Lugares e não-lugares nas quadras das escolas de samba do Rio de Janeiro
Júlio César Valente Ferreira – Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca – Rio de Janeiro – RJ – Brasil – jcvferreira@hotmail.com
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo discutir as quadras das escolas de samba da do carnaval da cidade do Rio de Janeiro como lugares e não-lugares simultâneos, considerando-os como tipos ideais, a partir dos conceitos propostos por Marc Augé.
Palavras-chave: Lugares, não-lugares, carnaval, escolas de samba, quadras.
1. Introdução O lugar é o espaço transformado pelo homem, o qual adquire um sentido e um significado, na medida em que os indivíduos que o ocupam imprimem algo de si e o torna cenário de relações sociais e de sentimentos partilhados. Haesbaert (2004) pontua que o lugar pode ser entendido como uma construção simbólica, não restrita a um espaço físico delimitado cartograficamente, sendo incrementador e alimentado ao mesmo tempo por redes de relações sociais. Conforme descreve Appadurai (2004), esta “comunidade de sentimentos” potencializa-se com a massificação das possibilidades de deslocamento entre pontos distintos e dos meios eletrônicos de comunicação. Augé (1994) define o lugar antropológico a partir de três eixos principais. O lugar é identitário, pois simboliza uma identidade individual na relação de cada um consigo próprio. Também é relacional, porque nele coexistem elementos distintos e singulares, onde há identidades partilhadas. Por fim, é histórico, pois possibilita a recorrência às referências passadas da comunidade que o habita.
Augé (1994) propõe o conceito de não-lugar em oposição àquele definido para lugar antropológico, o qual traz a ideia de totalidade. O não-lugar revela um mundo provisório e efêmero, caracterizados pelo excesso factual, superabundância espacial e individualização de referências. Desta forma, o não-lugar corresponde não somente a um espaço físico, mas também à forma como os indivíduos lá se relacionam no intuito de satisfazer suas necessidades rapidamente. Para o autor, o não-lugar é um espaço de passagem que não consegue dar forma a qualquer tipo de identidade. Então, todo e qualquer espaço que sirva apenas como espaço de trânsito sem que se possibilite gerar qualquer tipo de relação é um não-lugar. Augé (2003) destaca que os conceitos de lugares e não-lugares não devem ser trabalhados no intuito de se estabelecerem oposições, mas sim como tipos ideais na reflexão sobre a relação entre o espaço vivido e o espaço construído. O autor pondera que os espaços são ao mesmo tempo lugares e não-lugares, formas típicas ideais encontradas em uma mesma realidade. Para Haesbaert (2004), na realidade, o que ocorre realmente são múltiplos processos de reterritorialização, de modo que o lugar é reafirmado a partir das considerações sobre os processos de desterritorialização. Apesar da noção de território remeter a uma concepção de espaço fisco, na verdade este espaço é fruto de uma delimitação social ou cultural.
2. As escolas de samba do Rio de Janeiro As escolas de samba são organizações culturais sem fins lucrativos, cujo produto principal produzido é a realização do desfile destas entidades durante os festejos carnavalescos. Estas associações atuam em uma determinada comunidade, onde também podem prestar serviços de resgate e preservação da identidade cultural e, em alguns casos, desenvolverem projetos de educação e de assistência social. As escolas de samba se caracterizam por reunirem pessoas com trajetórias de vida distintas, mas que possuem duas características comuns: gostam de samba e habitam o mesmo lugar.
A cada ano, estas agremiações pautam suas apresentações a partir do enredo, o qual é a proposição que constitui o fio condutor do desfile, que faz referência a fatos históricos, personalidades, culturas, lugares ou situações abstratas (Farias, 2007). A criação do enredo envolve dois momentos distintos: o literário e o plástico visual. Com isto, geram-se então os elementos que apoiarão o desfile dos componentes da agremiação: o samba-enredo, as fantasias e os carros alegóricos (Farias, 2007). Ferreira (2008) destaca que o modelo de preparação e de desfile das escolas de samba que se apresentam na cidade do Rio de Janeiro foi adotado em maior ou menor grau em todas as demais cidades onde ocorre este tipo de manifestação carnavalesca. Ao longo do tempo, diversos modelos foram adotados para hierarquizar os grupos das escolas de samba que desfilam na cidade do Rio de Janeiro. Cabral (2011) e Ferreira (2004) mostram como esta evolução ocorreu, descrevendo os locais de desfiles utilizados e os resultados de todos os grupos em todos os anos em que houve competição entre estas associações carnavalescas. Sobre os grupos de acesso e a formatação de sua hierarquização e as mudanças nos locais de desfile são pormenorizados por Barbieri (2010a), Barbieri (2010b) e Ferreira (2008). Nas obras citadas no parágrafo anterior, também se encontra o histórico da criação das entidades organizadoras dos desfiles que, em conjunto com o órgão de turismo da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, regulam a competição. Atualmente, três associações atuam junto ao poder público: LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba), LIERJ (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) e AESCRJ (Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro). Barbieri (2010b) afirma que a evolução no número de escolas de samba desfilando na cidade do Rio de Janeiro é revelador da importância e da relevância deste tipo de manifestação carnavalesca. O autor também afirma que se atingiu o grau máximo de expansão no número de escolas de samba e que a expansão em questão é resultado do crescimento da metrópole e a incorporação contínua de escolas de samba com quadra situada fora dos limites da cidade do Rio de Janeiro. Em 2012, estas escolas de samba foram divididas em seis grupos, sendo que os três
primeiros desfilaram na Avenida Marquês de Sapucaí (popularmente conhecido como Sambódromo) e os três últimos se apresentaram na Avenida Intendente Magalhães. Desde 1996, estes seis grupos são hierarquizados nominalmente como: Grupo Especial e Grupos de Acesso A, B, C, D e E, cujo quadro de referência é apresentado na Tabela 1. Cada grupo em questão possui regulamento próprio relativo à realização dos seus desfiles, além da diferenciação de datas e locais de desfile. Os valores das subvenções disponibilizadas pelos órgãos públicos variam de acordo com o nível hierárquico ao qual a escola de samba pertence. A posição nesta hierarquia também direciona uma maior ou menor possibilidade de se auferir quantidade maior de recursos via eventos de quadra, venda de fantasias, enredos patrocinados e mecenatos. No caso das escolas de samba do Grupo Especial, dificilmente uma agremiação desfila um enredo que não tenha patrocínio. Em relação às agremiações dos últimos grupos de acesso, basicamente a verba utilizada para o carnaval é oriunda das subvenções. TABELA 1 – Informações dos grupos das escolas de samba no carnaval de 2012 do Rio de Janeiro. Grupo
Entidade
Dia e Local de desfile
organizadora
Número
Classificação
de escolas
neutra
Especial
LIESA
Dom. e seg. - Av. Marquês de Sapucaí
13
1ª divisão
Acesso A
LIERJ
Sáb. – Av. Marquês de Sapucaí
09
2ª divisão
Acesso B
LIERJ
Ter. – Av. Marquês de Sapucaí
11
3ª divisão
Acesso C
AESCRJ
Dom. – Av. Intendente Magalhães
15
4ª divisão
Acesso D
AESCRJ
Seg. – Av. Intendente Magalhães
13
5ª divisão
Acesso E
AESCRJ
Ter. – Av. Intendente Magalhães
12
6ª divisão
No caso das escolas de samba dos últimos grupos de acesso, a preparação do desfile é dificultada pelos constantes atrasos na liberação das subvenções. Para a preparação do desfile de 2012, presenciamos a preocupação dos dirigentes das agremiações, pois os relatos dos mesmos informavam que o governo municipal disponibilizou a verba na segunda quinzena do mês de janeiro e o governo estadual somente na semana anterior ao desfile.
Barbieri (2010b) destaca a importância da posição de uma escola de samba no quadro da hierarquia competitiva. Para este autor, fica bastante evidente a separação e os privilégios obtidos por cada grupo em relação ao nível que ocupa no que se refere aos locais de preparação e de apresentação do desfile. Barbieri (2010b) sinaliza que a trajetória de uma escola de samba traz referências à forma com a qual ascendeu ou caiu na hierarquia. O autor destaca que uma agremiação que atualmente desfila na Avenida Intendente Magalhães é sempre lembrada por sua passagem no Grupo Especial, caso isso tenha acontecido. Quando o recorte se refere às escolas de samba do primeiro grupo (denominado como Grupo Especial), as mesmas são estudadas há muito tempo e a produção é muito diversificada e contempla diversas publicações. Os estudos destinados às escolas de samba dos grupos de acesso são escassos devido a pouca visibilidade social que estas escolas possuem. Apesar do número de publicações que abordem os primeiros grupos de acesso não ser tão amplo, considerou-se pertinente dividir estes grupos de acesso para estudos posteriores, visto que há sensíveis diferenças entre os mesmos tendo como divisor o local de desfiles. A realidade dos grupos de acesso que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí (principal palco de exibição das escolas de samba e situado na região central da cidade, local de primazia dos festejos carnavalescos) difere bem daquela verificada nos grupos de acesso que desfilam na Avenida Intendente Magalhães. Este viés de análise é também ratificado por Barbieri (2010a), que estudou uma agremiação que desfila na Avenida Intendente Magalhães. Quando a análise foca as escolas de samba das três ultimas divisões do carnaval carioca, que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, situada no subúrbio da cidade e afastado das regiões de primazia das festividades carnavalescas, a realidade ganha outros contornos como, por exemplo, uma infraestrutura bem mais modesta e não contarem com a cobertura da mídia (com exceção de dois sítios especializados em carnaval); panorama este bem diferente daquele encontrado nos desfiles que ocorrem na Avenida Marquês de Sapucaí, os quais contam com ampla cobertura dos meios de comunicação e um interesse do público que ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro.
Entertanto, apesar da disparidade existente entre os grupos da hierarquia competitiva, Prestes Filho (2011) destaca a importância dos desfiles das escolas de samba na Avenida Intendente Magalhães, ressaltando que nestas agremiações surgem os profissionais que, futuramente, poderão estar nas escolas de samba do Grupo Especial. Além disso, sinaliza também a movimentação econômica gerada por esses desfiles, pois o público médio em cada dia chega a trinta mil pessoas. Por fim, o autor destaca que: “a infraestrutura não corresponde à magnitude do que acontece com tanta espontaneidade e originalidade. Aqui está aquele carnaval que tantos dizem que foi perdido para sempre. Aqui está a festa das comunidades do samba da periferia desassistida em equipamentos culturais, que não sabe o que é ter um cinema, sala de teatro, museus ou livrarias perto de casa.” (Prestes Filho, 201, p.153)
3. As quadras das escolas de samba Neste estudo, focamos um local marcadamente apoiado em um espaço físico delimitado cartograficamente. Idealmente, as quadras das escolas de samba funcionam como lugares para todos os seus integrantes, que a vivenciam cotidianamente e relacionam-se com elas a partir de um forte sentimento de pertença. As quadras podem ser analisadas como a reunião de lugares onde em cada qual se exerce uma função específica. Além da região central, onde os componentes se encontram para ensaiar o canto e a evolução para o desfile, por exemplo, de forma geral, poderemos encontrar o local destinado aos troféus e condecorações, às salas das diretorias e a alguns segmentos da agremiação como: bateria e velha-guarda da agremiação (que reúne os componentes mais antigos). No caso da bateria, considerada o “coração” de qualquer escola de samba, pois é responsável pela parte musical da agremiação, sempre há um espaço reservado para a apresentação e ensaio da mesma, geralmente em um palanque elevado. Vale ressaltar que somente verificamos a existência de camarotes na quadra da escola de samba do Grupo Especial pesquisada, o que denota uma separação física dos que ocupam postos de destaque na agremiação ou pagam para ter este privilégio em relação aos demais frequentadores da quadra. No caso das escolas de samba dos últimos grupos de acesso, geralmente há apenas a reserva de local para dirigentes e convidados da diretoria em eventos
importantes como a final da escolha do samba-enredo. Também, verifica-se nas escolas de samba do Grupo Especial o uso de suas quadras para o desenvolvimento de ações sociais que unem programas de lazer, educação, esporte e qualificação profissional (Pinto, 2008).
4. Questões Metodológicas
4.1 Universo e amostra Em 2012, os desfiles das escolas de samba promovidos na cidade do Rio de Janeiro contaram com a participação de setenta e três agremiações, conforme mostra a Tabela 01. Este número varia a cada ano, pois, atualmente, os critérios para a promoção e o rebaixamento nos grupos das escolas de samba estão interligados àqueles adotados na hierarquização dos blocos de enredo, cujos desfiles são organizados pela Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro. No Grupo Especial, a mobilidade de escolas de samba dentro desta divisão hierárquica é reduzida. Considerando os últimos doze anos, verifica-se que oito, de um total de doze, escolas de samba já faziam parte deste grupo sem ter se deslocado do mesmo até o presente momento. Portanto, vale a premissa de que há um grupo majoritário em situação estável e uma parcela menor que se movimenta entre o Grupo Especial e o primeiro grupo de acesso. Dentro dos grupos de acesso que desfilam na Avenida Intendente Magalhães, Ferreira (2008) estabelece uma tipologia de trajetórias das escolas de samba. As “escolas em ascensão” são aquelas que rapidamente se habilitam a deixar esta avenida para desfilarem no Sambódromo. As “escolas em declínio” são aquelas cujo movimento se faz no sentido contrário e tendem atualmente a encerrar as atividades ou se transformarem em blocos de enredo. As “escolas iô-iô” são aquelas que oscilam entre dois grupos com movimentos alternados de ascenso e queda dentro da hierarquia dos grupos. As “escolas estáveis” são aquelas que conseguem se manter na mesma divisão hierárquica com pouca oscilação verificada.
No caso desta pesquisa, desse universo de escolas de samba, a amostra contemplará uma escola de samba do Grupo Especial e três escolas de samba pertencentes ao último grupo de acesso, o Grupo de Acesso E. Este grupo é o limite da identidade da agremiação como escola de samba. Caso a mesma esteja entre as últimas colocadas neste grupo, no ano seguinte será obrigada a desfilar no primeiro grupo hierárquico dos blocos de enredo. Então, ao todo, quatro escolas de samba foram escolhidas neste estudo de caso tendo como critério os últimos resultados obtidos. A escola de samba escolhida do Grupo Especial já se encontra estabilizada no mesmo. No caso das agremiações do Grupo de Acesso E, de acordo com a tipologia proposta por Ferreira (2008), foram escolhidas: uma “escola em declínio”, uma “escola estável” e uma “escola em ascensão”.
4.2 Coleta de dados Além da pesquisa bibliográfica, a coleta de dados foi promovida ao longo de diversas visitas às quadras das escolas de samba pesquisadas. Ao longo destes encontros, a coleta de dados foi realizada através de entrevistas informais sem o auxílio de questionários ou esquemas previamente concebidos para a condução das mesmas. Estas entrevistas foram realizadas com membros da direção da escola e frequentadores das quadras. Após as visitas, imediatamente sempre eram redigidos diários de campo com as anotações referentes às situações vivenciadas. A opção por esta forma de entrevista ocorreu pelo fato da mesma permitir maior liberdade dos envolvidos e de estarmos pesquisando uma organização do setor artístico e cultural caracterizada por forte informalidade, inclusive em suas relações trabalhistas.
5. Lugares e não-lugares nas quadras das escolas de samba As escolas de samba do Grupo Especial desfilam no domingo e na segunda-feira de carnaval na Avenida Marquês de Sapucaí, sendo o principal evento do carnaval da cidade do Rio de Janeiro. As escolas de samba do último grupo de acesso (Grupo de Acesso E) são agremiações que desfilam na terça-feira de carnaval na Avenida Intendente Magalhães,
assistido em grande parte pela população que mora no entorno (Ferreira, 2008). As quadras das escolas de samba pesquisadas com relação à divisão de seu espaço físico assemelham-se bastante, resguardados obviamente as diferenças no tocante ao tamanho da área ocupada e ao estado de conservação das mesmas. Porém, no caso das quadras pesquisadas das escolas de samba do último grupo de acesso, a frequência de pessoas que necessitam realizar grandes deslocamentos no intuito de chegar à quadra é muito reduzida, sendo este caso verificado em alguns quadros das diretorias, que são oriundos de outras agremiações e que colaboram em outras (Ferreira, 2008). As quadras destas escolas de samba dificilmente conseguem estabelecer uma agenda regular de atrações que possam atrair um público, sendo estes espaços praticamente sendo utilizados nos ensaios das agremiações e para a promoção de festas particulares de moradores do entorno. Segundo os dirigentes destas agremiações, a falta de infraestrutura de suas quadras e a concorrência dos eventos promovidos pelas escolas de samba do Grupo Especial são as responsáveis pelo não estabelecimento desta agenda regular (Ferreira, 2008). Por estarem no limiar da hierarquia competitiva das escolas de samba, estas escolas de samba geralmente sofrem com o fluxo migratório de pessoas que abandonam e retornam à agremiação conforme a mesma se classifica entre as primeiras ou entre as últimas após o desfile. Em uma das entrevistas conduzidas e descritas por Ferreira (2008), a presidente da Velha Guarda de uma escola de samba deste mesmo grupo declarou que: “Lidar com o pessoal da comunidade não é mole não. O povo diz logo: - vamos procurar outra escola, arrumar outra, isso aí vai acabar mesmo, vai abrir orfanato, asilo de velho, vamos pra outra.. .” (Ferreira, 2008, p. 125)
5.1 Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Cabral A escola de samba Unidos do Cabral foi fundada em 1953, mas somente passou a desfilar como bloco de enredo em 1963. Em 1998, realiza seu primeiro desfile como escola de samba. Ao longo de sua trajetória, a agremiação sempre desfilou nos últimos grupos de acesso, portanto nunca tendo chegado ao palco onde as principais escolas de samba desfilam no Rio de Janeiro, sempre se apresentando nos locais de desfile situados no subúrbio do
município. Desde 2009, enfrenta problemas administrativos e vem sofrendo descensos praticamente consecutivos, ameaçando com que a mesma retorne à condição de bloco de enredo. A agremiação possui quadra própria que se situa no Cachambi, bairro vizinho ao Méier, o qual, apesar de ser um importante bairro da cidade, não possui representatividade no universo das escolas de samba. O nome da escola de samba refere-se ao nome da rua em que fica localizada a quadra. Segundo José Luiz, diretor de eventos da agremiação, a questão do nome ser relacionado à rua onde se situa a quadra ainda é um entrave para uma maior participação das pessoas que moram no entorno. Segundo o diretor, estas pessoas não se sentem incluídas neste lugar, visto que no início da trajetória da agremiação como bloco carnavalesco houve uma diferenciação implícita de quem era morador da rua em relação aos moradores dos demais logradouros. No dia do desfile, os diretores responsabilizam-se em recrutar pessoas para compor o quadro de desfilantes, que aproveitam a fantasia gratuita e o transporte para o local de apresentação no intuito de “brincarem o carnaval”. Apesar do lançamento de uma campanha para arregimentar sócios com o lema “Unidos do Cabral: a escola do bairro”, a repercussão não foi significativa e mesmo em eventos importantes como a final da escolha do samba-enredo, a quadra recebe basicamente os membros da diretoria, os componentes de setores específicos da escola como bateria, mestre-sala e porta-bandeira e velha-guarda, além dos compositores das obras inscritas e as torcidas que cada parceria mobiliza para a disputa. Uma situação interessante na escolha do samba-enredo foi o fato do hino escolhido não ter agradado aos membros da bateria. Após o anúncio do vencedor pelo presidente da escola, os componentes da bateria executaram somente duas vezes o samba-enredo vencedor, pararam de evoluir, deixaram os instrumentos no palco e se retiraram da quadra, mostrando claramente que não concordavam com a decisão da direção da agremiação. Esta situação corrobora aquilo afirmado por Haesbaert (2004), permitindo então alertar que as noções de lugar e de não-lugar passam também pela consideração de que há uma série de territórios que
se relacionam, formando núcleos de sociabilidade distintos, sendo muitas vezes destituídos de comunicação apesar dos indivíduos compartilharem o mesmo espaço físico.
5.2 Grêmio Recreativo Escola de Samba União de Vaz Lobo A escola de samba União de Vaz Lobo foi fundada em 1930, sendo uma das mais antigas do Rio de Janeiro. Sua última participação no Grupo Especial foi em 1954, sendo que desde 1997 vem alternando participações no penúltimo e no último grupo de acesso, apesar de também, segundo seu presidente Adão, vivenciar problemas administrativos que minam a capacidade de aglutinação das pessoas em torno de uma escola de samba tão antiga no carnaval carioca. A agremiação situa-se em Vaz Lobo, bairro vizinho à Madureira, sendo este considerado um dos berços do samba na cidade do Rio de Janeiro e onde se situam as quadras de duas tradicionalíssimas escolas de samba do carnaval carioca, Portela e Império Serrano. Atualmente, por conta de obras viárias realizadas pela prefeitura da cidade, a agremiação passa por um processo de mudança do local de sua quadra. Devido a estas obras, metade do espaço da quadra anterior foi perdida e o galpão (situado no quarteirão vizinho) onde eram preparados os carros alegóricos foi reorganizado para que também pudesse receber as atividades de quadra da agremiação. Por conta disto, nos últimos carnavais, os ensaios foram realizados na quadra do bloco carnavalesco Boêmios de Irajá, no bairro vizinho de Irajá, distante aproximadamente dois quilômetros. Com relação à frequência nos ensaios, o panorama assemelha-se àquele verificado na Unidos do Cabral. Entretanto, por conta das alterações devido às intervenções urbanísticas da prefeitura, a presença das pessoas diminuiu ainda mais diante de um quadro que já se encontrava restrito. Para a União de Vaz Lobo, a concorrência com os eventos das escolas de samba do Grupo Especial ganha contornos mais dramáticos pelo fato da agremiação estar tão perto das quadras de duas grandes escolas de samba do Rio de Janeiro. Devido ao fato da escola há
muito tempo não desfilar no Grupo Especial, tem-se a ideia inclusive de que a União de Vaz Lobo não existe mais, isto é, de que tivesse “enrolado a bandeira”. Aqui também, a quadra é vivenciada pela maioria dos desfilantes como um espaço de passagem para a satisfação de uma necessidade imediata de “brincar o carnaval” da mesma forma que verificada na Unidos do Cabral. A maior movimentação na quadra verifica-se nos dias anteriores ao desfile, quando os desfilantes aparecem para buscar suas fantasias.
5.3 Grêmio Recreativo Escola de Samba Boca de Siri A escola de samba Boca de Siri foi fundada em 1979, mas somente passou a desfilar como bloco de enredo em 2003. Após conquistar cinco títulos consecutivos no primeiro grupo de blocos de enredo, passou à condição de escola de samba em 2012. A agremiação localiza-se e possui quadra própria na comunidade Roquete Pinto, situado no bairro de Ramos. Esta comunidade está posicionada entre a baía de Guanabara e a Avenida Brasil (mais importante via expressa e com maior fluxo viário da cidade). Além dos ensaios, a quadra é utilizada para eventos da comunidade e eventos não regulares. No mesmo bairro, localiza-se a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, tradicional agremiação pertencente ao Grupo Especial. Porém, a distância entre as quadras é grande, sendo necessário atravessar, dentre outros logradouros, a Avenida Brasil e a linha ferroviária. Nesta agremiação, os ensaios são concorridos e a quadra sempre se encontra lotada. Apesar de ser uma agremiação que desfila há pouco tempo, suas conquistas e seus sambas antigos motivam a comunidade a participar dos ensaios. Vale ressaltar que esta foi a única quadra visitada pertencente aos últimos grupos de acesso com algum tipo de cobrança de ingresso nos ensaios; no caso, para ocupar uma mesa com quatro cadeiras. Apesar da agremiação disponibilizar o transporte gratuito para o dia do desfile, nem todas as fantasias são fornecidas sem custo. Mais da metade destas são vendidas e os preços cobrados são semelhantes àqueles praticados por grande parte das alas de comunidade das escolas de samba do Grupo Especial. Segundo Valério, carnavalesco da escola, a demanda por fantasias é sempre maior que a oferta.
Outro aspecto que nos chamou a atenção foi o fato de que esta foi a única agremiação pesquisada neste grupo de acesso que mobilizou torcida para ocupar as arquibancadas do local de desfile e apoiar os desfilantes, cantando o samba-enredo de forma efusiva. Entretanto, esta identidade ainda não é assumida plenamente pelos componentes da agremiação. Perguntado sobre a presença reduzida de pessoas no ensaio técnico que a agremiação realizou em uma avenida próxima à quadra, o presidente Edvaldo declarou que muitos ainda tem vergonha se de mostrar fora da quadra e do local de desfile, diferentemente do que se verifica na escola do mesmo bairro que pertence ao Grupo Especial. Outra questão que preocupou o presidente da agremiação foi o fato dos compositores vencedores da disputa do samba-enredo não terem mais frequentado a quadra nos ensaios após a escolha. Desta forma, caracteriza-se aqui um não-lugar, pois muitos destes compositores buscam as disputas de sambas-enredos em diversas agremiações no intuito de vencê-las e agregarem as conquistas aos seus currículos. Com isso, poderão depois ambicionar uma vitória em disputas nas escolas de samba de grupos mais elevados da hierarquia competitiva, o que possibilita maiores possibilidades de sucesso profissional como compositores e intérpretes de samba.
5.4 Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense A escola de samba Imperatriz Leopoldinense foi fundada em 1959. Após oscilar entre o grupo especial e o primeiro grupo de acesso, desde 1979 desfila no principal grupo da hierarquia competitiva do carnaval do Rio de Janeiro, tendo sido oito vezes vencedora do grupo especial. Sua quadra localiza-se no bairro de Ramos, próximo à estação de trem do bairro e da principal rua de acesso ao bairro, facilitando então o deslocamento das pessoas oriundas de outros bairros. A quadra possui dois pavimentos com camarotes em ambos. Além das salas da diretoria e de alguns segmentos da agremiação, uma parcela dos camarotes é dedicada a setores específicos da agremiação como: harmonia, velha-guarda e baianas. Outro fato interessante é que uma parte da quadra em dias de ensaio é ocupada pela torcida organizada
da agremiação, um fenômeno recente e verificável somente em algumas escolas de samba do Grupo Especial. Os ensaios na quadra ultrapassam a questão da obtenção de recursos financeiros e de treino de canto e evolução, pois também é uma forma de controle da entrada de componentes nas alas da comunidade. Somente podem desfilar nestas alas, cujos preços das fantasias são simbólicos em relação ao que se paga pata desfilar nas alas comerciais, pessoas cadastradas pela agremiação e que frequentam os ensaios. Portanto, não há a necessidade de ser morador do bairro para desfilar nestas alas. Conforme já relatado, o significado de comunidade para as escolas de samba do Grupo Especial ultrapassou as fronteiras geográficas dos territórios que ocupam. Atualmente, como forma de garantir um maior controle na melhoria do canto e da evolução dos componentes da agremiação, a Imperatriz Leopoldinense opta em ter a maior parte de seus desfilantes em alas da comunidade. Além da quadra, os ensaios são realizados ocasionalmente em ruas próximas. Além de poder contar mais espaço para a evolução do ensaio, o mesmo serve como demonstração de sua capacidade de arregimentar pessoas com organização à população local, comprovando. Por fim, os ensaios técnicos realizados na avenida de desfiles são considerados os mais importantes na preparação para o desfile. Este tipo de ensaio é meticulosamente planejado pelo corpo dirigente da agremiação e que conta com a presença de grande parte das pessoas que desfilarão no carnaval, trajando camisa especialmente confeccionada para este tipo de ensaio. Como escola pertencente ao Grupo Especial, a Imperatriz Leopoldinense possui uma agenda com eventos durante todo o ano, além da realização de atividades promovidas pelas vice-presidências social e cultural, mas ainda em patamar inferior àqueles verificados nas escolas de samba pesquisadas por Pinto (2008). Entretanto, devido ao fato da agremiação ter uma posição de destaque no carnaval do Rio de Janeiro, há conflitos que permeiam as redes de relação na agremiação, assim como se verifica em qualquer outra escola de samba (Barbieri, 2010a). Neste caso, as mediações são
mais complexas, pois nem sempre envolvem pessoas que habitam na mesma região, referencial territorial que sempre embasou o discurso referente à comunidade.
6. Conclusões Em qualquer agremiação, a capacidade de arregimentar pessoas da localidade e de capacitá-las para que exerçam papéis de liderança na escola de samba torna-se o elementochave para sua sobrevivência. Então, este corpo dirigente deverá ser capaz de mediar as singularidades dos lugares que se ombreiam no espaço fisco de sua quadra, fazendo com que os indivíduos e grupos estabelecidos reconheçam e aceitem a pluralidade de códigos e de referências simbólicas (Appadurai, 2004). Porém, para uma escola de samba do último grupo de acesso, onde o orçamento é limitado e as possibilidades de obtenção de verba para a confecção do desfile raramente ultrapassam os limites das subvenções fornecidas pelo governo municipal e estadual, este quadro é mais complexo. Uma escola de samba do Grupo Especial possui mais possibilidades de transformar sua quadra em um lugar antropológico, pois sua série de eventos e ações propicia uma maior circulação de pessoas, fazendo com que se estabeleçam mais facilmente laços identitários, relacionais e históricos. Nos casos relatados, verificou-se que as quadras das escolas de samba do último grupo de acesso possuem maior tendência a se estabelecerem como não-lugares, sendo um local de passagem para a satisfação de se “brincar o carnaval” ou de se obter sucesso profissional no mundo do samba. Entretanto, ainda se verificam exemplos onde as características de lugar antropológico ainda se manifestam, porém com a necessidade de se estruturar um corpo administrativo que gerencie de forma harmoniosa este universo tão complexo.
Referências APPADURAI, Arjun. Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, 2004. AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Papirus, 1994.
______. El tiempo en ruinas. Barcelona: Gedisa, 2003. BARBIERI, Ricardo José de Oliveira. Conflito e sociabilidade em uma pequena escola de samba: o Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador. Rio de Janeiro, 2010a. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. ______. Para brilhar na Sapucaí: hierarquia e liminaridade entre as escolas de samba. Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, v. 7, n. 2, p.183-198, 2010b. CABRAL, Sérgio. Escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Lazuli/Companhia Editora Nacional, 2011. PINTO, Carolina Medeiros. Os progrmamas sociais das escolas de samba: um estudo comparativa entre BeijaFlor e Mangueira. Rio de Janeiro, 2008. Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Serviço Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. FERREIRA, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. FERREIRA, Antônio Eugênio Araújo. Valorizando a batucada: um estudo sobre as escolas de samba dos grupos de acesso C, D e E do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2008. Tese (Doutorado em História da Arte) – Universidade Federal do Rio de Janeiro. FARIAS, Júlio Cesar. O enredo de escola de samba. Rio de Janeiro: Litteris, 2007. HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. PRESTES FILHO, Luiz Carlos. O carnaval do povo... Existe! Política Democrática, v. 10, n. 29, p. 153-156, 2011.