AS ESCOLAS DE SAMBA DOS ÚLTIMOS GRUPOS DE ACESSO DO RIO DE JANEIRO NA CADEIA PRODUTIVA DA ECONOMIA DO CARNAVAL JULIO CESAR VALENTE FERREIRA - jcvferreira@hotmail.com CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA - CEFET - RJ Resumo:
O PRESENTE TRABALHO TEM COMO OBJETIVO DESCREVER A CADEIA PRODUTIVA DA ECONOMIA DO CARNAVAL E AS POSSIBILIDADES DE INSERÇÃO DAS ESCOLAS DE SAMBA DOS ÚLTIMOS GRUPOS DE ACESSO NESTE PROCESSO. OS DADOS FORAM OBTIDOS A PARTIR DA PESQUISA BIBLIOGGRÁFICA SOBRE O TEMA E DA COLETA DE DADOS EM ESCOLAS DE SAMBA. CONSTATA-SE QUE O DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA DOS ÚLTIMOS GRUPOS DE ACESSO PODE SE INSERIR NESTE PROCESSO, ENVOLVENDO OUTROS SEGMENTOS QUE NEM SEMPRE ENCONTRAM ESPAÇO NO DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA DO GRUPO ESPECIAL.
Palavras-chaves: ESCOLAS DE SAMBA; CADEIA PRODUTIVA DA ECONOMIA DO CARNAVAL; RIO DE JANEIRO Área: 7 - GESTÃO ESTRATÉGICA E ORGANIZACIONAL Sub-Área: 7.5 - REDES DE EMPRESAS E GESTÃO DA CADEIA PRODUTIVA
XIX SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012
THE SMALLEST SAMBA SCHOOLS OF THE RIO DE JANEIRO IN THE CARNIVAL ECONOMY Abstract: THIS PAPER AIMS TO DESCRIBE THE CARNIVAL ECONOMY AND THE POSSIBILITIES OF INSERTION OF THE SMALLEST SAMBA SCHOOLS IN THIS PROCESS. DATA WERE OBTAINED FROM THE LITERATURE ON THE SUBJECT AND THE DATA COLLECTION IN SAMBA SCHOOLS. IT APPEARS THHAT THE SAMBA SCHOOLS PARADE OF THE SMALLEST SAMBA SCHOOLS CAN BE INSERTED IN THE CARNIVAL ECONOMY, INVOLVING OTHER SEGMENTS DO NOT ALWAYS FIND SPACE IN THE BIGGEST SAMBA SCHOOLS PARADE. Keyword: SAMBA SCHOOLS; CARNIVAL ECONOMY; RIO DE JANEIRO
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1. Introdução O carnaval carioca tornou-se um produto rentável para a mídia e uma ferramenta publicitária de grande valor e com elevado preço de mercado. Desta forma, trata-se de um empreendimento com grande rentabilidade para todos os envolvidos. Esta é uma das possibilidades de análise do carnaval, isto é, através do viés da transformação do mesmo em negócio. Dentre as manifestações carnavalescas, o desfile das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro representa de maneira mais significativa este tipo de empreendimento. Atualmente, estas escolas de samba são divididas em seis grupos, sendo que os três primeiros desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí (popularmente conhecido como Sambódromo) e os três últimos se apresentam na Avenida Intendente Magalhães. Quando o recorte se refere às escolas de samba do primeiro grupo (também denominado como grupo especial), as mesmas são estudadas há muito tempo e a produção é muito diversificada e contempla diversas publicações. Os estudos destinados às escolas de samba dos grupos de acesso são escassos, conforme destaca VICTORIO (2010), devido à pouca visibilidade social que estas escolas possuem. Apesar do número de publicações que abordem estes primeiros grupos de acesso não ser tão amplo, consideramos pertinente dividir estes grupos de acesso, para estudos posteriores, visto que há sensíveis diferenças entre os mesmos, tendo como divisor o local de desfiles. A realidade dos grupos de acesso que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí difere bem daquela verificada nos grupos de acesso que desfilam na Avenida Intendente Magalhães. Este viés de análise é também ratificado por BARBIERI (2010), que estudou uma agremiação que desfila na Avenida Intendente Magalhães. Quando a análise foca as escolas de samba das três ultimas divisões do carnaval carioca, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, situado no subúrbio da cidade e afastado das regiões de primazia das festividades carnavalescas, a realidade ganha outros contornos como, por exemplo, uma infra-estrutura bem mais modesta e não contarem com a cobertura da mídia (com exceção de três sites especializados em carnaval). Desta forma, para o estudo destas agremiações, os métodos de análise adotados para as principais escolas de samba do Rio de Janeiro não podem ser adotados sem sofrer modificações que deêm conta das diferenças em relação às escolas de samba que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, principal palco de exibição das escolas de samba e situado na região central da cidade, local de primazia dos festejos carnavalescos, as quais contam com ampla cobertura da mídia e interesse de público que ultrapassam as fronteiras do Rio de Janeiro. Neste trabalho, objetivamos analisar as possibilidades de inserção das escolas de samba dos últimos grupos de acesso do carnaval da cidade do Rio de Janeiro na cadeia produtiva da economia do carnaval. A partir do quadro teórico desenhado por PRESTES FILHO (2009) para as escolas de samba que desfilam no grupo especial, promovemos a transposição do mesmo para o caso dos últimos grupos de acesso, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães. Conforme destaca PRESTES FILHO (2009), identifica-se um conjunto sequenciado de atividades que, organizado em cadeia, culmina com o desfile das escolas de samba, o qual pode ser percebido como um processo que leva a um produto final. Este trabalho alinha-se com os publicados por BARBIERI (2010) e FERREIRA (2008), tendo como objeto de estudo as escolas de samba do últimos grupos de acesso; as quais, apesar de movimentarem contingente significativo de pessoas, não mereceram até o momento pesquisas sistemáticas como aquelas constatadas quando o objeto de estudo passa a ser as escolas de samba do grupo especial e dos primeiros grupos de acesso. Apesar destes 3
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trabalhos citados não terem como foco a cadeia produtiva, muitos dados sobre parcelas do processo de produção do desfile das escolas de samba dos últimos grupos de acesso foram possíveis de serem obtidos. 2. Referencial teórico 2.1 Carnaval carioca e os grupos de acesso As escolas de samba são organizações culturais sem fins lucrativos, cujo produto principal produzido é a realização do desfile destas entidades durante os festejos carnavalescos (LOPES, MALAIA e VINHAIS, 2009). Estas associações atuam em uma determinada comunidade, onde também prestam serviços de resgate e preservação da identidade cultural, além de atualmente terem ampliado sua atuação, implementando projetos de educação e de assistência social. Estas agremiações mostram de forma mais contundente que o carnaval deixou de ser simplesmente a festa da desordem, sem concessões às convenções burguesas. Neste caso, pelo contrário, uma série de imposições se estabelece. Estes marcos estão nos itens que balizam a preparação do desfile como tempo de apresentação, quantidade de desfilantes, número de carros alegóricos, dentre outros mais. Além disto, no caso do desfile das escolas de samba do grupo especial, as mesmas devem também se adaptar às imposições tecnológicas da mídia televisiva e do mercado publicitário. Como forma de corroborar o citado acima, podemos citar o local de produção dos desfiles das escolas de samba do grupo especial, conhecido como “Cidade do Samba”, o qual permite uma integração das várias etapas da preparação, sendo possível estabelecer uma analogia com as tradicionais linhas de produção fabris (BLASS, 2008). Porém, de forma paradoxal, as escolas de samba dos últimos grupos de acesso preparam seus desfiles em locais inapropriados, sendo utilizadas as próprias quadras, galpões alugados ou cedidos próximos às quadras ou em um grande espaço conhecido como “Carandiru”, que concentra grande parte destas agremiações (BALDAN, 2009). Como forma de estabelecermos um paralelo que demonstra as diferenças entre estas escolas de samba e as do grupo especial, a partir do trabalho de SOUZA (1988), constata-se que os espaços utilizados pelas agremiações do grupo especial há trinta anos possuíam melhores condições de trabalho que aquelas hoje verificadas no “Carandiru”. Logicamente, que há diferenças sensíveis nos modelos de gestão adotados. LOPES, MALAIA e VINHAIS (2009) destacam que o sucesso dos desfiles das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro foi devido a um modelo de gestão que se adequou às radicais mudanças com administração com funções descentralizadas, participativas, interdependentes e integradas. OLIVEIRA (2009) alerta que o mundo do carnaval possui um viés mais lúdico e romântico que aquele classicamente visualizado em ambientes fabris, identificando então grande resistência para adoção de princípios econômicos no gerenciamento deste tipo de empreendimento em face do risco de se limitar a intervenção artística e a qualidade do espetáculo. Para o crescimento desta manifestação carnavalesca, fundamental foi o reconhecimento por parte do poder público, incluindo a distribuição de subvenção financeira como forma de apoio à preparação dos desfiles (SANTOS, 2010). Esta valorização representou também importante estímulo para criação de inúmeras agremiações nos mais diferentes pontos da cidade, atraindo também escolas de samba de cidades pertencentes à região metropolitana do Rio de Janeiro. Atualmente, além desta subvenção, há a possibilidade de captação de verba através de 4
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diversas formas de patrocínio, incluindo hoje o que se denomina “enredos patrocinados”. Desta forma, a proposição que constitui o fio condutor do desfile, o qual faz referência a fatos históricos, personalidades, culturas, lugares ou situações abstratas fica condicionada aos interesses do patrocinador. A capacidade de atrair patrocínio é diretamente proporcional à proximidade da escola de samba ao grupo especial. Desta forma, as escolas de samba que desfilam nos últimos grupos de acesso basicamente montam seus desfiles a partir da subvenção financeira fornecida pelo poder público. Atualmente, três entidades distintas organizam os desfiles das escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro. Até o ano de 1984, todos os grupos eram organizados pela Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ), quando então surgiu a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), entidade gestora do desfile do grupo especial. Em 2008, surge outra entidade, hoje denominada Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIERJ), que atualmente gerencia os desfiles dos dois primeiros grupos de acesso. Os motivos que levaram a esta configuração não serão tratados neste artigo, mas os mesmos são detalhados nos trabalhos de CABRAL (1996) e CAVALCANTI (2006). BARBIEIRI (2010) destaca a alteração do quadro da hierarquia competitiva. Para este autor, fica bastante evidente a separação e os privilégios obtidos por cada grupo, em relação ao nível que ocupa no que se refere aos locais de preparação e de desfile. Desde 1996, as escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro são organizadas em 06 (seis) grupos hierarquizados: grupo especial e grupos de acesso A, B, C, D e E, cujo quadro de referência é apresentado na Tabela 1. TABELA 1 – Informações sobre os grupos das escolas de samba do carnaval da cidade do Rio de Janeiro. Grupo Especial
Entidade organizadora LIESA
Acesso A
LIERJ
Acesso B
LIERJ
Acesso C
AESCRJ
Acesso D
AESCRJ
Acesso E
AESCRJ
Dia e Local de desfile Dom. e Seg. - Av. Marquês de Sapucaí Sáb. – Av. Marquês de Sapucaí Ter. – Av. Marquês de Sapucaí Dom. – Av. Intendente Magalhães Seg. – Av. Intendente Magalhães Ter. – Av. Intendente Magalhães
Participantes em 2012 13
Locais de preparação Cidade do Samba
Classificação neutra 1ª divisão
09
Galpões na região central da cidade Galpões na região central da cidade Carandiru e espaços na região da quadra Carandiru e espaços na região da quadra Carandiru e espaços na região da quadra
2ª divisão
11 15 13 12
3ª divisão 4ª divisão 5ª divisão 6ª divisão
2.2 Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval Segundo PRESTES FILHO (2009), o conjunto sequenciado de atividades que, organizado em cadeia, culmina com o desfile das escolas de samba, pode ser descrito como um processo que se desenvolve sequencialmente, desde a pré-produção ao consumo. O autor destaca a grandiosidade dos investimentos ao atestar que, em 2006, a indústria do carnaval do Rio de Janeiro gerou uma receita de R$ 685 milhões, correspondente aos gastos primários das pessoas, empresas, associações e da prefeitura. PRESTES FILHO (2009) parte da hipótese da possibilidade de transformar o carnaval em negócio. Desta forma, segundo o autor, o estudo da cadeia produtiva da economia do carnaval tem por objetivo avaliar o carnaval segundo sua capacidade para gerar receitas e
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ocupação no mercado de trabalho, identificar como incidem os direitos imateriais e avaliar o envolvimento dos setores público e privado na estrutura administrativa e financeira da festa. O estudo desenvolvido por PRESTES FILHO (2009) tem como base o desfile das escolas de samba do grupo especial, pois, segundo o autor, a partir do processo de produção do desfile deste grupo evidencia de maneira mais clara a importância de cada etapa e sua justaposição nos elos desta cadeia produtiva. Entretanto, acreditamos que as demais escolas podem se beneficiar deste modelo para se posicionarem de forma mais contundente na economia do carnaval, identificando as possibilidades de inserção destas agremiações nas etapas da cadeia produtiva. Segue abaixo o elenco destas etapas conforme a proposta apresentada por PRESTES FILHO (2009). 2.2.1 Pré-Produção Este etapa prevê o suprimento de matérias-primas necessárias à fabricação do desfile. Os insumos são oriundos, em sua maior parte, das indústrias das áreas de borracha e plásticos, vestuário e calçados, papel e celulose, produção de madeira, têxtil, metalúrgica, tintas, couro e vidro. Em quantidades menores, também são demandados artigos oriundos das indústrias de equipamentos e de material elétrico e eletrônico. O autor afirma que cerca de 70% da demanda é atendida pela indústria paulista e a distribuição destes insumos ocorre em varejistas cariocas, sendo que poucas destas unidades comerciais são dedicadas em revender exclusivamente artigos de carnaval. 2.2.2 Produção Nesta etapa há a transformação da matéria-prima em carros alegóricos, fantasias e adereços, constituindo então a produção da parte plástica do desfile. O local privilegiado desta transformação é o barracão, espaço este que concentra grande parte dos trabalhadores que atuam na produção plástica de um desfile. Apesar da denominação “barracão” evocar uma visão contraditória àquela que estabelece um padrão fabril à produção do desfile de uma escola de samba, BLASS (2008) destaca que os preceitos da modernidade não atingiram a forma de organização dos processos de trabalho na produção de um desfile, corroborando que esta denominação carrega valores de maior semelhança que aqueles evocados pelo termo “fábrica”. 2.2.3 Distribuição A distribuição diz respeito à inserção de uma mercadoria nos locais onde as mesmas serão comercializadas. No caso de uma escola de samba, além de seu nome, temos os direitos imateriais por meio da divulgação da mídia, do processo de escolha do hino que a escola de samba apresentará e da publicidade que o patrocinador venha a promover. A distribuição ocorre nos espaços onde ocorrem os desfiles, nas quadras das agremiações e nas diversas mídias que cobrem o evento e sua preparação. 2.2.4 Comercialização e consumo O consumo do produto em questão, o desfile das escolas de samba, ocorre nos locais destinados ao espetáculo, isto é, as avenidas Marquês de Sapucaí e Intendente Magalhães. Outros locais em que este produto é comercializado estando sob a responsabilidade das agremiações são as quadras. Neste caso, não podemos considerar o consumo do produto final. Mas, a preparação do mesmo cria produtos intermediários que geram receitas utilizadas pelas escolas de samba na confecção de seus desfiles.
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2.2.5 Atividades indiretas Um bom número de agentes ligados a setores industriais e de comércio se beneficia comercialmente do desfile. Sobre a economia do carnaval, incidem atividades econômicas indiretas, as quais estão associadas a setores que produzem bens e serviços consumidos principalmente, ou exclusivamente, associados com bens culturais. No caso dos desfiles das escolas de samba, estas atividades são ligadas às seguintes indústrias: turismo, gráfica e editorial, audiovisual, internet, fonográfica, instrumentos musicais e bebidas. 2.2.6 Direitos imateriais A análise da cadeia produtiva da economia do carnaval permite a identificação de dois tipos de direitos imateriais que perpassam as atividades da mesma. Os direitos da personalidade são aqueles relacionados às características pessoais do ser humano e aos seus atributos como cidadão. Desta forma, há a incidência dos direitos de imagem e dos direitos de arena (quando há a integração do uso da imagem de indivíduos ou grupos de indivíduos em espetáculos coletivos) no desfile das escolas de samba. Os direitos intelectuais são aqueles relacionados com o todo e qualquer tipo de criação. Dentro do âmbito dos desfiles das escolas de samba, os direitos autorais se posicionam no âmbito dos autores dos enredos e hinos apresentados. A propriedade industrial refere-se à proteção dos bens imateriais funcionais e utilitários, sendo identificada na cadeia produtiva da economia do carnaval a proteção às marcas das agremiações e dos equipamentos e ferramentas criados especificamente para a produção do desfile. 2.2.7 Políticas públicas e privadas Diante da magnitude e da importância dos desfiles das escolas de samba para o carnaval da cidade do Rio de Janeiro, o poder público avança no relacionamento com as escolas de samba e, atualmente, ultrapassa as fronteiras da distribuição de subvenção e do fornecimento da infraestrutura para a festa, na tentativa de estabelecer uma política pública de maior amplitude. Além disto, as empresas privadas também caminham em direção semelhante, investindo nas agremiações a partir de uma política mais estruturada com uma configuração que avança os limites do patrocínio tradicional. 3. Metodologia 3.1 Universo e amostra Em 2012, os desfiles das escolas de samba promovidos na cidade do Rio de Janeiro contaram com a participação de setenta e três agremiações. Este número varia a cada ano, pois atualmente os critérios para a promoção e o rebaixamento nos grupos das escolas de samba estão interligados àqueles adotados na hierarquização dos blocos de enredo, cujos desfiles são organizados pela Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (FERREIRA, 2012). No caso dos três últimos grupos de acesso, temos ao todo quarenta agremiações que em 2012 desfilaram na Avenida Intendente Magalhães. No caso desta pesquisa, com relação ao universo de escolas de samba dos grupos de acesso em questão, houve a seleção da amostra contemplando a nova escola de samba a desfilar na cidade do Rio de Janeiro, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Boca de Siri. A opção pela agremiação em questão se deve ao fato de que um dos autores desta pesquisa foi apresentado a uma figura de destaque na comunidade que se interessou pela proposta e nos aproximou do corpo dirigente da escola de samba. Outra questão interessante e que nos motivou por esta escolha foi o fato de que nos anos anteriores esta agremiação desfilou como bloco de enredo; e sua primeira incursão no 7
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mundo das escolas de samba poderia apresentar percalços característicos. Os dados coletados nesta pesquisa também foram utilizados por FERREIRA (2012), que investiga esta forma de manifestação carnavalesca. 3.2 Coleta de dados Para este trabalho, o confronto do modelo proposto por PRESTES FILHO (2009) para a cadeia produtiva da economia do carnaval com os dados coletados na pesquisa bibliográfica poderia já nos municiar de conclusões sobre as possibilidades de inserção das escolas de samba dos últimos grupos de acesso do carnaval da cidade do Rio de Janeiro na cadeia produtiva em questão. Entretanto, entendemos que os únicos trabalhos dedicados às agremiações destes grupos de acesso apenas pontuam alguns dados sobre estas questões, sendo que o trabalho de FERREIRA (2008) prioriza os aspectos plásticos do desfile e o de BARBIERI (2010) dedica-se aos mecanismos de sociabilidade em uma agremiação específica. Desta forma, além da pesquisa bibliográfica e do conhecimento preliminar do autor sobre o campo no qual o objeto estudado se encontra, isto é, o universo das escolas de samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro, houve uma coleta de dados promovida nos três meses que antecederam o carnaval de 2012 do Grêmio Recreativo Escola de Samba Boca de Siri. A obtenção dos dados se fez a partir de diversas visitas a típicos locais de preparação do desfile de uma escola de samba. Os espaços visitados foram aqueles gerenciados pela própria agremiação. Desta forma, estivemos presente na quadra da escola de samba, no ateliê de fantasias e no barracão de produção de alegorias. Ao longo destas visitas, esta coleta de dados foi realizada através de entrevistas informais sem o auxílio de questionários ou esquemas previamente concebidos para a condução das mesmas. Estas entrevistas foram realizadas com membros da direção da escola, trabalhadores do ateliê e do barracão e desfilantes. Após as visitas, imediatamente sempre eram redigidos diários de campo com as anotações referentes às situações vivenciadas. A opção por esta forma de entrevista ocorreu pelo fato da mesma permitir maior liberdade dos envolvidos e de estarmos pesquisando um tipo de organização do setor artístico e cultural caracterizada por forte informalidade, inclusive em suas relações trabalhistas. Como informante privilegiado, elegemos o carnavalesco da escola, com o qual mantivemos contato mais próximo e dedicamos mais atenção através de um número maior de entrevistas e de uma maior duração das mesmas. A opção pela figura do carnavalesco se deu pelo fato deste ser um ator de grande influência e presença marcante na configuração do desfile das escolas de samba, atuando como importante mediador sociocultural (SANTOS, 2006). 4. As escolas de samba dos últimos grupos de acesso e a cadeia produtiva da economia do carnaval 4.1 Pré-Produção Nesta etapa, PRESTES FILHO (2009) identifica alguns varejistas especializados em produtos específicos para o carnaval, os quais são as referências para as compras efetuadas pelas escolas de samba do grupo especial. Na pesquisa efetuada na escola de samba Boca de Siri, identificamos os mesmos varejistas. Porém, a agremiação concentra suas compras em uma única loja, pois a mesma trabalha com carta de crédito, o que é fundamental para quem basicamente custeia o carnaval com a verba da subvenção pública, que sempre é disponibilizada nas proximidades do desfile, mas precisa efetuar a compra do material com antecedência maior. 8
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No caso das escolas de samba dos grupos de acesso, FERREIRA (2008) identifica mecanismos de obtenção de material a partir da obtenção de fantasias e esculturas prontas que foram utilizadas e descartadas pelas escolas de samba do grupo especial em desfiles anteriores. Cabe ressaltar que não se trata de repetir fantasias e esculturas em desfiles de outras agremiações. As escolas de samba que recebem este material desmontam as fantasias e realocam este material para compor fantasias diferentes e resignificam as esculturas. Esta operação com as esculturas é obtida através de uma nova pintura, colocação de outros adereços ou retrabalho do material da escultura, esculpindo outras formas. FERREIRA (2008) apresenta fotos deste tipo de resignificação que ocorre nos carros alegóricos. Além desta forma de reaproveitamento, identificamos na escola de samba Boca de Siri a compra de excedentes de matéria-prima bruta dos ateliês que produzem fantasias para as escolas de samba do grupo especial e dos varejistas que sempre contam com estoques do carnaval anterior. As escolas de samba do grupo especial evitam o reaproveitamento de suas próprias peças. Isto não se deve apenas ao maior grau de visibilidade que possibilitaria a identificação dos elementos já usados. O descarte após o primeiro uso faz parte da sistemática de consumo suntuoso como forma de reafirmar a riqueza e a respeitabilidade destas agremiações perante àquelas dos grupos de acesso (FERREIRA, 2008). A efetivação deste reaproveitamento e resignificação através de parcerias sólidas estabelecidas entre as agremiações dos diversos grupos, mediadas pelas entidades organizadoras do desfile das escolas de samba, forneceria um viés mais sustentável ao consumo oriundo do carnaval da cidade do Rio de Janeiro. 4.2 Produção No caso das escolas de samba do grupo especial, o centro de atividades de produção dos desfiles é a Cidade do Samba. Conforme destaca BLASS (2008), este espaço além de ser utilizado para a produção dos carros alegóricos, também produz grande parte das fantasias e dos elementos de adereço. A Cidade do Samba foi construída a partir de uma parceria firmada entre a entidade organizadora dos desfiles do grupo especial e o poder público com vistas à expansão das atividades de turismo. Além do local de preparação dos desfiles, a Cidade do Samba foi idealizada para se constituir em parque temático, incluindo visitas aos barracões e espetáculos carnavalescos durante todo o ano. Entretanto, no caso das escolas de samba dos últimos grupos de acesso, não existe este espaço específico oriundo de uma parceria com o poder público. Além das próprias quadras e espaços próximos a estas, há um espaço coletivo próximo ao local de desfile conhecido como “Carandiru”, onde estas escolas preparam os carros alegóricos (BALDAN, 2009). Este local era um galpão abandonado de um distribuidor de bebidas que foi invadido pelas escolas de samba para estabelecerem, mesmo que de forma improvisada, um local de preparação de seus carnavais. Este espaço coletivo está muito longe do que podemos considerar como ideal para a preparação de um desfile. Não há possibilidade das agremiações montarem seus ateliês de produção de fantasias por falta de espaço, além de ter que conviverem em um espaço com problemas de salubridade e periculosidade (BARBIERI, 2010) (FERREIRA, 2008). Da mesma forma que ocorreu com a Cidade do Samba, o poder público pode estabelecer uma parceria com as entidades organizadoras dos desfiles dos grupos de acesso no
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intuito de qualificar o Carandiru; tornando o mesmo também em um centro cultural voltado ao samba em uma região de subúrbio, sempre carente de opções de lazer e cultura. Outra questão é o estabelecimento de uma rede de microempreendedores que conte com linhas de crédito mais vantajosas no intuito de se oferecer mais opções de serviços no que tange à produção das fantasias e adereços nos ateliês, os quais atendem parte da necessidade das escolas de samba do grupo especial e a quase totalidade da demanda oriunda das escolas de samba dos grupos de acesso. 4.3 Distribuição Nesta etapa, percebe-se também uma grande diferença entre os grupos das escolas de samba. No caso do grupo especial, a entidade organizadora de seus desfiles já conta com uma experiência acumulada no auxílio à distribuição, fornecendo durante todo o ano as condições necessárias para suas filiadas desenvolverem seu trabalho. Além de um serviço eficiente de assessoria de imprensa, a entidade possui um selo musical que responde pela gravação dos hinos das agremiações, um sítio de internet sempre atualizado e um canal de comunicação privilegiado com o poder público e algumas empresas privadas. No caso das escolas de samba dos últimos grupos de acesso, a entidade organizadora de seus desfiles não conta com a disponibilização dos serviços listados acima, deixando somente por conta de suas filiadas esta tarefa. No que tange à relação com o poder público, somente há a assinatura do contrato de prestação de serviços no carnaval para o recolhimento da subvenção financeira (BARBIERI, 2010) (FERREIRA, 2008). 4.4 Comercialização e consumo Como local de desfile, a Avenida Marquês de Sapucaí conta com grande infraestrutura e se situa na região central da cidade, local de primazia dos festejos carnavalescos. Apesar da mesma ser preparada para o desfile do grupo especial, os dois primeiros grupos de acesso contam também com estas facilidades por desfilarem no mesmo local. Apesar da cobertura midiática não ser a mesma, as escolas de samba dos grupos de acesso que desfilam nesta avenida conseguem capitalizar alguma divulgação, pois os veículos de comunicação já se encontram posicionados no local. A Avenida Intendente Magalhães possui uma infraestrutura bem mais modesta que aquela verificada na Avenida Marquês de Sapucaí, além de estar situada no subúrbio da cidade, longe da centralidade geográfica da festa. Entretanto, BARBIERI (2010) e FERREIRA (2008) constatam a grande ocupação dos espaços destinados ao público, que acabam encontrando uma opção de apreciar o carnaval nas proximidades. No caso da divulgação das escolas de samba dos últimos grupos de acesso, a divulgação pelos veículos de comunicação é praticamente inexistente, compondo-se basicamente de sítios da internet especializados nestas escolas de samba. Acreditamos que este panorama somente irá se modificar com uma atuação mais efetiva da entidade organizadora dos desfiles das escolas de samba destes grupos, pois as mesmas não contam com quadros específicos que possam lidar com as questões de divulgação. As quadras das escolas de samba dos últimos grupos de acesso possuem uma variabilidade de presença muito grande, devido à concorrência com os eventos das principais escolas de samba da cidade e outros condicionantes de ordem local, como infraestrutura oferecida e segurança pública. Entretanto, as mesmas podem ser referências não somente na oferta de produtos ligados à preparação do desfile, bem como no atendimento à população, aproveitando os
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espaços que ficam ociosos durante boa parte do ano. Porém, da mesma forma que o poder público começou a reverter o quadro de ociosidade das quadras das escolas de samba do grupo especial, há a necessidade deste tipo de parceria nas demais agremiações. 4.5 Atividades indiretas Os agentes ligados aos setores industriais e de comércio que se beneficiam comercialmente do desfile encontram nas apresentações na Avenida Marquês de Sapucaí seu grande foco de atuação. Aos poucos, verificamos que a Avenida Intendente Magalhães começa a ser encarado de forma positiva. Isto se deve às melhorias implementadas no local pelo poder público e por uma atuação mais presente da entidade que organiza os desfiles neste local. Entretanto, muito ainda se pode avançar neste quesito. 4.6 Direitos imateriais Neste campo, segundo PRESTES FILHO (2009), as escolas de samba ainda são incipientes. No caso do grupo especial, os direitos de execução dos hinos são cedidos à entidade organizadora dos desfiles. As escolas de samba e seus componentes também relatam que abrem mão de seus direitos de imagem e de arena para que as matérias produzidas nestas agremiações possam ser exibidas. Com relação aos direitos intelectuais, somente poucas escolas de samba do grupo especial protegem suas marcas. O panorama nas escolas de samba dos últimos grupos de acesso é praticamente nulo nestas questões, sendo somente existente o pagamento dos direitos de execução aos autores dos hinos, através de desconto direto no valor da subvenção fornecido pelo poder público. 4.7 Políticas públicas e privadas Conforme já foi explicitado, a participação do poder público é de fundamental importância para todas as escolas de samba. No entanto, muito ainda pode ser encaminhado junto às empresa privadas. As mesmas se relacionam com as escolas de samba dos primeiros grupos através dos enredos patrocinados e do apoio à projetos sociais como parte de seus programas de responsabilidade social. Entretanto, este apoios não chegam às escolas de samba dos últimos grupos de acesso devido à pouca visibilidade das mesmas. Neste caso, somente o trabalho de projeção destas agremiações junto à sociedade fomentará o surgimento de parcerias privadas. 5. Considerações finais O desfile das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro mobiliza milhares de pessoas na produção deste espetáculo. Porém, a realidade observada nos primeiros grupos difere daquela verificada nos últimos grupos na hierarquia. Entretanto, diversas estratégias são elaboradas e implementadas por estas agremiações de menor poder aquisitivo no intuito de sempre colocar o “carnaval na rua”. As fases que guardam maior semelhança com a realidade observável nos primeiros grupos são as de pré-produção e produção, ressalvando, evidentemente, a magnitude do contingente humano, as cifras envolvidas, os locais utilizados e o aproveitamento de material usado anteriormente. A fase de distribuição mostra um descompasso muito grande entre os grupos das escolas de samba. As fases de comercialização e de consumo são as que possuem grande potencial para seu desenvolvimento; porém, tendo como barreiras imponentes os confrontos estabelecidos com as escolas de samba dos primeiros grupos nos cenários em que estas fases acontecem. Referências
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Sustentabilidade Na Cadeia De Suprimentos
Bauru, SP, Brasil, 5 a 7 de novembro de 2012
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