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Rosa Magalhães no carnaval carioca e na Escola de Belas Artes: a obra e a arte de uma carnavalesca

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ROSA MAGALHÃES NO CARNAVAL CARIOCA E NA ESCOLA DE BELAS ARTES: A OBRA E A ARTE DE UMA CARNAVALESCA * Profª. Adjunto EBA/ UFRJ. Coordenadora de Graduação do CLA/UFRJ

Cristina Grafanassi Tranjan, Dsc.* Aurélio Antônio Mendes Nogueira, Dsc.**

** Prof. Adjunto EBA/ UFRJ

ABSTRACT Rosa Magalhães is one of the most established carnival producers in Rio de Janeiro. She has graduated from Painting in Escola de Belas Artes - UFRJ, and when she was still a student, carnival producer Fernando Pamplona invited her to become part of his staff. This article aims to narrate her path as a producer and teacher at Escola de Belas Artes.

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1 . O início do Carnaval carioca

1 Apud. Magalhães, 1977, p. 5

2 Pamplona, op. cit.

P

O samba desceu os morros, invadiu ruas e avenidas, crescendo em importân-

aís de grande diversidade étnica quer por suas dimensões continentais, quer pela ótima acolhida que sempre deu

cia e "tornando-se a maior manifestação de arte popular no Brasil, conquistando todo o país e o mundo".2 Nas décadas de 40 e 50, na

aos imigrantes, o Brasil tem uma grande mistura de costumes e raças. O Carnaval carioca é um reflexo dessa miscigenação, refletindo os costumes da cidade.

formação das Escolas, foram introduzidos os quesitos Enredo, Alegorias e Fantasias, diferenciando-as dos Ranchos, das Grandes Sociedades e dos Blocos. Até

No início do século XX, diversas associações recreativas foram criadas, baseadas num ritmo musical que começava a despontar, o Samba. Segundo Pamplona1 , o samba era "uma criação musical característica, específica da cidade, e que passou a ser predominante na aceitação popular". Para expressar esse ritmo, começaram a surgir as Escolas de Samba, formadas no âmbito dos bairros, ou morros, e que eram batizadas com o nome desses lugares. Tais regiões tinham por habitantes, geralmente negros e pobres. A Praça Onze foi o primeiro lugar onde os grupos carnavalescos começaram

então a figura do que hoje se conhece como carnavalesco era conhecida como "Técnico". A então Escola Nacional de Belas Artes, na primeira metade do século XX, contribuiu com diversos profissionais de seu quadro para trabalhar na festa de carnaval, em princípio como técnicos, e como jurados dos desfiles. A partir do final dos anos 50, a ligação entre a Escola e o Carnaval Carioca causou uma revolução na história do carnaval, com seus artistas plásticos interferindo de forma irreversível na temática das escolas e inovando o tratamento plástico-visual.

a se encontrar, desfilando sem regras, mas cada uma contando uma história diferente, que passou a ser o enredo. Em 1935, as Escolas de Samba foram reconhecidas oficialmente como "entidades com responsabilidade jurídica", e os desfiles na Praça Onze, oficializados.

"Esse grupo de artistas trouxe não só conhecimento, mas pôs em prática o dom artístico mais academicista, explorando a temática e a estética, introduzindo o uso da pintura, da escultura, novos materiais às alegorias e aos adereços, e assim, os carros, o figurino e as

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fantasias foram mudando de estilo, retratando com mais fidelidade a abordagem diversificada dos temas." 3 A necessidade de mão de obra qualificada oriunda dos barracões das escolas de samba se refletiu, nos anos recentes, em dois convênios firmados entre a EBA e a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) - um em 1995 e outro em 2004. O Carnaval no Rio de Janeiro hoje é uma indústria que movimenta milhões, e tem pessoas de todas as classes sociais envolvidas nessa festa mais famosa do país e conhecida no mundo todo. Rosa Magalhães é um dos nomes de maior destaque nesse cenário. 2 . Rosa Magalhães Rosa Lúcia Benedetti Magalhães nasceu em 1947, no Rio de Janeiro, no seio de uma família de intelectuais. Seu pai, Raimundo Magalhães Júnior, escritor, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1956. Escreveu o livro “Machado de Assis, Vida e Obra”, quatro volumes sobre a biografia de Machado de Assis. Foi também membro do primeiro corpo de jurados do concurso de escolas de samba em 1932 e redator da revista Manchete, uma das mais famosas da Editora Bloch. Tinha uma biblioteca muito

rica, que deixou para Rosa, estimulando na filha o prazer da pesquisa. Da mãe, Lúcia Benedetti, assimilou a vontade de estudar e o gosto pela criação. Lúcia era autora teatral e foi a precursora do teatro infantil profissional. Apesar da preocupação com a formação da filha, sempre foram pais liberais. O pai a ensinou a dirigir aos 14 anos, e tinha total liberdade para ler o que quisesse, em diversos idiomas. Estudou em um dos colégios mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Sacré Coeur de Marie, em Copacabana. Tinha intenção de ser advogada, mas ao ver seu talento para desenho, um professor a aconselhou a fazer Belas Artes. Assim, Rosa foi estudar Pintura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para enriquecer sua formação, Rosa continuou estudando. Tornou-se bacharel em Cenografia pela UNIRIO, licenciada em Francês pela UERJ, e bacharel em Francês pela Faculté des Lettres et des Sciences Humaines de Nancy. Nunca se desligou da EBA. Foi professora adjunta de Cenografia e Indumentária e chefe do departamento de Artes Utilitárias. Os mesmos profissionais responsáveis por sua formação, foram posteriormente seus colegas de trabalho,

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3 Félix, Revista em Movimento, 2008


4 Magalhães (1977, p. 11)

tanto na EBA como nos barracões das escolas de samba. Dentre esses, podemos

Augusta. Neste ano, uma colega de facul-

citar Fernando Pamplona, Plínio Cipriano, Almir Gadelha e Adir Botelho. Trabalhou em conjunto com as professoras Licia Lacerda e Maria Augusta Rodrigues, em

dade de Rosa Magalhães foi convidada para trabalhar no Salgueiro por Maria Augusta. Por motivo de doença, não pode aceitar e indicou Rosa para o seu lugar,

diversos carnavais. Foi professora titular de Desenho da Faculdade de Arquitetura Bennett, professora da Escola de Artes Visuais do

para desenhar figurinos; por sua vez Rosa convidou Licia Lacerda. Rosa até então não entendia nada de carnaval, entrando em um mundo completamente novo para

Parque Lage, roteirista e diretora de arte para TV, cenógrafa e figurinista em espetáculos de dança e professora do Senai no Curso de Estilismo. Formou diversos profissionais na sua área, dentre eles, podemos citar o figurinista Samuel Abrantes, aluno de Rosa no Senai/Cetiq, no curso de estilismo. Seu talento chamou a atenção da professora, que o convidou para elaborar alguns trabalhos no carnaval. Hoje, Samuel é professor da Escola de Belas Artes e profissional de competência reconhecida no carnaval.

ela. Sua jovem visão de carnaval se resumia apenas a um baile, e sem nunca ter passado um carnaval no Rio.

3. O Carnaval O enredo do Salgueiro em 1971, "Festa Para um Rei Negro", nasceu de uma pesquisa feita por Maria Augusta Rodrigues sobre Mauricio da Nassau e a visita dos príncipes africanos a Pernambuco. Trabalharam juntos no enredo os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Maria

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"Certa vez, uma colega recémgraduada, que já se interessava por carnaval, foi chamada por Maria Augusta Rodrigues, para desenhar os figurinos da Acadêmicos do Salgueiro. Como ela teve problemas de saúde, acabei sendo chamada para substituí-la, apesar da minha completa ignorância sobre o assunto. Na primeira reunião, todas aquelas palavras me soaram bem estranhas: tripés, destaques, carregadores de alegorias de mão, carros alegóricos e toda essa terminologia entremeadas de relatos de Dona Beija, Chica da Silva e outros personagens dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Afinal, eu não sabia direito nem mesmo o que era uma portabandeira. Eram informações aos borbotões que eu nem sabia como arquivar." 4 Tudo que possuía até então, era curiosidade e boa vontade, além da

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lapiseira e uma borracha, conforme seu depoimento: "Tudo o que eu tinha era

Seu primeiro campeonato foi com a Império Serrano, em 1982. O enredo,

curiosidade e boa vontade. Fiquei maravilhada com uma descoberta: os livros sobre indumentária". Assim, foi se aprimorando, obser-

sugerido por Rosa e Licia Lacerda, e concebido por Fernando Pamplona, chamava-se "Onze", referindo-se à Praça Onze. Falava do processo de explosão das

vando, estudando, participando de cada etapa da construção de um carnaval, em uma época em que os ateliês eram improvisados nas garagens e quintais dos

várias camadas culturais do Estado, que Fernando chamava de "Candelária", que era a Presidente Vargas e o processo de comercialização e profissionalismo

colaboradores, assim como, as reuniões que aconteciam em suas casas. A colaboração dos membros das comunidades era na base do amor à escola, dando forma ao que sua imaginação criava. Acompanhou de perto a evolução e as alterações ocorridas nos desfiles do carnaval carioca. Rosa revela:

integrado. Rosa Magalhães mudou o nome do enredo para "Bum Bum Paticumbum Prugurundum". Rosa sempre gostou de nomes grandes para os enredos. Esse ficou sendo um dos desfiles mais marcantes de todos, e o samba, um dos mais famosos. O enredo falava do conceito de "superespetáculo" e "carnaval luxo" que dominava os desfiles das Escolas de Samba, e abria apresentado um desfile que iria criticar as "superEscolas de Samba" e as "Superalegorias", que diminuíam cada vez mais o espaço dos sambistas. Segundo Guimarães (1992, p. 97), o enredo fazia uma revisão do que foi o processo evolutivo das Escolas de Samba, e foi desenvolvido

"...ainda assisto aos desfiles com a mesma curiosidade inicial. Acompanhei sua evolução durante mais de 20 anos. As mudanças que ocorreram foram de ordem estética e administrativa, mas a essência continua a mesma." 5 Posteriormente Rosa e Licia concorreram em decorações de rua, estimuladas por Pamplona. A iniciação profissional de ambas foi na equipe de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, onde Rosa trabalhou como figurinista e Licia trabalhou na parte de alegorias com Joãozinho Trinta.

de forma critica, satirizando os "males" que atingiam as Escolas de Samba, como o gigantismo e o luxo excessivo. Foi um desfile marcante pela autocrítica. Em 1984, em dupla com Licia Lacerda, Rosa Magalhães foi para o Grêmio Recreativo Escola de Samba

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5 Félix, op. cit.


Imperatriz Leopoldinense, fazendo o desfile "Alô, mamãe". Encontrou uma

Rosa Magalhães: 1982 (Carnaval campeão): Bumbum

escola em grandes dificuldades financeiras, mas mesmo assim, conseguiu levar o quarto lugar, junto com o Salgueiro, considerada uma escola forte.

Paticumbum Prugurundum (GRES Império Serrano) - Em dupla com Licia Lacerda

Em 1987, Rosa e Licia assumiram o carnaval da Estácio de Sá, com o enredo "Tititi do Sapoti", que foi um grande sucesso, apesar de não ganhar o carnaval. Em 1988, Rosa Magalhães assinou seu primeiro carnaval sozinha, ainda na Estácio, com o enredo "O boi da bode". O carnaval do ano seguinte também teve um enredo de grande sucesso elaborado pela carnavalesca: "Um, dois, feijão com arroz". De volta ao Salgueiro, dessa vez como carnavalesca, conquistou o terceiro lugar (1990) e o vice-campeonato (1991). Depois desses cinco anos trabalhando na Estácio de Sá e no Salgueiro, Rosa retornou à Imperatriz Leopoldinense, em 1992, onde está até hoje. Foi ali que se consagrou definitivamente, ganhando para a escola cinco campeonatos, sendo que três seguidos, no primeiro Tricampeonato da era Sambódromo, e sendo reconhecida como uma das mais importantes artistas brasileiras contemporâneas. Para Rosa, o carnavalesco é uma espécie de diretor de cena do espetáculo apresentado pelas escolas de samba. A seguir, a lista dos carnavais de

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1984: Alô, mamãe (GRES Imperatriz Leopoldinense) - Em dupla com Licia Lacerda 1987: Tititi do sapoti (GRES Estácio de Sá) - Em dupla com Licia Lacerda 1988: O boi dá bode (GRES Estácio de Sá) 1989: Um, dois, feijão com arroz (GRES Estácio de Sá) 1990: Sou amigo do Rei (GRES Acadêmicos do Salgueiro) 1991: Me masso se não passo pela Rua do Ouvidor (GRES Acadêmicos do Salgueiro) 1992: Não existe pecado abaixo do equador (GRES Imperatriz Leopoldinense) 1993: Marquês que é marquês do saçarico é freguês (GRES Imperatriz Leopoldinense) - com Viriato Ferreira 1994 (Carnaval campeão): Catarina de Médicis na corte dos Tupinambôs e Tabajeres (GRES Imperatriz Leopoldinense)

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1995 (Carnaval campeão): Mais vale um jegue que me carregue que um

2004: Breazail (GRES Imperatriz Leopoldinense)

camelo que me derrube, lá no Ceará (GRES Imperatriz Leopoldinense)

2005: Uma delirante confusão fabulística (GRES Imperatriz Leopoldinense)

1996: Leopoldina, Imperatriz do Brasil (GRES Imperatriz Leopoldinense) 1997: Eu sou da lira, não posso negar (GRES Imperatriz Leopoldinense) 1998: Quase ano 2000... (GRES Imperatriz Leopoldinense) 1999 (Carnaval campeão): Brasil mostra a sua cara em... Theatrum Rerum Naturalium Brasilie (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2000 (Carnaval campeão): Quem desco-briu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2001 (Carnaval campeão): Canacaiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, pernambuco... Quero vê descê o suco, na pancada do ganzá (GRES Imperatriz Leopoldinense)

2006: Um por todos e todos por um (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2007: Teresinhaaa, uhuhuuu!!!! Vocês querem bacalhau? (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2008: João e Marias (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2009: Imperatriz... só quer mostrar que faz samba também! (GRES Imperatriz Leopoldinense)

4 . Os campeonatos na Imperatriz. A Imperatriz Leopoldinense foi a primeira escola de samba a ter um Departamento Cultural, com enredos geralmente baseados na cultura nacional, elaborados a partir de uma extensa pesquisa acadêmica. Em seguida, faremos uma breve análise dos campeonatos da Escola.

2002: Goitacazes... Tupi or not Tupi, in a South American way (GRES Imperatriz Leopoldinense) 2003: Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau (GRES Imperatriz Leopoldinense)

1994: Catarina de Médicis na corte dos Tupinambôs e Tabajeres A chegada à escola de Rosa Magalhães - trazida por Viriato Ferreira geraria seu primeiro fruto no campeonato de 1994. Com um enredo ousado, que

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descrevia uma festa realizada em Ruão no século XVI com motivos inspirados nos

o fracasso da expedição científica ao sertão do Ceará, organizada por D. Pedro

indígenas brasileiros, permitiu um desfile surpreendente, ao mesmo tempo luxuoso e empolgante. Esse seria o primeiro dos campeonatos conquistados pela carnava-

II, que contou com 14 camelos vindos da Argélia, que não resistiram e foram substituídos por jegues nordestinos. O carro “A Chegada do Camelo” quebrou,

lesca na escola. O samba acompanhou a ousadia visual reunindo termos em português e francês. Com este enredo, a Imperatriz iniciou uma série de conquistas

fazendo com que o destaque, Jorge Lafond, desfilasse no chão. Pela perfeição com que o enredo foi trabalhado e pela clareza de alegorias e fantasias, o carro

na Sapucaí, o que lhe rendeu o título de "escola tecnicamente perfeita" ou "escola de resultados".

nem fez falta a escola. Dispensada da Portela, Luiza Brunet assumiu o posto de Rainha de Bateria da Imperatriz. Encerrando o desfile, o carro Viva o Jegue soltou balões pela avenida e contou com a presença dos cearenses Renato Aragão, Fagner e Tom Cavalcante.

1995: Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará. Esse desfile é considerado, por muitos, como o trabalho mais bem elaborado de Rosa Magalhães. A preocupação com os detalhes, nos carros e alegorias, e a originalidade e leveza das fantasias criaram um conjunto visual dos mais impressionantes jamais apresentados. Essa preocupação se tornou o traço marcante do trabalho de Rosa e dos desfiles da Imperatriz. Trazendo à lembrança a fala de uma personagem da obra “A farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente, teatrólogo português do século XV - "Mais vale um asno que me carregue, que um cavalo que me derrube" - a Imperatriz Leopoldinense apresentou

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1999: Brasil mostra a sua cara em... Theatrum Rerum Naturalium Brasilie Depois de três anos, a Imperatriz volta a vencer. Na opinião dos críticos, neste ano, a escola não perfeita como nos anos anteriores. O enredo "Brasil mostra a sua cara em "Theatrum Rerum Naturalium Brasilae" versava sobre a obra do pintor holandês Eckout, que durante o século XVII retratou o Brasil. Mauricio de Nassau era um amante das artes e trouxe com ele da Europa, um grupo de pintores, cartográficos e médicos. Os orientou para que retratassem os animais e os vegetais do local. A coleção de livro

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com quatro volumes, que registra em pinturas e gravuras, índios, animais,

luxuosos e criativos, a Imperatriz, mantendo sua característica de escola de

pássaros e plantas existentes no Brasil, ficou perdida até que em 1972 um pesquisador Inglês conseguiu encontrar os volumes em uma pequena biblioteca na

perfeição, manteve a tradição e fez um desfile sem erros. Rosa Magalhães abusou de cores fortes, como preto e vermelho, principalmente nos primeiros

cidade da Polônia. A comissão de frente, fantasiada de nobres holandeses, formavam o mapa do Brasil e faziam uma explosão com as fitas. Luíza Brunet,

carros que fizeram referências ao comércio de Portugal com a Ásia e a África.

grávida, brilhou mais uma vez à frente da bateria da Imperatriz. A ala das baianas proporcionou uma das imagens marcantes. Eram 150 baianas aladas, com asas coloridas de borboleta, das espécies retratadas por pintores holandeses que nos visitaram no século 17. A originalidade das fantasias e alegorias, misturando a iconografia seicentista com elementos do folclore brasileiro, foi acentuada pela irreverência e bom humor característicos de sua carnavalesca. 2000: Quem descobriu o Brasil, foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses

2001: Cana-caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, pernambuco... Quero vê descê o suco, na pancada do ganzá A Imperatriz é a primeira tricampeã da era sambódromo e do novo século, com o fabuloso desfile que Rosa Magalhães preparou para a escola. A qualidade das alegorias e a originalidade e malícia do enredo sobre a cana (que terminaria numa homenagem inesquecível ao compositor mangueirense Carlos Cachaça), associados ao samba de forte apelo popular que empolgou a escola, foram a receita para o sucesso. Rosa Magalhães é a única mulher

depois do carnaval A escola consegue novamente o bicampeonato do carnaval. O enredo contava a história da viagem que levou Pedro Álvares Cabral a descobrir o Brasil. Desde a comissão de frente, que formava a caravela de Cabral até os carros

Carnavalesca do grupo especial do carnaval carioca. Sua parceria com a Imperatriz Leopoldinense resultou em cinco campeonatos nos últimos 20 anos, o maior número de campeonatos conquistados por uma mesma carnavalesca, para uma mesma escola.

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6 Oliveira (in Terra, org., p. 104)

5. A arte carnavalesca O espetáculo carnavalesco pode

tempo recorde e transportadas para São Paulo com recursos próprios da carna-

ser definido de várias formas. Sua produção artística, por permitir uma abertura de linguagem, faz com que seja visto em diversos contextos, principal-

valesca.

mente como Arte Popular. Os trabalhos dos carnavalescos são interpretados levando em conta esses diferentes contextos. Nesse sentido, a obra de Rosa Magalhães foi classificada ora como exposição cenográfica, ora como "instalações", termo usado pela imprensa para designar suas alegorias. Em 1991, a carnavalesca foi convidada a apresentar o trabalho que fez para o Salgueiro, na Quadrienal de Teatro de Praga e na Bienal de Arte de S.Paulo. O fato de ter sido avaliado por diversas correntes artísticas demonstra que foram rompidas as fronteiras entre a arte erudita e a arte popular. Infelizmente, o Salgueiro não liberou as alegorias para a Bienal. Para garantir sua participação no evento, Rosa Magalhães refez todas as alegorias, e por não poder usar o barracão da Escola de Samba, teve o apoio da decana do Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maria da Penha Dubois Johanssen, que cedeu um espaço para servir de atelier. Com a ajuda de um grupo de alunos, as alegorias foram refeitas em

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"O universo artístico de Rosa atravessa as fronteiras das diversas formas de arte. De pintura/desenho à escultura; da academia (EBA) ao carnaval, do figurino/cenário aos comentários em programas televisivos, ela consegue transitar com fluência e personalidade, imprimindo sua marca em todos os trabalhos que faz." 6 6 . Prêmios e outros trabalhos Rosa Magalhães transita por diversas áreas além do carnaval. Por seu trabalho, já ganhou alguns prêmios de importância. Em 12 de junho de 2001, recebeu a 'Medalha Tiradentes', oferecida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, por iniciativa da deputada Aparecida Gama. Recebeu diversas indicações para prêmios, destacando-se: 'Prêmio Molière', 'Prêmio Ministério da Cultura', 'Prêmio Coca-Cola', 'Prêmio APETESP' e 'Prêmio APCA'. Com o Prêmio Ministério da Cultura, foi agraciada duas vezes. Recebeu cinco estandartes de ouro do Jornal o Globo. Participou de diversos eventos internacionais, dentre estes: a XXI Bienal

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de São Paulo, a Quadrienal de Teatro em Praga e Biennale de la Danse em Lioy na

Lobo, na Fundação Teatro Guairá, em Curitiba.

França. Recebeu a Comenda de Prata do Governo Austríaco pelo enredo sobre a Imperatriz Leopoldina.

Em 2007, em um de seus trabalhos mais impactantes, foi responsável pela criação e supervisão de montagem da Pira Pan americana, montagem de alegorias e

Em 1997, foi responsável pela criação e produção do livro - 'Fazendo Carnaval' - Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, cuja edição encontra-se esgotada.

adereços e figurinos para a festa de abertura e criação e supervisão de figurinos para a festa de encerramento do Pan do Rio, no Maracanã, pelo qual

Em 1998, criou os cenários e figurinos e fez a produção para a peça 'O Casaco Encantado', de Lúcia Benedetti - Teatro Laura Alvim - Rio de Janeiro. Em 2000, supervisionou a montagem e execução de figurinos e carros alegóricos para o desfile Histórico da Cidade de Salvador, na Comemoração do Descobrimento do Brasil. Ainda em 2000, trabalhou na criação e supervisão e produção dos cenários e figurinos para o ballet - Paradox - Fundação Teatro Castro Alves Salvador - Bahia. Em 2001, criou e supervisionou a montagem para a exposição Brasil 500

receberia, no ano seguinte, em Nova Iorque, o mais importante prêmio da televisão mundial, o Emmy. Concorreu em duas categorias: pelo figurino e design de estilo, ao lado de David Profeta, e pela direção de arte, cenografia e design cênico, com Luiz Stein, Libby Hyland e Scott Givens. A vitória veio pelos figurinos criados para a cerimônia de abertura. Nesse seu trabalho, Rosa ultrapassou os limites do samba e extravasou toda a sua criatividade. O evento conquistou, além do Emmy, dezenas de prêmios internacionais, como o SportBusiness ISEMS Awards e Seis Telly Awards.

anos - com exposição para a carta de Pero Vaz de Caminha, no Museu do Convento das Mercês, em S. Luis do Maranhão. Em 2003, fez a criação e supervisão de montagem de cenários e figurinos para o ballet 'O Grande Circo Místico', com músicas de Chico Buarque e Edu

"Rosa Magalhães é criativa, dinâmica e organizada. É sonho, é fantasia... é arte, é técnica. Seus trabalhos são reconhecidos por seu eficiente e constante aperfeiçoamento técnico. A fusão de elementos traduz a cultura abordada no ponto alto da pesquisa, a distribuição

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desses elementos ao longo da Sapucaí, possibilita o entendimento da mensagem com qualidade e com talento. E o que poderia ser simplesmente luxuoso, torna-se excepcionalmente criativo. Ela apresenta um verdadeiro e elaborado show cultural."7

7. Félix, op. cit. 8. Ferreira, 1999, p. 123

Em junho de 2008, estreou o musical "Eu sou o samba", no Teatro Carlos Gomes, no Rio. Rosa Magalhães assinou o cenário e os figurinos da peça, com o dançarino Carlinhos de Jesus. A peça celebra o samba como patrimônio histórico cultural brasileiro e comemora o centenário do nascimento do Mestre Cartola. Traça a trajetória histórica do samba, desde suas origens na África a sua inserção na cultura carioca. O espetáculo abrange desde os anos 20 até o início dos anos 70, do século XX, retratando grandes nomes no cenário do samba, dentre eles, Nelson Sargento, Ary Barroso, Carmem Miranda, Cartola e Jamelão. Rosa Magalhães criou verdadeiras obras de arte, usando desde chita até brilhosos brocados, para os figurinos dos 12 atores e 8 músicos. Seu trabalho reflete a pesquisa detalhada que fez sobre o cenário do samba carioca no período abrangido pela peça.

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7 . Rosa Magalhães e a Imperatriz Leopoldinense. Rosa Magalhães e a Imperatriz Leopoldinense, como já foi dito, têm uma parceria que vem dando certo há mais de uma década. Tem liberdade total para trabalhar, com acesso a recursos técnicos e humanos, fazendo um carnaval que muitas vezes foi definido como "técnico", "politicamente correto", "feito para os jurados". Sobre o trabalho de Rosa na Imperatriz, Ferreira diz o seguinte: "Nos carnavais realizados para o GRES Imperatriz Leopoldinense até a presente data, Rosa Magalhães iria encontrar um caminho capaz de expressar não só sua formação associada às características da escola, mas também todo um formato tecido pelas relações carnavalescas entre o erudito e o popular. Tais relações, manifestadas, na verdade, em todos os momentos da criação de seus enredos, tais como seu desenvolvimento dramático, seu conjunto visual e suas alegorias, iria, entretanto, encontrar sua expressão mais clara nos figurinos criados pela carnavalesca." 8 Fundada a seis de março de 1959, em 2009 a escola irá comemorar seu Jubileu de ouro, em comemoração aos 50 anos de fundação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopol-

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dinense. A comemoração será mais uma das consagradas obras da carnavalesca. O enredo de 2009 pretende, cantando a história do seu bairro, sua gente e sua musicalidade, mostrar que Rosa e a Imperatriz fazem samba também. "Uma sonhadora, conta vidas, conta histórias... canta arte em prosa e verso! É uma fada produtora do mundo de ilusões." 9

Referências: FERREIRA, Felipe. O Marquês e o Jegue. Estudo da Fantasia para Escolas de Samba. Altos da Glória. Rio de Janeiro, 1999 GUIMARÃES, Helenise Monteiro. Carnavalesco, O Profissional que "Faz Escola" no Carnaval Carioca. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ, EBA, 1992. MAGALHÃES, Rosa. Fazendo Carnaval = The Making of Carnival. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977. TERRA, Carlos Gonçalves (org.). Arquivos da Escola de Belas Artes. Edição 190 Anos. EBA Publicações. Rio de

Janeiro, 2006. FÉLIX, Leilane. Rosa Magalhães. Revista em Movimento, Escola de Design UVA. Edição 3, Ano 2, 2008. http://www.uva.br/revistaemmovimento/ artigos/rosa_magalhaes.htm http://www.caras.com.br/secoes/noticias/ noticias/9720/ http://www.cultura.gov.br/site/2008/03/20/ dia-mundial-do-teatro-para-a-infancia-ejuventude-3/ http://imperatriz.free.fr/galerias.php http://www.jornal.ufrj.br/jornais/jornal24/ jornalUFRJ2414.pdf http://www.tradicaodosamba.com.br/ bol etim%20do%20samba/desfil es _imortais/BS_desfilesimortais _jul_2a.html http://kn.franca.zip.net/arch2007-0701_2007-07-15.html http://picasaweb.google.com/ ariovaldoalves/ http://revistaagitorio.blogspot.com/2008/ 08/eu-sou-o-samba.html

R e v i s t a I N T E R F A C E S - N ú m e r o 11 / 2 0 0 8 - C e n t r o d e L e t r a s e A r t e s d a U n i v e r s i d a d e F e d e r a l d o R i o d e J a n e i r o

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9. Félix, op. cit.


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Rosa Magalhães no carnaval carioca e na Escola de Belas Artes: a obra e a arte de uma carnavalesca by Portal Academia do Samba - Issuu