CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES Niterói RJ: ANINTER-SH/ PPGSD-UFF, 03 a 06 de Setembro de 2012, ISSN 2316-266X
“MEU LUGAR” – RESISTÊNCIA E PERTENCIMENTO NO SAMBAR DE MADUREIRA
Katia Gomes da Silva Mestranda em Relações Etnicorraciais do CEFET/RJ, 26.katia.silva@gmail.com Patricia Gabrielle Oliveira Rodrigues Mestranda em Geografia e Geociências da UFSM, patirodrigues_85@hotmail.com
Resumo: Esta pesquisa propõe entender a construção da identidade negra no contexto urbano, pelo viés da cultura e resistência, enfocando o samba “Meu Lugar”, do compositor Arlindo Cruz, como instrumento estrutural da análise. Essa canção, que refere-se ao bairro de Madureira, na cidade do Rio de Janeiro, traz diversos elementos e valores culturais, importantes para se compreender alguns dos processos da história e da cultura negra brasileira. Neste sentido, a partir da letra da música, buscar-se-á identificar os aspectos da religiosidade como coesão e resistência do grupo, o pertencimento pela valorização do lugar, a importância da oralidade e da memória nesse processo e as formas de acolhimento que serviram de sobrevivência para a permanência da cultura e da história negra brasileira, apesar dos esforços da sociedade em apagá-la e reprimi-la.
Palavras-chave: Identidade negra; resistência; samba.
Abstract: This research proposes to understand the construction of black identity in the context urban bias of the culture and resistance, focusing on the samba "My Place", the composer Arlindo Cruz, as an instrument of structural analysis. This song, which refers to the neighborhood of Madureira, in the city of Rio de Janeiro, brings different elements and cultural values important to understand some of the processes of history and black culture in Brazil. In this respect, from the lyrics, it will seek to identify 1
aspects of religiosity as strength and cohesion of the group, membership appreciation of the place, the importance of orality and memory in this process and the forms that served as host survival for the permanence of culture and history, black people, despite the efforts of society to erase it and repress it.
Key words: Black identity; strength; samba.
Há relativos trabalhos e pesquisas que apresentam a efetiva participação dos negros na construção da nação brasileira. Essa participação pode ser notada no cotidiano, cercado de várias influências de matriz africana. Pode ser percebida na língua, nas músicas, nas danças, na culinária etc. Aqui, no Brasil, esse patrimônio imaterial, legado da diáspora africana, dialogou e se reinventou a partir das trocas culturais com os nativos indígenas, com os europeus e até com povos asiáticos, devido à política de imigração que visava o embranquecimento do país. No entanto, essas trocas não foram harmônicas, como pode aparentar à primeira vista. A relação entre os diferentes povos teve por base uma relação de poder, que se legitimava pela violência e por uma articulação de consenso que trabalhava a mentalidade dos povos para uma crença na superioridade dos europeus. Com isso os negros e os índios eram considerados povos inferiores, só que os negros estavam em situação menor, na base mais inferior da hierarquia racial imaginada. Por serem considerados povos inferiores e vistos como problema para o progresso e o desenvolvimento do país, suas culturas e histórias foram reprimidas, eram perseguidas pelo aparelho de segurança do Estado, e apenas entravam no conteúdo didático das escolas como casos isolados, da escravidão e da colonização, africana e indígena. Sendo essas histórias oficialmente contadas de forma negativa, ao mesmo tempo em que a europeia era exaltada como modelo e padrão a ser seguido. Com isso, o processo de desenvolvimento das identidades e de identificação ficou comprometido, porque a sociedade não se colocava de maneira plural, como nos informa Munanga (2004) dando liberdade para as expressões. Ela impunha um modelo branco europeu, em que o negro deveria se encaixar, buscando o embranquecimento pela miscigenação ou então até admitiu, depois, algumas expressividades, como o samba, que se transformou num elemento nacional, mas antes foi “cercado” pela vida urbana, com regulamentos e oficializações necessárias para o controle estatal dessa 2
cultura. Entretanto, apesar da situação não satisfatória, os negros brasileiros não desistiram de lutar pela permanência e reconhecimento do seu legado histórico e cultural. A lei 10639/03 é fruto dessa luta, onde a história e cultura africana e afrobrasileira se tornaram obrigatória nos estabelecimentos de ensino. Essa resistência cultural pode ser vista de diversas maneiras: com a luta pela sobrevivência das religiões afro-brasileiras; com a afirmação de si na valorização do local, a partir das memórias que o lugar produz; com a transmissão da memória pela oralidade; e com o fortalecimento da identidade e de autoestima pela sociabilidade. Essas questões são todas remetidas numa canção chamada “Meu lugar”, de Arlindo Cruz, que traz o bairro Madureira como exemplo. Esse é um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, conhecido por ser uma zona de encontros, pois muitas linhas de ônibus têm esse bairro como ponto de partida, assim como também tem o trem que interliga o bairro aos diferentes lugares da cidade. É também conhecido pela sua variedade de expressões culturais e de encontros da cultura negra. Atualmente, inclusive, tem tido visibilidade em telenovelas, o que dá notoriedade ao bairro. Partiremos da letra desse samba para a estruturação do presente trabalho, privilegiando e estruturando as secções pelas divisões postas no início desse parágrafo.
Afirmação das religiões afro-brasileiras – a importância da religiosidade para a coesão e resistência cultural O meu lugar É caminho de Ogum e Iansã Lá tem samba até de manhã Uma ginga em cada andar O meu lugar É cercado de luta e suor Esperança num mundo melhor E cerveja pra comemorar
A canção se inicia mencionando a ligação do local a elementos da religiosidade afro-brasileira. Essas religiões foram perseguidas, por serem de matriz africana, e as batalhas travadas para a sua afirmação variaram, conforme o lugar e a situação encontrada. Teve a violência aberta, como também existiram tentativas de negociações e resistências sutis, isto é, com estratégias pacíficas, que procuraram a sobrevivência pelas brechas, de acordo com a maleabilidade que conseguiram. Mas que só sobreviveram pela luta constante e pela base oral da religião, pois a oralidade foi um
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fator importante para a manutenção, flexibilidade e reinvenção das religiões afrobrasileiras. Em seguida, a música parte do diálogo entre lugar e religiosidade, adicionando o samba e explicando que o lugar é cercado de luta e trabalho, terminando o trecho musical falando sobre a cerveja para comemoração. Demonstrando, assim, uma relação coletiva, uma construção da memória sobre o lugar ao estar inserido num grupo, o qual irá se identificar pelos elementos do samba, do trabalho e da cerveja, todos esses níveis, mesmo que diferenciados, de sociabilidade. Sendo as religiões brasileiras de matriz africana um fator importante para a reinvenção desses novos laços de socialização, antes cortados pela arbitrariedade da escravidão. Foi um espaço que permitiu agregação e a sensação de sentir-se incluído, apesar da repressão da sociedade que impunha o embranquecimento cultural como finalidade evolutiva para os negros, uma tentativa de aculturação. No final, esse movimento acabou por realizar trocas que geraram novas formas de se cultuar os Orisàs ou Orixás africanos. Os Orisàs são elementos que constituem o que chamamos de natureza. A energia destes encontra-se em toda parte. Não há diferenciação, um é o outro, num ciclo sem fim, em que, segundo Rodrigues (2012), tudo se renova. Não obstante, podemos afirmar que o culto é possível somente diante da natureza, pois sem a mesma não há Orisà. Neste sentido, o material é inseparável do espiritual, e sendo inseparáveis na concepção de natureza afrocentrada, esta se dá como extensão também humana e não como uso e/ou mercadoria. Ogum, citado na música, significa luta, senhor vencedor de demandas, cuja força é irreprimível. Como elemento da natureza, tem sua presença nos momentos de impacto, é o ferro, zinco, estrutura, cobre e com efeito diversas armas. Este representa a força pela vitória através da luta. Iansã, também mencionada, é vento, tufão furacão. Dentre outros fenômenos, a guerreira poderosa, que transita entre o mundo dos vivos e dos mortos, é guia de quem parte para Orun (mundo espiritual). É, pois este Orisà capaz de mexer objetos sem vida regendo as paixões e desejos da vida terrena. Dentro da própria religiosidade e consequentemente das permanências observadas, ainda que com todas as transformações cotidianas, a música se faz muito presente. A musicalidade das religiões de matriz africana onde cada Orisà tem a sua dança, como um evento que parte de dentro para fora, é observada na música cantada por Arlindo Cruz.
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Para Lan (2001), a música e a dança para mulheres e homens negros sempre foram comunitárias e sociais e ainda hoje é visível este fato. É comum a atribuição da dança negra ao estereótipo, contudo ela está intimamente relacionada à ancestralidade, uma vez que eventos como uma boa colheita, a vinda da chuva eram reverenciadas com a dança e música. O samba, que teve sua formação dentro dos terreiros de Candomblé, acompanha, em termos de significados, toda a sua extensão religiosa no que se refere à movimentação corporal e musicalidade. No que se refere à extensão de significados que a música oferece cita Sodré: A música não é considerada uma função autônoma, mas uma forma ao lado de outras – danças, mitos, lendas e objetos – encarregadas de acionar o processo de interação entre os homens e entre o mundo visível e o invisível. O sentido de uma peça musical tem que ser buscado no sistema religioso ou no sistema de trocas simbólicas do grupo social em questão. Ademais, os meios de comunicação musical não se restringem a elementos sonoros, abrangendo também o vínculo entre a música e as outras artes, sobretudo a dança. (SODRÉ, 1998, p. 21).
E completa Rodrigues: O tempo é sentido em profundidade e corporalmente e não como no olhar moderno um mero conceito matematicamente dividido e igual para todos. A representação não permite que o objeto da sua sabedoria fique simplesmente seguro em sua mente ao contrário toma parte dele e concomitantemente une a interpretação e significado a respeito à vida espiritual e material à energia suprema que encontra-se em todas as fendas do mundo por onde entra ou sai o ar ou seja em qualquer ambiente que exista vida.(RODRIGUES, 2010, p.40)
O samba esteve muito entrelaçado com a religiosidade afro-brasileira. Até porque a música e a dança de matriz africana têm uma ligação com o sagrado, pois havia uma percepção do mundo em diálogo permanente com o divino, com a ancestralidade. Essa conectividade permitiu um fortalecimento mútuo entre religião e outras artes, no caso a música e a dança, incorporando numa mesma resistência a afirmação da cultura, da história e do corpo negro. As memórias que o lugar produz – afirmação de si na valorização do local O meu lugar Tem seus mitos e Seres de Luz É bem perto de Osvaldo Cruz, Cascadura, Vaz Lobo e Irajá O meu lugar É sorriso é paz e prazer O seu nome é doce dizer Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laia
Ao contrário dos discursos de homogeneização da cultura a partir da globalização, alega-se que: "cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global 5
e de uma razão local, convivendo dialeticamente" (SANTOS, 1996, p.273). De acordo com Santos, compreender através dos estudos dos lugares é tornar provável o estudo real e da captação de elementos centrais, assim como os valores locacionais. Tudo isso para que sejam realmente identificados os possíveis intercâmbios com os atos hierárquicos. Assegura Rodrigues que: A cultura é a perspectiva de enraizamento do pretérito ao conhecimento presente de um grupo social que transcorre pela avaliação emblemática como, por exemplo, as danças, cantos, modo de falar e rituais. É uma relação entre o atual e o passado, que forte, torna-se um vínculo entre as pessoas que tem um passado semelhante e que não deixaram em gerações perecer o ciclo de conhecimento que se repassa e se renova. (RODRIGUES, 2010, p. 31)
Identificar o valor do lugar onde se vive torna possível a mulheres e homens negros não somente conhecer a sua história, como também de reconhecerem-se como sujeito ativo da mesma, o que reflete na possibilidade de mudança, autoorganização e valorização de si e de seu grupo. Dentro dos debates entre a singularização e a homogeneização, o conceito de lugar mostra a possível alternativa de aumentar as capacidades de compreender um mundo que concomitantemente se une e estilhaça em rapidez. No debate entre o local e o global, podemos compreender que: Ao lado da tendência da homogeneização global, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da “alteridade”. Há, juntamente com o impacto do global, um novo interesse pelo “local”. A globalização (na forma da especialização flexível e da estratégia de criação de “nichos” de mercado), na verdade, explora a diferenciação local. Assim, ao invés de pensar no global como “substituindo” o local seria mais acurado pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local” (HALL, 2000, p. 77).
Nestas afinidades, que se estabelecem entre o local e o global, domadas aos negócios mercantilistas e até mesmo em decorrência de outros fatores, se explanam por meio das experiências e situações. Compreender que o local tem íntima relação com o externo é permitir vê-lo, ao mesmo tempo, de duas maneiras. Encontramos nos bairros os globais que mantêm as instituições, estratégias e organismos, tanto nacionais quanto internacionais, assim como é possível identificar as pessoas em sua construção de significados, de organização e de ações diferentes. Assegura Tuan (1883) que, como os objetos, o lugar tem um centro de estima, que podem ser percebidos completamente por meio das relações de quem ali vive (insider) e do que compreendemos por relações externas (outsider). Tornando-se o lugar realidade, a partir da relação de intimidade e familiaridade à proporção que o reconhecemos e lhe atribuímos valor. 6
A cultura recebe extensão não somente material como também simbólica no lugar. Este por sua vez, pode ser compreendido, de acordo com Mello (2000) como sustentação para a representação da vida e edificador de identidades, sendo concebido por meio do uso e da absorção simbólica. Completa Tuan (1983) que o lugar é o repositório de significados. Assegura Rodrigues (2010) que apesar da expansão da comunicação e das influências externas é possível observar singularidades em certos ambientes. Fazendo do conceito de lugar não somente a referência de um fato, mais que isso, para compreender este conceito é preciso dar valor às relações afetivas desempenhadas pelos indivíduos, pois o lugar não é meramente uma localização geográfica. Fortemente ligado às experiências e envolturas dos mais diferentes tipos, tem a ver com o sentimento de pertencimento e identificação pessoal. Neste sentido, propõe Sodré (1999), que a palavra identidade designa um complexo relacional que une o sujeito a um quadro permanente de referências, composto pela admissão de sua história individual com a do grupo onde este vive. Cada sujeito é único e a sua identidade é dada a partir do reconhecimento de um “outro”, em outras palavras é a caricatura, ou seja, a representação que qualifica-o socialmente. A resistência dos grupos está no embate às estruturas hegemônicas, ao mesmo tempo em que busca a diferenciação para que haja o reconhecimento. Mais que isso, cria-se a partir da reunião dos iguais um espaço de sociabilidade, para que este grupo esteja em contato com a alteridade, o que permite dar sentido e função ao pertencimento. Assim, permite-se ao grupo, que é massacrado por sua cor, origem e cultura, ser visível neste momento entre os seus, afastando-os da invisibilidade e do massacre diário. Ao possuir papeis centrais em seu lugar, estes se identificam e podem produzir, e (re) produzir possibilidades, ao contrário da paralisação que pode decorrer das situações massacrantes. Assim, uma negritude se fortalece para enfrentar os pensamentos e atitudes racistas da sociedade, se afirmando frente a toda uma negação e exclusão dessa mesma sociedade que lhe inferiorizava. O samba foi e ainda é um desses elementos culturais que possibilitou e ainda possibilita esse acolhimento e valorização de mulheres e homens negros, do seu lugar e cultura. Contudo, essa população é ainda hoje fortemente cerceada e excluída dos processos oficiais do Estado, como os setores educacionais e políticos superiores, por exemplo. A história e cultura afro-brasileira somente foram mantidas devido às muitas lutas afirmativas de integração e principalmente pela tradição oral, herdada dos povos 7
africanos, a qual visava à transmissão das memórias coletivas. Infelizmente essa sobrevivência se deu na esfera do privado apenas, já que era excluída, por vezes perseguida pelos setores oficiais estatais, porém, atualmente, encontramos um período conjuntural de favorecimento, gerado pela Lei 10639/03, que estimulou novos estudos, divulgação de pesquisas e ensino.
A memória transmitida pela oralidade Ahhh que lugar A saudade me faz relembrar Os amores que eu tive por lá É difícil esquecer Doce lugar Que é eterno no meu coração E aos poetas trás inspiração Pra cantar e escrever Ai meu lugar Quem não viu Tia Eulália dançar Vó Maria o terreiro benzer E ainda tem jogo à luz do luar Ai que lugar Tem mil coisas pra gente dizer O difícil é saber terminar
Ah! As lembranças! As lembranças dão colorido às nossas vidas. Algumas podem ser traumáticas, porém independente da forma como a percebemos, se positiva ou negativa, são elas que dão sentido à jornada da vida. Sejam os amores vividos, os amigos ou a simples convivência com os conhecidos, são recordações que farão parte do que iremos compor como nossas lembranças, dando um sentimento de pertencimento ao lugar. Sendo que essas lembranças sobre os lugares não são apenas individuais, elas podem ser percebidas por outras pessoas que compartilham o mesmo local. Alguns fatos, mesmo que isolados, possuem uma visibilidade coletiva local, isto é, não apenas os de maior divulgação na mídia. Irá depender das relações humanas que irão relembrar ou esquecer as lembranças, naturalmente ou forçosamente. Para Rousso (Apud AMADO & FERREIRA, 2006), a memória é a presença do passado, uma espécie de reconstrução e representação do passado de forma seletiva. Sendo que esse passado não é apenas do indivíduo, pois este está inserido em contextos diferentes, como o familiar, o social e o nacional. Sendo que a percepção do passado se dá de maneiras diferentes, seja na escala do indivíduo, seja na escala do grupo, quanto ao ângulo do ponto de vista, o que para Rousso dá um caráter coletivo a reunião das memórias individuais, mas ele não acredita numa memória coletiva com uma 8
representação do passado compartilhada de uma mesma forma para todos os envolvidos. Já Lovisollo (1989) acredita numa memória coletiva e diz que ela é uma leitura seletiva, onde se esquece e se lembra no mesmo ritmo. Sendo que, para ele, a memória histórica permite ser uma âncora para que diante das mudanças e da modernidade não desmanchemos no ar e também servindo de plataforma para que possamos ter a firmeza do passado para nos lançarmos ao futuro. Um passado que pode ser recriado ou inventado como tradição e onde se tomará o sentido de resistência e transformação. Pollak (1989) acrescenta que a memória de um determinado grupo é estruturada com classificações e hierarquias, assim como é a memória que define o que é comum ao grupo e o que a diferencia dos outros, fundando e fortalecendo, assim, sentimentos de pertencimento e fronteiras socioculturais. Halbwachs (Apud POLLAK) explica que esse é também um momento de negociação entre as memórias individuais, para que se obtenha uma memória coletiva, uma base comum. “Assim, o denominador comum de todas [as] memórias, mas também as tensões entre elas, intervêm na definição do consenso social e dos conflitos num determinado momento conjuntural.” (POLLAK, 1989, p.12) A representatividade da memória traz várias questões. Os elementos recordados são fundamentais para os indivíduos e para coesão dos grupos, ao possuírem uma base de lembrança comum. Porém, a percepção dos eventos, a intensidade deles, o que é lembrado, não significa ser comum a todos. Em vista disso, ao tornar a memória individual em coletiva, é travada uma luta, um embate pela memória comum. O que não garante ter sido lembrada toda essa base comum, ela também pode indicar um esquecimento comum por exemplo. No caso dos negros brasileiros, há uma base comum, que é a de uma história e cultura reprimida, inferiorizada, reduzida como maléfica ou dita primitiva. Essa base está ligada a um passado discriminatório, do não investimento público para que houvesse um desenvolvimento dessa população após a abolição da escravidão, da dificuldade em conseguir ascender socialmente, porque algumas profissões, até por conta da exigência de escolaridade, são associadas a grupos brancos. Entretanto, essa base não é percebida da mesma forma por todos os negros. Alguns se percebem mais discriminados do que outros, outros não conseguem ter consciência da discriminação que eles estão vivenciando, ainda mais num país em que o mito da democracia racial ainda impera, apesar de ter sido amplamente debatido.
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Essa situação atrapalha o desenvolvimento da identidade e do ato de identificação das pessoas. Afinal, é um passado tratado como inferiorizado. O que é valorizado, considerado bonito, capaz é o branco. Por isso, que embranquecer culturalmente ou esteticamente tem sido uma das formas de sobrevivência para os negros, porque é o aceito como bom gosto e como superior na nossa sociedade. Contudo, a resistência em se afirmar, mesmo frente a todas essas adversidades, e mostrá-la valorizada é uma procura de manter essas culturas e histórias e para garantir formas de identificação sadias, não operadas pelo racismo. Afinal, o Brasil precisa conhecer esse passado menosprezado e negado a ele. Um passado negro de valor que traz infinitas possibilidades para o futuro, para que, enfim, essa terra consiga viver uma real democracia racial e ser um exemplo para outras nações que convivem com o problema do racismo. Esse passado é nosso patrimônio. O patrimônio humano não é apenas o que herdamos materialmente, mas também é o imaterial, como as artes e os ensinamentos que trazemos com o corpo, uma herança cultural que atravessa gerações, se perpetuando numa forma de cantar, tocar, dançar e lidar com o mundo, por exemplo. Dos possíveis meios de registro, como a escrita, a fotografia, o vídeo etc., tiveram partes do continente africano que desenvolveram, historicamente, a técnica de memorizar. Essa técnica foi conhecida como tradição oral e visava guardar a herança de conhecimentos, se constituindo numa memória viva. Em sociedades orais, o valor da palavra é correspondente ao mesmo das outras em que impera a escrita. O tratamento com a palavra é de muito respeito, pois ela é fonte da história e da coesão dos povos. A palavra é o grande agente funcional, tem um poder de dupla função, podendo transmitir a paz e o conflito, tendo o poder de criar e destruir. É claro que isso não quer dizer que essas sociedades não tenham mentira. Porém, existe um responsável por tratar das memórias, um profissional que garante a veracidade delas, que cita as fontes que encadearam tais conhecimentos, são os chamados tradicionalistas. Bâ (1982) explica que se trata de estudiosos das histórias dos povos, os responsáveis por colher as diferentes informações, sendo os guardiões da memória para consulta e transmissão. Os tradicionalistas possuem apreço em seu meio, pois são conhecidos como os que dizem as verdadeiras histórias, nas formas como elas
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realmente aconteceram e não enfeitadas como os griots1 muitas vezes fazem. São pessoas que possuem uma memória fantástica e bem desenvolvida, com muitos anos de estudo e observação. Sua legitimidade era baseada em testemunhas que podiam controlar os discursos ditos. Essa tradição oral, hoje em dia, convive com a escrita se abrangendo nesses espaços, devido à escolarização. Entretanto, existiu uma fase histórica em que a forma de saber predominante era essa. Mesmo em lugares fora da África em que a escrita impera, o uso da história oral é importante para se obter mais noções sobre a realidade vivenciada. Verena Alberti nos diz, na passagem a seguir, que essa era uma metodologia antiga: Historicamente, esse método de aproximação do objeto de estudo não é nada recente. Já Heródoto e Tucídides lançavam mão de relatos e depoimentos para construir suas narrativas históricas sobre acontecimentos passados. Acontece que à época não se tinha o recurso do gravador para registrar tais relatos e, portanto, transformá-los em documento de consulta. Sabe-se hoje, que, desde a Idade Média até antes do advento do gravador, o recurso a relatos e depoimentos para a reconstituição de acontecimentos e conjunturas não era incomum. (ALBERTI, 2005, pág.18)
Para nós, a história oral precisa ser documentada para a possibilidade de acesso a outros estudiosos. Aqui, o gravador é um recurso importante para validar o uso dos depoimentos, já que não possuímos uma estrutura como a dos tradicionalistas. Mesmo esse método registrado em gravador, antes existia certa resistência quanto ao seu uso, por conta de algumas peculiaridades. Alberti explica que hoje, Não é mais fator negativo o depoente poder “distorcer” a realidade, ter “falhas” de memória ou “errar” em seu relato; o que importa agora é incluir tais ocorrências em uma reflexão mais ampla, perguntando-se por que razão o entrevistado concebe o passado de uma forma e não de outra e por que razão e em que medida sua concepção difere (ou não) das de outros depoentes. (Idem, 2005, pág.19)
Portanto, a metodologia oral para a transmissão da história é usada não somente pelos africanos, mas de fato existia nesse continente uma forma específica de lidar com o armazenamento e a transmissão da história, assim como deveria existir também formas próprias de se pensar sobre as tais “falhas” de memória ditas na citação. Afinal, a maneira como a memória é processada traz questões analíticas importantes, que revelam mais detalhes sobre as relações humanas nos espaços.
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Casta que compreende músicos, cantores, sábios genealogistas e cortesãos. Estão ligados com a arte, portanto, possuem licença para enfeitar seus discursos de forma que os ouvidos sintam a beleza dos sons e das histórias.
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Na África, a tradição oral é a escola da vida, é o que preserva a memória através do tempo e das mudanças, é o que permite a compreensão do seu lugar e função no mundo. Dessa forma, mantêm-se unidos o material e espiritual, entendendo a fala como um dom capaz de possibilitar a atividade dos potenciais humanos. O indivíduo é também marcado pelo coletivo, tendo assim a variante do indivíduo com características oriundas de sua singularidade. Transforma-se, pois em ação a oralidade dando possibilidades à memória. Na passagem a seguir, vimos esse caráter bem próprio das sociedades africanas, numa forma de perceber o passado com o presente. Uma relação diferente com a temporalidade, com a ancestralidade: Neste sentido, a memória, a experiência e o tempo são fundamentais para essa recuperação do vivido conforme concebido por quem viveu. Memória no sentido de fonte do passado no presente, como busca daquele tempo no agora, transcendendo a mera cronologia, mas como nas palavras de Walter Benjamin, ‘como musa da narratividade, que se constrói na experiência de vida’, possibilitando assim, revisitar o passado no presente, ‘restabelecer uma ligação com o passado, e que este possa ser salvo naquilo que tem de fundamental. O movimento de mergulhar em busca da experiência perdida, de saltar para trás em direção ao passado, poderá permitir a erupção de algo novo’. (BORELLI, 1992, p.81)
Essa sabedoria de vida é uma das marcas presentes nas religiões afro-brasileiras e foi por meio dessa tradição oral que as culturas e as histórias africanas e afrobrasileiras não viessem a se perder e a sumir. O estreitamento com a técnica da oralidade, muitas vezes pelo formato de canção, foi o que garantiu a força dessas memórias ao longo do tempo, mesmo com toda a repressão. Isso porque a música é um instrumento bem eficaz na memorização das histórias, na revitalização das lembranças.
O fortalecimento da identidade e da autoestima pela sociabilidade Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa Em cada esquina um pagode num bar Em Madureiraaa Império e Portela também são de lá Em Madureiraaa E no Mercadão você pode comprar Por uma pechincha você vai levar Um dengo, um sonho pra quem quer sonhar Em Madureiraaa E quem se habilita até pode chegar Tem jogo de lona, caipira e bilhar Buraco, sueca pro tempo passar Em Madureiraaa E uma fezinha até posso fazer No grupo dezena centena e milhar
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Pelos 7 lados eu vou te cercar Em Madureiraaa E lalalaiala laia la la ia... Em Madureiraaa
A sociabilidade dos grupos tem uma espacialidade exigida, mesmo que esse ambiente seja virtual como é um dos casos da atualidade, sendo confundida com as lembranças e com o sentimento gerado pela identificação com o lugar e com as pessoas. No caso da música em questão da análise desse trabalho, são mencionados os pagodes dos bares, as escolas de samba do Império e da Portela, o Mercadão e os jogos que dão vida às relações humanas, lugares construídos e constantemente ressignificados por essas mesmas relações, trazendo um marco para a memória local. A memória pode ser tratada em diferentes níveis, a individual, a coletiva local, a nacional etc. A partir do ponto inicial da vida de cada pessoa dá para acompanhar as mudanças da sociedade, trazendo olhares distintos e reações diversas aos eventos históricos. Poderíamos dizer que seria uma ligação entre a micro-história e a macrohistória, numa relação dialética de análise, pois uma depende da outra. A autora Lang (1996) indica que o conto de uma vida toda e até de parte(s) da mesma não está relacionado apenas à miragem do indivíduo, uma vez que é apoiada pelo conjunto desde o início do que chamamos de socialização. Ela corresponde às diferentes relações existentes, do indivíduo no contexto local e ampliando para outros níveis. São as relações humanas, locais e globais, em conjunto com os eventos da natureza, que irão dar forma ao presente e ao passado, assim como servirá de ponte para possibilidades do futuro. A história é construída por diferentes locutores, em espaços distintos, nas suas diversas condições possíveis, tendo presente relações de poder, discriminações e preconceitos. As culturas dialogam e negociam, buscando isolamento ou visibilidade, mas que possuem uma finalidade em comum: a sociabilidade. Elas possuem um modo de estar, viver e pensar o mundo, mas são as culturas que também regem as relações humanas. Uma das bases da sociabilidade é a oralidade. É conversar. É pela sociabilidade que construímos as nossas histórias individuais. Mesmo que com o objetivo explícito apenas do entretenimento ou de esgotamento na relação como única finalidade, aprendemos. Aprendemos porque qualquer sociabilidade tem sua face política, porque, as relações humanas são políticas. Com grupos jovens, a socialização é bem estimulada, por conta dos processos de identidade e sentimento de pertencimento, capazes de gerar
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autoestima elevada, e a música tem papel fundamental. Até porque normalmente a juventude é tratada sociologicamente como um problema, seja pela preocupação desviante, como a possibilidade de se envolver com a criminalidade, seja pelo caráter contestatório e de mudanças, que abalam os setores conservadores da sociedade. O samba teve e ainda tem um grande papel para a sociabilidade. Sua configuração dava uma participação a todos os envolvidos, com a improvisação das letras, ao tocar os diferentes instrumentos, tirando som até de pratos, no bater das palmas e nos passos das danças. Como um bom instrumento de sociabilidade do grupo, o lazer imperava ao mesmo tempo em que a herança cultural se mantinha acesa, sendo transmitida para novas gerações e evitando seu desaparecimento, apesar de todo o esforço da sociedade brasileira em abafar essas expressividades culturais inicialmente. Ele foi um tipo musical desenvolvido no seu seio da população negra e, por isso, foi perseguido e reprimido no começo. Geralmente, era, assim como a batucada, tocado nos terreiros das casas e encontrou nos morros cariocas uma liberdade para o seu desenvolvimento, por conta da perseguição policial que reprimia as culturas de matrizes africanas. Com o Estado Novo, o samba começou a ter uma nova configuração, ele se tornou um elemento de brasilidade e foi captado pelo Estado para exaltação do trabalho, servindo de propaganda do governo. A espontaneidade cultural foi sendo paulatinamente regulada pelo Estado e por financiadores que vieram a transformá-lo numa indústria cultural, com a grande entrada de brancos nesse segmento cultural. Sua configuração foi sendo alterada e o diálogo com outros ritmos o desmembrou em outros estilos musicais, como por exemplo, o samba rock, o samba reggae etc. Paralelamente, grupos negros, percebendo essa interferência branca e as hibridações, tentam desenvolver uma resistência no samba, de sobrevivência frente a esse embranquecimento do samba. A escola de samba “Quilombo”, fundada por Candeia, foi um exemplo dessa resistência cultural, de sobrevivência de um desenvolvimento sem as interferências que antes o condenavam a perseguição e agora o cooptavam para uma nova forma de trato, visando enormes lucros com o turismo e com a mercadorização. Outro exemplo carioca de resistência foi o Clube Renascença. O clube foi fundado por conta da discriminação racial que acontecia em espaços de entretenimento de classe média, de maioria branca. O clube teve diferentes momentos e foi palco de eventos e finalidades distintas e o samba esteve largamente presente. Essa resistência, que marca a identidade negra, é a base primordial da memória da diáspora africana. Porque na diáspora, os afrodescendentes passaram por contextos 14
históricos de repressão e de inferiorização cultural, alguns vivenciaram a separação física nos espaços de forma oficial, por leis, e outros viveram de forma escamoteada, em que não havia lei segregacionista, mas que o cotidiano revelava uma contradição. Essa resistência foi o que permitiu a criação do que viemos chamar de negritude, que visava ressignificar o passado negro e o ser negro numa forma positiva. Lembramos que a negritude e a resistência que a circunda, assim como a própria noção de identidade negra, não traz a questão da raça no sentido biológico, como nos alerta Munanga (2009). Não acontece pela simples diferenciação da cor da pele, mas sim pelo fator da história, do sentido sócio-histórico que a raça incorporou, nas tentativas externas de desumanização e destruição das histórias e culturas dos negros. É, portanto, uma tomada de consciência dessa situação histórica de opressão e exclusão, em que os negros constroem um discurso de afirmação, buscando uma solidariedade do grupo, para que fosse possível uma transformação dessa mesma condição histórica.
Conclusão O samba “Meu lugar” trouxe desdobramentos importantes para pensarmos a identidade negra. Uma identidade que não se resume apenas à transmissão de culturas e histórias, mas que também está vinculada a uma condição socio-histórica. Essa condição apresentou repressão cultural, divulgação de um passado de maneira inferiorizada e a prática do racismo. Foi ela também que impôs o embranquecimento como solução de identidade para o aceitamento no “mundo dos brancos”. A resistência em se afirmar e se valorizar nessa dada situação foi uma posição política da identidade reprimida. Com a tradição oral, essa resistência encontrou as forças necessárias para assegurar as histórias e as culturas negras, mesmo que às margens. Tendo no samba, nas religiões afro-brasileiras e em outras expressões culturais, o espaço de sociabilidade capaz de trazer uma autoestima e um orgulho imprescindível para a potencialidade do ser, para não ser massacrado pelo racismo e pelos diferentes níveis de exclusão na sociedade. É claro que a progressão da identidade negra não aconteceu de maneira isolada, partiu dessa condição sócio-histórica e se desenvolveu em diálogo com o “mundo branco”, numa eterna negociação e com trocas, como os movimentos sincréticos e de tradução cultural. Foi uma posição política para não ver suas culturas e histórias serem sucumbidas no “mundo branco”, foi uma resposta, uma possibilidade de valorização frente a essa situação racista, de falsas ideias de inferioridade e de desqualificação. 15
O “Meu lugar” permitiu todo esse debate, mostrando que o lugar não é mera localização geográfica. Atribuímo-lo valor afetivo pela memória. O lugar está fortemente relacionado às experiências do pertencimento e da identificação. Não se trata, pois de considerar as relações, saberes e fazeres como imutáveis, mas sim o de compreender o valor da identidade negra enquanto resistência. Foi feito aqui um rápido panorama, que buscou dialogar os conceitos de resistência, memória, lugar e oralidade para que entendêssemos o contexto da identidade negra. Sendo esta identidade não configurada como uma imposição ou numa desvalorização da identidade branca, mas na tomada de consciência da sua condição sócio-histórica, visando o fortalecimento e a valorização de um passado que foi depreciado. A esperança é a de podermos vivenciar um Brasil que valorize e respeite sua diversidade.
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