Samba. As intervenções da modernidade no universo das ES e a conquista do público são fatores determinantes para os trabalhos das CF. A moda agora é inovar, deixar a plateia perplexa diante do espetáculo e das novas intervenções tecnológicas. Provavelmente, isso só foi possível pelas transformações sociais, culturais e políticas das décadas de 80-90. 3


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 Para sinalizar o contexto sobre CF é importante destacar que no ano de 1984, consta: “– No regulamento das escolas, deixa de constar a exigência de a comissão de frente desfilar atrás do abre alas.”x Cabe frisar que até aquele momento, o conjunto não tinha nenhuma afinidade ou referência com o enredo, e não causava impacto, no universo das CF/ES. Por outro lado, em 1985, a ES Mocidade Independente de Padre Miguel, apresentou em sua CF, uma proposta que dialogava perfeitamente com o enredo. Sendo ela para a época “moderna”, com simples movimentos insuando ganho de espaço e projeção na avenida, deslocava-se da formação aprumada em linha horizontal – sentido concentração para disperção (sul-norte) – e projetava-se em fila indiana, para uma outra formação, em linha vertical (imagem 1), para saúdar o público dos camarotes e arquibancadas, posteriormente retornava à primeira formação. xi

Imagem 1: Comissão de Frente da Mocidade Independente de Padre Miguel 1985. Fonte: Arquivo do Centro de Memória da LIESA – RJ

É interessante destacar os detalhes da fotografia. Assim, o contexto a qual a imagem representa está inserida no ano do término da ditadura militar, onde o Brasil almejava sair dos anos de torturas e repressão e “avançar no tempo”xii. Por um lado, a CF manifestava princípios de evolução e desenhos coreográficos, explorava o espaço, e, portanto, literalmente se projetava. Mas, o detalhe que chama a atenção, refere-se ao grupo o qual era formado por crianças, fantasiadas de astronauta, que carregavam na mão direita a bandeira do Brasil. Indícios de um nacionalismo em tempos de crise e a esperança por dias melhores. Outro ponto importante, é a imagem do mecena da Mocidade, o bicheiro Castor Gonçalves de Andrade e Silva atuando como um arauto à frente da Escola, esse sujeito foi o maior e mais poderoso bicheiroxiii do Brasil até 1997, ano de sua morte. Com a paisagem composta, pressupõe-se que havia um desejo coletivo embutido na sociedade brasileira em conquistar

4


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 novos horizontes. Logo, o trabalho apresentado pela CF da Mocidade Independente de Padre Miguel e a letra do samba enredo, reproduziam em seu âmago os desejos de liberdade. Eis aqui, portanto, um dos o papéis sociais das ES – a fabricação de discursos e posicionamentos críticos diante das injustiças sociais. Portanto, “[...]. Se o homem modifica a sua atitude radical perante a vida, começará por manifestar o novo temperamento na criação artística e em suas emanações ideológicas. [...]”xiv. Assim, pressupõe-se que a proposta daquela CF possuía como escopo, “[...] mostrar as convulsões sociais que se exprimiram nessas metamorfoses da percepção”xv, como discorreu Benjamim ao retratar sobre a destruição da aura, na obra de arte, devido sua reprodutibilidade, desde que se aceite que essa forma de manifestação popular, sempre foram uma senha segura na interpretação dos códigos e dos valores imanentes às comunidades que as produziram. Isso se confirma quando observa-se também, a letra do samba enredo intitulado: “Ziringuidum 2001 Carnaval nas estrelas”, escrita por Gibi, Arsênio e Tiãozinho em 1985. A letra tem como aspecto um tom apelativo, pois: “Sou a Mocidade / Sou Independente / Vou a qualquer lugar” xvi e “[...] nos meus devaneios quero viajar [...]”xvii. Ora, se o desfile das ES do Rio de Janeiro é a fábrica de sonhos, pode-se dizer que a poesia da letra do samba enredo é a válvula de escape da comunidade. Por conseguinte, no ano de 1985 eles cantaram, a liberdade do Brasil e a projeção de um futuro melhor, mediado pelas novas tecnologias. Nesse contexto, o jornal o Globo de 25/02/1990, escrevia: “O carioca troca a crise pela folia”. Com um título carregado de ironia e crítica, o jornal informava que naquele ano, os cariocas haviam esquecido os tempos de crise, de inflação, de violência e de todos os males sociais que afligiam a população por alguns dias de folia.xviii Pois, em 1992, os caras pintadas pediram o Impeachment de Fernando Collor de Melloxix, no dia 1º de maio de 1994 o Brasil perdia Ayrton Senna, que morre em um acidente no GP de Imola, também em 1994 a seleção brasileira conquistava seu quarto título mundial ao vencer a Itália nos pênaltes. A inserção das ES no universo pós-moderno obrigou aos coreógrafos superar os limites da técnica e da imaginação, a fim de manter o impacto do show, assim sendo, a colaboração dos profissionais das artes cênicas foi fundamental para a nova linguagem executada, pelas CF, que passam a assumir o papel de anunciar o enredo, eliminando, a figura dos atores da chamada velha guarda, cedendo espaço para a expressão artística. Assim, a ES por si só é um espetáculo e o seu público está viciado pelas recentes tendências encenadas na passarela do samba, muito embora, sejam reproduções ou inovações, certamente são subsidiadas pelos artifícios da modernidade. 5


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 Nesse sentido, possibilitando a liberação de movimentos e a introdução de gestos ousados, ganho de espaço na avenida e assumindo a nova atribuição de apresentar/sintetizar o enredo, precisa estar associado às características peculiares de apresentar a ES na avenida, saudando o público e pedindo passagem. Então, romper com o tradicional torna-se necessário. Todavia, isso ocorre de fato na atual conjuntura? Pressupõe-se que diante das adaptações e assimilações ocorridas nas CF, elas ainda possuem traços tradicionais significativos. Nessa perspectiva, Hobsbawn acredita “[...] que a invenção de tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo pela imposição da repetição.”xx Todavia a CF composta pela velha guarda, literalmente saiu de cena e há todo um discurso pronto referente à transição da velha guarda para as modernas CF. Para efetuar um debate da transição em questão, elaborou-se um quadro comparativo, que vai ser apresentado no corpo do texto, para ilustrar a passagem. Para sua confecção foram selecionadas sete CF das seguintes ES: Portela, Mangueira, Salgueiro, Unidos de Vila Isabel, Imperatriz Leopoldinese, Mocidade Independente e Beija Flor. Agremiações que participaram dos desfiles do grupo principal do Carnaval do Rio de Janeiro de 1984 a 1994. Tal período foi organizado da seguinte forma: o primeiro ano marca o início dos desfiles das ES do Rio de Janeiro, na era da Passarela do Samba “Darci Ribeiro”, na Avenida Marquês de Sapucaí, já o último ano por ser tido pela imprensa como divisor de águas, uma vez que pela última vez desfilava-se com a CF formada pela velha guarda de maneira tradicional sem ser proposta do enredo, como vai ser observado mais adiante. A mudança parecia ser inevitável, mas, as agremiações foram relutantes. Cabe aqui, consultar E. P. Thompson o qual escreve que no século XVIII na Inglaterra, o costume constituía uma retórica de legitimação de quase todo uso prático ou direito reclamado. Por fim, uma cultura tradicional é rebelde e resistente em nome do costume. Por isso, a cultura popular é rebelde, mas, o é, em defesa dos costumes.xxi Pela tabela 1, pode-se observar uma resistência, ou seja, uma tentativa de manutenção das formas tradicionais de desfile da CF. Tabela 1: Quadro comparativo entre os estilos: tradicional e moderno

Ano

Estilo Tradicional

Agremiações

Estilo Moderno

1984

2

Portela e Vila Isabel

5

1985

3

Portela, Mangueira e Salgueiro

4

Agremiações

Mangueira, Salgueiro, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Mangueira, Vila Isabel, Mocidade e Beija Flor

6


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 1986

3

Portela, Salgueiro e Imperatriz

4

1987

3

Portela, Mangueira e Beija Flor

4

1988

2

Portela e Salgueiro

5

1989

3

Portela, Salgueiro e Mocidade

4

1990

1

Portela

6

1991

3

Portela, Mangueira e Imperatriz

4

1992

1

Portela

6

1993

1

Portela

6

Salgueiro, Vila Isabel, Imperatriz e Mocidade

1994

7

Mangueira, Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Mangueira, Vila Isabel, Imperatriz e Beija Flor Mangueira, Salgueiro, Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Salgueiro, Vila Isabel, Mocidade e Beija Flor Mangueira, Salgueiro, Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Mangueira, Salgueiro, Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor Portela, Mangueira, Salgueiro, Vila Isabel, Imperatriz, Mocidade e Beija Flor

Fonte: Centro de Memória da LIESA.

É interessante observar que desde 1984 até 1993, a Portela desfilou com a sua velha guarda. Contudo, ela foi seguida por outras agremiações que buscavam uma definição. As ES que ficaram em trânsito pelos dois mundos são: o Salgueiro, que desfilou com a velha guarda entre os anos de 85, 86, 88 e 89, Mangueira: 85, 87 e 91, por fim, a Imperatriz em 86 e 91. A nova estrutura das CF dos anos 90 era rígida. E notou-se que o papel das críticas decorrentes da imprensa, quanto às formas dos trabalhos apresentados pelas CF, tinham como objetivo estimular e divulgar as tendências que iriam imperar na década de 1990. E já despontavam no cenário as criações da carnavalesca Rosa Magalhães. Comissão de frente do Salgueiro leva prêmio Para apresentar o Acadêmicos do Salgueiro ao público da Marquês de Sapucaí, a escola escolheu 15 salgueirenses com altura média de 1,90m, dispostos a mostrar que nem só de Velha Guarda vivem as comissões de frente. Os integrantes, que representavam os guerreiros medievais dentro da primeira parte do enredo da escola, passaram pela passarela marcando os passos ensinados pela coreógrafa Suzana Braga. Com figurino de Rosa Magalhães, a fantasia de dez quilos fez os guerreiros suarem, mas as três formações básicas, apreendidas em mais de dez aulas, encantaram o júri do prêmio Estandarte de Ouro. xxii

Diante do exposto, observa-se o processo embrionário das mudanças dos paradigmas da CF. Dois pontos merecem destaques nessa CF, o primeiro relaciona-se as fantasias, que foram confeccionadas por Rosa Magalhães e que certamente inovaram pra época e o segundo ponto, está relacionado à coreografia, tento em vista a superação do marasmo da velha guarda. Isso indica novos ventos soprando na direção desse quesito. Com uma composição ortodoxa em meados dos anos 90 as CF necessitavam se ajustar ao seu tempo. E os julgadores desse quesito, prescreviam sob forma de lei, as inovações que deviam ser apresentadas pelos grupos, a fim de garantir a permanência das mesmas. Diante

7


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 disso, estava anunciada a morte do estilo tradicional da velha guarda nas ES. Assim, a julgadora Miriam da Costa, em 10/02/1991, escrevia à Mangueira,“Comissão de Frente Tradicional, sem qualquer inovação, sujeita a critério mais rigoroso, do que nas inovadoras, adequadas ao enredo, que arriscam um julgamento subjetivo dos jurados. Ausência de alegria.”xxiii De forma semelhante, essas censuras foram apontadas para a ES Portela, no desfile da segunda feira dia 11/02/1991. A pressão foi tanta que no domingo, dia 21/02/1993, Mirian Glória, também julgadora do quesito CF, emitiu o seu veredicto final, no instante em que apresentou sua justificativa sobre a Portela. Nas palavras da julgadora observa-se que: “A comissão de frente se apresentou tradicional, desanimada, sem nenhuma inovação e beleza. Fazer justiça significa usar pesos e medidas iguais. Umas se esmeram e arriscam em criatividade e luxo, sujeitos a cometerem erros e acidente, outras não.”xxiv E após anunciado o veredicto, a julgadora sentenciou a agremiação, tirando-lhe 1 ponto da nota final. Não obstante, a CF da Portela na década de 90, estava sendo alvejada por todos os lados. Mas, as críticas tinham um alvo certo, a forma tradicional com que a comissão de frente da agremiação desfilava. Assim, o julgador Claudio Vieira, também no dia 21/02/1993, tece duras críticas a esse grupo. Parece que os julgadores já estavam saturados, desse tradicionalismo desanimado, deselegante e sem inovações, passando a impor transformações imediatas nessa ala, sob duras penas. Não há de se exigir que a tradicional CF da Portela faça uma performance coreográfica. Mas é de se esperar que seus veteranos integrantes mantenham coordenação e sintonia de movimentos. Principalmente na hora de saudar o público, ao acenar e tirar o chapéu. Isso não aconteceu. A estilização da indumentária também não foi feliz para uma cerimônia de casamento. Ambas as falhas significam a perda de 1 ponto.xxv

Então, fica claro, diante desses julgadores que a CF da Portela e seu estilo tradicional, já não correspondia efetivamente as suas obrigações elementares de saudar o público, de maneira coordenada e em perfeita harmonia dos seus gestos. Consequentemente, estava condenada a comiss CF da agremiação, tanto, que esse foi o último ano que a ES teve a sua CF formada ao estilo tradicional. Faz-se necessário, refletir ainda sobre as considerações finais do julgador Claudio Vieira, contidas no campo destinado as observações gerais do Mapa de Notas do Carnaval de 1993: Para um quesito que há poucos anos estava ameaçado de extinção, é gratificante vê-lo revigorado de forma que é quase impossível detectar falhas entre as comissões de frente. É fragrante – e louvável - o trabalho que as agremiações vêm desenvolvendo neste setor específico, aprimorando-o de ano para ano. Ganha o espetáculo, que é precedido por um show à parte durante a entrada de cada escola.

8


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 Pena que essas coreografias ensaiadas exaustiva e secretamente durante um ano, na hora “H” sejam atrapalhadas justamente por diretores mal orientados e que não sabem se posicionar durante o desfile. Além de apresentar a escola, saudar o público e “fazer bonito”, as comissões de frente devem ensaiar também no sentido de driblar essa gente. Parabéns a todos! Claudio Vieira 25/2/93. xxvi

O julgador ao acatar a revitalização do conjunto, sugerindo o “novo” como perfeito, não conseguiu observar os defeitos e ficou satisfeito com as apresentações exibidas naquele ano, uma vez que, o quesito estava em vias de destruição. Entendia ainda, que o maior beneficiado seria a composição do espetáculo, e consequentemente o público que assistia aquele show a parte dentro do espetáculo. A ruptura/morte anunciada do estilo tradicional na CF da Portela se confirma quando, na manhã de segunda feira, 10/01/1994, o jornal O Globo, periódico de maior circulação carioca, noticiava sob o título “Portela tira a velha guarda da frente”

xxvii

,

informando a substituição dos baluartes da agremiação por sete casais dançarinos de Lundu. A Portela era vista de acordo com a matéria, uma das ES que mais aquilatava os seus antigos sambistas, isso, certamente provocou na época um debate muito grande, a respeito dos impactos da modernidade, pois, o que estava em jogo, era a manutenção das tradições e o poder dos sambistas da comunidade, ou seja, eles foram deslocados do seu trono, por artistas que provavelmente não pertenciam à comunidade e no embate a velha guarda foi derrotada. Não se pode esquecer que no mundo do Carnaval a ordem é a liberdade, termo que é a mola mestra do sentido de modernidade. Nessa atmosfera as CF, de hoje como as de ontem, representam fragmentos de uma sociedade que como ela, o hoje é fruto do amanhã, de uma sociedade imersa em tensões e de contradições, contudo, dando visibilidade para os marginalizados e esquecidos, problematizando temas polêmicos. Ela te sido o espelho por onde a sociedade se reflete e mostra ao mundo um pouco do nosso jeito de ser!

i

Doutorando e Mestre em História Social (bolsista CAPES), pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Sob orientação da Profª Drª Yvone Dias de Avelino. elizeu.m.c@uol.com.br. Telefones (011) 991629221 / 4640-3858. Estrada de Santa Isabel, 1410 – Centro – Itaquaquecetuba, SP – CEP: 08.570-080. ii MELLO, Fábio de. Fabio de Mello: 'o quesito Comissão de frente está se perdendo'. [17/03/2010]. Disponível em: <http://www.sidneyrezende.com/noticia/78244+fabio+de+mello+o+quesito+comissao+de+frente+esta+se+perdendo>. Acesso em: 17 mar. 2010. Entrevista concedida ao jornalista Isaac Ismar. iii A indumentária quando segue a forma tradicional, é composta por fraques, casacas, summers, ternos, smokings e etc., estilizados ou não –. Fonte: LIESA, Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Manual do julgador Carnaval 2011. Rio de Janeiro, RJ, 2011, p. 33.

9


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 iv

O sentido moderno na comissão de frente, é definido pela indumentária quando relacionada ao enredo, levando-se em conta, neste caso, sua adequação para o tipo de apresentação proposta. Fonte: LIESA, 2011. Op. cit., p. 33. v HOBSBAWN, Eric. Introdução. In: A invenção das tradições. HOBSBAWN, Eric J.; RANGER, Terence (orgs). 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008, p. 10. vi MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Burgueses e proletários. In: O manifesto comunista. Tradução Maria Lucia Como. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1998, p. 14. (coleção leitura) vii HOBSBAWN, 2008. Op. cit., p. 10. viii A fim de refletir sobre o sentido de modernidade, recorreu-se a Marshall Berman, o qual ensina que a modernidade é um conjunto de experiências e de possibilidades, compartilhadas por homens e mulheres ao longo do espaço e do tempo. E continua, Para ele: “[...]. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor”, no revés, ameaça destruir todo o conhecimento acumulado, “[...] tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. [...].” Assim, Berman entende que a modernidade é um paradoxo complexo, uma dialética, e, na medida em que o homem se sustenta em bases sólidas do domínio do saber e do poder, ele também avança às fronteiras da destruição com destino ao caos, pois tudo e a todo instante não se estabiliza e sugere novos sentidos. Essa vivência referente ao anseio de modernidade para autor, remete ao que se entende como globalização , logo anula e supera todos os limites “[...] geográficos e raciais, de classe e nacionalidade, de ideologia e religião [...]”, de profano e sagrado. Sendo assim, para o Berman a “[...] modernidade une a espécie humana. [...].”No entanto, é “[...] uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: [...]”, então coloca o homem em meio a tensões e conflitos sociais e a um emaranhado de ambigüidades, angústias e contradições, ou seja, “[...] num turbilhão de permanente desintegração e mudanças, [...]”. Assim “[...], cria novos ambientes [...] e destrói os antigos, acelera o próprio ritmo [...], gera novas formas, [...]; rápido e muitas vezes catastrófico [...]. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 24-25. ix HOBSBAWN, 2008. Op. cit., p. 9. x RIOTUR. Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A. Memória do Carnaval. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1991, p. 27. xi Análise efetuada a partir da observação, do vídeo do desfile do Carnaval de 1985, da Mocidade Independente de Padre Miguel, pela Rede Globo de Televisão e pela TV Manchete. Acervo pessoal do autor. xii Trecho da poesia do samba enredo da Escola de 1985, a qual se sagrou campeã daquele ano. Disponível em: Disponível em: <http://letras.terra.com.br/sambas/959612/>. Acesso em: 21 de Nov. 2010. xiii Para maiores detalhes sobre as relações do jogo do bicho e as Escolas de Samba, consultar: QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Carnaval brasileiro: O vivido e o mito. São Paulo: Brasiliense, 1992. xiv ORTEGA Y GASSET, José. A desumanização da arte. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001, p. 69. xv BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 165-196, p. 170. xvi Disponível em: <http://letras.terra.com.br/sambas/959612/>. Acesso em: 21 de nov. 2010. xvii Idem. xviii O carioca troca a crise pela folia. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, p. capa, n° 20.549, Ano: LXV, 25 fev. 1990. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional. Ministério da Cultura. Departamento de processos Técnicos. Coordenadoria de microrreprodução. xix Primeiro Presidente do Brasil (1990-1992) eleito pelo voto direto após a ditadura militar, cujo maior destaque de sua gestão foi a implementação do Plano Collor e a abertura do mercado nacional às importações e pelo início de um programa nacional de desestatização. Com boa aceitção no início, o Plano Collor, teve um final trágico aos brasileiros, desembocando numa recessão econômica, cujos efeitos foram a extinção, de mais de 920 mil postos de trabalho no ano de em 1990 e uma inflação acima de 1000% ao ano. Não obstante a isso, seu governo foi marcado por denúncias de corrupção política envolvendo seu ex-tesoureiro de campanha Paulo César Farias, realizadas por Pedro Collor de Mello, irmão do Presidente, elevaram ao seguimento de impugnação de mandato (Impeachment). O processo, antes de aprovado, fez com que o Presidente renunciasse ao cargo em 2 de outubro de 1992, deixando-o para seu vice Itamar Franco. Collor ficou inelegível durante 8 anos (até 29 de dezembro de 2000). Disponivel em: <http://www.portalbrasil.net/politica_presidentes_collor.htm>. Acesso em: 04 set. 2010. xx HOBSBAWN, 2008. Op. cit., 12. xxi THOMPSON, Eduard Palmer. Costumes em comum: estudo sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Cia das Letras, 1998, p. 19.

10


VIII Semana de História Política V Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade ISSN 2175-831X – PPGH/UERJ, 2013 xxii

Comissão de frente do Salgueiro leva prêmio. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, p. 11, nº 20.552, Ano: LXV. Caderno: Carnaval/90, 28 fev. 1990. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Ministério da Cultura. Departamento de processos Técnicos. Coordenadoria de microrreprodução. xxiii GLÓRIA, Mirian. Justificativa da nota a Escola de Samba Portela. Mapa de Notas, Carnaval/1991. Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. RIOTUR, 1991. Centro de Memória da LIESA. xxiv GLÓRIA, Mirian. Justificativa da nota a Escola de Samba Portela. Mapa de Notas, Carnaval/1993. Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. RIOTUR, 1993. Centro de Memória da LIESA. xxv VIERA, Claudio. Justificativa da nota a Escola de Samba Portela. Mapa de Notas, Carnaval/1993. Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. RIOTUR, 1993. Centro de Memória da LIESA. xxvi Idem. xxvii DUARTE, S. Portela Tira a Velha Guarda da Frente. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, p. 13, nº 21.964, Ano LXIX, 10 jan. 1994, Acervo da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Ministério da Cultura. Departamento de processos Técnicos. Coordenadoria de microrreprodução.

11


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Nas veredas para a modernidade: a comissão de frente e as suas inúmeras expressões by Portal Academia do Samba - Issuu