Roberta Filgueiras Mathias
Caminhos do Carnaval: A folia em construção* *
Recebido em: 03.08.2017. Aprovado em: 10.11.2017
Carnival paths: The folia in construction Roberta Filgueiras Mathias**
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Doutoranda em Antropologia Social pela Universidad de San Martin, atualmente é pesquisadora na área de Antropologia Urbana estudando periferias latino-americanas. Cientista Social graduada pela PUC-Rio, especializada em Cultura e Filosofia pela PUC-Rio e Mestre em Filosofia pela PUC-SP na área de Estética-Filosofia do Cinema. e-mail: mathias.beta@gmail.com
Resumo – O ensaio fotográfico foi produzido durante os dias 11 e 12 de fevereiro nas ruas ao redor do Sambódromo. A ideia é captar a fluidez e a construção dinâmica do Carnaval da Marques de Sapucaí- que altera o fluxo e o trânsito dos arredores. Pensar o comércio e a paisagem urbana construídas nessa época do ano e, que somente fazem sentido dentro dessa lógica, nos leva a múltiplas interpretações e fruições desses novos espaços criados. Tanto as cores, quanto os corpos em movimento evocam uma estética própria de temporalidade reconfigurada. Palavras-chave: carnaval, paisagem urbana, comércio
Abstract – The photographic essay was produced during the days 11 and 12 of February in the streets around the “Sambódromo”. The idea is to capture the fluidity and dynamic construction of the Carnival of the “Marques de Sapucaí” - that changes the flow and the traffic of the surroundings. To think of the commerce and the urban landscape constructed at this time of the year, and which only make sense within this logic, leads us to multiple interpretations and enjoyments of these new created spaces. Both the colors and the bodies in movement evoke an aesthetic of reconfigured temporality. Keywords: carnival, urban landscape, commerce
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para desfilar, outras que estavam para acompanhar e registrar a
Carnaval e suas paisagens urbanas
montagem dos carros e os que estavam trabalhando. Recordei-me que brinquei intensamente durante a infância,
Pensando que meu trajeto desde a estação Cidade Nova até
ainda que possamos falar de um outro Carnaval, em bailes de clube
o Sambódromo estava perfeitamente delimitado por um caderninho
e em blocos infantis. Mas, era principalmente essa ida à Presidente
que continha informações sobre os bares ao redor do Terreirão do
Vargas para acompanhar a montagem dos carros que esperava com
Samba e do próprio Sambódromo, imaginei um percurso
ansiedade. O processo de montagem e desmontagem sempre me
completamente diferente do que o que consegui fazer. Digo estava,
encantou. Assim como me encanta essa circulação própria que o
pois deveria ter entendido que um roteiro é feito somente para não
carnaval gera. Por isso, também é interessante falar dos espaços
ser cumprido. Principalmente, no Carnaval.
que são criados para e pelo Carnaval.
Planejava descer na Cidade Nova, atravessar a Presidente
Logo na saída do Metrô, deparei com um bar o qual durante
Vargas e pegar a Rua Júlio do Carmo até o Bar da Dona Emília.
esses dois dias, desde as 18:00, funcionou de maneira intensa. O
Desse ponto, seguiria pelos entornos da Praça Onze. Nunca cheguei
bar: uma espécie de depósito com cadeiras de plástico ao redor.
ao bar da Dona Emília.
Curioso pensar que um mês depois estive nesse mesmo ponto e o
Já no metrô, um grupo de Clóvis. Agora, percebo que talvez
espaço encontrava-se vazio.
esse grupo tenha me acompanhado durante o trajeto, já que os
É essa configuração própria
propiciada pelo Carnaval que acabou por se apresentar nas fotos
encontrei algumas vezes na segunda tarde de caminhada.
que seguem. Algo como um delírio consciente (ou não) que nos
É importante dizer que esse ensaio foi construído durante
leva aos trajetos não esperados.
duas caminhadas pelos arredores do Sambódromo no domingo e na segunda de Carnaval de 2018, pois a minha ansiedade em definir,
Fotografia 1: Saída
delimitar e programar logo foi atropelada por esse grupo que me
do Metrô Cidade
lembrou – no carnaval, a temporalidade é outra. Incorporei essa
Nova (2018)
certa plasticidade do carnaval em minha rota.
Ainda assim, o
processo de montagem desse espaço me interessava: a maneira como as pessoas chegavam e como circulavam por essas ruas. Havia, como sempre há, uma mistura de pessoas que estavam ali
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Fotografia 3: Movimentação vista de cima da Passarela da Avenida Presidente Vargas (2018)
Fotografia 2: Velha Guarda do Império Serrano (2018)
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Fotografias 5 e 6: Organização dos instrumentos da Unidos de Vila Isabel (2018)
Fotografia 4: Grupo de Bate-Bolas no Metrô da Central (2018)
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Serrano, São Clemente, Unidos de Vila Isabel e Paraiso do Tuiutí no sábado. Domingo, acompanhei a montagem de Unidos da Tijuca, Portela, União da Ilha do Governador, Grande Rio, Acadêmicos do Salgueiro e Imperatriz Leopoldinense. Eram os últimos ajustes para que os efeitos funcionassem de acordo com o esperado na Sapucaí. Fumaça, luzes, alternância de cores. Os carros, fixos. Os corpos dos trabalhadores, como hologramas intermitentes. A Estátua da Liberdade da Portela em frente ao relógio da Central chamou minha atenção. Talvez naquele momento estivesse mesmo entendendo aquele espaço como uma multiplicidade de camadas que me eram apresentadas misturando os foliões dos blocos às pessoas que estavam chegando para desfilar. O “movimento” e suas paisagens.
Fotografia 7: Lambes no entorno do Sambódromo (2018)
Carros – Alegorias na cidade Caminhando pela Avenida Presidente Vargas vi os últimos preparativos dos carros e dos integrantes das escolas Império
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Fotografias 8 e 9: Carro Alegórico da Unidos de Vila Isabel (2018)
Fotografias 10 e 11: Carros Alegóricos da Grande Rio (2018)
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Fotografia 13: Carro alegórico da União da Ilha do Governador (2018)
Fotografia 12: Carro alegórico da Portela, ao fundo o relógio da Central do Brasil (2018)
Fotografia 14: Foliões do Cacique de Ramos observando os carros alegóricos do Salgueiro(2018)
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Fotografia 15: Carro da União da Ilha do Governador (2018)
Fotografia 16: Barracas na Avenida Presidente Vargas no entorno da estação Praça Onze (2018)
Efêmeros e Heterogêneo - o mercado do carnaval Também no comércio me interessava essa ideia da sobra, do que perdura e do que evapora. Então, por isso, além dos personagens, meu olhar acabava encontrando a interação entre esses elementos e o espaço. As barracas azuis, os latões recolhidos, os adereços, um par de sapatos arrebentado. Tudo isso, compunha uma Cidade Nova própria dessa época do ano. Novas paisagens, novos personagens em uma configuração que se renova a cada ano. Como se esses trajetos também fossem estruturas desmontáveis prontas para a reconfiguração no Carnaval. Fotografia 17: Pipoqueiro na Avenida Presidente Vargas no entorno da estação Praça Onze (2018)
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Fotografia 20: Comércio na Avenida Presidente Vargas (2018) Fotografia 18: Barraca na Avenida Presidente Vargas no entorno da estação Praça Onze (2018)
Fotografia 19: Bar temporário próximo ao metrô Praça Onze, na Rua Carmo Fotografia 21: Comércio na saída do metrô Praça Onze, Rua Laura de Araújo
Neto (2018)
(2018)
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Fotografia 22: Restos e rastros do carnaval, Avenida Presidente Vargas (2018) Fotografia 23: Rastros e restos do carnaval, Rua Carmo Neto (2018)
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