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Eu quero é botar meu bloco na Rua: foliões, o carnaval de rua e a fotografia na Exposição “Festa bra

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Cristiano Cardoso Maria Alice Rezende Gonçalves

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Recebido em: 01.07.2017. Aprovado em: 25.10.2017 ** Mestrando em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (PPGECC-FEBF- UERJ), Pós-Graduado (Lato Sensu) em Fotografia e Imagem (IUPERJ-UCAM) e formação em fotografia (SENAC). Atualmente coordena o Núcleo de Arte Copacabana (SME/ RJ). Integra a equipe técnica do Museu Afro Digital Rio (UERJ) e é assistente de pesquisa do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UERJ). Email: cristiano.cardoso@gmail.com *** Possui estágio pós-doutoral no Centre d"analyse et d'intervention socilogiques da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Bolsista Capes – 2011) e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2012). Bolsista do Programa de Incentivo a Produção Científica, Técnica e Artística – Prociência (2015-2018). Doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2002). Professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, docente do programa de pós-graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas da FEBF/UERJ, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UERJ e do Museu Afro-digital Rio. Email: marialicerezend@gmail.com

Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua: foliões, o carnaval de rua e a fotografia na exposição Festa brasileira: fantasia feita à mão, do CRAB I Want It to Put My Block in the Street: revelers, the street carnival and the photograph in the exhibition Brazilian Party: handmade fantasy, CRAB Cristiano Cardoso** Maria Alice Rezende Gonçalves*** Resumo – Este artigo tem como objetivo tecer algumas considerações sobre foliões, o carnaval de rua e a fotografia a partir da apreciação da exposição Festa brasileira: fantasia feita à mão, do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, no Rio de Janeiro. A exposição apresenta um grande panorama das festas populares brasileiras, mostrando assim a influência das culturas africanas, ameríndias e europeias na composição dos festivais brasileiros. Contando com materiais diversificados, a exposição apresenta fantasias em tamanho real como também material sonoro e multimídia, que registram esses festejos. Dada a relevância do carnaval na cidade do Rio de Janeiro, a curadoria da exposição dedica quatro salas a esse festival: Sala dos Espelhos, Barracão, Batucada Digital e Entre nessa Festa! Nessas salas encontramos retratados a figura do folião de rua, o ofício do artesão de uma das escolas tradicionais da cidade e os blocos de rua. A apreciação da exposição nos leva a concluir que o carnaval do Rio é uma expressão popular dinâmica. Ela se reconfigura e incorpora novas formas de fazer e de brincar o carnaval nas quais o povo é o dono da rua e da cidade. Palavras-chave: exposições, sociabilidade, carnaval de rua carioca, fotografia, escola de samba.

Abstract – This article aims to make some considerations about revelers, street carnival and photography based on the exhibition Brazilian party: handmade costume, at the Sebrae Reference Center for Brazilian Craftsmanship, in Rio de Janeiro. The exhibition presents a great panorama of Brazilian popular festivals, thus showing the influence of African, Amerindian and European cultures in the composition of Brazilian festivals. Counting on diversified materials, the exhibition presents full size costumes as well as sound and multimedia material, which record these festivities. Given the importance of carnival in the city of Rio de Janeiro, the curatorship of the exhibition dedicates four rooms to this festival: Sala dos Espelhos (Mirror Room), Barracão (Shed), Batucada Digital (Digital Beats) and Entre nessa Festa! (Join this Party!). In these rooms we find portrayed the figure of the street reveler, the craftsmanship of one of the traditional samba schools of the city, and the street blocks. Visiting the exhibition leads us to conclude that the Rio de Janeiro carnival is a dynamic popular expression. It reconfigures and incorporates new ways of organizing and enjoying carnival, in which the people own the street and the city. Keywords: exhibitions, sociability, carioca street carnival, photography, samba school.

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Eu quero é botar meu bloco na rua Brincar, botar pra gemer Eu quero é botar meu bloco na rua Gingar, pra dar e vender Eu, por mim, queria isso e aquilo Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso É disso que eu preciso ou não é nada disso Eu quero é todo mundo nesse carnaval. Sérgio Sampaio

eles mesmos ou confeccionadas nos barracões das escolas de samba. Os blocos de rua no carnaval carioca O crescente número de blocos de rua ativos no carnaval 2018, registrados ou não na Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, parecem comprovar o sucesso desse modelo de organização carnavalesca. O formato atual de blocos de rua é diverso, divididos

“Eu quero é botar meu bloco na rua”. O desejo do

em enredo, sujo, embalo, entre outras classificações. Ao longo das

compositor Sérgio Sampaio (1942-1994) é sempre acolhido pelos

últimas décadas, pouco a pouco, os blocos tradicionais retornaram

foliões durante o carnaval da cidade do Rio de Janeiro. A partir

às ruas, e outros formatos de blocos surgem, alguns temas

desse desejo, o artigo tem como objetivo tecer algumas

emergem nas fantasias, como novos tipos sociais, raciais e sexuais,

considerações sobre os foliões, o carnaval de rua da cidade do Rio

e a crítica à sociedade adapta-se às questões do nosso tempo. O que

de Janeiro e suas imagens na exposição Festa brasileira: fantasia

parece uma grande bagunça, na qual o mundo foi virado de ponta

feita à mão, do Centro Sebrae de Referência do Artesanato

cabeça, não acontece por acaso. É uma loucura que exige

Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro, destacando os registros

planejamento e produção. O financiamento, as negociações com a

fotográficos do carnaval de rua na cidade do Rio presentes na

prefeitura, o local de saída, os temas, as músicas e músicos, as

referida exposição. Em um primeiro momento, apresentamos os

fantasias, a crítica social, as licenças para venda de alimentos, tudo

blocos carnavalescos na tentativa de compreender e refletir sobre as

isso é cuidadosamente escolhido e planejado. A festa do carnaval

opções curatoriais e expográficas, em que os blocos, seus foliões e

de rua adapta-se à atualidade.

a relação com as imagens fotográficas aparecem como centrais em

Nessa onda de velhos e novos blocos de rua, observa-se

duas das salas da exposição. Em um segundo momento do texto,

também o crescente interesse de artistas que buscam visibilidade

apresentamos nosso percurso pela exposição a partir (1) da

nessa modalidade de organização carnavalesca como vitrine para a

centralidade do carnaval e dos blocos carnavalescos nessa festa

divulgação do seu trabalho e ampliação do seu público. Em geral,

brasileira e (2) da atuação que foliões têm em se engajar no

esses novos blocos recebem o nome do artista que o promove. No

carnaval, muitas das vezes a partir das fantasias, feitas à mão por

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Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (RIOTUR)

site da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, os blocos são assim

permanências no carnaval de rua está o Cordão da Bola Preta,

apresentados:

fundado em 1918, sendo o mais antigo bloco de carnaval da cidade. (...) tradição no carnaval da cidade, os blocos de rua vão desfilar por todas as regiões do Rio. Em constante atualização, a lista conta atualmente com 473 blocos e 600 desfiles, que acontecem até 18 de fevereiro. Os megablocos estão concentrados na região do Centro e no Aterro do Flamengo, e os que desfilavam na praia do Pepê, na Barra da Tijuca, foram realocados para oferecer melhor estrutura aos foliões. (...) “O carnaval é a nossa maior manifestação cultural e tem a cara da cidade. Teremos desfiles em todas as regiões do Rio, dos pequenos aos megablocos, com públicos estimados que variam de 100 a 1,5 milhão de foliões(...)acrescenta Marcelo Alves, presidente da RioTur1.” (PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, 2018)

Cabe observar que o carnaval de rua carioca é formado tanto por foliões independentes quanto por blocos organizados ou improvisados. Conforme Couri (2013), a revitalização do carnaval de rua carioca ganhou expressividade nos anos 1980. O final da ditadura civil militar marcou a chegada dos “blocos de bairro” como: Simpatia é Quase Amor, Sovaco do Cristo e Barbas, blocos que permanecem no carnaval de rua até hoje. De acordo com a mesma autora, um segundo movimento teve seu início em 1990, com destaque para grupos como: o Bangalafumenga e o Monobloco, responsáveis pelo surgimento de oficinas de percussão no cenário carnavalesco. Cabe lembrar os blocos Rio Maracatu e do Quizomba, que ofereciam oficinas de percussão, misturavam

Desde o século XIX, nota-se no carnaval de rua na cidade

ritmos e usavam instrumentos musicais típicos das baterias das

do Rio de Janeiro a presença de grupos de foliões de várias

escolas de samba. Este movimento atraiu jovens e recursos

naturezas: ranchos, cordões, sociedades ou blocos, entre outras

financeiros, tornando-se referência nesta nova formatação dos

designações. Pouco a pouco o carnaval foi se organizando,

blocos de rua. Houve ainda um terceiro movimento, que se

diferenciando as categorias de agremiações: desde as elitistas

caracteriza pela adesão de foliões, a chegada de financiamento da

sociedades carnavalescas, os ranchos e cordões populares até

prefeitura e do setor privado, a ampliação da oferta das oficinas de

chegarmos à oficialização dos desfiles das escolas na década de

percussão e o surgimento de blocos temáticos. Rouvenat e Santos

1930. O carnaval continua em constante transformação, se

(G1.2018) relatam que, segundo estudo realizado pela Fundação

adaptando às exigências do Estado e do mercado sem deixar de

Getúlio Vargas (FGV), o carnaval 2018 injetou mais de três bilhões

conservar suas marcas de festa popular. Ao longo do século XX,

de reais na economia da cidade. O estudo constata também que

surgem vários tipos de blocos: enredo, sujo, embalo, afro, piranhas,

mais de 6,8 milhões de pessoas circularam, entre as quais 1 milhão

cada qual com características e interesses diferenciados. Entre as

de turistas. Segundo o atual prefeito da cidade, Marcelo Crivella, o

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carnaval foi esplendoroso. Os dados aqui mostram que a prefeitura

desfiles foram autorizados. Contudo, os chamados blocos piratas,

trabalhou muito para o sucesso do nosso carnaval. Para a imprensa,

que não obtiveram autorização para desfilar, também foram às ruas.

o Bloco da Preta foi o campeão de participação, arrastando 760 mil

Devido a esses dados, a prefeitura anunciou que para o próximo

pessoas no Centro da cidade. Na orla de Copacabana, o Bloco da

ano, 2019, a meta será diminuir o número de blocos, declarando

Favorita reuniu 690 mil foliões. E o Bangalafumenga concentrou

que “chegou ao limite e que vai reduzir a quantidade de blocos que

400 mil pessoas no Aterro do Flamengo. A cantora Preta Gil

desfilam pela cidade” (G1. 2018). Cabe refletir sobre os caminhos

anunciou em rede social:

tomados pela política cultural na cidade. O plano estratégico da

O Bloco da Preta terá como tema “Todas as Cores do Rio”: Assim como meu último disco, que também tem esse nome, o bloco vai às ruas para celebrar o povo, sem distinções - índio, branco, negro, gay, pobre e rico, homem e mulher… o Carnaval é a celebração da diversidade que é o próprio Brasil, e que neste período invade as ruas e toma posse delas. O Carnaval é uma “geleia geral”, assim como a minha vida, meu público e minha obra (BLOCO DA PRETA, 2018).

prefeitura de Marcelo Crivella indica que os projetos culturais não são uma prioridade. As verbas existentes de fomento foram suspensas ou redirecionadas para outras áreas, os editais e os valores das dotações foram reduzidos. Trata-se de uma política cultural de corte de verbas. Durante o carnaval de 2018, no qual o prefeito desempenha papel simbólico, ele não estava na cidade. A Associação Independente de Blocos de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade, a Sebastiana, fundada em 2000, reúne alguns dos mais tradicionais blocos de rua da cidade surgidos

Quanto custa colocar o bloco na rua? Apesar de alguns blocos contarem com o apoio da iniciativa privada e da prefeitura, que custeia o bloqueio do trânsito, a limpeza das ruas e a distribuição de banheiros químicos, diversos representantes de blocos têm reclamado da baixa contrapartida financeira, por parte da prefeitura, apontando que um carnaval esplendoroso não se faz sem conflitos e tensões, múltiplas narrativas ou posicionamentos políticos. Mesmo com a redução do apoio financeiro das empresas privadas, os blocos permanecem ocupando as ruas durante o carnaval, ampliando sua presença nas ruas nos períodos pré e póscarnaval (G1. 2018). Segundo a prefeitura, 474 blocos e 597

no período pós-ditadura e outros que surgiram nas décadas seguintes (SEBASTIANA, 2016). De acordo com Couri (2013), há uma diversidade de tipos de blocos de rua. Alguns são mais estruturados e mantêm oficinas de percussão, outros mais espontâneos são criados só para a diversão. Para a Sebastiana, o importante é que este carnaval continue. O que estes blocos têm em comum? A performance de seus foliões pela fantasia parece uma constante. No Rio de Janeiro podemos acompanhar as fantasias em preto e branco do Cordão da Bola Preta ou as fantasias indígenas do desfile do Cacique de Ramos.

Famílias, amigos e grupos se

reúnem a partir de uma temática que pode envolver compra de

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Há quem diga que eu não sei de nada Que eu não sou de nada e não peço desculpas Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira. E que Durango Kid quase me pegou Eu quero é botar meu bloco na rua Brincar, botar pra gemer (Sérgio Sampaio, 1973)

fantasia temática, modificações nos cabelos e maquiagem. Em alguns, abadás são vendidos para arrecadação e para possibilitar o bloco na rua. Em outros, seus músicos saem fantasiados, se juntam a outros grupos de dança e performance, em que a multiplicidade de fantasias e suas saídas pelas ruas se tornam centrais, como os blocos que desfilam no Aterro do Flamengo, importante via de acesso e local de lazer da Zona Sul do Rio. A ocupação das ruas, a

A exposição Festa brasileira: fantasia feita à mão

relação com fotógrafos profissionais e amadores, a circulação na mídia e nas redes sociais são outras dimensões deste evento.

As políticas de patrimonialização da cultura imaterial iniciadas na primeira década do século XXI no Brasil reacenderam

Para DaMatta (1983), todas as sociedades alternam suas

o interesse pelas festas populares e por pessoas guardiãs de

vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, períodos ordinários e

conhecimentos considerados tradicionais. Essas festas têm sido

extraordinários. A viagem da rotina para o extraordinário, além de

identificadas

depender de uma série de fatores, pode variar de sociedade para

determinado grupo social, ou de vários. Cavalcanti e Gonçalves

sociedade, podendo ser realizada coletiva ou individualmente. O

(2010) observam que elas, embora possam, do ponto de vista dos

carnaval é uma dessas festas. É ele que possibilita sair da rotina,

discursos públicos de patrimônio, ser consideradas como

inverter a ordem, entrar num mundo extraordinário. Durante o

fenômenos intangíveis ou imateriais, transbordam em muito esse

carnaval, é possível andar pela cidade sem direção, ir a lugar

enquadramento discursivo. Nada mais concreto e sensível do que

nenhum, fantasiar-se, ser outro por alguns dias. A cidade é do

um evento festivo. Nesse sentido, o carnaval, materializado nas

folião. Ir para onde, vir de onde? As fantasias libertam, despertam a

fantasias, adereços, instrumentos musicais, artesãos ou foliões, tem

atenção de todos, tornando-se objeto de interesse de turistas e

muito a dizer sobre o mundo dos brasileiros. A exposição Festa

fotógrafos. A rua tem uma nova dinâmica que inverte a lógica

brasileira: fantasia feita à mão é um exemplo de que a rubrica

cotidiana das cidades. Sem dúvida aderem ao chamado de Sérgio

“intangível” reduz a complexidade das festas brasileiras. Os

Sampaio (1973): “Eu quero é botar meu bloco na rua, gingar, pra

curadores apontam dois princípios norteadores da exposição, “o da

dar e vender”. O que parece gratuito está repleto de sentido para o

festa e da mão que a inventa[:] [por] trás da exuberância visual das

folião. A fantasia permite que sejamos tudo que quisermos ser.

festas, de seus sons, ritmos e cores, estão os artesãos” (CRAB,

ou

reivindicadas

como

patrimônios

de

um

2017). Por meio de fotografias, instrumentos musicais, objetos

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Os curadores selecionaram ainda um conjunto de pequenas esculturas de arte popular pertencentes a duas coleções privadas, a de João Mauricio Araújo Pinto e Irapoan Cavalcanti de Lyra (CRAB, 2017).

cedidos por museus e centros culturais, fotos, roupas e adereços,

percurso da exposição e levá-la para casa. Na entrada, o público é

além de sala interativa, a exposição oferece um verdadeiro

recebido em um espaço decorado onde as paredes estão forradas de

caleidoscópio sobre o carnaval de rua.

chita ampliada em doze vezes e estandartes pendem do teto com

A exposição, com a curadoria de Raul Lody e Leonel Kaz e

inscrições de saudações de vários blocos. Nos estandartes há

concepção visual de Jair Souza, permaneceu no Centro de

saudações e trechos das músicas dos blocos e romarias de diversas

Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no primeiro andar do

localidades do Brasil, como o Galo da Madrugada, da cidade do

prédio situado na Praça Tiradentes, 69, no Rio de Janeiro, de junho

Recife, ou as cirandas das festas de São João do Nordeste. Nesse

de 2017 a março de 2018. Era composta de sete ambientes, os quais

mesmo ambiente, em destaque, há uma grande bandeira vermelha e

destacavam as festas brasileiras por meio de objetos, adereços,

branca com o desenho de uma máscara no qual se lê: “Festa

máscaras, vestimentas e instrumentos musicais. O trabalho de

brasileira: fantasia feita à mão”. A exposição conta com materiais

pesquisa dos curadores teve apoio do SEBRAE. As peças que

diversificados, entre eles bonecos de argila, máscaras de papel,

fizeram parte da exposição foram produzidas para festas como a

palha ou tecido, além das fantasias em tamanho real de diversos

Congada, as Cavalhadas, as Folias de Reis, os Reisados, o

festejos brasileiros, estandartes com trechos de músicas e material

Maracatu Rural, o Bumba Meu Boi, o Boi de Mamão, o Carnaval,

sonoro multimídia. Com um simples toque em uma tela touch

festas indígenas, entre outras, sendo reunidas pelos curadores junto

screen, o visitante pode ouvir os sons de vários instrumentos

a associações de artesãos2. A exposição usou também espaços

típicos das festas populares brasileiras. Além disso, destacamos as

interativos que tornam a experiência dinâmica e participativa.

fotografias e vídeos como recursos importantes utilizados ao longo

Segundo os curadores, a exposição é uma produção coletiva dos

da exposição.

três grupos considerados fundadores do povo brasileiro: o branco, o

A exposição está subdividida em sete (7) espaços. O

negro e o índio. Afirmam que dessa mistura surgem máscaras,

primeiro, Sala dos Espelhos, por meio de fotografias de Rogério

indumentárias, coreografias e sonoridades que fazem as festas

Reis, homenageia o folião do subúrbio e a criatividade de suas

populares brasileiras, reforçando, assim, a crença na brasilidade

fantasias produzidas com objetos encontrados ao acaso. O segundo,

mestiça da festa brasileira (CRAB, 2017).

Festa Feita à Mão, destina-se ao cortejo e apresenta obras criadas

Logo que o visitante chega à antessala da exposição do

por artesãos dispostas em vitrines, destacando o trabalho do artesão

CRAB, pode escolher entre várias máscaras coloridas de papel que

e a identidade dos grupos étnicos e regionais. No terceiro,

remetem às diversas festas populares: o visitante é convidado a

Máscaras da Fantasia 1, são encontradas as máscaras de várias

escolher aquela que mais lhe agrada, podendo usá-la durante todo o

festas brasileiras modeladas com vários materiais como papel,

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Optamos por inserir no artigo fotos tiradas no contexto da exposição. Sem que isso comprometa a qualidade, podemos em alguma medida, perceber como as fotografias estavam dispostas no projeto expográfico.

tecido, fibras vegetais. O quarto, Máscaras da Fantasia 2, reúne as

em três paredes. As paredes cobertas de espelhos estimulam nossa

indumentárias que se integram às mascaras e instrumentos

percepção das fotografias, dando uma perspectiva infinita das

musicais, adereços ou estandartes. No quinto, Barracão, há uma

imagens projetadas. Aqui se tem uma amostra do carnaval de rua

multiprojeção de cinco minutos do filme O próximo samba, de

do Rio de Janeiro, do folião suburbano e suas fantasias criativas.

Marcelo Lavandoski, sobre a complexidade do fazer artesanal para

São foliões que posam individualmente ou em grupo para o

um desfile filmado no barracão do G.R.E.S. Estação Primeira da

fotógrafo Rogério Reis. A videoinstalação e as multiprojeções

Mangueira. O sexto, Batucada Digital, é interativo, sobre os

tornam o espaço dinâmico, valorizando as fantasias dos foliões.

instrumentos artesanais de percussão. No sétimo e último espaço,

Simultaneamente, três fotos são projetadas em uma sala cheia de

Entre nessa Festa, é interativo e estimula a criatividade do visitante.

espelhos, retratando os foliões da década de 1980 até o ano de

Lá o público podia manusear fantasias, fantasiar-se, tirar selfies e

2001. Como metodologia, Reis convidou foliões que andavam

apreciar a exposição de fotografias do Carnaval de 2007. Em todos

pelas ruas dos subúrbios a posar. Pensando no ofício do fotógrafo,

os espaços da exposição, a sensação de familiaridade e de

durante muitos anos se creditou a esse aparato o status de um

identificação é imediata, ou seja, não somos visitantes passivos,

material com grande valor objetivo, e termos como “a caneta da

participamos dessas festas, interagimos com as coleções expostas.

natureza” reforçavam a fotografia como um produto sem

As

momentos

interferência humana. Segundo Burke (2017, p. 36), tem sido dito

extraordinários. Dos sete (7) espaços que compõem a exposição,

com frequência que “a câmera nunca mente”. De acordo com

quatro (4) deles são dedicados integralmente ou parcialmente ao

Sontag (2004, p. 16), as fotos fornecem um testemunho, algo de

carnaval da cidade do Rio de Janeiro. Por termos como foco a festa

que ouvimos falar, mas da qual duvidamos parece comprovado

do carnaval carioca, este artigo descreverá: a Sala dos Espelhos, o

quando nos mostram uma foto.

festas

populares

fazem

parte

de

nossos

Barracão, a Batucada Digital e Entre nessa Festa! Essas salas da

Em 1840, o Autorretrato de um homem afogado, fotografia

exposição tratam do carnaval a partir de várias perspectivas: do

de Hippolyte Bayard, apresentava este fotógrafo, que utilizava a

folião, do ofício do artesão nas escolas de samba, dos instrumentos

fotografia como uma forma de protesto, como afogado. Essa

musicais usados na festa e dos blocos de rua.

história demonstra as possibilidades da interferência do fotógrafo

A Sala dos Espelhos: o fotógrafo e os foliões3

sobre a máquina em meio às técnicas e procedimentos da máquina fotográfica, além da possibilidade de expressar a subjetividade do

Neste espaço, cinquenta e uma (51) fotos de Rogério Reis, da série Na Lona (1986-2001), são projetadas em grande formato,

autor ou o interesse em criar uma história, por meio da fotografia, da subjetividade humana mostrando a sua força sobre a máquina.

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No entanto, alguns autores reforçam o forte caráter subjetivo e a

ensaio torna todas as fotos homogêneas no que diz respeito ao pano

interferência humana na fotografia. Em A câmara clara, obra

de fundo. Isso nos impede de identificar a localidade e a data em

publicada na década de 1980, Roland Barthes retoma uma reflexão

que foram realizadas as fotos. Sabemos somente que os foliões

já apresentada por Walter Benjamin na década de 1930, na qual a

estavam nos subúrbios cariocas e em que décadas foram realizadas,

fotografia está impregnada de subjetividade, está subjetividade está

pois assim nos é informado pelo projeto, o que torna essas

presente na produção da fotografia, com a interferência humana no

fotografias atemporais e particulares.

ato de seleção do que será fotografado e também na recepção da

Em seguida descreveremos algumas fotos que compõem o

imagem pelo observador. Benjamin (2012, p. 100) argumenta que,

ensaio de Reis nas quais a criatividade do folião é a característica

apesar de toda a perícia do fotógrafo e de todo o planejamento na

dominante, confirmando que o carnaval é a possibilidade de trocar

postura de seu modelo, o observador sente a necessidade

de posição na estrutura social. Podemos mudar de profissão, de

irresistível de procurar nessa imagem a pequena centelha do acaso,

sexo, de estado civil, ou até mesmo tornamo-nos meteorologistas,

do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem.

noivas ou mascarados.

Conforme Peter Burke (2017), as fotografias ganharam cada vez

Na figura 1, em frente à lona cinza, um senhor montado em

mais espaços em diversas análises históricas e sociais. A falta da

uma bicicleta não olha para a câmera, e sim para a esquerda.

objetividade da fotografia não imprimiu a esta uma perda da sua

Mantém a cabeça levemente inclinada para o alto como se estivesse

importância como importante material para reflexão sobre um

olhando para o céu. Na caixa que porta em suas mãos está escrito

período histórico específico ou mesmo sobre as manifestações

“Meteorologia” e em um cartaz preso na bicicleta lê-se: “Que bom

culturais.

que não choveu”.

O registro da câmara pode ter vários usos: pode ser uma forma de guardar a memória pessoal, da família, dos amigos ou uma forma de construir uma memória de eventos como as festas. As fotografias de Reis podem ser entendidas como documentos de duas décadas (de 1980 e 1990) do carnaval de rua carioca. Elas nos convidam a refletir sobre a participação dos moradores da cidade, o uso de materiais, as fantasias, a crítica social, entre outros temas presentes no carnaval ao longo deste tempo. Como observamos em Reis, o uso de uma lona cinza como uma característica marcante do Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 85


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Figura 1 – Fotografia da exposição. Fonte:Cardoso, 2017.

Figura 2 – Fotografia da exposição. Fonte:Cardoso, 2017.

Na figura 2, vemos um homem branco vestido de noiva com

Na figura 3, dois jovens usando camisas e blusas largas

brincos e luvas brancas. O homem olha fixamente para a câmera

cobriam os rostos com máscaras feitas de camisas. O fotografado

inclinando levemente a cabeça para baixo. Sua mão direita toca

da esquerda estava virado para a câmera. Seu olhar direcionava-se

suavemente as rendas do vestido, enquanto a outra se projeta no ar

para a câmera, porém a camisa que servia de máscara tampava

levemente virada para baixo.

levemente um dos seus olhos. O jovem da direita estava com o corpo levemente inclinado para fora do enquadramento, mas seu o olhar buscava a câmera.

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capturar o instante, retirando qualquer tipo de interferência. Em

Rogério Reis nasceu no Rio de Janeiro em 1954. Jornalista com forte influência da fotodocumentação, Reis produziu diálogos sobre questões urbanas na cidade do Rio de Janeiro. Em 1999 recebeu o Prêmio Nacional de fotografia da FUNARTE com sua série Na Lona, uma série de expressão pessoal com o registro de foliões em estúdio improvisado em plena rua que resultou na publicação do livro Carnaval na Lona (2001) (REIS, 2016).

muitas fotografias do início do século XX, os cenários serviam como forma de trazer uma referência distante dos fotografados. Pinturas em telas, elementos arquitetônicos ou objetos como colunas, prédios famosos ou elementos da própria natureza eram usados com pano de fundo para adornar a fotografia. Assim como os elementos citados, no caso das fotografias de Reis, a lona também era elemento que delimitava o espaço do sujeito visível para a câmera. Observando o ensaio, constatamos que não há foliões em movimento, na rua, em frente aos prédios ou em suas casas. Fica claro no ensaio Na Lona que o plano principal do enquadramento são os foliões suburbanos e suas fantasias4. Barracão e Batucada Digital A sala Barracão reflete a complexidade do carnaval do Rio de Janeiro com uma videoinstalação formada por uma parede coberta por 56 mil discos metálicos. Projetado sobre ela, o filme O Figura3 – Fotografia da exposição. Fonte:Cardoso, 2017.

O que há de comum entre todas essas fotografias? Apontamos o cenário em que os foliões foram fotografados como um dos destaques. Todos os foliões se deixaram fotografar em um cenário com uma composição pré-estabelecida pelo fotografo. A lona tem a função de dirigir onde os personagens fotografados devem se posicionar. A lona separa, delimita o espaço, é elemento importante no cenário. Ela estabelece fronteiras entre o folião e a localidade, como também entre o folião e o fotógrafo e entre o folião e os demais foliões. O isolamento do fotografado servia para

próximo samba, de Marcelo Lavandoski, destaca o fazer do artesão por meio de imagens do barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S.) Estação Primeira da Mangueira. As imagens do fazer artesanal de marceneiros, costureiras, pintores e escultures na confecção de alegorias ou fantasias foram captadas durante oito (8) meses de filmagens no barracão da escola. Em uma pequena arquibancada, o visitante pode assistir à projeção contínua de imagens referentes à construção do carnaval da escola: o cotidiano da escola, a produção das fantasias, os ritmistas preparando os instrumentos, a produção dos carros alegóricos e tudo que envolve

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os preparativos para o desfile da agremiação. Os discos metálicos

Rodrigues, Elisangela Leite, Fábio Caffé, Luiz Baltar e Monara

ficam em constante movimento no ambiente devido ao vento que

Barreto. O expectador pode se inserir na fotografia por meio de

circula, dando a sensação de constante movimentação e

uma junção da fotografia já existente com uma fotografia tirada

transformação das imagens, como é a permanente transformação do

naquela hora, automaticamente com os recursos disponíveis na

carnaval.

sala. Segundo os curadores: [...] As 104 imagens, que estarão também expostas em impressão digital sobre papel, numeradas, serão projetadas em looping, em grande formato, como um cenário. O visitante escolhe a que deseja, clica no número, e se posiciona para sua selfie. Além de ser compartilhada em suas redes sociais, a imagem resultante irá para um banco de dados na internet, que ficará disponível durante o período da exposição. O designer Jair de Souza conta que queria que o público começasse e terminasse o percurso da exposição em meio a “uma revoada de imagens fotográficas, estabelecendo um contraponto entre a sala inicial, com as fotos de Rogério Reis clicadas já na década de 1980, e as atuais, do coletivo Folia de Imagens”. “Um percurso do olhar, capaz de mostrar a criatividade anônima do folião, a brincadeira do acaso, a originalidade de transformar qualquer objeto em fantasia” [...]. (DASARTES, 2017)

A sala Batucada Digital foi pensada e projetada para ser interativa. Destaca a importância da música e dos instrumentos musicais. As paredes forradas com caixas de ovos visam fornecer o isolamento acústico necessário para tocar digitalmente doze (12) tipos de instrumentos de percussão, como pandeiro, agogô, zabumba, tambor, tamborim, dispersos em uma mesa digital localizada no centro da sala. A mesa permite que até doze (12) pessoas toquem simultaneamente. Suspenso no teto sobre a mesa digital se encontram outros instrumentos artesanais (caxixi, agogô, triângulo, entre outros). O visitante pode apertar a tela referente a cada instrumento e, então, o computador reproduz o som do instrumento. Caso mais de uma pessoa aperte a tela ao mesmo tempo, é possível criar um conjunto sonoro com os instrumentos virtuais.

Como forma de contemplar essa proposta, os organizadores

Entre nessa Festa!

acrescentaram nesse espaço artefatos que ajudavam a compor a A última sala da exposição também é interativa. Ela convida o visitante a entrar na festa do carnaval. Como possibilidade de interatividade, o visitante é convidado a se retratar diante de mais de cem (100) imagens, cenas do carnaval de rua de 2017, feitas pelo coletivo Folia de Imagens. Essas imagens

fotografia do visitante, como máscaras, chapéus, fantasias e adereços, possibilitando assim um momento de inserção do visitante na festa carnavalesca. Por meio da interatividade, da brincadeira e da construção de uma combinação de elementos de fantasias e adereços, entravamos nessa festa.

originadas dos blocos de rua foram realizadas pelos fotógrafos AF Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 88


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Fotografias na festa de rua Os visitantes são convidados a fotografar a fotografia, se inserindo nelas. A proposta de interatividade do visitante com as fotografias produzidas pelo coletivo Folia de Imagens acaba por transformar o visitante/expectador em visitante/produtor de imagens, inserindo-o na memória da exposição. O conjunto de fotografias de foliões dos blocos de rua no carnaval de 2017 foram produzidas especificamente para participação nesta exposição. A proposta do ensaio foi de retratar os foliões/artesãos nas ruas da cidade. Diferentemente do ensaio Na Lona, de Rogério Reis, exposto na Sala dos Espelhos, esse não exclui o folião do espaço da Figura 4 – Fotografia da exposição. Fonte:Cardoso, 2017.

folia. Não se trata de um estúdio improvisado, as fotografias são tiradas nos blocos de rua. Assim, conseguimos ver esses

Na figura 5, vemos um casal, ele sem camisa e ela com uma

fantasiados inseridos no contexto do carnaval de rua. Além do fotografado, outros foliões compõem o pano de fundo. Em seguida apresentaremos algumas fotografias que pertencem ao conjunto produzido pelo coletivo Folia de Imagens. Na figura 4, em meio ao bloco, dois rapazes sem camisa

blusa. Os dois usam uma placa com a imagem do filósofo Karl Marx.

Na

placa

DOUTRINADOR”.

dele

lê-se:

“PERIGO!

Na

placa

dela

HISTORIADORA DOUTRINADORA”.

usavam uma moldura branca, na qual simulavam a tela de dois aplicativos para o celular: Happn e Tinder. À esquerda, um “X” em vermelho, à direita uma representação do coração, em referência aos aplicativos de encontro que se tornaram bastante populares nos dias atuais.

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lê-se:

SOCIÓLOGO “PERIGO!


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Cabe observar que, em meio à exposição que trata sobre as festas brasileiras, quatro salas são dedicadas ao carnaval carioca total ou parcialmente. Diversos pesquisadores e jornalistas apontam os carnavais do Rio, de Recife e de Salvador como modelos nacionais da festa sendo difundido no país e no exterior. Entre esses três modelos, consideramos que o carnaval do Rio tem a preeminência sobre os demais, talvez isso justifique a presença marcante do carnaval carioca na exposição. Nas quatro salas da exposição, o carnaval do Rio de Janeiro é representado como plural, dada a dinâmica da festa e a diversidade de formatos que ela assume através dos tempos. A festa Figura5 – Fotografia da exposição. Fonte: Cardoso, 2017.

Nas últimas décadas, identidades e patrimônios associados a grupos e movimentos sociais, étnicos, profissionais e religiosos vêm sendo reivindicados, estabelecidos e reconhecidos. Deste modo, o que era possível anteriormente, como a representação caricata e pejorativa de negros, índios, mulheres, homossexuais, são evitadas nos blocos de rua (PONTES, 2017). As críticas e as denúncias pela internet são as principais formas de atuações dos militantes dos grupos minoritários. Cabe ressaltar que o discurso em defesa das minorias não chegou a modificar completamente a cultura do carnaval. Contudo, notamos que a maioria das fotos do coletivo Folia de Imagens era de crítica social. Não encontramos nenhuma fotografia que se referisse, de uma maneira jocosa ou preconceituosa, aos grupos minoritários. Algumas conclusões

é retratada a partir de pelo menos três representações: (1) o lugar da liberdade personificado no folião/artesão livre e criativo retratado no ensaio do fotografo Rogério Reis; (2) o lugar da produção artesanal identificado no trabalho do barracão do G.R.E.S. Estação Primeira da Mangueira e pelos instrumentos musicais reunidos no espaço da Batucada Digital; e (3) o lugar da criação, da revitalização e da inovação representado pelos blocos do carnaval de rua que possuem formato livre e diverso. Estes foram fotografados pelo coletivo Folia de Imagens. Nesse contexto múltiplo, a fotografia também é compreendida como uma criação artesanal, que nos ajuda a pensar, ainda que parcialmente, esse complexo mundo que é o carnaval das escolas, do subúrbio e das ruas. Nesse sentido, a fotografia é uma ferramenta usada para o registro, a documentação e a divulgação dessa festa e para marcar um contraponto entre as fotos da década de 1980 de Rogério Reis e as fotos atuais do coletivo Folia de Imagens realizadas em 2017.

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Nos espaços Sala dos Espelhos, Barracão e Entre nessa Festa, as imagens estão a serviço da construção uma memória do carnaval. Percebemos aqui, por meio dos registros da exposição e da relação que a fotografia assume com essa proposta, a centralidade dos blocos neste projeto e a presença do carnaval carioca, também evidente na instalação que trazia um barracão da Cidade do Samba. Encerramos com a sugestão de Sampaio: “Eu quero é botar meu bloco na rua”. Esta canção foi lançada em 1973, sendo recebida, na época, como um protesto contra a ditadura pela sua força política; no entanto, aqui pensamos nela como um hino do folião de rua, ato também político por representar a atitude transformadora da brincadeira, da criação, da vida. Num momento em que o povo brasileiro assiste estupefato aos desmandos de parte das elites corruptas brasileiras, a letra de Sampaio parece adequada e atual. Nas entrevistas feitas com Sérgio Sampaio, era recorrente os entrevistadores lhe perguntarem “e aí, querendo botar o bloco na rua?”, em alusão a um dos versos de sua canção. E ele costumava responder: “Não, já botei, agora falta vocês botarem.” (MARTINS, 2017).

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