Valter Rodrigues da Silva
No Caminho da Pedra PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Memória, samba e cultura carioca
Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Letras do Departamento de Letras da PUC-Rio.
Orientador: Prof. Júlio Cesar Valladão Diniz
Rio de Janeiro Abril de 2012
Valter Rodrigues da Silva
No Caminho da Pedra
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Memória, samba e cultura carioca
Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras ao Programa de Pós-graduação em Letras do Departamento de Letras da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada.
Prof. Júlio Cesar Valladão Diniz Orientador Departamento de Letras – PUC-Rio
Prof. Antônio Edmilson Martins Rodrigues Departamento de História – PUC-Rio
Prof. Frederico Augusto Liberalli de Goes UFRJ
Profa. Denise Berruezo Portinari Coordenadora Setorial do Centro de Teologia e Ciências Humanas – PUC-Rio
Rio de Janeiro, 13 de abril de 2012.
Todos os direitos reservados. É proibido a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, do autor e do orientador.
Valter Rodrigues da Silva Graduou-se em Letras na FFP/UERJ (Faculdade de Formação de Professores de São Gonçalo) em 2009. É professor concursado de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no Estado do Rio de Janeiro.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Ficha Catalográfica Silva, Valter Rodrigues da No caminho da pedra : memória, samba e cultura carioca / Valter Rodrigues da Silva ; orientador: Júlio Cesar Valladão Diniz. – 2012. 108 f. : il. (color.) ; 30 cm Dissertação (mestrado)–Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Letras, 2012. Inclui bibliografia 1. Letras – Teses. 2. Pedra do sal. 3. Memória. 4. Samba. 5. Cultura carioca. 6. Samba na fonte. I. Diniz, Júlio Cesar Valladão. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Letras. III. Título.
CDD: 800
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
À memória de Dona Biu, Seu Otávio e Andréia. Cada uma destas pessoas, do seu modo e em seu tempo, colaboraram com as pedras que alicerçaram minha existência e pavimentaram meu caminho.
Agradecimentos
As minhas filhas Rafaela e Gabriela, pela compreensão dos muitos momentos de pai ausente, mesmo estando fisicamente próximo. Ao apoio incondicional de Ilma Lúcia, sogra, dublê de mãe e, fundamentalmente, amiga. Aos meus irmãos Lula (Luiz Otávio), Edinho (Edson), Nica (Walmir), Nalva (Edinalva) e Ute (Carlos), todos mais velhos que eu, os quais “carregaram muita pedra” para que eu chegasse aqui. Mesmo sem terem alcançado sequer a graduação, já eram meus mestres muito antes de eu obter este título.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
A todos os amigos, em especial ao ABC dos Zés: Zé Anselmo, Zé Bento e Zé Conceição. Ao Luís e ao C. Teixeira, pelas conversas sobre Candomblé e Umbanda, e aos companheiros da 10ª Inspetoria da Guarda Municipal, pelo carinho e apoio. Ao Julio Cesar Guedes, o Julinho, por viabilizar o contato com o mestre Nei Lopes e ao próprio Nei, pela atenção. A todos com quem estive em encontros, conversando e aprendendo, durante a pesquisa. Ao companheiro Gustavo SB e a todos os amigos do Samba na Fonte. Ao inquieto e contagiante Júlio Cesar Diniz, orientador, amigo e referência. A Stella Caymmi, Antônio Edmilson e Fred Góes, por aceitarem participar desta banca. Ao companheiro de Pós-graduação Rodrigo Cascardo. Ao CNPq e à PUC-Rio, pelos auxílios concedidos, sem os quais este trabalho não poderia ter sido realizado. A todos os funcionários do Departamento de Letras, pela atenciosidade e ensinamentos. À chegada do amor, Lene, que muito me tem inspirado. A Oxum, a Xangô, a Nossa Senhora da Conceição e a Deus, sobre todas as coisas.
Resumo
Silva, Valter Rodrigues da; Diniz, Júlio Cesar Valladão. No caminho da Pedra, memória, samba e cultura carioca. Rio de Janeiro, 2012. 108p. Dissertação de Mestrado – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
No final do século XIX e início do século XX, os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo, num prolongamento que alcançava a Praça Onze e o Estácio, ficaram conhecidos como “Pequena África”. O Largo de São Francisco
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
da Prainha, na base do Morro da Conceição, Saúde, era um ponto de encontro para a população negra, ex-escravos oriundos do interior do Rio e também da Bahia, que ali reverenciavam suas divindades, cantando e dançando ao som de palmas e tambores, na manifestação da sua cultura, a qual jamais permitiram que se perdesse. Na subida do Morro da Conceição, um caminho com degraus escavados na pedra: a Pedra do Sal. Apesar do desconhecimento de muitos cariocas, hoje, reconhecida como monumento histórico, a Pedra recebe todos os dias, visitantes de vários lugares do Brasil e do exterior, por conta da história que a cerca, e para as rodas de samba que lá se realizam. Qual uma manutenção do que já era praticado há mais de cem anos ali, o samba tem naquele espaço um convite a quem busca, na palma da mão, bebê-lo na fonte. Basta, para isto, que antes se encontre “o caminho da Pedra”.
Palavras-chave Pedra do Sal; Memória; Samba; Cultura Carioca; Samba na Fonte.
Abstract
Silva, Valter Rodrigues da; Diniz, Júlio Cesar Valladão (Advisor). On the Pedra path: memory, samba and carioca culture. Rio de Janeiro, 2012. 108p. MSc. Dissertation – Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
At the end of the 19th century and the beginning of the 20th century, the districts of “Saúde”, “Gamboa” and “Santo Cristo”, from “Praça Onze” to
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
“Estácio” were well-known as “Little Africa”. “Largo de São Francisco da Prainha” in the bottom of Conceição Hill in Saúde, was a meeting point for the black people, ex-slaves from the countryside of Rio and from Bahia, where they worshipped their gods by singing and dancing to the sounds of claps and “tamborins”, manifesting their culture which they never allowed to disappear. The way up to Conceição Hill, a path which steps were sculpted on the stone called, “Pedra do Sal”. Although unknown by many “cariocas”, but today acknowledged as a historical monument, the place is visited every day by many people from other parts of Brazil and from abroad because of the history of the place and the circles of “samba” that take place there. Keeping things the way they have been done for over a hundred years, the “samba” is in that place, an invitation to those who seek to drink it from the very fountain of it. And for that, you have just to find “the Pedra path”.
Keywords Pedra do Sal; Memory; Samba; Carioca Culture; Samba na Fonte.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Sumário
1. Introdução
10
2. Os primeiros passos
13
2.1. A Pedra fundamental
13
2.2. Os morros
16
2.3. O Morro da Conceição
18
2.4. Subindo o morro
24
3. O magnetismo
27
3.1. O primeiro contato
27
3.2. A mística
34
3.3. Memória
39
3.4. Musicalidade e Identidade
44
3.5. Rio, cidade nação
50
4. O envolvimento
56
4.1. Encontros
56
4.2. Samba na Fonte
71
4.3. As rodas
84
5.Conclusão
91
6. Referências bibliográficas
93
7. Anexo
97
8. Filmes e documentários
108
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
A pedra do Sal é o fator de identidade de uma comunidade repleta de identificações diferentes que se completam e complementam, circundandoa de vida. É uma área de proteção ambiental, um patrimônio histórico e cultural, um reduto do samba e da feijoada, um ponto de referência, um escorregador para as crianças, uma escada para os passantes, uma pedra. Nada mais que uma pedra.1 Viktor Chagas (17/06/07) 1
In: http://www.contoaberto.org, acessado em 09/01/12.
1. Introdução
Na tentativa de iniciar este trabalho, confesso que refuguei por várias vezes diante da tela vazia ou até mesmo da folha em branco. Não que eu estivesse inseguro do tema escolhido, e sim, muito mais pelo caminho o qual deveria tomar, diante das tantas possibilidades que a mim se ofereciam a cada leitura, a cada conversa, a cada reflexão. E foi refletindo, durante uma caminhada, no intervalo do almoço de um dia de aula pesado, vertical, que pressionado pelo esgotamento físico e psicológico, sobretudo pelo esgotamento do tempo, cada vez mais escasso para produzir esta dissertação, veio-me ao espírito uma fragilidade de menino e a saudade de minha mãe. Há anos falecida, mas tão constante em minha memória, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
sua lembrança repercutiu como um gatilho, acionando relações com o tema até então imperceptíveis para mim. A partir daquele momento, tudo quanto se apresentava obscuro ou ilógico, ganha nitidez e passa a constituir sentido. Talvez alguém possa estar se perguntando no que a simples lembrança de minha mãe contribuiu neste trabalho. Pois posso garantir que muito embora se tratasse de uma paraibana iletrada e de modos rústicos, mais do que relevante, a singela imagem de D. Biu em meu pensamento fora fundamental, sob todos os aspectos, elucidando e ensinando o que talvez eu não tenha absorvido na academia. Apesar de desprovida da educação formal, tais classificações a ela atribuídas, no entanto, ocultavam extrema sensibilidade e romantismo, principais heranças a mim transmitidas e pelas quais sou feliz de ter sido agraciado. Desde criança habituei-me a ouvir de minha mãe clamores de cunho religioso a Nossa Senhora da Conceição. Bastava um dia de chuva forte, com raios e trovões para que ela evocasse esta divindade, pedindo-lhe misericórdia e que nada de mal acontecesse. Assim também era quando meu pai (que era evangélico) e meus irmãos mais velhos saíam para o trabalho, nas manhãs ainda escuras. Recordo-me nitidamente de suas palavras, porque mais tarde a mim também ela diria em prece “que Deus o proteja e que Nossa Senhora da Conceição o acompanhe!”. Sua devoção não passava pelo beatismo das igrejas. Muito mais estava atrelada a sua origem nordestina, gente caracteristicamente marcada,
dentre
outras
coisas,
pela
fé.
11
Num outro viés da mesma lembrança pela qual fui afetado, um fato curioso que cercava a personalidade de minha mãe: o estranho prazer em colecionar pedras. Em qualquer lugar aonde fosse passear, de lá trazia uma pedra. E quando algum parente ou amigo viajava, se lhe perguntasse o que queria que trouxesse da viagem, ouvia dela, incrédulo, a estranha resposta: uma pedra. Não sei ao certo de onde minha mãe tirou aquela mania. Talvez de um desses filmes vespertinos, aos quais ela se deleitava a assistir diariamente, sobretudo após a morte de meu pai. O fato é que a nossa casa tinha pedras de toda forma e tamanho espalhadas por todos os cantos, sobre os móveis, prendendo as contas por pagar, sobre a televisão, bem como na velha penteadeira, misturadas aos vidros de Alfazema e produtos da Avon. Pedras de rios, de praias, de lugares tantos e de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
espécies diversas, as quais eu nunca saberia qualificar. Ainda como um complemento a tudo isso, minha mãe teve boa parte da sua história, após a chegada ao Rio, vivenciada nos morros da Formiga, do Borel e da Mangueira. Deles ela nos contava com um misto de tristeza e saudade as experiências dos primeiros anos de casamento com meu pai, Seu Otávio, com quem vivera até que ele desencarnasse em 1984, dez anos antes dela. Por fim, a nossa residência no bairro do Irajá, que embora não ficasse em nenhum morro, está ainda hoje edificada a cerca de três metros de uma grande pedreira, e que por não haver calçada, apenas a estreita rua é o divisor entre ela e o muro. No alto dessa pedreira residia uma numerosa família de negros, dividida em humildes residências, sendo uma dessas unidades um espaço religioso onde ocorriam batuques de candomblé. No carnaval, aquela família era a base dos componentes do extinto Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Dragão de Irajá, ratificando sua forte ligação com o samba. Ritmistas, passistas, baianas, compositores, destaque, por todos os segmentos da agremiação eles podiam ser encontrados. A pedreira era uma espécie de ponto de encontro, uma praça natural que dispensava brinquedos, grama e jardim. Era tida como um grande quintal para toda a vizinhança, principalmente para as crianças da região, no lúdico exercício de soltar pipas e balões ou de simplesmente tê-la como um mirante, para uma observação panorâmica do bairro.
12
Era, ainda, local utilizado por espíritas para rituais e despachos, e os moradores mais antigos contavam histórias de mistério sobre ela. Cresci ouvindo narrativas de que Seu Dadinho, o mais idoso membro da “família da pedreira”, em noites de lua cheia transformava-se em lobisomem. Ou ainda de que a pedreira estava crescendo, e de que a “mãe do ouro” fora testemunhada algumas vezes, de madrugada, em sobrevôo, desfazendo-se em facho de luz, até desaparecer de vez no contato com a superfície da rocha. O fato é que a pedreira produzia um imaginário coletivo e era inegável a influência dela sobre os moradores do seu entorno. Mesmo sem entender direito como isso se processava, podia-se sentir a inefável força da pedreira. Prestadas todas estas informações, que mais parecem um surto de lembranças vagas, julgo-as pertinentes para a compreensão do que se segue.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Creio, dessa forma, poder iniciar minha escrita, mais embasado e mais inspirado, de modo a apresentar, desenvolver e explicar o que for necessário. E porque esta produção está intimamente influenciada por aquela lembrança de minha mãe, ainda que não devoto como ela o fosse, rogo em sua homenagem, que Deus me proteja e que Nossa Senhora da Conceição me acompanhe. Até o fim.
13
2. Os primeiros passos 2.1. A pedra fundamental
Em diversas fontes de estudo sobre a história do samba, uma das mais recorrentes informações é a de que “o samba nasceu na Praça Onze, na casa da tia Ciata, a partir de encontros lá realizados. Entre os freqüentadores desses encontros, músicos negros, oriundos dos morros ou dos cortiços, jornalistas e músicos renomados e até outros profissionais da classe média da época. Esse é o ponto inicial para, senão todas, grande parte das discussões e teses acerca do tema. Mas foi numa visita ao Centro Cultural Cartola, na Mangueira, que um texto de caráter informativo e ilustrado por imagens, no mural da entrada da exposição, me
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
atraiu a curiosidade com a seguinte inscrição:
O berço do nosso samba está na Pedra do Sal, no Largo do Estácio, na Praça Onze. Ele foi gerado nos quintais e nos terreiros da população negra de baixa renda, na virada do século XIX para o XX, nos anos após a Abolição. O parto foi cercado de rezas e festas. Os pais e as mães são muitos, alguns já viviam aqui, outros chegaram do interior fluminense, de Minas Gerais, da Bahia de Todos os Deuses, e traziam consigo tradições, cultos, histórias, folias – a grande família da cultura afrobrasileira.
Ao término da visita fiquei com a sensação de não ter aproveitado bem a exposição, pois saí de lá com a não informação sobre essa tal Pedra do Sal, uma vez que só a Praça Onze e o Estácio via mencionados como celeiros do samba. À Praça Onze é que vários sambistas prestam reverência em suas obras. Onde textos discorrem – inclusive traduzidos para outros idiomas – sobre os elementos que compõem o gênero, instrumentos, suas origens, sua importância, ilustrando a parede ao longo da plataforma de embarque e desembarque da estação do metrô. É a Praça Onze que vários artistas cantam em versos, principalmente em sambas de enredo, nos desfiles carnavalescos. Sem sombra de dúvida, é a velha praça o ponto de partida para grande parte do acervo produzido sobre temas relacionados com o samba e o carnaval. Naturalmente, pela expressiva figura de Tia Ciata e a categoria de seus convidados ficou mais que caracterizado aquele local como a manjedoura do samba. Ainda que fosse território reconhecido como Pequena África, a influência
14 de figuras ilustres concediam ‘um certo aval’ para as rodas de samba lá realizadas. E talvez não seja incorreto dizer que foi essa condição de respeito adquirida pela dona da casa que fez com que a história ali fosse sendo registrada, até chegar aos dias atuais. O testemunho dos músicos, nas obras, e de jornalistas, nas publicações de suas matérias, foram determinantes para a manutenção dessa memória. O Estácio também possui algum registro. Graças à figura de Ismael muito da história do samba se vê obrigada a adentrar na antiga zona de meretrício para atestar informações que só lá poderiam ser fornecidas. No morro o samba nascia do talento de compositores que pouco se tem saber, mesmo dentre a comunidade. Mas Ismael, talento incomum, de lá fazia uma leitura do seu tempo, olhando literalmente de cima e visualizando um novo perfil do que nos chegou aos dias atuais como o reconhecido samba.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
No entanto, o motivo que gera a incursão nesta pesquisa é o desvendamento de outro lugar. Esse ponto na cidade denominado Pedra do Sal, até então desconhecido por mim. Concomitante a este descobrimento, faz-se imprescindível apresentar o que a meu ver ele possui de mais simbólico. Uma vez reconhecida como berço do samba não se poderia deixar de exibir seu mais genuíno produto. E como subprodutos dessa natureza, tomando-os como objetos de análise, salientaremos dois, cujas trajetórias apontam semelhanças e distanciamentos entre si, além da comum identificação com o lugar. Trata-se da Roda de Samba da Pedra do Sal e do Movimento de Compositores Samba na Fonte. O que se pretende com este estudo é contribuir para que se descortine ao restante da cidade uma pequena área situada no centro do Rio, cuja história principia a existência da própria cidade. Foi por ali que chegaram europeus e africanos, povos distintos de várias partes do mundo, trazendo tradições e culturas que se fundiram em solo carioca, promovendo o nascimento de outra história, com novos costumes e novas culturas. Tendo a Pedra do Sal como elemento nuclear de um dos bairros que compreende a zona portuária e também eixo central desta pesquisa, esta dissertação buscará em linha direta com os atores contemporâneos, pessoas simples, que no cotidiano são figuras identificadas e conhecidas no universo da Saúde, reconhecer esse ponto como “o berço do samba”, tal como se faz inscrito
15
no mural do Centro Cultural Cartola. Certificar-nos de sua real condição de celeiro de bambas, espaço místico, onde o samba é nativo, elemento bruto, brotando da pedra como água na fonte. E se o discurso de quem convive naquele universo reproduz uma realidade ou é apenas mais um artifício elaborado pelo imaginário, para afirmação de ideais ou simplesmente para proveito de fins econômicos ou políticos. Nesse sentido, fora indispensável realizar alguns percursos no entorno e buscar convivência constante com a comunidade, de modo a entender as relações sociais ali estabelecidas. Em princípio, quando apenas participava dos eventos noturnos, apenas era possível identificar quem estava inserido diretamente no culto à Pedra como símbolo cultural, mais precisamente, “o berço do samba”. Aos poucos outros atores foram aparecendo, complexificando o quadro preexistente,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
cada qual com sua posição e seus modos de apreciação e apropriação do lugar. Inicialmente minha meta foi identificar o que havia além dos degraus escavados na Pedra. Aonde me levaria aquela rua de pedras irregulares, ou ainda as outras escadarias, que se ofereciam ao Largo João da Bahiana de forma desencorajadora para mim, como acesso a um labirinto indefinido e misterioso. Paralelamente, busquei trabalhos escritos, priorizando os que eventualmente tivessem um enfoque específico sobre a Pedra. Tomei conhecimento de algumas obras e a partir daí adotei a pesquisa de campo, fazendo passeios, entrevistas, indo a eventos, participando como ouvinte de reuniões, criando amizades e estabelecendo contatos que se mostraram extremamente proveitosos, sob os mais diversos aspectos. Apesar da minha dificuldade com o tempo, adversidade que me consumiu, inclusive, desde o princípio do curso, esta foi a etapa mais interessante do trabalho. Curiosidade aguçada, misto de labor e lazer, entre horas de tensão e outras de descontração, de suor no rosto e de “loiras suadas”, sob a batuta do mestre Paulinho da Viola, aceitando todo tipo de argumento e respeitando, acima de tudo, a memória, aceitamos o desafio. E pautado na sabedoria de um “velho marinheiro”2, mesmo “durante o nevoeiro”3, fomos levando o barco devagar.
2 3
Argumento, Paulinho da Viola, 1975. Idem.
16
2.2. Os morros
A pedra é dura iá iá A pedra é dura iô iô A pedreira é do Homem Ele é da Lei, meu sinhô...4
Na fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, por uma questão de logística, as primeiras ocupações ocorreram nos morros, de onde se podia vigiar a entrada pelo mar de possíveis invasores. Assim, após o confronto e a vitória sobre os franceses comandados por Villegagnon, Estácio de Sá promoveu o deslocamento do grupo de portugueses do Morro Cara de Cão para o Morro do Descanso, denominação inicial para o reconhecido e já extinto Morro do Castelo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Em seguida, os morros de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição, compondo o conjunto de quatro pontos estratégicos para as bases militares portuguesas, foram sendo também habitados. Destes, resistiu como incólume documento histórico, o Morro da Conceição. Outro aspecto considerável para essas ocupações dos morros residia nas condições do terreno pantanoso que constituía a área plana. Motivo mais que compreensível para os primeiros exploradores buscarem instalações nas elevações. Era óbvio, portanto, que “a expansão geográfica requeria o aterro de pântanos e lagoas” (ZILBERBERG, 1996 p.15). E isso ocorreu, posterior e gradativamente, na medida em que a população aumentava e o interesse em se manter próximo ao litoral se fazia determinante para o desenvolvimento da cidade. Portanto, como se pode perceber, a história da cidade do Rio está direta e intimamente vinculada aos seus morros, desde o surgimento como cidade até os dias atuais. Talvez seja impensável qualquer menção ao Rio de Janeiro que não passe por uma referência aos morros, visto que, até mesmo dois dos principais cartões postais do país são, exatamente, o Corcovado e o Pão de Açúcar. Por isso, e por outros motivos, este trabalho não teria como escapar ileso desse contato.
4
Ele é da Lei meu sinhô. Pakato do Cavaco, Gegê de Itaboraí e Luiz Fernando.
17
Tendo o Morro da Conceição como marco inicial desta escrita, é na sua base, aos pés da Conceição, que iremos humildemente nos curvar, em sinal de respeito, pedindo permissão aos ancestrais para, ao remexer na memória, trazer à luz algo que possa ser dito sobre o grande silêncio instaurado naquelas bandas da zona portuária. Iniciar um parágrafo que retome o capítulo em que a história da Pedra do Sal parece ter emperrado, e captar um pouco do que ela tem para ser contado. Assim, contrariando inclusive um famoso ditado popular, busca-se aqui mostrar que com boa vontade e respeito é possível até tirar muito mais que “leite de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
pedra”, mesmo porque, Nela há de haver coisas bem mais interessantes.
18
2.3. O Morro da Conceição
Subir o Morro da Conceição revela-se em cada passo uma prazerosa viagem no tempo e um descobrimento improvável da própria cidade. Qualquer um que experimente esta aventura chegará ao topo, no Largo da Santa, diante da ermida construída em 1634, da imponente Fortaleza da Conceição e do Palácio Episcopal – estas duas últimas edificações do século XVIII – literalmente resfolegante. Pois é realmente de tirar o fôlego a grandiosidade dos monumentos erigidos há mais de dois séculos, que ostentam um aspecto cenográfico, ocultados no alto do morro pelos edifícios erguidos a sua volta. Desconhecidos pela maioria da população e mantidos atualmente pelo exército, supostamente talvez esteja
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
nessa discrição o grande segredo da sua preservação. Ainda que isso constitua um paradoxo e que desassistência possa ter sido, por muito tempo, interpretado como discrição. Na verdade, esta suposição/afirmação soa conforme o discurso de quem vive no Morro. Qual uma ilha deserta, o Morro da Conceição comporta uma povoação que observa a presença de intrusos com desconfiança. Ao avançar pelas estreitas ruas de pedras, o visitante é vigiado indisfarçadamente por olhares receosos e inquisidores. Portanto, qualquer movimento exterior que lhes sugiram uma possibilidade de mudança do quadro instaurado, soa como ameaça e causa receio. E não é difícil compreender tal comportamento. De uma maneira geral todo mundo se conhece no Morro e reconhece imediatamente quem não é morador. São famílias antigas, de gerações que se sucederam, e que ainda residem, embora em quantitativo decrescente, por conta do êxodo dos mais novos. Outras que se constituíram a partir das atividades portuárias, quando da construção do porto, no início do século passado, e novos moradores, com predominância para nordestinos. Estes, atraídos pela proximidade com o trabalho, geralmente hotéis ou estabelecimentos e prédios comerciais, cujos endereços estão no entorno ou não muito distantes do centro do Rio. Em pesquisa realizada pela prefeitura do Rio, na gestão do prefeito Luiz Paulo Conde, assim como num documentário produzido sobre o Morro, nota-se a
19
heterogeneidade dessa população e como, inclusive, isso passa a ser motivador de discriminação dos mais antigos com relação aos mais recentes. Os moradores antigos, geralmente ocupando as residências no cume do Morro, são os próprios proprietários e não têm grande afinidade com os moradores mais recentes, estes estabelecidos sobretudo na vertente norte do Morro e são, em grande parte, locatários. Grande parte da tensão social existente no Morro, portanto, gira em torno dessas duas categorias, de suas aspirações, de suas identidades de seus valores, que acabam por gerar uma certa relação de hostilidade entre ambas as partes. (SIGAUD & PINHO, 2000, p.58).
Esse comportamento pode ser detectado nas entrevistas do documentário intitulado Morro da Conceição (2005), como no caso de Dona Iria, uma das senhoras dentre os outros idosos que compõe o filme, em declarações e histórias sobre o lugar: “Aqui é uma família... ainda tem muita gente... mas é pena que já PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
não tem como era, antigo...agora tá vindo muita gente do norte pra aqui, sabe, mas antigamente era só portugueses...”. Dona Alzira é outra entrevistada, que com o mesmo ar de frustração lamenta a nova vizinhança, como se essa renovação dos moradores implicasse na degradação final do lugar. “Aqui morava muito marinheiro, muito pessoal da marinha, agora é só nortista, agora o norte vem todo aqui pro Rio de Janeiro”. A citada pesquisa realizada pela prefeitura classificou a população do Morro em categorias que se estabelecem conforme a ocupação geográfica. Na sua parte mais alta estão os moradores mais antigos e de maior poder econômico. Na parte baixa, a classe de operários que se expandiu com o início do século passado. Porém, no que tange a ameaças externas, as quais possam provocar alterações na ordem interna, essas diferenças se dissipam em prol da defesa do bem estar comum. A cada dia, no entanto são raros os moradores novos, sobretudo porque não é comum haver oferta de moradia disponível. De qualquer modo, quem chega, pelo menos inicialmente, nem sempre é bem-vindo. A preocupação com a violência, a quebra de tranqüilidade, que é a marca do lugar, são ameaças que seus moradores vêem de perto nas comunidades vizinhas, nos outros morros. Atualmente, foi instalada uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), programa de segurança do governo estadual, no Morro da Providência, onde havia forte prevalência do tráfico de drogas. Apesar da proximidade, o Morro da
20
Conceição permanece como um oásis de calmaria, porém, com a permanente expectativa de uma possível ruptura desse estado. No citado documentário, alguns dos mais antigos moradores do Morro contam histórias da comunidade, abrem seus álbuns de família e relatam fatos marcantes das suas vidas, lá vivenciados. E é repleta de paixão e saudosismo a tônica desses depoimentos, em que são narradas as festas, as brincadeiras de infância, o primeiro namoro e também as frustrações. O livro, Morro da Conceição: da memória o futuro (2000), traça um panorama completo da região, sob o aspecto geográfico e urbanístico. Sua preocupação é clara com a preservação arquitetônica dos bens, que melhor definido em seu próprio texto “configura-se por um conjunto de procedimentos simultâneos de gestão do espaço construído e da paisagem”. Aliás, esse trabalho é
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
parte de um projeto da Prefeitura do Rio em parceria com órgãos do Governo francês, cuja participação de profissionais daquele país está na sua experiência em reabilitação de patrimônios históricos.
Foi criado assim, em 26 de outubro de 1998, através do Decreto nº 17.109, o Programa de Recuperação Orientada (proRio), que tem como um de seus princípios básicos intensificar a articulação entre os diversos programas da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, promovendo um conjunto de ações complementares à organização urbana, que visam reabilitar e valorizar o patrimônio urbanístico, paisagístico e arquitetônico. Sua abordagem é interdisciplinar, uma vez que trata o espaço em todas as suas dimensões: física, social, econômica, simbólica e de natureza legal. (SIGAUD & PINHO, 2000, p. 13).
Embora o cuidado com o aspecto urbanístico e arquitetônico seja o enfoque principal, o livro até mostra algum esforço em abordar outras esferas, mas não com a mesma tônica. No que tange ao social, o assunto não toma muita profundidade, assim como no aspecto cultural nada que constitua expressividade, realmente, chega a ser mencionado pelos pesquisadores. Além de algumas atividades culturais, recentemente articuladas em eventos programados, ou sobre o Coral da Escola Padre Francisco da Motta, não se faz qualquer referência à criação de formas de cultura, sobretudo musical. Sob meu ponto de vista, a partir das leituras e da experiência no contato direto com os objetos em questão, o que difere o Morro da Conceição dos demais morros da região portuária pode ser explicado por diversos motivos, mas o que
21
parece mais contundente é a forma como esses locais foram ocupados. A população do primeiro conta em seu quantitativo com grande número de pessoas de origem lusitana. A própria arquitetura predominante nos casarios sugere a semelhança com vilarejos de cidades portuguesas. São azulejos decorativos nas fachadas, característicos dessas edificações, contendo imagens de santos católicos, numa afirmação do sentimento cristão, fortemente presente na formação cultural do povo português. Após a criação do porto as construções foram se modificando, mas ainda assim, já havia antes, por exemplo, um sistema de esgoto minimamente funcional. Muitos marinheiros de além-mar, ao chegarem de viagem, logo fixavam residência no local, por conta da proximidade com o porto e acabavam constituindo família. Mesmo os que por algum motivo retomassem as viagens, já
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
haviam deixado fincadas firmemente suas raízes lusitanas por lá, sementes que se propagariam pelas futuras gerações. Um aspecto a ser considerado também está no fato de o Morro da Conceição ter espaço físico relativamente menor que os demais da região. A concentração da massa pobre, negra, remanescente da escravidão e principal força de trabalho da estiva acabou sendo desviada para outros morros maiores. Como o próprio Morro da Favela, atual Providência, que irá abrigar, principalmente, os ex-combatentes da guerra de Canudos. A falta de um planejamento urbanístico na ocupação desses morros maiores, fato comum na construção da cidade como um todo, pode refletir desordenamento em proporções maiores, obviamente. As frágeis condições de vida das populações mais carentes foram fatores que certamente contribuíram para o inevitável processo de favelização, ao longo do século vinte. O Morro da Conceição foi povoado nos primeiros séculos após a fundação da cidade e suas edificações obedeceram a um ordenamento mínimo, que de alguma forma pode ser mantido com o decorrer do tempo. Ainda assim, estudos mostram modificações estruturais em residências antigas, com ampliação da área construída, a fim de atender a chegada de novos moradores, o que compromete não só o acervo patrimonial-histórico como também a segurança dessas habitações.
22 Em sua tese de doutorado, intitulada A utopia da Pequena África – Os espaços do patrimônio na Zona Portuária carioca, Roberta Guimarães (2011) traça um perfil antropológico e sociológico da região e de início já aponta para a diversidade da população local. Partindo do processo de revitalização proposto pela prefeitura do Rio, o chamado Porto Maravilha, Guimarães inicia sua trajetória a partir do Morro da Conceição, um dos principais alvos da prefeitura, sob os pontos de vista urbanístico, patrimonial e histórico. Subdividindo a sua pesquisa sobre o Morro em quatro capítulos, no primeiro deles intitulado Um percurso por espaços, patrimônios e imaginários, ela narra sua experiência nos contatos estabelecidos com moradores. Uma de suas primeiras observações trata da heterogeneidade daquela população e de como ela se mostra dividida, segundo ela, em moradores da “parte alta”, da parte baixa e
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
grupos envolvidos com questões religiosas. Segundo a autora a parte alta é também denominada como dos moradores “tradicionais”, ou seja, oriundos de portugueses e espanhóis, os quais seriam detentores de melhores condições financeiras se comparados aos da parte baixa. Da mesma forma que o documentário de Cristiana Grumbach e o livro de Márcia Sigaud e Claudia Maria de Pinho, Guimarães chama também a atenção para a animosidade gerada entre esses grupos economicamente distintos, porém com uma leitura pessoal dessa discriminação. Guimarães vai sugerir que a discriminação sofrida pelos moradores mais novos, que em alguns depoimentos dos moradores “tradicionais” parece estar vinculada à origem nordestina daqueles, na verdade está muito mais vinculada ao aspecto econômico, refletido na moradia e na sua condição sociocultural. “Sendo que “nordestinos” era mais uma categoria moral de acusação associada à oposição “morador” e “favelado” e ”masculino” e “feminino”, que uma referência ao fato dos moradores serem oriundos ou não da região do Nordeste do país. ”(2011, p. 59). No entanto qualquer discriminação carrega em si um dispositivo pronto a deflagrar um conflito. E uma vez acionado, motivado por qualquer circunstância que seja, jogará por terra todo tipo de relação em que o bem-estar esteja mascarado por uma classificação de preconceito, que sob determinado ponto de vista possa parecer amena. Assim, me parece frágil esse estado e injustificável ou
23 inclassificável a discriminação externada pela “parte alta”, pois, “nordestinos” será sempre um julgamento de conotação depreciativa da outra categoria de moradores. Após todas as observações apuradas pelos pesquisadores mencionados, quando, entre outras coisas, parece ter-se estabelecido um comparativo com outros morros, uma constatação pelo menos não pode ser desprezada: não havia samba nesse morro, como em nenhum momento houve. Talvez esteja neste fato a principal diferença entre o Morro da Conceição e os demais. Não há nenhum relato ou informação que eu tivesse checado onde se pudesse detectar qualquer indício dessa ocorrência. Se em outros morros o samba nasceu no alto e desceu para fazer história, no Morro da Conceição muita história se produziu e se
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
perpetuou lá em cima, mas a história do samba nasceu em baixo e nem subiu.
24
2.4. Subindo o Morro
Na primeira vez que me aventurei a subir o Morro da Conceição, convidei um amigo, Zé Conceição, para o passeio. Foi na manhã de 25 de julho de 2011, embarcamos na Estação do Engenho de Dentro, seguindo de trem até a Central do Brasil. Optamos pelo parador para uma contemplação mais demorada do percurso. Chegando à Central do Brasil partimos em caminhada pela Barão de São Félix, mediante o grande fluxo de carros e gente, envolvidos em compras nos armazéns que lá existem. Alcançando a Rua Camerino seguimos à esquerda e pudemos perceber que o caminho pelas escadarias que davam acesso ao Jardim do Valongo estava interditado. Como parte da nova reforma urbanística promovida pelo atual prefeito Eduardo Paes, o jardim como todo o Morro da Conceição também estava
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
passando por obras. As ruas Camerino, Sacadura Cabral e todas as outras que cortam a região portuária foram transformadas em intensos canteiros de obras, com vários operários transitando, máquinas escavadeiras, imensas crateras expostas, outras protegidas por tapumes, e muita poeira. No cruzamento da Camerino com a Sacadura Cabral, enveredamos à direita, por esta, percorrendo-a por cerca de cem metros até a Argemiro Bulcão. Mais uma vez seguimos à direita e poucos metros depois desembocávamos no Largo João da Bahiana. Aquele foi o local escolhido por mim para iniciar a subida, que não poderia deixar de passar pelos degraus da Pedra do Sal. Dali em diante tomamos a Rua do Jogo da Bola, muito mais um caminho tortuoso com seu calçamento de pedras irregulares. Mais à frente ela evoluirá para uma pavimentação de paralelepípedos, nos moldes mais modernos. Durante este percurso passamos por vários acessos de escadas estreitas que levavam para a parte de baixo, ao próprio Largo João da Bahiana ou ao Largo de São Francisco da Prainha. A rua longa e estreita ostenta ainda um mirante que os moradores chamam de pracinha. Dois bares, sendo um conservando o aspecto característico de armazém antigo e o outro, uma pequena abertura em forma de garagem, a “famosa” barraquinha, muito comum às periferias como modo informal de obtenção de renda. No fim da rua, surge um grande paredão, cuja base se expõe
25
em grandes blocos de pedra, que nos deixou curiosos em saber do que se tratava, tamanha a sua imponência. Ao atingirmos a parte frontal estávamos diante da Fortaleza da Conceição. A grande estrutura de muralhas altas com guaritas nas extremidades. Junto dela o Palácio Episcopal e à frente a ermida de Nossa Senhora da Conceição. Detivemosnos um pouco na contemplação do cenário inusitado e percebemos soldados do exército resguardando a entrada principal. Buscamos informação no corpo da guarda e, mediante autorização do oficial do dia, nos foi permitida a entrada e a breve visitação, acompanhados por um soldado. Dali retomamos o passeio pelas ruas e enveredamos por uma ladeira a baixo, quando diante de sua extensão e imaginando não ter saída, na metade dela tornamos a subir. Nesse ínterim, e sendo observados das janelas por algumas
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
senhoras, percebemos uma porta aberta, cujo cômodo de entrada se assemelhava a um ateliê de pintura, dada a quantidade de telas espalhadas pelas paredes. Uma daquelas senhoras nos estimulou a chamar o proprietário, informando que ele estava em casa e que nos receberia, “com certeza”. Do interior do imóvel estreito, de estrutura antiga surgiu um senhor de aspecto frágil, mas que se mostrou bastante receptivo, nos convidando a entrar e ficar à vontade para o que quiséssemos. Tratava-se do artista plástico Paulo Dallier que após apresentar-nos seus trabalhos, dos quais ficamos realmente admirados, falou de si, do Morro, da pintura e da sua relação com o Morro, dividida em duas fases: primeiro quando criança e atualmente, quando instalou ali o seu ateliê. No endereço da Ladeira João Homem ele mora e expõe suas telas, além de se oferecer em prestar informações a qualquer visitante. A figura alva e magra de cabelos desalinhados, embranquecidos, se confunde com as próprias obras, sobretudo ao relatar sua história de vida, permitindo-se longos devaneios e conduzindo seu ouvinte às mesmas viagens. Em alguns momentos ele se reprimia indagando “estou falando demais?”, ao que nós negávamos, para então ele retomar suas memórias. A tardia vocação para a pintura, os períodos de depressão e tentativas de suicídio, até uma provável descendência de um corsário francês, que teria participado de invasões ao Morro, em tempos distantes, foi cogitada por ele.
26
No entanto, Dallier não é muito bem visto por outras pessoas do lugar, correntes mais conservadoras que temem pela transformação do Morro numa “nova” Santa Tereza. Ele, em contrapartida, critica a mentalidade “atrasada” dos que o contestam, pois, segundo ele, uma transformação do local em pólo cultural atrairia a visitação turística e com isso traria novas possibilidades de desenvolvimento, como bares, restaurantes e espaços culturais. Para ele, isso estimularia a produção artística, causaria o aquecimento do setor econômico e essa combinação se refletiria no âmbito social, sendo altamente positivo para a comunidade. Assim sendo ele aposta no projeto que iniciou em parceria com Marcelo Frazão e Renato Santana denominado Projeto Mauá, em que promove aulas e oficinas de pintura, e que parece ter sido o principal motivo do seu retorno ao Morro.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Nascido no Jardim Botânico em 1932 veio com três meses de vida para a casa do avô, no Morro, onde viveu até os sete anos. Segundo ele, ao longo do tempo mantinha visitas aos primos e tios que sempre residiram no local, mas retornar em definitivo, somente há dez anos com a criação do projeto e a instalação do ateliê na própria residência. Lá ele mantém suas telas e acaba atraindo olhares de visitantes, logrando assim, êxito em despertar e receber atenção, o que nos pareceu uma necessidade pessoal bastante evidente. Das telas dependuradas na parede da sala, naquele dia, as pinturas de um São Jorge e de uma Nossa Senhora, pela pujança das cores e dos traços e pela clara relação com os relatos da história de vida dele, foram as obras que mais nos impactaram. A julgar pelas suas palavras e pelo seu blog, Dallier tem se destacado profissionalmente, obtendo reconhecimento, colhendo muitos elogios de artistas e de críticos, e sendo convidado para expor em vários lugares. Depois desse dia, que se revelou muito mais um passeio do que propriamente uma pesquisa de campo, retornei ao Morro outras vezes, imbuído do espírito pesquisador, mas confesso que, ainda assim, a configuração de passeio persistiu e não havia como ser diferente. Foi dessa forma que me amparei no bar do Beto, um pequeno estabelecimento na Rua do Jogo da Bola. Fim de tarde, corpo cansado, sedento por informações, pedi uma cerveja. Depois de alguns instantes conversávamos informalidades, eu e o proprietário, até que adentrasse ao recinto um homem branco, troçando com o Beto e pedindo também uma cerveja.
27
Porém da sua postura irreverente destoava um sotaque levemente estrangeiro. Rapidamente eliminamos qualquer diferença que se pudesse interpor a nós ao partilharmos a bebida, moderadamente, o suficiente para que eu descesse bem mais leve do que quando subira. Naquele momento eu acabava de conhecer Tomas Martin, sueco de nacionalidade, mas um apaixonado pelo Brasil, pelo Rio de Janeiro e pelo estilo de vida que aqui conheceu. Tanto que aqui se estabeleceu estando hoje casado com uma brasileira e tendo já um filho dessa união. Ambos são antropólogos e ele, entre outras ocupações, atualmente leciona em uma universidade particular. O casal reside praticamente ao lado desse bar onde nos conhecemos e constitui a categoria de moradores recentes do Morro. Durante a conversa que tivemos, após eu falar sobre o porquê da minha
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
presença ali, ele mostrou-se bastante solícito e demorou a revelar sua profissão. Contudo, mesmo depois de algumas perguntas sobre a vida da comunidade ele se comportava apenas como morador, sem jamais permitir que o antropólogo se pronunciasse. Seu comportamento, aliás, não foi diferente do que pude depreender dos demais moradores do local. O mesmo olhar inquisitivo dirigido a mim por onde passei, vindo das janelas, dos sobrados, estava agora, a alguns centímetros de distância no rosto do Martin. “Sei, a sua pesquisa é a Pedra do Sal, mas o que você quer do Morro da Conceição?”. A impressão que se tem é que os moradores vivem apreensivos diante da possibilidade de intervenções externas e qualquer elemento estranho ao ambiente parece constituir uma ameaça. Mesmo o Martin, morador novo já demonstra essa preocupação. E não é difícil compreender diante de sua justificativa: “Aqui meu filho brinca na rua, vai até a pracinha, sozinho, ou com os amiguinhos para brincar, e eu fico tranqüilo. Porque aqui todo mundo se conhece e todo mundo “olha”. A tranquilidade a que ele se refere é algo, realmente determinante no Morro da Conceição. O grande conflito que vive a população, portanto, consiste na pretensa adoção de uma política voltada para o turismo, a qual traria para o seu interior progresso, mas, consequentemente, agitação. Em oposição a isso, reluta o desejo de se manter vivendo, ainda que com algumas precariedades, a paz impagável que reina por lá.
28
As opiniões se dividem de acordo com os pontos de vista, ora arrojados e empreendedores como o de Dallier, ora mais criteriosos como o de Martin. Não que este último descarte o desenvolvimento da região, mas receia pelos arranjos aonde vão se originar esse crescimento e o que ele poderá custar aos moradores. Enquanto isso prosseguem as obras de revitalização da Zona Portuária, mantendo
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
em suspense o destino do Morro e o clima entre seus habitantes.
29
3. O magnetismo 3.1. O primeiro contato
O ano era 2008. Carregava, lá pelos idos de outubro, a marca dolorida pela perda da companheira, ocorrida cinco meses antes. Ficamos órfãos, eu e duas filhas. Cursava o sétimo período de Letras na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, em São Gonçalo, município distante para quem mora na Água Santa, zona norte do Rio. Um ano de queda e de necessidade de reerguimento. Valeu manter registradas, dos vinte anos de idade, as palavras do ídolo Cazuza: “o tempo não para”. Agora, aos quarenta, ainda na graduação, as palavras que me moviam vinham de além-mar: “Navegar é preciso”, me ensinava
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Pessoa, no curso de Literatura. O trabalho na Guarda Municipal representava a contramão do caminho pretendido, “mas é preciso viver e viver não é brincadeira não” – mais uma vez me socorre a voz do mestre Paulinho. Assim, ainda que contrariando diversas probabilidades, mantive a serenidade e pude contar com o apoio incondicional de pessoas amigas, as quais, infelizmente, não poderei aqui relacionar a todas. Dentre elas, no entanto, três grandes amigos eu não poderia deixar de mencionar, até porque foi com dois deles que começou toda esta história. Também com eles eu partilhei muito das minhas angústias e conquistas, principalmente durante a produção do presente trabalho, sem que muitas vezes eles sequer soubessem do que eu estava falando. São três “Zés”, A, B e C. Zé Anselmo, Zé Bento e Zé Conceição. Com a intenção de me distrair, num dia daqueles, Zé Conceição me convidou para uma roda de samba bastante conhecida no Rio. Realizada às segundas-feiras, no clube Renascença, no Andaraí, o Samba do Trabalhador, comandado pelo célebre Moacir Luz, é uma roda de samba de respeito.
A
começar pelo próprio Moacir, seus participantes são músicos de grande prestígio no mundo do samba. Também são muitos os compositores, de sucessos consagrados pelas vozes de intérpretes renomados, e que aproveitam aquele espaço para revelar sua autoria. É muito comum esses senhores, ilustres
30
desconhecidos, ao iniciarem sambas tidos como clássicos, causarem surpresa no público presente, quando este passa a conhecer o verdadeiro pai da obra. Encontramo-nos lá com uma terceira pessoa, um professor amigo do Conceição, e, obviamente, com outro Zé, o Zé Bento. Um desfile de clássicos como Geraldo Pereira, Cartola, Noel, Nelson Cavaquinho, Candeia entre outros, mantinha o padrão de qualidade do evento. Lá pelo fim, já extasiados pelo repertório – classificado por nós de extremo bom gosto – e pelo efeito das cervejas consumidas que – diga-se de passagem – estavam bem apropriadas ao momento, Aderbal, o professor de química, aguçou minha curiosidade dizendo que o samba ali era bom, “mas na Pedra do Sal é melhor e ainda é de graça!”. Foi o bastante para indagá-lo sobre onde ficava “isso”. Registrei suas explicações e ao chegar a minha casa recorri à internet para uma consulta. Encontrei alguns sites
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
que traziam algumas tímidas informações sobre duas rodas de samba no local, uma na segunda-feira e outra na quarta. Chegamos a combinar uma futura visita às tais rodas, mas que por conta dos nossos compromissos pessoais nunca se concretizou. O tempo passou e envolvido com outras atribuições do cotidiano acabei deixando à parte aquele interesse inicial. Até que em 2009, no âmbito da Guarda Municipal, fui transferido para o prédio do Centro Administrativo São Sebastião (CASS), Prefeitura do Rio (ou simplesmente Piranhão), e lá conheci um companheiro de trabalho, guarda, que se identificou como compositor e que dizia se apresentar às quartas-feiras na Pedra do Sal. Aquele encontro foi decisivo, pois já não era mais cabível para mim recusar saber o que era esse lugar e sua real localização. Daquele momento em diante, o magnetismo da Pedra passaria a agir sobre mim sua força estranhamente sedutora. Definitivamente. Era uma quarta-feira, mês de junho, final de expediente, e quando chegamos ao local a roda já estava formada. O amigo compositor se integrou a ela em cumprimentos calorosos com os demais membros, retornando em seguida para alojar em algum canto o convidado um tanto acanhado e surpreso. Durante a adolescência, quando office-boy, foram incontáveis as vezes em que desci e subi a Sacadura Cabral, a Rua do Acre, a Camerino e nunca tinha notado aquele recanto de rua.
31
Aliás, para não dizer que tudo naquele lugar era estranhamento, mirei as escadarias. Lembrava de tê-las visto várias vezes sem nunca tê-las percorrido, nem sequer imaginado aonde elas levariam. Ainda assim, a sua simples imagem me remetia a uma lembrança antiga, algo do passado que curiosamente jamais vivera. Talvez uma gravura do Rio antigo em um livro do período colegial. A sensação, enfim, era de reencontro. Não havia mais lugar para sentar. A acomodação era um cantinho, de pé, onde se pudesse ter visão da roda e algum apoio para a garrafa de cerveja. O público era variado com predominância para homens e mulheres de meia idade. Entre os músicos e compositores notava-se a presença de familiares, esposas e filhos, que distribuíam cópias dos sambas aos presentes. Tal prática explicava o coro, como que ensaiado, de vozes cantando, com desenvoltura, sambas inéditos e
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
desconhecidos da mídia, sob uma aura de verdadeiros clássicos. A iluminação fraca de lâmpadas de filamento sinalizava a precariedade da estrutura, proporcionando áreas de sombras e um aspecto rudimentar ao espaço. Ares de ruralismo. Uma incoerência em se tratando da região central de uma das principais capitais do mundo. Apesar de amplificado, a qualidade do som não era boa, mas, com tudo isso, a harmonia de instrumentos e vozes enchia o espaço, e uma atmosfera difícil de ser descrita podia ser sentida pelo mais cético dos presentes. A cada samba cantado podia-se notar o efeito provocado no público. E podia-se notar também que o público não estava ali somente porque era uma roda de samba, mas porque era aquela roda de samba. O entusiasmo geral culminava no clamor dos aplausos ao fim de cada apresentação. E eram abraços e palavras elogiosas dirigidas ao artista, que logo passava o microfone ao presidente da mesa. Este enaltecia a recente exibição e já anunciava, com pompas, a nova atração. Um momento marcante, que manteve sua expressividade em todas as demais vezes que pude estar presente foi, sem dúvida, um louvor a São Jorge cantado por um dos cavaquinistas e também compositor, Wagner Nascimento. Impossível permanecer passivo diante de tamanha comoção, tanto do cantor, quanto do público, que como num transe coletivo repetia com os braços estendidos e os olhos no céu os seguintes versos:
32
Levanta as mãos para o céu Pisa com fé no terreiro É noite de lua cheia Salve Jorge Guerreiro Não me recordo de ter, na vida, assistido a momento mais sublime e contagiante. O êxtase nas feições do cantor, que de olhos fechados pronunciava uma prece, enquanto o grande coro de vozes repetia o refrão. O violão e os cavaquinhos silenciados, apenas a percussão do tantã e a marcação do ritmo nas palmas. A impressão causada naquele primeiro contato transcendeu a minha primária compreensão. Não foi uma leitura comum de quem vai a algum lugar em busca de divertimento. A incompreensão, inclusive, podia ser diagnosticada pelo meu silêncio. Estava claro, no entanto, que imperava uma atmosfera densa, porém indecifrável. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
No decorrer da noite, enquanto a batucada variava conforme a execução dos sambas – pois um era partido, outro trazia a marca do ijexá, outro era canção –, alterava-se também o movimento dos corpos nas danças, ora juntos ora separados. E, afora o ritmo, o conteúdo das letras reverenciando as origens negras, a espiritualidade, a cultura afrobrasileira e outros temas afins. Inegavelmente, parecia haver-se estabelecido ali um canal no tempo e no espaço, uma conexão do presente com o passado e do Brasil com a África. Ali era possível perceber o samba conforme o olhar romantizado de alguns autores, ao tratarem, por exemplo, o aspecto da malandragem estereotipando a figura do sambista. É assim que Cláudia Matos (2001) define, “no sentido poético da palavra” 5, que “o malandro é antes de mais nada o sambista, o dono da palavra, o poeta.”6. Da mesma forma que Muniz Sodré (1998) também irá sustentar que o samba é o dono do corpo. Era possível sentir o samba como matéria prima, e mesmo considerando indevidas algumas comparações, não evitar outras, como sobre a declaração de Vagalume, na resposta de sua própria indagação sobre onde ele, o samba, teria nascido.
5
Dicções malandras do samba. In: MATOS, C.N., TRAVASSOS, E. e MEDEIROS, F.T. (orgs.) Ao encontro da palavra encantada: poesia, música e voz, Rio de Janeiro, 7 Letras, 2001, p.62. 6 Idem.
33 Lá no alto do morro – no coração amoroso de um homem rude, cuja musa embrutecida não encontra tropeços para cantar as suas alegrias e as suas mágoas em versos mal alinhavados, que traduzem o sentir de um poeta que não sabe o que é metrificação nem tem relação com o dicionário. (VAGALUME, 1978, p.30).
Até aquele momento não seria capaz de compreender nem o que presenciara nem o que tornava aquele estado possível. E mesmo hoje, ainda me intriga como o poder de comoção gerado a partir do canto e das palmas pode reproduzir uma atmosfera de plenitude tal, como pude, depois, presenciar outras vezes. A partir daquele dia fiquei tomado por aquela energia, que se mantinha na imagem indissolúvel daquela cena predominante em minha lembrança. Às quartas-feiras, agora, eu tinha um compromisso assumido comigo mesmo: tornara-se causa religiosa. Passava a ser uma necessidade boa estar
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
presente àqueles encontros para partilhar e comungar com músicos e público tamanha singularidade. Mas algo estava além das pessoas e da música envolvidas, fator este ainda inapreensível por mim. Esse elemento, no entanto, era o principal motivador daqueles episódios e eu só iria me dar conta disso após me situar no espaço (meta) físico que frequentava. O segredo estava na pedra. A Pedra do Sal.
34
3.2. A mística
A natureza, através de seus elementos, se expressa de diversas formas, gerando fatos que ora podem ter valor verossímil, como em outras situações podem permanecer no âmbito do fantástico, mas nem por isso menos relevante. Os mitos existem para forjar o caráter de realidade que muitas vezes a propalada história real não oferece. Nossa matéria de análise, e sobre a qual salientaremos alguns fatos marcantes na história, trata-se da pedra, mineral cercado de simbologia e misticismo. Lembremos, por exemplo, na mitologia grega, transformava-se em pedra todo aquele que voltasse o olhar para a Medusa. Na Bíblia, o embate entre Davi e
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
o gigante Golias foi decidido por uma pequena pedra, desferida de modo exato e preciso pelo rei dos judeus, levando ao chão o temível oponente. Foi na rocha que por largo período e sob grande mistério ficou encravada a espada mágica Excalibur, enquanto aguardava o futuro rei das terras britânicas, o cavaleiro que lhe conseguisse arrancar da pedra. Na própria literatura brasileira, Macunaíma carrega consigo a muiraquitã, pedra que Ci, a Mãe do Mato, lhe entrega como amuleto. Ou seja, a pedra, independentemente da sua classificação, tamanho ou valor sempre produziu no imaginário coletivo histórias como estas, reconhecidas. Ou mesmo outras menos expressivas, mas de importância relativa para um determinado grupo social, como na localidade onde morei e citei na introdução. A Pedra do Sal, por sua vez, contribui também com a sua parcela de mistério, tanto para a história do lugar como para a história do samba. Consolidou-se pelos seus frequentadores como um espaço sagrado, onde o samba flui diferente, por conta de uma suposta relação estabelecida com a ancestralidade. Mas de onde viria esse poder, essa capacidade de sedução, num elemento estático, sólido e, a olhos desinteressados, desinteressante? O espaço sagrado reserva mistérios que aqueles que não têm entendimento religioso dificilmente irão conceber. “O mundo sagrado é um mundo independente” 7, inapreensível para os que são desprovidos de alguma fé religiosa, embora, ainda assim, possa ser sentido e interpretado de outra forma. Como 7
BENISTE, José. Mitos Yorubás: o outro lado do conhecimento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, p.25.
35
aconteceu comigo na minha primeira visita à Pedra. Profundamente comovido não conseguia definir tal comoção e apenas me deixei ser envolvido pela energia ali instaurada. Segundo a mitologia africana, Olorum, o Deus supremo, lançou sobre a terra dezesseis destinos possíveis, os quais se desmembram em dezesseis, cada um, produzindo duzentos e cinquenta e seis possibilidades de destinos. Esta é uma simples informação inicial acerca dessa tão complexa – e tão encantadora quanto – filosofia religiosa. Julgo pertinente sua introdução porque ao abordar os assuntos aos quais trataremos a seguir, que transcendem a compreensão numa esfera primária, palpável, passando para outra apreensível apenas no campo da abstração, entendo fazer-se necessária alguma explicação. Cada um desses destinos ou odus, no seu vocabulário original, representa
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
uma classificação de estado que se manifesta em tudo o que constitui vida, seja no reino animal, vegetal ou mineral. Portanto, tudo que qualifica determinada forma de vida neste planeta está condicionado aos odus, e de modo polarizado como bondade, maldade, tristeza, alegria e assim por diante. Dois desses destinos nos interessam em especial, por conta da familiaridade com elementos de nossa apreciação neste trabalho, mencionados de modo aparentemente aleatório no texto de apresentação. São eles Oxé, que representa o brilho e Eji-Laxeborá, que representa a justiça. O primeiro está ligado ao elemento Água, o segundo ao elemento Terra e regem, respectivamente, os orixás Oxum e Xangô. Dentro de suas características, vejamos o que a mitologia diz de Oxé:
Odu de criação suave como a água doce. É um odu sonolento e calmo, porém perspicaz e atento. É ligado a situações sensíveis e necessita de silêncio, pouca agitação e sabedoria. A este odu são atribuídos o brilho das coisas, a beleza, a claridade, a sensatez. Trabalha exclusivamente pela evolução das coisas e pela perfeição das criações.8
Por sua vez, o odu Eji-Laxeborá também é caracterizado da seguinte forma:
8
BARCELLOS, Mario Cesar. Os orixás e o segredo da vida: lógica, mitologia e ecologia. RJ: Pallas, 2008, p. 23.
36
Odu de criação sábia, do tipo perfeito sem erros. Trata-se de um odu de responsabilidade e dedicação, capaz de se responsabilizar e resolver os seus problemas e os dos outros, com relativas facilidade e competência. A Eji-Laxeborá é atribuído o senso de justiça plena, da divisão correta das coisas, da separação daquilo que é bom e do que é ruim, daquilo que serve e do que não serve. É o odu justiceiro, sábio nas escolhas, sensato e competente. Eji-Laxeborá é o regente da justiça, daquilo que merece ter peso e do que não pode ter peso. É o supervisor das coisas criadas. Odu da certeza, do que está certo ou errado.9
Partimos deste ponto para citar duas divindades fundamentais na história do nosso objeto de trabalho, representadas pela configuração física do espaço e pela cultura lá produzida. Vamos às relações as quais sugerimos no início e busquemos, senão o entendimento pleno, ao menos a certificação de que muito do que vi e ainda vejo nas experiências desta jornada, só por este viés me foi possível assimilar. A começar por Nossa Senhora da Conceição. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Foi com o nome da santa, a qual minha mãe era devota que os colonizadores portugueses batizaram o morro onde está, na sua base, a Pedra do Sal. E a história da Pedra registra, entre outras coisas, o fato de ser ali um ponto de cultos religiosos, local de oferendas desde a presença dos negros escravos e depois, quando os oriundos da Bahia lá se estabeleceram, no fim do século dezenove e início do século vinte. Ali as famosas “tias baianas” promoviam a manutenção da sua herança cultural, há tempos e a milhas de distância de sua origem. Quando houve a necessidade de os povos afrobrasileiros adotarem santos católicos para continuar cultuando suas divindades, sem sofrer perseguição da Igreja, sincretizaram com Nossa Senhora da Conceição a figura de Oxum. Regida pelo odu Oxé, esse orixá está relacionado à beleza, à leveza das coisas, ao brilho e à claridade, podendo ser atribuída a ela a queda d’água de uma cascata, o brilho do ouro, seu metal predileto e o amor materializado nos processos de fecundação e gestação. Pois, sendo Oxum a “Rainha das Águas”, é ela “quem vai reger o crescimento desta nova vida que estará, neste período de gestação, em uma bolsa de água” 10, no ventre materno. Amor, ciúme, gênio forte são qualidades da Orixá Guardiã do Ponto de Força da Natureza, as Cachoeiras. 9
Idem, p.26-27. Idem, p. 105.
10
37
A mãe ama seus filhos, tem ciúme deles, mas também é geniosa. Oxum é o sentimento humano do amor, representado pelas águas que caem e continuam seu curso, alimentando a vida a sua volta.11
No sincretismo Xangô equivale a São Jerônimo e conforme a mitologia africana, ele está presente em tudo que for relacionado à justiça, “rege a bravura, o senso justo e todo o elemento rochoso do mundo.”12 Todo aquele que tem ideologia, espírito conquistador, solidez pode se julgar um filho de Xangô, porque tais qualidades são nitidamente características desse orixá.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Xangô é o rei das pedreiras, Senhor dos coriscos e do Trovão, Pai da Justiça e o orixá que gera o poder da política. Guerreiro, bravo e conquistador (...). É monarca por natureza e chamado pelo termo Obá, que significa rei. (...) É a pedra – seja ela qual for –, a rocha, o fogo do interior da terra. É a lava do vulcão e é o próprio vulcão. Está presente em todos os lugares rochosos e arenosos e também muito ligado ao calor.13
Estamos, portanto, diante dos seres que mais estimulam o exercício de uma visão mística para a Pedra do Sal. Tanto Xangô como Oxum estão simbolizados nos elementos mencionados anteriormente, além de serem constantes temas no repertório de sambas cantados pelos músicos e compositores do Samba na Fonte, em especial, mas também presentes em diversas obras de outros autores do gênero. Parece mesmo inconcebível desatrelar cultura negra africana de samba. Mesmo grupos contemporâneos que fazem samba, ainda que sofram alguma resistência dos mais conservadores, que primam pela tradição, não descartam o tema. O repertório de diversos artistas do gênero está repleto de louvações a São Jorge, também aparecendo sob a denominação de Ogum. O cantor e compositor Zeca Pagodinho é um que ora canta: “vou acender velas para São Jorge...”, de sua autoria, como em outro momento consagrou homenagem a Ogum, cantando em parceria com Benjor. Este, por sua vez, desde quando era Jorge Ben, sempre teve constante em sua obra, referências ao homônimo “santo guerreiro”. Sem falar de Clara Nunes, a “mineira guerreira, filha de Ogum com Iansã”, cujo repertório era fortemente impregnado pela sua religiosidade. 11
SARACENI, 2001, p.93. Idem, p. 93. 13 Idem, p. 92. 12
38
Portanto, num universo em que a história do negro se faz contada pelas marcas do sofrimento, desde sua extração da terra mãe até a chegada numa terra estranha, a milhas e milhas de distância, e nessa nova terra sobrevive sob o julgo da escravidão, somente o apego aos seus deuses lhes poderia atenuar tamanha dor. A crença em voltar ao solo materno, em reencontrar os entes queridos, deixados para trás ou dispersos entre os outros capturados. Quando os tambores ecoam, está ali o ponto de contato com a ancestralidade. Nos batuques, nas palmas, nos cantos, na exaltação em idioma nativo, a Pequena África se constituía de fato. E dessa forma aquela região super povoada de negros, tornou-se um território marcado pelo lamento. Lamento de quem chega e permanece contra a própria vontade, tratado como mercadoria, mantido em condições subumanas. A força para resistir se encontrava no exercício
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
da fé, invocando aos deuses africanos proteção e dias melhores. A Pedra do Sal era um espaço onde rituais eram realizados e pela relação que se faz mencionada anteriormente, esses rituais estavam direcionados a Xangô, o Rei das Pedreiras. Ele, o pai da justiça, senhor do fogo e da guerra, não poderia representar melhor o sentimento de revolta do escravo que amargava a crueldade e a injustiça do dominador.
Que ninguém atire uma pedra em seu semelhante, pois poderá estar afrontando o Senhor da Justiça. Que ninguém demande contra o semelhante, pois poderá estar demandando contra o próprio Senhor da Justiça Divina. (...) Que ninguém desafie a Lei Divina, senão encontrará muitas pedras no seu caminho. Todas elas colocadas pelo Senhor Xangô, o Orixá da Justiça e do Fogo Purificador dos Pecadores.14
Hoje, quando se manifestam na Pedra as rodas de samba semanais, ecos do passado reverberam nas cordas e no couro dos instrumentos, na palma da mão e na voz de quem não se furta em abrir o coração para tornar o que foi lamento um alimento. Alimento para o espírito em forma de música, traduzindo entre outras virtudes a esperança, em se resgatar a memória do povo negro, e a alegria que comprovadamente se mostrou, ao longo do tempo, uma dádiva divina inerente a esse povo.
14
Idem, p. 81.
39
3.3. Memória
A história do samba constitui-se, dentro da história do Rio de Janeiro, como um capítulo dos mais vastos e mais importantes. Muito além da simplória definição, corriqueiramente propalada, de se tratar de um ritmo oriundo das raízes africanas, o samba transcende o espaço musical e marca profundamente a formação da sociedade fluminense. Isto se inicia num momento em que era esta cidade a capital federal, principal cartão postal do país, tanto para o exterior como para os demais estados da federação. Com isso, a expressão do samba se intensifica e se estende a todo território nacional, influenciando e caracterizando o povo brasileiro de modo geral. Tornando-se um símbolo da cultura nacional, o samba veio atender ao que
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
muito se buscava como elemento identitário, para uma nação desprovida da tradição que lhe pudesse conferir uma identidade. E revela-se paradoxal esta contribuição do samba, na medida em que algo, sob o conceito das elites, sendo de origem tão “marginal”, possa ter desempenhado um papel absolutamente relevante na formação da cidade e dos cidadãos. E dessa forma, sua ação repercutiu, provocando tamanhas alterações culturais, sociais e econômicas. Tais acontecimentos têm sua origem no inicio do século XX, mais profundamente da segunda década em diante. No entanto, não custa recuarmos um pouco no tempo para melhor compreendermos esse processo. Após a abolição da escravatura, um grande clamor por igualdade de direitos surgiu entre os negros então libertos, sobretudo no sentido de serem providos os seus filhos de “instrução pública”, denominação popular dada à educação escolar naquele momento. Contrariando inclusive a versão de alguns abolicionistas, os recém-libertos demonstravam uma compreensão clara de cidadania e da necessidade de inserção social, com tratamento igualitário e indiscriminado. (ALBUQUERQUE, 2006 p.198) No entanto, a desigualdade social mostrava-se claramente estabelecida, ainda que fosse vista por alguns de forma equivocada ou passiva. O abolicionista Joaquim Nabuco chega a mencionar que a escravidão não “azedou a alma do escravo contra o senhor”, nem criou nenhum tipo de ódio entre as duas raças. “(...) Por esse motivo o contato entre elas foi sempre isento de asperezas fora da
40
escravidão, e o homem de cor achou todas as avenidas abertas diante de si.” (NABUCO, 1883, p.23-25). A visão suave deste ilustre abolicionista, acerca do que foi a escravidão e o que a sucedeu, contraria todo bom senso e toda coerência, quando não se pode – nem mesmo com muita complacência – identificar a tais “avenidas” que se abriram para os negros, a partir da abolição. Livres do cativeiro e dos trabalhos forçados, os ex-escravos viam-se agora, paradoxalmente, destituídos do amparo da fazenda e de leis que lhes garantissem, no trabalho, condições para a manutenção digna de sua sobrevivência. Com o fim da monarquia e início do regime republicano, a economia brasileira passa a se redesenhar, ingressando num processo progressivo de industrialização, fato este que será fortalecido com a Primeira Guerra Mundial de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
1914. O incremento de operações realizadas no porto do Rio, bem como no de Santos, e a centralização das indústrias no eixo Rio-São Paulo faz com que estes dois pólos passem a concentrar grande parte da mão de obra na área urbana (PENNA, 1999). No entanto, nem isso indica um aproveitamento democrático do trabalhador negro. Na esfera de novos empregos que surgem, a partir de tais mudanças, além da estiva, de um modo geral resta-lhe a condição de subempregos. A mão de obra branca ocupa os melhores cargos oferecidos na metrópole enquanto que, aos negros, restam os serviços de baixa remuneração e maior desprendimento físico. Segundo Penna, “As elites dominantes expressavam forte xenofobismo acrescido por um grande desprezo pelo trabalho manual, herança do regime escravocrata. Dessa maneira era negada ao proletariado a condição de cidadania, pois eram vistos como força de trabalho.” (Idem, p.125). A chegada dos imigrantes europeus, no inicio do século XX, embora não tenha sido diretamente um fator tão marcante na cidade do Rio de Janeiro, contribuiu na reocupação do interior, sobretudo nas fazendas cafeeiras, substituindo a mão-de-obra escrava e, consequentemente, induzindo-a ao êxodo rural. Esta população tende, então, a migrar em massa para o grande centro urbano (QUEIROZ, 1981, p.83) e passa a povoar o entorno da metrópole. O resultado dessa povoação periférica constitui a formação de um cinturão etnográfico, cuja área compreendia toda a região portuária (Saúde, Gamboa, Santo Cristo), além
41
dos morros da região do Estácio, a Praça Onze e a Cidade Nova. Esse espaço passou a se denominar Pequena África. Colônias de negros vindos da Bahia instalam-se na região denominada Prainha, nas proximidades de onde é hoje a Rua Sacadura Cabral. Situada a poucos metros dali, no sopé do Morro da Conceição, um caminho com degraus escavados na pedra, onde eram realizadas batucadas e manifestações religiosas: a Pedra do Sal. Alguns consideram, inclusive, estar nela o marco inicial da povoação de toda aquela área. Dali, com a forte presença das “tias” baianas, dentre as quais, a mais conhecida delas, Tia Ciata, foi feita a conexão com a Praça Onze e o “semba virou samba.” (SANDRONI, 2005, p.25). Dessa nova organização social, aspectos fundamentais na construção da identidade sociocultural da cidade começam a se delinear. O trabalho na estiva, a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
religiosidade, as manifestações culturais agora praticadas não mais como lamento, mas como realização do prazer, em danças, cantorias e batucadas. É o inicio do século vinte e, buscando o exercício natural de sua cidadania, no que pese a sua precariedade e o preconceito da elite branca, os negros vão promovendo na sociedade carioca, fecundas incursões, que pela originalidade e espontaneidade firmam-se a cada dia, consolidando a sua cultura e a sua força.
Destituídos de mínimas condições de vida, não hesitavam em participar de revoltas contra a opressão. Em 1904, quando da Revolta contra a Vacina Obrigatória, no Rio de Janeiro, essas massas populares estiveram presentes, dando um cunho social a este movimento de resistência.15
Concomitantemente, aquela população dos cortiços, soldados regressos com o fim da guerra de Canudos, e as colônias de negros que já se haviam estabelecidos na região portuária contribuíam para o aumento da ocupação da chamada Pequena África. Das relações estabelecidas entre esses grupos, ainda que distintos, forjou-se uma irmandade a partir das carências e, de alguma forma, isso lhes reconstituía a própria origem. Religiosidade e cultura se fundem e fundamentam decisivamente a história daquele lugar. A Pequena África ficou estigmatizada como um ambiente de gente malandra, de vigaristas e vagabundos e isso ia de encontro às pretensões da política vigente, cuja meta era tornar o Rio de Janeiro uma metrópole moldada na 15
PENNA, 1999, p.125.
42
matriz da época, que era Paris. A Reforma Pereira Passos veio dar conta desse “empecilho”, abrindo largas avenidas, saneando, instalando rede de esgotos, pavimentando o passeio para caminhadas vespertinas de senhoras de sombrinhas e senhores de bons paletós. Vigorava nessa grande reforma urbanística a manutenção do pensamento elitista, promovido pelo então prefeito da cidade, Pereira Passos e subsidiado pelo presidente Rodrigues Alves. A abertura de avenidas largas, como a Avenida Central (atual Av. Rio Branco) e a derrubada dos cortiços que acolhiam a população mais carente, foram medidas determinantes para manter a política de branqueamento da cidade. A modernização da metrópole visava a sua inserção num modelo europeu de urbanização, semelhante ao de Paris, principal pólo cultural e, talvez, o maior
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
símbolo de modernidade àquela época. Por outro lado, a massa rude da população se deslocava para os morros próximos, no entorno do centro, ou mesmo avançavam em linha regressiva rumo à periferia. A partir daqueles encontros, das práticas do candomblé pelas tias baianas, do comércio de iguarias da culinária baiana e do comércio de artigos inerentes ao exercício religioso (João Alabá)
16
, uma nova ordem passa a existir naquele
espaço. Das batucadas surgem nomes como João da Baiana, Donga, Sinhô, Heitor dos Prazeres e outros que, ora na Praça Onze, casa da Tia Ciata, ora na Pedra do Sal passam a experimentar os primeiros passos do produto que mais tarde se consolidaria como samba. Tais encontros festivos parecem corresponder àquilo que antropólogos afirmam ser uma forma daquela comunidade se manter em conexão com as suas raízes, sua ancestralidade, e isso passou a constituir um novo sentido. Em contrapartida e quase simultaneamente, numa outra faixa litorânea da cidade, no ano de 1908, um evento era promovido com o intuito de desvincular o Brasil da imagem, unicamente, de país exótico, de índios e florestas, de belas paisagens naturais. A idéia era catapultar, por meio de forte e articulada propaganda no exterior e também internamente, a noção de que a modernidade chegara com as reformas urbanísticas, industriais e comercias. O esforço para se criar essa nova resolução do país reuniu figuras expressivas da cena nacional 16
Babalorixá iniciado na Bahia, cujo terreiro ficava situado na Rua Barão de São Félix, Saúde.
43
como Rui Barbosa, Paulo de Frontin e outros, no encontro realizado na Praia Vermelha, na Urca, denominado Exposição Nacional de 1908. Aproveitando o aniversário de chegada da família real portuguesa em solo brasileiro, o evento tentava afirmar essa inserção do país na modernidade, intencionando alçá-lo ao mesmo patamar das metrópoles européias. Era uma propaganda que, internamente, visava à população de poder econômico médio e alto, enaltecendo os feitos do homem através do trabalho, cuja importância, além de atender às necessidades básicas, estava também, em proporcionar o bem estar e a sofisticação.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Afinal, o país que os olhos estrangeiros e nacionais estavam acostumados a ver cheio de gente cordial e hospitaleira, mas também de paisagens urbanas desprovidas de infraestrutura, e o que é pior: cheio de negros e negras (...) transitando por ruas e esquinas desalinhadas e sujas, o que identificava com o Brasil pitoresco.17
Tradicionalmente conservadora, arraigada aos costumes de uma Europa que aqui não existia e que talvez só tenha existido no seu imaginário frustrado, a elite insiste em não reconhecer a decadência dos seus conceitos, diante da influente ascensão cultural de um povo visto por ela, até então, como incapaz e inferior. No entanto, no momento em que artistas oriundos dessa elite buscam uma aproximação com a música produzida nos morros, sobretudo, a partir de encontros na casa da Tia Ciata, na Praça Onze, é que se origina o mais genuíno produto da cultura nacional. Assim, no ano de 1917, embora até hoje cercado por controvérsias, ocorre o registro oficial do primeiro samba na discografia da música brasileira. Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, em coautoria com Mauro de Almeida, grava Pelo telefone. A partir de então, gradativa e harmonicamente, à vibração das cordas dos violões e cavaquinhos aliam-se os sons dos tambores e outras percussões. Ao ritmo sincopado incorpora-se melodia. E da fusão de culturas, de classes sociais e de etnias, consolida-se este gênero musical.
17
BORGES, 2008, p.77.
44
3.4. Musicalidade e Identidade
Atualmente, várias obras literárias, cuja discussão erigida em cada uma delas esteja centrada na própria arte, tentam explicar o fenômeno (se assim pode ser interpretado) do ritmo mais identificado com a cultura brasileira. Aliás, parece impensável falar de cultura brasileira, entre outros temas vinculados à formação do povo brasileiro, sem que se faça minimamente uma abordagem a esse gênero musical. Pois, ali, no Largo da Prainha, às margens da Baía de Guanabara, o samba dava seus primeiros passos para narrar, a seu modo, a nação que também dava seus primeiros passos. No entanto, anterior ao que sucedera na região portuária, no início do século XX, esses movimentos da cultura africana já eram observados, embora não
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
se pudesse mensurar a extensão do que se tornariam. Aquelas manifestações, na verdade, eram vistas somente como exercício religioso e um suposto momento de lazer. Em Os sons dos negros no Brasil. Cantos, danças, folguedos: origens, José Ramos Tinhorão irá constatar, a partir do século XVIII, a evolução, não só do pensamento da época em relação àquelas manifestações, mas, efetivamente, da prática delas, em si.
E foi assim que, com o paralelo crescimento da participação de brancos e mulatos das camadas baixas das cidades e vilas nesses “batuques de negros”, começaram a surgir adaptações provocadas pelo casamento da percussão, da coreografia e do canto responsorial africano-crioulo, com estilos de danças, formas melódicas e novo instrumental (principalmente a viola), introduzidos pelos herdeiros nativos da cultura europeia.18
A partir da adoção de temas pátrios pelas escolas de samba para que pudessem desfilar no carnaval com o respaldo das autoridades e, mais que isso, subsidiadas pelo governo, não há dúvida de que de alguma forma a história do Brasil passou a ser popularizada. É bom que se entenda, entretanto, que um relato histórico sobre determinada nação é sempre um emaranhado de informações e de indagações muitas vezes insolúveis. Quando se trata, sobretudo, de um Estado pós-colonial, a literatura da época, agindo numa zona de vazio, onde a necessidade de preenchê-lo passava, 18
TINHORÃO, 2008, p.55-56.
45
ainda que indevidamente, pela possibilidade de um gesto político, tendia a criar condições para que aquele relato histórico desse conta de uma realidade e de uma identidade, como afirmação dessa nação. Nação que chegaria ao século vinte embasado por aquela literatura No texto Literatura e identidade (CUNHA, 1998) a professora Eneida Leal argumenta que, no caso do Brasil, por exemplo, condições para se produzir uma literatura nacional não faltavam, porém os elementos sugeridos para essas produções desfiguravam a coerência daquilo que mais se propunha como provedor da identidade nacional, naquele momento. Como exemplo, ela apresenta o poder da narrativa no romancista José de Alencar, cujos historiadores da literatura, para ela, “lhe são posteriores”. Assim as representações da figura feminina e do índio, imaculadas,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
caracterizam, tão somente, a construção de uma imagem de nação, cuja presença de outros atores igualmente importantes nessa formação é, simplesmente, omitida. A figura do negro, portanto, nas obras que narram a nação do fim do século dezenove e boa parte do século vinte não pode ser (quando muito) considerada mais do que mera citação. O modelo de domínio da visão imperialista tende a impor certas ações que podem ser mais bem entendidas pelas palavras de Edward Said (SAID, 1995 apud CUNHA, 1998, p. 178), quando este diz que a terra é realmente o objeto de cobiça do dominador, porém, no que tange ao ocupante desse território e os rumos futuros da história dessa ocupação, isto será ditado pela narrativa. Nas palavras dele “o poder de narrar, ou de impedir que se formem ou surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o imperialismo”, pois é uma maneira de estarem os dois alinhavados pelo propósito em comum. Esta é uma constatação que parece familiar à cultura brasileira e, mais precisamente, à literatura, como no exemplo de José de Alencar. No caso dele, prevalecendo a idealização de um conceito de nação, cuja aceitação pudesse ser mais palatável, em detrimento de uma outra realidade não tão palatável assim. A possibilidade de um Brasil alicerçado em bases heterogêneas, cujo negro e índio são componentes ativos com suas culturas e tradições, contaminando e sendo contaminadas pelo produto europeu, não parecia muito viável para a elite da época.
46
Reexaminando-se as narrativas que se constroem e instituem a nacionalidade, no século passado, percebe-se que para fabricar a etnicidade fictícia – ou produzir o povo – o trabalho essencial constituiu-se na exclusão radical de determinada força do país – os negros – enquanto cultura e enquanto corpo.19
Pensar o Brasil sob o ponto de vista de um lugar hegemônico parece ter sido sempre um equívoco cometido por alguns historiadores. A questão da mestiçagem como um fator realmente positivo, sobretudo a partir de Casa-grande e senzala20, com sua publicação causando grande comoção entre os intelectuais da época, consiste num dos fatores relevantes para a desmitificação da figura do índio, tido como símbolo de pureza e de autenticidade, o verdadeiro brasileiro. Na literatura romântica, ao índio era dado o status de símbolo de brasilidade, em contrapartida, ao negro, qualquer menção meritória era negada.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
No entanto, na música, esta intenção já não surtia o mesmo efeito, por conta de ser justamente o ritmo insinuante do lundu o que irá predominar nos salões, após transpor os limites da senzala.
Com sapateados, batuques, remelexos dos quadris e a sensual umbigada, o lundu agradava a todos os segmentos da sociedade. Mesmo os mais radicais como a igreja, que a consideravam indecente, imoral e escandalosa, tinham seus momentos de condescendência para com a dança.21
O lundu foi um ritmo trazido pelos negros que mesclado à polca, iria resultar no maxixe e, daí por diante, nos idos da década de trinta atingir o formato reconhecido, a partir de então, como samba. Sob esta leitura, em se reconhecer que o samba a partir dos anos trinta torna-se a principal representação da música nacional, em todo o país, não constitui impertinência admiti-lo, portanto, como um símbolo da identidade dessa mesma nação.
Mas a aceitação pela sociedade global de um ritmo originário de camadas populacionais socialmente excluídas implicava também criação de formas diferentes (segundo a classe social) de apropriação e uso do ritmo.22
19
CUNHA, 1998, p.180-181.
20
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1981.
21
CALDAS, 1989, p.9.
22
SODRÉ, M. Samba o dono do corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p.31.
47
Como em todo o processo pela busca de uma identidade nacional, havia o desejo de se criar uma música essencialmente brasileira. Uma música que não mais representasse somente a cultura européia, nem somente a africana, nem somente a indígena, mas que fosse, antes, uma síntese de todas elas. E imaginavase que essa música surgiria da criação individual, de um estado supostamente inconsciente pelo povo, para depois ser lapidada. Mário de Andrade acreditava que o caráter espontâneo do artista daria essa expressividade à obra, porém em seguida, essa obra deveria ser apurada por profissionais da academia, como numa legitimação daquilo que somente constituiria valor, de fato, depois de passar por esse crivo. No que pese as tentativas frustradas da manutenção de ritmos tradicionais, executados por instrumentos tradicionais como piano e violino, muito próprios
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
para a execução de valsas e polcas, é só com o incremento dos tambores e outras percussões, e, sobretudo, com uma nova forma de utilização desses instrumentos tradicionais, que uma música brasileira, como nós a compreendemos, começa a se desenhar. Ainda na segunda metade do Brasil oitocentista, o maestro Joaquim Callado já havia iniciado com sua flauta o que seu discípulo Pixinguinha iria eternizar: o choro. Este nome inclusive se dá em decorrência de ter o maestro gostado do resultado harmônico de um grupo que conheceu composto por cavaquinhos e violões, ao qual se integrou inserindo sua flauta, passando aquele grupo a se chamar Choro Carioca. Outra aluna sua se perpetuaria na historiografia da música nacional como maestrina e grande compositora. Chiquinha Gonzaga altera significativamente o modo de se executar o piano. Gradativamente, passa a ocorrer no popular urbano um abandono da languidez das modinhas em favor de uma articulação mais dinâmica das notas, como a própria urgência expressa na ordem evolutiva, instaurada naquele momento histórico, não só no país, mas no mundo de um modo geral. No texto de José Miguel Wisnik (2004), Machado, maxixe, o autor chama a atenção para o que aponta ser uma evidência da supremacia do cavaquinho sobre o violino. Para entender melhor, um indicador naquele momento de iniciação de uma vida urbana realmente nova, da natural preferência pelo popular sobre o
48
erudito, anunciada por Machado de Assis (1997), no conto, O homem célebre. Nele, o músico de formação acadêmica, mas que somente consegue produzir polcas, além da frustração pelo insucesso musical, ainda sofre a perda da mulher amada para o cavaquinista. Numa leitura crítica sobre seu tempo, Machado já antevia o flagelo de um modelo de cultura incompatível com a realidade que se ia modelando, ficando, mediante tais mudanças, completamente defasado. Incompatível no sentido de não possuir uma alma apropriada para o novo corpo que nascia. Por sua vez, outra alma melhor configurava e assegurava uma nova identidade a esse corpo mestiço que, no mesmo passo, ganhava vida em meio às vicissitudes geradoras de novos ideais, anseios de liberdade e progresso. A classe social intermediária que surge a partir da abolição, composta por
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
homens livres, os quais já não se enquadram na relação dicotômica senhor/escravo, cuja estrutura estivera em voga por séculos, será uma categoria extremamente significativa no processo de construção da cultura nacional. É desse extrato social que irão surgir os produtores e propagadores de novas diretrizes na cena artística e intelectual. Em concomitância, são também esses indivíduos, de vida urbana e, apesar de todas as adversidades, livres, que vão ser os consumidores da produção cultural e intelectual emergente, advinda deles próprios. Nesse período o Rio de Janeiro tinha já como principal indicador cultural a música.
Estava presente no cotidiano da população nas rabecas ou pianos, nos assobios ou nas palmas ritmadas, nas flautas ou atabaques, nos espetáculos líricos ou nas bandas militares, nas festas das igrejas ou nos coretos das praças públicas. Valsa nos salões (...), polcas nas salas familiares, lundu nas rodas de dança da gente escrava, a música tudo preenchia, tudo invadia, a todos satisfazia.23
Marcante, sobretudo no aspecto social, fora a verdadeira invasão ocorrida nos lares burgueses pelo instrumento símbolo da tradição musical: o piano. Ele ditava o gosto pela tradição, quando ainda se tentava forjar uma cultura nacional pautada na herança do colonizador e da nova aristocracia, representada em primeira instância pelos ecos de Paris. Segundo Wisnik (2004), a introdução desse
23
DINIZ, 1999, p. 29-30.
49 instrumento no Brasil funcionou “como uma espécie de sublimação modernizante da escravidão”. Embora constituísse quase que unanimidade em qualquer evento musical, fosse em concertos nos salões, fosse em execuções de natureza popular, o piano sofria certa rejeição por boa parte da população, que se sentia incomodada por conta do seu uso desmedido, causador de extremo impacto sonoro. Outro aspecto negativo era o fato de o qualitativo de seus usuários não estar compatibilizado com o quantitativo indiscriminado desse instrumento. Assim sendo, o impacto sonoro era potencializado pelo desqualificado uso do instrumento. De qualquer forma, acima de todas as divergências ou preferências, as quais suscitaram o simbolismo do piano, em fins de 1800 e início de 1900, tornava-se irrefutável a inclinação natural da população carioca quanto à
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
apreciação da música. Dentre todas as formas de manifestação cultural e, também, de lazer, ela se sobrepõe “pelo seu alcance e extensão” (TRAVASSOS, 2000). A música popular vai agregando elementos no transcurso dos anos até a consolidação, na década de trinta do século vinte, de um gênero musical delineado e imbuído de um poder inevitável: simbolizar a nação. Enquanto a música popular era idealizada como produto de nacionalização inconsciente, lentamente produzida nos cruzamentos musicais entre povos dotados de acervos culturais e perfis raciais distintos, vozes e sons concretos faziam-se ouvir na vida cotidiana dos intelectuais paulistanos e cariocas. O debate modernista é concomitante ao crescimento da indústria fonográfica, que arregimenta músicos oriundos de diversas partes do país, das rodas de choro e bandas de música, ranchos carnavalescos e templos de religiões afro-brasileiras.24
24
TRAVASSOS, 2000, P. 57-58.
50
3.5. Rio, cidade nação
A narração de um lugar, um tempo, implica uma legitimação que possa atender exigências no âmbito educacional, como origem de uma cultura, indicação de determinada estética. Na verdade é um trabalho necessário sob o aspecto histórico pelo qual todas as sociedades do mundo construíram sua identidade. Contudo, a idoneidade das fontes sempre esteve envolta por auras de incógnita, suscitando quase sempre camuflagem de interesses de cunho político e ideológico. Algumas dessas fontes utilizam discursos, os quais tendem a induzir para uma aceitação dessa legitimidade, dando como explicação para um dado acontecimento, por exemplo, um processo natural. Como já mencionado, anteriormente, a literatura como narração do Brasil romântico não oferecera
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
nenhuma problemática que fizesse emergir qualquer questionamento dentro da realidade ali oferecida. Em contrapartida, o movimento modernista de vinte e dois busca reeditar a imagem do país, sob o prisma de quem se permite ser invadido pela cultura do colonizador, além das demais culturas estrangeiras, que possam ser assimiladas. A partir dessa aceitação, levantar questionamentos e, assumir-se uma identidade realmente construída com a experiência da participação engajada e consciente no processo. Jamais pela alegoria forjada que na tentativa de dar-lhe um corpo mais a aniquila. Narrativa e nacionalidade coexistem sobre uma linha tênue na qual figuram estratégias de leituras de caráter histórico e temporal. Partindo dessa posição, “o local da cultura”, o teórico Homi Bhabha (1998, p.199) afirma que não convém simplesmente negar a historicidade na construção cultural da nação, mas que se devem formular modos de identificar a imanência “do povo ou da nação” dentro de universos possíveis de narrativa. Isto, segundo ele, seria reconhecer nos deslocamentos sociais e na experiência coletiva, a partir de formações culturais transitivas e temporais, maior relevância na constatação do conceito de nação, do que propriamente na linearidade cronológica dos fatos. Ainda, de se compreender o espaço da cultura como um lugar plural e a narração da nação como um gesto “do poder político e da autoridade cultural”, onde limites e fronteiras perdem significância.
51 A “localidade” da cultura nacional não é unificado nem unitário em relação a si mesmo, nem deve ser visto simplesmente como o “outro” em relação ao que está fora ou além dele. A fronteira tem o rosto de Jano, e a questão do que esteja fora ou dentro dela deve ser sempre um processo de hibridismo, incorporando novos “povos” ao corpo político, gerando outros locais de significação [...] 25
Assim, consiste num espaço híbrido esses formatos de representação que possam ser feitos acerca de um conceito de nação. E essa nação pode estar montada em base, cuja expressividade se ampare numa abordagem do sentimento de orgulho pela língua, de valoração da etnia, enfim. E podem estas indicações constituir um quadro interessante ou não, sob o olhar político de grupos distintos que atuem no mesmo domínio. O fato é que não parece prudente estabelecer uma análise acerca da nação PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
na contemporaneidade através de uma leitura linear, horizontal, uma vez que o multiculturalismo inviabiliza tal simplicidade. Habitam o mesmo espaço massas desiguais e em constantes deslocamentos, espaciais e temporais, desabilitando toda possibilidade em se permitir uma qualificação homogeneizante. Se por ventura, e de modo a aproximar de nosso objeto de análise esse escopo teórico, deslocarmos o olhar para o que corresponde à Pequena África nos dias de hoje, veremos na área da Saúde, no espaço denominado Pedra do Sal, num dia de samba o exemplo clássico dessa estruturação. A pluralidade de gente, de roupas, e cabelos, e modos, e formações distintas que para lá se dirige, para desfrutar de uma noite de samba é por demais interessante. É interessante também lembrar que a história de várias nações pelo mundo, tanto no ocidente como no oriente, se dá a partir das migrações de povos desterrados, refugiados, os quais Bhabha (1998) irá se referir como reunião de exilados às margens de culturas “estrangeiras”. O deslocamento dos ex-escravos do interior e sua instalação na Pequena África puderam demonstrar isto. E como sua presença e atuação serviram na composição da cultura brasileira. Pensando em cultura nacional, e no samba como símbolo de nação, é fundamental atentar para o fato de ser ele um produto da mistura de vários elementos: de classes sociais, de etnias, de ritmos, enfim. E que ele surge num período em que o Brasil caminha para sua inserção na modernidade, conforme a 25
BHABHA, 1990, p.57.
52
Exposição Nacional de 1908 preceituava. O desejo político de se promover uma identidade nacional, no entanto, já se mostra equivocado quando, apenas a cidade do Rio de Janeiro, naquele momento, já era um intenso fluir de novidades, ainda que sob o olhar de Mário de Andrade houvesse nela, a manutenção de certos ruralismos. “O Rio é dessas cidades em que não só permanece indissolúvel o exotismo nacional (o que, aliás, é prova de vitalidade do seu caráter), mas a interpenetração do rural com o urbano.” 26 Nada mais compreensível, portanto, reconhecer o samba como uma síntese de várias linguagens musicais. Da mesma forma como reconhecer no Rio a síntese de todas as tendências culturais do país. Cidade que já na modernidade tinha acentuada
esta
característica,
o
que
se
dirá
atualmente,
em
plena
contemporaneidade. Entre o Pão de Açúcar e a Pedra do Sal, as culturas emergem
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
e se multiplicam na urgência da vida urbana, no centro nervoso da cidade, desde as observações e testemunhos de Paulo Barreto.
João do Rio criou um guia de personagem, “literalizando” o conhecimento profundo da cena etnógrafo moderno e vasculha (RODRIGUES, 2000, p.41).
interpretação da cidade, transformando-a em mundo urbano. [...] O poeta investe no urbana. Mais que um flâneur, incorpora o a cidade, revelando-a densa e complexa.27
Referência a este célebre personagem da história da cidade do Rio se faz tão necessária quanto pertinente. Por ele a cidade passa por uma revalorização de suas origens, sua gente, seus produtos tidos muitas vezes como mazelas que a modernidade haveria de superar. Do evento da Praia Vermelha (Exposição Nacional de 1908) aos batuques na Prainha, a nação se revelava na dinâmica das ruas, criava-se circunstancialmente uma identidade, no seio da metrópole, sem a necessidade de se a ficar buscando na unidade de todo o território nacional. Na década de trinta do século XX o carnaval do Rio contava com os primeiros desfiles de Escolas de Samba. Posteriormente aqueles desfiles passaram a ser subsidiados pela prefeitura sob exigência de que se deveriam adotar temas correspondentes à história nacional. Havia claramente a intenção de se dar continuidade ao projeto nacionalizante do governo Vargas e que, de alguma 26 27
ANDRADE, M. de. Aspectos da literatura brasileira, São Paulo: Martins, 1974, p.236. RODRIGUES, 2000, p.41.
53
forma, estava também na proposta modernista. No ano de 1964, talvez, foi feito o mais ilustrativo samba dentro deste padrão de composição. Aquarela brasileira de Silas de Oliveira, pela Escola de Samba Império Serrano, permanece até hoje como um hino de exaltação à nação, infalível em qualquer roda de samba que se preze. No entanto, o que se buscava com este método já estava evidenciado desde os primeiros ranchos surgidos na Pequena África. Se não nos enredos forçosamente patrióticos, com certeza na alma dos foliões, como leitura feita pelo próprio João do Rio (1987), no conto Cordões: “Vai-se aos poucos detalhando a alma nacional nos estandartes dos cordões”
28
e ainda “[...] o cordão é a nossa
alma ardente, luxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa [...]”
29
·. E, finalmente,
define a imagem daquela manifestação afirmando que “Os cordões são os núcleos
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
irredutíveis da folia carioca, brotam como um fulgor mais vivo e são antes de tudo bem do povo, bem da terra, bem da alma encantadora e bárbara do Rio.”30 Atualmente se atribui à cidade uma competência de núcleo catalisador e propagador de culturas, sendo, por isto, o espaço onde as identificações e as representações de ordens diversas formulem um perfil que resuma uma identidade tal. Entretanto, embora esta teoria possa ser recente, no processo de construção de um conceito de nação, a cidade do Rio sempre exibiu a qualidade de agregar culturas e, por meio delas, agregar a sociedade. E sobre essa concepção de cidade contemporânea o ensaísta Renato Cordeiro observa:
Certamente se fala, desde algum tempo, mais de cidade do que de nação, o que expressa uma certa descentralização da cena cultural que passa agora a privilegiar a auto-afirmação de expressões multiculturais. É o cenário da cidade, e não o da nação, que passa a ser [...] a “etnificação da cultura”.31
O mundo é cada vez mais urbano e os fatos gerados das relações desses centros é o que faz predominar como identidade. Ainda hoje, por motivos políticos tenta-se reeditar a força de folclores regionais, há muito suplantados por tendências mais recentes. Há de se considerar os avanços tecnológicos e neles, as 28
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Cordões – Rio de Janeiro: SMS, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, 1987, p. 95. 29 Ibidem, p.97. 30 Ibidem, p. 91. 31 GOMES, R.C. Da metrópole à cibercidade. Cultura e cosmopolitismos. In: MARGATO I. Espécies de espaço. Belo horizonte, Ed. UFMG, 2009.
54
influências de toda ordem que arrebataram as gerações mais novas, as distanciando, cada vez mais, de tradições que nem sempre representaram a pretensa e tão anunciada unidade da nação. Na cidade contemporânea, porém, não mais se permite espaço para essas estratégias fundamentalistas em que o romantismo folclórico e o nacionalismo político (CANCLINI, 1995) forjavam o espírito nacional. A velocidade e a pluralidade da vida urbana destoam desse pensamento. A cultura emergente dos vários pontos da cidade circula indiscriminada contaminando-se umas às outras, tornando mais e mais indefinível qualquer noção de unidade. Alejandro Ulloa comenta o processo pelo qual nascem as culturas nacionais nos países latinoamericanos, na modernidade, como é também o caso do Brasil. Ele afirma que “Os gêneros emergem como integrantes vitais de uma
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
cultura estigmatizada que, depois, será reconhecida como um elemento legítimo da cultura nacional em cada um dos países onde se produziu”32. Aliás, se considerarmos os aspectos que envolvem a questão da cultura na cidade, podemos entender o Rio de Janeiro como uma metrópole onde se podem encontrar boas amostras dessa redefinição de cidade. Caldeirão cultural, nela ainda predomina (e nada mais natural) uma forte atuação do samba como manifestação popular, nos mais variados pontos do Rio. Entretanto, algumas de suas questões antes tidas sob determinado olhar, agora reaparecem transformadas, sob uma nova perspectiva. Principal produto cultural do Rio, e símbolo da cultura nacional, se vê sob intensa influência por formatos regionalizados, oriundos de grupos paulistas, baianos ou mineiros, via mídia. Não há mais purismos e não se pode conceber uma identidade que não passe pela mistura. A indagação, “como seria a cultura de massa se fosse possível preservá-la do comércio e, sobretudo da comunicação de massa?” (SCHWARZ, 1987), por exemplo, soa mais como afirmação de um estado permanentemente transitório, cujo caminho é sem volta. Ainda na esfera do samba, outro exemplo talvez consista nos desfiles das escolas, no carnaval, como mencionamos anteriormente. Quando dos primeiros desfiles subsidiados financeiramente pelo governo, a ideia essencial era abordar temas pátrios, de modo a atender à política vigente, cuja meta era consolidar um 32
ULLOA, A. (1995, p. 195)
55
ideal nacionalista. Desprezando qualquer interesse ali incutido, a verdade é que se passou a criar uma problemática e aqueles desfiles desenvolviam pelos seus componentes uma linguagem capaz de traduzir o que lhes era proposto. Atualmente, enredos tradicionais como estes ainda são exibidos, mas os carnavalescos têm inovado em temas como o sonho, os segredos, o medo apenas para citar alguns, de teor mais subjetivo. Isso demonstra uma reformulação de linguagem, saindo do plano do real para se inserir em campos mais explorados por artes simbólicas como a pintura, por exemplo. Por este motivo alguns carnavalescos têm sofrido severas críticas, cuja principal alegação é a de que os desfiles perderam sua identidade para se tornar um teatro. O que parece óbvio, mas alguns ainda se omitem de ver, é justamente a intromissão afável de uma cultura em outra, reinventando formas de representação
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
e criando novos conceitos de arte. Outro aspecto importante é o abandono da obra testemunhal por uma resolução mais performática. O instante do espetáculo como o auge, a consagração da obra na efemeridade. E isso ocorre numa transposição de limites, que de tão indefinidos, mal se percebe e já foram rompidos. No entanto, nessa interpenetração de territórios, uma cultura não anula a outra, mas uma pode assimilar a outra, perfeitamente. Ainda assim, e por tudo isso, a cidade abraça a todos. E por ser essa arena multicultural já mencionada, não exclui nenhuma possibilidade, nem mesmo romantismos, por mais que pareçam defasados. E apesar do ritmo de vida instaurado depor contra, mesmo que raro, ainda é possível instantes de flâneur, para saborear a vista do Pão de Açúcar, num fim de tarde, demoradamente, ou encerrar a noite numa roda de samba, na Pedra do Sal, após vagar pelas ruas do velho Rio, despreocupadamente.
56
4. O envolvimento 4.1. Encontros
Havia em algum lugar da minha memória uma vinheta de rádio, cuja execução anunciava um programa realizado nas tardes da Rádio Nacional. A voz do locutor carregada de eco convocava o ouvinte para o “Rio de Toda a Gente, com Rubem Confete e Arlênio Lívio”. Talvez aquilo tenha permanecido na minha lembrança, primeiro, porque fora um período em que eu trabalhava no turno da noite – aliás, só quem trabalha nesse horário, e sozinho, sabe o valor de um “radinho de pilha” – e me entretinha com programas de rádios AM, por curiosidade e para fugir do formato das FM. Segundo, porque o nome Confete
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
trazia em si uma alegria, imaginada por mim, que a partir das minhas divagações ajudava a atenuar as morosas horas da noite. A tal vinheta ecoou em meus ouvidos no momento em que estive pela primeira vez diante daquele comunicador. Foi numa tarde de quinta-feira, outubro de 2011, a figura de cavanhaque branco, pele escura, idade em torno de setenta anos, estava sentado a uma mesa, tendo entre as mãos um copo de aguardente. Estava cercado por outras três pessoas, ao que me apresentei, juntando-me também a elas, participando da roda como ouvinte. Nesse momento notei o quanto estava afetado pela cegueira. Ouvia calado a entrevista que um outro senhor, de idade equivalente à dele, cedia ao jornalista Miro Lopes. Este preparava uma matéria para a primeira edição de uma revista denominada Pequena África, parte do trabalho que o grupo presidido por Confete vem desenvolvendo desde 2009. Um sedutor aroma de feijão infestava o ambiente e, num dado momento, a reunião foi interrompida com a concordância de todos para que fossem degustados os deliciosos bolinhos de feijoada preparados por Celina. Ela, uma risonha negra de meia idade, corpo e rosto curvilíneos, é quem coordena a utilização do espaço onde ocorrera esse encontro. Eventos, reuniões, atividades variadas, além de assessorar o Confete e, obviamente, administrar a cozinha. Como numa reprodução do que era a Pequena África de tempos distantes, Celina
57 assume o perfil de uma autêntica “tia baiana” e torna uma festa o ambiente que também domina. O sobrado localizado no Largo da Prainha é na verdade a sede do Centro Cultural Pequena África (CCPA), cuja direção está alicerçada nestes três nomes: Rubem Confete, Celina Rodrigues e Miro Lopes. Tem uma área interna confortável e uma privilegiada vista através de suas janelas, que se espalham ao longo da fachada, indo de uma extremidade a outra. De onde agora se vê o Largo e o transtorno causado pelas obras, com as ruas esburacadas, repletas de máquinas e tapumes, num recuo no tempo e esse olhar teria muito mais romantismo. Certamente de lá se teria o testemunho da fuzarca dos entrudos, manifestações oriundas dos portugueses na folia do carnaval. De desfiles dos primeiros ranchos como o Dois de ouro, criado pelo
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
lendário Hilário Jovino. De rodas de batuque com as tias baianas, sua cantoria, sua coreografia e a preservação de sua cultura, no pleno exercício de rituais imanentes a sua tradição. Da presença marcante dos primeiros bambas, como João da Bahiana, Donga, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e o próprio Hilário, além de outros tantos valores que por ali estiveram antes de se fixar em outro endereço. À direita, a secular capela de São Francisco da Prainha, uma das primeiras edificações da região e da cidade, onde as águas da baía se encerravam, antes do aterramento da região. Num dos lados do prédio, a Rua Sacadura Cabral, no outro lado, paralelamente a esta, a Rua São Francisco da Prainha, que desemboca na Argemiro Bulcão, que por sua vez culmina no Largo João da Baiana, sopé da Pedra do Sal. Depois da primeira visita ao velho sobrado foi quase sempre uma obrigação frequentá-lo, embora, por mais agradável que fosse, noutras oportunidades, necessidades outras se sobrepunham a esta e acabei perdendo alguns encontros interessantes. Algumas vezes os convidados nem possuíam tanta afinidade com o que eu buscava, mas a simples presença naquele ambiente agia em mim como um acionador de novas idéias. No entanto, exatamente na primeira visita, em que conheci pessoalmente o Rubem Confete, a quem que eu apenas imaginava pelas chamadas radiofônicas, e um senhor era entrevistado à mesa pelo jornalista Miro Lopes, obtive ali duas gratas conquistas. Inicialmente pelo Confete
58
e depois por aquele homem que estava sendo entrevistado. Ele era Davi Araújo, o Davi do Pandeiro. Ouvi atento suas declarações e me surpreendeu a fluidez da sua fala. Narrando a história da sua vida, sua infância, quando o pai tocava com Hilário Jovino, embora ele mesmo não o tenha testemunhado. As informações foram passadas pelo irmão mais velho que o incentivara, quando menino, a praticar malabarismos com o pandeiro. Esse tipo de exercício foi determinante na sua vida, facultando-lhe neste quesito uma habilidade sem parâmetros e uma respeitabilidade sustentada firmemente, até hoje, no mundo do samba. Atualmente esse senhor pode ser visto no trajado elegante da Velha Guarda da Portela, que liderada por Monarco segue uma agenda de exibições pelo Brasil afora e também pelo exterior. Chapéu branco com uma fita azul no entorno,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
terno de linho branco, destituído de qualquer vaidade, parece cumprir uma função de coadjuvante no grupo. Na verdade, a Velha Guarda da Portela é a única que se destaca dentre as velhas guardas das escolas de samba. Inclusive das outras igualmente tradicionais, como Mangueira, Salgueiro e Império, por conta de algumas ações e apoio de artistas que lhe têm rendido exposição e reconhecimento, inegavelmente justos. No fim desse encontro ficamos conversando em particular e logo descobrimos afinidades, as quais pudemos consolidar em outras oportunidades. Saímos juntos do CCPA e, acabei levando-o até a casa dele, no bairro de Ramos, onde ainda estendemos o diálogo por bastante tempo, no interior do meu carro. Acabara de conhecer naquele dia uma grande figura humana de tamanha sensibilidade e delicadeza, traduzidas não só pelo comportamento, mas também pelos surpreendentes sambas que ele me apresentou. Portador de uma versatilidade musical invejável, “Seu Davi”, como passei a tratá-lo, enquanto conta histórias atravessa essas mesmas histórias com sambas de sua autoria. Mas em nenhum momento seu interlocutor se sentirá invadido por uma pretensa imposição de vaidade. Vaidade parece ser um vocábulo inexistente no glossário de Davi do Pandeiro, que como artista escreve sua obra conforme sua índole: simples, delicada e surpreendente. E numa demonstração clara de simplicidade e humildade, em determinado momento ele me propôs que fôssemos um dia à Pedra do Sal, assistir a uma roda de samba, pois ele nunca havia estado
59
lá, nem sabia onde ficava a tal Pedra. Estávamos a menos de cem metros do local e ao passarmos na esquina da Sacadura Cabral com a Argemiro Bulcão, onde estava o meu carro, apontei o lugar, ao que ele, surpreso revelou: “É ali? Caramba, eu não sabia!” O Centro Cultural Pequena África atua desde 2007 neste endereço e seu principal pleito é o de fazer com que seja reconhecida a importância daquela região do centro do Rio, forjada na presença maciça da população negra africana. Durante os dias da semana são inúmeras reuniões entre os seus organizadores e visitantes, que ora vêm convidados a colaborar com informações, entrevistas ou outro tipo qualquer de auxílio, ora vêm em busca dessa mesma ajuda. Dentre algumas das pretensões desse grupo, a construção de um “museu do negro” ganha forte apelo, sobretudo diante das descobertas de artigos próprios
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
da cultura africana, já nas primeiras escavações. Segundo Celina Rodrigues, logo na primeira investida das máquinas escavadeiras sobre o Cais do Valongo, foi encontrada uma bacia com diversos objetos característicos daquela cultura, como braceletes, colares, alguns tipos de pedras e búzios. O fato é que o sobrado do Largo da Prainha está sempre povoado de gente envolvida de algum modo com a história do lugar. E as conversas fluem entre os presentes, em tom de uma quase informalidade, o que sob a minha ótica lhes confere um grau de produtividade realmente plausível, por se tornar para todos, dessa forma, um encontro bem mais interessante. São várias histórias narradas por personagens que viveram ou acompanharam de perto acontecimentos ligados ao universo da música, em particular do samba. Histórias contadas por aqueles que jamais foram mencionados em fontes literárias ou jornalísticas, mas que assim como esse recanto da cidade, apesar de desconhecidos, também fizeram história. Para uma compreensão melhor do que está sendo pretendido, e porque entendo ser coerente com o discurso em pauta, nada melhor do que apresentar algumas das pessoas com quem me relacionei durante a pesquisa, as quais eu atribuí uma denominação que nem a elas revelei. Nos meus escritos eu me referia aos ‘musgos da Pedra’, numa alusão àqueles que são figuras constantes naquele cenário. E neste trabalho, muito mais que me sentir na obrigação, sinto orgulho em apresentá-los, pois, em muito contribuíram e porque são, sem dúvida, a expressão e a identidade do lugar.
60
Quando fui pela primeira vez ao Centro Cultural Pequena África fui recebido por uma mulher extremamente simpática que me encantou, como tem encantado a todo aquele a quem ela receba. Numa bela definição de sua etnia, aquela mulher me revelou entre sorrisos um pouco da sua história e da sua relação com a Pequena África. Nascida no bairro São Francisco, em Niterói, hoje é residente em São Gonçalo, mas a Ponte Rio - Niterói é como um corredor dentro da sua própria casa, de tanto que por ela transita nessa conexão entre o que considera dois lares. Capricorniana de vinte e dois de dezembro de 1963, Celina Rodrigues não esconde sua visão mística sobre a vida e expõe sua espiritualidade sem o menor receio. “Feita em terreiro”, como ela confirmou, a radialista e produtora cultural foi companheira de Rádio Nacional do atual companheiro de estrada, Rubem
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Confete. No entanto, a amizade entre os dois não é desse período, mas de um encontro posterior, num evento em que ambos participavam e mantiveram o primeiro contato pessoal. Daí em diante já são anos de parceria e cumplicidade, como na direção do CCPA. Ela me revelou que quando foi convidada por Confete para atuar no projeto do centro cultural aceitou na hora, tamanha a identificação com a proposta ideológica do grupo. E considera que apesar das dificuldades houve avanços significativos, dentro das probabilidades oferecidas. A sustentabilidade do centro provém do consumo de comidas e bebidas nos dias comuns e quando ocorrem eventos. Não há nenhuma ajuda externa, de nenhum órgão público nem de nenhuma entidade de qualquer natureza. Segundo Celina, ainda houve momentos, no início, principalmente, em que seus membros foram muito combatidos, sob alegação de que estavam sendo aproveitadores. Ao indagá-la sobre quem os estaria criticando, ela me respondeu que muita gente não entende que a proposta deles é tornar aquela região um local onde se possa ter como referência a cultura que ali foi pioneira. Foi ali que desembarcaram milhares e milhares de negros africanos, que de alguma forma tentaram reproduzir um modo de vida semelhante ao que tinham na sua terra mãe. Os rituais, as oferendas, todas as tradições que eles trouxeram tiveram o seu primeiro contato com essa parte da cidade. Por isso, segundo o pensamento do grupo, o mínimo que se deva fazer para rever um pouco dos absurdos praticados contra os ancestrais negros é reconhecer a Pequena África
61
como um território de referência da cultura negra. E isso gerou certa inquietação por parte de pessoas que na verdade não entenderam a iniciativa e, certamente imaginaram que se tratava muito mais de um gesto político. Embora reconhecendo que se estivessem fazendo política já teriam conseguido mais resultados, admite também que isso os destituiria de credibilidade, por isso “vamos lutando com dificuldade, mas com dignidade”, afirma ela, taxativa. Falar em cultura negra na zona portuária é falar em samba na Pedra do Sal. E comentando as rodas de samba que lá acontecem, com a mesma sinceridade de outros momentos, ela não hesita ao anunciar sua reprovação. Diante da minha surpresa ela revelou que não reprova as rodas de samba, mas onde elas se realizam: “Aquela pedra não é lugar pra isso.”. E explica, sob sua ótica, que “cada um vê do seu jeito”, mas que respeita muito aquela pedra porque ela tem muita
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
energia. E porque ela é sagrada, é para ser consagrada, reverenciada, e não ser usada para fins econômicos. Todos os anos a Pedra do Sal é lavada, ritualizada e, no entanto, as pessoas que freqüentam as rodas de samba, pisam, urinam, usam aquele espaço, que para eles é só uma pedra – pois não têm a menor identificação com a cultura que não reconhecem como parte da sua –, sem o respeito devido, conforme a crença de Celina preceitua. Não entendem aquele espaço como um local sagrado e agem sobre ele sem esse conhecimento, o que para Celina é extremamente perigoso. “Não se pisa num terreiro de qualquer jeito, tem que pedir licença. Eles não sabem com o que estão lidando.” Outra leitura, no mínimo curiosa que a diretora do CCPA faz da Pedra é a de que, além da importância religiosa que ela traz em si, não há por que entendê-la como ponto turístico, pois se pergunta onde estaria sua beleza arquitetônica. E encerra seu pensamento, taxativa como sempre: “Que visual ela tem pra ser ponto turístico? Ela é só uma pedra, mas aproveitam esse valor religioso e fazem disso objeto de exploração econômica.” Sem a menor cerimônia para falar sobre algo de que se sente convicta, Celina Rodrigues tem a Pedra do Sal apenas como um espaço sagrado. Ela é, portanto, uma daquelas pessoas que estão preocupadas com uma tendência à dessacralização da região imposta de modo sorrateiro, pelo processo indutivo, aparentemente inevitável, a uma suposta modernização. Sob outro prisma e de origem totalmente distinta desta, outro ator envolvido nessa dinâmica da vida da
62 região é o “gringo” Tomas Martin. Mais que uma grata fonte de informação e aprendizado, tornou-se ao longo de nossos encontros uma ótima companhia também para uma mesa de bar. Tomas Martin se posiciona como um “homem do presente”, na sua própria definição. Dessa forma, se apresenta como professor universitário, antropólogo e pesquisador, ‘sambeiro’, já que não se sente à vontade para se autodenominar sambista, marido e pai de dois filhos, sendo o mais novo deles fruto da união com Alessandra, esposa brasileira e também antropóloga. Sueco de origem, Martin está radicado e totalmente adaptado ao Brasil, onde vive há catorze anos, dos quais, oito residindo no Morro da Conceição. Sua relação com o Morro e o Bairro da Saúde começou quando conheceu a atual esposa e da necessidade de estarem partilhando a vida a dois. Isto os fez
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
buscar uma residência que atendesse, também, as necessidades das suas profissões. Ele residia em Copacabana, ela em Vicente de Carvalho, logo uma amiga sugeriu um local no centro do Rio que poderia ser interessante para o casal de antropólogos. Após um passeio pelo Morro, que se tornara ao mesmo tempo uma pesquisa imobiliária, num domingo de manhã, não tiveram a menor dúvida: “Aqui é o lugar”, afirmou a voz temperada de sotaque estrangeiro. E lá estão instalados, até hoje, numa edificação que segundo ele data do final do século XIX. Ao comentar a Pedra do Sal ele é categórico: “Quando vim morar aqui não havia nada lá.” O fato é que após tornar-se monumento histórico a Pedra passou a receber alguns eventos, principalmente rodas de samba, o que não ocorria até então. Segundo Martin, as rodas de samba que lá acontecem são uma resposta justa para o reconhecimento daquele lugar como um criadouro da cultura africana nos primeiros tempos em solo brasileiro, e daí sua óbvia influência na formação de uma outra cultura, a brasileira O que lhe parece intrigar é o fato dessa exposição da Pedra não passar pelo interesse dos moradores locais. Para os moradores ela será sempre somente uma pedra, um caminho de degraus, um escorrega para as crianças, por mais que a tenham tornado um mito, um ponto de visitação, um cenário cultural e religioso para os visitantes. Martin revela que frequentou algumas vezes o samba da Pedra, mas deixa entender que não é algo agradável para a maioria dos moradores, pois desestabiliza a sua ordem rotineira, trazendo uma gama inestimável de pessoas de
63
fora, que simplesmente estão alheias ao ritmo de vida local e à história de seus moradores. Martin, no entanto considera interessante algumas formas de apropriação da Pedra por determinados grupos ou pessoas. Como exemplo ele cita o reconhecimento do lugar como área quilombola. Embora seja para muitos uma incoerência imaginar um quilombo coexistindo com um mercado de escravos, segundo ele não se pode negar a presença fundamental do negro naquele espaço, onde eram feitos rituais da sua crença religiosa e em decorrência disso os reconhecidos batuques. Por isso ele vê de forma muito positiva a afirmação de uma consciência quilombola ali, embora também entenda a sua incompatibilidade. “A questão é que isso leva a se pensar num local não necessariamente habitado, um espaço público, que se defina como Quilombo, por manter laços de memória
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
afetiva, respeito à cultura e resistência pela preservação desta.” Quando indagado sobre as diferenças possíveis entre o morador do Morro da Conceição e a população que fomenta a vida na parte de baixo dele, fica muito claro pela sua análise, talvez dividida entre a de morador e a de antropólogo, que se tratam realmente de mundos distintos. Sobretudo na medida em que no Morro não há a menor aproximação da sua população com o samba. Pelo menos o samba que se pratica na Pedra do Sal, por ser essa atividade ainda relativamente muito recente e por não ter sido criada a partir da iniciativa dos moradores do Morro. No entanto, particularmente, ele considera válido o exercício do samba ali porque mantém viva a memória da cultura africana, lembrando-nos da sua importância para a cultura brasileira. Sempre muito disposto a falar, mas também muito criterioso com determinados assuntos, em nossas várias conversas, essa agradável personalidade daquele universo procurou o tempo todo se assumir como “gringo”, para que não seja interpretado de modo equivocado ao se posicionar diante de alguns fatos. Assim ele angariou respeito de seus vizinhos e transita com segurança sobre temas ligados à vida comum do lugar. Como por exemplo, quando fala sobre grupos e pessoas que exercem atividades ligadas a movimentos culturais ou manifestações outras e que eventualmente se exibem como defensores da região ou de determinado ponto dentro daquele contexto histórico-geográfico. Ele afirma entender como
64 interessante todo movimento que remeta os envolvidos a uma “movimentação”, ou seja, que mais do que fixar idéias e posturas, promova reflexões realmente pertinentes ao interesse da comunidade. Depois sim, os desdobramentos desse resultado serem estendidos ao exterior, em ofertas de serviços, acolhimento, receptividade. De qualquer forma considera respeitável toda iniciativa. Diante da possibilidade de grandes transformações de toda a zona portuária, decorrente das obras de revitalização adotadas pela Prefeitura do Rio, como morador comum, Martin discute a palavra revitalização e pergunta “que vida está sendo resgatada?”. Na verdade o que ele, como boa parte da população local compreende é a instauração de uma nova lógica de vida que simplesmente não condiz com estilo de vida familiar e residencial existente. Ainda assim, Martin entende que o receio de transformar-se essa região numa nova Lapa não é
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
infundado, mas acredita que isso pode levar ainda algum tempo. “Prefiro ver o futuro de modo positivo para não sofrer por antecedência.” No dia dois de dezembro de 2011, como parte das comemorações do dia internacional do samba, fui informado por um amigo de que seria realizada a lavagem da Pedra do Sal, com transmissão direta para um jornal matinal de uma importante emissora de televisão. Lá, na verdade, se inicia uma espécie de concentração, quando, mais tarde, ocorre o deslocamento para a Central do Brasil, de onde parte o “trem do samba”. Levantei cedo nesse dia e fui conferir pessoalmente o evento. Lá chegando reconheci algumas pessoas que estavam diretamente envolvidas no contexto, e outras que, até com grata surpresa , reencontrei depois de muito tempo sem contato, como o cantor e amigo Carlos Dafé. No Largo João da Bahiana havia sido posta uma mesa de café da manhã com iguarias da culinária baiana, com bolo de fubá, cuscuz de milho, aipim, batata doce, além do tradicional cafezinho. Após a gravação, que pelo cenário e a hora, começou a atrair alguns curiosos, formou-se um amplo bate-papo entre os presentes, e até tive o prazer de conversar alguns instantes com o Professor Hiram Araújo, que solícito e generoso, me ouviu e me ofereceu auxílio, para a produção deste trabalho. Naquele momento, no entanto, a mesa apetecia a quebra do jejum e todos puderam se deliciar com os alimentos, inclusive eu, um mero espectador.
65
Algumas coisas me chamaram a atenção naquela manhã nublada de dois de dezembro: em primeiro lugar, a importância dada pela maior emissora de tevê deste país a algo, até bem pouco tempo, sem a menor relevância para essas fontes de comunicação, rejeitado até mesmo por muitas emissoras de rádios FM. Que outros interesses, se não os que obedecem à lógica do mercado midiático, podem estar em pauta? Portanto, a cobertura dos festejos desde as primeiras horas da manhã, seguindo-se ao longo do dia, foi realmente surpreendente. Em segundo lugar, a própria escolha do lugar para início das atividades comemorativas. O reconhecimento da Pedra do Sal como ponto inicial dos primeiros passos do reconhecido samba. O ritual religioso de lavagem da Pedra foi praticado pelo grupo Filhos de Ghandi, com uma de suas componentes cantando em dialeto africano e sendo
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
repetida pelos demais. Márcia Moura é uma dessas pessoas que configuram marca registrada naquele cenário e eu não poderia deixar de citá-la. Qualquer um que frequenta a Pedra e suas rodas de samba, com certeza já esteve diante dessa negra de indumentária invariavelmente branca, cabelos no estilo dread e sempre cercada de amigos. Bacharel em Direito, preferiu o exercício dos instrumentos de percussão e da voz, tornando-se percussionista e cantora. A infância dividida entre a Tijuca e Bento Ribeiro e sob a forte influência de pessoas ligadas ao samba, sendo afilhada, inclusive, de Xangô da Mangueira, não tornou difícil para ela definir o que pretendia seguir. Frequentou a escola de música instrumental Youngest, em Londres, onde também aprendeu piano. Tocou com Paulo Moura, Alcione, Beth Carvalho, entre outros artistas e até já foi premiada em certa ocasião como melhor partideira do país. Atuou em grupos como Swing Batom e Seda Pura, de formação apenas feminina, como também no Malandros e Malícias, composto só por homens. Criou com o maestro Benedito Espírito Santo a Music Fabric, escola de música que funcionou por algum tempo na UERJ, mesmo período em que fazia parte do grupo Farofa Carioca. Atualmente está vinculada a projetos na Mangueira com aulas de percussão para crianças e também no Centro Cultural Quilombo, na Fazenda Botafogo, em Acari.
66
Presença constante na maioria das vezes em que estive na Pedra do Sal, acompanhando, principalmente, o Movimento Samba na Fonte, às quartas-feiras, Márcia Moura passou a fazer parte da população da Saúde a partir do convite feito pelos amigos Lucinha e Damião. Estes criaram a roda de samba Sal do Samba, cuja atração, além da cantora, era a feijoada preparada por Lucinha, acompanhamento mais do que adequado para o evento. Como filha de ialorixá, Márcia tem sua formação religiosa com base espírita e também defende uma preservação da Pedra como espaço sagrado. Por outro lado entende que não se pode analisar a questão apenas por um viés. E ao falar do que atualmente se está produzindo em matéria de samba naquele local, opina que muito do que antes apreciava se perdeu, como o próprio Samba na Fonte, que segundo ela, saiu de cena quando era uma atração das mais
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
interessantes. “Havia muita qualidade, não sei por que não foi à frente!”. Num tom de fala em que reproduz um misto de frustração e resignação ela admite que já não é tão aguda a sua presença nos sambas da Pedra porque tem observado uma certa descontextualização entre o que representa o lugar e o modelo de sambas que alguns grupos praticam lá. Chega mesmo a cogitar que qualquer dia vão estar promovendo outros gêneros naquela que se cultiva como o berço do samba: “É só alguém tomar a iniciativa!”. E, ao encontro dessa impressão externada por ela, pude observar em algumas visitas, não propriamente na Pedra, mas no seu entorno, manifestações outras, como jovens ouvindo funk em alto volume, nos seus carros, enquanto bebiam numa tenda, a poucos metros da roda de samba que acontecia no mesmo momento. Aqueles jovens estavam apreciando qualquer coisa, menos o que de fato se oferece tradicionalmente ali. Aliás, completamente alheios ao ambiente e o que ele representa, ainda criavam uma perturbação a mais para os moradores, que já se sentem incomodados com a intensa agitação na Pedra nos dias de samba. A confusão de sons, num determinado instante, me irritou a tal ponto de eu me retirar e até me questionar sobre o que era aquilo, e o que eu estava fazendo ali. Mesmo isento de qualquer purismo, entendo ser absolutamente inconcebível os Três apitos da fábrica, de Noel, serem abafados, naquela circunstância, pelo som renitente de um batidão.
67 A crítica de quem se julga parte da ‘ralé’ que frequentava a Pedra, a qual, segundo ela, agora é palco de tudo e foco de muitos oportunistas, se estende numa comparação ao Terreirão do Samba, na Praça Onze. Nas suas palavras esses espaços antes pertencentes ao ‘povão’, agora já recebem até franquias de bares famosos, destituindo de vez o princípio de ambiente popular. Ao encontro da crítica de Márcia, já em Bakhtin (1996, p. 30) essa perda de espaço do povo nas festas populares fora sentida. Como quando ele comenta o carnaval da França, num período posterior à metade do século XVII. Segundo ele, ocorre “um processo de redução, falsificação e empobrecimento” instaurando-se o que ele denomina uma “estatização da vida festiva.”. Quando inquirida sobre o futuro da Pedra a resposta de Márcia soa com certa decepção: “A Pedra vai acabar se tornando uma Lapa”. Como tantos outros, Márcia parece enxergar sob o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
mesmo prisma o que parece estar se constituindo uma verdade, de tanta afirmação. De qualquer modo não se pode negar que a cidade multicultural, em constante mutação, está suscetível a toda sorte de alteração em sua ordem, seja ela social ou física. Esta afetação, inclusive, pode ocorrer em ambas as instâncias. E parece estar caminhando nesse sentido a história, até bem pouco tempo estagnada da região portuária. Hoje a poeira das obras substitui a poeira do esquecimento a que ela parecia condenada. Do breu, eis que um olhar de águia se projetou sobre o lugar e enxergou possibilidades nunca dantes enxergadas. Talvez, não o que o lugar e seus moradores mais necessitavam, mas o que se propuseram a oferecer. Daí por diante é só expectativa, e até que se concretize algo para justificar isso ou aquilo, essa apreensão dos indivíduos envolvidos diretamente no tal processo estará apenas fomentando uma gama de especulações. Aparentemente, indiferente ao que pode suceder as obras do Porto Maravilha, nome dado ao projeto de revitalização da zona portuária, implementado pela prefeitura do Rio e suas parcerias, Lucinha segue vendendo suas iguarias, ostentando ainda um pequeno suporte histórico sobre o que oferece. Um texto impresso num banner ao lado do balcão informa com propriedade a história e o valor do alimento mais procurado na sua barraca: o zungu qilombola. “É o angu, só que em vez de miúdos de boi, leva frutos do mar!”
68
Lucinha, como é amplamente conhecida entre todos aqueles que residem ou transitam pelos arredores da Pedra, é uma figura ímpar naquele cenário. Moradora há mais de trinta anos e sempre atuante em defesa dos direitos que entende ter o povo negro sobre aquele lugar, Marilucia Luzia tem na sua imagem um retrato cativo na parede virtual da Pedra. É praticamente impossível não notar e posteriormente não estabelecer uma aproximação com aquela mulher negra de expressão alegre e cativante, tanto pelo paladar quanto pelo argumento. Aos cinquenta e dois anos ela reside numa edificação secular, cujo estado de conservação está seriamente comprometido, sobretudo por se tratar de um bem tombado que não pode sofrer alteração na sua fachada original. Enquanto isso ela abriga ao lado do marido, Damião, a sede da Associação de Remanescentes do Quilombo da Pedra do Sal (ARQUIPEDRA). Damião preside a associação em
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
que, juntamente com outros membros, sustentam o reconhecimento de uma comunidade quilombola na região. Lucinha informa que não recebem qualquer apoio financeiro e que como um legado histórico do povo negro, a luta é intensa e sempre difícil. Por outro lado ela afirma receber o apoio importante da Fundação Palmares e da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Social. Como parceiro em defesa dos direitos requeridos, o tradicional grupo Afoxé Filhos de Ghandi, que assim como a ARQUIPEDRA também resiste num prédio quase em ruínas na Rua Camerino, na altura do Jardim Suspenso do Valongo. Presidido por Carlos Machado, aquela entidade também opera na manutenção de cursos de percussão para crianças, ensinando e tentando dessa forma, manter a sua cultura ativa. Buscando, junto aos menores, estimular o conhecimento e a apreciação da cultura do tambor, os toques, os tipos de instrumentos, na medida do possível, a disseminação dessa prática e, concomitantemente, a construção de valores importantes para a educação e integração social desse aprendiz. A origem de toda esta organização em torno de um reconhecimento e valoração da Pedra do Sal partiu da idealização do projeto Sal do Samba. Lucinha e Damião iniciaram, segundo ela, por volta do ano 2000 este projeto cultural, cujo mote fundamental consistia em algumas ações como a lavagem da Pedra, numa
69
homenagem às tias baianas, pioneiras e responsáveis diretas na história da região e do samba, consequentemente. Como documenta a história daquelas tias baianas, os eventos eram verdadeiras confraternizações que contavam sempre com batuques e comida. O Sal do Samba não podia ser diferente, e arrebanhava para a Pedra grande número de pessoas interessadas no projeto, atraídas pelo samba e seduzidas pela feijoada. A partir de então, contando com a participação dos Filhos de Ghandi, passaram a ser realizados diversos festejos religiosos, como a própria lavagem, no dia internacional do samba, a festa de São Jorge, com alvorada e rituais e um cortejo todos os segundos sábados de dezembro, denominado Presente das Iabás, que parte com oferendas da Pedra do Sal até o Píer Mauá, onde, por fim, são atiradas ao mar.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Em dias de samba na Pedra, lá está aquela senhora, invariavelmente de branco, cabelos trançados e muita simpatia no trato com o público. Este, em sua maioria jovem, parece querer reconhecer algo que na verdade eles ainda nem conhecem. Foi assim que certa vez me diverti ao vê-la sozinha, completamente cercada de fregueses que solicitavam isso ou aquilo, quando em meio ao caos instaurado um jovem a questionava sobre a idade da casa em que ela vive e quem havia vivido ali no passado. Automaticamente, de tão atarefada, entre servir um cliente e dar troco a outro, respondera: “Ah, mil oitocentos e pouco.” “Um bacana daquela época.” Com essa mesma graça, mas também com muito amor ao que faz, ela me confirma o seu ideal de ver a Pedra do Sal como um importante espaço cultural no cenário nacional, simbolizando a cultura negra no Brasil através do samba e de suas raízes africanas. Ela não critica o samba que se pratica atualmente na Pedra, mas é mais uma a lamentar a saída das quartas-feiras do Samba na Fonte. “O Samba na Fonte era resistência, era samba de verdade.” E se lamenta a perda do que considera “samba de resistência”, julga que sua comida também é resistência cultural. “O zungu era a comida dos negros. As casas de zungu eram focos de resistência.” No tabuleiro da Lucinha tem zungu, e além de outras iguarias tanto quanto saborosas, há uma história de vida e uma figura humana que encarna o real espírito do lugar: a força atuante da mulher negra como iniciadora e fomentadora
70
de atividades e ações em prol do coletivo; a característica matriarcal que além de se fazer presente nas lendárias tias baianas ainda se reflete na denominação do
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
morro que se eleva acima da Pedra, seja ela Conceição, ou mãe Oxum.
71
4.2. Samba na Fonte
É samba na fonte Não posso faltar Vou beber do samba Que rola por lá... Tem que bater na palma da mão Tem que ajudar a cantar o refrão É pura magia Com alto astral É Samba na Fonte É Pedra do Sal33 Quando fui pela primeira vez à Pedra do Sal fui levado a convite por um companheiro de trabalho, que se autointitulava compositor. Seu nome, como depois pude constatar, era um dos nomes mais queridos dentre os integrantes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
daquele grupo de compositores. Gustavo SB, como ainda é reconhecido pelas rodas de samba por onde transita, ao chegar naquela quarta-feira, e após me acomodar num canto daquele ambiente repleto, fora aclamado na mesa, sendo recebido com saudações calorosas pelos demais companheiros, e isso foi algo que julguei bastante significativo. No decurso, chegado o momento da apresentação dele, dominou o espaço com uma envolvente alegria aliada a uma boa expressão corporal, personalizando seu modo contagiante de cantar. A letra do samba falava sobre a história de uma negra escrava que castigada pela vaidade da sinhá, havia alcançado a “Liberdade Eterna” (título do samba), após, finalmente, morrer no tronco. Este samba, na verdade, é fruto da sua leitura do romance psicografado Tambores de Angola. Fora grande a comoção quando já nos primeiros acordes do cavaquinho a voz de SB proclamava:
Livre do cativeiro Açoite não mais me sangra Ganhei liberdade eterna Fui viver em Aruanda Na sequência todos repetiam este estribilho e a roda incendiava. Naquele momento o meu companheiro de trabalho havia se transformado num artista 33
Samba na Fonte, Pakato do Cavaco.
72
extremamente expressivo, causando mesmo um agradável impacto neste mero observador. Além disso, me convencera de que se tratava realmente de um compositor, com bons recursos poéticos, musicais e, principalmente, de ser um intérprete competente, com ótima performance quando de posse do microfone. Sem sombra de dúvida, de tudo o que pude presenciar como exibição de samba, na Pedra do Sal, o que considero como o mais representativo e original evento dessa natureza foi o Movimento de Compositores Samba na Fonte. Digo foi, porque atualmente e infelizmente aquele espaço não recebe mais os encontros realizados às quartas-feiras por aqueles senhores. Quarta-feira, independentemente das condições climáticas, eles se deslocavam dos mais variados pontos da cidade, e até de fora dela, para se reunirem naquele recanto de rua, escondido da maioria da população carioca, no
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
bairro da Saúde. Às dezoito horas eles iam chegando e entre cumprimentos e sorrisos, abraços e apertos de mãos, iam se acomodando em vários agrupamentos para logo em seguida, formando um só corpo em torno da mesa, iniciarem o evento. No local, aquela decantada pedra que serve de acesso à Rua do Jogo da Bola e, consequentemente, ao alto do morro. O casario denunciando um Rio que já não existe, agora sufocado pela dinâmica da vida urbana e pela especulação imobiliária. O lugar conhecido como Pedra do Sal trata-se de um templo a céu aberto para todos que cultuam o samba na sua condição mais primária. É assim com o grupo que fomenta a badalada Roda de Samba da Pedra do Sal, às segundas-feiras. É assim com o grupo que recentemente tem promovido sambas às sextas-feiras. Era assim com os mais de vinte compositores, ilustres desconhecidos da mídia, mas tão conceituados naquele local. Ainda hoje ecoam nos arredores da Pedra o sucesso do projeto musical que eles desenvolviam, com sambas autorais e inéditos, denominado Movimento Samba na Fonte (MSF). Por volta das cinco e meia da tarde já era possível notar a presença dos primeiros compositores, os quais se preocupavam em encabeçar a lista de apresentação, que era por ordem de chegada. O evento só se iniciava às seis, mas às vezes era normal ocorrer algum atraso. Ali se configurava uma troca interessante de informações, onde se teciam parcerias, atualizavam-se agendas
73
sobre roteiros de eventos, aprendia-se e ensinava-se informalmente, num exercício dinâmico e natural. Dos que costumavam chegar cedo, Gegê de Itaboraí, ou simplesmente, entre os pares da roda, Seu Gegê, um dos mais velhos do grupo e também um dos mais queridos. De um bairro distante do distrito de Itaboraí chamado Pedra Bonita, do alto de seus setenta e tantos anos, essa figura carismática se deslocava religiosamente todas as quartas para o encontro semanal de compositores. Passo vagaroso, mas firme, de quem jamais perdeu a cadência, compositor da Portela, ele diferenciava suas apresentações na Pedra com as marcas do ritmo afoxé e da espiritualidade, fortemente presentes em suas composições. Ao comentar sua relação com o samba e os lugares onde o praticava, ele me fez uma observação interessante: “Sou compositor da Portela, mas quando vim pra Pedra do Sal foi
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
como se estivesse revivendo uma existência passada. Meu pai espiritual é Xangô, moro em Pedra Bonita e vivo fazendo essa ponte com a Pedra do Sal. Tudo é muito claro pra mim e essa pedra (Pedra do Sal) tem muito axé.” Portando uma bolsa repleta de papéis com letras e mais letras de sambas, Gegê sempre trazia uma novidade para oferecer parceria a alguém. Seu principal parceiro era – como tem sido até hoje – o compositor e também cavaquinista Pakato do Cavaco. A dupla tem sambas primorosos, sempre carregados de simbologia religiosa, como parece ser uma tônica entre os temas desse tipo de composição. Os orixás mais mencionados nas letras são, como não poderiam deixar de ser, Xangô e Oxum. Na mesma linha religiosa e também oriundo do outro lado da baía, Nier Ribeiro, de São Gonçalo, compositor da Escola de Samba Porto da Pedra, afirma que todos os seus sambas são presentes que ele recebe. Num deles ele relata uma visão de Xangô, quando, numa madrugada perdera o sono e, ao chegar a sua janela, pode contemplar a imagem iluminada do Orixá. A denominação desse movimento de compositores, Samba na Fonte, parece uma metáfora perfeita para ilustrar as aspirações desses artistas. Movidos pela história daquele local e pelo prazer do que faziam, esses compositores cantavam seus sambas respeitando o estatuto que reprovava a execução de sambas já gravados. Ali só se cantavam sambas inéditos. Aliás, mais do que respeitar o estatuto, esta era uma determinação inquestionável por todos. O hino, cantado na
74
abertura e no encerramento do evento, de autoria de Wagner Nascimento e Ferreira, oferecia uma perfeita imagem da filosofia do grupo.
Todos nós somos iguais
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Todos nós somos iguais/Apesar das diferenças Todos nós queremos paz/Desavença não compensa Todos nós sentimos dor/Quando quebra o elo da corrente Juntos somos mais fortes/O fruto é o espelho da semente Faça a sua parte/Traga sua arte pra junto da gente Você só precisa/Vestir a camisa e estar consciente Que é possível ser igual/Mesmo sendo diferente Não queremos ganhar de ninguém/Mas não vamos perder pra gente Vem cá, vem cantar com a gente/Somar na linha de frente Nós temos água/Purinha brotando na fonte E um belo horizonte/ Bem ali na frente
Quando iniciei a escrita desta dissertação estabeleci como obrigação dedicar um espaço para o que sempre entendi ser o mais autêntico projeto de samba executado na Pedra. Todavia, embora já tivesse se tornado uma espécie de ritual a minha frequência nas rodas das quartas-feiras, não havia eu ainda estruturado um sentido que organizasse as informações que se ofereciam, para transformar aquela vivência em pesquisa. Tudo ficava num plano de hipóteses e possibilidades. Quando, porém, um golpe desferido pela Secretaria Especial de Ordem Pública (SEOP), da gestão do então Prefeito Eduardo Paes, desterrou o grupo de compositores do seu espaço sagrado, percebi, ali, acentuada a necessidade de narrar e expor a conhecimento, o surgimento e a trajetória do Movimento Samba na Fonte. Embora para uns se tratasse apenas de uma iniciativa comum e irrelevante, como outros que despontam pela cidade, não foi dessa forma que o identifiquei, talvez porque, sem muita explicação, tenha me identificado com ele. Buscando a origem do projeto, idealizadores e fundadores, esbarrei em obstruções que julguei, talvez levianamente, como descaso de alguns membros em não tocar no assunto. Posteriormente, percebi que se tratava mesmo de desinformação, afinal os integrantes nesse período não vinham de muito tempo.
75
Dos pioneiros do projeto, poucos resistiram às vicissitudes do processo de manutenção, sobretudo nos moldes como o projeto foi conduzido. A ideia quase amadora de se manter cantando sambas inéditos e autorais, para uns foi utópica demais. Da mesma forma, na outra extremidade da mensagem, não é qualquer público que se agrada dessa modalidade de exibição. Na maioria das vezes busca-se o que já é conhecido. O novo nem sempre é compreendido e a rejeição chega ser algo, para os padrões instaurados, até natural. Ainda assim, sondando os mais antigos, checando algumas fontes que considerei importantes, obtive respostas para algumas dúvidas. Acredito que refazer o caminho percorrido pelo grupo até este momento proporcionou reflexões imprescindíveis para uma reestruturação. De qualquer modo, ainda que desejando como um fã a restauração daquelas rodas de samba às quartas-feiras na Pedra do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Sal, não tenho qualquer pretensão outra que não a da pesquisa. Até porque nem saberia se essas respostas podem de fato indicar um caminho que contribua para alterar o atual estágio em que se encontra o Movimento. O fato é que quando eu resolvi buscar essas informações o nome mais citado era o de Ferreira. Invariavelmente os comentários dos demais membros apontavam para aquela pessoa que eu não chegara a conhecer, desde a minha primeira visita ao evento. Na verdade ele ainda estava no grupo nesse período, mas como ainda não havia de minha parte um interesse objetivo, ou seja, o meu interesse não ia além da apreciação de um frequentador comum, não o conheci pessoalmente. Mas naquele momento Ferreira era o presidente do grupo e, segundo a afirmação unânime dos indagados, regia com “mão de ferro” a direção do Movimento. Para muitos dos membros isso constituía um constrangimento, pois parecia se tratar de uma ditadura, onde a palavra dele pesava sobre as demais e não havia muitos meios de isso ser revertido. Autoritário e centralizador, Ferreira divide até hoje opiniões, quando num retrospecto, todos também reconhecem que fora durante a sua gestão que o Samba na Fonte alcançou sua maior evidência. Diante desse panorama, portanto, eu não poderia agir diferente e a primeira pessoa a quem fui buscar foi exatamente o Ferreira. Com uma dificuldade inicial decorrente da falta de informação sobre seu paradeiro, ou um
76
contato telefônico que fosse, somente durante uma conversa casual, a partir de um encontro mais ainda casual, com Altair Barbosa, no velho sobrado do Largo da Prainha, foi que deste obtive o número do celular do ex-presidente. No mesmo momento nos falamos e agendamos um encontro, para alguns dias depois, num bar da Lapa. Ao encontrá-lo àquela noite, no tal bar da Rua do Riachuelo, conheci um Ferreira cuja voz e o olhar realmente expressavam algo de austeridade. Mas durante o diálogo observei nele, sobretudo, uma perspicácia inata e uma visão ágil e prática do que era gerir algo como o Movimento Samba na Fonte. “Tínhamos que ter uma receita, logo tínhamos que produzir meios para isso”. E foi assim que explorando obviamente o principal produto que possuíam, as obras musicais de seus compositores, confeccionou-se o primeiro CD e posteriormente o primeiro
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
DVD, intitulado Bate-Bola I. Além
disso,
passaram
a
ser
confeccionadas
também
camisas
personalizadas com o nome do Movimento e o endereço eletrônico, cujo site oferecia informações, fotos, postagens e comentários a respeito do MSF, além de exibir o perfil de cada compositor, acompanhado pelo samba por ele escolhido para divulgação. Fora montada uma lojinha para exposição e venda dos tais produtos, abarcando, ainda, trabalhos musicais independentes de seus membros, como também livros de poesia e romances escritos pelos mesmos. É bem verdade que, no que tange à qualidade técnica dos DVDs produzidos pelo grupo, não se pode impor uma crítica muito rigorosa na sua apreciação. A captação do som é direta, sem qualquer mixagem pós-gravação. A filmagem é realizada com equipamento analógico e fica evidente a falta de recursos econômicos para se obter um resultado mais apurado. No entanto, aos olhos que buscam a essência e a originalidade, está ali um resultado primoroso da iniciativa e da ousadia em se produzir, em meio a um momento de tanta inexpressividade artística do gênero, um artigo realmente respeitável. Tanto que era vendido em boa quantidade, com bastante procura pelos frequentadores, durante as exibições das quartas-feiras. Com firmeza na fala, Ferreira me relatou o princípio de tudo e também o que motivou a sua saída. Ao longo da sua narrativa ficou evidente a construção de
77
uma parábola, originada a partir do seu entusiasmo inicial, com o sucesso atingido nos primeiros tempos e o declínio que se deflagrou incontestavelmente após a sua saída. Com um misto de espanto e tristeza ouviu de mim algumas informações sobre o momento atual daquele que foi um promissor projeto musical e que em pouco tempo perdeu entre tantas coisas o que ele considera a sua identidade: a sua realização na Pedra do Sal. A postura de liderança lhe rendeu o título de criador do grupo, mas ele mesmo faz questão de esclarecer que esse mérito não foi dele. “Quem teve a idéia de criar esse espaço foi o Dinho, do Galocantô.” Ferreira conta que foi procurado pelo músico desse grupo, que é um dos mais badalados do atual cenário, sobretudo nas casas de samba do Centro do Rio, quando esse promovia uma roda de samba na quadra da São Clemente, na Cidade Nova.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Dali, estabelecendo contato com outros músicos e compositores, levaram a idéia para o Clube do Sindicato dos Fumageiros, localizado na Rua Hadock Lobo, na Tijuca. Entre os componentes da primeira edição do evento, numa quinta-feira do mês de agosto de 2006 estavam Biro, Dinho, Ferreira, Wagner Nascimento, Wantuir e Paulinho de Brito. Nas seguintes oportunidades, outros foram sendo agregados, como Altair Barbosa e Haroldo César, sendo este último, aquele que se tornaria o sucessor de Ferreira na presidência do MSF. Segundo Ferreira, a ida do Movimento para a Pedra do Sal surgiu de um entendimento com o proprietário do bar que existia no local, e que por um bom tempo constituiu o amparo e o suporte para a manutenção da roda de samba às quartas-feiras.
A oferta de banheiros e os serviços de bebida e comida
dispensados ao público ficavam por conta do bar. Os músicos fomentavam o consumo com o samba e o Movimento recebia uma cota por isto. Cota essa que, segundo Ferreira, era revertida em aquisição de materiais necessários ao grupo, ou aplicada juntamente com as outras receitas, em um fundo de reserva que garantiria alguma autonomia, mesmo que temporária, no caso de um eventual revés. Ferreira revela que ao sair da presidência do MSF , após conturbada reunião, deixou um caixa de valor considerável. Deixou ainda uma boa quantidade de camisas para venda e lamenta que tudo tenha se perdido tão rapidamente, levando o Samba na Fonte a se descaracterizar de tal forma e a tal
78
ponto, que faz agora suas exibições às terças-feiras, num botequim situado na Rua Gomes Freire, na Lapa. Indagado se teria o desejo de retornar ao grupo, ele negou, embora admitisse que enquanto esteve à frente do Movimento enxergou concretas possibilidades de se chegar a resultados bastante interessantes. Isso o fascinava, mas a vaidade de alguns membros do grupo foi determinante para a derrocada que se prenunciou e que se confirmou posteriormente. Enquanto buscava lembranças mencionou a composição de Todos nós somos iguais. Em 2010, quando passei a prestar atenção de forma mais criteriosa ao MSF, o presidente já era Haroldo César. Àquela época, esboçando os primeiros movimentos desta pesquisa, acompanhei a trajetória conturbada e sempre contestada por alguns, da gestão do MSF por Haroldo. Alheio a estas questões PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
administrativas, muito mais me interessava as composições e a história de vida dele e de outros componentes. Foi por esse viés que cresceu o meu encanto por aquele grupo de compositores. Ao se estabelecer um perfil dos compositores do Samba na Fonte vale ressaltar a heterogeneidade de suas vidas profissionais: militares, professores, empresários, informais e outros, além de músicos, obviamente. O próprio Haroldo César é um bom exemplo da diversidade característica do Samba na Fonte. Funcionário da Comlurb, empresa pública responsável pela limpeza da cidade, negro, escolaridade média, é autor de dois romances, sendo um já publicado sob o título Garimpando composições, no qual o protagonista é um gari que transfere para os sambas que compõe as suas relações cotidianas, do trabalho e da vida pessoal. O resultado desta obra, muito mais do que uma leitura leve e ingenuamente interessante, representa a transposição de mais uma barreira, por um homem simples e negro, que confirma na sua escrita e na sua arte, o seu valor, a sua história, sua importância e seu espaço, na vida e na história brasileira. Policial reformado, Paulinho de Brito é daquele tipo que dificilmente nos levaria a associá-lo a função que exerceu por mais de vinte anos. A fala mansa, denotando uma sutil malandragem, e o rosto de aspecto fragilizado por uma fina armação dos óculos lhe conferem um ar filosófico, que se acentua quando interpreta seus sambas. Meticuloso com as palavras confessa-se ‘chato’ na busca
79
pela melhor maneira de transmitir suas ideias. O resultado invariavelmente é de bom gosto, como a obra Nada de mais, um samba de gafieira que parece ser um estilo preferido, em que ele fala dos anseios de um homem simples do subúrbio, com habilidade e muito ritmo. Não peço nada de mais Afinal não tenho o olho tão grande assim Só quero uma caxanga de dois quartos Na Boca do Mato, foi lá que eu nasci Uma preta maneira, fiel companheira Que me dê dois filhos, de preferência um casal Um viralatas esperto latindo, tomando conta do quintal... Num outro estilo, em um de seus sambas mais conhecidos e mais bonitos, ele deixa no ar um questionamento, quando expõe sua vida numa dialogia com a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
análise que faz do passado e do presente. Em Tá pensando o quê, ele escreve: Sou negro manhoso criado no morro O samba é a fonte a quem peço socorro Lá no Preto Forro aprendi a fazer (...) Ta pensando o quê? Sou neto de um preto valente alforriado Que deu duro na estiva, pegando o pesado Para dar a seus filhos o que comerem Tá pensando o quê? Sou do tempo que a cana era realmente dura Vagabundo e polícia não tinha mistura Havia o respeito para não se morderem... Diferentemente do estilo elegante de Paulinho de Brito, irrompe a cada apresentação o veio satírico de Luiz Fernando. Irrepreensível cronista, marcou com seus sambas, ao longo de sua história dentro do MSF, acontecimentos relevantes ou não, cuja divulgação nos meios de comunicação de massa repercutiram de alguma forma, causando comoção popular. Numa de suas últimas pérolas versava sobre a “passagem” da cantora britânica Amy Winehouse. Essas fontes são o fio da meada que ele não costuma perder para tecer letras engraçadas, facilmente apreensíveis pelo público que se diverte, atestando assim o êxito esperado pelo autor. Certa vez, uma amiga argentina que fazia intercâmbio cultural aqui no Rio, ao me ver comentando sobre a Pedra do Sal, me interrompeu para dizer que já
80
havia ido ao samba de lá e que ouvira uma música que falava sobre o vento a levantar as vestes de uma bela morena. Na mesma hora ficou claro para mim que ela havia ouvido o Luiz Fernando e o seu Deixa o vento trabalhar, em parceria com Wantuir e Hudson Costa, cujo primeiro refrão diz: Obrigado natureza ai, ai, ai De rendinha que beleza Enquanto que em outro implora à morena:
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Deixa o vento trabalhar Deixa o vento trabalhar, oi menina Não seja assim tão malvada Solte a barra da saia rodada O que há de bonito Tem que se mostrar Ô laiá, ô laiá...” Em conversa com ele, numa tarde de quinta-feira, no centro do Rio, esse advogado de ofício me revelou que das serestas promovidas pelo seu pai, quando criança, no Lins de Vasconcelos, ficou o prazer pela percussão. Atravessado pelo rock dos anos oitenta acabou optando pelo samba, como o fez pela bateria, quando teve de optar entre o instrumento e o Fiat 147, do qual se desfez para ficar com a primeira opção. A conquista de um samba para o Bloco das Carmelitas deflagrou decisivamente sua imersão nesse universo. No Império Serrano é compositor concorrente de todos os anos, com a mesma fidelidade dedicada até hoje ao Samba na Fonte. A mesa do Samba na Fonte na maioria das vezes contava com Juninho no violão sete cordas, Wagner Nascimento e Pakato do Cavaco nos cavaquinhos, Peterson no surdo, Altair Barbosa no pandeiro e no tantã havia alternância entre músicos e os próprios compositores. Constante também era a presença de chocalho, tamborim, apito, afoxé, formando a “cozinha”, nas mãos dos reservados Seu Brasil, Alcides e Jorge. Da comunhão desses senhores e seus instrumentos, poucas não foram as vezes que presenciei o samba fluindo da Pedra, que imantada por essa energia, atraía passantes e os detinha em sua louvação. Das notas do cavaco de Wagner Nascimento confesso que ouvi surgir os sambas mais bonitos que pude presenciar naquelas rodas de samba. Além de
81
Cavaleiro Maior, exaltação a São Jorge que, sem dúvida, sempre constituiu um dos ápices daquelas exibições, muitas outras obras extremamente criativas e bem elaboradas foram despejadas na Pedra com plena aceitação. Para acentuar mais ainda a beleza das composições, Wagner transpirava suas obras, o que tornava cada interpretação sua simplesmente espetacular. Era assim que ele, tão logo iniciava um samba, era seguido pela maioria das vozes que compunham não só o grupo de compositores em torno da mesa, mas também o público que o admirava e no qual eu me via inserido. A formiga tomou conta da terra Venceu a guerra contra o tamanduá
(2 vezes)
Quem espera não alcança Nessa dança quem não dança vai dançar... (2 vezes)
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Já Pakato do Cavaco recebera este apelido por conta de seu temperamento terno e generoso, na verdade numa alusão ao desenho animado He-Man. Seus sambas sempre muito alegres e também repletos de religiosidade mais traduzem a outra face do mesmo personagem, após a transformação. Com parcerias diversas tem com os parceiros mais constantes Gegê de Itaboraí e Orlando Professor uma das minhas favoritas. Este último, aliás, professor de História, é detentor de letras consistentes e curiosas, geralmente musicadas pelo próprio Pakato. É o caso da seguinte obra, em que é contada a história de dois negros africanos chegando ao Brasil. Riquezas de um Povo Cadê Taió, Cadê Caindê Foi Naquela travessia Onde foram se perder A bordo de um tumbeiro Balançando pra lá e pra cá No movimento das ondas Das águas salgadas do mar Me trouxe a um mundo novo Onde eu vou cultuar As tradições do meu povo Riquezas que vou espalhar Na lida da cana Dentro dos engenhos
BIS
82
Na casa grande, em todo lugar Vou bater tambor Falar em iorubá Mostrar o valor Daquela terra de lá
Empunhando o pandeiro de forma branda, com a mesma simplicidade que lhe recobre os traços e as atitudes, o mineirinho Altair Barbosa parece escondido em algum recanto do ambiente onde acontece o evento. O som do pandeiro, no entanto, denuncia com qualidade a sua presença. Sutileza seja talvez sua marca, sobretudo quando esta é endossada pelas melodias e letras românticas do seu repertório. Apesar do aspecto frágil, não há quem fique impassível mediante a sua altivez na interpretação de seus sambas insinuantes e singulares. Como nas duas estrofes a seguir, dos dois sambas mais esperados pelos seus admiradores durante PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
os eventos.
Nem pensar em olhar para trás Nada disso vai valer E nem chorar, lamentar os seus ais Para não se arrepender...34 Como se não tivesse mais amor E do chão não brotasse a flor Como se não houvesse a dor E o velho sentimento...35 Além dos compositores citados, outros de alto poder criativo e qualidade poderiam ter aqui mencionadas suas obras. O simpático Baez, Beto Machado, também chamado pelos companheiros de Pavarote, devido a sua bela voz. O atual presidente Ismael Veiga, o poeta Rodolfo Caruso, Mário Júnior e tantos outros, que independentemente de terem sido ou não aqui relacionados, contam com a minha admiração de igual forma. Estes compositores exercem sua arte conscientes do que produzem. E pode ser detectado em cada uma de suas obras o respeito à criação, sem vínculo com modismos midiatizados, nem tampouco com purismos radicalizados. Versam em
34 35
As coisas simples da paixão. Altair Barbosa e Carlão do Cavaco. Velho sentimento. Altair Barbosa e Ricardo Barrão
83
todas as correntes com linguagens diversas, sobre temas absolutamente variados. Estariam mais próximos, no entanto, de produzirem um tipo de samba que pesquisadores do assunto qualificariam como “samba do Estácio”. Como neste comentário de João Máximo (2002), comparando o samba do Estácio e o da Cidade Nova:
(...) os que se dedicavam ao chamado “samba de morro”, ou samba do Estácio, mas que já podemos denominar de samba carioca – construíram suas melodias no máximo sobre a harmonia de tímidas violas e o ritmo de modestas percussões. Assim enquanto os músicos da Cidade Nova podiam tocar de tudo, inclusive o choro, que sempre exigiu habilidade ou mesmo virtuosismo de seus instrumentistas, os outros criavam intuitivamente seus sambas, mais limitados de ponto de vista técnico, porém mais ricos em inventiva melódica e expressão poética.36
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
O que trazem na sua bagagem cultural e de vida passa pela própria formação do povo humilde dos subúrbios. Povo que transita pelos trens, que labora em atividades simples, como o peixeiro Monarco, que só depois de tanto tempo pôde ter um samba gravado por Martinho da Vila e, finalmente, algum retorno financeiro. Como tantos outros operários, estivadores, vendedores ambulantes, pregoeiros, que do seu ofício enxergaram pontes para a sua arte. Esta última categoria, aliás, é visto por Tinhorão como uma atividade precursora do jingle. (...) o pregão revela uma tendência inapelável para transformar-se em música, uma vez que o apregoador, ao ir descobrindo aos poucos as amplas possibilidades da modulação da sua voz, acaba invariavelmente cantando em bom sentido os nomes dos artigos que tem para vender ou que deseja comprar.37
O Movimento de Compositores Samba na Fonte, no entanto, atualmente promove sua roda semanal às terças-feiras num bar da Lapa, enquanto acalenta o desejo de retornar ao local com o qual realmente criou identificação. Esse desejo se mantém vivo, não só em seus músicos e compositores, mas também numa extensa lista de cultores da ideia e dos sambas, os quais, com alguma desenvoltura e já por algum tempo, percorriam as bocas destes, entre goles de cerveja e filosóficos bate-papos informais.
36 37
MÁXIMO, 2002, p.17. TINHORÃO, 2005, p.59.
84
4.3. As rodas
Atualmente, dois dias da semana constituem-se como as grandes atrações de samba na Pedra do Sal. Nas segundas, com a Roda de Samba da Pedra do Sal e nas sextas com Thiago Torres e o Samba de Lei. Há algum tempo afastada, mas se articulando para um possível retorno, a roda de compositores do Samba na Fonte deixou uma lacuna irreparável, sobretudo no aspecto da originalidade e da criação. De qualquer forma, é com qualidade e respeito à memória que se fomenta a prática do samba no local, pelo empenho dos músicos das respectivas rodas e de sua crença incondicional no que fazem. Segunda-feira, dia popularmente denominado como “o dia da preguiça”, por ser a retomada da semana de trabalho para grande parte da população. Um
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
lugar e um grupo de pessoas tornam este dia diferenciado. Diferenciado não só pelo que se faz nesse encontro, ou pelo dia, tido por alguns como inadequado, mas, principalmente, por como esse algo é feito. Final de expediente, o movimento no trânsito se intensifica. É a chamada hora do rush. A Praça Mauá apresenta longas filas de passageiros nos terminais de ônibus enquanto que uma grande massa se desloca para a Central do Brasil, onde além dos trens há também um terminal rodoviário. Na contramão da maioria que se dirige para casa, eles vão chegando com seus instrumentos, vindo pela Rua Camerino, tomando à direita a Sacadura Cabral, ou, da Praça Mauá, pela mesma Sacadura Cabral, passando pelo Largo de São Francisco da Prainha, até se encontrarem na base do Morro da Conceição, no enigmático lugar chamado Pedra do Sal. No ano de 2004, um grupo de samba batizado “Batuque na cozinha”, cujo padrinho é ninguém menos do que Martinho da Vila, iniciava os primeiros movimentos para um evento que a cada dia agrega novos cultores. E, sem o menor receio, pode-se afirmar que o que aqueles rapazes iniciaram anos atrás é hoje a roda de samba mais democrática do roteiro cultural carioca: a Roda de Samba da Pedra do Sal. Assim, o que se faz a partir de dezoito horas de segunda-feira, na Pedra do Sal é samba. Porém, “ah, porém!” é um caso diferente o modo como o samba é tratado por lá. Diferente do que as gerações mais recentes (cuja
85
frequência é curiosamente predominante no espaço) se habituaram a ver e conhecer, através da mídia, como samba. Adquirindo respeito e reconhecimento, tanto a roda de samba quanto o grupo evoluíram e inevitavelmente passaram por mudanças. O Batuque, diante da crescente demanda de convites para shows deixou de se apresentar de forma integral na Pedra, priorizando a carreira profissional. Credenciado pela reputação de praticar um samba “de raiz”, o Batuque na Cozinha se tornou bastante conhecido nos pontos da cidade onde se faz samba, sobretudo no centro. Fazer samba “de raiz”, aliás, é imprescindível para os ideais do grupo e para a legião de admiradores que o acompanha em grande número, nos dias e endereços em que se apresenta. Por sua vez, André Corrêa, um dos pioneiros do grupo, permaneceu à
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
frente do evento na Pedra, com uma formação que alterna integrantes, porém que não perde a qualidade. Consolidada, atualmente a Roda de Samba da Pedra do Sal tem como formação mais constante, Juninho Travassos (cavaquinho), Walmir (cuíca), PC (tantã), Wando (surdo), Rogerinho (cavaquinho), Juninho (violão), Pet (pandeiro) e o próprio André Corrêa. Às sextas-feiras, no Rio de Janeiro como em qualquer lugar do mundo, um grande quantitativo da massa trabalhadora, em vez de retornar imediatamente ao lar, reserva o fim do dia para relaxar, como melhor lhe convém. Espalham-se por todos os cantos da cidade um sem-fim de rodas de samba, desde rodas privilegiadas pela presença de artistas renomados, às rodas improvisadas em portas de bares. Basta haver um tantã e logo tudo se ajeita. Não demora e vão aparecendo outras "peças", um pandeiro, um cavaquinho, e muita "palma da mão". Roberto Moura, inclusive, sustenta que "A roda de samba é anterior ao samba porque é a ambiência que favorece e proporciona seu aparecimento" (MOURA, 2004, p.36). Cela uma reunião onde determinado grupo social divide experiências e conhecimentos, sob um modelo muito próprio de linguagem, em que cada um dos presentes reconhece seu lugar e sua função nesse ambiente. Quem tenta se aproximar da Pedra do Sal, em dias de sexta-feira, encontra dificuldades. Há algum tempo (não muito) uma roda de samba passou a acontecer por lá. A frequência é simplesmente assustadora. A aglomeração se assemelha a
86
um foco de formigas em torno e em cima da Pedra, regando com muita cerveja sambas de estilos diversos, novos e antigos, predominando, no entanto, os mais tradicionais. O público, assim como o de segunda-feira é, em sua maioria, composto por moças e rapazes com média de vinte anos, que chegaram ao local, movidos pela curiosidade, por meio de uma divulgação informal, fruto de comentários de quem já conhecia ou ouviu falar. Pessoas que, descobrindo esse ponto marginal em pleno centro do Rio, acabaram (como acontece a todos) se contaminando na irradiação proveniente da Pedra e se tornando assíduos frequentadores. Diferentemente das segundas-feiras, a roda de sexta conta com som amplificado e já é referência no circuito de samba para quem transita no centro do Rio em busca dessa opção. A escolha da sexta-feira já torna propícia a tomada de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
rumo, daqueles que deixam o trabalho ou as universidades, em direção àquele refúgio natural, onde o samba é matéria prima. Quando se chega ao Largo João da Bahiana num princípio de noite de segunda-feira, depara-se com um grande palco que só se faz coberto, por uma grande lona em dias propensos a chuva. A Roda de Samba da Pedra do Sal caracterizou-se ao longo de quase dez anos de atividade por promover o resgate de sambas e compositores do passado e fazendo deste quase compromisso o ponto alto dessas exibições. André Corrêa afirma que o intuito sempre foi exatamente este: preservar a memória de grandes mestres do passado através da execução de suas obras, muitas das quais, esquecidas ou sequer conhecidas por boa parte do público. Uma semelhança entre as rodas em evidência atualmente na Pedra do Sal, que também caracterizava o Movimento Samba na Fonte está no fato de se atribuir ao samba ali praticado, o adjunto que o qualifica, de raiz. Samba de raiz é uma denominação geralmente utilizada para designar um samba tradicional.
O samba de raiz não é propriamente um gênero musical; esta expressão é utilizada para criar uma espécie de rótulo que identifique o samba apresentado como “verdadeiro”, mais próximo das origens e estruturas tradicionais. Designa principalmente uma diferenciação em relação ao “pagode”, inventado pela indústria cultural numa tentativa de distanciar o gênero samba como um todo do estilo que se apresenta na mídia.38 38
ELIAS, 2005, P.155-56.
87
Sobre o mesmo tema Nei Lopes, diante de uma indagação minha, respondeu da seguinte forma: O “samba de raiz” de hoje é mais ou menos o que até a década de 60 se mencionava como “samba de morro”. Mas João Gilberto gravou muito “samba de morro”, de compositores como Zé da Zilda, Jaime Silva, etc. O “samba de raiz” é apenas mais um rótulo mercadológico. Mas tem otário que pensa que é um estilo, e até um gênero.39
Entretanto, é muito comum essa qualificação denotar discriminação a outros formatos de samba, sobretudo aos que são sucesso na mídia, com grupos de jovens visualmente produzidos e de coreografias ensaiadas. O curioso nesta distinção é que parece ser esquecido que o samba durante muito tempo foi discriminado por ser popular. Talvez, a distinção seja entre o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
popular e o popularesco (DINIZ, 2002, p.180). No entanto, se o preconceito se constitui de fato, possa ele estar, ainda que despercebido, sob o prisma de Mário de Andrade quando este diz:
Pois é com a observação inteligente do populário e aproveitamento dele que a música artística se desenvolverá. Mas o artista que se mete num trabalho desses carece alargar as idéias estéticas, senão a obra dele será ineficaz ou até prejudicial. Nada pior que um preconceito. Nada melhor que um preconceito. Tudo depende da eficácia do preconceito.40
Para André Corrêa é só uma questão de qualidade. ”Samba pra mim tem de ser bom e isso eu encontro nos grandes compositores”. Por ter tido uma criação em que o pai era músico, ter convivido com muitos sambistas, como Manacéia, Martinho da Vila, e até mesmo por morar em Vila Isabel, André vê como samba de raiz o samba de boa letra e boa melodia, com arranjo e execução no formato cavaquinho, flauta, violão e percussão, sem aparato eletrônico. Entretanto, não discrimina o modelo produzido pelos atuais grupos “de pagode”, cujo destaque na mídia, segundo ele, acaba indiretamente, abrindo espaço para artistas que estavam fora de evidência há algum tempo e que passam a ser lembrados e solicitados para shows. “Eu conheço muita gente boa que estava sumida, fora da mídia, mas que
39 40
Entrevista concedida por e-mail em 26/12/11. ANDRADE, 1972, P.24-25.
88
de repente é gravada por um desses grupos e acaba sendo lembrada, além de ganhar algum dinheiro.” Para o compositor Gustavo SB, do Samba na Fonte, que tem toda sua história de vida ligada ao morro do São Carlos, no Estácio, samba de raiz é tudo que lembra a história do samba, é o seu vínculo com a história do negro, a cultura do tambor, do ritmo e a poesia que posteriormente a isto tudo veio se somar, por mestres como Noel Rosa, Cartola e outros. “É difícil falar, soa como preconceito, mas esses ‘pagodinhos’ estão mais pra música brega. Pra mim não dá, não.” Às segundas-feiras o público começa a chegar por volta de dezenove horas e não tem hora pra sair. O espaço se transforma num autêntico terreiro, com todos de pé, tentando chegar o mais próximo possível da mesa onde ficam os músicos e cantam marcando o compasso na palma da mão. O som não é amplificado,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
portanto, o que se ouve soa como ancestralidade, cantos, palmas e danças de um período remoto da história daquele lugar. Os sambas são iniciados pelos músicos da mesa e um grande coro de centenas de vozes se forma, percutido pela batida das mãos. Na mesa, cavacos violões, surdo, cuíca e outros instrumentos de percussão. Nos intervalos, enquanto os músicos descansam, o espaço é preenchido por uma atividade alternativa, como exibições de documentários e recitais de poesias. O público é basicamente composto por jovens com ampla maioria para o sexo feminino. Em geral são estudantes universitários, professores, pessoas ligadas a movimentos voltados para a cultura negra, músicos e outras categorias que apreciam o samba “de raiz”. Um exemplo do perfil desse público é o interessante fato relatado por André. Segundo ele, havia uma menina que todas as segundas pedia para ele cantar o samba Sem compromisso41, “do Chico Buarque”, ao que prontamente ele atendia. Até que um dia ele resolveu dizer a ela que aquele samba não era do Chico e sim de um compositor chamado Geraldo Pereira. Ela, talvez um pouco desconsertada, confessou nunca ter ouvido falar nesse nome. Tempos depois, no entanto, procurou-o para mostrar o que havia feito: realizou uma pesquisa, escreveu uma dissertação de mestrado e acabou se tornando uma profunda conhecedora da vida e da obra do artista, obtendo acesso, inclusive, aos familiares dele. Para André, este é um dos resultados que ele 41
Samba de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro. In: 1943: Victor Almeida.
89
entende como recompensa maior pelo trabalho, cujo retorno financeiro, na realidade, segundo ele é quase inexistente. A manutenção do evento não é financiada por ninguém, não há cachê. O que há como receita é a venda de bebidas pelo próprio grupo e um sistema de permuta que funciona da seguinte maneira: a roda de samba se exibe em tal lugar, levando o nome que lhe confere boa reputação, em troca de algo útil ou necessário, como materiais, equipamentos, instrumentos ou, quando possível, remuneração em dinheiro. Na verdade, o que fomenta o espetáculo semanal é o próprio samba, que tem raízes fincadas naquela região desde as umbigadas (CASCUDO, 2002, p.130), passando pela formação dos primeiros ranchos, além, é claro, da energia intraduzível que emana da Pedra. No que tange a representatividade da Pedra para uma realização do samba
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
naquele espaço, todos são unânimes em afirmar a força mística que ela exerce. André Corrêa, por exemplo, embora afirme não ter um conhecimento religioso muito aprofundado, não esconde sua crença em haver algo de místico na Pedra. “Fazemos as rodas na segunda-feira, dia dedicado às almas, só cantamos sambas de compositores em sua maioria falecidos e ainda tem a história de sofrimento e morte de muitos escravos neste lugar. Com certeza uma energia muito forte rola aqui.” Liderado pelo jovem músico Thiago Torres, o Grupo Samba de Lei movimenta as sextas-feiras com um repertório recheado de clássicos, esbanjando competência e qualidade. Num samba de sua autoria, Thiago, como um defensor da tradição, argumenta: “muito mais que boemia, samba é opinião”. E é opinando com autoridade que sambistas, como ele e os demais que lá se apresentam, vão escrevendo a própria história, a partir das inscrições, em forma de samba, que deixam na Pedra. É o samba sendo feito e fazendo história, sendo questionado e questionando, em cada corpo, em cada instrumento, em cada uma destas rodas citadas, assim como em tantas outras, desde os ecos da senzala até os refinados estúdios de gravação. O culto ao samba e ao local por esses músicos escolhido passa pelo que Tinhorão (2008) irá atribuir ao que ocorrera a partir do século XVIII, quando “os batuques da área urbana ou da periferia (...) puderam ganhar, afinal, o caráter oficialmente reconhecido de local de diversão.” O canto e a dança
90
dos pioneiros da Pedra do Sal são hoje reinventados por jovens letrados, intelectuais e fundamentalmente pessoas contextualizadas com a história que
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
cerca, tanto o samba, quanto o lugar.
91
5. Conclusão Desde o princípio, mesmo quando tudo parecia nebuloso, indefinível, mesmo quando alguns dentro da própria academia – e entendo que, até por ignorância – olhavam-me com certo estranhamento ao me ouvir falar sobre o tema da minha dissertação, nunca pensei que seria em vão. Até porque, na pior das hipóteses, eu estaria trabalhando num projeto que me estaria sendo prazeroso, como o foi. E se aos olhos críticos de quem quer que fosse, ainda que diretamente ninguém tenha se manifestado de forma tão acintosa, julgando-a uma pesquisa vaga e sem relevância no meio literário, estive convencido o tempo todo do seu valor, sobretudo pelo subsídio credibilizante do meu orientador. Escrever sobre uma pedra pode parecer algo, no mínimo frio, afinal, o que
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
se teria de vida para dela extrair. Mas posso dizer que assim como a pedra no meio do caminho, posta por Drummond, a Pedra do Sal representou exatamente este sentido literal: obstáculo a ser transposto. A diferença é que o segredo esteve e estará sempre em não tratá-la dessa forma. Sobretudo porque ela nunca foi nem nunca será obstáculo imposto a nada nem a ninguém. É artigo de apreciação e, ainda assim, para alguns poucos visionários que conseguem enxergar ali o que a sua concretude parece ocultar. De tantos que a visitam, alguns até podem se decepcionar por não encontrarem nela o que imaginavam e por certo levam no íntimo, no mínimo, um sentimento de incompreensão. Nada mais natural se fora do horário e dos dias das rodas de samba nada há ali que lhe renda qualquer menção, digna de um patrimônio cultural e histórico. Encontra o visitante tão somente ela, a Pedra, podendo haver algumas crianças nela escorregando e o silêncio que lhe é facultado. Mas é assim que ela se mantém. O que lhe recobre de mistério é o que lhe supre de encanto. E foi tomado por esse encanto que eu persegui, a partir da experiência pessoal, uma escrita aproximada do que ela me proporcionou. Além do samba de qualidade que dela brota sem muito esforço, ensinamento sobre o simples, sobre a convivência indiscriminada, como ocorre com tantas pessoas que superlotam o espaço nas noites de samba. Como ocorre entre os músicos dos
92
diferentes dias, cujas propostas podem até ser distintas, mas que se afinam num campo harmônico muito singular, dos belos sambas que executam. Quanto ao fato de haver alguma diferença significativa entre as rodas de samba mencionadas, não parece ser relevante nenhuma comparação. O espaço se oferece e a aceitação do público parece mais estar condicionada ao que é oferecido pelas rodas do que propriamente por qualquer rotulação dos eventos como algo cult. E em verdade não deve mesmo haver diferença, uma vez que o artigo que laboram foi que esteve, e em muito, tratado com indiferença. Além do mais e acima de tudo, na essência do que buscam esses artistas figuram os dois
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
principais elementos que os fundamentam: o samba e uma tal Pedra.
93
6. Referências bibliográficas
ABREU, M. O império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: FAPESP, 1999. ALABÁ, João. http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/sambachoro.0301/0139.html. Acessado em 27/06/11. ANDRADE, C. D. de. No meio do caminho. Jornal da poesia. http://www.revista.agulha.nom.br/drumm09.html, acessado em 04/06/10.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
ANDRADE, M. de. Aspectos da literatura brasileira, São Paulo: Martins, 1974. _______ Ensaio sobre a música brasileira. In: Obras completas de Mário de Andrade. SP: Livraria Martins Editora, 1972, p 24-25. _______Macunaíma (O herói sem caráter). São Paulo: Ed. Martins, 1970. ALBUQUERQUE, W. R. de. Uma história do negro no Brasil. Wlamyra R. de Albuquerque, Walter Fraga Filho. _Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2000, p. 198. ASSIS, M. de. Um homem célebre. In: Várias histórias, São Paulo: Ed. Globo, 1997. AZEVEDO, C.M.M. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites, século XIX. RJ: Paz e Terra, 1987. BAKHTIN, M. – A cultura popular na Idade Médio e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec: Ed. Universidade de Brasília, 1993. BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p.198. _______ 1990. Nation and Narration. London/New York: Rautledge, 1990. In: ROUANET, Maria Helena (org). Rio de Janeiro: UERJ – I.L, 1997. BARCELLOS, M.C. Os orixás e o segredo da vida: lógica, mitologia e ecologia. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.
94
BORGES, M. E. L. Exposição Nacional de 1908 e a produção da identidade brasileira. In: Progresso, velocidade, máquina e mídia. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Nº 40, 2008. BRANDÃO, J. de S. Mitologia grega VIII. Petrópolis: Ed. Vozes, 1987. CALDAS, W. 1943 – Iniciação à música popular brasileira, SP: Ed Ática, 1989. CANCLINI, N. G. Narrar o multiculturalismo. In: Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1995, p. 121. CASCUDO, L. da C. 1898-1986. Made in África: (pesquisas e notas). 4º Ed. SP: Global, 2002, p.130.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
CÉSAR, H. Garimpando composições. Rio de Janeiro: Ed. Urbana, 2008. CHAGAS, V. Pedra do Sal, 2007. http://www.contoaberto.org, Acessado em 09/01/2012. CUNHA, E. L. Literatura e identidade. In: Revista do Centro de Estudos Portugueses Hélio Simões. Universidade de Santa Cruz, Dep. Letras e Artes, nº1. Ilhéus: Editus, 1998. DIDIER, C. Noel é 100. Rio de Janeiro: Instituto Memória Musical Brasileira, 2011. DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos tempos, 1999. DINIZ, J. C. Música popular – Leituras e desleituras. In: Literatura e Mídia/Org. Heidrun Krieger e Karl Erick Schollhammer. Rio de Janeiro: Ed. PUC - Rio; SP: Loyola, 2002p. 180. ELIAS, C. Samba do Irajá e de outros subúrbios: um estudo da obra de Nei Lopes. Rio de Janeiro: Pallas, 2005. FREYRE, G. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1981. GOMES, R. C. Da metrópole à cibercidade. Cultura e cosmopolitismos. In: MARGATO, Izabel. Espécies de espaço. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2009. GUIMARÃES, V. L. O trem do samba: uma festa da cultura popular carioca. Rio de Janeiro: a autora, 2007.
95
LOPES, N. O negro no Rio de Janeiro e sua tradição musical: partido alto, calango, chula e outras cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992. ______ O samba, na realidade: a utopia da ascensão social do sambista. RJ: CODECRI, 1981. ______ Partido-alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2002. MATOS, C. N. de; MEDEIROS, F. T. de; TRAVASSOS, E. (organizadoras). Ao encontro da palavra encantada: poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. MÁXIMO, J. Paulinho da Viola: sambista e chorão. Rio de Janeiro, Ed. Editora Relume Dumará MOURA, R. M. No princípio era a roda. Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
______ Praça Onze: no meio do caminho tinha as meninas do Mangue. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Prefeitura, 1999. MUNIZ, Sodré. Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro, Mauad, 1998. NABUCO, J. O abolicionismo, Londres: Abraham Kingdon, 1883, PP. 2325. OLIVEIRA, S.de. http://pt.wikipedia.org/wiki/Silas_de_Oliveira. Acessado em 26/06/11. PENNA, L. de A. República brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, pp. 120-25. PEREIRA, C.A.M. Cacique de Ramos – Uma idéia que deu samba. Rio de Janeiro: E-Papers Serviços Editoriais, 2003. QUEIROZ, S. R. R. de. A abolição da escravidão. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981. RIO, J. do. A alma encantadora das ruas – Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Dep. Geral de Doc. e Inf. Cultural, 1987. RODRIGUES, A. E. M. João do Rio: a cidade e o poeta – olhar de flâneur na belle époque tropical. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. RUIZ, R. Araci Cortes; linda flor. Rio de Janeiro: Funarte, 1984. SAID, E. Cultura e imperialismo, Cia das Letras, 1995. SANDRONI, C. Samba carioca e identidade brasileira. In: DREYFUS, Dominique. Raízes musicais do Brasil, Rio de Janeiro: SESC-RJ, 2005.
96
______Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: Ed UFRJ, 2001. SANTOS, J.R. dos. Uma resposta à cultura do racismo. In: Revista do Brasil – Política cultural no Rio de Janeiro, Edição Especial, 1986, pp.10611. SCHWARZ R.. Nacional por subtração. In: Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.32. SIGAUD, M.F.: PINHO C. Morro da Conceição da memória o futuro. Rio de Janeiro: Sextante Prefeitura, 2000. SODRÉ, M. Samba, o dono do corpo. Exu, corpo e sincopa. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p. 67.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
TINHORÃO, J. R. Os sons dos negros no Brasil. Cantos, danças, folguedos: origens. São Paulo: Ed. 34, 2008. ______ Os sons que vêm da rua. São Paulo: Ed. 34, 2005. ULLOA, A. Pagode: a festa do samba no Rio de Janeiro e nas Américas. Rio de Janeiro: Multimais Editorial, 1998. TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e música brasileira. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2000. VAGALUME (Francisco Guimarães). Na roda do samba, Rio de Janeiro: Funarte, 1978. VARGENS, J. B. M. Monarco, a soberania do samba. Organização André Diniz e Diogo Cunha. Niterói, RJ: Oficina do Parque, 2011. VIANNA, H. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Zahar, Ed. UFRJ, 1995. WISNIK, José Miguel, Sem Receita – Machado Maxixe: o caso Pestana. – São Paulo: Publifolha, 2004. ZILBERBERG, S. Morro da Conceição: padres, soldados, operários. Rio de Janeiro: SMC, Departamento Geral de Patrimônio Cultural, 1996.
97
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
7. Anexo
Ilustração 1: O artista plástico Paulo Dallier na porta de casa
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
98
Ilustração 2: Na primeira visita, o amigo Zé Conceição
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
99
Ilustração 3: Dallier, eu e a tela do São Jorge ao fundo. Uma de suas preferidas.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
100
Ilustração 4: Rubem Confete, no Centro Cultural Pequena África.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
101
Ilustração 5: Placa localizada no Largo João da Bahiana
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
102
Ilustração 6: Lavagem da Pedra pelos Filhos de Ghandi
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
103
Ilustração 7: Acesso ao Jardim do Valongo pela Rua Camerino
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
104
Ilustração 8: Rua Camerino, dezembro de 2011.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
105
Ilustração 9: Sacadura Cabral, dezembro de 2011.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
106
Ilustração 10: Obras na Saúde vistas do sobrado do CCPA.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
107
Ilustração 11: As escavações na Rua Sacadura Cabral.
108
8. Filmes e documentários
Morro da Conceição de Cristiana Grumbach, Brasil, 2005.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1012055/CA
Samba na Fonte: DVD Bate bola I – 2007 II – 2008 III – 2009 VI – 2010