Música e Cultura n°2
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O DESTINO DE JOVENTINA Carlos Sandroni1 Joventina é uma boneca de madeira, de cor negra e cerca de 30 centímetros de altura, que hoje se encontra exposta em uma das salas do Museu do Homem do Nordeste, no Recife. Até o início dos anos 1960, ela era reverenciada pelos integrantes do Maracatu Nação Estrela Brilhante, da mesma cidade, que a portavam durante seus desfiles no Carnaval e em outras ocasiões, e tal como acontece até hoje nesses grupos populares, a consideravam como uma entidade espiritual, ou “calunga”, termo cujo sentido preciso vem desafiando a curiosidade dos pesquisadores desde Mário de Andrade, que dedicou um ensaio ao tema. (1935; retomado em ANDRADE, 1982) Maracatus são agrupamentos de origem afro-brasileira típicos de Pernambuco, cujo desfile, que hoje acontece sobretudo por ocasião do carnaval, representa o cortejo, ao som de uma sonora orquestra de percussões, de um rei e uma rainha negros. Os primeiros registros históricos do Maracatu Estrela Brilhante do Recife datam de circa 1910. Testemunhos orais relatam que o grupo foi fundado por um certo Mestre Cosmo, natural da cidade de Igarassu, que fica 60 quilômetros ao norte do Recife. Ora, na cidade de Igarassu existe outro maracatu de baque virado – na realidade, trata-se hoje do único maracatu de baque virado existente fora da cidade do Recife – que também atende pelo nome de Estrela Brilhante e possui uma calunga de nome Joventina. O Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu é mais antigo que o de Recife. Sabemos disso por documentos históricos, mas também por testemunhos orais, como o da matriarca do grupo, Dona Mariú, falecida em 2002 aos 104 anos, e que até pouco antes ainda participava dos desfiles do grupo em sua cadeira de rodas. Parece provável que a origem do Estrela Brilhante de Recife esteja ligada à mudança de Cosmo, que em sua nova cidade quis dar ao grupo que criava o mesmo nome daquele de sua cidade natal. Tanto o Estrela Brilhante de Igarassu quanto o de Recife passaram por altos e baixos ao longo do século XX. O primeiro esteve inativo nos anos 1980 e ressurgiu no meio dos anos 1990, em parte graças ao apoio do folclorista Roberto Benjamin, que ajudou a promover uma espetacular cerimônia coroação de Dona Mariú, gravada e levada ao ar pela Rede Globo, depois da qual a Prefeitura da cidade passou a apoiar o grupo financeiramente (BENJAMIM, 2006). O segundo se dissolveu por volta de 1964, logo após a passagem pelo Recife da folclorista norte-americana Katarina Real, que fez pesquisas no grupo, reportadas em seu livro O Folclore no Carnaval do Recife (REAL, 1990). Quando da dissolução, a rainha do maracatu chamou Katarina Real e lhe contou que, durante uma cerimônia religiosa, uma entidade espiritual lhe ordenara que entregasse Dona Joventina aos cuidados da pesquisadora. Katarina relata a história em artigo muito posterior (1996), e diz que hesitou, mas acabou aceitando a oferta, entre 1
Bacharel em Sociologia pela PUC/RJ (1981), com mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (1987) e doutorado em Musicologie pela Universite de Tours (Universite Francois Rabelais) (1997). Atualmente é Professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco.
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outras razões porque a ditadura militar acabava de se instalar no Brasil e o futuro de qualquer tipo de associação popular parecia-lhe incerto. Joventina foi assim para os Estados Unidos com Katarina Real, e lá passou longos anos. Vamos deixá-la lá por um momento, para ver o que aconteceu com o Maracatu Estrela Brilhante de Recife, que nesse ínterim fazia outra espécie de viagem, e ressurgia em outros locais e em novas mãos. Num contraste com o que acontece nas escolas de samba do Rio de Janeiro, a continuidade temporal dos maracatus do Recife não tem sido caucionada pela ligação com uma comunidade geograficamente estabelecida. No caso dos grupos cariocas, isso já fica patente em seus nomes: Estação Primeira de Mangueira, Acadêmicos do Salgueiro ou União da Ilha, as escolas de samba se definem pelo pertencimento geográfico a localidades do Rio de Janeiro. Já os nomes dos maracatus de baque virado – Leão Coroado, Elefante, Sol Nascente e outros – não fazem qualquer alusão geográfica, e de fato para seus integrantes o que define o sentido de identidade do grupo não é a continuidade geográfica. Assim, o Leão Coroado já foi nos bairros de S. José, Afogados, e agora é no de Águas Compridas; o Porto Rico, que já foi na zona norte da cidade, fica hoje no bairro do Pina, em plena zona Sul; e o Estrela Brilhante, que quando se dissolveu estava no bairro de Campo Grande, foi refeito no Alto do Pascoal, e hoje tem sede no Alto José do Pinho. Quando os maracatus mudam de comunidade, mudam de pessoas também. O atual líder dos batuqueiros do Estrela, Mestre Valter, foi durante muitos anos colaborador de Luís de França, o legendário líder do Leão Coroado, morto em 1997. Os atuais integrantes dos maracatus do Recife regra geral não são, pelos critérios usuais – pertencimento geográfico ou étnico, relação familiar, tradição oral – portadores de heranças culturais particulares de seus grupos (pode-se argumentar, no entanto, que eles são, pelos mesmos critérios, portadores da herança cultural do maracatu de baque virado da cidade do Recife visto em seu conjunto). O que é curioso é que essa recriação permanente dos maracatus do Recife não se faz, nos meios populares, apenas pela criação de novos grupos, mas também pela transmissão a novas pessoas e a novos lugares dos mesmos nomes, que de fato significam para eles os mesmos grupos. O que se transmite junto com estes nomes são práticas religiosas ligadas ao culto dos orixás, e em certos casos também ao culto da jurema, religião popular com fortes referências ameríndias. O caso do Estrela Brilhante é uma boa ilustração. A história deste maracatu foi estudada em detalhe por Virgínia Barbosa (2001) e Cristina Barbosa (2001), a quem devo as informações que apresento a seguir. Após a dissolução do grupo em 1966, passaram-se alguns anos sem que houvesse Estrela Brilhante no carnaval do Recife. Mas no início dos anos 1970, a rainha do Leão Coroado, Maria Madalena, teve um desentendimento com o já mencionado Luís de França, e afastou-se deste grupo. Em busca de um novo maracatu, aliou-se a um senhor conhecido como Cabeleira, uma espécie de mediador da cultura popular, como tantos outros que existem no Recife: alguém com contatos junto a autoridades municipais e junto à Federação Carnavalesca, capaz de conseguir subvenções e contatos para apresentações. Juntos, resolveram recriar o Estrela Brilhante, confeccionando uma nova boneca Joventina, e cumprindo determinadas obrigações cerimoniais junto a casas de xangô, e em especial em relação a uma entidade espiritual do culto da jurema, Mestre Cangarussu, que é tido como o principal guia espiritual daquele maracatu.
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No início dos anos 1990, o Estrela Brilhante da segunda época estava quase parando. Ao mesmo tempo, outro grupo de descontentes do Leão Coroado, entre os quais o futuro Mestre Válter, associava-se a grupo de dissidentes do Elefante, do qual fazia parte a futura rainha Marivalda, e ambos se associavam a outro mediador cultural da mesma cepa de Cabeleira, o artista plástico Lourenço Mola. Este convence o primeiro a vender-lhe os objetos do Estrela Brilhante para que ele possa reorganizar o maracatu. Entre estes objetos encontravam-se todos os troféus obtidos pelo grupo enquanto esteve sob organização de Cabeleira, o estandarte, a umbela cerimonial, roupas, coroas, instrumentos musicais e, é claro, a nova boneca de Dona Joventina. É deste novo grupo, misturando pessoas de diferentes grupos populares sob o comando administrativo de um mediador de extração pequeno-burguesa, e com a participação de alguns percussionistas então cursando a faculdade de música, que nasce em 1993 o atual maracatu Estrela Brilhante. Este está em relação com o grupo imediatamente anterior através dos objetos que “herdou”; e em relação com o grupo fundado por Mestre Cosmo, através da calunga Joventina e da reverência a Mestre Cangarussu, além de outras entidades espirituais. Aliás, é voz corrente no grupo atual que as versões anteriores do maracatu se dissolveram porque não souberam ou não puderam reverenciar e cultuar da maneira apropriada tais entidades. Foi exatamente isto que este grupo se propôs a fazer desde então, e com êxito, a julgar por seus sucessos no carnaval do Recife e fora dele (o Estrela Brilhante foi diversas vezes vice-campeão e campeão do desfile carnavalesco competitivo de Recife desde os anos 1990; viajou para a Europa, apresentando-se inclusive na Feira Mundial de Hannover, em 2000; e lançou em 2001 seu primeiro CD). Instalados no Alto José do Pinho, região de baixa renda que aliás abriga em estreita proximidade vários grupos musicais de diversos tipos, como uma escola de samba e bandas como Devotos do Ódio e Matalanamão, Mestre Válter e a Rainha Marivalda vêm com seus colaboradores construindo desde 1993 uma das possíveis identidades para um maracatu do século XXI. Neste processo, a parceria com Lourenço Mola foi desfeita, e Marivalda passou por uma intensificação de suas relações com o xangô e a jurema, intensificação que culminou com a conclusão de seu processo de iniciação em uma casa religiosa de rito nagô, que teve lugar no mês de junho de 2001. Nos anos 1990, Katarina Real volta ao Recife e re-encontra o carnaval da cidade, vivo e forte, com seus frevos e seus maracatus, entre eles o renovado Estrela Brilhante. Decide então que é tempo de trazer Dona Joventina de volta. Mas as pessoas e o local do Estrela Brilhante de hoje não possuem nenhuma relação “objetiva” com o Estrela Brilhante que ela conheceu; assim ela não entrega a boneca ao grupo, mas ao Museu do Homem do Nordeste. A entrega é feita numa cerimônia solene, concebida como ato de restituição de um patrimônio cultural da cidade do Recife. Tive oportunidade de conversar, nos carnavais de 1999 e 2000, com integrantes dos maracatus Estrela Brilhante do Recife e de Igarassu sobre o destino de Joventina. Eles souberam de seu retorno ao Recife, que foi amplamente noticiado pela imprensa local. Pessoas de ambos os grupos exprimiram o sentimento de que a calunga Joventina lhes pertencia, e que sua “doação” ao Museu era totalmente ilegítima. Aliás, ouvi muitas vezes entre integrantes de maracatus do Recife a expressão “ir para o Museu” pronunciada em tom lúgubre, como um sinônimo de “ir para o limbo” ou “para o ostracismo”; o caso mais famoso é o do maracatu Elefante sob o reinado de Dona Santa, cujos tambores, calungas e vestimentas “foram para o museu” após a morte da célebre rainha, em 1961. Para as pessoas que usam a expressão neste sentido, é como se “no
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museu” as coisas, mesmo ainda podendo ser vistas e eventualmente tocadas, tivessem perdido qualquer vestígio de sopro vital. Mas, mesmo que Joventina não fosse para o museu, ou de lá pudesse sair, a questão do seu destino ainda não estaria resolvida, pois há dois maracatus Estrela Brilhante, e ambos consideram Dona Joventina como sua calunga. É preciso esclarecer que entre os maracatus de baque virado os nomes das bonecas sempre variam. Assim, as calungas do Leão Coroado são Dona Isabel e Dona Clara; as do Elefante, Dona Emília, Dom Luís e Dona Leopoldina, e assim por diante. Por isso, em princípio não podem existir duas Joventinas; mesmo que haja várias bonecas diferentes que a representem, como de fato acontece, só há uma Dona Joventina, calunga que pertence ao maracatu Estrela Brilhante, e que virtualmente é objeto de disputa entre a agremiação de Igarassu e a do Recife. Aliás, a própria existência de dois maracatus com o mesmo nome é muito problemática para seus integrantes. Não funciona aqui a lógica que funciona, por exemplo, no futebol brasileiro, onde a existência do Botafogo de Ribeirão Preto e do Botafogo da Paraíba não desperta qualquer reticência na torcida do Botafogo do Rio de Janeiro. Ao contrário, se o grupo do Recife, que tem entre seus integrantes jovens de classe média e músicos profissionais, vem conseguindo maior destaque na mídia, incluindo turnês e gravações, isso desperta a ira do grupo de Igarassu, que se refere com o maior desprezo ao que não passaria de um bando de miseráveis usurpadores (ira possivelmente suavizada com a gravação do seu próprio CD, em 2004). Se Joventina saísse do museu, a disputa entre os dois maracatus homônimos poderia se acirrar. É preciso levar em conta que no início do século XX, quando Cosmo veio para o Recife, a distância entre as duas cidades era de fato muito maior. Recife e Igarassu eram, em certa medida, dois mundos diferentes, e a criação de um novo Estrela Brilhante na capital não podia ocasionar qualquer rivalidade com o grupo mais antigo. Hoje em dia, ao contrário, Igarassu faz parte da Grande Recife. Boa quantidade de habitantes de lá vem trabalhar na capital, e os mesmos jornais são lidos nos dois lugares; o grupo de Igarassu tem vindo regularmente desfilar no carnaval do Centro de Recife. A coexistência dos dois maracatus homônimos provavelmente não foi prevista por Mestre Cosmo, mas sendo um dado inevitável da situação atual, é de esperar que ela não venha a ser razão de conflitos demasiado ásperos entre seus participantes. Seja como for, e mesmo que muitas pessoas – entre as quais o autor destas linhas – sonhem às vezes com o contrário, o destino mais provável da Dona Joventina que foi doada a Katarina Real é, em companhia de Dona Emília, Dom Luís e dos demais símbolos e objetos do maracatu Elefante, continuar exposta em sua sala do Museu do Homem do Nordeste. Afinal, talvez o responsável em última instância por sua presença lá tenha sido o próprio Mestre Cangarussu, que teria ordenado sua doação a Katarina Real. Mas também é bastante provável que as novas Joventinas dos Estrelas Brilhantes de Igarassu e de Recife, assim como a nova Dona Emília e o novo Dom Luís do maracatu Elefante, e a velha Dona Isabel que ainda desfila com o maracatu Leão Coroado, escapem “de ir para o museu” e continuem desfilando por muito tempo, sob os cuidados e as reverências de novos reis e rainhas, músicos e dançarinos de maracatu.
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Referências bibliográficas ANDRADE, Mário de. 1935. “A calunga dos maracatus”. ESTUDOS AFROBRASILEIROS - TRABALHOS APRESENTADOS AO I CONGRESSO AFROBRASILEIRO REUNIDO NO RECIFE EM 1934. Rio de Janeiro: Ariel. ________. 1982. “O maracatu”. Danças dramáticas do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: Pró-Memória, tomo II, p.137-54. BARBOSA, Cristina. 2001. A nação maracatu Estrela Brilhante do Campo Grande (Recife). Monografia de Especialização em Etnomusicologia, UFPE, 2001. BARBOSA, Virgínia. 2001. A reconstrução musical e sócio-religiosa do maracatu nação Estrela Brilhante (Recife): Casa Amarela-Alto José do Pinho, 1993-2001. Monografia de Especialização em Etnomusicologia, UFPE, 2001. BENJAMIM, Roberto. 2006. Participação em mesa-redonda sobre “Patrimônio imaterial e cultura popular”. Recife, 20 de setembro de 2006. Gravação em vídeo, disponível no acervo da Associação Respeita Januário (RecIfe). RECIFE, Estrela Brilhante de. CD do maracatu. Recife: Produção independente, 2001. IGARASSU, Estrela Brilhante de. CD do maracatu. Recife: Produção independente, 2004. REAL, Katarina. 1990 [1967]. O folclore no carnaval do Recife. Recife: Massangana. __________. 1996. Dona Joventina, calunga do maracatu Estrela Brilhante. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.