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Bezerra da Silva, singular e plural: samba, autoria e função etnográfica

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ANAIS


Universidade Federal de Alagoas Reitora Ana Dayse Rezende Dorea Vice­ Reitor Eurico de Barros Lobo Filho Pró­Reitor de Extensão Eduardo Sílvio Sarmento Lyra Pró­Reitor Estudantil Pedro Nelson Bonfim Gomes Ribeiro Pró­Reitor de Pós­Graduação e Pesquisa Josealdo Tonholo Diretor do ICHCA Ronaldo Bispo Coordenador do Curso de Licenciatura em Música Rita Namé Coordenador do Curso de Canto Eduardo Xavier

Comissão Organizadora do IV Encontro Nacional da ABET Coordenação Geral Dra. Regina Cajazeira – UFAL Dr. Samuel Araújo ­ UFRJ Organização Prof. MS. Cyran Costa Prof. MS. Milson Fireman Prof. MS. Ruy Cipelli de Brito Comitê Científico Profa Dra. Elizabeth Lucas (UFRGS) (Presidente) Prof. Dr. Carlos Sandroni (UFPE/UFPB) Profa. Dra. Rosângela Tugny (UFMG) Profa. Dra. Deise Lucy Montardo (UFAM) Prof. Dr. Anthony Seeger (UCLA) Editor do Caderno de Resumos Cyran Costa Editor dos Anais ABET 2008 Hugo Leonardo Ribeiro Coordenação Financeira e Secretaria Geral Melquizedeque Machado dos Santos ­ UFAL

Associação Brasileira de Etnomusicologia (Biênio 2006­2008) Diretoria da ABET Presidente: Samuel Araújo Vice­Presidente: Rafael José de Menezes Bastos 1º Secretário: José Alberto Salgado e Silva 2º Secretário: Thiago Pinheiro 1ª Tesoureira (In Memoriam): Maria Ignez Cruz Mello 2º Tesoureiro Luis Fernando Hering Coelho Editora: Deise Lucy Oliveira Montardo Editor Assistente: Reginaldo Gil Braga Local do evento Pré­conferência dia 11: Biblioteca Central da UFAL Abertura dia 11: Teatro Deodoro (Praça Marechal Deodoro, s/n, Centro) Dia 12, 13 e 14 de Novembro de 2008: Centro Cultural e de Exposições de Maceió ­ (Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá).

Coordenador Artístico MS. Maria das Vitórias Santos ­ UFAL Julio César da Silva – SESC Infra­Estrutura (Funcionários) Vera Lúcia dos Santos Ferreira – UFAL (Estudantes) Arly Silva de Oliveira Junior Diego Victor da Silva Santos Ernandes Pires da Silva Elaine Maria da Silva Felipe de Farias Brandão Florisjan Caeh do Santos Lilian Rodrigues da Silva Myrna Valeska A. Leite Marcelo Vieira Marinho Odair Jose dos Santos Valencio da Silva Neto Valdemberg Antonio Marques Ribeiro Sivaldo Lima de Melo Programação Visual Marco Spinasse Programação Digital e Informática Juliana Amorim ­ UFAL Klênio Alves Lima ­ CESMAC


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Bezerra da Silva, singular e plural: samba, autoria e função etnográfica1 Cláudia Neiva de Matos Resumo O cantor e compositor Bezerra da Silva consagrou-se nos anos 80 como intérprete que retomava a linhagem malandra dos sambas votados à crônica do cotidiano das classes populares, cultivando uma dicção marcada pela gíria característica e pelo traço crítico e humorístico. Porém, como nunca se fizera até então, seu canto encenava a realidade crua da periferia social carioca, o mundo violento do tráfico de drogas e outras formas de exclusão e marginalidade, configurando um estilo logo apelidado de “sambandido”. Esse aspecto, entre outros, situa sua obra à margem do gênero. Esta comunicação pretende sublinhar e discutir o modo como ela se constrói reunindo uma pletora de autores praticamente desconhecidos, com sambas que o cantor ia garimpar nas “bocadas”, de gravador em punho, e nos quais sistematicamente se recusou a assumir a função de parceiro. O trabalho apóia-se na análise de um corpus de aproximadamente 270 sambas, bem como na consideração de dados históricos, contextuais e quantitativos, para discutir a hipótese do alcance etnográfico da obra de Bezerra. Na prática produtiva dos discos, bem como no acervo poético-musical aí constituído, há material para conduzir uma reflexão sobre autoria compartilhada, construção plural de um discurso singular, no qual se reconhece a voz de grupos e figuras que protagonizam algumas dos principais conflitos e tensões da urbe contemporânea.

Palavras-chave: Bezerra da Silva, samba, etnografia

Abstract The singer and songwriter Bezerra da Silva became famous in the 80’s as an interpreter related to the malandro branch of samba making the chronicle of popular classes dayly life, talking a language marked by characteristic slang, critical and humoristical traits. But, in a way never seen before, his songs brought out the rough reality of social periphery of Rio de Janeiro, the violent world of drugs traffic and other kinds of exclusion and marginality; hence he came to appear as a sort of outsider whose style was surnamed sambandido. The main goal of this paper is to stress and discuss the way how his repertory was built, assembling a big number of nearly unknown composers, with sambas that Bezerra used to search and record in the bocadas, sambas whose co-authorship he sistematically refused to assume. My analysis deals with a corpus of about 270 sambas, and also with sociohistorical and quantitative data, in order to elaborate the hypothesis of an ethnographic dimension in Bezerra’s work. Considering his gathering of repertory and his records production process, we get able to discuss about shared authorship and collective building of a particular discourse, where we recognize the voice of groups or individuals involved in some of the main conflicts and tensions of the contemporary urban reality.

Keywords: Bezerra da Silva, samba, ethnography

Quando morreu, em 2005, perto de completar 78 anos, o sambista Bezerra da Silva deixou um volumoso acervo de quase três dezenas de álbuns originais (além das coletâneas). Originais, também, porque neles se apresenta um estilo especial, uma persona artística peculiar, quase ímpar. Apesar de operar com alguns dispositivos tradicionais do complexo genérico do samba (poética da malandragem, estrutura do partido alto), o samba de Bezerra não se enquadra bem em nenhuma tendência, desviando-se consideravelmente do mainstream de sua época. Esta abrange fundamentalmente o último quartel do século XX, quando grande parte da poética do samba afirma valores como pureza da inspiração, espírito de “resistência” ou “raiz”, reportando-os à tradição mais “nobre” e veneranda do gênero. Tais valores são desconsiderados ou permanecem secundários na obra de Bezerra, o qual, embora pertencesse, por faixa 1

Este trabalho foi elaborado como parte de uma pesquisa apoiada pelo CNPq ­ 93 ­


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etária, à “velha guarda” do seu tempo, não manteve relação consistente com ela. Ao contrário da maioria dos sambistas de sua geração ou das gerações adjacentes, não se ligou a nenhuma escola de samba, e seu único vínculo confesso era com o Morro do Cantagalo, que nunca participou significativamente da geografia do samba carioca. Tampouco se aproximou da turma do pagode dos anos 80, que recolocou em voga o fundo de quintal, o partido alto e o chamado samba de raiz. Não retomava sucessos alheios do passado; não era retomado por outros sambistas; com os colegas intérpretes compartilhou raríssimas canções. Estão ausentes de seu repertório tanto os compositores canônicos de sua geração e anteriores (de Noel Rosa a Nelson Cavaquinho) como os pequenos e grandes ícones do samba contemporâneo (há uma faixa de Zeca Pagodinho, duas de Beto Sem Braço, uma de Wilson Moreira e Ney Lopes). Assim, no panorama recente, Bezerra permanece de certa forma um outsider, condição sublinhada nos últimos anos, quando o acirramento dos conflitos sociais e da violência no Rio de Janeiro fizeram parte do público consumidor deixar de achar graça no seu “sambandido”. Esse rótulo, atribuído pela imprensa ao estilo do cantor, destaca-lhe o caráter periférico, a condição marginal e algo solitária . Esta não chegou a ser alterada pelo disco gravado em conjunto com Dicró e Moreira da Silva, ambos considerados representantes da linhagem malandra do samba carioca; nem pela mudança de tom nos últimos discos, um com várias faixas de tema sentimental (A gíria é a cultura do povo), outro, editado postumamente, de temática gospel (Caminho de luz), como resultado de sua conversão à religião evangélica no final da vida. Afinal, o espírito malcriado e até mal-encarado de Bezerra só foi encontrar paralelo e continuidade entre alguns jovens roqueiros e rappers (Barão Vermelho, Planet Hemp, Marcelo D2), que nos anos 90 regravaram algumas de suas canções. O cantor esteve em permanente conflito com suas gravadoras, com as quais mantinha uma relação desconfiada e agressiva. Dava relativamente poucos shows. E, coisa rara entre intérpretes de samba (principalmente aqueles que não são tipicamente “cantores” pela excelência das qualidades vocais), poucas vezes assumiu o papel de compositor em sua numerosa discografia. Ao longo de 30 anos Bezerra lançou 28 álbuns de carreira, além de fazer eventuais participações em discos alheios e editar coletâneas. Minha proposta de análise opera nessa produção um recorte, privilegiando a longa série de discos que representam consensualmente a linha mestra de sua obra, ou seja, aquela relacionada às linhagens do partido-alto e do samba malandro. Por esse critério, excluem-se os dois primeiros discos (de coco) e os dois últimos (o “romântico” e o religioso), bem como o CD compartilhado com Moreira da Silva e Dicró, e as coletâneas que reutilizam faixas gravadas anteriormente. Ficamos assim com os 22 discos lançados entre 1977 e 2000. São 270 faixas originais: 63 assinadas por um único autor, 133 por dois autores, 70 por três e 4 faixas assinadas por quatro autores cada uma. O próprio Bezerra assina somente duas dezenas de sambas, sendo três vezes o único autor. Predominam no conjunto as composições em parceria, aproximadamente 77% do total. 254 autores estão implicados na criação desse corpus, com um total de 551 participações autorais. Muitos deles só assinam uma ou duas faixas. Os de maior presença no repertório, como Adelzonilton, Pedro Butina e Edson Show, aparecem em cerca de 15 faixas cada um. Há raríssimos autores conhecidos, cada um com apenas uma ou duas intervenções. Alguns compositores estão também bastante presentes no repertório de Dicró (notadamente Edson Show). Nos últimos discos, a variedade parece estreitar-se um pouco, e Regina do Bezerra, esposa e empresária do cantor, aparece como parceira na composição de 23 faixas. Apesar da numerosa diversidade de seus criadores, o estilo e temática gerais do conjunto são bastante orgânicos, seguindo geralmente um modelo que combina a estrutura do partido-alto - estrofes soladas e refrão coral - com temas e traços estilísticos associados ao universo social e estético da malandragem. As canções mostram-se como aparentadas, harmoniosamente conjugadas e encarnadas na figura do cantor, ao qual esse repertório de procedência múltipla oferece um substrato coeso e eficaz para a configuração de uma persona artística muito original. Essa aparente incongruência entre a pluralidade (e semianonimato, na maioria dos casos) dos autores e a singularidade coerente do intérprete e de sua obra é um aspecto nuclear da arte de Bezerra da Silva e centraliza o interesse de minha pesquisa. Poucas reflexões acadêmicas foram encetadas sobre esse artista, e apenas uma alcançou divulgação considerável: o excelente Bezerra da Silva, produto do morro, de Letícia Vianna (1999), fruto de uma tese de doutoramento em Antropologia Social. Alguns dos aspectos que me interessam na obra de Bezerra são abordados pela autora com bastante competência, particularmente o que ela chama de "tensão entre parceria e autoria" (Vianna, 1999: 29). Na sua perspectiva, ao renunciar deliberada e quase programaticamente ao papel de compositor em sua obra, Bezerra constrói para si um status especial de mediador, um personagem privilegiadamente representativo de uma comunidade de excluídos. Segundo a autora, “como intérprete de ­ 94 ­


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compositores anônimos [Bezerra] achou para si, digamos assim, um filão mercadológico e o sentido político para sua arte.” (Vianna, 1999: 33) “Faz questão de se abster da autoria, pois tem como estratégia aparecer apenas como intérprete – não um intérprete de sambas, simplesmente, mas o intérprete, ou “porta-voz”, dos favelados. Sua singularidade como artista, tal como ele a constrói, está diretamente relacionada com uma identidade coletiva.” (Vianna, 1999: 55-56) Levando adiante a proposta de Letícia, mas abstraindo a questão das intenções, mais ou menos conscientes, que presidem ao comportamento artístico de Bezerra, eu diria que o caráter profundamente plural de sua obra, sobre o qual ele edifica a própria individualidade artística, projeta uma figura que se poderia chamar de etnográfica. Na verdade, é uma espécie de etnografia que essa obra realiza, ao reunir e publicar (tornar públicos) uma multidão de discursos praticamente anônimos, enunciados por compositores – pelo menos no que tange ao volume e reconhecimento de sua produção – de segunda, terceira ou nenhuma categoria. A grande maioria consiste em nomes fugazes, às vezes relacionados a um sucesso da hora, mas logo perdidos de vista na proliferação de parceiros e criadores dos sambas cantados por Bezerra. O que chamo de valor etnográfico de seu trabalho refere-se aos seguintes fatores: (a) a extraordinária dimensão quantitativa do elenco de autores; (b) o anonimato virtual, ou semianonimato, da grande maioria desses criadores; (c) o fato de eles representarem sistematicamente um determinado estrato sócio-geográfico da cidade, constituído pelas camadas mais carentes, com destaque para o mundo do tráfico de drogas, morros e subúrbios situados à margem da lei e marcados por um cotidiano constantemente tensionado e violento. (d) o modo como suas criações, suas letras e músicas convergem para coletivamente gerar e dar consistência a um discurso cancional que se desenvolve no interior da obra de Bezerra, configurando uma espécie de subgênero, uma linguagem específica e marginal no mundo do samba; (e) a maneira particular como se construiu esse repertório, principalmente na primeira fase da carreira do cantor: é sabido que este costumava percorrer morros, subúrbios, favelas, de gravador em punho, recolhendo sambas nas “bocadas”. A originalidade da composição do repertório de Bezerra só pode ser bem avaliada em contraste com certa cultura tradicional do samba que, apesar de enaltecer a inspiração, o dom dos compositores, reserva-lhes lugar subalterno em termos de exposição mediática (é raro, ao apresentar uma canção no rádio, que se mencionem os autores), reconhecimento e remuneração. Esse quadro, ainda vigente em nossos dias, está diretamente relacionado com o processo de mercantilização do samba e profissionalização do sambista, desde os anos 1920-30. O acesso e trânsito no ambiente mediático eram franqueados aos cantores e difíceis para os compositores, verificando-se ainda, nas primeiras décadas da indústria radiofônica e fonográfica, diferenças consistentes de classe social e cor da pele entre as duas categorias. Tudo isso gerava uma hierarquização das funções que está claramente expressa por Moreira da Silva (apud Campos et alii, 1983: 69) falando de Geraldo Pereira (que aliás lhe cedeu autoria ou parceria em vários sambas): "Tinha ótimas idéias para fazer sambas e chegou a fazer carreira no pedaço, haja visto que chegou como parceiro, passou a compositor e acabou intérprete de seus próprios sucessos." Práticas de negociação estabelecidas desde os anos 1920 conferiam ao cantor o poder e a prerrogativa de aparecer como parceiro nas canções que gravava. Raros foram os intérpretes até os anos 50 que não assinaram composições, como Orlando Silva e Carlos Galhardo. São famosos casos como o de Francisco Alves e suas falsas parcerias com Ismael Silva. O desnível e o constrangimento dessa situação são representados no samba “Pobre compositor” (Taú Silva e Bezerra da Silva). (Ó o Cabuçu aí, malandragem! Salve o Taú!) Peço aos cantores brasileiros Se puderem me ajudar Tenho necessidade de gravar ­ 95 ­


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Ai ai meu Deus Que tanta dor Mas como sofre Um pobre compositor

(bis)

Como não me dão chance de gravar Não tenho outra solução Senhores comprositores musicais Eu vendo barato minha linda canção Ai ai meu Deus... Assim, quando renuncia a participar autoralmente nas canções que grava – inclusive quando, em primeira pessoa, elas desenvolvem um discurso claramente “autobiográfico” –, Bezerra rompe com uma prática tradicional e certamente ainda não extinta. Associada ao princípio de buscar e promover o compositor popular, essa opção assume forte conotação moral, é bandeira de luta e motivo de orgulho para o cantor, que explicita sua posição em depoimentos e entrevistas:

“Faço muita pesquisa. O Compositor é a base, [...] não é qualquer um que tem esta dádiva divina! Eu mesmo não tenho. [...] Eu não aceito parceria de ninguém! [...] A maioria são favelados, pobres, desempregados e de baixas rendas, quase todos moram na Baixada Fluminense do Grande Rio. Esse pessoal tem um poder de criatividade fora do comum e quase todos são analfabetos. Eles me colocaram numa situação privilegiada.” (Bezerra da Silva, 2003) E também no texto de alguns sambas, como “O rei da cocada preta” (Bezerra da Silva e Délcio Carvalho): Você pode ser A maior fortuna do planeta O rei da cocada preta O dono do samburá Sim mas não é a mim Que você vai subornar Você não é compositor Como é que você quer gravar [...] Quem é você seu desonesto Pra dizer a mim que é pagodeiro Você é comprositor Intrujão e trambiqueiro A verdade só dói no mentiroso E por esse motivo ela não agrada Quem tá falando sou eu Partideiro indigesto da pesada O processo de constituição de repertório em Bezerra da Silva é um aspecto original e fundamental da sua prática e da sua persona artística. Já vimos que, nos primeiros tempos, ia de gravador em punho ­ 96 ­


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percorrer favelas, morros e subúrbios. Depois passou a ouvir as fitas que lhe eram enviadas. Ao longo de toda a carreira, a sua função de mediador da coletividade de vozes subalternas e marginalizadas é tematizada nos sambas por ele gravados, e a afirmação do próprio valor e da auto-estima está articulada e apoiada pelo valor “autêntico” dos compositores que constituem o repertório. A razão do meu sucesso Não sou eu nem é minha versatilidade É que eu gravo com uma pá de pagodeiros Que são compositores de verdade (“Compositores de verdade”. Naval, Romildo e Edson Show) Os compositores são retratados nas capas e contracapas de alguns álbuns (Bezerra da Silva e um punhado de bambas, Alô malandragem, maloca o flagrante). Ou podem ter seus nomes, apelidos, lugares de origem, consagrados em letras como “Q.G. do samba” (Regina do Bezerra e Pedro Butina). Na Baixada Fluminense Mora um punhado de bambas É por esse motivo que ela é O quartel general do samba Sebastião Miranda e Baiano 7 O talentoso Carnaval e Cláudio Inspiração Tem Pinga, Guilherme, Eliezer da Ponte G. Martins e Walmir da Purificação João do Aviário, Menilson, Miltinho Genilda do Pinga, Rabanada e Bolão Nascido no berço do samba em Meriti O nosso grande poeta Bebeto de São João [refrão] Popular P, Pedro Butina Zé Luiz, Adelzonilton e Wantué Uruçu Bombeiro, Adelino da Chatuba Evandro do Galo e nosso amigo Dedé Por outro lado, não se pode negar que a forte personalidade interpretativa de Bezerra, sua performance vocal e dicção características, aliadas ao controle que exerce sobre a escolha do repertório, configuram um desempenho funcionalmente autoral nos sambas que grava. Neste caso, como em muitos outros, há espaço para se repensar os conceitos de autoria em canção popular. Também cabe apontar, a propósito, que a integração entre atuação vocoperformática, discurso verbal e linguagem musical, típica da arte da canção, constitui por si mesma uma instância exemplar da noção de parceria. Dentre os vários fatores discursivos que se integram na sua obra, a dimensão musical parece a menos destinada a suscitar comentários, possivelmente porque é a menos inovadora e mais corriqueira, além de bastante recorrente. Predominam extensamente a estrutura do partido-alto e o âmbito estreito do fraseado melódico, aproximado da elocução falada. É comum, nos processos de produção e transmissão de cancioneiro anteriores ou alheios à cultura escrita, que esquemas melódicos funcionem basicamente como suporte que permite conservar, renovar e pôr em circulação a palavra poética. Ou seja, músicas conhecidas são reaproveitadas para novas letras. Assim também, no modo de produção do partido alto, velhos esquemas melódicos de refrão-estrofe podem ser explorados para criar, retomar ou reformar textos. Nesse quadro, a energia criativa ­ 97 ­


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freqüentemente se aplica mais à produção dos discursos verbais que aos melódicos. No partido alto tradicional, assim se prepara o terreno para o embate virtuosístico dos improvisadores, versadores, partideiros. Na obra de Bezerra, tal embate só é encenado em poucas passagens dos primeiros discos, que ele compartilha com outros partideiros, como Genaro e Rey Jordão. Porém traços dele sobrevivem, por exemplo, no motivo, presente em muitas canções, da jactância do cantador que afirma sua competência e valor. Mas de modo geral o que conta não é o brilho da invenção, e isso ajuda a explicar por que Nei Lopes, no seu livro Partido alto: samba de bambas, praticamente ignora a contribuição de Bezerra. De fato, sua produção não cultiva a genialidade nem persegue os lances magistrais, mas contenta-se em laborar terrenos caseiros com ferramentas cotidianas e rústicas. Assim, Nei Lopes (2005: 184) não deixa de ter razão quando aponta a ausência de “excelência” nos “sambas de estilo aproximado ao do partido-alto” que povoam a obra de Bezerra. Penso entretanto que esta permanece associada ao espírito do gênero pela valorização da criação compartilhada, plural. A conexão está declarada nos títulos dos seus primeiros discos de samba: Partido alto nota dez vols. 1, 2 e 3 (1977, 1979, 1980), Partido muito alto (1980), Samba partido e outras comidas (1981), Bezerra da Silva e um punhado de bambas (1982). Na seqüência da obra, o tópico da gênese coletiva e social do repertório, relacionado à pluralidade dos compositores, manifesta-se também no motivo da representação espacial multiplicada, da eleição das comunidades marginalizadas de morros e subúrbios – principalmente as favelas – como objeto privilegiado de um discurso redentor ou apologético. O samba de Bezerra tira esses espaços do silêncio e da invisibilidade, cuida de dar-lhes voz, mapeá-los e proclamar seus nomes, como em “Saudação às favelas” (Sergio Fernandes e Pedro Butina): Voltei pra falar das favelas que eu não falei Hoje provo e comprovo que não esqueci de vocês Morro do Juramento, Jorge Turco, Babilônia e Adeus Cabrito, Fubá, Morro Agudo e Cidade de Deus Lagartixa, Coroa, Formiga e Laboriaux Favela do Acari, Timóteo da Costa e o Morro do Amor A querida Cruzada São Sebastião Antiga Praia do Pinto Que deu o Adílio um grande campeão [refrão] Morro da Maravilha, Abacaxi, Alvoroço e Sabão Na Garganta nasceu Viradouro, o pentacampeão Brasília, Torre, Urubu e Coréia na famosa Engenhoca Ordem e Progresso em São Paulo e a saudosa Maloca Sei que sou considerado em qualquer bocada Peço desculpa a vocês Mas não troco meu Morro do Galo por nada A outra face dessa proliferação de topônimos e antropônimos, nomes de favelas e de compositores, ampliando e socializando o direito à expressão poética e crítica, é o destaque singular conferido à voz central, o intérprete competente e legitimado, o malandro “rife”, “consciente” e “considerado”. Como no samba malandro tradicional, o valor desse protagonista está conectado com o valor da comunidade à qual pertence, que representa e cujo protocolo respeita. A voz do cantor singular reina soberana, mas é porque nela ecoa uma comunidade de vozes, bem como a voz das comunidades. Em toda a linha da obra, é da fidelidade ao papel de porta-voz e defensor de morros e favelas que Bezerra tira sua autenticidade e legitimidade. Como observa Letícia Vianna (1999: 153), “o repertório de Bezerra da Silva constitui uma espécie de discurso construído sob a perspectiva do povo que se opõe à elite.” Provavelmente mais do que qualquer outro artista, tematiza criticamente a desigualdade social, explicitando a fratura entre asfalto e morro, cidade e colina, favela. Sou produto do morro ­ 98 ­


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Por isso do morro Não fujo e nem corro Eu sou produto do morro Sem pedir socorro pra ninguém Embarquei no asfalto na cruel sociedade Que esconde os valores que no morro tem Tenho pouco estudo não fiz faculdade E atestado de burro não assino também (“Produto do morro”, Eliezer da Ponte e Walter Coragem) Acredito poder afirmar, mesmo sem ainda ter completado uma observação exaustiva do corpus, que a obra de Bezerra, como território frequentado por numerosos e diversos locutores, desenvolve uma dupla vocação, dialógica e pedagógica, que é característica de gêneros fundados na cultura oral. Mas dialogia aqui pouco ou nada tem a ver com o sentido cunhado por Bakhtin. Emprego o termo para designar o sistema de referências intertextuais do repertório, e o papel privilegiado aí desempenhado pela palavra. A transmissão do “recado”, do ponto de vista, a exposição crítica, a afirmação do juízo são o principais móveis desse discurso cancional. O samba torna-se então o espaço de uma interlocução entre esses falantes, interlocução pública que reforça as vozes individuais, conferindo-lhes um peso que jamais poderiam ter quando confinadas ao espaço privado. As canções retomam-se e respondem-se umas às outras. Não se trata de poetas singulares e individuais procurando atingir, pelo virtuosismo, um patamar de criação superior, mas antes de todos procurando integrar-se a uma fala ou discussão comum, no forum mediático aberto, promovido e mediado pelo cantor, o qual opera para registrar, produzir a grafia sonora desse segmento etnossocial. O que principalmente está em pauta é a realidade inóspita e a tentativa de sobreviver dentro dela: as queixas, carências e aspirações enunciadas por um coro de descontentes. Esteticamente, essa vocação coral se manifesta na comunidade da linguagem poéticomusical: coesão e similitude para as quais contribui também, de modo decisivo, o papel do intérprete, não só pela sua performance como pela sua atuação de seletor do repertório. Alcança assim realizar e manter, ao longo dos anos, uma fórmula de eficácia constantemente ratificada pelos próprios antigos e novos colaboradores que dela participam e se beneficiam. Tal eficácia procede da consistência política dessa 1ª pessoa do singular-plural, assegurando a conexão entre produtores, intérprete e público, e fortalecendo a palavra empenhada que circula nesse âmbito socialmente desfavorecido: Meu samba é duro na queda, é Não é conversa fiada É uma bandeira de luta Na vida da rapaziada Sou porta-voz de poetas Que ninguém dá chances assim como eu Uns vêm da favela, outros da Baixada Com esses talentos o meu samba venceu Tem aqueles que não gostam Quando ouvem meus sucessos ficam tiririca Mas ninguém esconde a verdade Só quem é bom é que fica [refrão] Falo a língua de um povo ­ 99 ­


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Que me ajudou a chegar onde estou Eles compram meus discos e cantam meus versos E assim vou mantendo o que sou Porque mostro a realidade Com dignidade sem demagogia Cantando tento amenizar O sofrimento cruel do nosso dia-a-dia “Meu samba é duro na queda” (Pinga, Guilherme do Ponto Chic e Dafé Amaral)

Referências bibliográficas e discográficas: BEZERRA DA SILVA. Discografia completa. ______. Entrevista a Elias Nogueira, 2003. http://aumentasom.blogspot.com/search?q=bezerra+da+silva VIANNA, Letícia C. R. Bezerra da Silva, produto do morro: trajetória e obra de um sambista que não é santo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. CAMPOS, Alice D. S. et alii. Um certo Geraldo Pereira. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional de Música, 1983. LOPES, Nei. Partido alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.

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