O CONHECIMENTO ESCOLAR SITUADO NA CULTURA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE O CARNAVAL NA ESCOLA Gustavo Guttler dos Reis (1); Maíra de Oliveira Freitas (2) Orientador: Luís Paulo Cruz Borges (3) Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp/UERJ), gustavoguttler@hotmail.com Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp/UERJ), freitasmaira@yahoo.com.br Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp/UERJ), borgesluispaulo@yahoo.com.br
Introdução: Este relato de experiência1 trata-se de uma sequência didática sobre o carnaval brasileiro e carioca, realizada com uma turma de 4° ano do Ensino Fundamental do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CApUERJ), localizado no bairro Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Na condição de bolsistas de Iniciação à docência (ID) do projeto “Circularidade de saberes na formação docente: por uma didática intercultural”, participamos dessas atividades que aconteceram antes e após o carnaval de 2018, tendo um mês de duração e ocorrendo duas vezes por semana. O objetivo desse relato é compartilhar a experiência sobre abordagem do tema carnaval numa sequência didática, refletindo sobre a nossa prática e fornecendo subsídios para que outros professores possam trabalhar a temática no cotidiano escolar. A sequência didática auxilia os estudantes a dominarem os diversos gêneros textuais presentes em nossa sociedade, preparando-os para saberem utilizar bem a leitura e a escrita levando em consideração o contexto social (Dolz, Noverraz & Schneuwly, 2004). A escolha dos temas de cada proposta não pode ser aleatória. A sequência foi pensada e repensada com objetivos específicos para o desenvolvimento de leitores críticos. Trabalhamos diversos gêneros textuais levando a diversidade do mundo para a sala de aula. Dessa forma, a sequência didática do carnaval foi construída e tecida a partir da interação com o mundo, as crianças, o professor e os bolsistas da turma. O trabalho foi pensado/desenvolvido como um caminho curto e dialogado que se apresenta à vida cotidiana de forma significada e ressignificada a partir das experiências pautadas no conhecimento escolar produzido pela escola e seus sujeitos. A partir de uma pesquisa de inspiração etnográfica, Lima (2005) busca entender como se dão as relações entre a cultura escolar/cultura da escola e uma das culturas sociais de referência dos/as estudantes, denominada cultura do samba. Entendemos dessa forma que o conhecimento escolar pode e deve ser situado no âmbito cultural, tal defesa está pautada na ideia de que a escola como instituição moderna vive e produz alteridades (Borges, 2018). O carnaval é acompanhado de uma série de folguedos populares promovidos habitualmente nos três dias anteriores ao início da Quaresma (festa religiosa cristã). Mas, a folia carnavalesca se apresenta com características distintas nos diferentes lugares em que se popularizou, onde se destaca o desfile carnavalesco, este faz parte do chamado carnaval de rua, em oposição a um carnaval fechado, realizado em clubes.
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Queremos agradecer o diálogo e parceria com a professora de Artes, Joana Rabelo (CAp-UERJ).
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Há controvérsias nas formas de pensar o seu surgimento e evolução, pois, existem discussões em que colocam que o carnaval tenha surgido durante o período medieval, outros que suas técnicas estão relacionadas as práticas mágico-religiosas, e ainda, que o carnaval está ligado aos cultos agrários por povos que vieram a.C. e posteriormente por greco-romanos em honra aos seus deuses. Nesta perspectiva, o carnaval teria uma origem obscura e que tenha uma feição religiosa que voltasse para a honra do ressurgimento da natureza. Entendemos então a importância de a escola dialogar com as culturas sociais, como o conceito de cultura do samba, para dar conta das redes de significado, costumes, práticas, comportamentos, socialização, saberes, sociabilidades que estão ligadas ao gênero musical. É preciso reconhecer o entrelaçamento entre currículo e as práticas dos atores, em relação às aproximações, distanciamentos e entrecruzamentos com a cultura do samba. Metodologicamente operamos numa lógica de ação-reflexão-ação para produzir conhecimento na e sobre a prática. Utilizamos como instrumentos, fundamentalmente, a observação participante e o diário de campo como forma de registro das atividades, escrita e imagens. Desde o início do trabalho, ainda em janeiro, antes do carnaval, deixamos claro para os estudantes que o objetivo da nossa proposta com eles era apresentar a história do Carnaval no Brasil e no Rio de Janeiro, pensando aspectos históricos e culturais. Avisamos para as crianças, também, que o produto final da sequência didática seria um portfólio construído por cada um ao longo do processo com suas produções e textos trabalhados. Este portfólio foi também o objeto de avaliação. Os conteúdos e objetivos específicos desse trabalho foram: apresentar a história das máscaras; apresentar e debater sobre a história do Carnaval no Brasil; apresentar a linha do tempo evolutiva do Carnaval no Brasil; apresentar a história das marchinhas de Carnaval; apresentar o carnaval em relação à vida e obra de Hélio Oiticica; debater as desigualdades a partir do sambaenredo; debater o racismo presente no Carnaval; relacionar Matemática e carnaval com tratamento da informação; construir uma linha do tempo histórica sobre o Carnaval Carioca; debater a falta d`água no Carnaval e pós-carnaval; desafios matemáticos pensando a água; ler e debater a história da Unidos da Tijuca e o Carnaval Carioca no ano de 2018; apresentar diversos modelos de Carnaval em comparação: pernambucano e paulista; debater o samba e a construção da Cidade do Rio de Janeiro; construir representações simbólicas sobre a festa Carnaval. Em cada aula foram trabalhados um ou mais desses conteúdos específicos, sempre tendo um texto que orientasse a aula. Nos atentamos para que as discussões fossem sempre contextualizadas e críticas. Durante os debates fazíamos perguntas para que os alunos refletissem e tomassem a consciência da realidade vivida, no passado ou no presente, pois a leitura de mundo faz parte do objetivo de uma sequência didática e de um processo de letramento. “Alfabetização e Letramento são interdependentes e indissociáveis: a alfabetização só tem sentido quando desenvolvida no contexto de práticas sociais de leitura e de escrita e por meio dessas práticas, ou seja, em um contexto de letramento e por meio de atividades de letramento; este, por sua vez, só pode desenvolver-se na dependência da e por meio da aprendizagem do sistema de escrita ” (Soares, 2004, p. 05).
Na aula em que o conteúdo específico era apresentar o Carnaval em relação à vida e obra de Hélio Oiticica, os alunos ficaram encantados com os “Parangolés”, a arte criada por Oiticica, em que o espectador se torna o participante da obra de arte. As crianças tiveram essa experiência também na aula de artes do colégio. Ao final da leitura e discussão sobre o texto proposto, os alunos criaram suas capas do portfólio sobre o carnaval, inspirados pela arte dos Parangolés e embalados por um CD de marchinhas clássicas de carnaval, que já tinham sido apresentadas no dia anterior. Em outra aula fizemos uma oficina com as crianças para falar especificamente do samba no Rio de Janeiro. Contamos e debatemos com elas sobre a região da Pequena África e dos encontros (83) 3322.3222 contato@ceduce.com.br
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musicais nas casas das tias baianas. Abordamos as origens afro-brasileiras do samba e as perseguições que os sambistas sofriam, deixando os alunos indignados, então a aluna Maria Eduarda disse: "É um absurdo essas perseguições ao samba antigamente, é que nem fazem com o funk hoje em dia". Falamos do marco criado com a música “Pelo Telefone” considerada o primeiro samba da história. E falamos também do surgimento da primeira escola de samba e de sua evolução. Ao final do debate sobre o samba no Rio de Janeiro, pegamos o pandeiro e demonstramos alguns tipos de batidas, como o maxixe, cantando o samba “Pelo Telefone”; o samba de raiz; o samba-enredo; e o samba de partido alto. Depois o pandeiro passou de mão em mão para os alunos experimentarem algumas batidas, trabalhando assim uma dimensão sensorial.
Imagem 1 – Oficina sobre o samba no Rio de Janeiro (05/02/2018)
Na primeira aula após o carnaval falamos dos desfiles, principalmente os mais críticos, como a Mangueira, Beija-flor e Paraíso do Tuiuti, escola pela qual o bolsista desfilou. Levamos a fantasia para mostrar para as crianças e lemos um texto sobre o enredo da Tuiuti, que falava sobre escravidão e refletia sobre a abolição da mesma, e que na letra do samba foi considerada uma “bondade cruel”. Explicando esse termo, a aluna Helena falou: "os negros escravizados foram libertos mas não tinham para onde ir e nem emprego". Então debatemos o racismo, a desigualdade social, cantamos o samba da Paraíso do Tuiuti e experimentamos a fantasia de uma ala, que era do jornal “O mulato”, a primeira imprensa negra no Brasil. O debate foi feito a partir da ideia racial, pensando quem eram os mulatos na sociedade brasileira de outrora. Partimos de uma compreensão cultural das dimensões simbólicas dos sujeitos no tempo histórico de ontem e hoje para gerar um conhecimento significativo e problematizador. À guisa de conclusão podemos indicar que, segundo os documentos disponibilizados pela Universidade2, o Programa de Bolsas de Iniciação à docência compreende o conjunto de atividades ligadas a projetos que buscam estimular o desenvolvimento e a utilização de metodologias inovadoras, tendo como objetivo central contribuir para a qualidade da educação básica. É voltado para alunos de graduação das áreas de Licenciatura. O presente relato de experiência e fruto dessa compreensão que envolve produção curricular e formação docente. Nas unidades acadêmicas, como o CAp-UERJ, os bolsistas de Iniciação à Docência integram projetos aplicados às questões que envolvam a construção do conhecimento, o processo ensino aprendizagem e a criação e integração de recursos metodológicos nas mais variadas áreas do conhecimento. Sob a coordenação e supervisão dos docentes lotados na unidade, mais do que ampliarem o campo usual de aplicação de seus conhecimentos, os bolsistas têm a oportunidade e 2
http://www.cetreina.uerj.br/estagios_int.php
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possibilidade de efetivamente tomarem parte na construção e produção de novos saberes, além de se constituírem como elementos multiplicadores de saberes construídos em âmbito da Universidade contribuindo, sobremaneira, à formação docente. Destaca-se também, nos conteúdos trabalhados, uma interdisciplinaridade na abordagem do carnaval. Estando presente em Língua Portuguesa, em História, Geografia, Matemática, Artes, Música e Ciências. Dessa forma, acreditamos que o carnaval tenha sido trabalhado a partir de diferentes matrizes e tenha sido significado com e para o grupo de estudantes proposto. A participação das crianças durante essas aulas, a leitura dos textos, os debates reflexivos e críticos e a produção individual do portfólio, nos faz acreditar que essa sequência didática tenha gerado nos estudantes um conhecimento mais aprofundado e contextualizado, contribuindo, dessa forma, para uma produção curricular que ganhe novos sentido em uma construção política-epistêmica sobre o mundo presente dentro e fora da escola.
Imagem 2 – Capas dos portfólios de duas alunas
Referências BORGES, L.P.C. O futuro da escola: uma etnografia sobre a relação dos jovens com o conhecimento escolar. Tese de Doutorado em Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, p. 01-170, 2018. DOLZ, Joaquim; NOVERRAZ, Michele; SCHNEUWLY, Bernard. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, Bernard; LIMA, Augusto César Gonçalves e; A escola é o silêncio da batucada? Estudo das relações de uma escola pública do bairro de Oswaldo Cruz e a cultura do samba. Rio de Janeiro, 2005. 283p. Tese de Doutorado – Departamento de Educação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. MATTA, Roberto da. Carnavais. Carnavais, Paradas e Procissões. In: Carnavais, Malandros e Heróis. Zahar editores, Rio de Janeiro, _____, p. 35-66. URBANO, Maria Aparecida. Carnaval e Samba em Evolução na cidade de São Paulo. Editora Plêiade, São Paulo, 2005, p. 21-59. SOARES, M. Alfabetização e Letramento: caminhos e descaminhos. In: Conteúdo e Didática de Alfabetização. Unesp: 2004, p.96-100. (83) 3322.3222 contato@ceduce.com.br
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