Júlio Cesar Valente Ferreira
O Diálogo entre Modos de Fazer e Modos de Impor: o desafio da fronteira entre arte e engenharia nos carros alegóricos do carnaval carioca* *
Recebido em: 05.06.2017. Aprovado em: 17.10.2017
** Doutor em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2018). Atualmente, é Professor Adjunto do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, onde coordena o curso de Engenharia Mecânica no campus Nova Iguaçu, Líder do Grupo de Pesquisa Produção e Economia de Comunhão e Coordenador Científico do Encontro de Engenharia no Entretenimento. Email: jcvferreira@hotmail.com
The Dialogue Between Ways of Making and Ways of Imposing: the challenge of the frontier between art and engineering in the carioca carnival floats Júlio Cesar Valente Ferreira**
Resumo – O objetivo do presente trabalho é discutir a relação entre arte e engenharia através da produção dos carros alegóricos para o desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro. A partir dos acidentes ocorridos em 2017, há uma tentativa dos órgãos de padronização em estabelecer normas para a produção dos carros alegóricos. Desta forma, observo um conflito entre os modos de fazer já consagrados nas escolas de samba e os modos de impor, característicos de uma norma técnica. Estas observações são debatidas no artigo e suportadas pelo resultado de pesquisas orientadas pelo autor e sua participação nos eventos já realizados sobre a confecção das normas em questão. Palavas-chave: Carnaval; escolas de samba; carros alegóricos; engenharia; normas técnicas.
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Abstract – The aim of the present work is to discuss the relationship between art and engineering through the production of the allegorical floats for the parade of samba schools in Rio de Janeiro. From the accidents occurred in 2017, there is an attempt by the standardization offices to establish technical standards for the production of allegorical floats. In this way, I observe a conflict between the “ways of doing” already consecrated in the samba schools and the “ways of imposing”, characteristic of a technical standard. These observations are debated in the article and supported by the results of research directed by the author and his participation in the events already held on the elaboration of the technical norms in question, Keywords: Carnival; samba schools; allegorical float; engineering; technical standards.
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As principais escolas de samba (pertencentes às duas primeiras divisões hierárquicas, sendo a mais distinta conhecida como Grupo Especial) desfilam no Sambódromo, na região central da cidade, em local permanente construído pelo poder público. As escolas de samba dos demais grupos (aqui denominadas como escolas de samba dos últimos grupos de acesso) apresentando-se todas deste caso, nos últimos anos, na Estrada Intendente Magalhães, pista provisória de desfile montada pelo poder público e afastada da região central do município
de preceitos organizativos que balizaram a preparação do desfile
Considerações iniciais
como tempo de apresentação, quantidade de desfilantes, número de Vislumbrando o desenvolvimento e o crescimento do
carros alegóricos, número mínimo de integrantes em alas
desfile das escolas de samba1 ao longo das décadas até se
obrigatórias, dentre outros que são especificados no regulamento da
transformar na principal atração do carnaval carioca, estas
competição, o qual pode variar anualmente (CAVALCANTI,
agremiações estabeleceram (e continuam operando da mesma
2006). Entretanto, há outro componente nesta equação quando se
forma) relações com os poderes públicos. Este tipo de
trata das escolas de samba que desfilam no Sambódromo, a qual é a
relacionamento implicou na acumulação de capital social, porém
adaptação às imposições tecnológicas da mídia televisiva e do
em discursos e práticas que não permitem avaliar as escolas de
mercado publicitário (LOPES, MALAIA e VINHAIS, 2009).
samba simplesmente como ferramenta de domesticação das massas,
No interior deste contexto explanado acima, e considerando
conforme afirma Queiroz (1992), bem como tipificar uma crítica
a adição de mais atores sociais no processo produtivo destes
totalizante de comercialização dos desfiles e de uma infiltração das
desfiles, este artigo mais especificamente trata da inserção dos
classes dominantes no que seria uma manifestação legítima das
profissionais da engenharia (ou dos princípios que regem tal área
classes populares (SILVA, 2007).
de conhecimento e todas as suas potencialidades e debilidades) no
Observa-se que, em Augras (1993), a afirmação de que o
processo produtivo dos carros alegóricos. Em outros setores da
processo de negociação empreendido pelas escolas de samba, mais
produção do desfile, ferramentas do universo da engenharia são
que uma simples submissão aos poderes públicos e às classes
adotadas com mais frequência e intensidade, principalmente
dominantes expressou um comportamento pragmático destas
quando o viés se volta para a área de gestão, nicho onde se
agremiações para sua expressão, expansão e reconhecimento por
concentra praticamente toda (e pouca) produção das áreas de
parte da cidade. Conforme analisado por Fernandes (2001), as escolas
conhecimento relativas às engenharias, administração, economia e
de samba agiram de forma consciente e autônoma no direcionamento de
ciências contábeis.
sua manifestação carnavalesca ao imaginário da identidade nacional brasileira como forma de obter legitimidade política e cultural.
Engenharia e carnaval: uma relação pouco estruturada
Por fim, ao assumirem um princípio ordenador para que seus desfiles possuam caráter de espetáculo sob um manto de
Nesta parte do texto, objetiva-se contextualizar as
competitividade, as agremiações carnavalescas adotaram uma série
aproximações realizadas no âmbito do meio acadêmico relativo às
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Panorama diferente foi encontrado em outras áreas de avaliação da CAPES como antropologia, artes, comunicação, história e sociologia. Esta produção científica é impulsionada a partir da década de 1970, mas que neste artigo não será alvo de análise no intuito de não ampliar em demasia o escopo deste artigo.
engenharias (ampliando para englobar as áreas de administração,
aproximar o processo produtivo dos barracões com aqueles
ciências contábeis e economia por conta de suas conexões com a
verificados nos ambientes tradicionais dos setores secundários e
engenharia de produção) para a pesquisa aplicada ao carnaval, mais
terciários da economia, de acordo com o modelo paradigmático à
especificamente aos carros alegóricos. Por exemplo, a consulta ao
época, como o sistema japonês de produção (SOUZA, 1988), as
banco de teses da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de
normas editadas pela ISO (International Organization for
Pessoal de Nível Superior) mostra o ambiente rarefeito de trabalhos
Standardization), voltadas à qualidade de produtos e serviços
destas áreas2 (GONÇALVES et al., 2015).
(PALMEIRA FILHO, 1996), e os padrões de gerenciamento de
Estabelecendo o contorno para o carnaval das escolas de
projetos preconizados pelo Project
Management Body of
samba do Rio de Janeiro (o primeiro a ser considerado objeto de
Knowledge Guide and Standards (PMBOK), formulado pelo
estudo científico), a produção acadêmica se configura em sua
Project Management Institute (PMI) (REGO E MELO, 2008).
maioria por estudos exploratórios e explicativos com o objetivo de
Para Lopes, Malaia e Vinhais (2009), o sucesso dos desfiles
conhecer e compreender o universo em questão, a partir de
das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro foi devido a um
paradigmas próprios, os quais são idealizados como promotores de
modelo de gestão que se adequou às radicais mudanças com
uma suposta modernização da gestão destas agremiações,
administração
estabelecendo recomendações e procedimentos a serem seguidos
interdependentes e integradas. Para Oliveira (2009), o mundo do
pelas escolas de samba no intuito de se enquadrarem em requisitos
carnaval possui um viés mais lúdico e romântico que aquele
e diretrizes calcados em normas ou práticas consagradas nestes
classicamente visualizado em ambientes fabris, identificando então
campos de conhecimento.
grande resistência para adoção de princípios econômicos no
Não cabe a este artigo escrutinar todos os trabalhos sobre as
com
funções
descentralizadas,
participativas,
gerenciamento deste tipo de empreendimento em face do risco de
tentativas de diálogo destas áreas com o carnaval (quem sabe em
se limitar a intervenção artística e a qualidade do espetáculo.
um posterior trabalho com uma revisão literária desta produção, a
A questão aqui seria a seguinte: o que escolas de samba
qual já avança para outros carnavais fora do Rio de Janeiro...).
pensam sobre o assunto? Estas escolhas não foram planejadas e sim
Porém, atrelada a uma série de preceitos organizativos que balizam
frutos do viés pragmático das ações destas agremiações em busca
a preparação do desfile, envolvendo sua preparação e execução,
do objetivo que realmente é considerado importante para elas – a
teorias e ferramentas oriundas das áreas de conhecimento citadas
conquista do título de campeã ou o acesso a categorias superiores
nos parágrafos anteriores têm sido utilizadas na tentativa de
na divisão hierárquica destas agremiações. O discurso sobre gestão
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Merece destaque o trabalho do Observatório de Economia Criativa, da Universidade Fluminense (UFF), o qual realiza uma pesquisa de grande fôlego voltada para os blocos de rua do Rio de Janeiro.
e modernização soa como uma forma de legitimar, através de um
ditames
da
norma,
porém
produzindo
um
desfile
que,
código comunicacional que transparece valores como “evolução” e
indubitavelmente, agregava valores de qualidade ao satisfazer os
“profissionalização”, mas que em seu cerne ainda compreende uma
interesses dos clientes. Aqui, verifica-se um descompasso entre
série de práticas típicas do mundo das pessoas ao contrário do
aquilo que é considerado referencial como marco legitimador para
mundo dos indivíduos, conforme conceito estabelecido por
as engenharias e áreas correlatas e para as escolas de samba,
DaMatta (1997) e constatado, por exemplo, por Lobo et al. (2013)
reproduzindo uma dualidade entre modos de impor / modos de
em estudo de caso em duas escolas de samba (uma pertencente ao
fazer. Enquanto as escolas de samba preocupam-se com os modos
Grupo Especial e outra à Série C).
de fazer para confeccionarem um desfile capaz de buscar as
Infelizmente, a quase absolutalidade destes trabalhos é
primeiras posições no desfile competitivo, as engenharias se
descontinuada, tendo como uma das causas serem produzidos em
arvoram de normas e procedimentos para impor uma visão de um
instituições ou grupos de pesquisa não voltados atualmente ao
modo de produção, o qual estaria relacionado diretamente a uma
carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro (e, isto, mesmo
melhora de performance no desfile, resultando nas mesmas
ampliando o escopo para outras manifestações carnavalescas)
possibilidades de participação nos certames, porém com valores
nessas áreas de avaliação já citadas anteriormente3. Hoje, somente
agregados oriundo da racionalidade cartesiana.
o Grupo de Pesquisa “Produção e Economia de Comunhão”,
Uma ressalva importante é que se verifica em grande parte
liderados por docentes do Centro Federal de Educação Tecnológica
destes trabalhos (baseados em um trabalho de campo, quando
Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) e da Universidade Federal
ocorre, que se resume a poucas visitas ao barracão com a realização
do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), possui linha de pesquisa
de observação participante e entrevistas com trabalhadores) um
ativa, e com produção nas áreas das engenharias, voltada ao
olhar
carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro.
carnavalescas, alegando que as mesmas conseguem produzir um
Por fim, cabe ressaltar um caso, no mínimo curioso,
generoso
e
encantado
para
com
as
agremiações
espetáculo grandioso em condições não consideradas ideais
apresentado por Palmeira Filho (1996) que, ao enquadrar a
(segundo
produção do desfile de uma escola de samba aos requisitos do
basicamente, adotam o recorte das escolas de samba da principal
conjunto de normas ISO 9000 (referência sobre os padrões a serem
divisão hierárquica (hoje, podendo alargar esta base para as escolas
adotados para a fabricação de produtos ou prestação de serviços),
de samba da Série A, fechando em definitivo o contorno que abarca
constatou que a agremiação pesquisada seria reprovada segundo os Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 142
os
parâmetros
dos
pesquisadores).
Além
disto,
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a totalidade das agremiações que desfilam no Sambódromo) como
resultados da utilização de procedimentos comuns à prática e à
válido para as escolas de samba dos últimos grupos de acesso.
pesquisa em engenharia e o diálogo passível de ser promovido
Por fim, importante destacar que uma questão fundamental
sobre o projeto e a montagem dos carros alegóricos.
para se entender os desfiles das escolas de samba e tudo aquilo que torna
o
espetáculo
possível
é
sua
dimensão
agonística
a) Regulamentação para os carros alegóricos
(CAVALCANTI, 2006). Isto inverte as prioridades dos processos produtivos nas escolas de samba, pois o importante não é a
Em linhas gerais, um carro alegórico é um elemento
objetivação de lucro financeiro e o caráter competitivo de
alegórico de um desfile baseado em uma estrutura metálica
exposição do produto com valores agregados diferentes das demais
(estrutura treliçada tridimensional confeccionada por tubos de aço)
agremiações para a conquista de mercados. No universo das escolas
suportada por um chassi de caminhão (Figura 1), o qual sofrerá
de samba, o importante é vencer a disputa, o campeonato, e/ou
modificações como o aumento da dimensão de ponta de eixo e da
ascender de divisão. Desta forma, revela-se a busca forçada de
inserção de estruturas metálicas laterais suportadas por rodízios
modelar e traduzir este universo carnavalesco em padrões
(denominados também por rodas malucas) no intuito de elevar a
formatados pelas engenharias e outras áreas de conhecimento
volumetria da alegoria, além de alterações no sistema de suspensão
colaterais, sem estabelecer um diálogo mútuo, considerando uma
para suportar o peso estimado. Ao longo da produção destes carros
dualidade do tipo arte / engenharia, alerta este encontrado no
são realizadas as etapas de ferragem (inserção das estruturas
trabalho de Lampel et al. (2009).
metálicas), marcenaria, inserção de esculturas, pintura, adereçaria e as instalações tecnológicas de efeitos de luz e movimentos. Para
Carros alegóricos: regulamentação e requisitos de
mais detalhes sobre cada uma das etapas, recomendo a leitura da
engenharia
publicação de Cavalcanti (2006), a qual promove este detalhamento através de uma abordagem etnográfica.
Nesta parte do artigo, a atenção será destinada à produção dos carros alegóricos e suas áreas de contato com a regulamentação e os requisitos que dialogam com a engenharia, adotados pelos órgãos públicos nas ações de fiscalização e de liberação dos carros alegóricos para o desfile. Neste item, também serão mostrados Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 143
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Figura 1 – Exemplo de um chassi de caminhão utilizado nos carros
(vii) - Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) – documento
alegóricos
emitido por engenheiro habilitado e regularizado no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) contendo dados do contratado, do contratante e do objeto do contrato, isto é, as informações dos serviços a serem realizados – dos serviços de distribuição de energia elétrica de baixa tensão, serviço de iluminação e ART de grupos geradores; (viii) – ART de montagem das estruturas do carro alegórico; (ix) – ART específica de teste de carga dos carros alegóricos, bem como o memorial descritivo conclusivo aprovando as estruturas para o fim declarado, contendo fotos do carregamento no local;
Fonte: Campos (2015)
(x) - Nota fiscal de compra ou aluguel de extintores na quantidade
Atualmente, a única regulamentação existente é emitida
de: 01 extintores de AP de 10 litros, 01 extintor de PQS de 06 Kg e
pela Diretoria de Diversões Públicas do Corpo de Bombeiros do
01 extintor de CO2 de 6 Kg (por carro alegórico);
Estado do Rio de Janeiro. Baseados na Resolução no 108, de 06 de
(xi) - Certificado de garantia de ignifugação (revestimento que
janeiro de 1993, hoje, os seguintes documentos exigidos para a
retarda a chama por fogo e sua propagação) de carpetes, tecidos,
autorização dos carros alegóricos a desfilarem são:
cortinas, cenografias e materiais decorativos construídos com
(i) - Requerimento padrão;
material de fácil combustão;
(ii) - Comprovante de pagamento da taxa devida (DAEM cód.
(xii) – Uma planta de cada carro alegórico em escala ou cotada
901);
(padrão ABNT) assinada por engenheiro ou arquiteto responsável,
(iii) - Documento especificando a data, horário e quantidade de
com a localização de cada gerador – sendo que um exemplo deste
pessoas sobre cada carro alegórico;
tipo de planta, oriundo de uma escola de samba do Grupo Especial
(iv) - Cópia do contrato social da agremiação;
é apresentado na Figura 2;
(v) - Instrumento de procuração outorgando poderes ao requerente; (vi) - Cópia da carteira de identidade do responsável;
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Figura 2 – Planta baixa de carro alegórico
(xiii) - O requerente deverá requerer autorização com antecedência mínima de 08 (oito) dias úteis da data prevista do evento; No caso da atuação do Crea, a fiscalização ocorre somente para fins de verificação da atuação dos profissionais que atuam nesta produção, no intuito de cumprirem as diretrizes estabelecidas pelo Corpo de Bombeiros, a partir da conferência dos dados da ART emitida pelo engenheiro e comparação da formação do mesmo com as competências requeridas para a realização das atividades descritas no documento. Os itens vii, viii, ix e xii (este já exemplificado na Figura 2) são relativos ao projeto e montagem dos carros alegóricos. Apenas não abordarei o item vii pelo fato do mesmo demandar competências de engenheiros elétricos, sendo que, no momento, o Grupo de Pesquisa Produção e Economia de Comunhão possui produção na área de projeto e montagem do carro alegórico em seus aspectos mecânicos. No caso do item ix, a exigência de memorial descritivo conclusivo aprovando as estruturas para o fim declarado, contendo fotos do carregamento no local, apenas contempla a resposta estática da estrutura, isto é com o carro alegórico em repouso e carregado. A execução de teste de carga pode ser promovida através da combinação ou não de: (i) aplicação de cargas concentradas ou distribuídas com verificação da integridade estrutural ao se cessar o carregamento; (ii) monitoramento computadorizado em tempo real das tensões e deformações na estrutura quando a mesma for carregada;
Fonte: Acervo do Autor Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 145
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(iii) aplicação de ciclos de carregamento e descarregamento para
No trabalho de conclusão de curso orientado por este
avaliar a resistência da estrutura à fadiga de alto ciclo, isto é,
escriba, tendo como estudo de caso as escolas de samba dos
sistema de medição, aplicação e alívio de carga
últimos grupos de acesso, Campos (2015) simulou este teste de
Para as demais formas de carregamento, principalmente
carga computacionalmente através do método de elementos finitos,
aqueles oriundos do esforço dinâmico, basta o engenheiro
plotando as tensões que cada tubo sofreria (Figura 3), e também
responsável atestar.
simulou a distribuição da carga (e consequente deslocamento da estrutura metálica) ocorrida caso um ou mais cordões de solda colapsassem (Figura 4).
b) Carregamentos, soldagem e os requisitos de engenharia
Figura 3 – Plotagem das tensões em carro alegórico carregado estaticamente
Fonte: Campos (2015)
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Porém, cabe ressaltar, que estas simulações foram
tubulares soldadas e cortadas com curto comprimento (Figura 5).
realizadas em condição estática. Com a inserção de movimento do
Segundo os trabalhadores, tratava-se de partes de estruturas
carro alegórico e dos componentes sambando, a modelagem se
adotadas em anos anteriores, que eram seccionadas. Com isto,
torna extremamente complexa, o que demanda mais tempo de
incrementa-se a possibilidade de se gerar regiões onde trincas
pesquisa, ainda não sendo possível apresentar resultados para esta
podem surgir e se propagarem, comprometendo a integridade
condição.
estrutural do carro alegórico.
Figura 4 – Deslocamento da estrutura metálica de em carro
Figura 5 – Parte de um carro alegórico após sua desmontagem
alegórico após colapso de um cordão de solda da parte dianteira
Fonte: Campos (2015) Em outro trabalho de conclusão de curso orientado por este escriba, para as mesmas escolas de samba, Costa (2014) realizou ensaios não destrutivos por líquido penetrante, além de acompanhar o processo de desmontagem do carro alegórico confeccionado para
Fonte: Costa (2014)
o carnaval anterior e a fabricação daquele que seria utilizado no desfile seguinte, operação esta realizada sobre o mesmo chassi.
Em segundo lugar, justificando que, ao mesmo tempo
Considerando os resultados obtidos, quatro questões importantes
outros serviços eram realizados na estrutura e para que as pessoas
foram pontuadas.
não se ferissem ao ter contato com a estrutura momentaneamente
Em primeiro lugar, o processo de desmontagem revelou que
aquecida, o cordão de solda era imediatamente resfriado com água
a estrutura do carro alegórico continha uma série de seções Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 147
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(Figura 6). Esta operação é extremamente maléfica à integridade estrutural do cordão de solda e, consequentemente, da estrutura
Em terceiro lugar, há a questão dos resultados apresentados
como um todo, pois o cordão fragiliza-se com o surgimento de
pela inspeção visual e pelo ensaio por líquidos penetrantes. Antes
trincas (e posterior propagação) (um exemplo de trinca em cordões
de qualquer ensaio, a inspeção visual pode ser suficiente para
de solda é ilustrado na Figura 7), podendo colapsar e sobrecarregar
considerar o cordão de solda com descontinuidades de tal
a estrutura com o carregamento não mais suportado pela parte da
magnitude, as quais ultrapassam o limite estabelecido por norma ou
estrutura que não mais se encontra unida às demais.
procedimento estabelecido por inspetor de soldagem. Considerando
Figura 6 – Resfriamento brusco de cordão de solda por água
as norma da AWS (American Welding Society), referência para ensaio visual, os cordões ensaiados mostrados na Figura 8 seriam reprovados e haveria a necessidade de retrabalho. Figura 8 – Ensaio visuual em cordões de solda em carros alegóricos
Fonte: Costa (2014) Figura 7 – Trinca em um cordão de solda
Fonte: Costa (2014)
Porém, optou-se também por realizar o ensaio por líquido penetrante e, mesmo considerando a norma genérica da ASME (American Society of Mechanical Engineering) (pois, para cada ensaio não destrutivo existe uma hierarquia de inspetores que, a partir das normas gerais e das demandas específicas às quais o Fonte: Costa (2014) Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 148
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produto deve atender, as exigências de aceitação dos cordões de
qualidade e segurança (no caso, o desfile). Por fim, destaca-se, a
solda elevam-se), confirmou-se a reprovação de todos (Figura 9).
partir destes exemplos, o questionamento de padronizar uma
Figura 9 – Ensaio por líquido penetrante em cordões de solda em
produção a partir de uma norma, a qual tem suas condições de
carros alegóricos
contorno bem estabelecidas, a qual não leva em consideração estas questões específicas citadas anteriormente. A seguir, nas duas próximas seções do artigo, dedicar-me-ei a breves experiências que vivenciei entre os meses de setembro de 2017 e janeiro de 2018 relacionadas aos carros alegóricos, quando este debate entre modos de fazer e modos de impor tornou-se mais intenso e tensionado devido aos acidentes em carros alegóricos durante os desfiles de 2017. Inicialmente, abordarei as iniciativas promovidas por órgãos de normatização e certificação de qualidade no tocante a um possível regramento sobre o projeto e montagem
Fonte: Costa (2014)
dos carros alegóricos. Posteriormente, o foco será as visitas aos barracões onde são produzidos os carros alegóricos do Grupo
Considerando este panorama, estes carros alegóricos não
Especial.
deveriam desfilar, pois a probabilidade da estrutura ruir seria enorme, considerando os padrões referenciais da engenharia. No
Primeira pequena etnografia: os carros alegóricos sob os princípios da normatização e da certificação
caso dos parâmetros de soldagem, eles são baseados nos requisitos necessários para tubulações e vasos de pressão.
Inicialmente, diante dos acidentes verificados nos carros
Cabe ressaltar que acompanho o desfile das escolas de
alegóricos preparados para os desfiles das escolas de samba do
samba dos últimos grupos de acesso há mais de dez anos e nunca
Grupo Especial em 2017, órgãos com incumbências de fiscalização
presenciei acidente oriundo de falha estrutural. Desta forma,
– CREA – (G1, 2017), normatização – ABNT – e verificação de
importante destacar a necessidade de um debate sobre estes modos
conformidades – Inmetro – (JORNAL DO BRASIL, 2017)
de fazer verificados nos barracões a partir da realidade destes locais
rapidamente utilizaram-se dos meios de comunicação para informar
e trabalhadores e o atendimento à demanda do uso do produto com
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a segurança do veículo, diz a denúncia, recebida pelo Tribunal de Justiça no último dia 14 de dezembro.’ (O GLOBO, 2018).
que atuariam no intuito de regulamentarem o projeto e a montagem destes produtos. ‘Com o intuito de regulamentar esse tipo de veículo, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) deve reunir, no fim deste mês, todos os agentes envolvidos nos acidentes com carros alegóricos de escolas de samba neste carnaval no Rio de Janeiro. A informação foi dada nesta quarta-feira (28) pelo presidente do órgão, Carlos Augusto de Azevedo. “Com isso, a gente entende que diminui a possibilidade de acidentes, de falhas no material”, afirmou.’ (JORNAL DO BRASIL, 2017)
Sobre o acidente com a alegoria da escola de samba Unidos da Tijuca, o desabamento de uma das plataformas de um carro alegórico ocorreu porque, após seu posicionamento na cota de elevação por um circuito de cilindros hidráulicos, duas das quatro travas mecânicas não teriam sido acionadas. Desta forma, ao interromper a ação dos atuadores hidráulicos, os pinos não suportaram a sobrecarga e colapsaram. Por fim, no caso da escola de samba União da Ilha, o
Antes de seguir com esta pequena etnografia, cabe delinear
problema ocorreu no sistema de direção, quando a caixa de marcha
com mais detalhes aspectos destes quatro acidentes que
do veículo quebrou, alertando para a necessidade da elaboração e
provocaram tal reação destes órgãos.
execução de planos de manutenção preventiva durante a preparação
Dentre os acidentes verificados no ano em questão, somente
dos carros alegóricos.
um pode ser atribuído completamente a problemas de projeto ou
Porém, por questões internas à ABNT (Associação
montagem dos carros alegóricos, ocorrendo com a escola de samba
Brasileira de Normas Técnicas) e ao Inmetro (Instituto Nacional de
Mocidade Independente de Padre Miguel, quando uma destaque
Metrologia, Qualidade e Tecnologia), que não cabem serem
caiu de uma plataforma, cujo cordão de solda que a unia à estrutura
discutidas neste artigo, somente praticamente cinco meses após o
colapsou. Felizmente, a desfilante sofreu escoriações leves.
carnaval foi tomada a primeira providência dentre aquelas
No caso da escola de samba Paraíso do Tuiuti, o Ministério
anunciadas logo após o período momesco. No dia 27 de setembro
Público Estadual (MPE) ofereceu denúncia por homicídio culposo
de 2017, na sede da ABNT, foi instaurada a Comissão de Estudo
contra quatro envolvidos no acidente com a alegoria da
Especial
agremiação. O MPE entendeu que:
de
Carros
Alegóricos
(ABNT/CEE-233),
com
representantes do Inmetro, Crea, ABNT, ligas de escolas de samba
conhecendo as consequências lesivas que poderiam advir da condução do carro alegórico sem qualquer visibilidade para o condutor, os denunciados agiram de forma culposa ao não adotarem as providências necessárias a garantir
(LIESA e LIGASP), ABRINQ (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos) e da indústria automobilística. Além
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procedimentos, padronizar formas, dimensões, tipos, usos, fixar classificações ou terminologias e glossários, símbolos, marcação ou etiquetagem, embalagem, definir a maneira de medir ou determinar as características, como os métodos de ensaio. Usualmente é o cliente quem estabelece a norma técnica que será seguida no fornecimento do bem ou serviço que pretende adquirir. Isto pode ser feito explicitamente, quando o cliente informa a norma aplicável, ou ele simplesmente espera que as normas em vigor no mercado onde atua sejam seguidas. De acordo com o ABNT ISO/IEC Guia 2:2006, convém que as normas sejam baseadas em resultados consolidados da ciência, da tecnologia e da experiência acumulada, visando a otimização de benefícios para a comunidade.’ (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2012, p.32)
destes representantes, englobando as partes envolvidas em uma possível normatização dos carros alegóricos, apenas a presença deste escriba, o qual já deixando clara sua não representatividade totalizante do universo acadêmico que pesquisa o carnaval. Talvez minha condição de engenheiro mecânico tenha movido o convite, mas não posso afirmar em que bases este chamamento foi promovido. Durante esta reunião, os representantes da ABNT e do Inmetro foram muito claros em posicionar que a comissão foi criada no intuito de “dar uma resposta à sociedade” diante dos incidentes ocorridos nos dias de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca. Para eles, esta resposta seria a confecção de normas para o projeto e a montagem dos carros alegóricos e, se necessário, a regulamentação de um programa de
A avaliação da conformidade é um processo sistematizado,
avaliação de conformidade, caso a opção da comissão fosse
com regras pré-estabelecidas, acompanhado e avaliado segundo
estabelecer normas técnicas de requisitos, diferentes das normas de
regramento específico, de maneira a permitir adequado grau de
diretrizes, as quais estabelecem parâmetros de padronização de
confiança de que um produto, processo ou serviço, ou até mesmo
procedimentos, formatos e classificações. Segundo a ABNT
um profissional, atende a requisitos estabelecidos de forma prévia
(2012), a norma é um:
por normas ou regulamentos. A certificação é operacionalizada por
‘Documento estabelecido por consenso e aprovado por um organismo reconhecido, que fornece, para uso comum e repetitivo, regras, diretrizes ou características para produtos, serviços, processos, sistemas de gestão, pessoas, enfim, nos mais variados campos, e cuja observância não e obrigatória. As normas podem estabelecer requisitos de qualidade, de desempenho, de segurança (seja no fornecimento de algo, no seu uso ou mesmo na sua destinação final), mas também podem estabelecer
organismos acreditados pelo Inmetro, os utilizam laboratórios acreditados pelo instituto. Independente do tipo de norma, de requisitos ou de diretrizes, ela estabelece parâmetros, limites, enquadramentos, os quais são modos de impor aos modos de fazer. A norma em si não é lei, mas por força de lei torna-se obrigatória.
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Ao longo da reunião, o debate enveredou para a formação
Por fim, e mais uma vez ressaltando-se a necessidade da
da mão de obra atuante nos barracões das escolas de samba, onde
resposta à sociedade, representantes da ABRINQ e da ABNT
foi citada a possibilidade de um programa de qualificação para
indicaram o presidente da LIESA para assumir a coordenação dos
soldadores. Entretanto, para este que escreve, a questão estava no
trabalhos da comissão, o qual declinou inicialmente da oferta e
fato de que tipo de capacitação estavam tratando, pois minha
solicitou mais tempo para pensar no assunto. Aqui também
experiência de campo permitiu constatar que não se trata de um
considero a inexperiência de todos estes órgãos sobre o projeto e a
universo de amadores ou composto por pessoas que foram
montagem de carros alegóricos, pois o único com certa vivência no
treinadas a repetir operações sem qualquer tipo de apropriação de
assunto é o Crea. Entretanto, cabe destacar que esta entidade
sentido. Pelo contrário, Feijó e Nazareth (2011) mostram que:
apenas realiza ações de fiscalização. Segundo o presidente da seção do Rio de Janeiro:
‘O nível de sofisticação e especialização alcançado pelos profissionais do carnaval leva seus saberes a serem frequentemente absorvidos por outros mercados. Às vezes, essas produções saem de dentro dos próprios barracões (...). Além disso, esse é um universo em contínua renovação, com novas categorias profissionais surgindo ou sendo reposicionadas vez por outra, como tem acontecido com a recente incorporação de mídias digitais nos desfiles.’ (FEIJÓ E NAZARETH, 2011, p. 37).
‘Segundo ele [o presidente], o Crea não fiscaliza a atuação dos engenheiros durante a construção, mas participa de uma fiscalização geral que é feita nos carros antes dos desfiles. Se há acidente, o conselho apura se houve algum tipo de negligência ou imprudência do profissional específico. Isso porque a responsabilidade é do engenheiro que assinou a ART’ (G1, 2017).
Ao término da reunião, foi comunicado a realização do No trabalho publicado por Costa (2015), constata-se que o
Painel Setorial do Inmetro sobre segurança dos carros alegóricos.
soldador de uma escola de samba pertencente à Série C (divisão
Com uma programação que duraria um dia, imaginei que
hierárquica dos últimos grupos de acesso) era oriundo da
partiríamos para um debate mais apurado no intuito de subsidiar os
construção naval e com certificação para atuar como inspetor de
trabalhos da comissão da ABNT.
soldagem, chegando a nos admoestar quando chegamos com o
Desta vez, ao chegar ao local do evento, constatei a
equipamento para realizar o ensaio não destrutivo por líquido
presença de dirigentes das ligas, carnavalescos, diretores de
penetrante, alegando que aquilo era “X9 de soldador”.
carnaval, diretores de barracão e outros profissionais que atuam nas
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 152
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escolas de samba, além dos representantes da ABNT, Crea e
ser
exemplificado
em
uma
das
digressões
dos
demais
Inmetro. Todos estavam lá e a programação se mostrava relevante
conferencistas, quando se chegou a propor a instalação de painéis
por incluir espaços de fala de todos os segmentos envolvidos,
para captação de energia solar (deixando claro que, segundo sua
conforme pode ser vista na Figura 10.
avaliação, as empresas se interessariam em patrocinar tal
Porém, a agenda foi invertida. O debate foi transferido para
empreitada). Retomando a palavra, o presidente da LIESA
o final da manhã, sendo frustrante para este escriba pois, no
ponderou que parte dos telhados de certos barracões são alvos
momento em que se tinham vários profissionais do carnaval para
frequentes de projeteis de armas de fogo oriundos de conflitos
debater o assunto em questão, utilizou-se toda a parte da tarde para
armados localizados nas comunidades do entorno da Cidade de
a visita aos laboratórios do Inmetro, em uma espécie de
Samba. Desta forma, argumentou que a constante troca de painéis
“laboratory tour”, mostrando, como será descrito a seguir, o
poderia ser um grave empecilho para tal iniciativa prosperar.
descompasso entre estes profissionais e aqueles oriundos das ciências exatas e das engenharias ligados aos órgãos de fiscalização, normatização e verificação de conformidades. Porém, mesmo com o debate comprometido, a parte da manhã revelou outros percalços ainda a serem superados, pois nenhuma proposta foi apresentada sobre segurança dos carros alegóricos. Ao contrário, as falas se centraram na necessidade de normatização,
avaliação
de
conformidade
e
impasses
na
fiscalização do exercício do profissional de engenharia nas escolas de samba com relação aos carros alegóricos. Conforme os módulos do Painel Setorial sucediam-se, outras questões surgiam, fora do escopo da segurança dos carros alegóricos. A fala mais contextualizada foi a do presidente da LIESA, o qual reportou todas as fases de construção de um carro alegórico e escrutinou todas as “engrenagens” que movem os barracões na produção dos desfiles. O descompasso citado anteriormente pode Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 153
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Figura 10 – Programação do Painel Setorial sobre segurança dos
Ao visitarmos os laboratórios do INMETRO com limite de
carros alegóricos
tempo muito superior àquele planejado na programação, sempre éramos recebidos como membros de uma communitas (TURNER, 2013), tábulas rasas para a incorporação do princípio estruturante da tecnologia aplicada naqueles de produção científica. Por outro lado, observava que, para os profissionais do carnaval, este “laboratory tour” se constituía em adentrar em um mundo pouco conhecido, sem aplicabilidade prática para as demandas oriundas dos barracões, partindo dos visitantes um esforço de, minimamente, familiarizar-se com aquilo que se apresentava como exótico (VELHO, 1978). Apesar de todo o esforço dos funcionários dos laboratórios do Inmetro em mostrar a relevância de seu campo de conhecimento – o que, aliás, não é demérito algum, pois o profissional que ali se encontrava, estava no laboratório pertencente à sua área de conhecimento, dada a ele a incumbência de estabelecer um diálogo sobre suas pesquisas e serviços realizados com o universo dos visitantes – não há como justificar, por exemplo, a utilização de um microscópio de força atômica, capaz de permitir o estudo da morfologia nanométrica de materiais (RODRIGUES, 2003), na verificação do atendimento de requisitos que os materiais adotados nos carros alegóricos devem possuir para serem aprovados em um programa de avaliação de conformidade estabelecido por uma norma técnica de requisitos. Outros laboratórios foram visitados, porém sendo os mesmos voltados para a área de calibração e estabelecimento de
Fonte: Acervo do Autor Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 154
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padrões metrológicos primários de unidades de força, pressão,
atuação dos engenheiros responsáveis pelos carros alegóricos
torque, bem como o de teste de fadiga em próteses ortopédicas. Por
(AGÊNCIA BRASIL, 2018).
conta do tempo disponível para a visitação, mesmo sendo bem
Como engenheiro mecânico, a visita foi muito interessante,
extenso que o inicialmente planejado não foi possível ir a todos os
mesmo sem atuar nesta área específica, pois foi um momento de
laboratórios do Inmetro. Porém, compreendendo a finalidade dos
rever conceitos metrológicos e ampliar espectros formativos
demais espaços, concluí que tal corte não representou qualquer
oriundos de minha formação acadêmica. Por outro lado, como
prejuízo ao “laboratory tour”.
pesquisador de carnaval, admito que não vi qualquer aplicabilidade
Diante de um cenário que me remetia a um diálogo de
para o projeto e a montagem dos carros alegóricos, pois, mesmo
surdos, a certeza de que a dimensão do problema a trabalhar era
que tenhamos normas de requisitos, as quais demandem a
bem maior, e ultrapassava a realização de um evento que buscava
necessidade de se gerar um programa de certificação, a questão
reunir em um mesmo espaço para construir (ou, ao menos,
residirá no seguinte problema básico (além de outros futuros):
imaginar ser possível edificar) um ambiente de trocas de capitais
como planejar e executar um programa de certificação se o produto
culturais, configurou-se após uma breve conversa com um diretor
não possui reprodutibilidade, não é fabricado em lotes semelhantes
de carnaval enquanto estávamos no Laboratório de Força, Torque e
e não permite seu transporte para laboratórios certificados?
Dureza. Ao perguntar sobre o projeto dos carros alegóricos, ele
Segunda pequena etnografia: “engenheiro não sabe fazer carnaval”
lamentou que todos os engenheiros chamados para visitar o barracão no intuito de prestar serviço à agremiação, ao serem
Em 16 de janeiro de 2018, visitei dois barracões de escolas
informados que as estruturas metálicas dos carros alegóricos seriam
de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro acompanhando um
movimentadas a uma dada velocidade e com carregamentos de
grupo de mestrandos e doutorandos, pesquisadores de carnaval,
intensidades variáveis e não previsíveis analiticamente ou
oriundos de cursos de pós-graduação do Colégio de Humanidades
numericamente ao longo do tempo em que a estrutura fosse
(segundo a classificação promovida pela CAPES para as grandes
excitada pelos componentes sambando no decurso do desfile,
áreas do conhecimento). Enquanto isso, o presente escriba possui
desistiam da empreitada.
suas origens acadêmicas em cursos alocados no Colégio de
Após estas duas atividades, nenhuma outra foi realizada
Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. Entretanto, o
neste sentido. Somente houve a fiscalização habitual do Crea da Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 155
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mundo dos barracões e ateliês não me é estranho pelo fato de
trabalhadores destes espaços a ideia de uma “obrigação-
conduzir pesquisas sobre o carnaval das escolas de samba e dos
voluntária”. ‘Além da perspectiva artística, há um universo simbólico que cerca o barracão. Os profissionais do carnaval possuem uma dedicação quase religiosa que lembra muito o cotidiano dos barracões do candomblé, onde a devoção a uma casa de santo se traduz em confinamento, trabalho árduo e também em uma promiscuidade inerente a essa relação intensa e profunda. Nos dois barracões, do santo e do carnaval, ocorre a entrega de corpo e alma aos afazeres necessários para a realização do ritual. Na produção do carnaval, em um dado momento, o regime é de internato. Muitas vezes, a equipe já tem no barracão suas barracas de camping armadas, roupas, utensílios, ventilador, televisão.’ (FEIJÓ E NAZARETH, 2011, p. 35)
blocos de enredo, incluindo orientações de estudantes em trabalhos de conclusão de curso de Engenharia de Produção e de Engenharia de Controle e Automação. O universo dos barracões é inebriante para quem aprecia o carnaval. Para os trabalhadores, este lugar de encantamento também é produzido. Na época das visitas, considerando que, em 2018, o carnaval ocorreu na primeira quinzena de fevereiro, e todos os problemas e atrasos no cronograma gerados pela interdição de quase todos os barracões por fiscais do Ministério do Trabalho em um período variável de um a dois meses e pela municipalidade na demora em assinar o contrato de prestação de serviços com as escolas de samba e no corte de metade do valor do repasse
Nas duas visitas fomos recebidos pelos carnavalescos, os
financeiro oriundo deste trato, os barracões fervilhavam na luta
quais inicialmente explanaram a narrativa que suportava a
contra o tempo inexorável que separava as agremiações do desfile,
composição da preparação plástica do desfile, para posteriormente
tensionando situações sociais (GLUCKMAN, 2010) limites
visitarmos os setores de produção. Sobre a Cidade do Samba e seus
comuns deste período temporal.
barracões, os textos de Barbieri (2006), Blass (2008) e Feijó e
Estes modos de fazer que geram lógicas e sentidos de
Nazareth (2011) são interessantes fontes sobre a apropriação destes
trabalho no barracão das escolas de samba do Rio de Janeiro foram
espaços e produção de lugares.
abordados por autores como Costa (2011), Guedes (2010), Sireyjol
Circulando pelos ateliês de fantasias, locais de produção de
e Ferreira (2010), Souza (2001), Valença (2004) e Vasconcelos
demais elementos cenográficos e carros alegóricos em construção,
(1999). Porém, como uma espécie de síntese, recorro novamente a
eram apresentadas e discutidas as soluções implementadas com
Feijó e Nazareth (2011), os quais associam de forma precisa o
relação à disposição cromática nas fantasias e carros, adoção de
capital simbólico com o capital social e cultural, incutindo nos
materiais que simulassem o efeito visual de outros mais caros e/ou
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4
Para as escolas de samba dos últimos grupos de acesso, este tópico pode ser relevante, considerando que os carros alegóricos nestas agremiações são movimentados por tração humana. A questão para estas escolas de samba seria a elevação dos custos embutida na utilização de materiais com massa específica menor em relação ao aço (geralmente, ligas ferro-carbono com 0,2% de carbono, denominadas como aço SAE 1020 ou ABNT 1020) adotado nas estruturas metálicas dos carros alegóricos.
fossem mais leves no intuito de facilitar a evolução dos
da Sapucaí – expressão esta adotada por Feijó e Nazareth (2011)
componentes durante o desfile. Sobre os carros alegóricos, os
como título de sua obra, tendo a engenharia um papel secundário, o
debates
qual seria atender os procedimentos necessários para a liberação
centravam-se
nos
elementos
cenográficos
e
suas
disposições como parte da narrativa. Este momento também foi de
dos carros alegóricos para o desfile.
partilha sobre os empecilhos desta montagem no que tange aos
No primeiro caso, a resposta inicial à pergunta foi “engenheiro não sabe fazer carnaval”. Após um breve silêncio
recursos financeiros e humanos necessários e disponibilizados. Todas estas discussões pouco comungam dos requisitos
constrangedor, pois todos os demais sabiam que eu sou engenheiro
normalmente tratados em problemas de engenharia. O máximo que
mecânico, o carnavalesco perguntou se havia algum engenheiro no
se pode associar seria a economia de “insumos energéticos”. Para
grupo. Confirmada a questão, logo se reposicionou, relativizando
as engenharias, a economia deste tipo de recurso é um dos itens
sua fala, alegando que a atuação do engenheiro é descolada da
mais importantes para a constituição, aprovação e execução de um
concepção dos carros alegóricos, ponderando que esta etapa é feita
projeto. No carnaval, considerando o desfile também como um
pelo próprio em conjunto com os ferreiros, o que permitiu a ele
produto oriundo da execução de um projeto, fantasias com redução
com o passar dos anos nesta linha produtiva incorporar
de peso permitem menor gasto energético do componente ao longo
conhecimentos sobre montagem de estruturas metálicas e noções
do desfile e reduzem a demanda de esforço físico ao longo do
qualitativas da magnitude dos esforços suportados, sendo
cortejo, facilitando a uniformidade da evolução da agremiação e
posteriormente o engenheiro chamado para atestar o projeto e
preservando as capacidades fisiológicas dos desfilantes. Sobre o
realizar os demais serviços que competem ao mesmo.
peso dos carros alegóricos, devido ao fato do curto trajeto
Segundo o carnavalesco, a própria convivência com o
percorrido (cerca de 8 km)4, desde a Cidade do Samba até o local
trabalho e as competências manipuladas pelos ferreiros já o
do desfile e seu retorno, a redução do consumo de combustível
dotaram de ferramentais que o auxiliam na concepção do formato
passível de ser obtida por uma redução de esforço estático oriunda
da estrutura metálica. Com isto, pontuou que a criação pertence a
dos materiais que compõe a estrutura é extremamente reduzida para
ele e que os “órgãos técnicos” a serviço da agremiação forneceriam
se justificar alterações no projeto dos veículos.
base para a verificação do atendimento às legislações vigentes.
Nas duas visitas, perguntei aos carnavalescos sobre a
No segundo caso, a resposta foi em tom semelhante no que
relação com os engenheiros que atuam nos barracões e as reações
tange ao espaço ocupado pela engenharia no processo criativo dos
mostraram que, ali, o local de fala pertence aos artistas – Artesãos
carros alegóricos e sobre quem se apropria daquele lugar de fala.
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Mais uma vez, enfatizou-se que, ali, eram os artesões que se
que parte dos demais locais, utilizarão seus arsenais enunciativos
expressavam, relegando à engenharia o papel da responsabilidade
sinergeticamente sem abandonarem seus discursos e práticas de
técnica, sem que a mesma interfira no processo criativo.
legitimação característicos de cada área de conhecimento.
Aqui, o carnavalesco destacou que conta com o auxílio de
Retornando à questão do projeto de carros alegóricos, de
um profissional da área de desenho industrial. Durante a fase de
fato, trata-se de uma modelagem de alta complexidade, envolvendo
concepção dos carros alegóricos, como forma de simular a
o
volumetria e a disposição cromática obtida, este auxiliar utiliza o
carregamentos variados em intensidade e frequência, os quais, no
software Rhinoceros 3D, o qual gera, por exemplo, gerar as plantas
máximo, poderão ser simulados através de um modelo não linear
baixas exigidas pelo Corpo de Bombeiros, além de possibilitar a
com distribuição probabilística. Para tal problema, não é possível
exportação para softwares de CAD (desenho auxiliado por
determinar a resposta dinâmica da estrutura sem o uso de
computador), permitindo, inclusive, a simulação de respostas da
simulações computacionais através do método de elementos finitos
estrutura metálica a carregamentos através da técnica de elementos
e dados de campo coletados a partir de acelerômetros acoplados a
finitos.
estas estruturas durante seu uso no desfile. As soluções analíticas e
estudo
de
uma
estrutura
tridimensional,
excitada
por
numéricas mais simples (isto é, através da transformação do modelo matemático em um sistema de equações lineares)
Considerações finais
responderão no máximo às solicitações estáticas de carregamento no carro alegórico. Isto é, o veículo cenográfico estaria com
Considerando a produção do carnaval das escolas de samba
velocidade nula e as tensões e deformações impostas à estrutura
no Rio de Janeiro, a abordagem de integração entre os campos de
metálica seriam consequência somente do próprio peso dos tubos
conhecimento ainda se dá a partir do viés da multidisciplinaridade,
de aço, além do peso das esculturas, e demais elementos visuais, e
onde cada área utiliza suas competências para contribuir com uma
dos componentes.
parte do processo.
Desta forma, por não se alinhar à região de conforto onde o
Pondero que, neste caso, bem como nos demais que se
trabalho comum de consultoria em engenharia se assenta, o caso
prestam à investigação científica, a interdisciplinaridade se
acima demonstra que somente um trabalho de pesquisa aplicada
apresenta como necessária, pois, ao invés de várias áreas do
será capaz de atender esta demanda, caso parta das escolas de
conhecimento contribuírem isoladamente a partir de seus locais de
samba este interesse. Pouco efeito surtirá uma coletânea de normas
fala e dotando os mesmos de mecanismos de estranhamento àquilo Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 158
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e um programa de avaliação de conformidade, dada à natureza de
agremiações que necessitam destes serviços, os quais constam nos
um carro alegórico: um produto que não possui reprodutibilidade,
documentos de ART.
não é fabricado em lotes semelhantes e não permite seu transporte
Outra questão é que se torna imperativo transformar, borrar
para laboratórios certificados. Além disso, este caráter normativo
a fronteira entre arte e engenharia no projeto e montagem dos
impede o diálogo com realidades específicas, conforme mostrado
carros alegóricos a partir da concepção de modos de fazer, ao invés
nos carros alegóricos pesquisados das escolas de samba dos últimos
de modos de impor. Hoje, estes limites não são ultrapassados,
grupos de acesso.
mostrando que estes marcos são muito mais impeditivos que
Aqui, basicamente, configura-se um problema de pesquisa,
apenas demarcatórios das competências de cada área de
o qual somente será atendido por uma consultoria em engenharia de
conhecimento.
alto custo e passível de não fornecer ao final do estudo as respostas
Além disso, através de decretos municipais e estaduais,
às demandas apresentadas, alegando a impossibilidade técnica de
estas normas técnicas podem ganhar força de lei e serem adotadas
decifrá-las, abrindo então espaço para o meio acadêmico, o qual
como parâmetros para o repasse da verba pública que subsidia em
tem em um de seus cernes a dimensão da pesquisa sem os mesmos
parte os desfiles das escolas de samba. Considerando o
custos de uma consultoria pelo fato de subsidiarem boa parte deste
questionamento que este repasse anualmente sofre por parcela da
trabalho através dos órgãos públicos e privados de fomento à
população, aliado a discursos de cunho populista de priorização de
pesquisa.
investimentos em setores voltados ao desenvolvimento e proteção
Com isso, considerando o atual retrato para a atuação dos
social, desconsiderando a movimentação financeira que o carnaval
engenheiros no projeto e montagem dos carros alegóricos, a
propicia para os cofres municipais e o fomento à cultura, as normas
solução hoje implementada para o atendimento aos requisitos do
que porventura possam vir a ser publicadas podem ser um poderoso
Corpo de Bombeiros e do Crea é a contratação de profissionais
instrumento de legitimação de cortes e atrasos de contrapartidas
com vivência neste universo, os quais já atuaram nas escolas de
financeiras, tendo como justificativa a não conformidade dos carros
samba em outras atividades de quadra e de barracão, sendo este
alegóricos com os preceitos delineados nas normas técnicas
número de profissionais limitadíssimo, não permitindo que se
voltadas a este produto.
avance com a pesquisa em engenharia neste campo, pois os mesmos ficam assoberbados para dar conta de todas as
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Júlio Cesar Valente Ferreira
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