Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues
Drama, Performance e Experiência: o desfile de Carnaval do maracatu Nação Iracema* Drama, Performance and Experience: the Carnival parade of Maracatu Iracema Nation *
Recebido em: 07.09.2017. Aprovado em: 15.11.2017
**
Doutora em Sociologia (UFC). Professora efetiva da Universidade de Fortaleza (Unifor), Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Pesquisa em Ciências Jurídicas da Unifor e professora colaborado do mestrado em Avaliação de políticas públicas da Universidade Federal do Ceará. E-mail: dmaiacruz7@gmail.com. *** Doutora em Ciências Sociais (Unicamp). Professora associada no Departamento de Ciências Sociais (UFC). E-mail: leaufc@gmail.com.
Danielle Maia Cruz** Lea Carvalho Rodrigues***
Resumo – Este artigo interpreta o desfile carnavalesco dos maracatus, na cidade de Fortaleza, a partir das noções de drama, performance e experiência formuladas por Victor Turner e Richard Schechner. Dentre as agremiações, tomará para análise especialmente o Nação Iracema. Parte-se do entendimento do Carnaval como drama social e drama estético, compreendendo a vida como espelho da arte, em que indivíduos, por meio de performances múltiplas, vivenciam experiências, dramatizam questões da vida social e evidenciam tensões em torno de elementos performáticos centrais no maracatu cearense. No plano teórico, o artigo visa contribuir no campo de estudos da performance e dos rituais, problematizando a oposição entre indivíduo e sociedade que marca a produção clássica no campo de análise dos rituais. Foca-se no modo como os performers do Nação Iracema se constituem enquanto sujeitos, apreendendo a relação dos mesmos com a audência e o amplo repertório cênico mobilizado para a apresentação carnavalesca. Palavras-chaves: Maracatu. Carnaval. Performance. Drama. Experiência.
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Abstract – This article interprets the carnival parades of maracatu groups in the city of Fortaleza, via the concepts of drama, performance, and experience as formulated by Victor Turn and Richard Schechner. Although there are many maracatu associations, this study focuses on the group Nação Iracema. It hinges on an understanding of Carnival as a social and aesthetic drama, and on an understanding of life as a mirror of art in which individuals, by way of multiple performances, undergo experiences, dramatize questions of social life, and reveal tensions surrounding the central performance elements of maracatu cearense. From a theoretical perspective, this article seeks to contribute to the field of performance studies and the study of ritual, problematizing the opposition between the individual and society that tends to characterize classic scholarly production in the field of the analysis of ritual. It focuses on how the performers of Nação Iracema establish themselves as subjects, taking into consideration their relationship with their audience and the wide theatrical repertoire employed in carnival presentations. Keywords: Maracatu. Carnival. Performance. Drama. Experience.
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Observamos, no entanto, que a municipalidade vem se empenhando, há mais de uma década, para fortalecer o pré-carnaval e, nos dias de Carnaval, promover shows de grande porte, o que implica mudanças, incentivando o fortalezense a permanecer na cidade. A respeito, vide Cruz (2013)..
Quando chega o feriado de Carnaval, uma parte da
O fenômeno do Carnaval já foi tema amplamente
cidade de Fortaleza descansa. Ruas silenciosas podem ser
estudado. No âmbito das ciências sociais, de modo geral, as festas
percorridas a qualquer hora do dia, em contraste, com espaços
carnavalescas foram apreendidas, sobretudo a partir de seu caráter
marcados pela agitação de brincantes, situados principalmente na
festivo, de tempo especial, de suspensão da vida cotidiana, de
parte mais nobre da cidade. Muitos comércios, inclusive os
inversão das hierarquias, de licenciosidade e de seu potencial em
situados próximos à avenida Beira Mar, que preserva certo
atribuir novos conteúdos às identidades culturais. Nas últimas
movimento devido aos turistas que a procuram, encontram-se
décadas,
fechados mesmo na segunda-feira de Carnaval, quando não é
detidamente sobre esta temática. Note-se aqui as formulações do
feriado. É que para uma parcela significativa de fortalezenses o
antropólogo francês Agier (2000) em sua pesquisa etnográfica
caminho do Carnaval são as praias próximas, onde a elite mantém
realizada no início dos anos 1990 com o bloco afro Ilê Aiyê, criado
suas segundas residências e a classe média aluga imóveis de
em 1974 por jovens negros oriundos do bairro da Liberdade,
temporada ou ocupa hotéis e pousadas para usufruir o descanso do
situado na periferia de Salvador.
autores
brasileiros
e
estrangeiros
debruçaram-se
feriado ou a folia dos carnavais das cidades praianas do litoral1.
Entre os autores brasileiros que também se debruçaram
Mas quando chega o domingo de Carnaval, alguém que circule por
sobre o tema do Carnaval, a socióloga Queiroz (1999) realizou
essas ruas vazias e silenciosas, sem vivalma que lhe faça
ampla análise histórico-sociológica, mostrando a festa como
companhia, ao se aproximar da região central da cidade, nos
oriunda da península ibérica e descrevendo seus processos de
arredores da avenida Domingos Olímpio, situada nos meados do
transformação a partir do século XIX, sendo a cidade do Rio de
Centro da cidade, poderá ouvir ao longe o baque surdo dos
Janeiro, no Brasil, importante centro difusor dessa manifestação.
tambores, a cadência marcada, lenta e pesada da música tradicional
Em outro campo disciplinar, referenciado nos estudos da
do maracatu cearense. No domingo e na terça-feira, desfilam ali,
antropologia, DaMatta (1997) tomou o Carnaval como porta de
em caráter competitivo, entre treze e quinze grupos. Entre eles,
entrada para a compreensão dos valores centrais arraigados na vida
apresenta-se o Maracatu Nação Iracema, sobre o qual, ao longo
social da sociedade brasileira; segundo ele, marcada pelo dilema
deste artigo, teceremos interpretações e cuja atuação procuraremos
entre
compreender a partir das noções de drama, performance e
individualistas, notadamente manifestos no jeitinho brasileiro.
experiência desenvolvidas pelo antropólogo Victor Turner e pelo
Depreendemos de sua exposição que o Carnaval é visto como
dramaturgo Richard Schechnner.
dispositivo que permite pensar a sociedade como um jogo de
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o
mundo
hierárquico
dos
códigos
e
dos
valores
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues espelhos; imagens em que cada indivíduo projeta um pouco de si
mercantilização da cultura, sendo importante destacar o debate
em todo o repertório de alegorias disponibilizado pela festa. Disto,
proposto pelo sociólogo Farias (2000) sobre os “carnavais-
vemos os rituais como sistema de comunicação simbólica que,
espetáculos”
“sugere e insinua a esperança de todos os homens na sua
carnavalescas do Rio de Janeiro. Nesse eixo de discussão,
inesgotável vontade de passar e ficar, de esconder e mostrar, de
mencionamos ainda os estudos que articulam as relações entre as
controlar e libertar, nessa constante transformação do mundo e de
festas de Carnaval e o poder público, focalizando a ligação entre as
si mesmo que está inscrita no verbo viver em sociedade” (DaMatta
políticas de cultura e o turismo. Desse ponto de vista, Cruz (2013)
1987, p. 11).
apresentou novas abordagens metodológicas a respeito dessas
ao
tomar
como
campo
empírico
as
festas
Seguindo a mesma linha interpretativa, Cavalcanti
festas. A partir das recentes dinâmicas instauradas na cidade de
(2006, p. 18-19) realizou detida análise etnográfica do desfile de
Fortaleza, a autora buscou compreender, de um lado, os
Carnaval do Rio de Janeiro, considerando três perspectivas
mecanismos de ação do poder público para estimular e regrar os
centrais: dimensão agonística, forma artística e recentes processos
festejos carnavalescos e, de outro, as formas de negociação dos
urbanos, quando, segundo a autora, ocorreu a expansão das
brincantes com as novas lógicas estabelecidas pela prefeitura por
camadas médias e populares e o aumento da importância do jogo
meio de editais.
do bicho entre as camadas populares. As formulações da
O fenômeno do Carnaval permite, portanto, múltiplas
antropóloga tomam o desfile como um rito, capturando diversas
abordagens. Em relação aos objetivos deste artigo, chamamos a
linguagens expressivas e tensões sociológicas expressadas entre os
atenção para o êxtase que a festa suscita nas pessoas por meio de
atores da festa.
amplo repertório cênico, tempo especial e espaços onde ocorrem.
Nos últimos anos, diversos pesquisadores brasileiros
Nesses momentos festivos, desejos se expressam, performances se
realizaram estudos no campo das ciências sociais interessados na
realizam; valores e questões da vida social são dramatizados de
dimensão simbólica das festas carnavalescas. Destacamos a
forma veemente.
pesquisa etnográfica de Cruz (2011) sobre o maracatu Nação
Entre
as
diversas
possibilidadades
analíticas,
a
Iracema na cidade de Fortaleza, cujo objetivo central foi apreender
abordagem da festa de Carnaval a partir das noções de drama,
os sentidos e significados da negritude a partir da dinâmica ritual
performance e experiência desenvolvidas por Turner (1986, 1987,
do desfile de Carnaval em caráter competitivo. O interesse pelo
1988) coloca-se como caminho fecundo. Do encontro do
tema do Carnaval adentrou também a seara dos processos de
antropólogo (particularmente nas fases finais de sua produção
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Victor Turner (1982), em From Ritual to Theatre, expressa seu diálogo com Schechner sinalizando sobretudo a confluência de interesses entre a antropologia e o teatro moderno. Richard Schechner (1985), na obra Between Theater and Anthropology, mostra pontos de contato entre as duas disciplinas. 3 Com base no conceito, Turner (1986) expõe que fenômenos liminares tendem a predominar em sociedades tradicionais (agrárias e/ou tribais) e fenômenos liminoides, em sociedades complexas, marcadas pela Revolução Industrial. 4 De acordo com a localidade, a compreensão acerca do maracatu pode ser passível de mudanças. Entre os elementos passíveis de maior problematização dessa manifestação no Brasil, destacam-se: instrumentos musicais, cadência das músicas (popularmente denominadas de loas), presença de personagens específicos e estabelecimento de práticas religiosas, notadamente como as de matriz africana. No Brasil, os estados com maior visibilidade dessa prática são Pernambuco, com manifestações seculares e variações específicas (baque virado e baque solto) e Ceará. Desde os anos 2000, tal prática cultural, com marcante influência dos maracatus de baque virado, proliferam-se tanto no Brasil como no exterior. Trata-se de práticas denominadas de grupos parafolclóricos, entre outras categorizações. Sobre os maracatus no Ceará, ver Cruz (2011). Em relação aos maracatus pernambucanos, há ampla bibliografia. Acerca dos maracatus no contexto de transnacionalidade, ver Cruz (2012).
acadêmia) com o diretor de teatro norte-americano Richard
Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela Universidade
Schechner2 apreende-se, sobretudo, do pensamento de Turner
Federal do Ceará, a autora afirma que tais apresentações vêm
(1986, 1987, 1988), a ideia de que para se conhecer de forma detida
passando por diversas mudanças principalmente a partir de 1936,
as contradições inerentes à estrutura social faz-se necessário
quando surge a primeira agremiação carnavalesca, ainda que fontes
deslocar o olhar para situações liminares, particularmente para
históricas mostrem a existência de maracatus na cidade desde o fim
figuras “liminoides”, manifestas em performances que emergem a
do século XIX. Como espetáculo carnavalesco, desde então as
partir da interrupção do fluxo da vida ordinária3. Para Turner
agremiações vêm mobilizando arsenal cênico diversificado.
(1986, 1987, 1988), essa condição possibilita aos indivíduos
Entre outros aspectos, a dimensão espetacular dos
vivenciarem, por meio de papéis metafóricos, experiências
maracatus evidencia tensões em torno de elementos performáticos
singulares
que
são,
ao
mesmo
tempo,
“formativas
e
centrais dessa manifestação no estado do Ceará, além de chamar a
transformativas”, podendo ser partilhadas entre os atores sociais de
atenção para experiências profundas vivenciadas por indivíduos por
forma individual ou coletiva.
meio de suas performances. Assim, buscamos compreender o
Com base nas formulações dos autores mencionados,
desfile de Carnaval do maracatu Nação Iracema a partir das noções
partimos, neste artigo, do entendimento da vida como espelho da
de drama, performance e experiência, focalizando a apreensão
arte e da perspectiva de que os indivíduos protagonizam seus
tanto das performances coletivas como individuais acionadas na
imaginários através de dramas estéticos. Logo, por meio da
festa por diversos atores sociais nela envolvidos.
experiência, eles aprendem que algo novo na vida pode ser
No presente artigo, articulamos as noções de drama
“repensado, adicionado ou mesmo descartado durante o período do
social com o drama do palco, compreendendo essa inter-relação
palco” (Turner 1986, p. 17). Dessa perspectiva, o Carnaval é um
não como um “padrão repetitivo” nem “cíclico”, mas como um
fenômeno interessante. Além de seu caráter liminar e performático,
“processo espiralado” e criativo (TURNER, 1986, p. 17). Trata-se
ele é capaz de suscitar nos indivíduos experiências profundas, bem
de fenômenos metafóricos, marcados pela eclosão de performances
como acionar pontos de tensão que correspondem aos momentos
vívidas e criativas, quando indivíduos mobilizam amplo repertório
críticos do drama social.
cênico para dramatizar questões pessoais e coletivas diversas, como
Tomando como referência as análises de Cruz (2013)
nos fazem pensar Turner (1986, 1987), Schechner (1987, 2011) e
sobre os desfiles dos maracatus4 em Fortaleza, durante o período de
Schechner e Appel (1990). O argumento é que a noção de
2006 e 2008, para dissertação de mestrado defendida pelo
experiência, entendida como “estruturas de experiências (o
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Para Dilthey, a experiência impele a expressão, ou a comunicação com a coletividade, pois somos seres sociais e queremos dizer o que aprendemos com a experiência (Turner 1986, p. 37). 6 O conceito de drama social foi elaborado por Victor Turner em sua obra Schism and Continuity (1996, p. 91-94). Certamente, o termo tem muitas nuanças no decorrer de sua trajetória acadêmica. Em síntese, segundo o próprio autor, o conceito corresponde a quatro fases constitutivas do processo social: i) separação ou ruptura; ii) crise e intensificação da crise; iii) ação remediadora e iv) reintegração (Turner 1987, p. 74). Em síntese, a primeira fase pode ocorrer pelo rompimento de algum relacionamento tido como importante pelo grupo ou por parte dele. A segunda consiste na intensificação da crise. Na terceira, figura-se uma tentativa de reconciliação ou possíveis ajustes entre os envolvidos no conflito. Por fim, a quarta é marcada pela “reintegração” do grupo ou “cisão irreparável”. 7 Turner (2005b, p. 164) entende que “ritos de passagem, assim como dramas sociais, evocam uma forma estética que se assemelha à tragédia grega”. Vide Schechner (1988). 8 Ver a noção de “comportamento restaurado” em Schechner (1988).
Erlebnis de Dilthey)”5, conforme expõe Turner (1986, p. 41),
de papéis metafóricos, atores sociais vivem experiências singulares
permite problematizar as categorias indivíduo e sociedade a partir
(individuais ou coletivas), sendo estas, por vezes, reflexivas e
da noção de performance, rejeitando, assim, oposições e
fonte de formas estéticas, remetendo à experiência do teatro
dicotomias, amplamente reforçadas nos estudos clássicos dos
(Turner 2005a, p. 184)7. No caso dos desfiles carnavalescos, são
rituais. Portanto, no plano teórico, este artigo visa oferecer
agregados à festa componentes competitivos que estimulam plateia
contribuições aos estudos da performance e dos rituais,
e performers.
apresentando outra perspectiva analítica, focalizando a apreensão
Dos diálogos com Turner, Richard Schechner (1985,
dos modos como os performers do maracatu Nação Iracema se
1988) vislumbrou outra perspectiva analítica para eventos
constituem enquanto sujeitos a partir de variadas performances
performáticos teatrais ao constatar forte relação entre rito e teatro,
expressas no desfile de Carnaval.
de forma que, segundo ele, tais fenômenos possuem a mesma natureza, dado o caráter comum da performance – uma diversidade de “formas de entretenimento, artes, rituais, política, economia e
Situando o debate
interações de pessoa a pessoa” (Schechner 2013, p. 41). Antes de apresentarmos o desfile do maracatu Nação
Nesse campo de confluências, o interesse de Schechner
Iracema, vale retermos, das interlocuções estabelecidas entre
(2013) centra-se na “performatividade”: capacidade que os seres
Turner (1986, 1987, 1988), Schechner (1987, 1988, 2011) e
humanos têm de se comportarem reflexivamente, de brincarem
Schechner e Appel (1990), o entendimento de “dramas sociais”6
com
enquanto experiências que instauram situações liminares e se
comportado” (twice behaved)8. Para ele, uma performance pode ter
expressam nos interstícios da estrutura social. São momentos que
duas dimensões: eficácia e entretenimento. Do ponto de vista da
interrompem o fluxo da vida cotidiana, quando indivíduos
eficácia, o autor afirma que a performance se volta para solucionar
investem-se de novas formas de estar no mundo. Nessas ocasiões,
tensões, provocando mudanças significativas nas posições sociais
performam-se múltiplas experiências, sendo isto, conforme Turner
dos indivíduos, conforme ocorre nos dramas sociais. Já as
(1986), expresso em figuras “liminoides”.
performances centradas no entretenimento, a exemplo dos
Situações festivas como o Carnaval configuram-se como
o
comportamento,
de
modelá-lo
como
“duplamente
espetáculos de teatro, não provocam alterações significativas na
dramas sociais. Nessas ocasiões, ingere-se bebida alcoólica, dança-
sociedade.
se freneticamente, fantasia-se, mascara-se, dramatiza-se. Por meio Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 33
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A Federação das Agremiações Carnavalescas do Ceará (FACC), associação sem fins lucrativos, surgiu em 1948. Entre suas responsabilidades, destacamos o apoio às apresentações carnavalescas das agremiações, com a busca de recursos financeiros oferecidos pela prefeitura para a realização da festa. A partir de 2008, a FACC teve suas atividades suspensas por problemas legais, sendo desde então competência da prefeitura montar a estrutura física e apoiar os grupos (com fomento público) e da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Estado do Ceará (ACECCE) escolher os jurados e critérios de julgamento do desfile.
As formulações apresentadas permitem um olhar atento
familiares, aos poucos, acomodavam-se para assistir ao desfile. Nas
para o objeto deste artigo, particularmente para os momentos
ruas, havia performers fantasiados com artefatos diversos: homens
anteriores à apresentação de Carnaval do maracatu em Fortaleza.
vestidos
Da mesma forma que nos espetáculos teatrais, é importante atentar
modificados por cosméticos faciais, bem como por intervenções
para o período preparatório, como bem salienta Schechner (1988).
cirúrgicas, (próteses de silicone nos seios e nádegas). Isso aponta
com
indumentárias
femininas
e/ou
nitidamente
para situações próprias aos períodos liminares, quando se invertem posições sociais, hierarquias e atributos de gênero, como bem
Gestos, adereços e vestimentas: o desfile vai começar!
salientou DaMatta no estudo sobre o Carnaval brasileiro. Em 2008, na avenida Domingos Olímpio, local onde
Schechner (2012, p. 159) também compartilha tal visão, afirmando
acontece o desfile de Carnaval das agremiações, muretas de ferro
que “com raras exceções, festivais e atuais carnavais não são
estabeleciam o local próprio às apresentações, sendo autorizada a
inversões da ordem social”.
entrada somente de pessoas credenciadas. Ladeando o espaço,
As arquibancadas foram espaços bastante disputados
havia arquibancadas, destinadas ao público em geral, além de
pelas pessoas. Famílias, crianças e grupos de amigos (geralmente
camarotes para convidados da prefeitura e da então atuante
mulheres) chegaram horas antes da apresentação, buscando lugares
Federação das Agremiações Carnavalescas do Ceará (FACC) 9. Por
próximos às muretas para garantir melhor visualização da
todo o percurso do desfile, toldos foram estrategicamente
apresentação.
posicionados para acomodar os jurados: professores universitários,
Apesar da nítida demarcação em algumas áreas, havia
jornalistas e artistas locais.
diferentes usos do espaço urbano. Esquinas eram usadas como
Se em alguns desfiles carnavalescos a festa é marcada
pontos de encontro entre amigos, calçadas eram utilizadas como
pela multidão que se aglomera e se apropria dos espaços da festa a
camarins por diversos performers e ruas, apesar de interditadas
partir de suas lógicas, um traço marcante da apresentação de
pela prefeitura, eram apropriadas por foliões com carros
Carnaval na avenida Domingos Olímpio é a marcação dos espaços.
transportando equipamentos de som de elevada potência. Tudo isso
Naquele ano, até o início da noite, em uma das vias da avenida,
trazia à tona a ideia de que “[...] existe uma ordem espacial que
antes das apresentações dos maracatus, havia intenso vaivém de
organiza um conjunto de possibilidades (por exemplo, um local
pessoas com caixas de som reproduzindo ritmos como funk, forró,
onde é permitido circular) e proibições (por exemplo, um muro que
axé e marchinhas carnavalescas. Nos bares, grupos de amigos e
impede prosseguir), o caminhante atualiza algumas delas [...] mas
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Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues também as desloca e inventa outras” (CERTEAU, 2008, p. 164).
marcantes, por outro lado, a dimensão espetacular adquirida pelo
Assim, ao fazerem usos proibidos pelo poder público de
desfile nas últimas décadas tem instaurado pontos de tensão na
determinados espaços sociais, a ação dos performers indica que as
festa que correspondem aos momentos críticos do drama social,
práticas carnavalescas atualizam os espaços sociais, invertem as
como fica claro na fala de Carlos, performer de maracatu que
regras e, nesse sentido, conferem sentidos não previstos à
ocupa o papel de puxador de loa:
espacialidade urbana. Pois é, eu acho que tem uma coisa na Domingos Olímpio que deveria ser repensada: a arquibancada. A arquibancada tira a espontaneidade do maracatu. A arquibancada transforma a brincadeira em espetáculo. Em 2007, quando a arquibancada da Domingos Olímpio caiu, eu estava junto com o maracatu Solar. Tava, na realidade, fotografando. E foi quando chegou a notícia. Mas aí o Solar tava ali na concentração e como a sede do Solar é ali perto eles saíram cantando, tocando e cortejando pela rua. Todo mundo cantando e cortejando. Foi lindo. Então, você vê naquele momento que a energia do maracatu sem a arquibancada é muito melhor. Então, aquela estrutura não é adequada pra brincar maracatu. Eu digo aquela estrutura de arquibancada. Tem uma coisa errada naquele formato. Parece coisa de escola de samba, sem interação do povo. Não tem a espontaneidade, sabe! A arquibanca poda o maracatu.
O interessante a apontar é que se em algumas manifestações e alguns rituais públicos coletivos todos performam juntos, suprimindo, naquele instante, barreiras físicas e simbólicas que separam os atores na festa, em Fortaleza, o desfile do maracatu, além de drama social, é também um drama estético. Como bem teorizam Turner e Schechner, dramas estéticos e sociais são como espelhos interativos. Das proximidades entre ritual e teatro, Schechner (1985, 1988) visualizou a sobreposição dos dramas rituais aos dramas estéticos, afirmando tratar-se de processos inter-relacionais e interativos. Sobre isso, o que se observa, diz Turner (1986, p. 16), é “que o drama social manifesto alimenta o drama do palco”. Trata-se não só de influências na forma, mas também no conteúdo, configurando-se como “espelhos mágicos” (TURNER, 1986, p. 16). Nesse jogo de reflexos em que a
Outras pessoas presentes ao desfile ressaltaram que os
vida espelha a arte e vice-versa, dramas estéticos e rituais constituem-se como espaços metafóricos, onde
os
espaços
sujeitos
que
brevemente,
avenida
colaboraram
de rua: a criatividade e o improviso. Para essas pessoas,
diversos atores a possibilidade de se deslocarem para mundos ainda
na
enfraquecimento de duas das características marcantes do Carnaval
pois se, por um lado, essa dimensão cênica da festa conferiu a
vivendo,
demarcados
significativamente para a dimensão espetacular da festa e o
performam questões da vida social. Isso é importante na análise,
metafóricos,
bem
arquibancadas e camarotes contrariam a principal característica do
experiências
Carnaval,
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a
suspensão
das
barreiras
sociais,
ainda
que
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues 10
Compreendendo o drama social como locus de expressão da performance, Schechner (2011), ao deter-se nos pontos de contato entre as formulações da antropologia e as do teatro, aponta para a “intensidade da performance”, sendo, segundo ele, crucial debruçar-se sobre os modos como ela “constrói, acumula, ou usa a monotonia; como ela atrai participantes, ou intencionalmente os barra; como o espaço é projetado ou manipulado; como o cenário ou roteiro é usado” (SSHECHER, 2011, p. 219).
momentaneamente. Sobre essa perspectiva, Pedro, outro performer
tudo parecia devidamente preparado para o grande dia: fantasias
de maracatu, comentou:
dobradas dentro de caixas, coreografias e loas sistematicamente ensaiadas nas ruas do bairro, casa de apoio alugada nas
Eu morei em Aracati durante minha adolescência toda e então eu passava o Carnaval lá. Quando eu voltei pra morar em Fortaleza, eu voltava pra Aracati no Carnaval porque nada me atraía aqui em Fortaleza. Naquela época, eu já gostava da ideia do Carnaval de rua gratuito, gostava de ver o povo passando, do movimento que o Carnaval faz com a cidade [...] Em 2005 ou 2006, não lembro ao certo, eu só sabia dos maracatus, mas eu nunca assisti, nunca fui lá, me incomoda essa coisa de arquibancada. Gosto mesmo é de ver o povo na rua, misturado, cantando e dançando junto.
proximidades da avenida Domingos Olímpio etc. Os preparativos para a festa prosseguiram até momentos antes de o maracatu entrar na avenida; botões despregaram das fantasias, adereços descolaram, saiotes rasgaram ou ficaram frouxos nas cinturas franzinas de algumas jovens; saltos de sapatos já gastos pelo tempo quebraram, indumentárias se perderam, enfim, era preciso prosseguir com os cuidados ao desfile. Nas imediações da avenida Domingos Olímpio alguns performers se acomodaram por toda a tarde e lá realizaram sua
Embora possamos pensar que tais demarcações dos
preparação. Alguns se expunham aos olhares dos transeuntes,
espaços na avenida Domigos Olímpio suprimem por completo as
respondiam perguntas dos mais curiosos e posavam para fotos. Já
interações sociais, as formulações de Schechner (2011, p. 218)
outros preferiram lugares mais recônditos. “É para não estragar a
indicam que performances rituais e estéticas não ocorrem
surpresa”, afirmou Antônio, balaieiro do maracatu Nação Iracema.
desconectadas de suas audiências. Para Schechner (2011, p. 213-
“Se eu for pro meio da rua, todo mundo vai ver minha fantasia. Vai
14), esses momentos são marcados pela “intensidade da
perder a graça”, comentou a jovem que figuraria como a mãe das
performance” que, segundo ele, apresenta sequências bem
etnias do Nação Iracema. Aquele que atuaria como rainha do
definidas:
maracatu Nação Iracema afirmou que tal momento deve restringir-
treinamento,
oficinas,
ensaios,
aquecimentos,
se a poucos observadores: “pra não estragar a surpresa da fantasia”
performance, esfriamento e balanço10.
e para garantir a concentração necessária ao desfile.
No maracatu Nação Iracema, algumas dessas sequências são bastante nítidas e importantes para a dinâmica do grupo. Para a
Como mostra Schechner (2011, p. 219), no processo de
preparação do desfile, durante todo o ano que antecede o desfile,
preparação da performance, ou seja, o ato para exercer as técnicas
muitas são as formas de ação desenvolvidas pelos integrantes. Em
de “chegar lá”, em algumas circunstâncias, a fase “treinamento” é
2008, nos dias que antecederam a apresentação do Nação Iracema,
crucial. Trata-se de aprender as artes de ser um performer, podendo
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 36
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues 11
Negrume é o termo utilizado pelos performers dos maracatus cearenses para se referir à pintura da face com tinta preta. Trata-se de uma máscara artesanalmente feita sobre o rosto a partir de uma mistura de fuligem de lamparina, vaselina, óleo e talco. Misturados, esses componentes transformam-se em um produto de grossa espessura. Esse elemento performático é marcante nos maracatus cearenses, sendo considerado aspecto tradicional. Quando Schechner (2012) interpreta, a partir da noção de drama, o carnaval de rua de New Orleans, ele entende que o rosto pintado de preto dos performers do grupo Zulu, a máscara colocada sobre a cor já preta de suas peles, configura-se como uma “reafirmação teatral da ‘negritude’ social” (SCHECHNER, 2012, p. 181), leitura que devemos considerar na interpretação do mesmo elemento nos maracatus cearenses. 12 Embora o marco do surgimento dos maracatus no Ceará seja o ano de 1937, dado o início das apresentações de rua do ainda atuante Az de Ouro, autores apontam para a existência de maracatus no Ceará desde o fim do século XIX, sendo isso por alguns intimamente relacionado com as irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Ver Marques (2009). Em relação à existência de maracatus no fim do século XIX, ver Barroso (2002) e Nogueira (1981; 1991).
ter início, segundo exemplifica o autor, na mais tenra idade (como ocorre no drama nô) ou nos momentos que antecedem à
Nesse
vaivém,
algumas
pessoas
se
vestiam
performance. No Nação Iracema, entre alguns, a preparação ocorre
solitariamente, enquanto outras elevavam o tom da voz em busca
desde muito pequeno, quando na companhia dos familiares, se
de auxílio. Mas apesar das peculiaridades de cada um, muitos se
aprende a performar no maracatu; outros ensaiam coreografias e
prepararam para um momento especial de suas vidas naquela tarde
batuques nos três meses que antecede o Carnaval. Entre outros
de domingo. Segundo uma performer, o desfile na avenida
performers, a preparação ocorre efetivamente antes da entrada do
Domingos Olímpio era um “momento mágico”, pois a permitia
maracatu na avenida, nas horas anteriores à apresentação.
“viver a índia Iracema” e “esquecer toda a rotina pesada da vida”.
“Preparar o performer para performatizar” implica
Para quem figuraria como rainha no Maracatu Nação Iracema, a
reações diversas, enfatiza Schechner (2011, p. 219). Isso foi
chegada do Carnaval implicava “deixar para lá o [...] funcionário
amplamente observado nos momentos que antecederam a
público e se transformar na rainha do maracatu”. A fala dessas
apresentação
performers
pessoas somada à preparação de seus corpos deixa nítida suas
transformaram, pouco a pouco, suas aparências. Inúmeros eram os
intensões em viver, ainda que brevemente, outra condição humana,
detalhes de cada vestimenta. Intermináveis são as formas de
acionando com isso a “consciência performativa e subjuntiva da
descrever o esmero de alguns performers na composição de suas
performance”, ou seja, o “como se” enunciado por Schechner
fantasias. No quintal da casa alugada para as atividades do Nação
(2011, p. 216).
do
Nação
Iracema,
quando
os
Iracema, Amanda, figurando naquela ocasião como negra do
A rainha é a personagem de maior importância para o
maracatu, cuidadosamente cobriu o rosto com tinta preta, formando
maracatu cearense; a beleza da indumentária e a desenvoltura na
uma máscara popularmente chamada de negrume11. Ao seu redor,
avenida são os requisitos mais exigidos pelos jurados. Uma rainha
era comum ouvir a polifonia de vozes de outras performers:
bela e com larga experiência confere legitimidade a um grupo. Entre o ano de 1937, quando teve início o desfile dos maracatus em
encolhe a barriga pra não mostrar a gordurinha, passa mais tinta na cara, acho que precisa de mais batom! Essa peruca vai cair, bota mais grampo. Vou morrer de vergonha se esse cabelo não cobrir meus seios. Tô nua, né! Essa roupa é muita pesada. Esse balaio tá muito lindo, viu! Que biquini imoral é esse, menina?! Ai, meu Deus, meu ex-namorado vai tá lá na avenida assistindo.
Fortaleza12, e o fim da década de 1980, apenas homens ocuparam o papel de rainha do maracatu. Até os anos 1950, as mulheres ocupavam somente funções de assistência nas festas de Carnaval, tal fato em parte decorrente de uma série de formulações simbólicas estabelecidas por um código de etiqueta e valores
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 37
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues morais. Isso, segundo Militão (2007), ocasionou a apropriação da
bijuterias de cor azul. Segundo ele, aquela era a peça mais
festa por homens, que assumiram os papéis determinados às
importante para sua composição de rainha do maracatu. Enquanto
mulheres, tais como índias, baianas, calunga, princesas e rainha.
conversava com o amigo, puxou uma cadeira, acomodou a peça e
Mas
os
tempos
mudaram,
tornando
possível
a
seguiu o ritual de preparação, afirmando que o objeto seria posto
participação de mulheres como performers de maracatus e, hoje,
sobre sua cabeça somente momentos antes de adentrar na avenida.
como rainhas de alguns. No entanto, apesar dessas mudanças,
Com um espelho em uma das mãos e sussurrando o
figuras de destaque, como a rainha, permaneceram por todas essas
refrão da loa do maracatu Nação Iracema (“Nação Iracema/ o teu
décadas, em alguns maracatus, sendo representadas exclusivamente
canto negro de amor/ é belo poema”), ele preparou a pele com
por homens, como é o caso do Nação Iracema.
produtos de beleza. Depois, iniciou a pintura facial com habilidade,
Imbuído do desejo de viver a rainha do maracatu,
passando uma grossa camada de tinta preta sobre a face. Finalizou
experiência realizada desde 1982, o performer, naquela tarde de
o ritual com a aplicação de uma forte camada de batom vermelho
domingo, chegou à avenida Domingos Olímpio por volta das 14
nos lábios. Com a pintura pronta, olhou firme para o espelho e
horas. Após esperar pelos dirigentes do maracatu, ele perguntou
disse: “Hoje eu quero brilhar”. Às gargalhadas, o amigo retrucou:
sobre o cômodo da casa destinado à sua preparação e para lá
“Você está belíssima, amiga”. Estar deslumbrante na apresentação
seguiu. Com entusiasmo, iniciou a preparação do corpo horas antes
implicava transmitir
do início do desfile. Contando com a ajuda de um amigo, removeu
credibilidade, segurança, altivez, confiança, alegria, empatia e
um boné da cabeça, exibindo cabelos ralos e brancos. Com bastante
rigor.
ao público noções
de diferenciação,
calma, retirou do corpo a bermuda e uma camisa de malha,
Transpirações nas costas daquele que viveria a rainha do
expondo um franzino biotipo. Em seguida, guardou todos os
maracatu não o fizeram desanimar por nenhum momento, pelo
objetos pessoais na mochila e inciou sua transformação em rainha
contrário, com contentamento ele vestiu as meias pretas, pôs a saia
do maracatu Nação Iracema.
rodada de armação de arame sobre o corpo e, por cima desta, vestiu
Ritualisticamente, o performer organizou lado a lado
outra saia e uma blusa, ambas bordadas com muitas lantejoulas.
itens de maquiagem sobre o colchão de uma velha cama. Curvou
Por fim, pôs a peruca e as luvas pretas, calçou o par de sapatos de
levemente o corpo para retirar de uma caixa de papelão sua fantasia
saltos altíssimos e distribuiu reluzentes bijuterias pelo corpo, como
e seus adereços. De uma caixa menor, deslocou sua coroa,
anéis e longos colares de contas. Com a vestimenta sobre o corpo,
delicadamente recoberta com papel dourado e bordada com
rodopiou e disse: “Estou quase pronta, falta só a coroa”.
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 38
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues 13
Turner (2005a p. 164) apresenta cinco momentos que constituem a estrutura processual de uma erlebnis, ou experiência vivida: “1) algo acontece ao nível da percepção (sendo que a dor ou o prazer podem ser sentidos de forma mais intensa do que comportamentos repetitivos ou de rotina); 2) imagens de experiência do passado são evocadas e delineadas – de forma aguda; 3) emoções associadas aos eventos do passado são revividas; 4) o passado articula-se ao presente numa ‘relação musical’ (conforme a analogia de Dilthey), tornando possível a descoberta e construção de significado; e 5) a experiência se completa através de uma forma de ‘expressão’”. A respeito, ver também Dawsey (2006).
que tem uma coisa diferente em mim, antes de eu desfilar. Antes do desfile, acontece uma transformação! Você sente essa transformação. É algo mágico! Você pode até ser uma pessoa abusada, mas assim, quando assume o papel de rainha, aí tudo muda. Isso acontece comigo. Você tem que ser uma pessoa simpática, elegante, ter gestos delicados, caminhar como rainha, saber se comunicar com o público. Se transformar totalmente. É uma coisa que acontece. Eu sinto um balanço diferente.
A rainha é uma figura exuberante. Valendo-nos de metáforas linguísticas e musicais, podemos dizer que ela é polifônica e heteroglóssica. Se pela aparência é entendida como revestida de feminilidade em razão de sua indumentária e seus gestos corporais, a construção de sua figura assenta-se em atributos relacionados à masculinidade: força, bravura, poder. “Uma mulher não conseguiria carregar por toda a avenida o peso da fantasia. Tem que ser um homem mesmo”, diz o performer ao justificar a permanência dos homens no papel de rainha no decorrer das
É interessante notar que nas formulações de Schechner
décadas. Assim, a multiplicidade de sentidos emanentes do seu
(2011, p. 225), o balanço relaciona-se “às consequências a longo
corpo extrapolam e até implodem uma definição que se oriente em
prazo ou o seguimento dado a uma performance. O balanço inclui
um único sentido. Isso implica dizer que a preparação ritualistíca
as mudanças de status ou do ser que resultam de uma performance
do performer vai além dos artefatos sobre o corpo: a máscara e a
iniciática; ou a lenta fusão de um performer com o papel que ele
indumentária. Há todo um processo que o prepara para viver aquela
interpreta há décadas”. Seria o que Turner (2005b, p. 164), baseado
experiência, que o situa em uma condição liminar, fazendo dele um
em Dilthey, descreveu como “erlebnis”, ou experiência vivida, algo
“não homem” um “não eu”, localizando-o “nas áreas liminais da
formativo e transformativo13. Para o autor, quando isso ocorre, a
‘caracterização’,‘representação’,
e
performance
e
transformação
‘transformação’”,
expressando
‘imitação’,
‘transportação’
“identidades
múltiplas
completou Schechner
a
experiência. (1988,
p.
Esse
processo
142)
de
denominou
ambivalentes” (SCHCHNER, 2011, p. 214). Sobre seu processo de
“transformation”, uma experiência que pode levar ao despertar de
transformação, o performer relata:
uma “consciência crítica” tanto no performer como naquele que observa o evento. O relato do performer explicita isso:
Porque é aquela história: pra você ser rainha do maracatu não é simplesmente querer ser rainha do maracatu. Ah, quero ser rainha! A roupa da rainha é diferente, é bem luxuosa. Eu cuido de tudo da minha roupa. Olho cada bordado. Tomo muito cuidado com a pintura do rosto. Uma rainha tem que ser linda! E, assim, pra você ser rainha do maracatu, você tem que sentir, né! Eu desde o primeiro ano que saí como rainha senti
Eu era militar do 23 BC [Batalhão de Caçadores, em Fortaleza]. Quando foi em 1977, eu tive um problema com um superior e, por conta disso, peguei uma punição no quartel. Nunca tinha sido punido. Isso me decepcionou muito e aí eu vi que precisava sair. Não ia dar certo lá não. Se isso não tivesse acontecido, eu
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 39
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues teria seguido a carreira militar. Provavelmente não poderia ter me transformado na rainha do maracatu que sou hoje. Ou até podia, mas com muitas restrições. Eu não estando de serviço, acredito que não teria nenhum empecilho desfilar na avenida no Carnaval. Penso eu, né! Mas jamais poderia fazer as viagens com o maracatu por conta de ser militar. Então assim, a transformação na rainha do maracatu foi uma coisa que eu não esperava, muito embora eu gostasse muito de Carnaval, sempre gostei muito das escolas de samba. Ah! eu esqueci de dizer, mas também estudei em colégio de padre. Minha formação é muito católica. Fiquei lá internado por um tempão, quando eu era menino. Mas assim, foi o maracatu que mudou completamente a minha vida. Hoje coleciono matérias de jornal do maracatu. Também tenho algumas fantasias que foram importantes, já velha. Fiz também amigos de verdade. O falecido Zé Rainha, outra rainha que foi muito importante, era meu amigo de verdade. Eu particularmente não teria condições de conhecer o que hoje eu conheço sem o maracatu, os países, os estados, porque eu conheço quase todos os municípios do estado, quase todos os estados e alguns países. Na minha situação de funcionário público eu não teria condições de conhecer tudo isso. Mas a maior mudança foi na minha vida pessoal. A minha vida quase toda foi voltada ao funcionalismo como funcionário público. Todo mundo sabe que sou [...] funcionário público respeitado, correto nas minhas coisas, mas quando chega o Carnaval, aí acontece uma transformação. Vivo pro Carnaval. Pra realização de sonhos mesmo. Sempre fui muito só pro trabalho. Pra realização dos sonhos, foi o Carnaval, a escola de samba, principalmente o maracatu. Pra realização dos sonhos foi principalmente quando eu virei rainha do maracatu, né. Então, ser hoje a rainha do maracatu mais antiga do
Ceará tem um valor muito grande na minha vida.
Assim como o performer exemplificado acima, outros performers do maracatu Nação Iracema vivenciaram experiências por meio das performances expressas no desfile, conforme relatou Antônio, que figurou como balaieiro naquela ocasião:
O balaieiro é um personagem de destaque no maracatu. Tem a rainha, claro! Mas o balaieiro tem o seu destaque. É ele que carrega por todo o desfile aquele cesto de frutas pesado na cabeça. É pra representar os cestos de frutas que os negros levavam, né! Então, a principal característica do balaio é ter equilíbrio. E assim, você precisa remexer bem o corpo, dançar [...] O maracatu é muito importante pra mim porque eu trabalho com dança, sou coreógrafo, trabalho com crianças em outros lugares dando aulas de dança. Então, ocupar o lugar de balaieiro é muito legal.
Decerto, muitos são os esforços mobilizados pelos performers para expressarem suas singularidades e subjetividades. Por meio de vívidos e coloridos artefatos, o maracatu revela-se como drama social e estético que traz à baila, de modo articulado, processos individuais e coletivos. Mas no maracatu as experiências não são vivenciadas de forma profunda somente por aqueles que performaram na avenida. Diversos performers, com distintas motivações, prepararam-se para a transformação, para viver a experiência, esforçando-se nos manejos das técnicas para “chegar
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 40
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues lá” (SCHECHNER, 2011). Bastava sair no corredor da casa
A experiência acionada no maracatu por meio de
alugada para perceber o intenso volume de vozes embaralhando-se.
questões étnicas também é marcante para outras pessoas, sobretudo
Nesse cenário, em volta de vários performers, estava
para os dirigentes dona Cleide, dona Lúcia e o senhor Willian,
Maria. Com turbante na cabeça e saia rodada, ela freneticamente
militantes do movimento negro no Ceará e, no desfile de Carnaval,
corria os olhos por objetos acomodados dentro de caixas de
ocupantes da equipe de apoio. Essa experiência é evidenciada na
papelão e espalhados pelo chão da casa. No tradicional desfile da
fala de dona Cleide:
Domingos Olímpio, Maria colocou-se somente como membro da Eu nunca pensei em ter um maracatu não, nem em formar grupo de militância negra. Foi tudo a vida que levou pra esses caminhos. Quando eu era moça, eu queria estudar e arranjar um emprego. Meu sonho era trabalhar no comércio. Aí deu certo. Mas lá tive muitos problemas com as colegas porque eu era negra. Tinham muito preconceito. Me botavam pra arrumar a loja inteira como seu eu fosse empregada delas. Depois eu fui trabalhar num supermercado. Os clientes chegavam e, quando acontecia algum problema, pediam pra falar com o chefe. Só que eu era a chefe! Isso doía muito, né. Então, um belo dia, depois que a Lúcia [irmã de dona Cleide e dirigente do maracatu Nação Iracema] voltou do Rio de Janeiro, ela começou a organizar a missa afro aqui em Fortaleza. Aí eu comecei a me envolver com a militância negra. Depois disso, começamos aqui a brincar em outros maracatus. Até que decidimos fundar o nosso pra valorizar a cultura afrodescente. Pra contar a história que não é contatada sobre o negro.
equipe de apoio. Contudo, o maracatu, sobretudo a apresentação carnavalesca, significa para Maria um momento especial, acionando nela experiências marcantes, tanto individuais como coletivas. Sobre isso, Maria diz:
Olha, não dá pra ser maracatu sem ser movimento negro [...] Eu assistia à missa afro que o pessoal do movimento negro organizava. Eu ficava encantada. Como eu trabalhava com crianças menores de rua, eu sentia essa necessidade de passar essa cultura pra eles. Lá tem muitos meninos afrodescendentes. Aí, com a participação das missas, fui querendo entrar no movimento negro. Acabei conhecendo o pessoal do Nação Iracema. Aí, acabei aqui no maracatu. Hoje o maracatu é minha vida. Eu posso exercer no maracatu muitas coisas que eu amo fazer: passar a cultura afro através da minha arte, das danças, das coreografias que eu faço tanto pro grupo de dança afro daqui, o Abogun Bolu, como pro maracatu [...] Não sou estilista, nunca fui pra universidade, né. Mas invento uns modelos, sou criativa. Então eu dou uma de estilista do maracatu e também costuro todas as fantasias do pessoal.
Por causa da relação do Nação Iracema com o movimento negro no Ceará, alguns performers desse maracatu são diretamente envolvidos com questões da negritude, como Márcia, que figurou na Domingos Olímpio como mãe das etnias,
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 41
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues personagem criada pelos dirigentes somente para aquele desfile. Na
sensações distintas da rotina são experimentadas, remetendo a
ocasião, em meio ao volume de atividades, o grito de Márcia ecoou
imagens do passado, sendo isso revivido de forma articulada ao
do quintal da casa: “Maria, vem cá, corre!”. Esboçando sorrisos de
presente, tornando possível a completa experiência, a experiência e
nervosismo, a jovem demonstrou insegurança com sua fantasia em
não apenas uma experiência, no sentido de Dilthey (TURNER,
razão dos seios desnudos, cobertos somente por seus longos
1986).
cabelos trançados. Tranquilizando-a, Maria afirmou que idealizou e
Assim como Márcia, outros iniciavam o processo de
costurou a fantasia especialmente para ela, dada sua relação com o
transformação horas antes do desfile, considerando o ensaio,
quilombo Conceição dos Caetanos e com o movimento negro do
momento
Ceará, além da cor escura de sua pele, aspecto importante para
anteriormente, ensaios voltados para o êxito da performance têm
representar a mãe África.
início alguns meses antes da apresentação de Carnaval. Contudo,
crucial
da
preparação.
Conforme
explicitamos
Os relatos de Márcia apontam que sua experiência por
são nas horas que antecedem o desfile que essa parte da “sequência
meio do maracatu é acionada a partir da dança. Seu envolvimento
total da performance” se intensifica (Schechner 2011). Para a ala
com o maracatu relaciona-se diretamente com as coreografias afro.
do batuque, o ensaio tem caráter de “trabalho criativo” que permite
Segundo ela, uma de suas principais aptidões individuais é dançar,
aos integrantes testarem os “muitos elementos que compõem uma
particularmente danças africanas, aprendidas por meio da internet e
performance” (SCHECHNER, 2011, p. 225).
com amigas africanas de Guiné Bissau e Cabo Verde residentes no
Após todo o processo de preparação, os performers se
Brasil:
reuniram em frente à casa de apoio. Prontos para o desfile, cada um procurou aqueles que pertenciam às mesmas alas. Aos poucos, Na avenida, posso mostrar aquilo que eu sei. Fazer o meu melhor [...] danço muito no Abogun Bolu e também na Missa Afro lá de Conceição dos Caetanos organizada pela minha tia Bibil. É uma coisa linda. Todas as minhas primas dançando na praça. Tudo negra de tinta forte, gengiva escura, cabelo trançado, nariz grande [risos].
organizaram-se, cantaram a loa e ensaiaram passos ritmados e coletivos. Um olhar precipitado podia levar à visualização de pequenos grupos homogêneos de pessoas em razão da semelhança das fantasias, das pinturas corporais, da tinta preta na face, da coreografia padronizada. No entanto, cada performer levava nos adereços, nas vestimentas e nos gestos um pouco de suas
A condição de viver a mãe das etnias no maracatu Nação
individualidades. Bastava observar o modo como as meninas
Iracema certamente se processa para a jovem como aquilo que
arrumaram os cabelos, enrolaram as saias, ajustaram os biquines,
Turner (1986) nomeou de “experiência vivida”. Ou seja, quando Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 42
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues coloriram os lábios, esmaltaram as unhas, mexeram os quadris,
abordagem indicada, propicia uma análise fecunda, pois permite
perfumaram-se,
sua
compreender como a vida se expressa por meio da arte, ou seja,
intimidade para o público. Dietas de emagrecimento foram feitas
como indivíduos a partir de amplo repertório cênico dramatizam
por algumas meninas meses antes do desfiles, com o objetivo de se
questões da vida social, bem como põem em cena outras tensões
apresentarem esbeltas na avenida, conforme afirmou Raquel,
que correspondem aos momentos críticos do drama social,
performer da ala das índias.
conforme
movimentaram-se,
prepararam-se
na
Já era noite quando surgiu no céu um clarão seguido de
será
melhor
abordado
adiante,
descrevermos
analiticamente o desfile de Carnaval na Domingos Olímpio.
um vibrante barulho de fogos de artifício. A cada maracatu que iniciava o desfile, a explosão de fogos se repetia. Quando chegou o
Performances na avenida
momento do desfile do Nação Iracema, na última ala, estava lá o performer que viveria a rainha do maracatu, em meio ao barulho
Aplausos calorosos saudaram os performers do Nação
intenso dos tambores. Ele fechou os olhos, balbuciou algumas
Iracema. Segundo os dirigentes, o termômetro de um desfile
palavras e, em tom quase confessional, beijou a insígnia real e a
exitoso é a expressão do público, sobretudo suas manifestações de
pôs sobre a cabeça. Por fim, segurou o cetro e adentrou a avenida
emoção, como gritos, acenos, frases amorosas e pedidos para tirar
na ala da corte. Diferentemente de alguns maracatus, cujas rainhas
fotografias. Schechner (2011, p. 217), ao deter a atenção na relação
percorrem toda a avenida sem a coroa sobre a cabeça, havendo ao
que se estabelece entre performers e audiência, afirma que “em
fim um momento especial para a coroação, no Nação Iracema, a
todos os tipos de performance uma certa fronteira definida é
rainha desfila já coroada. Para o performer, “rainha que é rainha
cruzada. E se não é, a performance falha [...] Nenhuma
tem que ser coroada. Tem que entrar na avenida coroada, ora essa,
performance teatral funciona desligada de sua audiência”. No
mesmo que depois eu tenha que tirar a coroa e ser coroada de
Nação Iracema, a interação dos performers com a audiência foi
novo”. Como é que o povo vai saber quem é a rainha se não tem
percebida
coroa na cabeça?”
variações ocorreram de acordo com as expressões que emanaram
É por meio da performance da festa e dos indivíduos que
durante todo o desfile, de diferentes formas. As
de cada performance.
este artigo busca capturar as singularidades dos performers
Naquela noite, à frente do maracatu, vinha um homem
articuladas aos seus processos coletivos. Certamente, a festa de
trajado com calça e blusa brancas; na cabeça, um turbante azul. A
Carnaval na avenida Domingos Olímpio, tomada a partir da
face estava empretecida, fazendo referência ao negrume, elemento
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 43
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues 15
Sobre o torém, ver Valle (2005).
performático importante no maracatu cearense. Ele caminhava na
e os cabelos esconderam, por instantes, o rosto com o olhar
avenida mostrando desenvolvoltura no manejo do estandarte –
cabisbaixo. Em um dado momento da apresentação, a jovem, com
objeto de grande porte estampando a imagem da índia Iracema,
os braços, gesticulou para os demais performers posicionados às
personagem criada por José de Alencar.
suas costas,
que por sua vez
desenvolveram marcações
Alguns passos atrás do porta-estandarte estava o
coreográficas em círculos; quando formada essa figura geométrica,
incensário. O homem carregava um objeto que exalava fumaça
um deles foi ao centro e elevou uma cabaça. Enquanto isso, os
perfumada da queima de incensos. Por vezes, ele aproximava-se do
outros integrantes da ala dançaram e passaram de mão em mão
público, balançando fortemente o instrumento e deixando rastros de
outras cabaças. De acordo com a coreógrafa, essa é uma dança
fumaça entre aqueles que observavam o espetáculo. Isso nos
chamada torém, pertencente aos rituais de alguns povos indígenas
remete às noções de pureza e impureza desenvolvidas por Douglas
nordestinos15.
(1974). Segundo a autora, tais concepções se constroem com base
Todos esses movimentos faziam parte da performance.
nas crenças de cada coletividade e operam como mecanismos de
A performance exibida na ala dos índios, entre outros aspectos,
ordenação social. Considerando a avenida como espaço destinado à
aponta que por meio de gestos, adereços e vestimentas cada
realização dos desfiles e que cada grupo que adentra o local
performer se investe de um personagem. Embora essa preparação
reordena-o de acordo com sua lógica, a fumaça exalada pelo
tenha início horas antes do início do desfile, em algumas
incensário, logo à frente do grupo, apresenta-se como mecanismo
circunstâncias, de forma bastante ritualística, conforme explanado
de purificação do local, preparando-o para a nova apresentação que
no tópico anterior, somente no ato do desfile é que se permite
se incia.
visualizar a transformação do performer em sua plenitude. Na A ala dos índios seguia-se ao incensário. À frente,
avenida, ganha força todo o investimento simbólico mobilizado
figurava uma adolescente como a índia Iracema: esbelta, de cor
pelos performers para viverem plenamente uma nova condição de
clara, cabelos negros e lisos caídos sobre os ombros; trajava
estar no mundo.
minúsculas vestimentas feitas de plumas com as cores verde,
Assim, para além da dimensão do entretenimento, é
vermelho, amarelo e branco. Por todo o seu corpo havia desenhos
importante destacar que há também motivações subjetivas no ato
feitos de tinta remetendo a figuras de povos indígenas; no rosto,
de performar o maracatu. A ala dos índios, por exemplo, era
pinturas com tintas de cores vermelha e preta. Ela caminhou
marcada pela presença de jovens residentes, em sua maioria, nas
lentamente por toda a avenida; em alguns momentos, deu pulinhos
imediações da sede do maracatu, no bairro Jardim Iracema,
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 44
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues localizado na periferia de Fortaleza. Além do maracatu, parte das
experiência. Mas outras questões também vêm à baila no desfile do
jovens que figuraram como índias tinha envolvimento com outras
Nação Iracema por meio das performances.
atividades oferecidas pelo grupo, tais como aulas de dança e cursos
Na ala posterior aos índios, havia cinco performers com
profissionalizantes para jovens. Para melhor contextualização do
vestimentas de cor branca; mães e filhos de santo de um terreiro de
papel do maracatu no bairro, cabe aqui o relato de dona Cleide,
umbanda localizado em Fortaleza. De acordo com o dirigente do
uma das já mencionadas dirigentes do Nação Iracema:
maracatu, essas pessoas eram convidadas a participar do desfile, pois conferiam maior legitimidade à ala, uma vez que faziam
Eu moro no Jardim Iracema desde que eu era criancinha. Mais de 50 anos. Cresci ouvindo e vendo o povo falar mal daqui. Eu e minha irmã temos amigos que moram em outros bairros e não querem visitar a gente porque têm medo de assalto. E é isso que acontece mesmo se você chegar aqui. Aí, o que passa sobre o Jardim Iracema na televisão? Só coisa ruim, né? A gente só passa no Barra Pesada [programa policial]. Então, o maracatu tem o objetivo de mudar um pouco essa realidade. Tem criança aqui que nunca tirou o pé daqui. Tem jovem aqui que não tem emprego, vive na droga. O maracatu tenta lutar pelo bairro, lutar por essas crianças, por esses jovens. A gente tenta oferecer projeto. A gente tenta oferecer um pouco mais de dignidade. Mudar mais esse quadro.
referências diretas às religiões de matriz africana. Na ala seguinte, estavam as baianas, rodopiando com vestidos de estampas azuis e brancas. Contrastando com o caminhar lento dos performers da ala anterior, vinha a ala dos orixás, fazendo referência às seguintes entidades: Exu, Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Omolu, Ogum e Xangô. A ala chamou demasiada atenção do público em razão dos rodopios, das caracterizações, das expressões faciais sérias e dos meneios de cabeça. Seguindo-se aos orixás, vinha o casal de pretos-velhos com os rostos pintados de preto, os corpos levemente curvados e exalando baforadas dos cachimbos. Por onde passavam eram muito aplaudidos.
Portanto, para muitos entre os que desfilam, o maracatu
Logo após o casal de pretos-velhos, havia a presença
coloca-se como meio de conhecer a cidade, podendo ser visto na
solitária da calunga. Uma mulher seguia com a face empretecida,
avenida de outra perspectiva, para além daquela que marca os
exibindo ao público uma boneca de plástico, cujo rosto era pintado
bairros da periferia, que ocupam espaço apenas nos noticiários dos
de preto e as vestimentas, idênticas às da mulher. Há divergências
programas policiais. Trata-se da possibilidade de se expressar no
sobre os sentidos da calunga, mas muitos performers coadunam a
mundo de forma artística. Como bem expõe Turner (1986), a arte
ideia da figura como vinculada à sabedoria, à advinhação, ao
tem como papel dizer o que o ser humano aprendeu com a
desconhecido.
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 45
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues Diferentemente dos maracatus de Pernambuco, no Ceará,
Diferentemente dos encontrados na maior parte das outras alas, o
não há uma relação de obrigação ritual dos grupos com as religiões
cabelo é repertório performático importante, é, sobretudo, marca de
de matriz africana. Portanto, a calunga não é entidade sagrada.
pertencimento étnico-racial. Segundo Gomes (2006, p. 10), a trança
Mas, de outras maneiras, a temática da religião de matriz africana é
afro “imprime a marca da negritude nos corpos”. Por toda a
dramatizada nos maracatus cearenses, ainda que essa relação seja
avenida, essas performers deram passos entremeados com saltos,
veementemente negada por alguns grupos. Exibir performances
remelexos e movimentos das mãos, nas quais portavam lanças.
relacionadas às religiões de matriz africana mostra o maracatu
Além das personagens, as mensagens em torno da negritude eram
como um espaço de expressão de religiosidades (notadamente a
também expressas no desfile por meio da loa, cantada em uníssono
umbanda e o candomblé) para alguns performers; mecanismo que
pelos performers do Nação Iracema:
os permite viver intensamente essa experiência, conforme se Nação Iracema, o teu canto negro de maracatu é belo poema Há trezentos anos saí de Luanda Num barco negreiro para plantar cana Ouvindo as sereias em seu triste canto Inventei a saudade no meio do Oceano
verifica na ala dos orixás, na performance do casal de pretos-velhos e da calunga. Mas se, para uns, a religião é aspecto central como parte da experiência vivenciada no maracatu, para outros, o que lhes completa a experiência
são as questões étnica e racial,
conforme se explicita nas alas que se seguem.
De onde vem teu sorriso? Vem de Angola E o teu rebolado encantado? Vem de Angola E a tua panela cheirando a pimenta e dendê alimenta esse povo Que faz da cantiga seu belo viver.
Logo após a calunga, em papel de destaque, vinha a mãe das etnias. Os longos cabelos trançados sobre a pele escura cobriam parte dos seios desnudos. Palha e muitas plumas de cores branca e marrom deram o tom da fantasia da performer. Sobre as costas, ela carregava um enorme esplendor.
Reforçando a ideia de que o maracatu Nação Iracema
Acompanhando a mãe das etnias, seguiam homens e
coloca-se como ferramenta de expressão da negritude, dona Lúcia,
mulheres da alas das africanas, vestidos com indumentárias feitas
uma das dirigentes, afirmou:
de matéria-prima similar à usada na fantasia da mãe das etnias. Nessa composição, havia jovens enroladas em panos coloridos e
Olha, o desfile é pra mostrar que apesar do negro ter sofrido demais nas senzalas, ela agora venceu, conquistou espaço na sociedade. Nosso objetivo maior com esse desfile é mostrar isso.
com cabelos trançados. A preparação do cabelo dos componentes dessa ala não é simplesmente uma questão de adorno. Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 46
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues Não é só ganhar o desfile. Se ganhar, ótimo! Mas nosso propósito é chamar atenção para a luta que os negros vêm enfrentando durante todos esses anos. Esse é o objetivo do Nação Iracema. É pra isso que esse maracatu foi criado.
Todas as questões pontuadas até aqui ganham maior potência ao final do desfile, quando se aproxima a ala da corte, quando diversos elementos, dramatizados ao mesmo tempo, eclodem na figura polissêmica da rainha. No maracatu cearense, a corte é denominada por alguns integrantes de “corte dos reis
Além da loa e das figuras de destaque, verificamos no
negros”, por rememorar os reis africanos e/ou reis e rainhas negros
desfile indumentárias tendo como cores predominantes o verde, o
coroados no período da diáspora, no âmbito ou não das irmandades
amarelo, o vermelho, o azul e o branco. Já ao fim do desfile, estava
religiosas.
o balaieiro. De sorriso largo, braços sempre abertos e caminhar
De forma solene, os membros da corte encerraram o
leve, buscava demonstrar segurança no meneio do enorme cesto de
desfile. À frente, vinha a rainha, figura de maior importância,
frutas que conduzia sobre a cabeça. No interior do balaio, havia
acompanhada do rei. Ladeando o casal, havia príncipe, princesa,
frutas e legumes da terra (banana, melancia, mamão, batata-doce,
damas de honra, damas do paço e dois vassalos. Um dos vassalos
abóbora). Ele trajava indumentárias femininas (um longo vestido
rodopiou em torno da rainha, carregando um enorme guarda-sol
colorido de babados), tinha na face grossa camada de tinta preta e
colorido; o outro abanou a rainha com um enorme leque.
intenso volume de batom vermelho. Brincos e colares enormes
Com uma enorme coroa sobre a cabeça, a rainha seguiu
chamavam bastante atenção. O balaieiro é figura relevante no
por toda a avenida em ritmo solene. Com largo sorriso, acenando
maracatu. Aliás, um dos personagens que conferem maior prestígio
incessantemente para o público, ela movia-se tendo como limite o
a um maracatu é o balaio.
quadrado simbolicamente formado naquele espaço pelos membros
O interessante a perceber, portanto, é que tais
da corte. Quando ecoava um grito da arquibancada, ela baixava o
performances nos permitem apreender o que os performers sentem,
corpo em sinal de reverência. A escuridão da noite destacou
ou melhor, como revelam a “erlebnis” (TURNER, 1986). E ainda:
bastante o brilho e colorido dos bordados. O rei mantinha-se por
nos permitem detectar quais questões individuais e coletivas são
perto, mas o grande destaque era a rainha, embora também
dramatizadas. Dessa perspectiva, da forma como são apresentadas,
chamasse a atenção sua pintura facial e as indumentárias, uma clara
cabe notar que as alas (baiana, índios(as), orixás, negros, pretos-
alusão à realeza europeia do século XVIII.
velhos, africanos, calunga e balaieiro) repõem a “fábula das três
A interação entre a ala da corte e o público dava-se
raças”, exposta por DaMatta (1987), ou seja, reafirmam que somos
especialmente por meio da figura da rainha. Muitos foram os
um povo miscigenado que convive com suas diferenças. Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 47
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues sorrisos, as reverências, os aplausos e as frases que reverberaram
cabeça a coroa, ocorre efetivamente a transformação, a vivência
em eco quando a rainha cruzou a avenida: “já ganhou”, “linda”,
plena da experiência como rainha do maracatu. Ou seja, para
“poderosa”. A reação da audiência revelava que a interação
aquele performer, o desfile do maracatu implica na possibilidade
estabelecida com a rainha do maracatu se dava em sua plenitude,
de colorir-se, de exibir-se luxuosamente, de adornar-se, de
isto é, com a personagem investida pelo performer. De acordo com
expressar-se a partir da mescla entre gestos que exprimem
Schechner
envolvem
delicadeza, elegância e firmeza. Ou seja, feminilidade e
“transportation”, os artistas são alterados, indo, artista e
masculinidade apresentam-se em conjunção, da mesma forma que
personagem, um ao encontro do outro. “Ele interpreta um
no processo de interação da rainha com o público ocorre a eclosão
personagem, batalhas de demônios, entra em transe, viaja no
da experiência, havendo naquele instante a fusão entre indivíduo e
desempenho que não pode fazer normalmente”; ao fim de tudo, ele
sociedade. É o indivíduo que, no auge de sua transformação em
retoma sua condição inicial (Schechner 1988, p. 125). Isso implica
rainha, em profunda conexão com a audiência, experiencia sua
no
espaços
nova condição – rainha e mulher – e, de forma concomitante,
metaforicamente criados pela encenação. Mas, como indica o autor,
produz nessa audiência uma retroalimentação das sensações
algumas experiências dizem respeito não exclusivamente ao
emanadas de ambas as partes. Sinergia, completude, apoteose, é
performer, implicando também uma relação com a audiência, pois
como se as barreiras que separam palco e audiência se rompessem,
“os espectadores são bastante cientes do momento em que uma
como se todos os marcadores étnicos e de gênero se
performance
algo
embaralhassem, da mesma forma que os sons emanados da
‘aconteceu’”, afirma Schechner (2011, p. 218). Para o autor, “a
audiência e dos performers se misturam formando um uníssono que
força da performance está na relação muito específica entre os
leva todos ao êxtase. E é esse aspecto, em especial, que mostra a
performers
forte diferença entre as análises clássicas dos rituais e a presente,
(2011),
deslocar-se
nas
performances
simbolicamente
decola.
e
Uma
para
‘presença’
se
que
outros
manifesta,
aqueles-para-quem-a-performance-existe”
(SCHECHNER, 2011, p. 214).
centrada no drama, na performance e na experiência. É que na
Já a “transformation”, afirma Schechner (2011), implica
análise ritual clássica o indivíduo aparece sempre na referência a
uma experiência que leva a uma nova condição de status para o
sua posição social, seu status, seu lugar na estrutura social, onde o
desenvolver uma “consciência
ritual revela e diz coisas, mas o faz para um pesquisador que
crítica de si” e da realidade. Conforme afirma o performer da
apenas considera as evidências observáveis em uma tela plana,
rainha, somente ao adentrar a avenida, precisamente ao pôr sobre a
evitando adentrar o campo frágil e sutil das subjetividades. A partir
performer, que sugere também
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 48
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues 16
Atualmente, toma-se como critério de julgamento a batida musical característica de cada maracatu. Em relação ao negrume, somente para a corte passou a ser quesito obrigatório.
da noção de experiência, observamos o processo pelo qual o
símbolo da manifestação no Ceará, sendo, portanto, imprescindível
performer se constitui como sujeito, e ao assim fazer, revela-se.
sua utilização. Segundo eles, “uma rainha sem negrume não é
Mas, vale lembrar, a rainha só se realiza plenamente na avenida, ou
rainha”.
seja, na íntima relação de trocas com a audiência.
dimensão performática do “ato ilocucionário”, quando “dizer” algo
Tomando como suporte a referência austiniana à
não significa declarar apenas, mas “fazer algo”, veremos que ao se
Nesse jogo de performances, outro aspecto chama atenção: o uso das máscaras (negrume) por pessoas atuantes dentro
utilizarem das máscaras pretas os
performers e o conjunto da
do movimento negro. Se tomarmos como referência a interpretação
performance daquele maracatu não dizia apenas sobre coroação de
de Schechner (2012) sobre o carnaval de New Orleans, o uso das
reis do Congo como parte da tradição dos maracatus, mas, por meio
máscaras pretas no Nação Iracema, da mesma forma que a máscara
desses elementos tradicionais, realizava seu objetivo de dar
colocada sobre a cor já preta da pele dos integrantes do bloco dos
visibilidade às questões étnico-raciais e propagava isso para a
Zulus, como analisado por Schechner, procede à reafirmação da
audiência.
negritude. Contudo, no Nação Iracema, a máscara aciona outras
Além da máscara preta, outros aspectos também eram
questões no grupo. A presença de uma rainha de pele clara em um
pontos latentes de tensão na apresentação, revelando-se ao fim,
maracatu com postura política atuante na militância negra coloca-
após os quarenta minutos do desfile, até a chegada da corte em
se como forte ponto de tensão em relação a outros maracatus.
frente aos camarotes, situados no local onde se encerra o desfile,
Conforme já mencionamos, com o passar dos anos, o
quando ocorre o clímax do espetáculo: a coroação. Trata-se de um
maracatu no Ceará adquiriu feições mais espetaculares. Com isso,
ponto de conflito, dado o caráter competitivo que corresponde aos
elementos tidos como performáticos na manifestação foram ainda
momentos críticos do drama social. Nesse momento, a bateria
mais enfatizados nos critérios do julgamento, tais como a batida
cessou, os performers fizeram uma grande roda e todos voltaram as
lenta do maracatu, o uso do negrume e a presença de personagens
atenções para a rainha. Na ocasião, o presidente do maracatu
específicos, como a corte16. Isso relaciona-se diretamente à visão
convidou uma das autoridades presentes nos camarotes para
que os performers de diferentes grupos buscavam construir sobre o
realizar a coroação: “No asfalto da minha pele, dança índio, dança
maracatu no Ceará. Em relação ao negrume, forte ponto de tensão
branco, dança negro. No asfalto da minha pele todo sangue é
do Nação Iracema com outros grupos, em razão do envolvimento
vermelho. No toque do meu tambor, tem um canto de amor pra
desse maracatu com o movimento negro, os dirigentes apontavam o
louvar a rainha”, cantavam em únissono performers e plateia.
uso da máscara como um elemento performático importante,
Impulsionada pelo ritmo da loa, a autoridade caminhou lentamente
Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 49
Danielle Maia Cruz Lea Carvalho Rodrigues em direção à rainha e realizou a coroação. A avenida silenciou para
antropólogo Victor Turner, fundamentado em Dilthey, apresenta-se
assistir ao momento. Todos os olhares se voltaram para a rainha.
neste
Nesse instante, potencializa-se, como ensina Schechner (2013, p.
problematizar as relações entre indivíduo e sociedade. Dessa ótica,
41), a “encorporação”, ou seja, “esse conhecimento genuíno”
chamamos a atenção para experiências profundas (individuais e
mobilizado na performance pelos nativos. Nessa circunstância, a
coletivas) vivenciadas pelos indivíduos por meio de suas
rainha desempenhava ao mesmo tempo uma performance fruto de
peformances na apresentação de Carnaval na avenida Domingos
múltiplos conhecimentos que dão sentido ao seu papel: rodopiava,
Olímpio, em Fortaleza.
trabalho
com
ampla
força
analítica,
pois
permite
reverenciava a audiência, acenava, mantinha os braços abertos e a
Com base nas formulações produzidas do encontro
postura ereta em sinal de elegância. Embora a coroação não fosse
intelectual fecundo entre o antropólogo Victor Turner e o diretor de
quesito de pontuação, o desempenho da rainha poderia acarretar
teatro Richard Schecher, compreendemos o desfile dos maracatus
pontos positivos para o maracatu, bem como conferir maior
como drama social e drama estético, partilhando o entendimento,
prestígio ao grupo.
conforme nos ensina Turner (1986), de que a arte serve para
Findada a coroação, os performers seguiram pela
expressar aquilo que os indivíduos aprenderam com a experiência.
avenida, atravessaram um grande portão de ferro e dispersaram.
Portanto, dramas sociais e dramas de palco são espaços
Algumas pessoas correram em busca de bebidas e comidas, outras,
metafóricos, marcados pela explosão da criatividade, quando
em busca de auxílio para retirar as fantasias do corpo; algumas
performers, na relação estabelecida com a audiência, tanto se
deitaram-se sobre o chão, outras riram ou choraram comemorando
deslocam para outros cenários simbólicos como, por meio de suas
o que passou. Tudo isso se refere à fase do “esfriamento”, quando
expressões metafóricas, possibilitam aos observadores experiências
os espectadores, tendo experimentado a performance, foram
profundas e, por vezes, tranformadoras, como bem pontuam Turner
afetados por ela. Uma vez que suas fantasias são removidas, logo
(1982, 1988, 1987) e Schechner (1988, 1987, 2011).
eles adormecem (Schechner 2011, p. 224-225).
A discussão do artigo gravita, portanto, em torno desse jogo de espelhos, em que a arte imita a vida e vice-versa, quando dramas sociais e estéticos se retroalimentam. Certamente, no
Considerações finais
maracatu Nação Iracema, é somente no desfile de Carnaval que
Neste artigo, buscamos enfatizar a dimensão espetacular,
todas essas questões ganham potência, de forma que o campo sutil
festiva e performática dos maracatus cearenses, focalizando um
das singularidades e subjetividades pode ser apreendido com maior
ponto central: a experiência, categoria que a partir das noções do Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 50
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