‘Núbia Regina Moreira
3 Samba de autoria Feminina Núbia Regina Moreira*
* Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília. Professora na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Memória e Desenvolvimento. E-mail: nrmoreira2@yahoo.com.br
Resumo: Inscrito no campo da sociologia da cultura, o trabalho em tela procurou deslindar as redes de interdependências que se formaram em direção a composição de samba de autoria feminina na cidade do Rio de Janeiro. O desenvolvimento da cidade carioca, a consolidação do campo da música popular brasileira e a expansão de produtores da musica direcionados aos novos nichos de consumidores se constituíram como pistas que possibilitaram compreender a manifestação de sambas de autoria feminina a partir dos anos 1970. Palavras-chave: Samba carioca. Autoria feminina. Sociologia.
Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
Abstract: Inscribed in the field of culture sociology, this screen work attempted to untangle the networks of interdependencies which were formed toward the composition of women’s samba in the city of Rio de Janeiro. The development of the carioca city, the consolidation of the field of Brazilian popular music and the expansion of music producers focused on the new consumer niches have constituted themselves clues which have enabled us to understand the manifestation of sambas being made by women since the 1970s. Keywords: Carioca samba. Women’s authorship. Sociology.
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Núbia Regina Moreira fazer prevalecer o tempo forte 2/4. (TINHORÃO, 1998). Passa a ser 1
O samba urbano apresenta um novo formato a partir das criações dos sambistas do bairro Estácio de Sá que com o bloco carnavalesco “Deixa Falar” introduziram objetos de percussão como tambores graves (surdos), tambores agudos (tamboris) e tambores de fricção (cuícas). (SANDRONI, 2001).
1. Samba carioca e o lugar da composição feminina
considerado a partir dos anos 1930 o sinônimo de samba autêntico,
A formação do campo musical no Rio de Janeiro pode ser datada desde o século XIX onde já havia um cenário da música clássica que era estimulada pelo Imperial Conservatório de Música do Rio de Janeiro, que logo se tornaria o principal destino dos músicos dos pais (CARVALHO, 2010). No entanto, a chamada música popular se desenvolverá já no final do século XIX e se prolongará por todos os séculos seguintes, sendo que é nos anos
Ao evocar o termo música popular estamos nos referindo a uma prática cultural que resulta de cruzamentos de diferentes experiências individuais, culturais, sociais e musicais ocorridos no múltiplo
das cidades
modernas (TROTTA,
se numa incipiente indústria cultural estruturada no Rio de Janeiro, a partir dos anos de 1940 (NAPOLITANO 2005). Inserido nessa lógica, o samba urbano carioca percorrerá o caminho do revestimento da civilização brasileira e das tramas e redes que se formam a partir das estruturas relacionadas à economia capitalista e pelas práticas cotidianas dos diversos grupos representados via expressões artísticas.
1940 que se inicia a profissionalização do músico popular.
cenário
de “raiz”, ganha espaço no mundo do rádio e dos discos, inserindo-
2006).
Decorrente dessa definição, classificamos samba urbano por ser uma composição que partindo das quadras improvisadas aleatoriamente após estribilhos fixos, cantadas em coro por todo o grupo (tal como
Dito isso, elucidamos por meio dessas tramas a formação do campo do samba escudado em Pierre Bourdieu (1996). Para ele, ao analisar que a existência do campo é reafirmada na luta pela imposição das categorias de percepção e apreciação legítimas; existência temporalizada no envelhecimento das obras, dos autores, engendradas no “combate entre aqueles que têm interesse em deter o tempo, em eternizar o estado presente; entre os dominantes que
no samba corrido dos baianos), acabaria ainda – por influência dos
pactuam com a continuidade, a identidade, a reprodução e os
compositores do Estácio 1 ganhando forma fixa, com a primeira e
dominados,
segunda parte obedecendo a tema único. Esse tipo de samba afasta-se definitivamente do partido-alto dos baianos também ao introduzir o som do tambor encarregado de Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
os
recém-chegados,
que
têm
interesse
na
descontinuidade, na ruptura, na diferença na revolução” (p. 181). Portanto, ao recorrer ao modelo bourdieusiano, nossa expectativa foi a confirmar que a história do campo possibilitou
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Núbia Regina Moreira 2
Segundo a sambista Teresa Cristina, a composição tem lugar de destaque porque é ela que faz o samba renascer e se firmar como gênero musical que é. Entrevista concedida a autora no dia 1 dez. 2012.
compreender as formas de organização formal de profissionalização
de novos especialistas na arte de compor como, preferencialmente,
dos sujeitos ligados a música popular; considerando que, para isso, a
as
consolidação de mercado de produtores e consumidores de bens
processualidade histórica, notamos que a sua atual situação é
culturais na sociedade brasileira corrobora para sedimentação e
marcada pelas modificações de ordem conjunturais e que,
divisões de funções das carreiras profissionais no mundo do samba.
articuladas às novas tramas dos agentes, montou o cenário para
O campo como um produtor de normatizações, manutenção e permanência dos seus membros, estabelece hierarquizações sobre as
mulheres.
Ao
compreendermos
o
campo
como
uma
novos arranjos na condição do sambista no que tange a sua posição geracional, de gênero e da incorporação do saber e fazer samba.
produções que aí se inscrevem. A posição que a autoria tem ocupado
Segundo Lucia Lippi (2000), a cultura política do Rio de
no mundo do samba está imbricada à continuidade do gênero, apesar
Janeiro desde Império e República até os anos de 1960 é
das modificações que se impõem como parte do processo de sua
caracterizada pelo processo de miscigenação cultural operando a
permanência no cenário nacional brasileiro.
fusão de gêneros, ritmos e culturas, possibilitando, assim, a criação
O sambista compositor é o que se projeta, tem visibilidade e é
do modelo de brasilidade difundida para o resto do país. Para autora,
símbolo deste mundo e referência cultural de significativo setor da
é no Rio de Janeiro que o modo de vida industrial moderno conhece
população carioca (LIMA, 2011). A composição como capital
sua origem. As relações comerciais e industriais se entrelaçam e
simbólico de alto valor no campo samba é o bem em torno do qual
articulam novas formas de conceber tempo e espaço, que
as disputas sobre o legítimo representante da enunciação do campo
rapidamente influenciaram reformas urbanas e as relações de
se fazem relevantes, expõe seus membros através das lutas internas
trabalho.
que num movimento histórico eterniza o campo. 2
O Rio de Janeiro será o lócus onde essas mudanças bruscas
As variações do gênero naquilo que concerne à teoria musical
rapidamente se apresentaram.
Já no final do século XIX, as
não foram pontuadas nesse trabalho devido à nossa incompetência
remodelações do centro do Rio de Janeiro já faziam notar as
no
e
injunções relativas à alteração na estrutura social do Brasil. As
descontinuidades que incidiram no campo possibilitando a inserção
transformações foram impulsionadas por uma corrida pela inserção
assunto;
Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
interessou-nos
apreender
as
continuidades
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Núbia Regina Moreira 3
Nascida em Salvador, em 1854, presumivelmente de escravos forros, isto é, libertos após conquista ou compra de alforria, Tia Ciata chegou ao Rio de Janeiro em 1876. Lá se casou com João Batista da Silva, também negro e baiano que, em Salvador, chegara para cursar dois anos de Faculdade de Medicina e, mais tarde, conseguiu emprego no gabinete do chefe de polícia da capital federal (Cf. MOURA, 1995).
do país à ordem capitalista, a qual requeria um ordenamento espacial
composição do gênero. Nesse período, eram os migrantes oriundos
da capital federal, que “simbolizasse a integração efetiva do País na
da Bahia que gostavam de se reunir em torno da dança, da bebida e
divisão internacional do trabalho” (ABREU, 2003, p. 220).
dos cantos acompanhados de instrumentos como pandeiro, chocalho,
O processo de remodelação estava presente no discurso das
mas contavam com a presença de Pixinguinha, Donga e Sinhô,
classes dominantes e do Estado sob a forma de combate aos cortiços,
assíduos frequentadores dessas festas. É a partir da publicação do
que funcionavam como moradias de trabalhadores livres ou escravos
samba “Pelo Telefone” que se começa a divulgar a ideia do samba
de ganho. A condução do processo de desaparecimento dos cortiços
como uma síntese de vários ritmos do folguedo popular e de
e controle da zona central da cidade era feita através das denúncias
expressões como maxixe e tango. Parte desse processo obedece à
da Inspetoria Geral de Higiene e de outros órgãos, que tinham como
lógica do desenvolvimento estético-expressivo do chamado samba
objetivos, além de controlar essa parte do espaço urbano, também
aliado ao encaminhamento da profissionalização do artista.
diminuir o “foco potencial de agitações populares” presentes nos cortiços (ABREU, 2003, p. 212).
Concomitante à organização técnica industrial que modelava o espaço urbano nas dimensões arquitetônica e sanitária e a campanha
É a partir do final do século XIX que a palavra “samba”
pela escolarização em massa de caráter laica, além da efetivação das
começa a ser registrada na cidade do Rio de Janeiro. Assim fazendo,
normas jurídicas convergindo em direção à orientação de corpos e
ela começa a diluir as fronteiras que se mostravam tão nítidas até
condutas, estava a sistematização das expressões de lazer, que
então; e assim, pouco a pouco, “o samba já não será mais só da
interdependentemente conformam uma nova roupagem ao samba. Já
Bahia, nem só da roça, nem só de negros” (SANDRONI, 2001, p.
não cabia nos anos 1930, no fluxo das interações entre os grupos, a
90). Inicialmente considerado como dança, festa, o samba do Rio de
permanência de regras pautadas na comunidade rural, tradicional.
Janeiro tem sua origem, segundo Sandroni, na casa da Tia Ciata 3.
Porém, o chamado samba urbano apresenta novo formato a partir
Essa famosa baiana realizava em sua casa festas que reuniam
das criações dos sambistas do bairro do Estácio de Sá que, com o
sambistas, tendo inclusive sido o local onde fora concebido “Pelo
bloco carnavalesco “Deixa Falar”, introduziram objetos de
Telefone” (1916, gravado em 1917), considerado a primeira Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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Núbia Regina Moreira percussão como tambores graves (surdos), tambores agudos
e trânsito entre diferentes segmentos e domínios sociais, resultando
(tamborins) e tambores de fricção (cuícas) (Cf. SANDRONI, 2001).
em interações de múltiplos estilos de vida.
A Deixa
Falar
era
uma
das
inúmeras
agremiações
As expressões populares passaram a contar, nos anos 1930,
carnavalescas que surgiam a cada ano nos bairros localizados na
com os parcos incentivos institucionais em disputa com as artes
zona portuária da cidade: “A Praça Onze, nos anos 1920, funcionava
clássicas. Essas contavam com o fomento proveniente do mecenas
como uma espécie de convergência de todo o mundo do samba
elitizados bem situados socialmente, favorecidos pela influência
durante o carnaval. Ranchos, blocos, cordões que perambulavam
política decorrente dos cargos que ocupavam. Como consequência, a
pela cidade, e em algum momento passavam na Praça Onze”
distribuição
(FENERICK, 2002, p.108). Lembrando que, essa última, era região
privilegiadamente o universo erudito em prejuízo ao universo das
considerada subúrbio, embora estivesse sua localização próxima à
artes populares. Em algumas ocasiões, o financiamento fomentado
região central da capital federal.
pelos mecenas da alta arte, se direcionava para as manifestações
das
verbas
estatais
para
as
artes
atendia
A separação entre as zonas suburbana e central do Rio de
populares, “sobretudo no inicio da década de 1920, quando as
Janeiro obedecia às transformações espaciais provenientes da
instituições como o rádio ainda apresentavam uma atividade
política de modernização que formataria uma sociedade civilizada
incipiente” (FERNANDES, 2010, p. 28).
aos moldes capitalistas. Entenda-se que, naquele momento, o
A aproximação entre elementos expressivos eruditos e o
significado da lógica capitalista-industrial era aderir ao mundo do
universo popular se desenrola desde o século XIX como atividade de
trabalho assalariado, instaurando novas modas e comportamentos e
criação dos mediadores. Peter Burke (1989) atribui aos mediadores
intensificando
da Europa moderna, a exemplo dos escritores, advogados e frades o
a
circulação
da
produção
(ABREU,
2003;
FENERICK, 2002).
contato com a cultura popular decorrente das atividades que
Nesse contexto, o samba já contava com aproximação entre os
exerciam, da mesma maneira, os livretos populares e a literatura de
grupos negro-mestiços e frações da população intelectualizada. As
folhetos faziam circular informação para uma parte população
mediações eram, então, estabelecidas num processo de aproximação
letrada de determinadas regiões.
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A grande tradição era transmitida formalmente nos liceus e universidades. Era uma tradição fechada, no sentido em que as pessoas que não freqüentavam essas instituições, que não eram abertas a todos, estavam excluídas. A pequena tradição, por outro lado, era transmitida informalmente. Estava aberta a todos, como a Igreja, a taverna e a praça do mercado, onde ocorriam tantas apresentações (BURKE,1989, p. 54-55).
Para o autor esses mediadores orientaram uma coexistência
a expansão dos meios de comunicação como o rádio. Este, agora,
entre grande e a pequena tradição 4, fato fundamental da vida cultural
contava como nova tecnologia permitindo melhor irradiação das
e para compreensão da relação entre as influencias exteriores à
ondas sonoras para maior número de cidades.
comunidade. Fernandes (2010), Reis (2003) argumentam que a
A recepção das ideias sobre cultura de massa no Brasil é
orientação dos artistas e intelectuais em direção ao um
datada nos anos sessenta e teve como principal referência as
estreitamento, seleção e elevação das formas e dos agentes populares
concepções da chamada Escola de Frankfurt 5. No que diz respeito à
com coisas nossas seria uma influência externa ao contexto
problemática da cultura de massa, os frankfurtianos inserem esse
brasileiro.
assunto na formulação da indústria cultural. O emprego desse termo
5
O termo Escola de Frankfurt designa o conjunto de intelectuais que fizeram parte do Instituto de Pesquisa Social, fundado em 1923 em Frankfurt, e que tem em comum a proposta e o desenvolvimento de uma teoria crítica das modernas sociedades capitalistas, que se desdobra em três eixos temáticos principais: 1) a dialética da razão iluminista e a crítica da ciência; 2) a dupla face da cultura e a discussão da indústria cultural; 3) a questão do Estado e suas formas de legitimação. Dentre seus representantes podemos destacar: Theodor Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Eric Fromm, entre outros. .
É possível pensar um campo de profissionais formados por
foi utilizado para caracterizar a cultura produzida para o consumo de
compositores, cantores e musicistas populares já na década de 1930;
massa, por meio de um processo de mercantilização, tornando valor
esses, bem poucos, sobreviviam com a renda da sua arte, contudo,
de troca os ideais de felicidade, humanidade e justiça. Nesse sentido,
pessoas como Donga, Cartola, Jacob Bandolim retiravam a renda
o produto cultural integrado à lógica do mercado e das relações de
das suas sobrevivências de atividades externas ao mundo musical.
troca deixa de ser “cultura” para tornar-se valor de troca (FREITAG,
O samba apesar de sua desconfortável origem galgaria espaço
2004).
de prestígio, pelo menos em relação ao choro, nas estruturas
No caso brasileiro, a indústria cultural se consolida no
comerciais da música, sintetizado junto ao projeto de estado
momento em que as forças da modernidade já se encontram
nacional. A consolidação de uma sociedade urbano industrial a partir
alicerçadas, e a questão do popular acomodada aos projetos “das
da década de 1940 coincide com a constituição de uma cultura de
elites artístico-culturais de sintonizar o país com o “relógio” da
massa: “A expansão da indústria, o processo crescente da
modernidade (FARIAS, 2000, p. 20)”. A década de 1940 é marcada
urbanização, o alargamento da classe operária, aliados ao advento da
para Ortiz (2001) como o período de expansão dos centros
burocracia que gerou novas formas de controle gerencial, o
produtores de bens culturais através do rádio, cinema, jornais e
desenvolvimento do setor terciário” (ORTIZ, 2001, p. 39) impeliram
revistas. O aumento do número de leitores proporcionado por
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Ver conversa entre a cantora Marisa Monte e as pastoras da Velha Guarda de Portela no DVD Mistério do Samba (2008).
de 25 milhões em 1972 para 64 milhões em 1979, o que fortalecia as filiais das multinacionais aqui instaladas, lhes dava mais autonomia e colaborava para a diversificação dos lançamentos (p. 128).
políticas de alfabetização em massa, tendo como objetivo a redução do exorbitante número de analfabetos e encaminhar esse contingente populacional ao mercado de trabalho e ao consumo, como estratégia de fortalecimento do mercado interno, formam os fatores preponderantes para a expansão da cultura de massa.
De fato, foi também nesta época que diversos sambistas conquistaram espaços privilegiados no mercado de música. A
A chegada da televisão nos anos de 1950 alavanca os
procedência era variada; os festivais com no caso de sambistas como
empreendimentos culturais de cunho empresarial para o mercado.
Beth Carvalho, Paulinho da Viola e Martinho da Vila se tornaram
Não desconsideramos a ineficiente profundidade da modernização
artistas nacionais gozando de ótimo prestígio junto aos meios de
para um mercado de cultura na sociedade brasileira nesse momento,
comunicação e com excelentes vendagens de discos; outros com os
pois somente alguns setores foram diretamente atingidos com esses
lendários fundadores das escolas de samba que já atuavam em rodas
valores: “O reflexo dessa debilidade aparece no campo da
e casas noturnas, tais como Cartola, Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, a
profissionalização das atividades culturais que sofria com ausência
Velha Guarda de Portela, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira, Nei
de regulamentação agravada com a fraca penetração de sua
Lopes, entre muitos outros com Clara Nunes e Alcione que
produção na população” (ORTIZ, 2001, p. 45).
conseguem posição junto a esse time representando o samba na
Segundo Renato Ortiz (2001), até a década de 1970 o mercado
indústria fonográfica (NAPOLITANO, 2005; TROTTA, 2006).
brasileiro de bens culturais era ainda incipiente, mas havia espaço
As mulheres compositoras de samba foram apresentadas ao
para uma diversidade estética muito maior do que nas décadas
público a partir da década de 1970, com as pioneiras, Dona Ivone
seguintes. Por isso, foi possível nesta época o lançamento nacional
Lara e Leci Brandão. Em épocas anteriores residia o discurso que o
de determinados grupos de “talentosos” com grande destaque nos
fazer samba não era coisa para mulher, a posição ocupada por elas
meio de comunicação:
era o da cozinha.6 O mercado brasileiro sob a égide da expansão ao progressivo aumento do consumo de disco que passa
Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
O samba como as demais expressões artísticas ao se modernizar, aqui nos referimos à adesão, à sistematização do
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Núbia Regina Moreira mercado, a racionalização empresarial, às inovações tecnológicas e
no universo do samba, são os reflexos do sistema no qual as
ao carreirismo profissional, confere aos segmentos masculinos lugar
estruturas são incorporadas nos indivíduos por uma rede de
de reconhecimento e prestígio. Persiste o residual de naturalização
interações de uns com os outros.
da diferença entre os sexos, nos anos 1940, ou sobre a inferioridade
Participar do campo musical requer tomar posse das regras e
das mulheres aplicadas ao domínio da criação musical, produzindo
disposições que aí são mobilizados em forma de habitus, princípios
um imaginário “segundo as quais as mulheres seriam desprovidas de
que orientam a posição dos seus agentes aí inscritos. Portanto, a
gênio, no sentido de uma aptidão inata e de uma disposição natural”
tímida existência das compositoras no campo da produção musical
(CARVALHO,
os
está diretamente relacionada com as estruturas objetivas que se
dispositivos orientadores para as coisas do “espírito”, portanto, os
organizam através dos determinantes de classe, gênero, geração e
aparelhos educacionais cumpriam a função de não cultivar o espírito
raça/cor apresentadas e incorporadas às estruturas subjetivas que no
suprimindo e/ou reduzindo conteúdos que ativassem a criação
exercício
feminina.
autoexcluírem.
2010).
Estariam ausentes
nas
mulheres
não
consciente reproduzem as exclusões ao
se
No mundo do samba, com especial atenção às mulheres
O samba de autoria feminina no amplo espectro do que se
vinculadas a ele, provenientes dos grupos negro-mestiços, elas são
convencionou classificar de música popular brasileira ganha espaço
localizadas no exercício da dimensão do cuidado. A prática do
a partir da década 1970. A partir desse momento, e nos anos
cuidado expandido para todas as dimensões da sociabilidade humana
seguintes, as mulheres compositoras ganharam maior autonomia
determina, o gênero feminino, vetor principal deste exercício.
representando para elas a possibilidade de trabalhar e criar a sua
Quando essa concepção se agrega ao reduzido capital simbólico
independência financeira.
expresso na conjugação de variáveis como renda, escolaridade,
Tomando por base o texto “A dominação simbólica” para
cor/raça, confere desvantagens em relação aos outros estratos
fazer a leitura sobre a posição da produção das compositoras e sua
melhor situados na pirâmide social. Uma das chaves explicativas
inserção no campo do samba, compreendemos que esse espaço de
para compreender a posição secundária das mulheres compositoras,
disposições (habitus) produzidas e reproduzidas, afeta tanto os
Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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Núbia Regina Moreira homens como as mulheres, em particular todas as atividades técnico-
permanências da condição feminina historicamente situada como
rituais, as quais são fundamentadas as estruturas do mercado de bens
ligadas às coisas do doméstico.
simbólicos. De acordo com Bourdieu (1996), em quase todas as
O desempenho dos papéis de tias, pastoras e preparadoras da
sociedades, de todos os tempos, o homem depositou sua autoridade
comida direcionados às mulheres foram subvertidos ao longo do
sobre as mulheres. Por meio da opressão, eles conquistaram o
tempo, propulsionados por fatores como: aumento de acesso ao
direito, culturalmente legitimado de exercerem a violência simbólica
ensino em todas as modalidades, expansão do mercado de trabalho
tanto nos espaços privados quanto nos públicos. A permanência
feminino, participação na esfera pública, distanciamento das tarefas
dessa opressão se explica pelo fato de muitas mulheres se tornarem
domésticas e da reprodução e redução da família devido o uso de
depositárias dessa exclusão.
contra contraceptivos e retardamento do casamento.
Porém, em cada momento histórico podemos inventariar
Mesmo que esses fatores possam ser
empiricamente
esquemas de representação das mulheres por meio da cultura e das
observados com mais acuidade nos setores mais favorecidos, eles
artes, afirmando de diferentes modos a inferioridade de tudo que
chegam a todos os agrupamentos sociais através da circulação
está relacionado com o feminino, mas, sobretudo, os modos como as
desses novos comportamentos por meio das redes de sociabilidade.
mulheres conseguiram criar estratégias e instrumentos para transitar nas lacunas dos possíveis.
Portanto, a produção da composição de autoria feminina se insere no campo musical a partir das possibilidades de objetivação
As motivações e as formas como essas mulheres conseguiram
da sua obra. As movimentações históricas, econômicas e simbólicas
construir seu “nome” como compositoras estão articuladas com os
no sentido de adesão aos novos agentes imprimem o aparecimento
novos arranjos que se impõem sobre elas, e sobre os espaços que
da singularidade, tendo em vista, as disposições previstas e as
ainda permaneciam restritos as suas participações. Com novos
posições requeridas para a constituição do reconhecimento do
arranjos, queremos nomear todas as inovações decorrentes da
músico.
modernização brasileira, em todas as suas dimensões, política, econômica e cultural, para assim olhar através da lente do samba as Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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Núbia Regina Moreira Escola Império, no bairro de Madureira, representada por Aniceto
2. O pioneirismo de D. Ivone Lara
Menezes e Silva Jr.(1912-1993), Mano Décio da Viola (1909-1984) 7
Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S) Império Serrano.
Podemos comparar D. Ivone Lara à Chiquinha Gonzaga dos anos 1940, porque, como Chiquinha, também transitava entre dois
e Silas de Oliveira (1916-1972), que passariam serem mais tarde seus parceiros em algumas composições.8
8
Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, juntamente com Antônio dos Santos, (Mestre Fuleiro), Sebastião de Oliveira (Molequinho) e Tio Hélio são os fundadores da Escola de Samba Império Serrano em 1947. Aniceto dividia suas atividades do samba com as de estivadores no Porto do Rio de Janeiro, ganha o cargo de orador da escola de samba Império Serrano a e consagrou-se como grande partideiro imbatível e reconhecido como tal o. D. Ivone Lara sobre declarava sobre ele: quem ouve Aniceto cantar um partido alto, não esquece sua raiz. “É nosso professor, para mim ele é um parente”.
mundos. Explico-me, Ivone nasce numa família pobre, cuja tradição
Pertencente a uma geração de sambistas e compositores negro-
musical pertencia ao universo do carnaval e do samba, mas como
mestiços dos anos 1940, moradores dos subúrbios cariocas,
fora aluna do internato por mais de dez anos, a aproximação com a
empobrecidos, situado em postos de trabalho braçal, a exemplo do
música erudita se deu durante o período em que estudou num
próprio Aniceto, que era estivador no cais do porto do Rio de
internato, local de aprendizagem de teoria musical com a esposa de
Janeiro, D. Ivone Lara afirmou à pesquisadora Burns (2006) que o
Heitor Villa-Lobos, Lucília Villa-Lobos. Ao mesmo tempo, a sua
fato de ser mulher e negra se constituiu em uma das barreiras
família era composta de sambistas, participantes de festividades e
enfrentadas para o início de sua carreira.
rodas de samba; logo, a sua casa era um reduto do mundo popular. Foi no final da década de 1940, quando as alas de compositores
das
escolas
de
samba
eram
No entanto, D. Ivone nos relembra de uma criação desenvolvida durante a sua fase juvenil:
exclusivamente
Tiê, tié, ollha lá...oxá/ Tiê, tié, ollha lá...oxá/ Passarinho estimado/ Que me deu inspiração/ Dos meus tempos de criança/Guardei na lembrança esta recordação/ Representava para mim/ Carinho, amor e paixão/Lembra do tiê/ Despertou meu coração/A estrela no céu corre/ Eu também quero correr/A estrela atrás da lua/ Eu atrás do meu tié/ Bem que vovó me dizia/Criança, olha lá tome cuidado/ Oxá esse seu passarinho/ Está mal acostumado. (D. Ivone Lara).9
masculinas, que “ela tornou-se a primeira mulher a integrar – com o mesmo poder decisório dos homens – uma ala de compositores de sambas-enredo, da verde-e-branco de Madureira7” (BURNS, 2006, p. 69), momento de início de sua carreira artística, que ainda era dividida com as tarefas domésticas e com o trabalho de assistente social. Aposentada em 1977, somente aos 56 anos D. Ivone Lara começa a se dedicar integralmente ao seu papel de compositora. D.
Para a baluarte do samba carioca, autora de melodia da música
Ivone Lara pertence à geração de sambista que girava em torno da
Tiê-tiê, feita quando ela tinha doze anos, a sua carreira tardia sofre
Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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Núbia Regina Moreira 9
Primeiro samba de partido alto de autoria de D. Ivone Lara e, segundo www.dicionariompb.com.br, escrito aos 12 anos. 10
Em 2011 quando fez 90 anos de idade, dentre os eventos comemorativos, foi lançado o site www.donaivonelara.com.br , projeto que contou com apoio financeiro da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro.
no mundo /Ele faz um discurso profundo /Ele quer ver o bem da favela /Está nascendo um novo líder/No morro do Pau da Bandeira /Está nascendo um novo líder /No morro do Pau da Bandeira /No morro do Pau da Bandeira/No morro do Pau da Bandeira.(Zé do Caroço. Composição de Leci Brandão).
com o favorecimento da ausência de outras compositoras de samba no mesmo período, década de 1970. Momento este do lançamento do long play “Samba Minha Verdade” e “Samba, minha raiz”, do encontro com a compositora Rosinha de Valença e com a intérprete baiana Maria Betânia que gravará o conhecidíssimo “Sonho Meu”,
Filha única de um funcionário público e de uma servente, Leci
samba que rende a D. Ivone Lara o reconhecimento do público
Brandão cresceu nutrindo a consciência de suas origens sociais e
carioca10
familiares. É em casa, no ambiente familiar e na convivência
Desde daí vem seguindo gravando e compondo com o seu
cotidiana que a sambista recebeu as primeiras referências musicais;
mais recente parceiro Bruno Castro. Possui uma geração de
através do gosto musical do pai entra em contato com músicos
herdeiras como Lecy Brandão e, mais recentemente, Telma Tavares,
nacionais como Jamelão, Carmen Costa, Jacob do Bandolim, Elizeth
Ana Costa, Martinália, Nilze Carvalho e Teresa Cristina, dentre
Cardoso, Doris Day, Louis Amstrong, dentre outros. Além de nutrir-
outras.
se de referências musicais negras e internacionais, o gosto musical de Leci Brandão também se direcionava para os ecos da música
3. A guerreira Leci Brandão
produzida em solo nacional. As inovações estéticas da bossa nova, o frenesi da Jovem Guarda e as músicas de protesto frente á ditadura
Lelelelê Lelelelelelelelelê /Lelelelê Lelelelelelelelelê /No serviço de alto-falante /Do morro do Pau da Bandeira /Quem avisa é o Zé do Caroço /Que amanhã vai fazer alvoroço /Alertando a favela inteira /Como eu queria que fosse em Mangueira /Que existisse outro Zé do Caroço (Caroço, Caroço)/Pra dizer de uma vez pra esse moço/ Carnaval não é esse colosso /Nossa escola é raiz, é madeira /Mas é o Morro do Pau da Bandeira /De uma Vila Isabel verdadeira /O Zé do Caroço trabalha /O Zé do Caroço batalha /E que malha o preço da feira/E na hora que a televisão brasileira /Distrai toda gente com a sua novela /É que o Zé põe a boca
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militar, modelaram sua primeira composição de 1964, intitulada “Tema de amor de você” (PEREIRA, 2010, p. 23). Como aluna do curso de Direito na Universidade Gama Filho participa do I Festival de Música dessa universidade em 1970. Apresentou o samba “Cadê Mariza”, obtendo o 2º lugar sendo gravado no seu primeiro disco em 1975. Segundo Pereira (2010), a letra dessa canção sinaliza as predileções poéticas da artista que, no
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Núbia Regina Moreira 11
O Opinião foi um espetáculo criado por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, com direção de Augusto Boal, que entre 1964 e 1975 constituiu-se como foco de resistência ao regime militar. (Cf. PEREIRA, 2010, p. 31).
decorrer da carreira, buscou contar em seu canto histórias e
produtores culturais como, por exemplo, Sergio Cabral. Nessa
cotidiano de gente simples e anônima. A artista também se aproxima
época, além dos sambas românticos, já produzia também alguns com
de alguns fundamentos da canção engajada.
letra politizada como, por exemplo, “Deixa pra Lá”, que chamou
Em 1972 é aceita à Ala de Compositores do Grêmio
atenção do grupo ligado ao show Opinião 11. Este foi parte de uma
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Recreativo Estação Primeira de Mangueira, mobilizando um
série de shows apresentados na mesma zona sul com e mesmo nome,
deslocamento no campo de ordem geracional, gênero e racial ao ser
retratando a visão de parte da classe média identificada com os
a primeira mulher a ingressar nesse famoso reduto masculino por
princípios da esquerda política de então, que tinham na figura do
agregar nomes já consagrados como os de Cartola, Nélson
“povo”, na valorização e na educação deste, um dos seus meios para
Cavaquinho, Nélson Sargento e Carlos Cachaça. A partir de então,
a transformação social.
Recebe a denominação hoje de Prêmio Tim que, desde 1987, premia a música popular brasileira nas suas várias vertentes.
se dedica integralmente ao samba participando das iniciativas da I e
O ano de 1973 marcou o início efetivo da profissionalização
II Bienal do Samba, nas edições em que acontecem entre 1968-1971,
de Leci Brandão, com o convite feito pelo jornalista Sérgio Cabral
espaço para o fomento e reverência ao gênero na música popular. A
para integrar justamente o elenco fixo dos shows no Teatro Opinião.
proposta das bienais era possibilitar a alguns representantes da velha
Em 1989, ela participou do Festival MPB-Shell promovido pela
geração do samba, afastada da mídia e da indústria cultural musical
Rede Globo, conseguindo levar sua composição Essa tal criatura à
à época, colocar-se diante de um novo público através da mídia
finalissíma do evento, realizada no Ginásio do Maracananzinho. Nos
televisiva como foi o caso de Ismael Silva, Donga, Ataulfo Alves,
anos 1990, Leci já reunia nove discos gravados, dois prêmios
Adorinan Barbosa.
Sharp12, um disco de ouro e uma carreira que se solidificava a partir
A participação na ala dos compositores da Mangueira, cujo
da opção e maturidade da artista em fazer da música seu principal
posicionamento geográfico próximo à zona sul, área nobre da
veiculo de expressão na televisão e no rádio, onde atuou em
cidade, em relação às outras agremiações, ao lado da articulação
programas ligados ao samba e ao carnaval no Rio de Janeiro e São
com os segmentos sociais hegemônicos da sociedade carioca,
Paulo.
permitiu a Leci Brandão maior visibilidade e contato com os Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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Núbia Regina Moreira Para além dos discos e dos shows, Leci Brandão construiu
reproduzem a opressão. Durante a realização de nossa pesquisa
uma imagem de cantora politizada, por se vincular as temáticas de
constatamos que D. Ivone Lara e Leci Brandão construíram um
interesse da população negra, não possuía até 2010 nenhuma filiação
legado ao se tornarem referências para as novas gerações de
partidária e nem inserção nos movimentos negros. Sua militância
compositoras.
tem se expressado na defesa do samba e das agremiações do samba
Tornaram-se, assim, mobilizadoras de renovações estéticas
como patrimônio da comunidade, em oposição aos diferentes
do estilo musical em questão, o samba, assim como através dos seus
aspectos da modernização das escolas que resultaram especialmente
itinerários deslocaram preconceitos e hierarquizações profissionais.
na exclusão de seus antigos integrantes em favor de novos
Contribuíram, cada uma no seu tempo, para a elevação do samba
personagens, mulheres e homens das classes sociais mais abastadas.
como gênero musical e, ao mesmo tempo, suas conquistas foram
(WERNECK, 2007)
potencializadas em direção da abertura de novos caminhos para trabalhos autorais de outras mulheres.
Considerações finais Referências Bibliográficas Pouco ainda se fala da mulher compositora no universo da música. Esse espaço como ficou constatado na nossa pesquisa ainda
ABREU, M. Da habitação ao habitat: a questão da habitação popular no Rio de Janeiro e sua evolução. Revista Rio de Janeiro, nº 10, mai-ago, 2003.
pertence aos homens, sendo a elas relegadas no mundo do samba a interpretação, “tias’’, “pastoras”, responsáveis pela comida e
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organização da festa. Estão imersas nos papéis secundarizados, porque a composição é o espaço do poder.
BOURDIEU, P. As Regras da Arte: gênese e estrutura do campo literário. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Espaço da afirmação da autoria na esfera pública, onde a dominação masculina se inscreve nas estruturas cognitivas e
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corporais tanto de homes e mulheres que inconscientemente Dossiê Expressões Artísticas e Mulheres Arquivos do CMD, Volume 2, N. 2. Jul/Dez 2014
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