Skip to main content

Da artificação do desfile das escolas de samba à sala de aula como barracão do fazer: histórias e sa

Page 1

André Luiz Porfiro

Da Artificação do Desfile das escolas de Samba à Sala de Aula como Barracão do Fazer: histórias e saberes da arte do carnaval* *

Recebido em: 03.06.2017. Aprovado em: 10.10.2017

From the art of the parade of the samba schools to the classroom of the Barraque do Fazer: carnival art stories and knowledge**

**

André Luiz Porfiro***

O artigo faz parte da pesquisa de doutoramento em educação O Que Eu Faço é Fantasia: as artes do carnaval na sala de aula do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEDUERJ). *** Mestre em Teatro pela UNIRIOUniversidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, professor de Artes do ISERJ – Instituto Superior de Educação do Estado do Rio de Janeiro e doutorando do ProPed-UERJ; email: aporfiro@gmail.com

Resumo – O artigo pretende apresentar a arte do carnaval nas suas formas e feitos realizados no desfile das escolas de samba. Apresenta-se como se manejou aspectos dessa mesma arte na maneira de engendrar uma prática experimental em aulas do componente curricular Arte. Por um lado, partiu-se da hipótese de que há saberes nos barracões de alegorias e fantasias e nos barracões de ala, locais de invenção, desenvolvimento e construção dos sonhos carnavalescos. De outro, considerou-se que, na tessitura da circulação desses saberes, está outro espaço de investigação: a sala de aula. O relato aqui desenvolvido tem por objeto algumas experiências realizadas com a arte do carnaval na sala de aula com alunos e alunas do ensino médio, numa escola pública do Rio de Janeiro. A finalidade do texto é, portanto, narrar como a diversidade de materiais utilizados, as invenções, as releituras e ressignificações que acontecem nos barracões das escolas de samba convergiram, na realização da nossa pesquisa, com os fazeres contemporâneos do ensino da arte na educação básica.

Abstract - The article intends to present the art of carnival in its forms and made in the parade of samba schools. It presents how to handled aspects of this same art in the way of engendering an experimental practice in classes of Art as a curricula component. On the one hand, it was based on the hypothesis that there is knowledge in the hovels of allegories and costumes and in the hovel of sections, places of invention, development and construction of carnival dreams. On the other hand, it was considered that, in the context of the circulation of these knowledges, there is another space for investigation: the classroom. The purpose of this article is to present some experiences with the art of carnival in the classroom with students and high school students in a public school in Rio de Janeiro. The purpose of the text is, therefore, to describe how the diversity of materials used, the inventions, re-readings and resignifications that take place in the hovels of samba schools converged, in the accomplishment of our research, with the contemporary actions of the teaching of art in basic education .

Palavras-chave: arte do carnaval; ensino de arte; escolas de samba; circulação de saberes

Keywords: the carnival art; art education; samba schools; circulation of knowledge

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 94


André Luiz Porfiro

Nos anos 20, do século passado, segundo a historiografia

Escola de Samba: travessias transatlânticas, reconstruções materiais e transformações estéticas

(FRANCESCHI, 2014), um grupo de músicos do bairro do Estácio de Sá, no Rio de Janeiro inventou a Escola de Samba. Inventores

Polissêmicos, os conceitos de criação e criatividade

do novo ritmo e de novos instrumentos musicais percussivos, que

envolvem semânticas distintas e diversas. Optamos por identifica-

tornaram possível um andamento mais compacto e ágil na

los a padrões assumidos por procedimentos em que se fazem

procissão carnavalesca, os componentes do Grupo do Estácio se

mútuas intenções e manipulações, deixando por rastros novas

autoproclamaram "professores". O local para a prática da docência

formas

da expressão recém-inventada foi nomeada como Escola de Samba.

“viva” e a cada ano colocar o desfile na rua, com suas

envolvendo dimensões plástico-visuais, literário-dramatúrgico,

características básicas, é o mote de sua reinvenção a cada ciclo.

percussivo-musical e performática, nas suas formas e feitos

Vale então sublinhar, logo de início: inovação, invenção,

realizados no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e que

deslocamento de materiais, ressignificação de objetos e formas de

se constituem como saberes aptos a engendrar uma prática

outras artes estão no cerne das escolas de samba desde a sua

experimental em sala de aula, no componente curricular Arte. Isto,

criação até aos desfiles atuais.

à medida que acredito haver saberes nas práticas culturais dos locais

de

Diante desse padrão que define a dinâmica criativa desse

invenção,

ciclo estético-carnavalesco, mas enfatizando as mudanças de

desenvolvimento e construção da arte do carnaval. Postulo que

materiais, em especial, as inovações e as transformações estéticas

esses conhecimentos precisam ser legitimados e democratizados, colocados

em

circulação.

Precisam

em

atravessada por tensões e pressões. A necessidade de manter-se

Carnaval, entendida como a gama de elementos expressivos

fantasias,

situadas

Sob esse ponto de vista, a criação das escolas de samba está

Este artigo tem como objetivo apresentar a Arte do

e

sempre

pessoas, gerações e instituições (BAXANDALL, 2006).

protagonista do carnaval da cidade.

alegorias

mas

e sociofuncionais, mas igualmente constituídas por biografias de

Samba do Rio de Janeiro é considerado a forma artística

de

materialidades,

condicionamentos articulando dimensões ambientais, sociotécnicas

Contemporaneamente, o gênero de carnaval Desfile das Escolas de

barracões

e

ser

partilhados

que ocorreram até a concretização do gênero desfile de escola de

por

samba em uma distinção que consagra toda uma gama de fazeres,

metodologias inventadas com esse mesmo intento.

tornando-os percebido e classificado como formação artística,

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 95


André Luiz Porfiro

de mundos sociais resultantes desses objetos (SHAPIRO, 2007, p. 136).

pretendo travar um diálogo entre a história do desfile, a sociologia e a filosofia da arte. As mudanças de domínio realizadas até a conclusão do ciclo de artificação do gênero artístico Desfile de

Com as categorias, respectivamente propostas por Richard

Escola de samba servirão como chave de análise.

Sennett, e, também, pelas sociólogas da arte Roberta Shapiro e

Mudança de domínio é uma metamorfose relacionada às

Nathalie Heinich, mas a luz dos objetivos deste texto, a seguir,

possibilidades de transformação no processo de realização de

coloco em foco aspectos desse ciclo de criação artístico-

determinada produção. Categoria analítica cunhada pelo historiador

carnavalesca. Para isso, faço o emprego da figura das travessias de

e sociólogo Richard Sennett (2009: p.146), remete à maneira como

maneira estratégica como recurso narrativo com vistas a delimitar

determinada

pontos específicos da explanação e análise.

ferramenta,

utilizada

inicialmente

para

certa

finalidade, pode ser aplicada em outra tarefa, ou como o princípio

Parte-se

da

travessia

transatlântica.

Os

africanos

que orienta uma prática pode ser aplicado em outra tarefa

sequestrados, vindos para o Brasil nos tumbeiros (os navios

completamente diferente. Nessa maneira de interpretar a realização

negreiros) – símbolo sanguinário da colonização européia. Costuro

de atos, há a indissociabilidade entre o fazer e o pensar. Já a

os rastros historiográficos da participação negra no carnaval, antes

“artificação” é um campo novo na sociologia da arte e das

da invenção da Escola de Samba. Vale lembrar: os cordões dos

mudanças sociais. É entendido como a transformação da não arte

Cucumbis, a Festa da Penha, bairro suburbano do Rio de Janeiro, as

em arte. A artificação está relacionada com significados, objetos,

reuniões na casa de Tia Ciata, entre outras situações e episódios,

interação e instituições. Para pensar mediante esse novo conceito,

são influências com incidência sobre o Grupo do Estácio. Esses

torna-se necessário uma categorização mais ampla para a arte:

círculos de convivência e sociabilidades, além dos movimentos antecessores, são modulados dentro do que entende como os

A arte não é somente um corpus de objetos definidos por instituições e disciplinas consagradas, mas também o resultado desses processos sociais, datados e situados. Compreender o engendramento desses processos e descrever minuciosamente seu desenvolvimento poderá nos ajudar a clarificar a natureza dos objetos “de arte” e dos mundos sociais nos quais eles emergem ou, até mesmo,

elementos formadores da expressão artística das escolas de samba. A segunda travessia, que em um desfile poderia ser simbolizada por uma fantasia, seria a atuação de Paulo da Portela e do grupo de sambista da sua agremiação carnavalesca, a Escola de Samba Portela, na formalização estética do desfile. Personagem

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 96


André Luiz Porfiro

Termo empregado no “mundo do samba” para se referir a pessoas destacadas por sua sagacidade estética, mas também de comando institucional. 2 São os seguintes os dez processos constituintes da Artificação: deslocamento, renomeação, recategorização, mudança institucional e organizacional, patrocínio, consolidação jurídica, redefinição do tempo, individualização do trabalho, disseminação e intelectualização. 3 Nascido em São Luís do Maranhão, João Jorge Trinta migrou para o Rio de Janeiro com a finalidade de integrar o corpo de balé do Teatro Municipal. Nesta instituição, fez parte do setor de montagem de óperas, quando trabalhou junto a Fernando Pamplona. Este o levou para o interior da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, na década de 1960, onde atuou como aderecista. Nesse mesma agremiação assumiu o cargo de carnavalesco em 1974, log sagrando-se bicampeão. Transfere para a Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis e obtém mais cinco títulos. Afamado percorre outras escolas – Viradouro, Grande Rio e Unidos de Vila Isabel. Sem dúvida, seu nome constitui uma das principais referências na arte do carnaval carioca. 1

quase invisibilizado na historiografia dos desfiles, pode ser

ruas, nos vários teatros onde foi montado antes da construção do

considerado um “herói civilizador” (FARIAS, 1999, p.178) em

palco definitivo, o Sambódromo, e pela transmissão televisiva.

razão dos trânsitos engendrados entre extrações de diferentes

A quarta travessia acontece no ano de 1989, no desfile

camadas sociais a partir de expressões artísticas. Nesse sentido, a

Ratos e Urubus, Larguem minha Fantasia, da Escola de Samba

intervenção artística dos “bambas”1 de Madureira estruturou novas

Beija-Flor de Nilópolis. Nesse desfile, a intelectualização, último

semânticas, deslocamentos e usos de outras artes na permanência

dos dez processos constituintes da artificação2, concretiza-se na

das escolas de samba.

semântica do gênero artístico Desfile de Escolas de Samba.

O terceiro movimento desta travessia é o Grupo do

Joãosinho Trinta3, tomando, principalmente, como elemento

Salgueiro. Inicialmente com a artista visual Marie Louise Nery e

a inserção da interpretação teatral na ópera deambulante de rua,

seu marido, o artista plástico Dirceu Nery, em seguida, com a

elabora o discurso, desenvolve a materialidade da proposta de

liderança do cenógrafo Fernando Pamplona, o grupo impõe uma

enredo e realiza seu conceito na prática carnavalesca. “O trabalho

organização racionalizada no desfile, estabelecendo uma sequência

de ligar o Samba ao personagem que o componente está

cronológica para a narrativa da intriga desenvolvida no enredo. Há

representando, começou. É o Teatro no Samba e o Samba no

uma reorganização na semântica do desfile.

Teatro – São raízes antigas que ressurgem.” (TRINTA, 1988, p.5)

No caudal da atuação do Grupo do Salgueiro, a utilização

Estabelece uma nova mudança de domínio e fecha o ciclo de

de objetos do cotidiano transmutados em sua função – Helenise

artificação do gênero artístico-carnavalesco.

Guimarães (GUIMARÃES, 1992, p.122) define esta como uma das técnicas do ludibrio –, passa a integrar definitivamente a gramática

A arte do carnaval: da Cidade do Samba à Passarela

do Desfile das Escolas de Samba. Materiais e técnicas utilizadas na televisão são incorporados na realização das indumentárias e dos

As vivências e trocas engendradas na Cidade do Samba,

cenários expostos na pista de desfiles, influenciando desde a

com os artistas dos barracões das escolas de samba, com suas

concepção a montagem das alegorias, que se tornam o elemento

criações, invenções, modos de fazer e feitos, nos anos de 2014 a

principal do gênero artístico (CAVALCANTI, 2008, p. 179). O

2016, nos meses anteriores ao carnaval, se mexeu e redimensionou

evento carnavalesco passa a ter, também, concomitantemente,

a proposta da minha tese de doutorado, igualmente, fecundou

dupla audiência. É visto presencialmente pelos espectadores nas

algumas reflexões para esse artigo.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 97


André Luiz Porfiro

4

Quadro vivo. Encenação de um ou vários atores imóveis e congelados numa pose expressiva que sugere uma estátua ou uma pintura.

Durante os meses de janeiro e fevereiro, dos anos de 2014 a

Vou apreciando o movimento e tateando nas suas significações. O

2016, a Cidade do Samba foi um dos campos da minha pesquisa.

intenso movimento coreográfico cessa. Todos entoam o canto com

No primeiro ano, por meio de entrevistas abertas e avulsas com

mais força e estão em posições pré-estabelecidas, um tableau

representantes de distintos setores da elaboração e montagem dos

vivant4 sem as amarras da frontalidade, um quadro vivo para

desfiles das escolas de samba e, nos anos seguintes, participando de

audiências em todo o seu entorno.

rodas de conversas regulares surgidas a partir das entrevistas antes

Quebrando a mansidão instalada, aparece uma pessoa com

realizadas. Na convivência com o grupo formado nestas rodas de

roupas cotidianas, mas com capa dourada, coroa e cetro.

conversação, submergi em um mundo paralelo, um mundo de

Componentes

inventores/as de sonhos, contando seus processos de criação.

gesticulações, entendo que há apoiadores e contrários à autoridade

do

grupo

coreográfico

o

levantam.

Nas

da figura real. Monta-se o cortejo. No outro lado dessa cidade em que se fecundam sonhos, um

a) A Cidade do Samba, os barracões das mãos que fazem

carro alegórico sai do barracão e o pássaro principal da alegoria,

os sonhos

ainda sem acabamento, solta sons guturais. Um spot de iluminação A Cidade do Samba está localizada no bairro de Santo

faz com que suas partes recebam fachos de luzes de cores

Cristo, Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro. Começou a

diferenciadas. Depois de alguns minutos, o jogo de luzes ganha

funcionar como local de criação, desenvolvimento e construção de

outra coloração. Percebo que há uma espécie de narrativa na

objetos da arte do carnaval no ano de 2005. A inauguração oficial

sequência em que o brilho de uma cor sucede a outro. Voltando o

ocorreu em fevereiro do ano de 2006. É um espaço que, em certas

olhar para o grupo que ensaia a coreografia, não mais os vejo, não

circunstâncias, em razão da dinâmica artística ali instalada por

estão mais no local anterior. O grupo segue em cortejo cantando e

ocasião da fase pré-carnavalesca, torna-se uma ambiência onírica.

dançando pelas ruas da Cidade do Samba, a trajetória final do

Num repente, surgem pessoas cantando e fazendo movimentos

embate coreográfico será descoberta apenas no teatro dos desfiles.

coreográficos, algumas dessas pessoas carregam elementos de cena

Por um pequeno lapso de tempo, esqueço o pássaro

nas mãos. Em uma cena, há movimentos corporais que se

colorido. Ao retornar o olhar não há mais pássaro, não há mais sons

relacionam com a música cantada, mas faltam detalhes para uma

guturais, não há mais luzes. De repente, tudo já está imóvel na

interpretação mais profunda do que se trata aquela performance.

mudez da escuridão.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 98


André Luiz Porfiro

Os saberes ali se caracterizam de modos diversos. Na arte

tornar viável a materialidade plástico-visual apresentada na

do carnaval a efemeridade é uma das marcas da criação, da

Passarela do Samba, foi ocupando um ponto central nas entrevistas

invenção e do conhecimento. De acordo com alguns intérpretes, na

e conversas. Como aquele carro se movia? Como conseguiu aquele

civilização ocidental, o desejo de algo mais duradouro do que as

efeito? Como surgiu a ideia daquele movimento? Quem inventou o

matérias que se decompõem, é uma das explicações, da suposta

mecanismo que propiciou a realização daquele momento de sonho?

superioridade da cabeça sobre a mão (SENNETT, 2013, p.42).

A ideia de experimentar na sala de aula de arte as invenções

Afinal, seria a separação entre corpo e mente, dando prevalência na

relatadas a cada roda de conversa, a cada descrição dos tratamentos

hierarquia de saberes ao intelecto, uma das características da

estéticos dados, a cada elemento do desfile que estava sendo

modernidade. Porém, esse modelo não é único. Quando

construído, começava a adquirir relevância para mim. Como

comparadas ao sistema escolar formal – ícone por excelência dessa

partilhar aqueles saberes nas aulas de arte? Como fazer a tradução

centralidade do intelecto –, vê-se existirem outras maneiras de

do desfile para a sala de aula? Tais questões começaram a ocupar o

circulação, apreensão e mudanças nos conhecimentos advindos das

cotidiano da pesquisa.

expressões artísticas que se caracterizam por feitos e fazeres

Cercado de sonhos e ansioso para assistir aos sonhos dos

manuais. A ambiência de sonhos e surpresas criadas com as mãos,

artistas do carnaval, estava na arquibancada para ver ao desfile das

que marcou as estadas no campo na Cidade do Samba, admite a

escolas de samba do Rio de Janeiro, de 2015. Segunda-feira de

indissociabilidade entre fazer e pensar. Nas artes do carnaval, há

carnaval, o segundo dia do desfile. A primeira agremiação a

um fazer coisas que desenvolvem aptidões físicas e que se aplicam

desfilar naquela noite foi a Escola de Samba São Clemente.

à vida social. Moldar coisas materiais para desenvolver

Considerada uma escola média, dentro da hierarquia do

sociabilidades.

concurso em que o desfile está inserido, para o desfile do ano de 2015, a São Clemente ousou e contratou Rosa Magalhães como carnavalesca. Ela, além de carnavalesca, é artista plástica,

b) A arte do carnaval na Passarela do Samba

figurinista e cenógrafa. Foi professora da Escola de Belas Artes da Uma arte de feitos e fazeres inventados que são transmitidos

Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ) – identificada

cotidianamente na falta, na necessidade de resolução daqueles

como “celeiro” acadêmico de artistas do carnaval – e compôs o

problemas práticos-estéticos-artísticos relativos ao empenho de

célebre Grupo do Salgueiro.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 99


André Luiz Porfiro

5

Versos do samba-enredo da Escola de Samba São Clemente para o carnaval de 2015. Compositores: Leozinho Nunes, W.Machado, Hugo Bruno, Diego Estrela, Ronni Costa e Victor Alves.

O enredo que a Escola de Samba São Clemente

A comissão de frente aproximava-se. Era possível enxergar

desenvolveu naquele ano de foi A Incrível História do Homem que

que as cores da escola de samba – amarelo e preto – predominavam

Só Tinha Medo da Matinta Pereira, da Tocandira e da Onça Pé de

na indumentária dos dançantes e que havia um personagem ao

Boi – uma homenagem a Fernando Pamplona, que também compôs

centro rodeado de outros dançantes. O movimento contínuo,

o quadro de professores da EBA/UFRJ. Vimos, fora ele o principal

sempre em frente, com uma coreografia dinâmica fez com que em

articulador do já referido Grupo do Salgueiro. Considerado um dos

pouco tempo pudesse avistar todos os elementos do grupo que

principais renovadores do desfile das escolas de samba, suas ideias

apresenta o desfile da escola de samba.

sobre o espetáculo audiovisual deambulante, formaram a base do

A figura lendária de Matinta Perera era o personagem

que hoje se considera o carnaval contemporâneo. Aguardando

o

desfile

chegar

ao

central da Comissão de Frente. Uma senhora, uma velha, uma setor

sete

das

bruxa que, quando contrariada, transforma-se em um grande

arquibancadas do prédio da Passarela do Samba, lá estava eu

pássaro, que em voos rasantes amedronta a cidade. Uma lenda da

sentado. Os fogos de artifício, com predominância das cores preto e

região Norte do Brasil. O homenageado pelo desfile da São

abóbora, cores da São Clemente, dispersaram-se no céu. O samba-

Clemente, Fernando Pamplona, vivera na infância em Rio Branco,

enredo cantado pelos intérpretes da escola, com refrão marcante,

capital do estado do Acre.

acentuava a expectativa de ver o desfile.

Em relação ainda àquela Comissão de Frente, o movimento

É o mestre, Que segue o astro rei lá no infinito, O céu ficou ainda mais bonito, Todos querem aplaudir.

central da coreografia era a transformação. Um dançante representando a Matinta Perera e outros catorze dançantes mesclavam-se em movimentos corporais, ora simbolizando a velha, ora simbolizando o pássaro. Em determinados momentos da

O samba cantado e repetido várias vezes, característica que

coreografia, um objeto fixado na cabeça dos dançantes era baixado

se firmou no desfile com o passar dos anos, me deixara inebriado, o

para o rosto, dava-se início a transformação. O objeto agora era

pensamento estava absorto pelos versos cantados.

uma máscara com o bico pontudo de um pássaro. Todos os

Vem que a festa é da gente Meu orgulho, São Clemente Ao gênio maior da avenida Canta Zona Sul, feliz da vida5

dançantes assumiam o outro lado da Matinta Perera, a velha transformara-se em pássaro. A coreografia tomava outra dinâmica, mais intensa, em elipses, ocupando mais espaços da pista dos

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 100


André Luiz Porfiro

Desfiles. Em outro ponto pré-determinado do samba-enredo,

A seguir, outra fantasia arrepiante: a Assombração, um

invertia-se a transformação. Novamente a velha, a bruxa ocupava a

boneco de vara gigante, mais de dois metros de altura. Uma

cena, o corpo de todos os dançantes acompanhava a mudança da

composição estilizada de caveira branca com retalhos de panos em

persona.

tonalidades do preto, do branco, do cinza e da prata. O carro abre-alas desponta em frente à arquibancada: Matinta Perera, As Assombrações do Folclore Acreano nomeava a alegoria. No carro alegórico, à base de esculturas, estavam dispostas várias outras Matintas Pereras. No centro da alegoria, uma enorme escultura da Matinta Perera com movimentos na cabeça e nos braços. Utilizando a técnica do bumba-meu-boi de Parintins, o movimento da escultura acontece, através de roldanas e cordas. Os detalhes da escultura impressionam pelo acabamento: há dentes cariados, rugas no rosto, caveiras ao redor do pescoço como

Comissão de Frente da Escola de Samba São Clemente (2015) – Foto: YouTube.

um colar, os cabelos arrepiados e os braços, com dedos grandes e Se, como disse, as cores da escola predominavam na

pontudos com sujeira nas unhas. Em frente à grande escultura está

indumentária dos dançantes, sobressai uma paleta de base partindo

o destaque principal. Sua fantasia também revela outra variante da

do amarelo, passando pelo coral, até o dourado. O preto nas asas

Matinta Perera. Ao redor de todo o carro alegórico, há pessoas que

dos pássaros e em parte das extremidades dos dançantes, como nos

desfilam cantando; outros figurantes igualmente cantam e dançam

calçados, contribuíam para o conjunto. Outro aspecto interessante e

em cima da alegoria, fazendo a composição de carro. Repetem a

importante para a caracterização era a maquiagem artística. O nariz

Matinta Perera exacerbando a personagem, numa versão próxima a

de bruxa, as rugas, o rosto pintado em amarelo ajudavam a compor

exibida pela comissão de frente. Os tons de cores são os mesmos,

o tom arrepiante, dentro da estética carnavalesca, do grupo de

porém o figurino ganha volume com o acúmulo de tiras de tecidos,

dançantes.

principalmente nos ombros e nos braços, permitindo que com o

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 101


André Luiz Porfiro

6

As cores quentes correspondem às cores que transmitem sensação de calor, uma vez que estão associadas ao sol, ao fogo e ao sangue.

movimento do corpo, o elemento humano se integre com as esculturas de diversas materialidades que compõe o carro. O carro abre-alas da Escola de Samba São Clemente, nesse ano, estava composto de duas estruturas de alegorias, os chassis, acopladas formando um carro de grandes dimensões. Compostos por habilidosas mãos, vistas em operação na Cidade do Samba – os elementos cenográficos formavam esculturas de espuma, com pintura de arte e adereços dispostos no carro alegórico. Esses elementos ganhavam destaque com a iluminação cênica. Uma síntese do primeiro setor podia ser vista no carro alegórico. Os ossos da fantasia Assombração estavam dispostos na parte frontal. Onças pés de boi ocupavam as partes laterais, as grandes formigas vermelhas, as Tocandiras, faziam-se presente ao

Carro Abre-Alas Escola de Samba São Clemente (2015) – Foto: Wigler Frota/acervo Wikemdia Commons.

pé da alegoria.

De acordo com Farias, na semântica contemporânea do desfile, a alegoria tem a centralidade do fazer carnavalesco: Em se tratando do desfile de carnavalespetáculo, a alegoria corresponde a um artefato mobilizado visando à comunicação eficiente, isto é, a busca da univocidade do sentido de diversão por meio do dado sintético do carro alegórico. E a busca está articulada em um sistema cenográfico tributário das conquistas da tecnologia e da especialização técnica das atividades, com o objetivo de provocar significações, no momento de decodificação das formas. Objetiva-se provocar a identificação empática de quem contempla. O recurso Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 102


André Luiz Porfiro

pictórica de cores “quentes”6 para cores neutras. O branco é

reflexivo à estética barroca do excesso cumpre o propósito funcional de estabelecer uma totalidade passageira cuja dimensão ocupa e supera todo o olhar do espectador. Bombardeiao, como assinalado, com informações que se multiplicam, sistematicamente dispostas em imagens visuais, mas que favoreçam o entendimento fácil por parte de quem assiste. A estratégia executada visa evitar a apatia do expectador e consiste em transformar a heterogeneidade em unidade, isto em um conjunto com a homogeneidade rítmico-musical dada pelo canto uníssono calcado no andamento unitário da bateria, mas dando ênfase à proliferação de detalhes, no movimento da ambiência cenográfica. (FARIAS, 2014: p. 219)

predominante, com tiras de tarucel que, no amontoado, criaram grande volume. A princípio empregado no acabamento da colocação de vidros em janelas, na fantasia bolada por Rosa Magalhães, o tarucel foi deslocado. Na fantasia, ainda havia placas de acetato pintadas de olho, o olha na testa (o chapéu da veste). E, abaixo da cabeça do desfilante, outra placa de acetato pintada de vermelho, a boca do estômago, formada por amigdalas e dentes brancos, com detalhes de acabamento em preto e branco. Dando prosseguimento às assombrações acreanas da infância de Fernando Pamplona, a fantasia Rasga Mortalha, vinha a seguir. Segundo a

Sucedia ao carro abre-alas, a Ala das Baianas. No certame

lenda, quando o pássaro rasga mortalha sobrevoa uma casa, algum

competitivo do desfile das escolas de samba, essa ala é um

dos seus moradores irá morrer. Na transmissão televisiva, a qual

elemento obrigatório. Para Lopes e Simas (2015, p.29), as Baianas

tive acesso posteriormente, o carnavalesco Milton Cunha,

“constituem o aspecto mais histórico e ancestral do desfile das

exercendo a função de comentarista, descreveu desta maneira essa

escolas”. Ressaltando a importância histórica e ancestral, as

passagem do desfile: “É uma aula de design, de beleza. É muito

Baianas da São Clemente vieram nas cores da escola,

simples, muito barato, muito lindo. É soberbo!”

representando outra lenda do Norte do país, com a fantasia A Onça

Continuando o desfile, a fantasia seguinte mostrava um

Pé de Boi. Preto e amarelo eram as cores predominantes, o

híbrido de mosquito com dinossauro, a Tiranaboia. Cores e

resplendor com palha da Costa, produto antigamente importado da

materiais utilizados em fantasias anteriores do desfile estabeleciam

costa africana e muito utilizado nos terreiros de religiões de matriz

a unidade estética na contraposição da forma. Asas amarelas, cáqui

africana e afro-brasileira. Na cabeça das baianas, uma cabeça de

nas roupas de baixo, e marrom marcam o início da preparação para

onça estilizada com plumas amarelas e penas de faisão cortadas.

a passagem temporal, espacial, formal e histórica que daria o

A seguir, a fantasia Mapinguari, o olho na testa e a boca do

desfile. Fechando o setor, a fantasia Gogó de Sola. As cores cáqui e

estômago. Esse figurino carnavalesco marca o início da transição

marrom predominam e a gola vermelha equilibrava o figurino.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 103


André Luiz Porfiro

O primeiro setor do desfile mostrou os medos de Fernando

segundo setor é o jovem Fernando Pamplona, já com residência

Pamplona quando criança. As assombrações do Norte do país

fixada no Rio de Janeiro, dando os passos iniciais nas artes do

materializaram-se nos elementos plástico-visuais, cenográficos e de

carnaval. Numa quadra ainda sem túmulos do Cemitério São João

indumentária do desfile. Para Costa:

Batista, no bairro carioca de Botafogo, o jovem ensaiava em um bloco carnavalesco. No cemitério não havia medo e, sim, alegria.

No universo carnavalesco fantasia é mais que o disfarce que esconde, é o ato que revela a vastidão do imaginário, usando o material mais vulgar, mais inesperado, e transformando-o em objetos de comovente beleza. É como fazer resplandecer de uma sucata o brilho inesperado de uma joia rara. A conhecida máxima de Lavoisier – “na natureza nada se perde, tudo se transforma” – tem na utilização dada nas escolas de samba a alguns materiais a sua incontestável confirmação. (COSTA, 2001, p. 206)

Era carnaval. O segundo setor inicia com o carro alegórico Ensaiando na Quadra IV. Há uma virada dramatúrgica. A passagem temporal, espacial, formal e histórica iniciada nas últimas fantasias do setor um, concretiza-se através da alegoria. As cores, as formas e estilos de esculturas e fantasias transformam-se junto com a passagem do enredo. A última fantasia do setor anterior, Gogó de Sola, traz

As fantasias do primeiro setor do desfile mostraram a

elementos da cultura pop e do cinema americano. No carro

máxima do homenageado “tem que se tirar da cabeça, o que não se

alegórico há a exacerbação dessas referências. Os mortos saem do

tem no bolso”. As fantasias foram confeccionadas com materiais de

túmulo, numa referência a Thriller, música e clip de Michael

baixo custo, porém o efeito conseguido através das franjas,

Jackson, e caem na folia. Há túmulos, sarcófagos, coroa de flores.

folhagens, ráfias, com tecidos cortados e superpostos criaram

A escultura principal da alegoria é uma carruagem guiada por um

volumes e texturas que, somados ao jogo de cores, demonstraram a

esqueleto e puxada por cavalos também em ossos.

capacidade de invenção dos artistas do carnaval. O primeiro setor

A fantasia do destaque principal da alegoria é Brincando

do desfile caracterizou-se pela criação de uma ambiência plástico-

com a Morte. As composições de carro estão com fantasias de

visual de extrema beleza estética.

esqueletos. Utilizaram-se camisas pretas de mangas compridas

O medo e o medroso mudam de lado. Em Rio Branco, no

estampadas com imagens de ossos de parte acima da cintura do

Acre, era a criança Fernando Pamplona com o medo das

corpo humano, que, somados à maquiagem, ludibriam o olhar. São

assombrações contadas nas lendas da região Norte do Brasil. O

esqueletos, que, felizes, escancaram um sorriso, com grandes

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 104


André Luiz Porfiro

dentes a mostra. O componente ao cantar, mostra o ludibrio, mostra que aquela morte é um deboche e o sorriso da maquiagem se confunde com o sorriso do desfilante. Os filmes do diretor Tim Burton, com seus personagens exóticos saltam aos olhos, nessa releitura com estética carnavalesca de escola de samba. O medo do primeiro setor foi substituído pelo deboche ao medo, o que vale é o momento, o prazer e a alegria. Estamos no carnaval. A habilidade criativa da carnavalesca, na passagem de setores, situa o desfile nos anos 50 do século XX, época em que Fernando Pamplona retorna ao Rio de Janeiro. Os bailes de rua, os blocos de sujo, as colombinas, os pierrôs e fantasias que debocham Último carro da Escola São Clemente (2015) – Foto: Acervo ClicRBS.

da morte compõe o novo momento. Após os setores de alas e alegorias recriando as

Entendi, naquele momento, que estava definida o tema da

contribuições de Pamplona para o carnaval em geral e para o

experimentação a ser executada em sala de aula nos meses

Desfile das Escolas de Samba em particular, o carro alegórico

seguintes, por mim conduzidas. A saber, O dia em que Fernando

branco com detalhes em prata tinha por centro uma escultura do

Pamplona visitou o Instituto de Educação com seres imaginários,

“mestre”. A alegoria sugeria um grande carnaval celestial. Em

seres mágicos e assombrações de Rosa de Magalhães ou o desfile

destaque, esculturas menores de homens negros/sambistas e

do carnaval de 2015 da Escola de Samba São Clemente nas aulas

composições humanas vestidas de anjos. Fechava-se, assim, a

de arte do ISERJ.

apresentação da São Clemente.

O barracão na sala de aula: fazer é pensar, a arte como experiência

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 105


André Luiz Porfiro

Para darmos termo à pesquisa, foi necessária a escolha de

determinado na divisão de cada turma. Não criei um laboratório ou

uma escola em que a experimentação nas aulas de Arte fosse

oficina

possível. A experiência relatada aconteceu durante o primeiro

aconteceram nas salas de aula das turmas, onde eram montados os

semestre do ano de 2015, no Instituto Superior de Educação do Rio

barracões de sala de aula. As mesas e cadeiras eram dispostas

de Janeiro (ISERJ), situado no bairro da Praça da Bandeira, na

conforme a necessidade de cada encontro. Criava-se nesse

cidade do Rio de Janeiro.

movimento, a cada aula, uma organização espacial, de forma

No mergulho em epistemologias, referenciais e categorias

específico

para

a

experimentação.

Os

encontros

autônoma, feita pelos alunos e alunas, e ditada pela dinâmica da

de outras áreas de conhecimento, fizemos a tessitura de diferentes

criação e invenção instaladas pela proposta em desenvolvimento.

pensamentos e reflexões que apontam para a ideia de que fazer é

Desde o ano de 2014, realizamos experiências com as artes

pensar. O prático e o cognitivo são indissociáveis na experiência.

do carnaval na sala de aula. Em cada experiência, escolhemos

A linha principal que liga os pontos é o conceito de

atividades relacionadas aos fazeres e técnicas dos elementos da

experiência do filósofo John Dewey (2010). De acordo com a

dimensão plástico-visual do desfile. Relatarei sucintamente abaixo

concepção do autor, a experiência é uma forma de aprendizagem

essas experiências.

que se estabelece na interação com o meio, desvelando o processo Experiência 1 – Cabecinhas e cabeções – a “mão inteligente”

criativo de seus artistas/alunos/alunas (DEWEY, 2010, p. 148; SENNETT, 2009, p. 270). Dewey enfatiza que a experiência estética é um prazer totalmente corporal, envolvendo “a criatura

O objetivo da experiência estava na ideia da “mão

inteira na sua vitalidade unificada”, e também uma experiência rica

inteligente”. A premissa que norteou as atividades foi: fazer é

em satisfações sensoriais e emocionais, “desafiando a redução

pensar, o vínculo da mão com a cabeça. A mão, nesse caso, era a

espiritual que faz do prazer estético um mero deleite intelectual”

principal parte do corpo na ligação indissociável da prática com o

(DEWEY, 2010, p.329-330; SHUSTERMAN, 1998, p. 46).

cognitivo.

O universo da pesquisa contou com cinco turmas do

Todas as atividades tinham os fazeres manuais como foco.

primeiro ano e uma turma do segundo ano do Ensino Médio. Optei

Amassar, rasgar e colar papel, misturar materiais diferentes,

por fazer a pesquisa dentro dos horários das aulas de Arte, seguindo

modelar, pintar, costurar, utilizar ferramentas, manipular bonecos,

o calendário escolar e com o número de alunos e alunas Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 106


André Luiz Porfiro

escrever. Atividades diferenciadas que alargavam as possibilidades

médio, as cabecinhas, para criação de um boneco de luva. A

de uso das mãos.

experiência era individual, porém trocas solidárias eram constantes. Os alunos e alunas com mais habilidade colaboravam com os que tinham maior dificuldade. Nessas trocas, os alunos e alunas aprendiam o que ensinavam e ensinavam o que aprendiam. A colaboração tornava-se, então, um objeto de reflexão e confiança. A prática que se mostrou atenta, contribuiu para o aumento da confiança e da capacidade de superar um erro ou dificuldade. A técnica se desenvolveu numa dialética entre a maneira correta de fazer algo e a disposição de experimentar, mediante o erro. Os dois lados não poderiam ser separados, já que constituem uma condição humana especializada que tem implicações na experiência mais comum. (SENNETT, 2009, p.181).

Imagem do autor - 1

Um fazer analítico, estabelecendo significado em cada uma

Imagens do autor - 2

das etapas. Cada etapa concluída era uma parte do objeto que

Os cabeções foram construídos pela turma do segundo ano

estava sendo construído. Nas turmas de primeiro ano do ensino

do ensino médio. As atividades eram as mesmas, porém, a

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 107


André Luiz Porfiro

realização foi diferenciada. O foco estava no fazer coletivo e colaborativo. A turma foi dividida em três grupos, dois grupos com cinco e um grupo com quatro alunos e alunas. A ideia motora da experiência era transformar pessoas da escola em bonecões. O primeiro grupo escolheu uma professora, os dois outros grupos escolheram um aluno e uma aluna dos seus próprios grupos. De posse de autorização escrita, da professora e dos responsáveis pelos alunos, os grupos partiram para o projeto de construção dos bonecões. As trocas solidárias com a turma do segundo ano eram parte do desenvolvimento da atividade, enquanto nos grupos do primeiro ano do ensino médio, as colaborações foram espontâneas. As atividades permaneciam com o foco no fazer manual, mas a ligação com o cognitivo era necessariamente expressa a cada etapa por textos escritos. Inicialmente, o projeto definia o que seria realizado e a forma como se desenvolveria. Depois de concluída a etapa, voltava-se ao projeto e reescrevia Imagem do autor - 3

conforme a experiência realizada.

No carnaval do ano de 2015, dois bonecos com quase três

Os alunos e alunas fizeram os cabeções, pintaram os rostos,

metros de altura, da experiência Cabecinhas e Cabeções, um

costuraram com as mãos suas vestimentas, inventaram a estrutura

representando uma professora e o outro uma aluna do ISERJ,

para mantê-los a três metros de altura.

passaram pelo portão da escola para “cair no samba”. Professora e Aluna, agora como personagens e objetos artísticos, juntos, saindo da escola em busca de outra experiência e outros saberes. E, foram eles, Os Cabeções, na alegre procissão carnavalesca do Bloco dos Impussiviu.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 108

Partiram da Rua Lélio


André Luiz Porfiro

Gama, no Centro do Rio de Janeiro, cortaram a Avenida Rio Branco, seguiram pela Avenida Almirante Barroso e retornaram pelo lado oposto da mesma avenida deambulando de felicidade.

Imagem do autor - 5

Experiência 2 – O dia em que Fernando Pamplona visitou o Instituto de Educação com seres imaginários, seres mágicos e assombrações de Rosa de Magalhães ou o desfile do carnaval de 2015 da Escola de Samba São Clemente nas aulas de arte do ISERJ

Imagem do autor - 4

Meses depois, em abril, repetiram a foliagem na escola, no

A experiência teve como objetivo fazer uma releitura do

sábado letivo de arte.

desfile da São Clemente, de 2015. A partir da exibição do vídeo do desfile, os alunos foram instados a criarem bonecos de vara, ressignificando a atmosfera dos dois primeiros setores do desfile, utilizando materiais usuais das fantasias carnavalescas e materiais possíveis de serem transformados.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 109


André Luiz Porfiro

Imagens do autor - 6

Um barracão, porém não um barracão de alegoria e nem um barracão de fantasia. Um barracão de sala de aula. Um barracão na

A invenção se impôs a medida dos procedimentos. A

sala de aula para dar novos significados a diversos materiais dentro

experimentação,

de uma estética carnavalesca.

a

chave

para

inventar.

O

princípio

do

experimento: o corpo pede outra maneira de estar presente em disposição e movimentos diferentes dos usuais em sala de aula. As experimentações partiram de objetos tridimensionais que foram desmontados, destruídos, desestruturados para a invenção de outros objetos tridimensionais. Tridimensionalidade? Por ser a marca da criação das artes do carnaval. Os materiais são os possíveis, os que cada aluno e cada aluna poderiam trazer de casa relacionando à sua ideia. Anteriormente, propus uma pesquisa de materiais. Produtos e objetos remanescentes de carnavais passados, fantasias que tomaram rumo diferente ao do caminhão de lixo da Companhia de Limpeza Urbana da cidade do Rio de Janeiro (COMLURB) e se apresentaram em doação na escola. Enfim, perseverou o imperativo: experimentar duplamente a “técnica do ludibrio”: Na experimentação estética do desfile, a recepção se dá com o corpo e os sentidos em alerta. Nesta maneira de conceber o ensino de arte, pela ótica das artes do carnaval, mantive como pressuposto de atuação na mediação, o caráter de singularidade, mas aberto à diversidade e à troca solidária entre os alunos e alunas em cada turma.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 110


AndrĂŠ Luiz Porfiro

Imagens do autor - 7 - Matintas Pereras

DossiĂŞ Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 111


André Luiz Porfiro

E, como nos “leva” o canto do samba-enredo da Escola de

Conclusão

Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, no desfile de A arte como experiência é evidentemente uma parte de

1994, “sonhar não custa nada”1 ou melhor “quase nada”. O custo é

nossa vida, uma forma especialmente expressiva de nossa

experimentar. Fazer circular os saberes. Partilhar esse espaço

realidade, e não uma simples imitação fictícia dela.

onírico, deslocando-o e organizando-o metodologicamente numa

Experimentamos uma metodologia na sala de aula, própria à

sala de aula.

arte do carnaval. O diálogo foi costurado por materiais utilizados

Esse é o nosso intento.

na confecção dos elementos plástico-visuais do Desfile das Escolas Referências Bibliográficas:

de Samba, embalagens que comumente são descartadas após o uso

BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o Ensino de Arte no Brasil. São Paulo, Cortez, 2008.

de seus conteúdos, tecidos diversos, fantasias utilizadas em desfiles de carnaval, objetos trazidos pelos alunos e alunas, exibição

BARROS, Paulo. Sem Segredo – Estratégia, Inovação e Criatividade. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2013.

audiovisual de um desfile de escola de samba, a sinopse do enredo e o samba-enredo: circulando os saberes e práticas expressivas dos

BAXANDALL, Michel. Padrões de Intenção: a explicação histórica dos quadros. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

artistas das escolas de samba, recolhidos no campo. Para experienciarmos, precisamos combinar os diferentes

BLASS, Leila Maria da Silva. Desfile na Avenida, Trabalho na Escola de Samba: a dupla face do carnaval. São Paulo, Annablume, 2007.

motivos e materiais que constituem nosso meio, esperamos que, na experiência, possam ser utilizados elementos práticos e cognitivos

BRANQUINHO, F. T. B.; SIRENA, M. L.; MACHADO, L.; CASTRO, R. C. Etnografia de objetos e a (des)hierarquização dos saberes: um caminho para a prática docente. Brasília, Revista Dialogos: construção conceitual de extensão e outras reflexões significativas, v.14, n.1, dez, 2010.

sem perder sua legitimidade estética. Os diversos materiais, que não são em si intrinsecamente estéticos “tornam-se estéticos à medida que entram num movimento rítmico ordenado em vista de uma consumação. O material é amplamente humano” e a função da

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Carnaval Carioca: dos bastidores ao desfile, Rio de Janeiro. Ed. UFRJ, 4ª. Ed., 2008.

arte é a de moldá-lo num todo integrado. “A experiência estética é sempre mais que estética”. É prática, é social, é educativa (SHUSTERMAN, 1998: p. 46; DEWEY, 2010: p. 329-330).

1

Enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel para o carnaval de 1994, assinado por Renato Lage e Lilian Rabelo.

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 112


André Luiz Porfiro

COSTA, Haroldo. 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. São Paulo, Irmãos Vitale, 2001.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2009.

DEWEY, John. Arte como Experiência. São Paulo, Martins Fontes, 2010.

PORFIRO, André Luiz. Inter-relações entre Teatro e Educação: Jogos Dramáticos na Formação do Homem. Rio de Janeiro, UNIRIO, 2004. Dissertação de Mestrado.

FARIAS, Edson. Paulo da Portela, um herói civilizador. Salvador, CADERNO CRH, Salvador, n. 30/31, jan./dez. 1999

RYNGAERT, Jean-Pierre. O Jogo Dramático no Meio Escolar. Coimbra, Centelha, 1981.

__________________. O Desfile e a Cidade – o carnaval espetáculo carioca. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: E-Papers, 2006.

__________________. Jogar, Representar. São Paulo, Cosac Naify, 2009.

__________________. Espaço e lembranças na economia simbólica urbana: o “retorno” da áfrica carioca. In: TOMO, Revista do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais/Universidade Federal de Sergipe, nº 16, São Cristóvão, NPPCS/UFS, 2010.

SHAPIRO, Roberta. Que é artificação? Brasília, Revista Sociedade e Estado – v. 22, n. 1, jan./abr. 2007. SHAPIRO, Roberta e HEINICH, Nathalie. Quando há artificação? Brasília, Revista Sociedade e Estado – V. 28 n. 1 - Janeiro/Abril 2013

__________________. Ócio e Negócio: Festas Populares e Entretenimento – Turismo no Brasil. Curitiba, Appris, 2011. __________________. Personalidade artística nos negócios mundanos: a celebração do “gosto do povo” em Joãosinho Trinta. In: Revista Sociedade e Estado, Brasília, V. 27.03 Setembro/Dezembro 2012.

SENNETT, Richard. O Artífice. Rio de Janeiro, Record, 2009. __________________. Juntos: Os rituais, os prazeres e a política da cooperação. Rio de Janeiro, Record, 2013. SHUSTERMAN, Richard. Vivendo a Arte – O Pensamento Pragmatista e a Estética Popular. São Paulo, Ed. 34, 1998.

__________________. O Saber Carnavalesco: Criação, Ilusão e Tradição no Carnaval Carioca, In: Sociologia &Antropologia, Rio de Janeiro, V. 5.01, abril 2015. FRANCESCHI, Humberto M. Samba de Sambar no Estácio – de 1928 a 1931. São Paulo, IMS, 2010.

Fontes das Fotografias: Acervo YouTube.

GUIMARÃES, Helenise. Carnavalesco: o artista que faz escola. Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1992. Dissertação de mestrado.

Acervo Wikemdia Commons Acervo ClicRBS.

LOPES, Nei e SIMAS, Luiz Antonio. Dicionário da História Social do Samba. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2015.

Imagens do autor

Dossiê Arte do Carnaval Arquivos do CMD, Volume 6, N.1. Jul/Dez 2017 113


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Da artificação do desfile das escolas de samba à sala de aula como barracão do fazer: histórias e sa by Portal Academia do Samba - Issuu