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o tamborim e seus devires na linguagem dos sambas de enredo And rea Stewart Dantas
Resumo: 0 presente trabalho tem como finalidade suprir, no que se refere ao tamborim, a lacuna, no contexte escolar. A caracterizac;:ao de sua linguagem, especificamente nos sambas de enredo, e 0 mapeamento de seus devires rftmicos permitirao aos professores utilizar esse material como gerador de direc;:oes de ensino. Alem disso, pretende contribuir no atual questionamento sobre alternativas ao modelo disciplinar.
Introdu~ao
o tamborim e um
instrumento importante para a caracterizayao tfmbrica de uma bateria de escola de samba. Por estar inserido numa pratica de conjunto, a sua execuyao requer um aprendizado. Este se faz na compreens8.o da linguagem especffica dos sambas de enredo. Entretanto, a literatura a extremamente escassa no que tange a essa tematica. Os livros Batuque Carioca (Gonyalves e Costa, 2000) e Batucadas de Samba: Como Tocar Samba (Salazar, Marcelo. 1991) foram as (micas fontes encontradas que se propoem a fazer 0 registro das levadas e a mostrar a maneira de tocar os instrumentos de uma bateria de escola de samba. Alam da lacuna no que se refere ao material de publicayao, ocorre uma ausencia, nas pr6prias escolas, desse tipo de repert6rio com uma
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identidade brasileira. 0 samba de enredo fruto da produyao das camadas populares da sociedade, mais propriamente dos negros. Tendo sido, por isso, discriminado, ficando a margem das instituiyoes formais de ensino. Entretanto, a pluralidade cultural, ora reconhecida nos diversos campos da vida contemporanea, da legitimidade a que um repert6rio assim constitufdo esteja presente nas atuais praticas pedag6gicas.
E importante, poram, atentar para 0 fate de que, embora as manifestayoes estatico-culturais possuam em sOas linguagens 0 vias do dinamico, do multiplo e do complexo, 0 conhecimento artfstico, quando incorporado a escola, sofre alterayoes profundas. Com 0 intuito de torna-Io efetivamente transmissfvel e assimilavel, a reorganizado, reestruturado e se transforma numa configuray8.o 17
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cognitiva tipicamente escolar, isto e, em conteudo de ensino distribufdo em disciplinas compartimentadas. Como consequencia, aparece um saber fragmentado, descontextualizado, esvaziado da sua dimensao expressiva, sem mais nenhuma relayao com 0 fen6meno vivo da cultura. Tal reconstruyao opera, consequentemente, uma diminuiyao de potencia no material.
E preciso, portanto, refletir sobre os fatos e buscar alternativas ao ensino de musica, que levem em considerayao a complexidade, concretude e contextualidade do fato musical, numa tentativa de mante-Io vivo, e tambem ter alunos e professores mais potencializados. Levando em considerayao tais questoes, este trabalho pretende: 1. contribuir para 0 levantamento, a caracterizayao e 0 funcionamento das levadas do tamborim na Iinguagem dos sambas de emedo, instrumentalizando 0 professor para consulta e utilizayao desse material em seu mapeamento, orientando-o nas ayoes que, posteriormente, serao desenvolvidas na sala de aula; 2. propor uma alternativa para 0 modelo disciplinar institufdo, a partir do tamborim, ultrapassando suas fronteiras rfgidas, compreendendo 0 fen6meno musical na sua transversalidade e complexidade. Utilizamos como referencial teorico, neste trabalho, 0 pensamento rizomatico proposto pelos filosofos Gilles Deleuze e Felix Guattari. Os conceitos de plano, territorio, potencia, assim como os princfpios de conexao, multiplicidade, heterogeneidade, cartografia permitiram-nos transitar pelo territorio do samba de emedo, num trajeto singular, que nos remeteu da quadra escola.
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1 - 0 Pensamento Rizomatico e 0 Territorio dos Sambas de Enredo
o termo rizoma' foi extrafdo da botanica, por Deleuze, e implica num tipo de raiz que se contrapoe raiz pivotante. Essa precisa de uma forte unidade principal, um caule, um tronco, para ser 0 seu eixo, seu centro, de onde partem suas ramificayoes em forma de galhos, folhas.
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o rizoma ao contrario, nao tem um centro. Ele se compoe de inumeras hastes, filetes, Iinhas que se entrelayam, se entrecruzam, se conectam de diversas maneiras entre si, em diferentes pontos, formando um imenso e caotico emaranhado, ora veloz, ora viscoso, mas continuo, movente. "Nao existem pontos ou posiyoes num rizoma como se encontra numa estrutura, numa arvore, numa raiz. Existem somente linhas"(Deleuze e Guattari, 1995, p.17). Nesse sentido, 0 rizoma se apresenta como um caos, isto e, uma multiplicidade de linhas se afirmando ao mesmo tempo. "Eu tendo a pensar as coisas como conjuntos de linhas a serem desemaranhadas, mas tambem cruzadas" (Deleuze, 1992, p. 200). Essa imensa quantidade de linhas que compoe o rizoma, nos permite apontar para uma de suas caracterfsticas, a multiplicidade. "Acreditamos que as Iinhas sao os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos... 0 que ha de interessante, mesmo numa pessoa, sao as linhas que a compoem, que toma emprestado, ou que ela cria" (Deleuze, 1992, p.47).
o entrecruzar de seus filamentos, por sua vez, nos remete para ideia de conexao. "Qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve se-Io" (Deleuze, 1995, p. 15). As linhas se conectam de diversas maneiras entre si e em diferentes pontos, criando relayoes de todo tipo. "As conexoes...se fazem de uma infinidade de maneiras possfveis e nao sao predeterminadas" (Deleuze, 1992, p.154). A variedade dos tipos de linhas que compoe 0 rizoma nos mostra, tambem, uma outra caracterfstica, a heterogeneidade. "0 rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer, e cada um de seus trayos nao remete necessariamente a trayos da mesma natureza" (Deleuze e Guattari, 1995, p. 32). Essas combinayoes de linhas distintas, transversais, propicia cruzamentos de toda sorte de formayoes.
o conjunto de linhasquebradiyas, curvilfneas, diagonais, retas, ziguezagues, se movimentando em diversas direyoes e funcionando simultaneamente, nos remete para a ideia do rizoma como um mapa movente, sendo a cartografia mais uma de suas caracterfsticas.
, 0 pensamento rizom,Hico tem side objeto de varios estudos, estando presente em textos de comunica9ao de pesquisa tais como: 1) Santos. Regina Marcia S.; Dantas, Andrea Stewart; Acosta, Kathiuska & Novaes, Pedro. "Um Curso Sasico de Musica para Professores: Mapa de Trajetos, Saberes e Devires na Pratica Pedag6gica". Anais do 1(J' Encontro Nacional de DidEitica e PrEitica de Ensino (ENDIPE). Poster. Rio de Janeiro, UERJ, 2000, p.427; 2) Santos, Regina Marcia S.; Dantas, Andrea Stewart; Acosta, Kathiuska & Novaes, Pedro. "Maracatu das Multiplas Escutas e Conexoes: Mapa Cartografia Em Um Curso Sasico de Musica Para Professores". IX Encontro Anual da ABEM. Selem, 2000, p.7.
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abem o que chamamos de um 'mapa' ...6 um conjunto de Iinhas diversas funcionando ao mesmo tempo (as linhas da mao formam um mapa). Com efeito, ha tipos de linhas muito diferentes, na arte, mas tambem numa sociedade, numa pessoa.... Por isso cada coisa tem a sua geografia, sua cartografia, seu diagrama (Deleuze, 1992, p,47).
A estrategia para se lidar com esse emaranhado (rizoma) 13 produzir um corte, um crivo no caos. Desses recortes emergem pianos, territ6rios, que sao um ajuntamento de linhas com consistencia provis6ria.
o plano ou territ6rio se comp6e de Iinhas de segmentariedade que Ihe da uma efemera consistencia, mas tambem de linhas de fuga que se expandem para fora dos seus limites, prolongando-se, ate encontrar um outro territ6rio ou outras linhas inaugurando um novo territ6rio, num continuo processo de desterritorializac;:ao e territorializac;:ao. "Todo rizoma compreende linhas de segmentariedade segundo as quais ele 13 estratificado, territorializado, organizado, significado, atribufdo etc., mas compreende tambem linhas de desterritorializac;:ao pelas quais ele foge sem parar" (Deleuze & Guattari, 1995, p.18). Numa situac;:ao de ensino, uma musica utilizada pode ser compreendida como um plano/ territ6rio a ser percorrido pelo professor e alunos. E preciso investiga-Io, reconhecer as multiplas linhas que 0 comp6e e apontar para os inumeros trajetos que podem ser trilhados, fazer, enfim, a sua cartografia. Esse levantamento de percursos, ou melhor, esse mapa virtual 13 inicialmente esboc;:ado pelo professor com 0 intuito de fazer emergir 0 potencial que 0 material musical pode oferecer, para se retirar daf 0 maximo de possibilidades de desdobramentos de direc;:6es, de derivac;:6es e integrac;:6es da experimentac;:ao. Para isso, 0 professor desmembra o territ6rio em questao, desfia suas Iinhas, decomp6e as relac;:6es que Ihe dao consistencia e o comp6e sob novas relac;:6es, novos encadeamentos, no exercfcio de lanc;:ar ideias em todas as direc;:6es, sem que uma se estabelec;:a sobre as outras, como prevalente. Os conteudos musicais flagrados nas Iinhas que emergem do mapa devem ser tratados na sua transversalidade, isto 13, na sua conexao com varias e simultaneas lin has heterogeneas que comp6em aquele territ6rio ou 0 descomp6em desterritorializando-o. Quando Boulez se faz historiador da musica, 6 para moslrar como, cada vez de maneira bem diferente, um grande musico invenla e faz passar uma especie de
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diagonal entre a vertical harmonica e 0 horizonte mel6dico.... Entao, nessa linha transversal... move-se um bloco sonoro, que nao tem mais ponto de origem, pois ele esta sempre, e ja, no meio da linha (Deleuze. 1997, p.95).
Essas tais linhas desemaranhadas ou as criadas e cruzadas pelo professor nao pretendem ser um caminho ideal, pre-definido. Sao possi¡ bilidades de trajetos inscritos no mapa virtual. 0 percurso, numa perspectiva rizomatica, nao se faz pela ordem do prescrito, mas pelo acaso da potencia dos acontecimentos no pr6prio deslocar. Na pratica pedag6gica, quando os alunos entram em contato com 0 material musical, sao afetados por suas Iinhas expressivas e, ao mesmo tempo, tambem 0 afetam, numa relac;:ao de composic;:ao de forc;:as intensivas.
E de toda a arte precise dizer: 0 artista e mostrador de afectos, inventor de afectos, criador de afeclos, em rela9ao com os perceptos ou as visoes que nos da. Nao e somente em sua obra que ele os cria, ele os da para nos enos faz transformarmos com eles, ele nos apanha no composto (Deleuze, 1992, p.227). Dessa interac;:ao, uma variedade de afetos se mobilizam e podem fazer com que fluam dos alunos intensos devires. "Cantar ou compor, pintar, escrever nao tem talvez outro objetivo: desencadear devires" (Deleuze, 1997, p.63). Nesse momento, certas linhas, antes virtuais, se tornam vivencias efetivas. Outras tantas Iinhas ineditas, vindas dos alunos, surgem: conex6es de lin has inusitadas, bulbos surpreendentes, lin has de fuga inimaginaveis, gerando outras relac;:6es muito variadas, que modificam 0 percurso no territ6rio trilhado, introduzindo novas direc;:6es. Essas linhas emergentes sao acrescentadas ao mapa virtual, num processo constante de atualizac;:ao. Os alunos, inseridos numa relac;:ao dialogal, se tornam coautores desse mapeamento.
o tamborim, com suas levadas e devires, constijui uma convergencia de Iinhas sobre 0 territ6rio dos sambas de enredo. 0 professor ao tazer 0 seu mapeamento virtual precisa atentar para 0 fato de que suas Iinhas estao em movimento incessante, criando uma consistencia provis6ria. Elas nao param de se desdobrar a velocidades loucas, fazendo proliferar, expandir a linguagem musical. Criam novas formas de encadeamentos rftmicos, conex6es, desterritorializac;:6es, aumentando as multiplicidades que povoam 0 territ6rio. Nesse sentido, 0 tamborim deve ser percebido na sua complexidade, dinamica, vitalidade e nao reduzido a um funcionamento fixo, estavel. Lidar com 0 acontecimento musical na sua multiplicidade e intensidade potencializa 0 ensino,
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faz emergir afetos que aumentam a capacidade de agir dos alunos. "As relac;;6es que comp6em um individuo, que 0 decomp6em ou 0 modificam, correspondem intensidades que 0 afetam, aumentando ou diminuindo sua potencia de agir, vindo das partes exteriores ou de suas pr6prias partes" (Deleuze, 1997, p. 42). Essa vinculac;;ao estreita entre 0 conceito de potencia e os de afecc;;ao e afeto, (que foi inicialmente apontada por Espinoza no Iivro III, da Etica e depois recuperada por Deleuze) nos importa para a compreensao deste trabalho. Para esses do is fil6sofos, "os seres humanos nao se definem por uma essencia, senao por uma potencia... Cada um tem uma potencia, cada um efetua essa potencia tanto como a tem em si" (Deleuze, 1980, p.1). Mas a potencia se efetua de maneira distinta em cad a ser, ela e variavel: po de aumentar ou diminuir. "Todos os entes ... tem mais ou menos potencia", por isso podemos dizer que ela e singular. 0 que faz variar o grau de intensidade da potencia sao as afecc;;6es e os afetos. Somos, constantemente, afetados por diferentes afecc;;6es (uma ideia, uma pessoa, um objeto), que provocam varia<;:6es contfnuas nos nossos afetos (sentimentos). Passamos de um afeto a outro, da alegria, a raiva, ao medo etc. e a consequencia disso e um aumento ou diminuic;;ao da nossa capacidade de agir ou da for<;:a de existir, enfim, uma variac;;ao da nossa potencia. A alegria, por exemplo, provoca um aumento na potencia, enquanto que a tristeza, uma diminuic;;ao da mesma. "A alegria e a tristeza sao paix6es pelas quais a capacidade de cada individuo, ou 0 seu esforc;;o para perseverar 0 seu ser, e aumentada ou diminufda, favorecida ou reduzida"(Espinoza, 1979, p.211). Tendemos a nos relacionar com as afecc;;6es e afetos de forma a querer sempre afirmar a nossa potencia, isto e a almejar a alegria e a repelir a tristeza. "Tudo 0 que imaginamos que conduz a alegria, esforc;;amo-nos por fazer de modo a que se produza; mas tudo 0 que imaginamos que Ihe e contrario ou conduz a tristeza, esfor<;:ar-nos-emos por afasta-Io ou destrui-Io" (Espinoza, 1979, p.194). Conectar 0 processo pedag6gico aos conceitos de potencia, afec<;:ao e afeto e de grande importancia. As quadras de escolas de samba propiciam um contexte que favorece 0 aumento de potencia de agir do aluno por levar em conta a dinamica da linguagem musical, num processo de recriac;;ao permanente. 0 que se constata, porem,
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abem nas instituic;;6es escolares, e que estas, pautandose em um universe estavel, impedem trajetos, inibem afetos, diminuem a potencia.
o presente trabalho faz um paralelo entre os acontecimentos nessas duas situac;;6es de ensino. Acreditamos que a construc;;ao de projetos que permitam 0 aumento de potencia na escola e absolutamente vital. "Nao se pode abrir mao de um projeto educacional, pedag6gico-musical que integre a questao do afeto (ou sentimento), isto e, a passagem de um estado de menor potencia para um de maior potencia, 0 aumento da capacidade de expressao, da potencia de agir, de expressao de vida" (Santos, 1999, p.25). 2 - 0 Tamborim e seus Devires
o tamborim apresenta toques especfficos que caracterizam 0 seu funcionamento no territ6rio dos sambas de emedo. Mestre Louro, diretor de bateria da Academicos do Salgueiro ha 25 anos, assim se refere ao instrumento: Sao os violinos de uma bateria. 0 tamborim tem sua batida tipica. normal- utilizada em qualquer samba. Mas alE~m deJa, e aproveitado peJos diretores de bateria em convenlfoes. ou desenhos - batidas ensaiadas e marcadas. que funcionam como uma especie de contraponto melodia do samba ( Mestre Louro. sId, p.2).
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Ele faz menc;;ao as Iinhas que comp6em 0 tamborim, inicialmente se referindo a sua batida t{pica, que neste trabalho denominaremos levada principal (ou carreteiro). Esta se traduz pelo preenchimento das oito semicolcheias do compasso binario, e pressup6e competencias do ritmista, como coordenac;;ao motora e resistencia ffsica. Mestre Louro, em seguida, fala de batidas ensaiadas e marcadas, que se desdobram em levadas variadas e conven90es (ou paradinhas). As levadas variadas sao frases com diferentes desenhos rftmicos, criados em func;;ao da letra e do arranjo, e que, portanto, variam de ana para ano. As conven<;:6es, por sua vez, implicam numa performance da bateria como um todo, e se caracterizam, normalmente, por um jogo rftmico entre 0 repinique e os demais instrumentos: em forma de eco (anexo 1), pergunta e resposta (anexo 2), etc. Existem ainda outras batidas executadas pelos tamborins, como por exemplo a subida, e as viradinhas. Tais batidas e as ja mencionadas serao abordadas mais detalhadamente adiante, quando tratarmos de seu funcionamento. A presenc;;a do tamborim no territ6rio dos sambas de enredo se da por linhas rftmicas ja convencionadas, mas tambem com a criac;;ao de
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abem inumeras outras, a cada ano, num funcionamento paradoxa!. Essa multiplicidade de Iinhas acontece pelo exercicio da criatividade musical dos mestres de bateria e ritmistas, bem como pela circulac;:ao destes em outras escolas. Os mestres de bateria sao instigados, a cada ano, a criar arranjos novos num processo ininterrupto de devires ritmicos, que ampliam a linguagem dos sambas de enredo. Odilon Costa, mestre de bateria da escola de samba Grande Rio, comenta esta questao: "Meu arranjos sao sempre diferentes! Nunca a gente faz 0 mesmo arranjo... Todo ana a gente modifica!". (Costa, 2000, p.2 ) Mestre Louro, da bate ria do Salgueiro, quando questionado sobre 0 seu processo criativo, assim responde: "Tres de meus diretores cuidam dos tamborins, mas quem acaba criando os desenhos sou eu mesmo. Esses desenhos variam de ana para ano, em func;:ao do samba e atualmente sao ouvidos ja na gravac;:ao do CD dos sambas de enredo." (Mestre Louro, sid, p.3) Embora seja usual que 0 mestre de bateria crie as linhas para 0 arranjo dos instrumentos da bate ria, em algumas escolas ha espac;:o para que os pr6prios ritmistas tracem lin has no plano, com a sugestao de ideias musicais, como acontece nos Sambas da Orgia, em Porto Alegre. Mestre Estevao da 0 seu depoimento: Eu you passando pOr naipe. Eu quero 0 surdo isso, 0 tarol isso. Pode ate as vezes eles terem umas ideias para ficar mais facil pra eles, "ah vamo fazer assim". Eu deixo fazer assim, se ficar melhor pra mim, de assimilar aquilo que eu quero, de repente ... Mas e muito pouco, a intervenr;ao deles e pouca. Eu ja venho com 0 tror;o pronto de casa (Prass, 1998, p.119).
A expansao do territ6rio tambem se da com o cruzamento de linhas heterogeneas. No Rio de Janeiro, em 1997, 0 mestre Jorjao, a frente da bateria da Viradouro, surpreendeu com uma levada funk no meio do samba de enredo. Mestre Jorjao comenta: Certo dia, em casa, cheguei a conclusao de que a apresentar;ao das baterias havia se tornado uma grande mesmice e, pOr isso decidi inovar, com essa batida.... Vi que 0 publico consagrou a novidade, mas a gente nunca sabe 0 que se passa na caber;a dos jurados. Mesmo assirn, apostei pra ver (Rodrigues, 1997, sip).
o jorro de devires rftmicos por parte dos mestres e dos ritmistas, na ocasiao do processo de criac;:ao do arranjo, aumenta a multiplicidade de linhas do territ6rio do samba de enredo, alargando a extensao de seus limites. Ha ainda um outro conjunto de linhas que se misturam a estas, estratificando ainda mais 0 territ6rio, sao as que
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advem da circulac;:ao dos ritmistas pelas quadras de outras escolas. Um fluxo contfnuo de saberes e faze res acontece dessa forma desde 0 infcio da hist6ria das escolas de samba. Tal pratica persiste na atualidade e traz uma grande contribuic;:ao com a troca das levadas, dos breques, das tecnicas entre os ritmistas. A circular;ao, movida por questoes de varias ordens, e responsavel pela difusao das saberes musicais que permeiam 0 mundo do samba ... Circulando, os carnavalescos aprendem mais batidas e breques, bem como macetes tecnicos para lidar com os instrumentos. Circulando aprendem sobre as relar;oes entre corpo e percussao e, sobre as concepr;oes esteticas dos diferentes mestres de bate ria. Todos esses fatores interferem nas identidades sonoras de cada grupo, identidades que nao sao constantes, mas sim fluidas e transformadas na proporr;ao da circular;ao dos atores entre as escolas de samba (Prass, 1998, p.91).
o samba de enredo e um territ6rio que nao se fixa, esta em constante modificac;:ao. As multiplas conexoes, que ocorrem por conta das criac;:oes dos mestres e ritmistas e da circulac;:ao dos atores nas diferentes escolas, dao uma dimensao diferencial a sua linguagem. Variac;:oes contfnuas, que proporcionam um constante remanejar dos elementos musicais e 0 surgimento de novas combinac;:oes sonoras, a caraterizam. Por isso podemos dizer que e pelo vies da multiplicidade e da heterogeneidade que a linguagem dos sambas de enredo se apresenta. Nao existe lingua em si, nem universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoas, de gfrias, de linguas especiais. Nao existe locutor-auditor, ideal, como tambem nao existe comunidade lingOistica homogenea. A lingua e... uma realidade essencialmente heterogenea... A lingua faz bulbo. Ela evolui por hastes e fluxos subterraneos, ao longo de vales fluviais ou de linhas de estradas de ferro, espalha-se como mancha de 6Ieo... Uma lingua nao se fecha sobre si mesma, senao em uma funr;ao de impotencia (Deleuze, 1995, p. 16).
3 - 0 Tamborim em Movimento: Levadas e Funcionamento Partindo da concepc;:ao da linguagem como sistema de fluxos continuos de conteudos de expressao, nos interessa compreender 0 funcionamenta dos diversos toques do tamborim numa bateria. Para isso, e precise nos remetermos ao texto verbal do samba de enredo, pois os toques produzem sentido quando inseridos num contexto. Mestre Estevao, dos Sambas da Orgia, mostra claramente essa vinculac;:ao ao falar de seu processo de criac;:ao:
o compositor se inspira em alguma coisa, se inspira e faz a letra, eu far;o os arranjos. Fico com a musica na caber;a e venho cantando ela mentalmente, venda 0 que encaixa ali, entao eu you criando certas coisas.
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Normalmente. meus arranjos sempre em cima da letra da musica... (Prass.1998. p.119).
As formulas rftmicas utilizadas pelos tamborins no samba de enredo, assim como a descri9ao de seu funcionamento serao descritas a seguir: SUBIDA - anuncia 0 come90 do samba de enredo e cada novo recome90. A sonoridade desse toque tem um brilho especial de chamamento para a abertura, para 0 infcio do acontecimento que e 0 samba cantado (Anexo 3); - apresenta-se construfda, normalmente, com quialteras podendo variar; - a reitera9ao dessas quialteras e fundamental para 0 efeito pretendido; - quanta ao seu come90 podem ser anacrusticas, teticas ou acefalas; - apos a sua execu9ao, normalmente, vem a levada principal. LEVADA PRINCIPAL - e 0 toque do tamborim que nos conduz ao genero do samba, na sua especifica9ao de samba de enredo (Anexo 4); - se caracteriza pela repeti9ao das oito semicolcheias de um compasso binario; - tem a fun9ao de condu9ao rftmica; - seu emprego pode se dar tanto nas estrofes, quanta nos refr6es. VIRADINHA (OU BREQUE)- tem um funcionamento paradoxal, na medida em que diz respeito ao encerramento de uma ideia musical e, ao mesmo tempo, ao surgimento de outra nova (Anexo 5); - essa passagem, normalmente, tem rela9ao com a mudan9a no proprio texto do samba. Implica na ida de um tipo de levada a outra; - normal mente, aparece no final da primeira parte, no final da segunda, no final do samba para retornar ao infcio e, as vezes, precede as paradinhas; - e importante ressaltar que podemos ter uma passagem brusca no toque do tamborim, de uma levada outra, sem que se utilize da viradinha. Tratase, portanto, de um recurso opcional. LEVADA VARIADA - sua presen9a no samba ameniza 0 carater mon6tono da levada principal. Estabelece um contraste, sendo uma outra alternativa de levada (Anexo 6);
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- nao se prende a uma unica f6rmula rftmica. Podendo se apresentar sob diversas formas; - pode se localizar nos refr6es e/ou nas estrofes; - as vezes, esta relacionada a tematica do enredo. PARADINHAS- algumas vezes 0 tamborim executa, no meio de um samba, certos desenhos rftmicos convencionados, em conjunto com os demais instrumentos da bateria. (Conforme vimos anteriormente) . Foi trazido para este trabalho 0 arranjo dos tamborins no samba da Mocidade Independente de Padre Miguel: Sonhar nao Custa Nada (1992), de Paulinho Mocidade, Dico da Viola, Moleque Silveira. Tal arranjo servira como demonstra9ao do funcionamento das levadas (Anexo 6). 0 criterio de escolha da musica se deveu a audibilidade da grava9ao, bem como pelo fato de ser um arranjo simples, embora de diffcil execu9ao.
4 - A Pote!ncia e a Bateria de Escola de Samba Para se tocar tamborim numa bate ria de escola de samba exige-se um conhecimento previa do ritmista no que tange a execu9ao do instrumento. Normalmente, participam da bateria pessoas da propria comunidade que ja sao integrantes da escola ha muitos anos. Pelo processo de imersao, desde a infancia, elas vaG entrando em contato com o genero musical, de forma ludica ate se tornarem adultos, com a possibilidade de serem ritmistas. Entretanto, outros participantes, embora nao fa9am parte da comunidade, tambem se interessam em participar da bateria. Nesses casos, normalmente, e precise se submeter a um processo seletivo para verifica9ao da competencia na execu9ao. Uma vez que 0 ritmista esteja inclufdo na bateria, ele estara sujeito a um processo de ensinoaprendizagem permanente, pois a cada ana ha um novo samba de enredo que propicia a cria9ao de novos devires rftmicos, que precisam ser conhecidos e dominados. Esse processo de ensino-aprendizagem do tamborim apresenta caracterfsticas pr6prias que fogem aos padr6es institucionais estabelecidos pela educa9ao escolar. Varios aspectos contribuem para 0 aumento de potencia do ritmista/estudante na escola de samba:
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abem 1. 0 ritmista. esta inserido numa pratica de conjunto. onde faz uso artfstico. prazeroso e imediato dos instrumentos musicais. Nao se adia 0 contato com os instrumentos em nome de uma teoria que deva anteceder a pratica. A compreensao dos elementos da linguagem musical se da no pr6prio fazer, isto e, na possibilidade que 0 ritmista tem de imergir no conjunto e "entrar no batido" (Arroyo, 2000, p.3), e, nao do acervo de informa<;:6es dado pelo professor; 2. 0 aprendizado dos ritmos se apresenta contextualizado. ganhando sentidos e formas significativas. As celulas rftmicas, as frases, as paradinhas executadas no tamborim pelos ritmistas sao linhas que, por estarem introduzidas num fato musical concreto, dao mais potencia ao aprendizado. Os elementos rftmicos nao estao fragmentados em unidades isoladas para "compreensao", de forma a destituir 0 senti do musical que Ihes e inerente. Estao, sim, articulados com expressao no transcurso da experiencia, isto e, num samba de emedo cantado e tocado nos ensaios e no desfile; 3. 0 ritmista lida com a complexidade da ocorrencia musical em si. Nao M organiza<;:ao linear e hierarquica do material por graus de dificuldade e complexidade. 0 acontecimento musical e tomado no seu emaranhado, isto e, no conjunto das Iinhas concomitantes que 0 comp6e. Numa levada, 0 ritmista lida simultaneamente com pulso, subdivis6es, acentua<;:6es, celulas rftmicas, sfncopes etc. Nesse sentido, 0 processo de aprendizagem se da tra<;:ando transversais, irredutfveis a qualquer linearidade; 4. a poliritmia presente na bateria torna rica a experiencia do ritmista. Um arranjo para uma bate ria de escola de samba e organizado a partir da superposic;:ao das batidas dos naipes de instrumentos, de forma a se ter uma polifonia rftmica. Isso proporciona ao ritmista 0 contato com outros naipes, com seus timbres diferenciados (surdos de primeira, segunda e terceira, repiniques, caixas e/ou tar6is, tamborins, ganzas, cufcas, agog6s, pandeiros); co~ a levada em ostinato do ganza, dos surdos de primeira e de segunda; com os fraseados do tamborim; com as diferentes acentuac;:6es de tar6is e caixas, com os improvisos do repinique ou dos surdos de terceira. A imersao nessa paisagem sonora faz com que se desenvolva a musicalidade do ritmista, no que tange a escuta vertical, concentrac;:ao e execuc;:ao;
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5. a heterogeneidade das levadas do tamborim desafia 0 ritmista em sua pratica. Ja vimos que a presenc;:a dos tamborins na linguagem dos
sambas de emedo e dinamica. 0 material rftmico e conectado a modos de codificac;:ao muito diversos: subidas, levada principal, levadas variadas, paradinhas que estao constantemente variando. A multiplicidade e heterogeneidade de toques motiva o ritmista a dominar as levadas e a executa-las com prazer; 6. a forca sonora de uma bate ria afeta intensamente a quem toca. Essa massa sonora, produzida pela quantidade de pessoas envolvidas, da a bateria uma sonoridade singular. Propicia um imenso prazer de sentir no corpo a vibrac;:ao do som. E um bloco de sensac;:6es que afeta 0 ritmista e 0 impele a tocar mais, a se misturar mais com esse composto de forc;:as. Tornar-se responsavel, juntamente com os demais, por este resultado musical do conjunto, estimula 0 estudo das levadas para uma performance cada vez melhor ; 7. a festa do carnaval estimula a aprendizagem. A existencia da festa (0 desfile na avenida com todo 0 ritual de local, data, hora especial para sua realizac;:ao); a presenc;:a da plateia, a disputa entre as escolas, dao sentido a aprendizagem e impulsionam os inumeros encontros necessarios para a performance. A festa tem muita intensidade e opera como for<;:a basica na longa preparac;:ao anterior. Cada um desses elementos, anteriormente, apontados afeta 0 aluno de forma a aumentar a sua potencia de agir, propiciando uma imensa alegria de estar aprendendo/tocando. 0 processo de ensino-aprendizagem, conseqOentemente, acontece com prazer e intensidade. 5 - A Potencia e a Escola Esse trabalho, conforme dissemos, pretende servir como material de consulta e apoio ao professor, em seu encontro com os alunos, no mapeamento virtual das linhas do tamborim. Entretanto, 0 conhecimento artfstico nao pode ser transmitido na escola tal qual e produzido em seu habitat. No caso especffico da musica, ocorre uma ruptura entre 0 acontecimento musical em si e a disciplina de educac;:ao musical, 0 que requer uma maior reflexao. Utilizaremos a noc;:ao de mediac;:ao didatica desenvolvida por Lopes, ao fazer uma analise sobre o conhecimento escolar, suas interrelac;:6es com 0 conhecimento cientffico e 0 conhecimento cotidiano. Embora sua investigac;:ao se debruce sobre as ciencias ffsicas, achamos interessante trazer tal discussao para 0 campo das artes, mais propriamente 0 da musica,
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Ha necessidade de processos de transposic;:ao didatica, capazes de tomar os saberes escolares dotados de especificidade ... Nesse sentido a escola e verdadeiramente criadora de configurac;:6es cognitivas ... Portanto ha uma diferenc;:a... entre saber ensinado e saber de referencia (Lopes, 1999, p.19).
Pressupor que existe uma continuidade entre o conhecimento musical popular e a musica na escola e que e possivel passar de um para 0 outro sem ruptura nao permite a real compreensao do acontecimento pedag6gico. A apropria<;:ao pela escola desse saber, implica no exaustivo trabalho de transforma-Io em objeto de ensino. Os termos despersonaliza<;:ao e descontemporaliza<;:ao tambem sao utilizados por Lopes para mostrar como esse processo descaracteriza 0 material original, descompondo-Ihe as rela<;:oes, constituindo nova configura<;:ao. No que tange a musica, uma diminui<;:ao de potencia ocorre quando os saberes populares sao transformados em materia escolar. Disciplina-se tambem 0 corpo do aluno e do professor. Ficar em pe, dan<;:ando, sentindo 0 ritmo em suas multiplas possibilidades, Ihes e vedado. 0 corpo deve estar submetido, paralisado na sala de aula, apenas atento a narra<;:ao do professor. Essa postura contraria frontalmente a prcitica dos saberes populares, onde 0 corpo se apresenta como elemento fundamental de expressao, comunica<;:ao e serve de elemento mediador no ensino.
E comum, nos nossos cocos de roda, os participantes acompanharem 0 canto e a danc;:a com palmas e batidas de pes no chao. Nas jomadas dos Reisados, os seus integrantes tambem batem no chao num passe chamado 'trupe'. Desta mesma forma, os nossos indios quando danc;:am no centro de suas aldeias, atam aos seus tomozelos conchas ou sementes de frutos que provocam ruidos ao golpearem 0 solo com os pes (Madureira, sid, p.9). Numa bate ria de escola de samba, 0 corpo se desdobra em varios aspectos como fator de auxflio tanto do ritmista quanta do regente. Prass nos fala sobre essa estreita vincula<;:ao entre 0 corpo do ritmista e 0 ensino:
o corpo que caminha tocando e 0 principal responsavel para a manutenc;:ao da pulsac;:ao coletiva....Ha uma relac;:ao poliritmica entre a coordenac;:ao dos pes para caminhar tocando, as batidas de cada naipe com as suas exigencias tecnicas especificas, entre as maos e ainda os ritmos da melodia que e cantada pelos ritmistas, tudo isso aliado a uma escuta dos demais naipes e do todo. Todas as vezes que pedi que alguem tocasse 0 tamborim para me mostrar, 0 gesto de bater com a baqueta no instrumento vinha acompanhado de uma danc;:a de pes que fazia 0 corpo gingar na pulsac;:ao do que era tocado. Minha batida comec;:ou a tomar forma somente quando incorporei essa coreografia de pes... 0 corpo que toea, 24
abem danc;:a, e a expressao musical do grupo e tambem uma expressao corporal. A propria energia sonora do som da percussao, incita 0 corpo a movimentar-se (Prass,1998, p.168).
Coreografias realizadas pelos ritmistas responsaveis pelos tamborins, tanto nos ensaios quanta no dia do desfile, trazem imensa ajuda na memoriza<;:ao da forma do samba: A principio as coreografias que os ritmistas (em especial os tamborins) realizavam me pareciam um elemento ludico. Entretanto, fui percebendo com 0 decorrer dos ensaios, 0 quanta as coreografias eram importantes na memorizac;:ao dos arranjos, demarcando corporalmente as sec;:6es de cada obra relacionando a estrutura formal das musicas com Iinguagens corporais especificas. Na aus₏mcia de uma partitura para guiar a performance, cantar e danc;:ar, e as marcas que estes gestos pontuam nas musicas, sao os elementos responsaveis pela excelencia da performance (Prass, 1998, p.167).
Mauro Costa, ao fazer um estudo comparativo entre 0 artista nas culturas populares e 0 artista ou educador na escola, constata a diferen<;:a do que e vivido em ambos os espa<;:os. Em seu diagn6stico, ele fala em processo de deforma<;:ao (que podemos associar a ideia de descontinuidade trazida por Lopes), toda vez que a escola tenta reproduzir uma manifesta<;:ao popular. A escola e uma instituic;:ao das culturas ocidentais. Seus rituais, seus horarios, sua hierarquia, seus valores, desde a mera separac;:ao das crianc;:as dos adultos num espac;:o demarcado, especializado para a aprendizagem e sua divisao em grupos por faixas de idade, sao categorias bem diferentes das que regem a aprendizagem nas manifestac;:6es populares que estudamos. A utilizac;:ao educativas e dramaticas de nossa tradic;:ao popular tem pecado por esse desrespeito diferenc;:a. E o sentido e a func;:ao da Festa, sua articulac;:ao intima na organizac;:ao e no modo de viver da comunidade que se perde quando se reproduzem essas festas nas escolas como espetaculos visuais e sonoras que serao indevidamente comparados com os espetaculos ocidentais que a crianc;:a esta acostumada (Costa, 1980,
a
p.39/40).
Levando em considera<;:ao os processos de media<;:ao didatica e disciplinariza<;:ao podemos apontar aspectos que contribuem para a diminui<;:ao de potencia na escola, cada vez que um conhecimento musical e traduzido em conteudo de ensino: - uma ordena<;:ao com sentido linearsequencial de conteudos previamente determinados, que indo do menos ao mais complexo, cumpre as exigencias de um planejamento pre-determinado, sem levar em considera<;:ao outras possiveis linhas que mobilizam os afetos dos alunos na sala de aula e no seu cotidiano. Instituindo-se uma doxa no trajeto, isto e, uma linha unica, dominante, hierarquizante, e auto rita ria, para se percorrer 0 territ6rio investigado;
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abem · 0 trabalho com exercfcios rftmicos realizados como um treinamento de rela«oes isoladas, visando a sua automa«ao, sem qualquer rela«ao com 0 fenomeno musical vivo;
· a redu9ao da linguagem de um genera musical a categorias rfgidas e estaveis, sem levar em conta a sua dinamica interna e 0 surgimento de novos devires;
compreende interela«oes complexas, multiplas, heterageneas atuando simultaneamente. Sendo assim, um trabalho que integre os aspectos de percep«ao, analise e aprecia«ao musical, vinculadas a uma pratica de conjunto, estara mais perto da transversalidade que caracteriza 0 acontecimento musical em si, do que a fragmenta«ao que ora se constata. Ignorar este fato e enfatizar 0 treino de relar;:oes isoladas, objetivando sua automatlzar;:ao, e reduzir os elementos musicais a categorias rigidas que nao guardam mais nenhuma relar;:ao com 0 fenomeno real, vivo em cada contexto, descaracterizando a Iinguagem (Santos, 1990, p.34).
· a fragmenta«ao da complexidade do acontecimento musical se desdobrando em disciplinas estanques ao Iongo do percurso escolar. Todos estes aspectos fazem com que 0 fenomeno musical se descaracterize e a potencia de agir do aluno decline, produzindo tristeza na escola: "Ora, portristeza entendemos 0 que diminui ou entrava a capacidade de pensar da alma; e por conseqOencia, na medida em que a alma esta triste, a sua capacidade de conhecer, isto e, a sua capacidade de agir, e diminufda ou contrariada" (Espinoza, 1979, p.212).
E precise questionar a presen9a da musica na atual organiza«ao escolar. 0 fenomeno musical
o tamborim pode servir como elemento gerador de uma alternativa para 0 ensino, na medida em que 0 mapa do funcionamento de sua levadas no samba de enredo for trabalhado transcendendo esses Iimites disciplinares. Um ensino concebido de forma integrada, em que exercfcios isolados sobre os elementos da linguagem musical sejam substitufdos por uma pratica musical de conjunto, que valorize a sua dimensao estetica, 0 seu carater dinamico e complexo, sera muito mais potencializador.
Referencias Bibliogrlificas ARROYO, Margareth. Representa90es Sociais Sobre Praticas de Ensino e Aprendizagem Musical: Um Estudo Etnografico entre Congadeiros, Professores e Estudantes. Transcrir;:ao de palestra realizada, na Unirio, Rio de Janeiro, em 15/06/2000. COSTA, Mauro Sa Rego. Manifesta90es Populares e Educa9ao em Arte. Boletim de Intercambio do SESC, Rio de Janeiro 1(4): 34-42, out/dez. 1980. COSTA, Odilon. Entrevista concedida a Andrea Steward Dantas, em 28/08/2000, p.2 (nao publicada) DELEUZE, Gilles. Curso de Los Martes - Espinoza. Vencennes, Franr;:a, palestra proferida em 21/12/1980. Informar;:ao por Correio Eletronico. http://www.imaginet.fr/deleuzeITXT/ESP/121280.html - - - - . Diferen9a e Repeti9ao, Rio de Janeiro, Edir;:oes Graal, 1988 - - - - . Conversa90es. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil Platos - Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro, v.1, Ed. 34, 1995. ESPINOZA, Baruch de. Etica - Livro III. In: Coler;:ao Os Pensadores, Sao Paulo, Ed. Victor Civita, 1979 GONQALVES, Guilherme & COSTA, Odilon. 0 Batuque Carioca. Rio de Janeiro, Groove, 2000. LOPES, Alice Ribeiro Casimiro. Conhecimento Escolar: Ciencia e Cotidiano, Rio de Janeiro, Ed. UERJ, 1999. MADUREIRA, Antonio Jose. Instrumentos Populares do Nordeste Atraves de seus Instrumentos, toques e cantos populares. Projeto de Pesquisa (sintese) - CNPq, 5/1, sId. MESTRE LOURO, A aula do mestre que comanda a bateria do Salgueiro ha 29 anos. Informar;:ao por Correio Eletr6nico. !:l11QlL www.salgueiro.com.br/a_aula_do_mestre.htm (sid) PRASS, Luciana. Saberes Musicais em uma Bateria de Escola de Samba: uma etnografia entre os "Bambas da Orgia". Dissertar;:ao (Mestrado). Curso de P6s-Graduar;:ao em Musica - UFRGS, 1998. RODRIGUES, Eliane. Jorjao: 0 Mestre da vitoriosa batida funkda escola campea. Jornal 0 GLOBO, Rio de Janeiro, 13 fev 1997. SANTOS, Regina Marcia. Curriculos e Tratamento de Programa de Ensino de Musica: Contribui90es do Pensamento Rizomatico (resumo) Comunicar;:ao de Pesquisa no Encontro Anual da ABEM (Resumo), Curitiba, p.25, 1999. - - - - - . Repensando 0 Ensino de Musica. In Kater, Carlos (Cadernos de Estudos de Educar;:ao Musical), Sao Paulo:. Atravez, v. 1, agosto.1990.
Discografia SAMBAS DE ENREDO . GURPO ESPECIAL (LP). Rio de Janeiro, RCA, lado A, faixa 1 - 1992 SAMBAS DE ENREDO - GRUPO ESPECIAL (CD). Rio de Janeiro, BMG, faixas 1, 5e 9 - 2000
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abem
ANEXO 1: PARADINHA 1
PARADINHAI
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abem ANEXO 2: PARADINHA 2
PARADINHA II
r: :J:
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ANEXO 3: SUBIDA
SUBIDAS (CARNAVAL 2000)
Salgueiro
Caprichosos de Pilares 3
31
JJ
3
3
3
3
3
3
3
3
3
3
3
3
3
~
Imperatriz Leopoldinense 3
3
31-1JJ:J"t"t~_
28
£
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abem ANEXO 4: LEVADAS PRINCIPAL E VARIADA
LEVADAS
Levada Principal (Carreteiro)
Levadas Variadas A
-II-=-~UJ~_
B =]
C
J.
31
~'1
J§~'1~~'1
D
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31
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E
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ANEXO 5: VIRADINHA
VlRADINHA (BREQUE)
B
~~£~.3¥_
c
) £ -
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abem ANEXO 6: SAMBA DA MOCIDADE (92)
SONHAR NAO CUSTA NADA (Mocidade 92)
3
3
3
3
3
3
3
3
Tamborim
5
10
31
JJJ
15
31
JJ
20
25
~JJJJJJffi
JJJJj
30
31
JJ
35
3
40
_JJJ_ 45
31
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abem
ANEXO 6: SAMBA DA MOCIDADE (92) continua9ao
50
~31fjjj!jiJ~J~J~y~s~R~~J~J~~L
~J J JJ J J~
55
60
65
70
75 3
yJJJ~yJJJ~
85
90
95 3
3
=n==J.J'tJยง'tjl_
32
S
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abem ANEXO 6: SAMBA DA MOCIDADE (92) continUa98.0
100
3
3
3
3
3
3
J ' t _ 105
110 3
~J3
3
3
3
3
3
~
115
120
31
33