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O Diretor de Carnaval das Escolas de Samba e a Engenharia de Produção: Perspectivas de Atuação e de

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XXXVI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCÃO

Contribuições da Engenharia de Produção para Melhores Práticas de Gestão e Modernização do Brasil João Pessoa/PB, Brasil, de 03 a 06 de outubro de 2016.

O DIRETOR DE CARNAVAL DAS ESCOLAS DE SAMBA E A ENGENHARIA DE PRODUÇÃO: PERSPECTIVAS DE ATUAÇÃO E DE FORMAÇÃO SOB A ÓTICA DA ECONOMIA CRIATIVA Júlio César Valente Ferreira (CEFET/RJ) jcvferreira@hotmail.com

O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a proximidade das competências exigidas para a atuação do diretor de carnaval de uma escola de samba com aquelas verificáveis nas áreas de atuação do engenheiro de produção, contrariando os trabalhos acadêmicos sobre carnaval, os quais equivalem este profissional a um administrador. Outra questão importante é o fato de que exemplos como o que se apresenta neste trabalho podem ser um importante agente inovador de currículos dos cursos de engenharia de produção. Palavras-chave: Diretor de carnaval. Escolas de samba. Engenharia de Produção.


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1. Introdução Existe uma fronteira entre engenharia e arte, quando é sabido que há todo um mercado de trabalho potencial a ser explorado, quando é sabido que só o Rio de Janeiro responde por cerca de 20% do PIB, em termos de economia criativa? „(...) não podemos propor ação empresarial, em qualquer atividade econômica, inclusive na área de petróleo e gás, sem criatividade. Não podemos pensar a economia criativa sem incluir estes segmentos econômicos que trabalham com inovação, marcas e patentes, propriedade industrial e direitos autorais.‟ (PRESTES FILHO, 2010: 343). „A indústria criativa inclui toda a cadeia produtiva da economia da cultura e envolve produção, divulgação, distribuição de produtos baseados em textos, imagens, sons e símbolos. Ou seja, inclui, música, obras literárias e editoriais, audiovisuais, peças de teatro, TV, rádio, jogos eletrônicos, softwares, (...), museus, cinema.‟ (GONÇALVES et al., 2013b: 1) Apontar para a relação entre economia criativa e engenharias ainda se estabelece como um novo marco diretriz para a formação destes profissionais. Criar novos nichos de atuação para qualquer engenheiro é importante e necessário. Novos nichos podem ser descobertos ou inventados. Conforme destaca Gonçalves et al. (2013a), „profissionais e estudantes sem iniciativa, sem curiosidade, sem fantasia tem que lutar pelos nichos já ocupados. Aqueles, porém, que têm iniciativa, possuem à sua disposição novos nichos a serem inventados. (...) Até porque ficar disputando os campos que já existem não é produtivo nem para a economia nem para o mercado de trabalho para engenheiros. (GONÇALVES et al., 2013a: 1). Inserida nesta lógica encontra-se a produção do carnaval, cuja realização é a festa que mais movimenta recursos no Brasil no contexto da economia criativa (EARP, 2002) (PRESTES FILHO, 2009). Em especial, dentro deste conjunto, o carnaval das escolas de samba atingiu níveis de profissionalização e aporte de recursos que não podem ser desprezados tanto nos aspectos econômicos como em relação à mão de obra atuante (FERREIRA, F., 2012). 2. Objetivos Desta forma, existem duas frentes às quais este trabalho deseja destacar, objetivando assim sua contribuição no debate em questão sobre a economia criativa e a formação de

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engenheiros, através do estudo de caso representado pelas escolas de samba. Em primeiro lugar, pretende-se demonstrar que as competências exigidas de um diretor de carnaval deste tipo de agremiação apontam mais para um engenheiro de produção, ao invés de um administrador. Por fim, estas demandas podem ser um importante agente inovador de currículos dos cursos de engenharia de produção (podendo, posteriormente, abarcar outros campos das engenharias), pois o espetáculo das escolas de samba ocorre em diversas cidades do Brasil e é nítida sua importância participação na cadeia produtiva econômica das cidades em questão (PRESTES FILHO, 2009) (PRESTES FILHO, 2010). Além disso, tendo como norte a produção do carnaval, outros setores da economia criativa podem ser beneficiados através da formação de engenheiros com capacidades interdisciplinares. 3. Aspectos teóricos-metodológicos Segundo a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD, 2010), a criatividade está substituindo a localização, recursos naturais e acesso ao mercado como o principal elemento para o dinamismo urbano. Velhas indústrias estão desaparecendo e o valor agregado às cidades está relacionado menos ao que é manufaturado e mais através do capital intelectual que é aplicado aos produtos, processos e serviços. Amparados pelo aporte teórico apresentado a seguir, este trabalho é fruto dos projetos de pesquisa desenvolvidos na linha de pesquisa Indústria do Entretenimento: Engenharia, Arte e Convivência do Grupo de Pesquisa Produção e Economia de Comunhão, cadastrado no CNPq. Para a realização dos projetos em questão, visitas aos barracões e ateliês das escolas de samba do Rio de Janeiro e entrevistas com os profissionais envolvidos chamaram a atenção do autor para a questão posta neste trabalho, pois um discurso muito observado nestes espaços produtivos é relativo à necessidade de se adotarem princípios de gestão na fabricação do desfile, sendo sempre enfatizado o caráter de administrador imputado ao diretor de carnaval. 3.1. O carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro O carnaval carioca tornou-se um produto rentável para a mídia e uma ferramenta publicitária de grande valor e com elevado preço de mercado. Desta forma, trata-se de um empreendimento com grande rentabilidade para todos os envolvidos. Esta é uma das possibilidades de análise do carnaval, isto é, através do viés da transformação do mesmo em negócio. Dentre as manifestações carnavalescas, o desfile das escolas de samba na cidade do

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Rio de Janeiro representa de maneira mais significativa este tipo de empreendimento (FERREIRA, J., 2012). Mesmo quando não há este tipo de manifestação carnavalesca como produto cultural hegemônico, outros mais que compartilham o espaço carnavalesco assumem esta liderança e agregam processos de produção e modelos de negócio em moldes semelhantes (FERREIRA, 2008). Por exemplo, em 2006, a indústria do carnaval do Rio de Janeiro gerou uma receita, correspondente aos gastos primários das pessoas, empresas, associações e da prefeitura, da ordem de R$ 685 milhões, das quais 89% foram efetuados pelos 310 mil turistas – 70% nacionais e 30% estrangeiros – que estiveram na cidade para a festa (PRESTES FILHO, 2009). Ainda deste total, R$ 298 milhões, ou 43,5%, foram referentes ao pagamento de mão de obra. Naquele ano, houve uma oferta de 264,5 mil postos de trabalho/mês, tendo sido mobilizados para desempenho das tarefas decorrentes um contingente de 470 mil trabalhadores (PRESTES FILHO, 2009). Atualmente, 84 (oitenta e quatro) escolas de samba desfilam na cidade do Rio de Janeiro. Como entidades sem fins lucrativos, o que é captado através de contratos com órgãos públicos e privados e de eventos destina-se praticamente à confecção do desfile. Uma ressalva que se faz é o montante gasto pelas escolas de samba ao prepararem seus desfiles. Entre as agremiações da primeira e da última divisão hierárquica, a razão deste valor chega a ordem de 200 (duzentos) (FERREIRA, 2008) (FERREIRA, J., 2012). O carnaval das escolas de samba é um desafio para a engenharia tradicional, pois sua forma de organização incorporou elementos do modelo empresarial moderno, como planejamento, terceirização e contratação de profissionais especializados. Mas, também, segundo Blass (2008), preservou características inicias, como improviso, trabalho voluntário e fortes relações afetivas. 3.2. O diretor de carnaval das escolas de samba Para a produção do desfile das escolas de samba, dois profissionais são fundamentais e se estabelecem como líderes dentro da hierarquia organizacional das agremiações: o carnavalesco e o diretor de carnaval.

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Tendo o desfile como atividade fim, as escolas de samba pautam suas apresentações a partir do enredo, o qual é a proposição que constitui o fio condutor do desfile, o qual faz referência a fatos históricos, personalidades, culturas, lugares ou situações abstratas. A criação do enredo envolve dois momentos distintos: o literário e o plástico-visual (FERREIRA, F., 2012). O momento relativo ao aspecto literário irá se traduzir na sinopse do enredo, peça literária utilizada pelos compositores como norte para a composição do samba-enredo, composição específica para ser apresentada no dia do desfile. O momento referente ao aspecto plásticovisual será elaborado posteriormente nas alegorias, adereços e fantasias, produzidas nos barracões e nos ateliês (BLASS, 2006) (FERREIRA, F., 2012) (FERREIRA, J., 2012). A escolha de um tema e posterior criação do enredo, normalmente, fica a cargo do carnavalesco, figura central na concepção plástica do desfile, em conjunto com o diretor de carnaval, profissional mais direcionado às questões relativas à produção do desfile (FERREIRA, F., 2012). 3.3. As fronteiras entre a administração e a engenharia de produção Conforme destaca Cunha (2002): Diferentemente das ciências da administração de empresas, que centra-se mais na questão da gestão dos processos administrativos, processos de negócio e na organização estrutural da empresa, a engenharia de produção centra-se na gestão dos processos produtivos. Existem, contudo, no Brasil, dois tipos de cursos na área: os cursos ditos plenos e cursos concebidos como habilitações específicas de um dos ramos tradicionais da Engenharia. Os cursos do primeiro tipo concentram quase toda a sua carga horária profissionalizante no estudo da gestão da produção, enquanto que os do segundo tipo dividem essa carga entre esse estudo e o dos sistemas técnicos normalmente, priorizando este último por larga margem. (CUNHA, 2002: 6)

Para destacar as diferenças salientadas no parágrafo anterior, as Figuras 1 e 2 traduzem este universo, posicionando o engenheiro de produção em uma perspectiva dialógica entre a formação gerencial e a tecnicista. 4. O diretor de carnaval como engenheiro de produção Com os elementos apresentados acima, associados aos dados coletados na pesquisa de campo, observa-se que as competências exigidas de um diretor de carnaval de uma escola de samba são perfeitamente identificáveis nas áreas da engenharia de produção, sendo posicionadas conforme mostra o Quadro 1.

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Figura 1 - A relação da engenharia de produção com as demais áreas

Fonte: Cunha (2002) Figura 2 - Áreas de concentração dos cursos de administração de empresas e engenharias

Fonte: Cunha (2002) Quadro 1 – Interfaces das áreas da engenharia de produção com a atuação do diretor de carnaval na produção do desfile das escolas de samba Áreas da Engenharia de Produção

Elementos da produção do desfile das escolas de samba

Engenharia

Processos de definição do cronograma de confecção do desfile.

de

operações

processos da produção

e

Manutenção e arranjo físico da fabricação dos carros alegóricos. Escopo e controle da produção de fantasias e adereços.

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Logística

Definição de melhores meios para o transporte de materiais a serem utilizados na confecção das fantasias e dos carros alegóricos, tendo em vista que muitos destes recursos são oriundos de outros Estados. Diante da alta demanda ser sazonal, também se faz necessário a gestão de estoques. Adoção da logística reversa em peças das fantasias e dos carros alegóricos.

Pesquisa operacional

Modelagens e simulações computacionais podem ser adotadas para gerar informações às demais áreas da engenharia de produção para a fabricação em questão, bem como prever o andamento do desfile, considerando que o mesmo não ocorre sob o mesmo regime de velocidade ao longo de sua execução.

Engenharia da qualidade

As escolas de samba utilizam controles de qualidade informais e procedimentos contra o desperdício de materiais compatíveis com a filosofia just in time.

Engenharia do produto

Definição de todo o escopo do desenvolvimento da produção, desde a estratégia a ser adotada, seleção de materiais e de processos de fabricação e estoque de recursos que poderão ser reutilizados ou negociados em anos seguintes. Utilização de recursos tecnológicos como geradores de energia e cilindros hidráulicos para os carros alegóricos serem iluminados e movimentarem esculturas durante o desfile.

Engenharia organizacional

O gerenciamento de projetos é a essência para o escopo desde a definição do enredo ao encerramento do desfile, quando os carros alegóricos e grande parte das fantasias retornam ao barracão. O carnavalesco busca novas possibilidades plásticas e tecnológicas para surpreender o público e o corpo de jurados, tornando a gestão da inovação e tecnologia em ponto chave.

Engenharia econômica

A gestão econômica e de custos são atividades presentes nas escolas de samba e, normalmente, ficando ao encargo do diretor de carnaval a garantia do melhor índice de custo-benefício e a definição dos níveis de risco dos investimentos.

Engenharia do trabalho

O diretor de carnaval planeja e divide as tarefas (auxiliado pelo diretor de barracão). A característica informal desta produção perde espaço para uma concepção mais “industrializada”. Mas, a rigidez dos modelos industriais não se verifica plenamente nas escolas de samba,

sendo

destacada

por

pesquisadores

das

áreas

de

administração e engenharia de produção como um modelo a ser

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implementado. Engenharia da sustentabilidade

Utilização de materiais reciclados e de peças de fantasias e carros alegóricos de anos anteriores. Este conceito foi adotado para a minimização dos custos de produção do desfile. Fonte: Autor

5. Conclusões Neste trabalho conclui-se que o papel do diretor de carnaval da escola de samba guarda paralelos com o exercício da engenharia de produção, não podendo ser aproximado somente com as competências do administrador, tendo em vista a necessidade do conhecimento técnico da produção de elementos como carros alegóricos e fantasias. A visão geral do processo é o que torna este profissional em figura importante de todo o projeto que compreende o desfile. Entretanto, há um desafio na formação do engenheiro de produção posto por estas demandas, as quais se assemelham ao verificado em outros produtos da categoria cultural do campo das artes de espetáculo, o qual é conjugar a formação tecnicista dos cursos de engenharia de produção concebidos como habilitações específicas de um dos ramos tradicionais da engenharia com a formação gerencial do curso do tipo pleno de engenharia de produção. Certamente, não haverá uma resposta única, sendo profundamente dependente do mercado local, cobrando então uma flexibilidade curricular que ainda é perseguida nos debates acadêmicos sobre a educação em engenharia. REFERÊNCIAS BLASS, Leila Maria Silva. Rompendo fronteiras: a Cidade do Samba do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, nº 66, p. 79-92, 2008. CUNHA, Gilberto Dias da. Um panorama atual da engenharia de produção. Porto Alegre: ABEPRO, 2002. EARP, Fábio Sá (Org.). Pão e Circo: Fronteiras e perspectivas da economia do entretenimento. Rio de Janeiro: Palavra e Imagem, 2002. FERREIRA, Felipe. Escolas de samba: uma organização possível. Revista Sistemas e Gestão, v. 7, nº 2, p. 164172, 2012. GONÇALVES, Heloísa Helena Albuquerque Borges Quaresma; FRIQUES, Manoel Silvestre; NUNES, Thaís Helena de Lima. Novo nicho de atuação para o engenheiro de produção. In: XLI Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia, 2013, Gramado, Anais..., Gramado: ABENGE, 2013a. 1 CD-ROM. GONÇALVES, Heloísa Helena Albuquerque Borges Quaresma; GIRARDI, Benur de Azevedo; GIRARDI, Ângela Maria Oliva. O. O engenheiro de produção na indústria criativa: um campo de possibilidades. Revista de Design, Inovação e Gestão Estratégica, v. 4, p. 1-10, 2013b.

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FERREIRA, Antônio Eugênio Araújo. Valorizando a batucada: um estudo sobre as escolas de samba dos grupos de acesso C, D e E do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008. 316 p. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em História da Arte, Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. FERREIRA, Júlio César Valente. As escolas de samba dos últimos grupos de acesso do Rio de Janeiro na cadeia produtiva da economia do carnaval. In: XIX Simpósio de Engenharia de Produção, 2012, Bauru, Anais..., Bauru: UNESP, 2012. 1 CD-ROM. PRESTES FILHO, Luiz Carlos. Cadeia produtiva da economia do carnaval. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. PRESTES FILHO, Luiz Carlos. Ciência, tecnologia e cultura. Parcerias Estratégicas, v. 15, nº 31, p. 343-348, 2010. UNCTAD (2010) United Nations Conference on Trade and Development Creative Economy: Report 2010. UNESCO, WIPO, TTC. Disponível em: http://unctad.org/en/Docs/ditctab20103_en.pdf

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