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Etnomusicologia e Patrimônio Cultural: considerações sobre o samba de roda do Recôncavo Baiano

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ANAIS


Universidade Federal de Alagoas Reitora Ana Dayse Rezende Dorea Vice­ Reitor Eurico de Barros Lobo Filho Pró­Reitor de Extensão Eduardo Sílvio Sarmento Lyra Pró­Reitor Estudantil Pedro Nelson Bonfim Gomes Ribeiro Pró­Reitor de Pós­Graduação e Pesquisa Josealdo Tonholo Diretor do ICHCA Ronaldo Bispo Coordenador do Curso de Licenciatura em Música Rita Namé Coordenador do Curso de Canto Eduardo Xavier

Comissão Organizadora do IV Encontro Nacional da ABET Coordenação Geral Dra. Regina Cajazeira – UFAL Dr. Samuel Araújo ­ UFRJ Organização Prof. MS. Cyran Costa Prof. MS. Milson Fireman Prof. MS. Ruy Cipelli de Brito Comitê Científico Profa Dra. Elizabeth Lucas (UFRGS) (Presidente) Prof. Dr. Carlos Sandroni (UFPE/UFPB) Profa. Dra. Rosângela Tugny (UFMG) Profa. Dra. Deise Lucy Montardo (UFAM) Prof. Dr. Anthony Seeger (UCLA) Editor do Caderno de Resumos Cyran Costa Editor dos Anais ABET 2008 Hugo Leonardo Ribeiro Coordenação Financeira e Secretaria Geral Melquizedeque Machado dos Santos ­ UFAL

Associação Brasileira de Etnomusicologia (Biênio 2006­2008) Diretoria da ABET Presidente: Samuel Araújo Vice­Presidente: Rafael José de Menezes Bastos 1º Secretário: José Alberto Salgado e Silva 2º Secretário: Thiago Pinheiro 1ª Tesoureira (In Memoriam): Maria Ignez Cruz Mello 2º Tesoureiro Luis Fernando Hering Coelho Editora: Deise Lucy Oliveira Montardo Editor Assistente: Reginaldo Gil Braga Local do evento Pré­conferência dia 11: Biblioteca Central da UFAL Abertura dia 11: Teatro Deodoro (Praça Marechal Deodoro, s/n, Centro) Dia 12, 13 e 14 de Novembro de 2008: Centro Cultural e de Exposições de Maceió ­ (Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá).

Coordenador Artístico MS. Maria das Vitórias Santos ­ UFAL Julio César da Silva – SESC Infra­Estrutura (Funcionários) Vera Lúcia dos Santos Ferreira – UFAL (Estudantes) Arly Silva de Oliveira Junior Diego Victor da Silva Santos Ernandes Pires da Silva Elaine Maria da Silva Felipe de Farias Brandão Florisjan Caeh do Santos Lilian Rodrigues da Silva Myrna Valeska A. Leite Marcelo Vieira Marinho Odair Jose dos Santos Valencio da Silva Neto Valdemberg Antonio Marques Ribeiro Sivaldo Lima de Melo Programação Visual Marco Spinasse Programação Digital e Informática Juliana Amorim ­ UFAL Klênio Alves Lima ­ CESMAC


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Etnomusicologia e Patrimônio Cultural: considerações sobre o samba de roda do Recôncavo Baiano Raiana Alves Maciel Leal do Carmo Universidade Federal da Bahia raianamaciel@yahoo.com.br Resumo Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a recente aproximação dos estudos etnomusicológicos com as políticas culturais relacionadas ao patrimônio imaterial. A partir das discussões sobre a preservação do patrimônio cultural no Brasil, abordaremos algumas reflexões a respeito de uma pesquisa de mestrado em andamento, cujo objetivo geral é analisar os principais impactos da política federal de salvaguarda sobre o samba de roda do Recôncavo Baiano. Dentro desse contexto, apresentamos uma descrição dos processos de registro e salvaguarda a partir dos pressupostos dos órgãos responsáveis pela formulação e implementação de políticas culturais no Brasil, como o IPHAN e o Ministério da Cultura. As nossas reflexões também apóiam-se em algumas considerações preliminares a respeito da Etnografia realizada nessa investigação. Através desse estudo, esperamos contribuir para uma discussão bastante atual sobre Políticas de Salvaguarda para o patrimônio imaterial, dando enfoque ao andamento de ações dessa natureza no samba de roda do Recôncavo Baiano.

Palavras-chave: samba de roda, patrimônio imaterial, etnomusicologia

Abstract The present paper reflects on the way in which ethnomusicological studies have recently dealt with cultural policies affecting intangible heritage. After a critical look at the discourse regarding the preservation of cultural heritage in Brazil, based on in progress Master’s Degree research, we present some reflections in an effort to analyze the principal impacts of federal safeguarding policy of the samba de roda of Recôncavo of Bahia. Within this context, we describe the procedures of documentation and protection as outlined by agencies responsible for formulating and implementing cultural policies in Brazil, such as the National Institution of Historic and Artistic Heritage (IPHAN) and the Ministry of Culture. Our considerations are also supported by preliminary data garnered in our current ethnographic research. Through this work, we hope to contribute to an up-to-date discussion on the current policies protecting intangible heritage, focusing on the progress of such actions in the samba de roda of Recôncavo of Bahia.

Keywords: samba de roda, intangible heritage, ethnomusicology

As políticas públicas, inseridas no universo das manifestações da cultura popular e tradicional, têm merecido destaque nas discussões atuais de estudiosos de diversas áreas do conhecimento, bem como no discurso dos próprios membros dessas manifestações. Essas reflexões, impulsionadas pelo reconhecimento da diversidade cultural, conduzem ao recente posicionamento da etnomusicologia em relação aos processos de formulação e implementação de políticas públicas de cultura, especialmente no que diz respeito ao patrimônio material e imaterial1. A partir das discussões sobre a preservação do patrimônio cultural no Brasil, este trabalho tem como objetivo refletir sobre a aproximação dos estudos etnomusicológicos com as políticas culturais relacionadas ao patrimônio imaterial. Assim, dentro das perspectivas atuais dessas políticas, abordaremos 1

Informação obtida na discussão do “GT Etnomusicologia e Políticas Públicas para a área da cultura” no XV Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós­Graduação em Música­ ANPPOM, realizado no Rio de Janeiro, 2005. ­ 525 ­


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algumas reflexões a respeito de uma pesquisa de mestrado em andamento, cujo objetivo geral é analisar os principais impactos da política federal de salvaguarda sobre o samba de roda do Recôncavo Baiano.

Etnomusicologia e o Registro e a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial As relações entre patrimônio cultural e etnomusicologia podem ser analisadas a partir de diferentes abordagens. Por um lado, o registro de músicas nos mais distintos contextos e a preservação de acervos sonoros têm ocupado um lugar significativo neste campo de estudo. As canções recolhidas pelo pesquisador, registradas e “guardadas” nos acervos são inscrições da memória coletiva de determinada manifestação cultural. Por outro, as discussões em etnomusicologia sobre patrimônio não se restringem ao âmbito acadêmico, vêm ocupando espaço nas decisões políticas que dizem respeito aos processos de inventário, registro e salvaguarda dos bens culturais de natureza imaterial. A respeito do registro das tradições musicais e a possibilidade da formação de arquivos, Carvalho atribui aos momentos históricos do imperialismo e do nacionalismo o “grande esforço moderno em prol do registro patrimônio cultural da humanidade”, e afirma que “a descoberta da gravação no final no século 19 fez mudar a noção de arquivo, pois começaram a ser registradas então músicas de povos vivos [...]” (CARVALHO, 2004). Nesse período, prevaleceu a posição distanciada dos pesquisadores em relação aos problemas vividos pelas comunidades pesquisadas, sendo que eles “não se sentiam dispostos a intervir politicamente em prol das comunidades que lhes forneciam os materiais para as gravações” (CARVALHO, 2004). A partir da metade do século XX, Seeger aponta para uma mudança no papel dos arquivos através da informação e do treinamento das próprias comunidades para que elas possam construir os meios de registro e de preservação das suas práticas musicais (SEEGER, 2002). Na literatura etnomusicológica, Bruno Nettl também discute a respeito dos arquivos sonoros e da preservação do material coletado nas pesquisas. O autor afirma que : Das muitas definições de etnomusicologia, nenhuma explícita ou implicitamente inclui o conceito de preservação como um propósito maior ou componente. Apesar disso, a preservação de música nas mais várias formas têm sido uma de suas maiores atividades. Esta necessidade, característica especialmente da história inicial do nosso campo, continua conosco no presente (NETTL, 2005, p.161, tradução nossa)2. Atualmente, a abordagem da temática do patrimônio cultural imaterial 3 na área de música, em especial, no campo da Etnomusicologia vem sendo discutida por autores como Carvalho (2004), Travassos (2006), Fonseca (2004) e Sandroni (2006). Os trabalhos desses pesquisadores apresentam contribuições importantes para os estudos etnomusicológicos, principalmente a necessidade de refletir sobre as perspectivas e os caminhos das políticas públicas relacionadas aos processos de inventário, registro e salvaguarda do patrimônio cultural imaterial brasileiro. Políticas essas que têm sido adotadas principalmente pelo poder público, com o intuito de contribuir para a difusão, a preservação e o fortalecimento de manifestações tradicionais do país. Dessa maneira, é necessário compreendermos como as políticas de patrimônio vêm se desenvolvendo dentro do contexto das políticas culturais no Brasil. Segundo Calabre, “no Brasil a relação entre o Estado e a cultura tem uma longa história. Entretanto a elaboração de políticas para o setor, ou seja, a preocupação na preparação e realização de ações de maior alcance, com um caráter perene, datam do século XX” (CALABRE, 2007). Dentre essas ações podemos destacar a criação, no ano de 1937, do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), órgão federal responsável pela preservação do patrimônio.

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“Of the many definitions of ethnomusicology, none explicitly or implicitly includes the concept of preservation as major purpose or component. Yet the preservation of music in various forms has all along been one of the major activities. This urge, characteristic especially of the early history of our field, continues whit us is the present” (NETTL, 2005, p 161 ). Pode ser definido como: “ as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas ­ junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais lhes são associados ­ que as comunidades, os grupos e em alguns casos os indivíduos reconheçam como parte integrante de seu patrimônio cultural[...]” (IPHAN, 2006, p.15). ­ 526 ­


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Desde então, as políticas culturais no Brasil privilegiaram as frentes patrimonialistas que direcionavam as suas ações ao chamado patrimônio de pedra e cal, constituído por edificações, monumentos, obras de arte. A formulação e a implementação dessas políticas pelo SPHAN, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), não atendia às expectativas dos grupos detentores de saberes e fazeres, constituídos como bens culturais de natureza imaterial. Atualmente, nos discursos dos órgãos ligados ao campo da Cultura, a busca pelo reconhecimento e salvaguarda das diversas manifestações da cultura popular e tradicional brasileiras vem se constituindo através da atual política federal de salvaguarda. A partir do diálogo com entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO4, o Brasil passou a desenvolver um conjunto de leis e políticas federais relacionadas com o patrimônio imaterial. O desenvolvimento dessas reflexões aponta para a preocupação do Estado brasileiro em discutir a ampliação do conceito de patrimônio. Assim, na Constituição Federal de 1988, artigo 216, esse conceito se refere aos “bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (IPHAN, 2006, p.12). A necessidade da elaboração de mecanismos legais e técnicos para preservação não só dos bens materiais como também dos bens culturais de natureza imaterial também é ressaltada através da promulgação do Decreto 3551, de 4 de Agosto de 2000, que instituiu o registro de bens culturais de natureza imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro, e a criação do “Programa Nacional do Patrimônio Imaterial”, com o objetivo de “implementar política de inventário, registro e salvaguarda desses bens” (IPHAN, 2000). Por esse Decreto, foram instituídos também quatro Livros de Registro, voltados para os saberes, as celebrações, as formas de expressão e os lugares. Um dos instrumentos básicos de implementação da política de salvaguarda5 são os Planos de Salvaguarda que podem ser definidos como um conjunto “[...] ações que contribuem para a melhoria das condições sócio-ambientais de produção, reprodução e transmissão de bens culturais imateriais” (IPHAN, 2006, p. 25). Dessa maneira, podemos dizer que na gestão atual do Ministério da Cultura, o conceito amplo de cultura, abordado freqüentemente nos discursos do Ministro Gil, coloca a preservação do patrimônio imaterial nos programas, projetos e na pauta das políticas culturais. Isso pode ser comprovado através da elaboração e aplicação de políticas de reconhecimento e registro das manifestações da cultura tradicional e popular e da criação de setores específicos da área no âmbito no Ministério e do IPHAN. No entanto, acreditamos que ainda existe muito a ser realizado e, por isso essas ações têm sido discutidas também por pesquisadores, produtores culturais e pelas próprias manifestações envolvidas, com o propósito de contribuir para os processos de implementação, avaliação e reformulação dessas políticas. A partir dessas reflexões deparamo-nos com uma série de questionamentos referentes às formas pelas quais se estruturam as manifestações culturais envolvidas nessas questões. Um deles é manifestado através da seguinte indagação: até que ponto a participação desses atores sociais é realmente efetivada nos processos de elaboração e implementação dessas políticas? Apoiamos essa discussão nas regras da UNESCO que, segundo Sandroni: [...] enfatizam, com muita propriedade, o papel a ser desempenhado pelas próprias comunidades [...] no processo de reconhecimento desses bens, ou seja, para a Unesco não se trata de escolher um bem cultural e enviar grupos de Etnomusicólogos, antropólogos, documentaristas para registrá-los sob todos os ângulos. O importante, em vez disso, é responsabilize por esse registro e passos subseqüentes, contando para que a própria comunidade que mantém o bem cultural se tal o apoio técnico dos profissionais citados (SANDRONI, 2005, p.51). O re-ordenamento do lugar ocupado pelas comunidades pesquisadas e registradas nos remete à idéia da “Etnomusicologia Participativa”, conceito discutido por Lühning ao afirmar que “a presença de pessoas que até há pouco tempo atrás fizeram parte do grupo dos chamados pesquisados, colaboradores 4

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Principalmente as recomendações referidas na “Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial” de 2003, e também no documento “Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular” de 1989. “Visa garantir a viabilidade do patrimônio cultural imaterial, tais como a identificação, a documentação, a investigação, a preservação, a proteção, a promoção, a valorização, a transmissão – essencialmente por meio da educação formal e não­formal ­ e revitalização deste patrimônio em seus diversos aspectos” (IPHAN , 2006). ­ 527 ­


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informantes, atores sociais, agora assumindo eles mesmos a posição do pesquisador, questionador, interlocutor entre comunidades diversas [...]” (LÜHNING, 2003). Isso nos leva a refletir sobre a postura dos pesquisadores em relação aos pesquisados. Recentemente, estudos discutidos em Etnomusicologia, Antropologia e áreas afins “mostram a preocupação dos pesquisadores em acompanhar os processos de inventário e/ou registro, bem como avaliar os impactos das políticas de preservação nas manifestações inseridas nesses processos” (CARMO, 2007). Além disso, uma outra questão que se coloca diz respeito à necessidade de se criar mecanismos que permitam o retorno das informações colhidas às comunidades pesquisadas. Enfim, acreditamos que a partir da elaboração e aplicação das políticas de salvaguarda é necessário medir os impactos sobre a produção cultural dos grupos registrados como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro - ou da Humanidade. Para tanto, faremos algumas considerações a respeito das políticas culturais inseridas no universo do samba de roda do Recôncavo Baiano, principalmente a política de salvaguarda, instituída após o reconhecimento pelo IPHAN e pela UNESCO.

Será que dá samba? : da escolha ao reconhecimento O samba de roda é uma manifestação coreográfica, poética e musical presente em todo o Estado da Bahia, particularmente, na região do Recôncavo Baiano. A performance dos sambadores e das sambadeiras como se auto-denominam os seus praticantes- não têm data nem local especiais para ocorrer, podendo acontecer em diversos ambientes, como uma praça, em um bar, uma rua. Entretanto, podem estar associadas às festas populares do calendário religioso católico e de cultos afro-brasileiros. O samba de roda do Recôncavo Baiano apresenta uma variedade de estilos, distribuídos entre grupos de sambadores das diversas regiões do Recôncavo. Para fins deste estudo, utilizaremos as modalidades de samba definidas no Dossiê de Registro, em dois grandes tipos, o Samba Corrido e o Samba Chula. Assim sendo, as principais diferenças entre samba corrido e samba chula se referem às relações entre música e dança, e podem ser resumidas em dois pontos principais. Primeiro: no samba chula, a dança e o canto nunca acontecem ao mesmo tempo- estando os toques dos instrumentos presentes nas duas atividades -, enquanto no samba corrido, ao contrário, dança, canto e toques acontecem simultaneamente. Segundo: no samba chula apenas uma pessoa de cada vez samba no meio da roda; enquanto no samba corrido podem sambar uma ou várias pessoas ao mesmo tempo no meio da roda (IPHAN, 2006, p.34) A escolha de uma manifestação brasileira para candidatar-se a III Declaração de Obras Primas do Patrimônio Imaterial da Humanidade gerou uma série de debates entre Ministério da Cultura, pesquisadores, UNESCO e demais interessados. No início, a proposta do então ministro, Gilberto Gil, foi a de indicar o samba brasileiro. Para a UNESCO, a idéia principal era salvaguardar as expressões culturais em risco de desaparecimento e, todavia, o samba brasileiro não se enquadrava nas diretrizes do programa proposto. Já não acontecia o mesmo com o samba de roda do Recôncavo Baiano que foi considerado como estando sob ameaça de desaparecimento e, uma vez enquadrando-se perfeitamente nos critérios de preservação da UNESCO, resultou sendo indicado. A noção de “risco de desaparecimento” dentro do samba de roda também foi bastante discutida. Segundo Carlos Sandroni, coordenador da equipe responsável pelo Dossiê de registro6, “de fato, o principal risco de desaparecimento do samba de roda parece estar ligado à desvalorização social de que são vítimas seus praticantes” (SANDRONI, 2005, p.49). Além disso, a escolha dessa manifestação para representar o Brasil na proclamação da UNESCO, justificou-se também pelo fato de que “o samba de roda da Bahia tinha e tem de especial neste rico universo é sua ligação histórica com o conjunto do samba brasileiro” (SANDRONI, 2007). Em 30 de setembro de 2004, o samba de roda do Recôncavo Baiano foi registrado no livro “Formas de Expressão” e proclamado pelo IPHAN Patrimônio Cultural do Brasil. Posteriormente, em 2005, tornou-se Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, título declarado pela UNESCO. 6

A pesquisa que resultou no dossiê de Registro do samba de roda do Recôncavo baiano foi realizada em Recife/PE, em Salvador/ BA e no Recôncavo da Bahia, no ano de 2004. ­ 528 ­


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Correndo a roda: a pesquisa no contexto do samba Até o momento, foi possível realizar uma descrição dos processos de registro e salvaguarda a partir dos pressupostos dos órgãos responsáveis pela formulação e implementação de políticas culturais no Brasil, como o IPHAN e o Ministério da Cultura. Dessa maneira, as nossas reflexões também apóiam-se em algumas considerações preliminares a respeito da Etnografia realizada nessa investigação. Através do trabalho de campo estão sendo feitas entrevistas com sambadores e com os técnicos do IPHAN responsáveis pelo registro e salvaguarda do samba. Além disso, estamos realizando fotografias, filmagens e observações participantes dos momentos de performance musical dos grupos de samba de roda, compreendidas em alguns ensaios e apresentações públicas, e participando de outras situações que envolvem os grupos, como reuniões e assembléias da Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia (ASSEBA). As discussões e os resultados sobre as estratégias, os impactos, os méritos e os problemas dos trabalhos realizados in loco, no âmbito do samba de roda do Recôncavo Baiano poderão ser mais aprofundados por meio dos resultados finais dessa pesquisa. Contudo, apresentaremos breves considerações que puderam ser desenvolvidas a partir do material etnográfico que vem sendo recolhido no trabalho de campo. Depois do reconhecimento, os sambadores e sambadeiras do Recôncavo vêm lutando pela valorização de suas práticas culturais. E, de fato esse reconhecimento, imbuído ou não de ações efetivas por parte dos órgãos governamentais, proporcionou uma maior visibilidade do samba de roda para além das comunidades as quais fazem parte. E essa visibilidade pode ser comprovada, principalmente, através do interesse de pesquisadores e jornalistas e também do aumento da quantidade de convites para a realização de apresentações dos grupos em outras localidades, incluindo outros Estados e até mesmo outros países. Vale ressaltar que a desvalorização do samba de roda pela sociedade foi apontada por uma parte significativa dos sambadores durante a pesquisa que resultou no Dossiê de Registro (IPHAN, 2007, p.76). Para avaliarmos os desdobramentos da política de salvaguarda estamos acompanhando o andamento das ações estabelecidas no Plano de Salvaguarda 7 do samba de roda. Dentre as ações concretizadas, destacamos a criação da Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia e a sua contribuição para o processo de autonomia dos sambadores. Essa autonomia, referida pelo IPHAN como um ponto fundamental para a salvaguarda do samba de roda, envolve, dentre outras questões, o desenvolvimento de recursos humanos e materiais para as melhorias das condições de sustentabilidade dos sambadores. Pudemos perceber que a aquisição e a distribuição desses recursos têm gerado situações de conflito e estratégias de negociação, impulsionadas, principalmente, pelas relações entre os órgãos representares do Estado e os sambadores. Através das entrevistas, vem sendo possível confirmar que a formação de grupos de samba de roda é fato recente no Recôncavo, com exceção de poucos grupos. Segundo os sambadores entrevistados, há alguns anos eles se encontravam para os chamados sambas de caruru 8. Em um momento anterior à proclamação do título, o fato da formação dos grupos já era evidente, sendo essa uma das soluções encontradas por alguns sambadores para disputar o espaço com outros grupos no mercado cultural. Após o reconhecimento, novos grupos vêm sendo formados e um dos motivos para essa recente organização é necessidade de receber os incentivos que são conduzidos, principalmente, através da Associação. A formação de novos grupos tem suscitado algumas questões, até mesmo conflitantes como, por exemplo, a discussão entre os próprios sambadores a respeito do que pode ou não pode ser considerado como samba de roda, além disso, discute-se também como os recursos serão distribuídos entre os grupos que participam do processo de salvaguarda desde o início e os grupos que estão entrando agora. Durante o período que se estende entre a proclamação do título até o momento, o número de grupos registrados na Associação aumentou significativamente. Grande parte dos grupos observados, principalmente os constituídos recentemente, não possui a figura dos “mestres”, comumente encontrados na cultura popular. As funções de repassar os conhecimentos de geração em geração são agora compartilhadas com os coordenadores ou “presidentes” que atuam como 7

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Para mais informações sobre o assunto, conferir o trabalho “O Plano de Salvaguarda do samba de roda do Recôncavo Baiano”, publicado nos Anais do XVIII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música­ANPPOM. A denominação “sambas de caruru” é referência aos sambas que ocorrem depois de servido o Caruru, prato da culinária afro­brasileira, durante as Festas de São Cosme e Damião, que acontecem no mês de setembro. ­ 529 ­


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verdadeiros agentes culturais, responsáveis pela captação de recursos, e demais aspectos que compõem a organização dos grupos. Sendo assim, vimos que um dos objetivos de muitos grupos de samba, hoje, é a profissionalização, ou seja, apresentar-se através do pagamento de cachê, possuir materiais de divulgação, como DVDs e CDs, além da vontade de mostrar o seu trabalho em outras localidades . Assim, eles vêem a possibilidade de captação de recursos como uma forma de se manterem, de adquirir novos instrumentos, novas vestimentas e o equipamento de som para os ensaios e as apresentações. Apesar de não ser a realidade da maioria dos grupos, alguns sambadores estão sendo estimulados a trabalharem na elaboração de projetos e na captação de recursos através de leis de incentivo, fundos de cultura e patrocínio direto de empresas. Essas experiências já estão sendo compartilhadas dentro da Associação que, através de cursos de capacitação organizados por órgãos governamentais representativos da cultura, tem utilizado essas fontes de financiamento. Dentre os projetos da ASSEBA aprovados, podemos destacar o Pontão de Cultura que já possibilitou a distribuição de instrumentos entre os grupos e prevê, dentre outras medidas, a realização de oficinas com os mestres de samba e a aquisição de equipamento para estúdio de gravação. Assim, embora considere o título de patrimônio uma contribuição importante para a valorização do samba de roda, a maioria dos sambadores entrevistados ainda não se mostra totalmente satisfeita com os resultados práticos da salvaguarda. Esses resultados estão diretamente relacionados às condições de sustentabilidades dos grupos. Contudo, podemos dizer que o reconhecimento pelo IPHAN e, principalmente, pela UNESCO vem possibilitando uma maior articulação dos sambadores com representantes do Estado, isso pode ser confirmado através da letra do samba composto por Seu Feféco, integrante do grupo Suspiro do Iguape: Suspiro do Iguape, tem com coisa que indá (ainda) não viu, Tem coisa que indá (ainda) não viu (Bis) É o ministro da cultura, ô beleza se chama Gilberto Gil (Bis)

Conclusão Neste trabalho, apresentamos uma discussão importante a respeito das relações entre etnomusicologia e patrimônio cultural, dando enfoque aos desdobramentos da política federal de salvaguarda no âmbito do samba de roda do Recôncavo Baiano. E, convictos da impossibilidade de esgotar um tema dessa amplitude reconhecemos a importância de explorá-lo de maneira mais aprofundada através da coleta e interpretação do material etnográfico a ser recolhido no trabalho de campo. Assim, realizamos uma descrição de alguns aspectos que vêm se configurando através do título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Através dos discursos oriundos da patrimonialização, muitas questões devem ainda ser problematizadas, abarcando, principalmente, a tensão entre os valores atribuídos no universo dos sambadores e as normas técnicas e burocráticas que orientam a ação do IPHAN, do MINC e da UNESCO. E, diferentemente dos bens materiais como uma igreja ou um monumento que deve ser tombado e preservado da maneira mais original possível, a salvaguarda dos bens de natureza imaterial devem propor medidas que não caiam no estigma da Folclorização, do congelamento dessas práticas culturais, mas que garantam tratar seus valores musicais e simbólicos em meio às diversas transformações decorrentes da contemporaneidade. Neste sentido, a cultura popular não deve ser vista como uma coisa engessada, esperando para ser preservada ou resgatada e sim como um processo cultural em movimento.

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