Ulisses Corrêa Duarte
Do Rio de Janeiro aos Pampas: tempo ritual, competição e circulação de profissionais do samba entre carnavais* From Rio de Janeiro to the Pampas: ritual rhythm, competition and circulation of samba professionals among carnivals Ulisses Corrêa Duarte** *
Recebido em: 02.02.2017. Aprovado em: 20.11.2017
**
Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2009). Ppesquisador do Núcleo de Pesquisas sobre Culturas Contemporâneas (Nupecs), na linha de pesquisa “Urbanização, Sociedade e Cultura no Brasil”. Possui ênfase nos estudos de Antropologia Urbana. Email: correaduarte7@gmail.com.
Resumo – O artigo pretende analisar o carnaval das escolas de samba de Uruguaiana na região dos Pampas, e o contexto carnavalesco na fronteira política no extremo sul do Brasil com a Argentina e o Uruguai. O calendário estendido do carnaval de escolas de samba na região promove um tempo ritual da festa peculiar, que possibilita uma intensa relação composta por trocas e as negociações econômicas e socioculturais entre os carnavais dos Pampas e os polos de carnaval do centro do país, sobretudo o carnaval carioca. Dois personagens engajados nestes eventos, a coreógrafa Cristina Fernandez e o intérprete de sambas-enredos Igor Sorriso serão apresentados no texto, uma vez que ambos participam dos fluxos e se somam à importante circulação de mão de obra carnavalesca entre o Rio de Janeiro e os Pampas nos últimos anos.
Abstract – The article intends to analyze the carnival of samba schools from Uruguaiana in the Pampas region, and the carnival context at the political border in south Brazil next to Argentina and Uruguay. The extended calendar of the carnival of samba schools in the region promotes a ritual period of this event, which makes possible an intense relationship composed by economic exchanges and socio-cultural negotiations among the carnivals of Pampas and the carnival poles from the center of the country, Rio de Janeiro’s carnival in specific. Two characters engaged in these events, the choreographer Cristina Fernandez and the singer of “sambasenredos” Igor Sorriso will be presented. They have participated in the parades and are involved in the carnival worker flows between Rio de Janeiro and the Pampas in the last years.
Palavras-chave: carnaval; Rio de Janeiro; Uruguaiana; Pampas; tempo ritual; circulação; interculturalidade.
Keywords: carnival; Rio de Janeiro; Uruguaiana; Pampas; ritual period; cultural exchanges; interculturality.
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Às margens do caudaloso rio Uruguai, próximo à tríplice
em desfiles competitivos. Em Uruguaiana, o samba serve como
fronteira entre Brasil, Argentina e o próprio Uruguai, a ponte
referência de pertencimento nacional na região de fronteira e arrasta
Getúlio Vargas - Agustín Justo se estende em quase um quilômetro
multidões de moradores da cidade, vizinhos fronteiriços argentinos,
e meio para unir as cidades de Uruguaiana e Paso de Los Libres em
uruguaios e visitantes de outras cidades do Brasil, que completam a
cada face de terra. Estamos no centro dos Pampas, vegetação
lotação máxima do sambódromo improvisado na avenida central da
rasteira composta por planícies com ligeiras e suaves colinas, uma
cidade com capacidade média para cerca de quinze a vinte mil
imensidão de campos propícios às pastagens para o gado de corte ao
pessoas a cada noite.
centro sul no continente sul americano, num ponto longínquo dos
As escolas de samba constituíram-se como associações
grandes centros metropolitanos: são cerca de setecentos quilômetros
recreativas nos Pampas desde a década de 1950 seguindo a
de Porto Alegre e setecentos e quarenta quilômetros de Buenos
expansão do samba de carnaval baseado no carnaval do Rio de
Aires.
Janeiro, excapital federal que serviu de paradigma básico para o Uruguaiana é a cidade mais populosa daquela região,
modelo de carnaval organizado em outras cidades do país. Em cada
possui cerca de cento e vinte e cinco mil habitantes na sua zona
apresentação festiva, apesar das ligeiras diferenças e formas de
urbana. O porto seco da cidade é considerado um dos mais
adaptações em cada contexto local - ao mesclar as formas artísticas
importantes da América Latina no transporte de cargas terrestres,
das escolas de samba com características da cultura carnavalesca
por estar localizado na rota de importação e exportação entre a
local - o samba de enredo é instituído enquanto motor das
Argentina e o Brasil. A exploração econômica que possui maior
apresentações. Elas trazem os elementos estruturais básicos do
destaque em Uruguaiana é o setor do agronegócio: em média são
modelo artístico fundamental de apresentação de uma escola de
setecentas toneladas de arroz colhidas a cada ano, o que coloca o
samba: movimento progressivo linear do grupo com tempo
município em primeiro lugar entre os exportadores do Rio Grande
cronometrado, orquestra percussiva própria sem presença de
do Sul; além disso, são aproximadamente duzentas e trinta e quatro
instrumentos de sopro, narrativas a serem contadas em elementos
mil cabeças de gado, o sexto maior rebanho de gado do estado.
sonoros-plásticos-visuais, carros alegóricos, alas específicas que se
Se as atividades agropastoris compõem a tônica econômica
configuram em subitens de apresentação como comissão de frente,
do município, paradoxalmente, o principal evento da região é
baianas, passistas, velha guarda e casal de mestre sala e porta
fortemente arraigado nas tradições de cultura urbana e de bairros
bandeira (com o pavilhão da agremiação, o seu símbolo máximo).
populares no centro do país: o carnaval de escolas de samba vivido Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 62
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1
No ano de 2005, uma contenda judicial atrasou os preparativos e ensaios da Escola de Samba mais importante naquela época. A Prefeitura e os carnavalescos, ameaçados pelo cancelamento da festa, ajustaram a data dos desfiles para três semanas após o feriado nacional. Assim, com a mudança de datas o carnaval passou a ser fora de época ou temporão, como também é chamado. A mudança de datas, a princípio não intencional, trouxe uma série de inovações na produção estética e artística das escolas de samba locais com atração de sambistas do Rio de Janeiro em busca de trabalho fora do grande polo do samba nacional. Neguinho da Beija Flor (intérprete) e Valéria Valenssa (destaque de chão) estiveram presentes em 2005, assim como a compra e reutilização de objetos carnavalescos como fantasias de alas e esculturas para carros alegóricos do Rio de Janeiro. 2 Quaresma é o período cristão de retidão e penitência nos quarenta dias que antecedem à Páscoa. Ela tem início na quarta-feira de cinzas, um dia após o término do carnaval.
Na última década, desde o ano 2005 em Uruguaiana1, o
objetos carnavalescos de outros polos de produção, materiais de
carnaval era marcado sempre a alguns finais de semanas posteriores
confecção de carnaval e objetos já fabricados para reutilização,
ao feriado carnavalesco, durante o período da quaresma2. Ao longo
reciclagem ou reforma: fantasias de alas, adereços e escultura para
da última década, outros municípios brasileiros na região que
alegorias. Em poucos anos, o carnaval de Uruguaiana alcançou um
possuíam carnavais de menor porte também passaram a agendar
novo patamar nos desfiles quanto aos aspectos plásticos e a atração
seus desfiles em datas não coincidentes, formando assim um
de sambistas cariocas que obtiveram grande repercussão na sua
circuito articulado de carnaval na região dos Pampas. Para tomar
passagem pela região (Duarte, 2016). Entre várias posições e
apenas os cinco carnavais de escolas de samba mais importantes da
cargos, muitos profissionais inscritos nessa mão de obra
região, além de Uruguaiana, Itaqui e Alegrete no Brasil, Artigas no
carnavalesca sazonal ocupam a posição de intérpretes de samba-
Uruguai e Paso de Los Libres na Argentina, tínhamos em 2014
enredo, carnavalescos, diretores de barracão, diretores de bateria,
como ano de referência:
casais de mestre sala e porta bandeira, rainhas de bateria e destaques de chão que são provenientes de outros polos de carnaval (Porto
Datas dos desfiles/2014
Município
Paso de Los Libres Artigas Itaqui Alegrete Uruguaiana
1º, 8, 15 e 22 de fevereiro 1º e 2 de março 1º, 2, 3 e 4 de março 14 e 15 de março 20, 21 e 22 de março
Alegre, São Paulo ou Rio de Janeiro).
Número de grupos carnavalescos (primeira divisão)
Quantidade de desfiles de cada agremiação por carnaval
3
4
4
2
6
2
porosas a partir da circulação de pessoas e objetos nas práticas
4
2
culturais em comum, como a festa carnavalesca neste período
6
2
determinado. Os sentidos das práticas tanto na preparação quanto na
Uma das dimensões importantes na investigação proposta está de acordo com essa possibilidade de deslocamento e de trocas entre os locais: as relações da interculturalidade. As fronteiras políticas e físicas entre Uruguaiana e as cidades da região se tornam
forma festiva das agremiações nos três lados da fronteira são
TABELA – Os desfiles de carnaval nos Pampas segundo o calendário da festa nos municípios em 2014.
ligeiramente distintos, e como já adiantou Grímson (2011), a manipulação das referências simbólicas do carnaval se dava de
As escolas de samba de Uruguaiana inauguraram um
forma diferente em cada um dos municípios limítrofes, sendo
formato de Carnaval baseado na possibilidade de contratação de
equivocada a ideia de uma cultura transfronteiriça comum a todos
destaques do mundo do samba de outras cidades, e a compra de
os locais.
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Em Uruguaiana, o carnaval das escolas de samba ocupava
culturais. Os cruzamentos de coisas e pessoas ligadas à festa eram
um lugar simbólico que fazia referência ao pertencimento nacional e
preponderantes durante o período chave do evento carnavalesco: as
ao compartilhamento de dois dos principais ícones da cultura
últimas semanas de preparação, sobretudo após o carnaval do centro
brasileira engendrada no século XX, o samba e o carnaval, o que a
do país, até as datas dos desfiles nos Pampas. O processo de
aproximava do centro do país (OLIVEN, 2006). Por outro lado, em
produção carnavalesca na região estava completamente atrelado à
Artigas e em Paso de Los Libres o samba e o carnaval aproximavam
existência deste tempo ritual estendido que se excedia dos espaços e
os uruguaios e argentinos dos brasileiros na paixão irrestrita aos
das
seus grupos carnavalescos e ao cenário efervescente de realização
carnavalescas, que mesmo com suas características próprias e
de eventos de carnaval da região os distinguindo da cultura oficial
diferenças,
das capitais de seus países, Montevidéu e Buenos Aires,
negociações entre os carnavais relacionados.
competições
respectivamente.
circunscritas
condicionava
a
aos
locais
possibilidade
e
dos
suas
culturas
encontros
e
Apoiados nos estudos de Comaroff (2003), entendemos a
O que a dimensão da interculturalidade no circuito de
noção de que os fenômenos não podem ser integralmente entendidos
carnaval nos permitiu refletir de forma incisiva foi a multiplicidade
com recortes limitantes de realidades (geográficas, culturais,
de relações entre carnavais que se irradiava e fluía entre os
étnicas, nacionais). Existem elementos transversais à cultura que são
interstícios das fronteiras políticas e a burocracia das aduanas. Ela
produzidos em escala global, para além dos recortes contextuais. O
nos trazia a possibilidade de observar e analisar os encontros, os
intuito é questionar como são produzidos os locais, dando-se conta
tempos e espaços mais abertos, onde as práticas culturais eram
de que no mundo atual são raríssimas as situações onde não
apreendidas, reapropriadas, rearranjadas; em síntese, produzindo
encontramos atravessamentos de escalas que complexificam a
culturas híbridas no período de preparação do evento que tinha
perspectiva da paisagem local, de um espaço restrito onde as
como momento clímax os desfiles de carnaval.
agências humanas atuam como se estivessem num palco fixo e inerte. Os carnavais dos Pampas só poderiam ser tratados se considerarmos seu potencial de cultura híbrida envolvida no jogo
É tempo de carnaval nos pampas
dinâmico da mescla entre o local e o global, e as suas A circulação entre carnavais formava um sólido circuito de
particularidades em cada contexto, ou seja, as diferenciações entre
carnaval nos Pampas, e fomentava a possibilidade das trocas em
suas culturas carnavalescas específicas interligadas (APPADURAI,
várias perspectivas, desde econômicas às materiais, sociais e
1997).
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Temos em conta que o período ápice do carnaval era vivido
poderiam ser investigadas a partir dos tempos, transitórios e
plenamente em Uruguaiana num espaço curto de tempo, assim
excepcionais, de comunhão e de separação de grupos e indivíduos.
como em toda a região dos Pampas. O carnaval era classificado
As facções políticas entravam em conflito nos contextos locais ao
como um evento do extracotidiano, com características que faziam
passar a determinar o ritmo social de adesão e ruptura de vínculos
dele um evento popular de grande alcance social delimitado num
pessoais para a conquista do poder local, instaurado na partilha dos
tempo específico. Nesse intervalo de tempo, ele acabava por incluir
cargos públicos disputados a cada pleito. Já o tempo das festas
todas as camadas e classes sociais da cidade no jogo em disputa, na
investigado pelo mesmo autor seria diametralmente oposto. A festa
concorrência dos grupos carnavalescos organizados para a conquista
marcava no seu tempo a aglutinação, a comunhão social, a
do título, além de produzir um reordenamento das relações sociais
pretensão de harmonia.
do dia a dia que podiam se suspender ou se fortalecer pela
Pensamos no carnaval dos Pampas como um tempo
participação individual nas agremiações carnavalescas. O período
híbrido:
auge dos preparativos para a festa era um tempo social disponível
concomitantemente. Diferentemente da comunhão do tempo de
para todos os desdobramentos mais importantes relacionados à
festas no estudo de Palmeira, o tempo do carnaval nos Pampas
cultura carnavalesca nos seus contextos locais. Ele se encerrava no
também era um tempo de divisão de forças sociais, de duelos entre
domingo de apuração das campeãs, na festa da vitória na quadra dos
personagens e grupos de poder nos jogos sociais. O tempo do
vencedores momentos após os desfiles de sábado.
carnaval era um tempo de concentração das relações sociais
aglutinador
e
divisor
de
facções
e
grupos,
Relacionamos a ideia do tempo do carnaval com a noção
vivenciando o evento de forma ambivalente porque havia disputas,
de tempo da política de Moacir Palmeira (2002): o período eleitoral
conflitos, competição, mas também havia coesão, solidariedade e
marcante para a vida social do município onde tudo se convertia em
ludicidade.
política, já que as suas facções organizadas em partidos, chefes
O ressurgimento dos vínculos estabelecidos nas escolas de
políticos e seus apoiadores, estavam reunidas e podiam ser
samba acompanhava um movimento cíclico de ampliação da
identificadas num primeiro olhar. Um rearranjo de posições sociais
participação para a sociedade nas adesões e no acúmulo de
podia ser analisado nesse tempo, que não era linear nem cumulativo,
indivíduos
mas sim, um tempo ritual, onde um conjunto de atividades e uma
componentes,
temporalidade própria marcavam os momentos vividos, de divisão e
profissionais do samba em busca de um novo contrato. Os meses de
rearranjo dos grupos. Para o autor, as divisões sociais no município
calmaria, e de suspensão das atividades carnavalescas, se tornavam
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 65
e
seus
laços
voluntários,
sociais
nas
agremiações,
patrocinadores,
torcedores
sejam ou
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irreconhecíveis quando o carnaval vinha novamente à tona.
Os personagens que serão analisados nas próximas seções
Iniciava-se o período de demanda irrefreável de atividades, com
eram sambistas porque inscreviam o carnaval nas suas trajetórias de
excesso de excitação, emoção e o vertiginoso aumento das ações em
vida, de forma a construírem uma identidade duradoura ao longo
coletividade no tempo do carnaval. Naquele espaço de tempo,
dos anos, com participação destacada em cada ciclo festivo e com
naquelas poucas semanas de apresentação dos grupos carnavalescos
grande significado nos seus projetos pessoais e nas suas redes de
na sequência do calendário festivo da região, tudo deveria ser
relação afetiva (VELHO, 2012).
preparado, e todos deveriam ter a vitória e a boa performance como Cristina Fernandez: do ballet clássico à cultura popular
objetivos comuns, como as facções políticas no período eleitoral. Os carnavais das escolas de samba locais em competição, um ritual de prestígio e paroxismo da vida social anual, na
Cristina Fernandez é uruguaianense e professora de dança
integração e divisão entre grupos com base na competição
na sua cidade. Sua formação na área contemplava o ballet clássico,
municipal, servia como fomentador de culturas: atreladas à memória
o jazz e a dança contemporânea. Ela frequentou inúmeras escolas de
e ao contexto histórico da festa, aos costumes e características
formação, fez cursos e aprendeu com mestres que a orientaram na
peculiares dos participantes e dos eventos, aos usos do corpo e dos
Fronteira, em Porto Alegre, Buenos Aires e Rio de Janeiro. O
símbolos, as redes de amizade, compadrio e parentesco, nas
carnaval sempre esteve presente nas relações sociais que sua família
linguagens e práticas comuns nos seus tempos determinados. Os
estabelecia em Uruguaiana. Foi na Escola de Samba Cova da Onça
indivíduos eram mais ou menos engajados às culturas carnavalescas
que Cristina conquistou diversas premiações por seus trabalhos
de acordo com sua posição e suas experiências anteriores
coreográficos no comando da comissão de frente, o que a trouxe
(memórias), e sua forma de adesão às agremiações no presente
prestígio e divulgação de seu trabalho. Na Cova da Onça, ela era
(cargo, ocupação, importância social). Os participantes mais
responsável pela comissão de frente desde o ano de 2007
engajados conjugavam sua vida pessoal às referências e símbolos
conquistando premiações, títulos e muitos alunos para seus projetos
dos grupos de carnaval que eram participantes, o que podemos
pessoais na área da dança. Em sua cidade, Cristina Fernandez era
chamar por sambistas de forma amplificada: indivíduos que eram
maior referência de coreógrafa local no carnaval.
envolvidos ou identificados com a produção social carnavalesca, o
A comissão de frente é uma ala específica de muita
que se intensificava no tempo da festa pelas marcas, gostos e estilos
importância dentro das agremiações, já que se constitui num dos
de vida compartilhados.
quesitos de pontuação na competição carnavalesca. Além de ser o
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primeiro elemento de apresentação e abertura das escolas de samba,
trabalho de sua equipe variava de quatro a dois meses no total,
o conjunto conta com o mínimo nove e o máximo dezesseis
apesar de que ele poderia ser ainda mais curto. Os motivos mais
componentes (previstos no regulamento local da competição) e deve
frequentes da diminuição do tempo de trabalho eram os atrasos na
apresentar uma coreografia própria, de acordo com o enredo; ainda
entrega do samba-enredo pela escola, o calendário móvel do
é permitida a possibilidade da utilização de um elemento alegórico
carnaval – que só fazia a festa ter completa atenção na cidade após
auxiliar (também chamado por “tripé”).
as festas de final de ano – e, da mesma forma, o processo interno de
As comissões de frente no carnaval se tornaram o elemento
escolha do grupo de bailarinos para a comissão de frente.
de desfile com a mais elaborada transformação artística nas últimas
Ela recebia da diretoria da Cova da Onça autonomia para
décadas. No passado, eram as diretorias e a ala da velha guarda da
montar a sua coreografia, ensaiar fora da quadra, e propor mudanças
Escola de Samba que tinham a função de abrir o desfile e apresentar
na escolha dos personagens e da situação a ser dramatizada na
a agremiação ao público e aos jurados. No final dos anos 1980, as
coreografia de apresentação da escola aos jurados e ao público. A
escolas de samba cariocas começaram a apresentar suas comissões
comissão era diretamente responsável por quarenta pontos para a
de frente com coreografias e personagens trabalhados a partir do
escola: a somatória possível de quatro notas máximas dos quatro
enredo. Por volta dos anos 2000, as comissões de frente se tornaram
jurados de pista. A busca pelos quarenta pontos era o maior objetivo
corpos
coreógrafos
de Cristina, numa competição própria entre as comissões de frente
profissionais, com repertório coreográfico complexo, efeitos
participantes, onde o resultado final do carnaval entre as escolas de
especiais, elementos alegóricos cada vez maiores e impactantes,
samba ficava em segundo plano. Era possível acontecer o seguinte:
fantasias de alto custo e equipe de apoio para os ensaios contando
a comissão de frente de Cristina ficar com a maior pontuação entre
com pesquisadores próprios para a exploração do enredo. Nas
as comissões de frente e sua escola de samba não se sagrar campeã,
maiores agremiações cariocas, uma comissão de frente podia custar
e mesmo dessa forma, o grupo de Cristina celebrar uma vitória
valores totais que ultrapassavam a marca de trezentos mil reais para
(como se estivesse num campeonato paralelo). A hipótese inversa, a
a preparação e apresentação do seu conjunto, realidade muito aquém
escola de samba vencer a competição, porém, o grupo de Cristina
dos carnavais dos Pampas.
não somar os quarenta pontos possíveis, a comissão de frente
de
baile
compostos
por
bailarinos
e
Nos preparativos para o carnaval Cristina se voltava à
entendia como uma derrota particular e a celebração, devido ao
produção de uma coreografia específica de seu grupo nos meses
fracasso da imperfeição das notas, cancelada.
anteriores ao desfile de sua agremiação. O tempo de preparação do Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 67
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Como estrutura de seu ensaio, os movimentos dos
enredo. Com a autorização da direção da agremiação, iniciavam-se a
bailarinos eram ajustados e criados em sincronia com a melodia e a
seleção, o ensaio dos bailarinos, a confecção das fantasias e do
letra do samba-enredo. Sem a audição e o aprendizado do samba, os
pequeno carro alegórico de apoio fabricado especialmente para o
ensaios apenas eram realizados com a elaboração de movimentos
uso na coreografia.
prévios, ainda distantes do resultado final. Sua técnica de montagem
Cristina trabalhava com um grupo de cerca de vinte
dos movimentos, o que ela chamava de “rascunho” – os exercícios
pessoas, entre os bailarinos titulares, os reservas e as pessoas que
esboçados nas sessões de criação das coreografias – tinha muita
acompanhavam
repetição de trecho por trecho do samba (raramente mais de quatro
colaboradores. Os bailarinos eram selecionados dentro da escola de
versos), com as correções das posições da cena e construção dos
dança de Cristina Fernandez. Em sua maior parte, eles tinham de
personagens e do arco dramático do que deveria ser apresentado.
vinte a trinta e cinco anos de idade e não eram remunerados pelos
Também se paralisava os movimentos na orientação das “figuras”, o
ensaios quase diários no período pré-carnaval, que em geral
posicionamento e a exatidão dos corpos que resultavam num
duravam de três a quatro horas, às vezes adentrando as primeiras
desenho coletivo dos bailarinos em cada quadro de movimento.
horas da madrugada. As fantasias da comissão de frente, chamadas
Cristina se destacava do grupo e analisava de forma esmiuçada as
de “figurino” por Cristina, dada a sua aproximação aos espetáculos
posições de seus bailarinos de diversos ângulos, e orientava a
de dança e teatro, eram patrocinadas pela escola de samba. Cristina
melhor posição de cada formação de forma exaustiva.
era contratada por um cachê anual baixo em relação a coreógrafos
a
Comissão
como
auxiliares,
amigos
e
Em suma, a partir do enredo do carnavalesco, a direção da
cariocas, que ela recebia como se fosse mais uma ajuda de custo do
Escola indicava para a comissão de frente o que o grupo iria
que propriamente uma remuneração pelo trabalho. Em 2014, cinco
representar dentro da narrativa textual construída para o desfile. À
mil reais de cachê por todo o processo: ensaios, apresentações na
comissão de frente, como primeira ala do desfile, cabia a
quadra e desfiles de carnaval; atualmente, são sete mil reais.
apresentação do enredo (a narrativa) contada pela escola de samba
Em meio à disputa e à rivalidade entre os coreógrafos e os
naquele ano, que podia se dar na forma de introdução do tema ou
grupos de comissões de frente que disputavam o carnaval da cidade,
num resumo geral do será contado na passagem das alas e das
havia um jogo de informações e contra informações entre as
alegorias. Cristina, orientada pela direção, elaborava uma ideia de
Comissões de Frente, onde rolavam muitos boatos sobre as
coreografia e de personagens elaborados para a abertura da escola
coreografias a serem apresentadas na avenida, gerando muitas
de samba que fosse compatível com a narrativa da sinopse do
suposições a respeito das possíveis falhas nas apresentações.
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 68
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Cristina
acreditava
que
os
seus
concorrentes
elaboravam
comentando sobre suas restrições aos não hábeis, os foras de forma
coreografias em cima de ideias antecipadas por outras Comissões, já
ou os considerados esteticamente inadequados aos personagens, que
que eram fortes os indícios de plágios e o “roubo de ideias” em anos
acabavam por não serem selecionados para o grupo que iria
anteriores, não só restrito a Uruguaiana, também entre outras
desempenhar um papel de grande importância na escola de samba
cidades da região. Por isso, sigilo e discrição dos bailarinos e
na competição carnavalesca.
auxiliares da comissão era desejado, até o grupo sair nas últimas
A coreógrafa uruguaianense visitou em muitas ocasiões o
semanas para os ensaios de rua na madrugada onde a coreografia,
Rio de Janeiro. Além dos cursos de formação que participou, ela
enfim, era reproduzida.
observou e aprendeu com alguns coreógrafos que autorizaram em
A coreógrafa entendia que não tinha sob seu controle uma
seus ensaios sua participação como convidada. Nestas ocasiões,
Comissão de Frente da forma ideal como pretendia. Há alguns anos
numa de suas primeiras estadias com esse objetivo em 2008, ela
ela pleiteava junto à direção da Escola o pagamento de cachês para
conheceu alguns coreógrafos consagrados no carnaval carioca, tais
os bailarinos como recompensa pelo trabalho. Por não serem pagos,
como: Marcelo Misailidis, Hélio Bejani, Jaime Arôxa, Carlinhos de
o trabalho de Cristina esbarrava no problema do comprometimento,
Jesus, Cláudia Mota, Débora Colker, que já trabalharam nas maiores
das ausências aos ensaios e do limite de sua possibilidade de
agremiações do Rio de Janeiro. O maior desafio de Cristina nos
cobrança no grupo. O pagamento de um valor monetário para cada
últimos anos era ter de lidar com a forte concorrência dos
bailarino representaria a possibilidade de exigir maior engajamento
coreógrafos cariocas que começaram a se inserir no mercado de
com a dança, além de selar maior formalidade na rotina de horários
carnaval dos Pampas. Muitos deles eram seus mestres nas viagens
e no cumprimento das exigências técnicas com a coreógrafa. O
realizadas ao Rio. Entre 2012 a 2014, as escolas de samba da
maior desejo para o futuro na visão de Cristina era de compor
Fronteira começaram a substituir os coreógrafos locais por
montar o grupo com a inclusão de pagamentos para os bailarinos,
contratados do Rio de Janeiro. O fato era ameaçador para o
com acontecia entre as maiores escolas de samba do carnaval
desenvolvimento da dança e dos espaços de trabalho para os pouco
carioca.
estabelecidos coreógrafos locais. Se as aulas de dança da companhia eram abertas para todos
E como o coreógrafo contratado do carnaval carioca
os interessados, novos e velhos, gordos e magros, altos e baixos, na
desempenhava seu trabalho em Uruguaiana? Os cachês pagos para
Comissão de Frente nem todos poderiam ser incluídos. “A
os cariocas para dirigir as comissões de frente chegavam a um valor
Comissão de Frente não é um grupo democrático”, dizia ela,
que variava de dez a quinze mil reais, sem contar com os gastos em
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 69
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3
As invernadas são grupos de danças folclóricas organizadas por um CTG (Centro de Tradições Gaúchas).
transporte e hospedagem. A coreografia era elaborada pelo
chegava à cidade durante a semana do desfile, realizava alguns
contratado de acordo com o enredo da escola. Depois da fase de
ensaios com todo o grupo e corrigia os últimos detalhes na
elaboração dos movimentos, a coreografia era filmada em formato
performance dos bailarinos locais antes da entrada na avenida.
digital e enviada em vídeo do Rio de Janeiro para os Pampas para os
Cristina
ensaios que aconteciam sem a presença do coreógrafo.
criticava
abertamente
a
forma
como
as
coreografias eram trazidas prontas de outros polos de carnaval e
A primeira vez que uma agremiação contratou um
reproduzidas à realidade de Uruguaiana. Muitas vezes as ideias,
coreógrafo de outros carnavais em Uruguaiana foi em 2012. Até
figurinos
e movimentos
coreográficos
eram
adaptados
ou
então, as escolas de samba tinham coreógrafos ligados às
reformulados dos trabalhos realizados no centro do país. A
academias, escolas de dança, às invernadas de CTGs3, e as bandas
originalidade da coreografia e o ineditismo eram qualificadores do
de colégios (uma tradição na cidade). A entrada de profissionais do
trabalho do coreógrafo na sua compreensão, assim como o
mundo da dança do centro do país gerava muitas suspeitas de que o
aprendizado deixado para os coreógrafos da cidade, o que nem
cargo ocupado por Cristina podia estar ameaçado em cada carnaval
sempre acontecia com a contratação de profissionais do Rio de
que se aproximava (fato que nunca se concretizou). Cristina
Janeiro.
criticava a forma de contratação dos seus rivais, assim como a
As referências e as influências das comissões de frente
atuação desses coreógrafos no carnaval de Uruguaiana, já que as
realizadas nos Pampas ainda são diretamente relacionadas ao
diretorias das agremiações da cidade não privilegiavam o emprego
carnaval carioca e, para ela, dificilmente o paradigma coreográfico
do profissional condicionado à formação e ao aprendizado dos
carioca deixará de ser considerado o modelo ideal de trabalho
talentos locais. Estes eram alijados dos seus postos, ou colocados
artístico nos próximos anos. Ainda sim, ela entende que o trabalho
como meros assistentes, uma contrapartida considerada pouco
dos uruguaianenses deveria ter prioridade nas direções das escolas
vantajosa ao fomento da profissionalização e aprendizado dos
de samba locais para o desenvolvimento da arte carnavalesca na
coreógrafos locais.
área da dança, com o fomento aos talentos produzidos nos Pampas.
Como o coreógrafo carioca normalmente estava envolvido
Seu clamor público na cidade incluía o pedido por melhores
em outras atividades, ele não ficava à disposição da Escola de
condições e estrutura de trabalho, com investimento financeiro que
Samba na Fronteira por longos períodos. Normalmente, ele elegia
deveria ser equivalente ao que é concedido aos coreógrafos
um assistente, geralmente enviado do Rio de Janeiro, para ensaiar
profissionais do mais concorrido carnaval de escolas de samba
seu trabalho com os bailarinos locais. O coreógrafo contratado só
brasileiro.
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sua marca pessoal. Igor Sorriso não demorou muito para conquistar “Grupo de apoio” ou somente “apoio” é o time de cantores que participava do carro de som de uma agremiação no desfile de carnaval. O intérprete ou cantor oficial (popularmente chamado de puxador de samba) era a voz principal dos ensaios, da gravação do álbum anual das escolas de samba e do desfile oficial. 4
seus primeiros trabalhos solo no carnaval carioca.
Igor Sorriso: uma voz entre carnavais
Em dezembro de 2009, quando Igor tinha apenas vinte e dois anos, ele foi convidado para ser o intérprete oficial da Escola.
Com doze anos de idade, Igor já se apresentava em grupos
No seu carnaval de estreia como primeira voz em 2010, a São
musicais de samba e pagode. As quadras de escolas de samba
Clemente se sagrou campeã subindo para o Grupo Especial do
passaram a ser o local de lazer mais frequentado pelo jovem. O
carnaval do Rio de Janeiro e ele foi considerado uma das revelações
incentivo de amigos para ele tentar focar no canto de sambas
do carnaval. Tudo foi muito rápido na sua carreira. O espaço para o
enredos era baseado na sua potente voz e no seu gosto pessoal pelo
primeiro microfone das grandes agremiações era restrito. Em geral,
ofício. Em 2004, ele começou a cantar na escola de samba mirim
as escolas de samba adotam um intérprete para seu carro de som
Aprendizes do Salgueiro (associada à escola de samba Acadêmicos
(raros casos de duplas ou trios) e um grupo de vozes de apoio; o
do Salgueiro). No mesmo período, ele foi o primeiro microfone da
número de escolas de samba no Especial em anos regulares é de
Mocidade Unida do Santa Marta, uma Escola de pequeno porte que competia em divisões distantes do Grupo Especial.
doze, assim as vagas são escassas tornando o cargo um espaço de
Dois anos
muita competição e rivalidade entre os cantores.
depois, ele passou a integrar o grupo de apoio4 da São Clemente,
“Carnaval é um mercado competitivo”, entendia Igor. O
Escola de Samba na época do Grupo de Acesso da cidade.
restritivo espaço para o profissionalismo dos intérpretes, contando
Igor nas escolas de samba passou a ser conhecido por um
com os indivíduos que tinham sua fonte de renda exclusivamente
apelido que o acompanha desde 2006: “Sorriso”. Quando começou
nas escolas de samba e seu trabalho de cantor de sambas enredos, o
a cantar, ele vinha planejando compor um estilo de performance no
que foi conquistado por ele a partir de 2010, fazia com que o
palco pensando em conquistar sua audiência. Investiu na empatia
ambiente se tornasse repleto de disputas, boatos de demissões nos
com o público aperfeiçoando um personagem pensado por ele que
meses precedentes aos ensaios e, em casos mais radicais, tentativas
tentava demonstrar a alegria em cantar e o envolvimento com os
de consolidar as carreiras pessoais fazendo o uso de qualquer
componentes na agremiação em que trabalhava. O riso aberto e a
estratégia política em detrimento de seus concorrentes. A ética
cordialidade no trato constituíam uma das suas armas para ser bem
profissional no mundo carnavalesco passava longe dos critérios
aceito no mundo do samba, onde cada intérprete deveria imprimir
ideais de respeito e boa convivência com os colegas intérpretes.
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O trabalho com uma das doze escolas de samba do carnaval
enredo de sua própria Escola, os ensaios do grupo de vozes, a
carioca o levava a ter uma série de atividades a partir do mês de
gravação do samba, os ensaios de rua e eventos de quadra que
maio do ano. Ele costumava dizer que normalmente quando as
varavam as madrugadas, as visitas às demais agremiações, as
pessoas percebiam que estava começando a época do carnaval,
gravações de estúdio de programas de televisão e rádio, etc. Um
principalmente quando as vinhetas dos sambas-enredos das
longo e intenso calendário que era complementado pelas atividades
agremiações começavam a ser inseridas na grade de programação da
ligadas aos trabalhos dos intérpretes em escolas de samba de outros
televisão faltando pouco mais de um mês para os desfiles, os
carnavais, entre elas as agremiações da região dos Pampas.
intérpretes estavam encerrando os seus trabalhos depois de um
Igor Sorriso já havia trabalhado em algumas agremiações
longo e cansativo período de trabalhos prévios. Desde o período de
fora do Rio de Janeiro: numa escola de samba do carnaval de
escolha do samba-enredo em cada ano, a equipe de vozes se
Brasília, no carnaval de San Luís na Argentina, e no carnaval de São
preparava com o ensaio da música, a adaptação e acerto da melodia,
Paulo, onde foi intérprete em 2013 na Escola de Samba Acadêmicos
as mudanças de entonação, os ensaios de estúdio, o encaixe das
do Tucuruvi e na Mocidade Alegre de 2014 a 2016 (onde foi
vozes com a entrada da bateria, entre outros ajustes da harmonia
campeão em 2014). O carnaval de 2013 foi o seu primeiro nos
musical. Toda a preparação para o desfile já estava pronta nas
Pampas, quando foi contratado pela Escola de Samba de
primeiras semanas do ano, o que seria apresentado e o repertório a
Uruguaiana Unidos da Ilha do Marduque, onde exerce a função de
ser cantado. Em janeiro, o trabalho com o samba-enredo já estava
intérprete até os dias de hoje. A possibilidade de trabalhar no
prestes a ser finalizado. Era hora de se concentrar no trabalho do
carnaval da Fronteira o trouxe a perspectiva de abrir novos
sambódromo, reduzindo os ensaios de quadra com a proximidade do
mercados, onde ele encontraria boa receptividade, aproximação ao
evento para melhorar o desempenho da voz que precisava estar
público que acompanha a sua carreira e, principalmente, um cenário
resguardada e descansada para o evento principal, a noite do desfile.
absorvente dedicado ao carnaval: “É um calor humano absurdo, o
Os intérpretes começavam a trabalhar no meio do ano com
público ali perto, ali do lado, chegando junto, cantando, vibrando,
as gravações e apresentações de sambas-enredos para os grupos de
balançando bandeira. Você ali naquela liberação” (entrevista com
compositores que disputavam os festivais de escolhas de samba nas
Igor Sorriso em 28 de novembro de 2013).
agremiações (cada intérprete podia se apresentar em várias escolas
Igor compreendia que era no seu trabalho com o carnaval
de samba num mesmo final de semana, o que rendia cachês extras
carioca que a projeção de sua carreira o impulsionava para outros
aos intérpretes). Havia o próprio festival de escolha de samba-
trabalhos dentro e fora do país. Como o calendário dos carnavais
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nos Pampas era estendido, por ser fora de época na maior parte das
carnaval carioca para o uso em seu carnaval (como fantasias,
cidades, a mão de obra carnavalesca em busca de uma
esculturas, adereços para alegorias), como também encomendavam
profissionalização de seu ofício tinha a possibilidade de entrar neste
sambas enredos de compositores cariocas considerados consagrados
circuito produtivo da arte carnavalesca. As diferenças entre os
em seu campo artístico. Além da contratação de compositores, as
carnavais das cidades traziam novas experiências e particularidades
agremiações viajavam ao Rio de Janeiro para a gravação do samba-
aos trabalhos apresentados no carnaval da Fronteira. No Rio de
enredo em estúdio na voz do intérprete do carnaval carioca, que não
Janeiro, as sessenta mil pessoas assistiam o espetáculo de um ponto
necessariamente estaria presente no desfile competitivo daquela
distante dos protagonistas do desfile devido às grandes dimensões
cidade. Foi o caso de Igor Sorriso em 2014 e 2015 que foi
do sambódromo. O alto valor dos ingressos também afastava o
contratado pela Carumbé, agremiação carnavalesca de Paso de Los
contingente participante ao longo do ano dos ensaios das escolas de
Libres, para colocar sua voz na gravação do samba de cada ano da
samba do evento, sobretudo as camadas populares que ocupavam os
escola de samba argentina.
setores mais periféricos e menos nobres do sambódromo.
Igor recebia um cachê considerado bastante atraente por
A Sapucaí, quando recheada de turistas nos dias de desfiles,
cada trabalho em estúdio (variava entre mil a dois mil reais). Para a
tinha a peculiaridade de acomodar um público que nem sempre
Carumbé, gravar seus sambas enredos no Brasil, ainda mais com a
compreendia os meandros do mundo do samba, seus critérios de
participação de músicos e técnicos do mais importante carnaval de
julgamento, a rivalidade entre as agremiações e o funcionamento de
escola de samba do país, era uma estratégia de extrema valorização
uma escola de samba. A aproximação dos sambistas de seu público
de seu trabalho artístico. Ter a presença de um intérprete de renome
ocasionada por um sambódromo menor, além do maior engajamento
na gravação de sua obra, fazia com que uma escola de samba dos
do espectador, fazia com que a experiência em carnavais como o de
Pampas se tornasse importante na região, seu trabalho mais
Uruguaiana fosse ainda mais marcante para os sambistas cariocas,
prestigiado e, consequentemente, trazer um maior número de
que sempre destacavam como fatores positivos a forte participação
frequentadores aos seus ensaios e aumentar suas chances de vitória
do público e a importância que as escolas de samba comportavam
na competição carnavalesca argentina.
para a vida social da cidade, com alta rivalidade e disputa entre as
Ao longo da sessão, foram captadas imagens para a
agremiações locais.
produção de um videoclipe do samba de 2014, ferramenta muito
Em algumas ocasiões, as agremiações dos carnavais dos
utilizada nos últimos anos para o compartilhamento e visualização
Pampas não só produziam ou negociavam objetos carnavalescos do
do hino oficial nas redes sociais. Com a gravação do samba enredo
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 73
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5
Entre 2010 e 2014 produzi uma etnografia multissituada nos carnavais entre as cidades citadas neste artigo. O resultado do trabalho constitui-se na tese de Doutorado em Antropologia “Carnavais Além das Fronteiras” (DUARTE, 2016), disponível no repositório digital de tese da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. www.lume.ufrgs.br
em espanhol da Carumbé, e sua reprodução à exaustão no período
início do segundo semestre até o final do ciclo no feriado
de pré-carnaval em Paso de Los Libres, mesmo que ele não
carnavalesco a agenda estava repleta de atividades e, após o
estivesse presente no evento por conflito de datas sua voz e suas
carnaval carioca, as cidades com carnavais fora de época estendiam
imagens estariam circulando por lá (como vimos, o carnaval de Paso
para os profissionais da festa, entre eles os intérpretes, novos polos
de los Libres é realizado nas semanas anteriores ao carnaval carioca,
de trabalho e de intensa atividade com a prorrogação do carnaval.
o que torna inviável a atração de intérpretes cariocas empregados em escolas de samba no Rio de Janeiro por estarem em período final
Entre carnavais: a circulação de sambistas entre o Rio de Janeiro e os Pampas
de preparação para o desfile competitivo). As contratações em troca de cachês para trabalhos em
Foram muitos os sambistas cariocas que circularam nos
outros carnavais representavam uma fatia importante das atividades
carnavais da fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai ao
e da remuneração da vida de um intérprete de sambas enredos. A
longo dos anos de minha pesquisa no carnaval dos Pampas5. Boa
irregularidade dos contratos de trabalho (muitos acordos eram
parte da mão de obra carnavalesca contratada para Uruguaiana
verbais com as direções) e a recorrente troca de intérpretes de ano
tomava o rumo do sul do Brasil logo após os desfiles do Rio de
para ano tornavam essa função no carnaval alvo de muitas
Janeiro, e chegavam à região para o carnaval fora de época faltando
oscilações e incertezas dos cantores quanto aos contratos futuros. Os
algumas semanas para o início da festa, muitas vezes realizando
intérpretes do samba possuíam uma grande relevância nas
trabalhos em outras cidades dos Pampas.
agremiações além de ser uma das mais destacadas posições em um
Por cumprirem diferentes papéis em cada agremiação,
desfile, porém, enfrentavam um difícil período de ausência de
alguns contratados viajavam a Uruguaiana ao longo do ano para
trabalhos relacionados ao carnaval no calendário anual. Os meses
participarem de importantes eventos das escolas de samba, como,
posteriores ao término dos carnavais traziam um período escasso
por exemplo, o lançamento do enredo do próximo carnaval ou um
trabalho e de perspectivas de ganhos financeiros. Por isso, os
ensaio de apresentação do samba realizado pela agremiação. Alguns
intérpretes concentravam muitos trabalhos num período curto de
intérpretes e músicos poderiam ser trazidos à cidade nesses eventos
tempo.
ao longo do ano, e se transformavam na grande atração no préA partir do meio do ano, as competições de samba e as
carnaval. No caso de alguns carnavalescos que trabalhavam com os
gravações em estúdio faziam com que as atividades voltassem com
quesitos plástico-visuais, comumente viajavam mais de uma vez por
a renovação do tempo ritual carnavalesco (Cavalcanti, 1999). Do Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 74
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ano até à fronteira para a elaboração do projeto plástico-visual, o
regiões, a sedimentação de processos sociais que nos remetem à
início dos trabalhos de barracão e a orientação do projeto dos carros
historicidade das configurações, a heterogeneidade cultural (mesmo
alegóricos com alguns meses de antecedência da festa.
dos grupos que constroem identidades pretensamente homogêneas)
O que mais chamava a atenção no trabalho da mão de obra
e a desigual distribuição socioeconômica. A produção cultural
carnavalesca nos Pampas era perceber de que forma os
baseada em vínculos que expandem os limites geográficos de cada
carnavalescos cariocas e os carnavalescos locais interagiam, se
carnaval específico produzia uma noção de multiposicionalidade das
inseriam, disputavam os espaços no carnaval, como no caso de
pessoas, ou seja, os indivíduos participavam simultaneamente de
Cristina e Igor apresentados acima. O encontro entre indivíduos, que
diversos contextos que se encontravam superpostos, muitas vezes
compartilhavam na forma artística das escolas de samba um estilo
em diferentes escalas sociais ou espaciais, com pesos diferentes para
de vida e uma cultura carnavalesca semelhante, nos possibilitava
as reputações, objetivos e interesses de cada envolvido no carnaval.
investigar os processos de crescente interconexão global e a
O carnaval nos Pampas entremeado a uma cultura própria,
multiplicação das relações interculturais híbridas nas culturas
formatado na sua forma artística amparada no paradigma carioca,
populares.
nos levava a pensar numa escala global diluída nos seus circuitos de
O carnaval de escolas de samba, pensando em qualquer
trocas, como se fossem artérias interligadas por caminhos capilares
uma das formas de participação dos indivíduos – como um ofício
cada vez mais ramificados dos carnavais dos polos para os carnavais
remunerado ou voluntário, como uma prática que estabelece
de menor porte. Seria correto levar também em conta a contingência
identidades e a possibilidade de trocas culturais intensas ao longo de
histórica da cultura, a inter-relação entre as partes, as tramas
determinados períodos – podia ser um evento fascinante para se
simbólicas em comum e a cultura compartilhada para a existência
pensar na noção de cultura e nos processos de identificações dos
das trocas.
indivíduos na dimensão instável da interculturalidade e nos flexíveis
O instável jogo da balança entre global e local depende das
critérios espaço-temporais da globalização da cultura (HANNERZ,
situações de trocas intersubjetivas, das interações efêmeras, do
1997).
embate cultural performativo no próprio ato interpretativo Entendemos que os fluxos e diálogos entre carnavais não
(BHABHA, 2010). Ao nos pautarmos nas práticas pontuais dos
representam uma relação harmônica e completa como poderia se
sambistas, sempre analisadas no presente etnográfico na vivência do
supor. Nas relações interpessoais entre carnavais devemos sempre
campo, no momento da ação, nos abria a possibilidade de perceber
levar em conta a desigual distribuição de poder entre as pessoas e/ou
as dinâmicas de acomodação e transformação das culturas
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 75
Ulisses Corrêa Duarte
carnavalescas em movimento. Por isso, os limites da cultura do
particularidades da cultura e da arte popular consolidadas num
carnaval não eram únicos, claros, muito menos fixos, mas sempre
processo histórico com cerca de um século de duração. Podemos
estavam sendo tencionados pela intersecção das experiências
compor assim um cenário de influência do samba e do carnaval e da
intersubjetivas nas negociações existentes nos circuitos entre os
presença brasileira no mundo numa perspectiva cultural global
carnavais.
enquanto marco da promoção política, cultural e social do país nos
Visando
analisar
alguns
personagens
deste
fluxo
nossos tempos.
carnavalesco entre o Rio de janeiro e os Pampas, trouxemos as trajetórias de Cristina Fernandez e Igor Sorriso neste artigo, com o REFERÊNCIAS BIBLIOGRTÁFICAS
intuito de cruzarmos as trajetórias, os vínculos afetivos e profissionais com a festa no ponto de vista de dois contratados: um intérprete de uma grande escola de samba do centro do país e uma
APPADURAI, Arjun (org.) Modernity at Large: Cultural
importante coreógrafa do carnaval local. Cristina e Igor cruzam
Dimensions of Globalization. Minnesota: University of Minnesota
fronteiras e atravessam as escalas geográficas para realizarem seus
Press, 1997, 3ª ed.
trabalhos, aumentarem seu capital social e sua rede de contatos e
BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
influências no tempo de carnaval no país.
2010.
Os encontros proporcionados nos Pampas nos legitimam a
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O Rito e o
pensar a cultura carnavalesca das escolas de samba como um
Tempo: ensaios sobre o carnaval. Rio de Janeiro: Civilização
fenômeno moderno, adaptável a vários contextos locais e com um
Brasileira, 1999.
grande potencial de realização em realidades culturais distintas. O
COMAROFF, Jean and John. Ethnography on an Awkward Scale:
carnaval é uma festa ritual privilegiada para pensarmos nos
Postcolonial Anthropology and the Violence of Abstraction.
desdobramentos das formas culturais e artísticas brasileiras e a
Ethnography, v.4, 2003, p.147-179.
capacidade de múltiplos ajustes nos locais de sua inserção enquanto
DUARTE, Ulisses Corrêa. Carnavais Além das Fronteiras:
manifestação cultural.
circuitos carnavalescos e relações interculturais em Escolas de
Estudar as manifestações brasileiras ligadas ao samba e o
Samba no Rio de Janeiro, nos Pampas e em Londres. Tese de
carnaval no interior do Brasil, nas suas fronteiras e também no
Doutorado em Antropologia Social – PPGAS/UFRGS. Porto
exterior, poderá ser uma das chaves de compreensão das
Alegre, 2016.
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 76
Ulisses Corrêa Duarte
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