Carlos Eduardo Silva & Fátima Costa de Lima
Arte de Protesto em Enredos do Grupo Especial Carioca: Paraíso do Tuiuti e Beija-Flor, 2018 *
Recebido em: 04.09.2017. Aprovado em: 25.11.2017 ** Ator, bonequeiro, iluminador e diretor teatral. Graduado em Artes Cênicas pela UFSC. Mestre em Artes Cênicas pelo PPGAC/UFBA. Doutorando em Literatura pelo PPGLIT/UFSC. Email: cae.silva@gmail.com *** Cenógrafa, diretora de arte, carnavalesca, figurinista e atriz. Áreas de pesquisa: teatro, cinema e carnaval. Graduada em Artes Plásticas Especialista em Teatro pela UDESC. Mestre em Educação e Cultura pela FAED/UDESC. Doutora em História Cultural pelo PPGH/UFSC. Professora titular do Departamento de Artes Cênicas - CEART e do PPGT/UDESC (atual coordenadora). Email: costadelimafatima@gmail.com
Art of Protest in Entanglements of the Carioca Special Group: Tuiuti’s and Mockingbird’s Paradise, 2018 Carlos Eduardo Silva** Fátima Costa de Lima***
Resumo – A partir da teoria crítica e literária, o artigo apresenta as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro como organismos dinâmicos que vivem suas próprias contradições. Contra perspectivas míticas ou românticas, a noção de “escola de samba” considera sua origem histórica em zonas de exclusão social e sua aceitação e cooptação por forças econômicas e midiáticas, contradições evidenciadas na relação entre os sentidos de alguns enredos e aquilo que suas comunidades afirmam. Mesmo que questões econômicas e de produção limitem por vezes o escopo temático e de desenvolvimento dos elementos artísticos dos desfiles carnavalescos, em 2018 algumas escolas produziram enredos políticos de protesto que impactaram debates sociais da atualidade nacional – em especial, o golpe de Estado de 2016. O artigo atravessa enredos da Unidos da Tijuca (1982), Império Serrano (1982, 1986), Mangueira (1988), Vila Isabel (1990), Paraíso do Tuiuti (2018) e Beija-Flor (1989, 1990, 2018). Palavras-chave: Escolas de samba; Enredo; Arte carnavalesca; Protesto; Poética da liminaridade
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Abstract – From the critical and literary theory, the article presents the samba schools of the Rio de Janeiro Special Group as dynamic organisms that live their own contradictions. Against the mythical or romantic perspectives, the notion of "samba school" considers its historical origin in areas of social exclusion and its acceptance and cooptation by economic and media forces, contradictions evidenced in the relation between the meanings of some plots and what their communities affirm. Even if economic and production issues sometimes limit the thematic and developmental scope of the artistic elements of carnival parades, in 2018 some schools produced political protest scenarios that impacted nowaday national social debates - in particular, the coup of 2016. The article crosses plots of the Unidos da Tijuca (1982), Império Serrano (1982, 1986), Mangueira (1988), Vila Isabel (1990), Paraíso do Tuiuti (2018) and Beija-Flor (1989, 1990, 2018). Keywords: Samba School; Plot; Social criticism; Liminarity; Poetics of exclusion.
Carlos Eduardo Silva & Fátima Costa de Lima
“Não entendi o enredo desse samba, amor”1
1
Referência ao samba de Aragão e Lara (1999). 2 O Festival Folclórico de Parintins – que acontece em cidade homônima do Estado do Amazonas, no Norte do Brasil, desde a década de 60 – se especializou em produzir movimentos orgânicos nas alegorias que constroem para a disputa do Boi Garantido com o Boi Caprichoso. Dada a especialização nesta técnica, suas equipes de cenógrafos-alegoristas são frequentemente contratadas por escolas de samba cariocas e de outras cidades do país.
alas por lucrarem sobre as fantasias comercializadas e a promoção
“A grande paixão Que foi inspiração Do poeta é o enredo, Que emociona a velhaguarda Lá na comissão de frente Como a diretoria. Glória a quem trabalha o ano inteiro Em mutirão [...] (Vila, 1983)
midiática do nome da escola. Este texto não trata de maneira idílica as escolas de samba ao entender que as agremiações cariocas passaram por pelo menos dois momentos históricos: o início “amador” privilegia os valores culturais e vai da década de 30 até a de 60; a partir dos anos 70, uma era de mercantilização dos desfiles tem como marco inicial a primeira transmissão colorida do concurso carioca, em 1973. Essa era perdura até a atualidade.
Todos os anos, nos dias que se seguem ao final do carnaval
As duas eras instauraram formas de visibilidade distintas e,
se inicia uma árdua jornada pela construção do desfile do ano
por essa razão, vez por outra as referências às instituições
seguinte. A partir das primeiras horas da Quaresma – isto é, tão
carnavalescas se confundem entre essas duas formas, a que
logo seja conhecido na Quarta-Feira de Cinzas o resultado oficial
chamaremos “forma-comunidade” e “forma-espetáculo”. Na
da competição que instaura o encontro carnavalesco –, as escolas
forma-comunidade, escolas de samba se dedicam à promoção
de samba do Rio de Janeiro, com maior ou menor urgência, entram
cultural de um certo tema que interessa ao “morro” ou bairro onde
na corrida para definir o tema e a equipe que desenvolverá o
se originaram. Na “forma-espetáculo”, os artistas envolvidos – de
carnaval vindouro. A despeito de qualquer romantismo que paire
mestre-sala e porta-bandeiras a intérpretes e carnavalescos com
sobre tal evento, o enredo - ou seja, o documento escrito que
suas equipes – são amiúde trocados ao término de cada carnaval,
determina o que uma agremiação carnavalesca vai carnavalizar na
obedecendo a regras contratuais do mercado.
Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – é fruto de um
Nesse mercado, pode-se observar: especialistas de outros
complexo processo de negociações entre a diretoria, a comunidade
eventos como Parintins2, por exemplo, contratados para a
e outras forças políticas, fora e dentro das agremiações; e isso
confecção de alegorias; fantasias cuja criação envolve avaliar
inclui os grupos que se encontram – e, via de regra, pretendem se
preços dos insumos e a cotação do dólar que afeta produtos
manter – no poder. Ao ocupar este lugar, esses grupos conciliam
importados (da China, entre outros); reaproveitamento do carnaval
interesses diversos como os dos patrocinadores e suas metas
anterior e terceirização das confecções. As alegorias, por exemplo,
mercadológicas, o desejo artístico do carnavalesco, o empenho das
obedecem às dimensões dos chassis dos carros-suportes existentes que são frequentemente reutilizados, ano após ano. No relativo à
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arte carnavalesca, coreógrafos e artistas da cena trazem novas
falta, de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim” (Viola,
perspectivas e criações para Comissões de Frente e alas
1975). Não bastasse isso, índices de audiência e consumo de CDs
coreografadas; e sambas-enredo comumente escolhidos em
revelam o interesse que tal produto cultural desperta na sociedade;
concursos internos obedecem à fórmula introdução, estribilho,
dentre esses produtos, “celebridades globais” agregam valor
desenvolvimento e refrão final; e mantém andamentos na casa das
mercadológico ao desfile. Enfim, as escolas de samba do Grupo
150 batidas por minuto (b.p.m.).
Especial, quando não objetivamente cooptadas, tendem a adequar-
Mesmo que o senso comum carnavalesco se esforce para
se aos interesses da indústria cultural.
manter a aura de eterna inovação, é comum que as escolas repitam
Mas, ainda assim, não são raros os casos em que rachaduras
soluções e temáticas ao longo do tempo: o Salgueiro homenageia a
causam infiltrações nesta estrutura de ordem mercadológica e
Bahia em 1969 e a Mangueira também, em 1986; a verde-e-rosa
capitalista a fim de marcarem com gritos, denúncias e protestos o
canta as olimpíadas em 1997 e a Portela renova o tema em 2007; e
mundo das “Super Escolas de Samba S.A., super alegorias,
assim por diante. Tudo isso mostra que, atualmente, escolas de
escondendo gente bamba, que covardia” (Machado; Braço, 1981),
samba pouco têm de instituições românticas e ingênuas,
como atesta o samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano
comandadas por artesãos e artistas que lutam (apenas) por
de 1982.
visibilidade social.
Entendemos
que
os
movimentos
realizados
pelas
No que se refere ao desfile, a LIESA (Liga Independente
agremiações carnavalescas merecem reconhecimento, quaisquer
das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro), que
que sejam. No entanto, desfiles que pelo menos em parte se
conjuga as escolas deste grupo, submete as escolas a um esquema
mostram contrários à adesão objetiva ao mercado acontecem
rígido e pré-determinado, derivado da negociação de custo-
esporadicamente, resultantes do trabalho de uma ou outra
benefício com os meios de comunicação que transmitem os
agremiação. Enquanto organizações, as escolas de samba têm se
concursos carnavalescos. Disso decorrem, entre outras coisas,
mostrado dinâmicas e criativas no esforço para sobreviverem aos
transformações profundas nos sambas de enredo ao longo das
problemas e desafios que cada momento histórico oferece. Se as
últimas décadas – aceleração do ritmo das baterias e inserção no
estratégias adotadas são as melhores ou resultam em maior eficácia,
arranjo do samba de batidas da moda em breques e convenções – a
esta é uma avaliação difícil de realizar. Certamente perdas e ganhos
pretexto de modernizar o samba, como depõem os versos de
existem no desapego à famigerada “tradição” que cada instituição
Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me
carnavalesca, em razão de sua história, representa. O grande
altere o samba tanto assim, olha que a rapaziada está sentindo a
desafio das escolas talvez seja colocarem-se dialeticamente entre os
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Entendia-se por “vadiagem”, qualquer atividade não produtiva segundo os meios sociais para se obter o sustento, ou que atentasse contra a moral e os bons costumes ditados pela elite de então. 3
interesses da indústria cultural e sua própria história de resistência à
no entanto, que nesse período o samba e as suas escolas
intrusão do mercado nas decisões artísticas, o que pode resultar em
conquistaram arduamente o direito de saírem das comunidades e
maior exclusão das comunidades de origem do âmbito dessas
habitarem, ainda que por poucos dias, as ruas da Capital Federal.
decisões.
Foi em 1935 que, por iniciativa do então prefeito do Rio de Janeiro,
Entendemos indústria cultural como o braço do capitalismo
Pedro Ernesto, as sociedades carnavalescas foram oficializadas e
que visa lucrar sobre manifestações e performances artísticas ao
reconhecidas pelo Estado, o que pode ser considerado também
transformar obras de arte em produtos de consumo. Para isso,
como uma forma de controle sobre o que tais comunidades tinham
comercializa a participação em eventos culturais por meio de
a dizer. Ao mesmo tempo, a oficialização garantiu aos sambistas a
ingressos cujo status auferido pela sua aquisição pode ser muito
possibilidade de organizarem-se e expressarem suas criações.
superior e mais importante que a experiência gozada no ato em si.
Partiu das próprias escolas, organizadas por meio da União
Contudo, mesmo que a Quaresma “lá no morro” não seja colorida
das Escolas de Samba (UES), o compromisso para com o poder
por fantasias usadas na avenida, o trabalho das comunidades
público de elaborarem seus cortejos “baseados em motivos
carnavalescas perdura o ano inteiro em mutirão e, muitas vezes, em
nacionais” (CABRAL, 1996, p. 97). Desde então, a tradição de
regime de exploração com salários e condições indignas, pelo valor
temas nacionais foi respeitada até que, em 1990, sob nova entidade
afetivo dos breves momentos na avenida a empurrar carros
organizadora, a LIESA, as escolas permitiram-se falar de temas
alegóricos ou tocar na bateria.
estrangeiros. No sambódromo (inaugurado em 1984 na avenida
Cabe lembrar, ainda, que não obstante a paixão atual pelas
Marquês de Sapucaí, onde o concurso do grupo principal já
escolas de samba por parte de seu público e torcedores, quando da
acontecia anteriormente), o palco dos desfiles anuais, apareceram
vigência do Código Penal de 1890 as manifestações culturais
temas como a homenagem a Hans Christian Andersen, na
afrodescendentes, destacadamente a capoeira e a “vadiagem”3,
Imperatriz Leopoldinense, em 2004, ou a fundação Disney World,
eram criminalizadas. Compositores e membros das rodas de samba
pela Acadêmicos da Rocinha anteriormente, em 1997.
eram tidos como “malandros” desocupados que não estavam à
Ao mostrar um pouco da história, não pretendemos emitir
serviço da produção de riquezas do sistema econômico vigente e,
qualquer juízo de valor ou dúvida sobre o gosto de uma escola ao
por isso, enquadravam-se no artigo 399 do referido código (Câmara
escolher um tema de qualquer natureza. Mesmo quando se avalie a
Web). Na década de 30, Getúlio Vargas descriminaliza as
superioridade de certos assuntos sobre outros seja em sua qualidade
manifestações culturais populares do Brasil e, finalmente, com o
poética, seja do âmbito do vínculo histórico com a formação
Código Penal de 1940, a perseguição perde amparo legal. Ocorre,
identitária da comunidade que representa, entendemos que o
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processo da escolha sobre o que dizer uma escola de samba é
Estamos tão acostumados a pensar numa escola como a
expressão legítima e autônoma do querer da comunidade,
junção desses elementos, que se torna difícil concebê-la sem eles.
independentemente de quão objetivamente ela participa ou não de
Mas o fato é que, se existem é por razões históricas que se
sua escolha. O mundo das escolas de samba é, assim como o nosso,
justificam para as escolas cariocas, mas não necessariamente uma
um mundo de muitas contradições.
história que se repita em outras localidades. Tome-se o exemplo dos portadores do pavilhão de uma escola: conforme Rodrigues (2012), o estandarte é levado por uma mulher que nos primeiros
Réplicas da indústria cultural ou apropriações
anos dos desfiles cariocas foliões de agremiações concorrentes lhe
conscientes?
tomavam a bandeira de assalto como uma espécie de troféu. Em Como fenômeno social e organizações artísticas, escolas de
razão desse ato de ousadia, as escolas destacaram uma figura
samba expressam a cultura, os desejos e os saberes de suas
masculina dedicada inicialmente a proteger a porta-bandeira: o
comunidades. Como produtoras de artes musicais, teatrais, visuais
mestre-sala. Diante deste histórico, justifica-se a existência do
e performáticas, manifestam uma poética com técnicas e feituras
referido casal nas escolas que passaram pela situação; mas, aquelas
muito particulares, com normas e estruturas próprias. Existem
que nem ao menos sabem dessa ocorrência, estão apenas replicando
escolas de samba em muitas cidades do Brasil, surgidas em
um modelo?
momentos
distintos:
todas
guardam
semelhanças
formais
Podemos refletir concomitantemente sobre outros elementos
mimetizadas das agremiações cariocas pioneiras, que surgiram e
constitutivos de uma escola de samba: um alto fluxo migratório à
tiveram proeminência midiática antes das demais, considerando-se
Capital Federal após a Guerra do Paraguai e, ainda mais, pós
o Rio de Janeiro como o centro cultural do Brasil em boa parte do
abolição da escravatura, fez com que inúmeras famílias provindas
século XX, na qualidade de Capital Federal. Sobre as semelhanças
da Bahia se estabelecessem em morros cariocas. Neste intercâmbio
formais, embora nada impeça que baterias de norte a sul do país
cultural, as matriarcas do samba foram designadas conforme o seu
toquem instrumentos diferentes, que as escolas gaúchas não
gentílico, por baianas. Entretanto, por exemplo, Florianópolis
apresentem alegorias e as catarinenses não possuam alas de
recebeu um grande fluxo migratório de marinheiros vindos da
baianas, que as escolas de samba das diversas regiões brasileiras
Capital do país, juntamente com suas famílias, por ser um ponto
deixem de apresentar casal de mestre-sala e porta-bandeira, não é
estratégico para reabastecimento nas viagens marítimas entre Rio
isso o que acontece.
de Janeiro, Porto Alegre, Montevidéu e Buenos Aires; e a ilha de Santa Catarina um dos últimos acidentes geográficos seguros e
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viáveis para ancoragem de embarcações antes dos quase 200
Escolas de samba não aparecem em territórios habitados
quilômetros de contínuas praias existentes no litoral gaúcho. Por
pelas elites, organizados e/ou mantidos pelas elites; onde dos
esse motivo, muitas das escolas de samba florianopolitanas têm
empurradores de alegorias até a ala das baianas atendam pela
vínculos originários com imigrantes cariocas: não seria o caso, por
alcunha de “doutor” e “madame”. No mundo do samba, “cartola” é
isso, das matriarcas do samba serem nomeadas por ala das
um apelido dado a um “certo senhor”, originário de uma touca de
cariocas? Isso não é uma proposta: trata-se apenas de uma
jornal feita para proteger os cabelos durante o trabalho de pedreiro;
provocação
escolas
“sargento” e “delegado” são denominações vinculadas, a primeira à
simplesmente replicam suas fórmulas ou realmente apropriam-se
profissão militar desse compositor e a segunda, que nada tem a ver
de elementos estruturais criados por suas congêneres em outras
com a função policial, foi conferida ao famoso mestre-sala porque
localidades, especialmente no Rio de Janeiro. Rejeitamos o
“prendia as meninas” em razão da sua habilidade de dançarino.
entendimento de cópia pura e irrefletida de elementos de escolas de
Com exceção dos casos mais atuais de escolas de sambas
samba cariocas; ao contrário, afirmamos que o fluxo cultural
internacionais localizadas em Tóquio, Londres ou Berlim, onde a
constante de apoio e de informações justifica em parte as
situação é completamente outra, podemos observar que as escolas
influências e as trocas existentes.
de samba brasileiras são formadas em sua imensa maioria por
para
refletirmos
sobre
o
quanto
as
As escolas de samba se multiplicaram, como anteriormente
pessoas que - pela sua posição social, pela região em que habitam e
dito, por várias cidades do Brasil - inclusive onde não parecia haver
pelos saberes de origem popular - não teriam voz: são o que
expressiva população afrodescendente. Apesar de nascerem em
Gayatri Spivak (2010) chama de “subalternos”. Os moradores das
comunidades geograficamente diferentes e formadas de distintas
comunidades que as escolas de samba procuram representar “são
etnias, elas compartilham regras, estruturas e valores éticos e
escultores, são pintores, bordadeiras, são carpinteiros, vidraceiros,
estéticos das escolas de samba cariocas. Mas não apenas isso: o que
costureiras, figurinista, desenhista e artesão, gente empenhada em
há de mais comum entre todas as escolas de samba é o fato d’elas
construir a ilusão” (Vila, 1983).
surgirem em comunidades via de regra pobres e ignoradas pelo poder oficial das cidades. São comunidades em situação de
O que os monstros subalternos tanto têm a falar?
vulnerabilidade econômica, exclusão social e insegurança que hoje sofrem com a dominação de milícias e do narcotráfico, poderes
Neste
paralelos que se fortaleceram com a não garantia de direitos básicos
contexto,
surge
uma
arte
carnavalesca
com
características muito particulares, que pode ser associada à poética
pelo Estado. Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 129
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4
Não poderíamos falar com profundidade dessa produção artística sem apresentar farto material imagético, o que não será possível neste artigo.
da liminaridade (CABALLERO, 2011), considerando a situação da
vivo assim. Trabalho e não tenho nada, não saio do ‘miserê’, Ai..
sua elaboração num ambiente de exclusão socioeconômica. A
ai.. meu Deus! Isso é pra lá de sofrer” (SOUZA; BABAÚ, 1960).
ausência de saneamento, de condições dignas de segurança e
Em 2018, a escola de samba Paraíso do Tuiuti desenvolveu seu
moradia ou até mesmo do simples acesso aos bens de consumo
carnaval a partir de um enredo que questiona se a escravidão
idealizados pelo sonho capitalista produziram uma poética de
realmente foi extinta pela Lei Imperial 3.353, conhecida como
desfile que, por efeito contraditório, muito se aproxima da pujança
“Áurea”. A questão colocada nesse enredo lembra a da Mangueira
e riqueza das culturas africanas que se instalaram no Brasil. A
que, trinta anos antes, cantou: “será, que já raiou a liberdade, ou se
sofisticação das vestimentas africanas, da culinária, dos adereços,
foi tudo ilusão? Será, que a Lei Áurea tão sonhada, a tanto tempo
da maquiagem e da arte em cabelos e maquiagens conforma uma
assinada, não foi o fim da escravidão?” (Turco et al., 1987) Na
relação da vida cotidiana com a arte que não se manifesta pela
sinopse do enredo de 88 se lê:
distinção entre ambas, mas por sua sobreposição. A multiplicação
A favela está pronta para explodir, como um barril de pólvora, com toda a comunidade sofrida, abandonada pelo poder público, apesar dos esforços atuais, no sentido de amenizar a situação que pouco refletem a realidade. Não bastam as obras faraônicas, o que importa são as soluções de curto prazo, com escolas, alimentação, condições mínimas para respirar e a abertura do mercado de trabalho para os negros. (MATOS, 1988)
de camadas de arte e cotidiano produz um diálogo, por semelhante que seja, com o barroco europeu (LIMA, 2011)4. No DNA das escolas de samba cariocas da atualidade encontram-se esses elementos ancestrais de culturas de distintas nações de África que, por força da selvageria combinada com a ambição do colonizador europeu, miscigenou-se entre si e com outros povos, no Brasil.
O samba de enredo da Paraíso do Tuiuti apresenta, porém,
Musicalmente falando, os instrumentos, sons e ritmos das escolas
uma estrutura com momentos de originalidade. Na introdução do
de samba receberam inegável influência africana. As letras dos
samba, a primeira palavra produz um choque ao dirigir-se ao
sambas de enredo muito dizem sobre o contexto marginal para
ouvinte “homem-branco” como um igual, um irmão, e não como
onde confluiu a mencionada influência africana, por exemplo:
um monstro que destruiu famílias, apartou mães e filhos, maridos e
“pergunte ao Criador, quem pintou esta aquarela, livre do açoite da
mulheres. Contudo, o termo “irmão” não possui caráter
senzala, preso na miséria da favela!” (TURCO et al., 1987).
conciliatório: ao contrário, seu uso parece ampliar a dureza e a
A dura relação que as favelas estabelecem com a sociedade
covardia do crime étnico-racial quando o explorado, subjugado a
que continua explorando-o mesmo depois do fim da escravidão,
pretexto de sua suposta selvageria, demonstra ser mais humano do
rende inspiração para outras variações de samba, como “ai.. ai..
que o explorador. Na sequência, a letra do samba reforça o traço de
meu Deus! Tenha pena de mim, todos vivem muito bem só eu que Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 130
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igualdade quando o historicamente escravizado empunha sua
cadência e tensionamento musical que conduzam a música até a
pertença cultural sem que a diferença represente a suposta
máxima tensão que, por fim, resultará na explosão do refrão.
inferioridade identificada pelo opressor em elementos fenotípicos -
Contudo, o samba da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti
da ordem dos traços físicos e da cor da pele. Esta inferioridade
segue esta espécie de fórmula geral até o desenvolvimento, quando
justificou o genocídio de populações e o desmantelamento de
ocorre um desvio. O samba começa sua ascendente melódica no
reinos sofisticados em África e cerceou a liberdade (vide primeiro
trecho “E assim quando a lei foi assinada, uma lua atordoada
estribilho) ao acorrentar e matar africanos/as escravizados/as em
assistiu fogos no céu, áurea feito o ouro da bandeira, fui rezar na
plantações Brasil afora. Posteriormente, no desenvolvimento do
cachoeira contra bondade cruel” (LUZ et al., 2017). Mas, ao invés
samba, figuras como Nossa Senhora do Rosário, Preto Velho e São
de explodir no refrão principal “Não sou escravo, de nenhum
Benedito mostram o sincretismo e a miscigenação; e, no crescente
senhor...” – o que resultaria na apoteose do samba onde as tensões
do samba, a máxima tensão musical aborda a assinatura da Lei
construídas até esse momento seriam desfeitas –, a melodia dá
Áurea. Neste momento, ocorre a inversão dialética: a lei não
espaço a um refrão superveniente que quebra a potência festiva
representa a bondade como concessão benemerente da sociedade
para realizar um lamento e, desse modo, esvazia a tensão melódica
branca, mas como “bondade cruel” que, ao contrário de ser
anteriormente construída. Como desvio do que é frequente em
benfeitoria realizada em correção à atrocidade escravagista,
melodias de sambas de enredo, esta solução poética expressa não a
confirma-a e prolonga após o fim legal da escravidão. O samba se
comemoração da libertação, mas um canto de dor. Quando o samba
encerra em dois refrãos: um de lamento, que recorre a Deus; e
cai e a melodia se recupera no refrão, esta espécie de oração quase
outro, que afirma a sobrevivência da escravidão na favela, mas
silenciosa e lutuosa por todos os que tombaram no caminho da
também sua condição de “sentinela da libertação”, conclamando à
resistência à escravidão faz prevalecer a poesia e o gesto político
luta.
que a consubstanciam. Em relação à sua música, o samba apresenta uma cadência –
Ao ser trazido de novo ao sambódromo, o tema mostrou
isto é, uma variação melódico-harmônica –, diversa do usual. Em
que, por mais repetido que possa parecer, permanece urgente e
razão do sistema tonal ocidental, é comum que um samba de
necessário no debate social. Contudo, a escola de samba de São
enredo: se inicie em campo harmônico específico e evolua sua
Cristóvão não se deteve no questionamento à história, ela a
cadência variando de acordes menores aos maiores; na introdução,
atualizou no acontecimento recente mais traumático da história
crie forças melódicas cujas tensões efetuem um breve alívio no
política e econômica brasileira: o golpe de estado de 2016. Este
estribilho intervalar; e recomece o desenvolvimento com fricção,
episódio e suas consequências – o desmanche do parque industrial
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do petróleo, das leis trabalhistas e do sistema de ensino público,
da favela, foi assassinada exatamente um mês e três dias depois do
assim como o lançamento das bases para o sucateamento dos
desfile da Paraíso do Tuiuti.
serviços públicos - elevam a situação de exclusão e exploração nas
Como já dito, o tema do desfile de 2018 da Paraíso do
camadas mais vulneráveis da sociedade a um índice ainda mais
Tuiuti não é uma novidade no mundo dos enredos cariocas. Mas,
agudo.
ao invés de diminuir sua importância, esta repetição a potencializa Numa leitura propriamente benjaminiana, é a “tradição dos
como eco de anseios similares, como o da Unidos da Tijuca de
vencidos” (BENJAMIN, 1994, p. 245) que a Paraíso do Tuiuti
1982.
parece reconhecer. Na perspectiva desta tradição, segundo Walter
A escola tijucana desenvolveu, nos anos finais da ditadura
Benjamin,
militar brasileira (1964-1985), um enredo metafórico para abordar a cruel transformação social que a força do capital estava
Todos os dominadores que até agora venceram participam do cortejo triunfal, que os dominadores de hoje conduzem por sobre os corpos dos que hoje estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo triunfal, como de praxe. Eles são chamados bens culturais. (Benjamin, 2012, p. 244)
produzindo no Brasil. O enredo baseava-se numa obra de Manoel Cavalcanti Proença, intitulada Manuscrito Holandês. Este livro conta a história do herói Mitavaí, uma representação do povo sofrido e subjugado;
Este reconhecimento ultrapassa a temática da escravidão
representação do dinheiro, do poder e da força que oprime o povo,
brasileira que prostrou no chão milhares de corpos negros quando,
mas não o vence. O samba dizia,
entrecruzando passado e presente, carnavaliza analogias entre o
É tão sublime exaltar [...] a odisseia de um valente brasileiro contra o monstro estrangeiro, que com todo o seu dinheiro, quer calar a nossa voz [...] Mitavaí, bom lavrador e vaqueiro, deixa o sertão brasileiro, vai combater Macobeba maldito, que devora o mato e o mito, rádio jornal e TV (LUCAS; PAIVA, 1980).
processo colonial e as implicações desumanas do capitalismo tardio em regiões ditas “em desenvolvimento”. Ao fazê-lo, nos torna passageiros/as da última alegoria do desfile Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?. No Neo-Tumbeiro (o nome dessa alegoria),
somos
todos/as
explorados/as,
manipulados/as
contra o malvado Macobeba, uma
e
Não é comum que enredos abordem tão objetivamente as
subjugados/as pelas forças hegemônicas com as quais, no Brasil, os
mazelas produzidas pelo capitalismo, mesmo que seja por meio de
“dominadores de hoje” carregam seu “cortejo triunfal” “sobre os
uma metáfora que narre a saga épica de um sertanejo lutando para
corpos dos que hoje estão prostrados no chão”, sem vida. Em sua
defender sua cultura, sua terra e sua gente. Trata-se talvez de uma
maior parte, são como o de Marielle Franco – ativista que, negra e
derrota anunciada, mas não sem resistência contra a força poderosa dos agentes econômicos que corrompem, dominam e invadem
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A Harmonia, via de regra, se constitui como o grupo de trabalhadores/as responsáveis por manter a organização do desfile de uma escola de samba antes (produção), durante (desfile) e depois (desmontagem) de seu acontecimento.
valores de vida do referido nativo - como a liberdade, a alegria e a
permitem que Mitavaís escapem por suas rachaduras e contradições
esperança. Pois, o Capital constrói meios de comunicação a fim de
e, desse modo, habitem o palco do carnaval.
controlar a noção coletiva de liberdade, apodera-se da alegria pelas
Curiosamente, quem estreava como diretor de Harmonia5 da
forças do entretenimento e instaura novos (e falsos) sonhos para
Unidos da Tijuca naquele ano de 1982 era o mesmo Laíla que foi
manipular o sentimento de esperança.
diretor de carnaval da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis por
O protagonista do enredo da Unidos da Tijuca remete às
subsequentes vinte e três anos, período finalizado em 2018. Neste
populações socialmente excluídas e todos/as àqueles/as que lutam
ano, o enredo da escola de samba parte de uma metáfora a fim de
contra um sistema: são ambos uma espécie de Mitavaís. Podemos
carnavalizar a catástrofe produzida pela tentativa de conciliar
entender enredos deste tipo a partir de uma poética do combate e da
capitalismo neoliberal e sociedade brasileira. Em linhas gerais, o
autoafirmação das comunidades das escolas de samba cuja voz
enredo Monstro é aquele que não sabe amar - os filhos
grita por direitos a serem conquistados e, vez por outra, emerge dos
abandonados da pátria que os pariu confronta tanto as questões
enredos. A Vila Isabel, por exemplo, cujo enredo de 1990 tratava
socioeconômicas que se manifestam em situações e circunstâncias
dos direitos humanos, asseverou: “queremos o direito de igualdade,
atuais que desumanizam a população quanto o fracasso da
viver com dignidade não representa favor [...] a Declaração
sociedade em reverter este quadro. Em seu desenvolvimento, o
Universal não é um sonho, temos que fazer cumprir. A justiça é
enredo parte da obra Frankenstein, de Mary Shelley (s/d), e transita
cega, mas enxerga quando quer” (King et al., 1988). Mais adiante,
pelo dualismo criador e criatura, o que faz com que o público
o samba constata: “sei que quem espera não alcança”, frase cujo
(presente no sambódromo ou que assiste pela televisão), o folião
sentido é de que não basta aguardar, é preciso lutar. Nesse mesmo
(que desfila), o leitor (da sinopse do enredo) ou o ouvinte (do
sentido, os “subalternos” que produzem o turístico carnaval carioca
samba de enredo) se veja ora como monstro inventor, ora como
parecem falar no que a Império Serrano apontou em seu enredo de
monstro inventado. Não há posição possível fora de uma narrativa
1986: “Quero que meu amanhã, seja uma hoje bem melhor [...]
que não fala do outro, mas da totalidade social a partir do indivíduo
quero o nosso povo bem nutrido, o país desenvolvido, quero paz e
monstruoso. Nesse aspecto, o tema produz permanente dialética
moradia, chega de ganhar tão pouco, chega de sufoco e de
entre uma abordagem a partir da antropologia social – sobre uma
covardia” (MACHADO et al., 1985).
coletividade amorfa, a massa ou o que se chama “povo” – e do
Por tudo isso, apesar de parecerem o braço mais forte da
existencialismo – sobre um sujeito individual cuja personalidade,
indústria cultural agindo nos dias de folia, as escolas de samba
crenças e valores são em si partes do problema e da solução dos prejuízos decorrentes da ausência de ética do Capital.
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Essa dialética joga com a figura do Monstro proposta pelo
subvertido: de subalterno invisível às estruturas de poder converte-
enredo, que a apresenta ora como símbolo ora como alegoria. A
se em protagonista da maior festa popular do planeta.
relação entre símbolo e alegoria que funda as reflexões de Walter
O Monstro ganha o centro das atenções do Concurso das
Benjamin (2011) sobre a complexa dialética da obra de arte barroca
Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro quando
pode servir ao entendimento desde Monstro. Como símbolo, o
deixa o anonimato em que se encontra imerso em suas localidades
Monstro mostra-se orgânico, abjeto, estranho e inumano. Nesse
de origem para povoar os espaços midiáticos e dos holofotes. Desta
sentido, o público-folião-leitor-ouvinte se coloca na posição da
posição “sambódroma”, por assim dizer, olha para seus ambiciosos
repulsiva criatura no exercício individual da intolerância em seus
criadores com o olhar de quem aponta neles os verdadeiros
aspectos sociológicos: intolerância religiosa, misógina, racista, da
monstros da sociedade moderna do desenfreado consumo, do custe
injustiça e da indiferença etc. Além disso, na posição coletiva da
não “a quem”, mas custe “quem” custar. Em suma, como alegoria o
produção de exclusão social, de exploração econômica do trabalho,
Monstro rebela-se e revela o que se mantinha oculto: a
da subjugação da população aos interesses de ampliação de lucros e
monstruosidade de quem o criou, os motivos perversos de sua
manutenção de privilégios. Nessa direção, Monstro é símbolo: é da
própria criação e suas implicações. Com sua insurreição na pista
ordem do signo que “remete a si mesmo” (LIMA, 2011, p. 198),
carnavalesca, ele é o máximo incluído: aquele Monstro que ganhou
não diz além do que é.
o feriado do carnaval: um tempo de exceção na sociedade do “estado de exceção” (BENJAMIN, 2011, p. 60; AGAMBEN,
Entretanto, de outra parte, o enredo adota o Monstro como alegoria, como potência de um não dito, de algo a ser revelado.
2004).
Não somente como equivalente do conceito de metáfora – um dito que produz sentidos além de sua suposta literalidade sem negá-la –,
O monstro e o beija-flor: considerações finais
mas, no entendimento benjaminiano, como algo que revela um saber oculto em sua imagem enigmática. Exposto aos olhos do
Monstro é aquele que não sabe amar – os filhos
outro, o criador, o Monstro alegórico da escola nilopolitana não
abandonados da pátria que os pariu faz lembrar o desfile da
pode, portanto, ver a si mesmo como tal. Nesse sentido, no
mesma Beija-Flor de Nilópolis que, em 1989, carnavalizou o
contexto atual da sociedade brasileira, o Monstro é marginal, vem
enredo Ratos e urubus, larguem minha fantasia! Se o Monstro de
da periferia, do subúrbio, dos becos, de acampamentos, invasões e
2018 parece aproximar-se de Mendigo de quase quatro décadas, a
guetos.
alegoria da Pietà (que fecha o desfile de 2018) parece remeter ao
Contudo,
quando
carnavalizado,
tem
seu
sentido
Cristo Mendigo, o carro Abre-Alas do desfile de 1989. Contudo, Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 134
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também há um trânsito, mesmo que menos explícito, do enredo de
imagem e numa questão: o beija-flor retratado no papel moeda de
2018 para o enredo de 1990: Todo mundo nasceu nu.
um real (que recentemente deixou de existir) prevalece sobre o lírio
Joãosinho Trinta – carnavalesco da Beija-Flor tanto nesse
do campo?
ano quanto no ano anterior – trata da caminhada humana pela terra,
No movimento dialético particular da história de seus
pontuada pelos sete pecados capitais: a luxúria, a soberba, a gula, a
enredos, a escola de samba de Nilópolis escolheu ser criadora de
ira, a avareza, a inveja e a preguiça. Cada um dos pecados pode ser
monstros em algumas ocasiões. Um exemplo recente é o enredo de
tomado como representação simbólica das leis eclesiásticas que
2014, intitulado O astro iluminado da comunicação brasileira, em
governam as relações interpessoais cristãs. Mas, no desfile
que a Beija-Flor prestou homenagem a um conhecido profissional
carnavalesco em questão, eles se tornaram alegorias da macro e da
da emissora de televisão considerada pelas forças de oposição
micropolítica que configuram essas relações sociais: segundo o
políticas atuais como principal responsável pela alienação coletiva
enredo, a solução para os problemas sociais atuais já está expressa
que paralisa o avanço social brasileiro. Naquele ano, a Beija-Flor
na Bíblia há séculos. Ou seja, para fugir da lógica dominante do
não retornou para desfilar no Sábado das Campeãs (o que significa
capital, de sua estrutura hierarquizada e fechada de poder, da
não estar entre os primeiros lugares do concurso carnavalesco do
opressão e da exploração próprias do sistema capitalista, é
Grupo Especial), o que não acontecia desde o ano de 1992. Se a
necessário e suficiente olhar os lírios do campo: “É a sabedoria
mesma escola que hoje dá voz aos abandonados pela pátria já
milenar lembrando que a força da vida reside nas criações
homenageou os criadores monstruosos destas criaturas, a questão
aparentemente simples” (TRINTA, 1989).
não é colocar suspeitas sobre o enredo de 2018, mas constatar que
Se fazemos corresponder os sambas de enredo de 1990
escolas de samba não podem ser somente monstros paridos ou
(APARECIDA et al., 1988) e 2018 (ASSIS et al., 2017), o “gigante
criadoras monstruosas: nelas coabitam ambos, em relação dialética
Brasil” do passado se torna a “pátria amada” do presente; os
que as transfigura ora em símbolos, ora em alegorias.
“monstros de aço” se invertem em “um monstro carente”, e “eu sou
Em se tratando do carnaval das escolas de samba brasileiras
povo, me acabo e não me aguento mais” se prolonga em “teus
não cabe concluir e sim reiniciar os trabalhos para o carnaval de
filhos já não aguentam mais”.
2019. Antes de finalizar nosso próprio trabalho, porém, retomamos
Se a desconstrução capitalista se encontra nas coisas
nosso começo em que os desfiles da Beija-Flor e da Paraíso do
simples da vida e da natureza podemos selecionar dentre os
Tuiuti, respectivamente Campeã e Vice-Campeã do Concurso das
elementos naturais o beija-flor, símbolo da escola, para alegorizar
Escolas de Samba do Grupo Especial da LIESA de 2018,
os dilemas do futuro da Beija-Flor. A contradição reside numa Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 135
Carlos Eduardo Silva & Fátima Costa de Lima
denunciaram a exploração, a opressão e a corrupção que assola o
ASSIS, Júlio; BEIJA-FLOR, Bakaninha; DI MENOR BF;
Brasil, hoje. Acrescentamos que, na reunião plenária da Liga
KIRAIZINHO; OLIVEIRA, Diego; ROSA, Diogo; SANTOS, JJ.
Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro que ocorreu
Monstro é aquele que não sabe amar – os filhos abandonados da
em 28 de fevereiro de 2018 ambas as escolas apoiaram a virada de
pátria que os pariu. In: Sambas de Enredo das Escolas de Samba
mesa que impediu o rebaixamento das últimas colocadas na
do Grupo - 2018. [CD]: Universal Music, 2017. Faixa 6.
apuração deste ano. Lembramos também que a Paraíso do Tuiuti
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios
foi contemplada com decisão semelhante em 2017, o que
sobre literatura e história da cultura (Obras Escolhidas, Volume
possibilitou que permanecesse no Grupo Especial em 2018.
I). Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense,
Este episódio fecha nosso artigo, acompanhado de uma
2012.
breve questão suscitada pela tarefa de escrever sobre os enredos da
______. Origem do Drama Trágico Alemão. Tradução de José
escola de samba que usam sua arte para protestar: em que “espaço
Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
habitado” (Santos, 1988) ou em que “local da cultura” (Bhabha,
BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Tradução de Myriam
2001) a pátria que pare e abandona seus filhos se encontra com a
Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves.
sentinela da libertação?
Belo Horizonte: UFMG, 2001. CABALLERO, Ileana Diéguez. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de Luis Alberto Alonso e
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VILA, Martinho da. Pra tudo se acabar na quarta-feira. Intérprete:
Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação da
Marcos Moran e Valcy. In: Sambas de Enredo das Escolas de
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 137
Milton.
Metamorfoses
do
Espaço
Habitado:
Disponível
1989.
em:
Disponível
em:
Carlos Eduardo Silva & Fátima Costa de Lima
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